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segunda-feira, 28 de junho de 2010

Ajuda Mútua

Como avisei ao leitor, dividi o meu artigo em partes para que não me estendesse demais numa única postagem. Pois sei como é chato ficar lendo textos enormes numa tela de computador. Mas nem sempre o blogueiro que lhe fala consegue ser suscinto, isso não por culpa do mesmo, mas devido ao assunto abordado. Mas retomemos o fio da meada. Ainda falando sobre as formigas Kropotkin escreve:

Mesmo que não conhecêssemos quaisquer outros fatos da vida animal além dos relacionados às formigas e às térmites, já poderíamos concluir com segurança que a ajuda mútua (que leva à confiança mútua, a primeira condição da coragem) e a iniciativa individual (a primeira condição do progresso intelectual) são dois fatores infinitamente mais importantes para a evolução do reino animal do que a luta de todos contra todos. Na verdade, a formiga prospera sem ter quaisquer das características “protetoras” indispensáveis aos animais que vivem isoladamente. Sua cor a torna visível aos inimigos e os imponentes ninhos de muitas espécies chamam a atenção entre os arbustos e no meio das florestas. Ela não é protegida por uma carapaça dura e seu aparato de ataque, a ferroada, embora perigosa quando dada às centenas na pele de um animal, não tem grande valor para a defesa individual; além disso, seus os ovos e larvas são iguarias para grande número de habitantes das florestas. Apesar disso, considerando-se seu grande número, as formigas não são muito destruídas pelos pássaros, nem mesmo pelos seus predadores, e são temidas por insetos mais fortes. Quando esvaziou uma sacola cheia de formigas num arbusto, Forel viu que “os grilos fugiram, deixando suas tocas. Pág 27

Como bem demonstrou Kropotkin  nas linhas acima as formigas não tem nenhuma proteção natural "concedidas" aos animais solitários, além disso elas são bem visíveis devido sua cor. Então o que torna as formigas fortes é a sua união, o trabalho em grupo, a camaradagem, "virtudes" essas que lhe foram essenciais para que chegassem até o presente dia.

Agora o sábio russo passa às aves:

Mas uma das observações mais conclusivas a esse respeito foi a de Sieverstsov ao estudar a fauna das estepes russas. Certa vez, quando observava uma águia-de-cauda-branca (albicilla) – uma espécie totalmente gregária – depois de meia hora no ar, desenhando grandes círculos em silêncio, ele de repente ouviu seu grito agudo. Outra águia respondeu e se aproximou, seguida por uma terceira, uma quarta e assim por diante, até que nove ou dez se juntaram e logo se dispersaram. À tarde, Sievertsov voltou ao mesmo lugar e, escondido em meio às ondulações da estepe, aproximou-se e descobriu que elas tinham se reunido em torno do cadáver de um cavalo. Como é de regra, as mais velhas, que já haviam comido refeição, estavam pousadas nos montes de feno das proximidades e vigiavam, enquanto as mais novas continuavam o repasto, rodeadas por um bando de corvos. A partir dessa observação e de outras semelhantes, Sievertsov concluiu que as águias-de-cauda-branca combinam a caça: quando todas chegam a uma grande altitude, e se estiverem em dez, têm condições de examinar uma área de pelo menos 40 quilômetros quadrados; assim que uma descobre algo, as outras são avisadas. É claro que é questionável dizer que, com um simples grito instintivo, ou mesmo com seus movimentos, uma águia é capaz de dar esse aviso; mas, nesse caso, houve prova indiscutível de aviso mútuo, já que as dez se juntaram antes de descer até a presa; e, posteriormente, Sievertsov teve oportunidades de observar que essa espécie sempre se juntava para devorar um cadáver e que alguns membros do grupo (primeiro os mais jovens) sempre vigiam enquanto os outros comem. A águia-de-cauda-branca – caçadora excelente e ousada – é, na verdade, um pássaro totalmente gregário e, segundo Brehm, quando mantida em cativeiro, logo estabelece um vínculo com seus tratadores. pág 31

Parece que os darwinistas sociais não encontram sustento para suas elucubrações em meio à natureza. Como poderão então defender o neoliberalismo? Pois defendem com base na "crueldade da natureza" que é "uma lei". Não compensaria as águias o ser egoístas? Não. Porque hoje acham um cadáver para se alimentar, da próxima vez talvez não achem, daí é melhor se associar, quem achar divide entre os parceiros.

Ainda demonstrando a ajuda mútua entre os pássaros escreve o grande geógrafo:

Mas certamente as associações de pesca dos pelicanos merecem atenção, tendo em vista a ordem e a inteligência extraordinárias desses pássaros desajeitados. Eles sempre pescam em bandos numerosos e, depois de escolherem uma baía apropriada, formam um amplo semicírculo virado para a praia, em direção da qual vão mergulhando e pegando todos os peixes da área abrangida pelo semicírculo. Em rios estreitos e canais, chegam a se dividir em dois semicírculos, voando em direção um do outro, exatamente como dois grupos de homens avançam arrastando duas redes longas para, ao se encontrarem, capturarem todos os peixes presos entre as duas redes. Quando a noite chega, eles voam para seu local de descanso – sempre o mesmo para cada bando – e ninguém jamais os viu lutando pela posse de um local, seja a baía ou o lugar de repouso. Na América do Sul, eles se juntam em bandos de quarenta a cinquenta, parte dos quais dorme enquanto alguns vigiam e outros ainda vão pescar. Págs 32 e 33

E sobre os pardais escreve:

E, por fim, eu estaria cometendo uma injustiça para com os muito caluniados pardais domésticos se não mencionasse a generosidade com que cada um divide a comida que encontra com todos os membros da sociedade à qual pertence. O fato era conhecido dos gregos e foi transmitido à posteridade quando um orador certa vez exclamou algo mais ou menos assim: “Enquanto eu estava conversando com você, um pardal veio dizer a outros que um escravo deixou cair um saco de milho no chão, e então todos eles foram para o local comer os grãos”. Além disso, é animador encontrar uma observação antiga confirmada num livrinho recente de Gurney, segundo o qual não há dúvida de que os pardais domésticos sempre informam os outros de onde há alguma comida para roubar: “Quando o grão foi debulhado, nunca muito longe do quintal, os pardais logo ficam de papo cheio”. É verdade que esses pássaros são extremamente ciosos quando se trata de manter seus domínios livres da invasão de estranhos; no Jardim de Luxemburgo, eles lutam cruelmente contra todos outros pardais que tentam desfrutar do local e de seus visitantes; mas, dentro de suas próprias comunidades, praticam a ajuda mútua o tempo todo, mesmo que, de vez em quando, haja desavenças até mesmo entre os melhores amigos.

Herbert Spencer morreu em 1903 e o livro Ajuda Mútua, Um Fator de Evolução foi publicado pela 1ª vez em 1902, eu não sei se o pretenso filósofo teve o ensejo de ler a obra em que Kropotkin demonstra que sua "filosofia" está alicerçada em ilusões.

Ainda acerca das aves fala-nos Kropotkin:

Por várias centenas de metros praia adentro, vêem-se gaivotas e andorinhas-domar voando e enchendo os olhos como flocos de neve num dia de inverno. Milhares tarambolas e cortiçóis (galinhas-anãs) correm pela praia em busca de comida, cantando e simplesmente fruindo a vida. Mais além, em quase toda onda, há um pato se embalando, enquanto no alto do céu voam bandos de patos de Casarki. Vida exuberante fervilha por todo lado. E lá estão os ladrões – os mais fortes e astuciosos, aqueles com ”uma organização perfeita para o roubo”. Irados e ameaçadores, fazem ouvir seus gritos famintos, enquanto esperam, por horas a fio, uma oportunidade para arrancar uma criatura desprotegida dessa massa de seres vivos. No entanto, logo que um deles se aproxima, sua presença é denunciada por dezenas de sentinelas voluntárias, e centenas de gaivotas e andorinhas-do-mar se põem a caçá-lo. Enlouquecido pela fome, ele logo abandona suas precauções costumeiras e subitamente se arroja contra a presa desejada. Atacado por todos os lados, é obrigado a recuar mais uma vez. Por puro desespero, ele ataca novamente os patos selvagens que, inteligentes e sociáveis, organizamse rapidamente em bando e, se o inimigo é um pigargo [espécie de águia marinha], fogem voando; se é um falcão, mergulham no lago; caso seja um milhafre, levantam uma nuvem de bolhas de água e desnorteiam o assaltante. E, enquanto a vida continua fervilhando no lago, o ladrão foge voando e gritando de raiva, à procura de carniça ou de um pássaro jovem ou de um rato do campo ainda não acostumados a obedecer a tempo os avisos de seus companheiros. Diante de toda aquela exuberância, o ladrão bem armado é obrigado a se contentar com as partes desprezadas dessa vida fervilhante.

Até aqui nada a favor das mirabolantes filosofias dos darwinistas sociais que fazem mal uso de Darwin para promover suas absurdas iseias, o que vem a provar que não conhecem nem a teorioa da Evolução nem a filosofia, mas apenas o seu egoísmo estampado em suas ideologias baratas! Poucos pesquisadores nos mostram a solidariedade e amizade entre os animais, o que vemos pelos documentários é "a luta pela vida" e a sobrevivência dos mais fortes" justamente para inculcar na cabeça das pessoas que o capitalismo é um sistema natural, ou seja derivado da natureza, e quem luta contra esse sistema luta contra a própria natureza. Mas o pensador russo desmente os individualistas:

E quão falsa é, portanto, a visão daqueles que falam do mundo animal resumindo-o a leões e hienas rasgando, com os dentes ensanguentados, a carne de suas presas! A partir dessa visão, pode-se também imaginar que a totalidade da vida humana não passa de uma sucessão de massacres.

Apoio Mútuo uma outra forma de como a evolução funciona

Como tenho visto tanto no mundo virtual como no mundo real pessoas defendendo o darwinismo social, decidi que era hora de saber quais eram os mecanismos pelos quais funciona a evolução e também entender os conceitos de Darwin. Decidi ler então a obra de Kropoktin: Ajuda Mútua: Um Fator de Evolução.

Kropotkin tinha as mesmas inquietações que muitas pessoas tem hoje acerca do darwinismo e por isso decidiu elemesmo pesquisar, viajar e colher informações para desmascarar não o darwinismo mas o darwinismo social.


Kropotikin escreveu:

Quando a guerra atual começou, envolvendo praticamente toda a Europa numa terrível batalha e quando – naquelas partes da Bélgica e da França que foram invadidas pelos alemães – essa batalha assumiu uma escala nunca vista de destruição em massa da vida de civis e de pilhagem dos meios de subsistência da população em geral, “a luta pela vida” tornou-se a explicação favorita daqueles que tentaram achar uma desculpa para esses horrores. Um protesto contra tal abuso da terminologia de Darwin apareceu então numa carta publicada pelo Times. Essa carta dizia que tal explicação era “pouco mais que uma aplicação à filosofia e à política de ideias inspiradas em grosseiros mal-entendidos da teoria darwinista (de “luta pela vida” e “vontade de poder”, “sobrevivência dos mais aptos” e “super-homem”, etc.)”; mas que havia uma obra em inglês “que interpreta o progresso biológico e social em termos não do exercício da força bruta e da astúcia, mas de cooperação”.

Por isso, mais tarde, quando as relações entre o darwinismo e a sociologia me chamaram a atenção, não pude concordar com nenhuma das obras e panfletos escritos sobre esse tema tão importante. Todos eles tentavam provar que os seres humanos, devido à superioridade de sua inteligência e de seus conhecimentos, podiam mitigar entre si a dureza da luta pela vida. Mas, ao mesmo tempo, todos eles concordavam que a luta pelos meios de subsistência, a luta de todo animal contra seus semelhantes, e de cada ser humano contra todos os outros, era uma “lei da Natureza”. Eu não podia aceitar esse ponto de vista, porque estava convencido de que admitir uma implacável guerra interna pela vida no seio de cada espécie – e ver nessa guerra uma condição de progresso – era admitir algo que não só não havia ainda sido provado, como também não fora confirmado pela observação direta.

Infelizmente o darwinismo surgiu como desculpa para a eugenia, nazismo e como suporte para o capitalismo. Mesmo sendo hipóteses totalmente desacreditada ainda tem gente que cita o darwinismo social como se fosse um fato mais que provado.

Kropotkin queria desmascarar essa teoria anti-humanista das guerras e do individualismo e creio que o conseguiu de modo brilhante.

Vejamos então o que demonstra o ilustre pensador:

No que se refere aos besouros, temos casos comprovados de ajuda mútua entre os besouros-cavadores (Necrophorus), que necessitam de matéria orgânica em decomposição não muito adiantada para depositar seus ovos, pois é dela que suas larvas se alimentam. Por isso, esses animais enterram os cadáveres de todas as espécies de pequenos animais que encontram em suas perambulações. Em geral, levam uma vida isolada; mas, quando um deles descobre o corpo de um rato ou de um pássaro que não tem condições de enterrar sozinho, a solução é chamar quatro, seis ou dez outros para um esforço conjunto. Quando necessário, transportam o cadáver para um solo macio adequado e o enterram de forma muito “estudada”, sem disputas sobre qual deles terá o privilégio de depositar os ovos nesse cadáver. E, quando Gleditsch amarrou um pássaro morto a uma cruz feita com dois gravetos, ou suspendeu um sapo numa estaca enfiada no chão, os besourinhos combinaram suas inteligências da mesma maneira fraterna para superar esse artifício humano. A mesma combinação de esforços foi notada entre os besouros rola-bosta. Pág 25

Pois é, se não tivessem se associado já teriam perecido há muito tempo. O que será que diriam os darwinistas sociais acerca desse respeito, que os insetos "quebraram a lei da natureza?".

O ilustre pensador anarquista escreve:

Quanto ao grande caranguejo das Molucas (Limulus), impressionou-me (em 1882, no Aquário de Brighton) a extensão da ajuda mútua que esses animais desajeitados são capazes de dar a um semelhante em caso de necessidade. Um deles tinha virado de costas num canto do tanque e sua pesada carapaça em forma de panela o impedia de voltar à sua posição normal, ainda mais porque havia nesse lugar uma barra de ferro que dificultava as coisas. Seus camaradas vieram resgatá-lo e, durante uma hora, observei o empenho que faziam para ajudar o companheiro. Eles vieram imediatamente, empurraram o amigo por baixo e, depois de muito esforço, conseguiram virá-lo para cima; mas a barra de ferro os impedia de realizar o resgate e o caranguejo voltava a cair de costas. Depois de muitas tentativas, um dos ajudantes foi ao fundo do tanque e trouxe dois outros companheiros que, descansados, deram início ao mesmo processo de empurrar e levantar seu camarada impotente.
Desde então, não pude deixar de aceitar a citação que li da observação do dr. Erasmus Darwin, segundo a qual, “durante a época de muda, o caranguejo comum que ainda não passou por ela e continua com sua carapaça monta guarda para impedir que inimigos marinhos ataquem indivíduos que estão desprotegidos no meio do processo”. Págs 25 e 26

Os darwinistas sociais ou são ignorantes ou mal-intencionados; se são ignorantes devemos alertá-los. Caso sejam mal-intencionados devemos desmascará-los e mostrar a todos como são falaciosos seus argumentos.

Exemplos de ajuda mútua entre as térmites, as formigas e as abelhas são tão conhecidos do leitor leigo, principalmente por meio das obras de Romanes, L. Büchner e John Lubbock, que posso limitar meus comentários a umas poucas alusões. Considerando um formigueiro, observamos não só que todo o trabalho realizado – criação da prole, busca de alimento, construção, cuidados com os pulgões, etc. – segue os princípios da ajuda mútua voluntária, como também devemos reconhecer, como Forel, que a característica básica da vida de muitas espécies de formigas é o fato e a obrigação de cada uma delas de compartilhar sua comida, já engolida e parcialmente digerida, com todos os membros da comunidade que a peçam. Duas formigas que pertencem a espécies ou a formigueiros hostis se evitam ao se encontrarem por acaso; mas, se elas pertencem ao mesmo formigueiro ou à mesma colônia, aproximamse, comunicam-se trocando alguns movimentos de antenas e, “se uma delas está com fome ou sede, em particular se a outra estiver bem alimentada [...], imediatamente pede comida”. O indivíduo a quem a solicitação é feita nunca recusa; abre suas mandíbulas, adota uma posição apropriada e regurgita uma gota de fluido transparente, que é lambida pela formiga faminta. O regurgitamento de comida para doação é um aspecto tão marcante na vida das formigas (em liberdade), e ocorre tão frequentemente – tanto para alimentar camaradas famintos quanto as larvas – que, para Forel, seu tubo digestivo consiste em duas partes diferentes, uma das quais, a posterior, é para o uso específico do indivíduo, e a outra, a anterior, é principalmente para o uso da comunidade. Se uma formiga bem alimentada for egoísta a ponto de recusar alimento a um camarada, será tratada como um inimigo, ou ainda pior. Se a recusa for feita durante uma luta com outra espécie, a fúria das companheiras recai sobre a avarenta com maior ímpeto do que contra os próprios inimigos. E, se uma formiga não se recusar a alimentar outra pertencente a uma espécie inimiga, será tratada como amiga pelos parentes desta. Tudo isso é confirmado pela observação mais precisa e por experimentos decisivos.

Parece que no mundo dos insetos não reina "a luta pela sobrevivência" nem tampouco "a sobrevivência dos mais aptos" como nos querem fazer crer os darwinistas sociais que nada entendem nem de biologia, nem de filosofia e tampouco de economia.
Ainda sobre as formigas escreve Kropotkin:

Nessa imensa divisão do reino animal, que engloba mais de mil espécies e é tão numerosa que os brasileiros dizem que o Brasil pertence às formigas, e não aos homens, não existe competição entre os membros do mesmo formigueiro ou da mesma colônia. Por mais terríveis que sejam as guerras entre espécies diferentes, e quaisquer que sejam as atrocidades cometidas nessas circunstâncias, a ajuda mútua dentro da comunidade, a abnegação mútua tornada hábito e, muito frequentemente, o autossacrifício pelo bem comum são a regra. As formigas e as térmites renunciaram à “guerra hobbesiana” e passam muito bem, obrigado. Pág 27

Para não cansar o leitor, vou dividir este artigo, assim tenho a certeza de não ser cansativo e de ser lido pelo amigo leitor.