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sábado, 4 de fevereiro de 2023

Considerações em torno do que seja Sociedade.




Vez por outra, de quando em quando, costumo ler algum 'manuel', digo, Manual de Sociologia - Também leio os de Filosofia, de Psicologia ou de Pedagogia > E há alguns muito bons (Guido de Rugiero, Jaspers, Thonard... Th Ribot, Wundt... Herbart, Comenius, Backheuser, etc). 

Por hora estou lendo "El hombre y la gente" de Ortega Y Gasset - Revista de Ocidente, Madrid, 1958, juntamente com a edição das Epístolas de Caio Cecílio Segundo, o 'Plínio' Jovem ou Jovem Plínio - Estranha mistura ao que parece... Se bem que não da para confundir o escritor latino com o humanista espanhol. 

Todos sabem que considero Gasset um dos nomes mais representativos em termos de genialidade, juntamente com Freud, Adler, Darwin, Weber, Malthus, Sorel, Decrolly, Hitchcock, Valéry, Horney e Goodall. 

Quem quiser adicione o nome de Marx. Sua crítica foi positiva mas, penso eu, sua construção positiva ou 'solução' de muito pouco valor, e o comunismo se nos parece tão desastrado quanto o capitalismo.

Outros desejarão adicionar um Einstein ou um Fermi, aos quais de fato não faltou genialidade.

No entanto, confessadamente socrático, penso ser patético ou até calamitoso, o caniço pensante explorar o universo - Das partículas elementares as grandes estrelas, passando pelo fundo dos oceanos. - sem conhecer suficientemente a si próprio ou explorar a mente que dita nosso comportamento e tudo comanda.

Sim, em tempos de Ética, de crise e de suicídio comum (Em termos de espécie.) temos que questionar absolutamente tudo, inclusive a prioridade em termos de conhecimento.

Pois controlar a força contida nas partículas sem comandar a si mesmo pode ser algo bastante perigoso.

Tal reflexão foi que me fez por optar pelas Humanidades e não pelas ciências exatas ou pela técnica, tão queridas a ideologia positivistas e tão lucrativas. 

Necessário registra-lo. 

Pois em nossa cultura degenerada quem opta por ganhar menos traduzindo clássicos como as Antiguidades romanas de Dionísio de Halicarnasso ou a História geral de Diodoro Sículo, ao invés de tornar-se físico ou químico, i é partidor de moléculas ou analista de substâncias é tido em conta de inepto, incapaz ou imbecil.

Chega de divagação e prolixidade, como dizia minha saudosa mestra Isamar Alcover do Amaral Loureiro> Sr Domingos, o sr é prolixo e tão prolixo como Rui - Quem me derá ser a metade ou um quarto de um Rui... Mas tornemos a Gasset, nosso Ortega.

Antes porém devo dizer que já havia lido, e há um bom tempo, A unidade social, de P A Silvestre, São Paulo, 1956, obra atualmente bastante rara sobre a percepção social em Tomás de Aquino e, por ext. nos escolásticos e contratualistas.

Curiosamente Gasset define o associacionismo com precisão: "... Que assim fosse mera combinação ou resultado de outras realidades, como os corpos são 'na realidade' mais do que combinações de moléculas e estas de átomos." p 22 a qual, substituindo-se moléculas e átomos por tecidos e células, teria sido absoluta.

Importa saber que o ilustre pensador espanhol após definir avalia: "Se como sempre se tem crido... é a Sociedade uma criação dos individuos... que se congregam e portanto se não é ela mais que uma associação, a Sociedade não tem própria e autêntica realidade e não precisamos de uma Sociologia." p 22

E foi um pensador genial, um Ortega Y Gasset, quem o disse, como que copiando trivialidade repetida nos manuéis ou manuais de Sociologia. 

Achei digno de nota ou reflexão a assertiva do Ortega.

Afinal nossos corpos são agregados de células e tecidos. O que não os priva de existência real.

Curioso isso - Que aquela treva chamada positivismo tenha produzido há um tempo introduzido materialismo mecanicista no campo da Psicologia e Metafísica muito mal feita no campo da Sociologia. 

Mais - Agregado sim, agregado e agregação. Nem por isso uma célula sozinha se converte em tecido ou corpo, menos ainda o corpo ou o tecido numa única célula. Pois de modo algum a existência do agregado basta para confundir o agregado com o todo e vice versa... A simples existência particular da célula no conjunto do tecido não a transforma a célula particular em tecido e vice versa.

Sucede porém que a simples união da célula em tecido, órgão ou corpo confere a cada um desses agregados novas propriedades, as quais não se encontram presentes em cada célula separada mas comente nos agregados: Tecido, órgão e corpo. E conforme o tipo ou forma de união assume diferentes formas é natural que cada forma possua propriedades diversas - Assim que o corpo possua propriedades que não se acham presentes no órgão ou no tecido. 

Naturalmente que há algumas propriedades comuns a todo fenômeno vivo. Como certamente há propriedades diversas na célula, no tecido, no órgão e no corpo - Pois unidade não significa identidade. Por isso dizemos que o agregado tecido difere da unidade particular célula na medida em que apresenta atributos ou propriedades diversas. Pois só pode apresentar propriedades novas e diversas na medida em que sua estrutura difere da unidade particular.

Observe que toda essa comparação estabelecida pelos positivistas em torno de fenômenos biológicos está totalmente equivocada.

Pois o considerar o corpo humano em sua totalidade como agregado de agregados - Cujo elemento mínimo seria a célula! - não reverte a Biologia, a medicina ou a realidade em citologia. Um corpo mais desenvolvido olha, ouve e fala. O corpo ouve, fala, olha, pensa, etc por meio dos tecidos e células. Há tecido apto para ativar a audição. Posso dizer no entanto que esse tecido ouve ou que células olhem ou falem - Mesmo quando pertencentes a tecidos relacionados com a visão ou a fala posso eu dizer que tais células enxergam ou falam...  O caso é que as células não possuem sistema nervoso central... E nossos corpos o possuem... E pensam...

Percebe como sendo formado por células ou sendo um agregado de tecidos o corpo não é irredutível a células ou tecido, por possuir outras propriedades e corresponder a uma estrutura diversa. Como a medicina - a Mesma medicina que reconhece ser um corpo um agregado de células é irredutível a mera citologia...

Diante disto, o quanto podemos afirmar é que a Sociedade, a modo do corpo físico, não é uma fusão de células ou pessoas, e portanto algo essencialmente diverso dos agentes que a compõem. 

Agora se não estamos diante de um novo ente ou fenômeno, produzido por fusão, só nos resta concluir que ligação entre as pessoas, a modo da ligação entre as células, se dá por conexão ou contato. 

Essa percepção é importante porque nos impede de imaginar a Sociedade como algo a parte dos agentes que a compõem ou como um organismo essencialmente distinto deles. 

E no entanto ela, a Sociedade ou melhor as diversas Sociedades, da mais elementar a mais difusa, apresentam propriedades que não se encontram nos agentes.

Impõem-se aqui outra pergunta ou questionamento, muito comum nos compêndios de Sociologia.

A qual é posta nos seguintes termos.

Se a Sociedade ou as Sociedades apresentam propriedades com que não nos deparamos nos agentes que a compõem é justamente porque a natureza do agente e da Sociedade são distintas. 

Claro que há alguma diferença entre os agentes e a Sociedade.

Será no entanto uma diferença essencial ou ontológica, no sentido de que a Sociedade seja algo totalmente diversa dos agentes ou alguma outra coisa ou apenas um estado diverso apresentado pelos agentes.

Teríamos assim o indivíduo hipoteticamente isolado do corpo social ou num Estado pré social (Quiçá ante histórico ou primitivo!) - Veremos que o homem não social, em qualquer momento histórico, é uma ilusão - e o humano em Estado social tal como o conhecemos. 

Ocioso dizer que o 'social' precede a própria existência do fenômeno humano. Porquanto nossa espécie aparece já num contexto social ou num contexto social pré humano legado por outras espécies de primatas. 

Jamais houve Homo ou Homo Sapiens a parte de uma organização social, exceto se confundamos, maliciosamente, a Sociedade com o Estado.

O homem de Rousseau, bem se vê, é um ser imaginário, se, como se pensa ou crê, postulou a existência de indivíduos isolados ou separados uns dos outros antes de um contrato que tenha dado origem ao grupo social mais primário. Rousseau só cessa de ser perfeito idiota caso consideremos que seu contrato da origem ao Estado ou a Sociedade política...

Podemos portanto supor ou presumir que a questão sequer toque a forma ou a estrutura do conjunto ou grupo social mas apenas AO MODO E EXTENSÃO DO CONVÍVIO: As Sociedades apresentam propriedades diversas entre si e ausentes no 'indivíduo' conforme o contato seja mais íntimo ou mais extenso. 

Então não temos porque imaginar uma transformação essencial.

Nem por isso fica a Sociedade sendo irrelevante e menos ainda a Sociologia, pelo simples fato de que apresenta propriedades com as quais não nos deparamos nos humanos que tentam, em certa medida, viver a parte delas. 

A conclusão aqui já foi antecipada pelos sociologistas de Comte e também de Durkheim, este por sinal um homem de grande mérito. Tinham esses autores - Sobretudo o segundo em sua acirrada polêmica travada com Gabriel Tarde.- receio de que caso a Sociedade não formasse um ser essencialmente diverso dos seres que a compõem, reverteria a algum tipo de Psicologia, marcadamente em Psicologia social. E esse temor, mais ou menos fundamentado no século XIX, refletiu em toda essa construção, no sentido de afirmar-se que a Sociedade constituía um organismo totalmente a parte de seus agentes pessoais. 

Bom bater nessa tecla, sobre os estragos feitos pela Ideologia positivista no campo dos conhecimentos humanos ou das humanidades - Cujo valor científico e objetivo contínua sendo negado por seus janízaros até nossos dias > Mais de século após a morte de Wilhelm Dilthey (Esse gigante do Espírito!!!). O epílogo dessa invasão da psicologia pela Ideologia materialista (Sob o termo de positivismo ou ciência.) foi essa pasmaceira chamada Behaviorismo > De Watson e Skinner até G Roth  e o queridinho dos ateístas (Dalkins, Denett, etc) S Pinker. 

Certo é que a destruição ou negação da mente equivale a destruição ou suicídio da Psicologia, pela simples negação de seu objeto de estudos, que é a mente (cf Fechner, Wundt, etc). Caindo a psicologia nos domínios da Biologia e revertendo a Psiquiatria. Pois tudo no Behaviorismo conduz a Psiquiatrismo...

Outro o caso dos sociologistas, os quais sempre temeram que admitido qualquer nível de influência da pessoa não diretamente associada na 'engrenagem' social ou como se queira, nos fatos ou fenômenos sociais, ficava comprometida a própria Sociologia. 

E no entanto essa mesma pessoa capaz de interagir com o construto social e de altera-lo é ela mesma, grande parte, resultado de interações sociais e um ente social e não um indivíduo isolado, porquanto a existência de um indivíduo isolado, que nada deva ao grupo social, é um ente abstrato e ilusório. 

Perceba-se o óbvio - A Sociedade ou o grupo social plasma a condição de todos os seres humanos e todo ser humano é em parte resultado de interações sociais diretas e indiretas. Por outro lado algumas pessoas, satisfazendo certas condições sociais dadas e externas a sim, são capazes de alterar essas condições ou de interferir na dinâmica social. E é justamente essa intervenção ativa de alguns humanos que altera as estruturas sociais, as quais doutra forma sendo externas, formais e mecânicas seriam fixas, constantes e irreformáveis - A exemplo das reações físicas e químicas. A Sociedade se transforma justamente porque não é engrenagem fechada e impermeável a ação humana.

Por mais que atribuamos esta ou aquela propriedade específica aos diversos grupos sociais seria absurdo admitir que os grupos sociais possam alterar a própria dinâmica ou transformar a si mesmos, impondo novos sentidos, a parte dos agentes que lhes conferem existência. 

A Psicologia social caberá investigar o quanto o fenômeno humano recebe do corpo social. A Sociologia Pessoal como e em que condições um agente humano qualquer é capaz de alterar a dinâmica social e a Sociologia examinar as propriedades dos grupos ou fatos sociais em si mesmos bem como a estrutura dos grupos citados.

Tais as reflexões que me foram suscitadas pela leitura de Ortega Y Gasset.





quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Freixo, Lula... Bolsonaro, Edir, Malafaia - Rolando de abismo em abismo...

Resultado de imagem para Lula e Crivella





Errar uma vez é cometer simples erro, porém errar repetidamente, diz o adágio, é burrice e rematada burrice.

E se na vida corrente ou comum a burrice produz sérios danos, quanto mais na vida política ou no gerenciamento do Bem Comum. Afinal é a política arte ou ciência de bem gerir o Bem comum, assegurando a todos os cidadãos máxima qualidade de vida. Tal a importância da política...

E por ser assim tão importante deveria ela estar a salvo das eventuais idiotices cometidas pelos mortais.

Isto do ponto de vista da idealidade.

Pois do ponto vista da realidade é o que não se dá. Temos uma política, ou pior, temos diversas políticas burras, independentemente da orientação ideológica.

Caso pudesse condensar meu pensamento em poucas palavras diria que eles não leram, que jamais leram Délcio Monteiro de Lima - Os demônios descem do Norte - e menos ainda Max Weber. E que se leram Marx e Engels, aos quais teem por gurus, nada compreenderam. Daí cometerem sucessivamente os mesmos erros. E comprometerem a Civilização.

Curiosamente cometem o mesmo erro na Europa, alias na França, onde a esquerda imbecil tem, tradicionalmente, defendido os interesses dos muçulmanos, em que pesem seus ideias assumidamente teocráticos e liberticidas.

Aqui e lá a esquerda desorientada busca apoiar-se na 'Cana quebrada' do fundamentalismo, aqui do bíblico, pentecostal ou protestante; importado dos EUA (A fé essencialmente burguesa descrita por F. Engels, a qual segundo o imortal Weber, seria responsável pela afirmação do modelo capitalista.) e do outro lado do Atlântico, do fundamentalismo sunita, hambalita, wahabita, salafita... com o eterno ideal da sharia e seu padrão cultural árabe. Cana quebrada que poderá furar-lhe as mãos, aqui ou lá... Aqui e lá...

Da curiosidade passamos ao enigma ao constatar que há quase meio milênio um autor francês: Guillaume Postel - Em obra que lamentavelmente passou em 'branca nuvem'- ja assinalava as semelhanças existentes entre o islamismo e o protestantismo nascente.

Tanto pior aqui nos rincões do Brasil. Onde a intelectualidade marxista sequer lê Marx e Engels. Que dizer então de Max Weber ou dos clássicos franceses???

Veja que estava folheando ainda ontem uma parlenga do Roger Garaudy - Pensador romano que após ter abraçado o marxismo Ortodoxo ou Comunismo acabou por aderir ao islã! - publicada em francês pelos idos de 1942 - "Comunismo e moral." (Em espanhol "Comunismo, moral y cultura"). Uma filípica dirigida aos críticos romanos ('Católicos') do materialismo, na qual Garaudy principia apresentando Descartes (Antonio Damásio teria um infarte ao ler isso...) como 'materialista' e Spinoza como ateu (Exatamente como os padres babões que estava criticando), e por ai seguem as monstruosidades ideativas... Concebidas pelo tal marxista, para quem os opositores 'católicos' do Comunismo ou de Stalin seriam todos Hitlerianos ou nazistas, mesmo quando assumidamente democratas. Em seguida, o destacado comuna falseia a noção da liberdade, asseverando que ela só é possível no âmbito coletivo e assim estatólatra, deixando bem claro que nada sabe a respeito daquela liberdade pessoal que delineia os atos morais, como qualquer nazista ou fascista totalitário.

Acho natural que certa parcela de comunistas identifique-se - por patético que possa parecer - com os muçulmanos ou com os calvinistas, i é, com os sectários religiosos que se opõem a noção de liberdade pessoal, esboçando algum tipo de determinismo religioso, em termos de destino ou predestinação. Tornamos a G. Postel e sua análise genial... Mesmo em 'terra brasilis' há tipos assim e eu já tive a oportunidade de dialogar com um Calvinista Ortodoxo que é, igualmente, formador comunista e, marcadamente, adversário da doutrina do livre arbítrio ou da liberdade pessoal.

Naturalmente que nem todos os comunistas tem consciência de tais 'afinidades eletivas', passando muito a largo delas. Tanto pior em nossa 'província'... Que dizer então de Freixo ou Lula... Os quais sequer são comunistas, sem que por isto sejam sociais democráticas ou pertencentes a qualquer escola socialista. Nem Lula é socialista nem Bolsonaro é fascista - Afinal este jamais leu uma página de B. Musolini como aquele jamais leu vírgula de Jaurés, Herr, Blum, etc Bolsonaro pratica autoritarismo militarista associado minimalismo, algo bem norte americano... Lula, durante muito tempo praticou um socialismo bem sucedido. No entanto mesmo seus críticos petistas e socialistas assumem que ele falhou em não produzir uma consciência socialista, que service de suporte a si e a seus sucessores. Lula nem poderia, alheio ao culturalismo, trabalhar a teoria da cultura ou formar uma consciência socialista e por isso mesmo seu projeto reverteu. Pois ele formou apenas consumidores, engrossando as fileiras de uma classe média alienada.

Votei nele por duas vezes e com mais razão em Dilma, teria votado nele uma terceira vez, como tive de votar - a contragosto - em Hadad, mas, tal e qual um grande amigo meu, pelo mesmo motivo, não votarei nele, Lula, pela quarta vez. Como não teria votado em Freixo.

Temo que pessoas como Lula ou Freixo se tenham apegado ao poder e adotado o lema do fim que tudo justifica. Salvo lhes mova apenas a ignorância crassa, o que, no caso deles ambos, não é menos grave.

Tanto Freixo quanto Lula conhecem por experiência que é a nociva bancada evangélica e quais são seus propósitos, em termos de teocracia ou de privilégios. Mesmo assim Lula optou ou optara por conceder-lhe mais poder e visibilidade, inclusive nomeando o atual prefeito do Rio M. Crivella, ministro de Estado. Sucedeu-se exatamente o que havíamos dito e previsto; obtendo ainda mais poder e força na gestão de Dilma nenhuma plataforma tornou-se mais hostil ao programa levemente socialista desta senhora do que a dita plataforma ou bancada evangélica, cujo líder, o pastor pilantra Ed. Cunha deu início ao golpe que acabou por derruba-la e por impor ao povo brasileiro, mais uma vez, um ideário liberal economicista. O que quero destacar é justamente o papel dos fanáticos religiosos, dos bíblicos e fundamentalistas neste processo que acabou por comprometer a ordem democrática e a institucionalidade, travando inclusive a reforma política...

Em todo este processo que sabotou o futuro de nossa sociedade estavam ativamente inseridos os políticos protestantes ou bíblicos. O que não foi novidade para mim, ex protestante que sou.

Em seguida trataram de instrumentalizar os neo católicos' (romanistas) ingênuos e em parte já protestantizados e de apoiar a candidatura do norte americanizante Bolsonaro, recorrendo para tanto, ao fabulário com que os pastores sempre atacaram ou satanizaram não apenas o Comunismo mas qualquer forma de socialismo existente (inclusive o Cristão). Marx foi apresentado como o anti Cristão, Engels como a Besta, Lula como possesso e os socialismos todos como a pura e simples apostasia. O liberalismo econômico como sempre foi canonizado e apresentado divino a partir da dita bíblia, com um empurrãozinho do livre exame... Por fim todas as questões puritanas ou moralistas foram lançadas aos quatro ventos, baralhando ainda mais o cenário. Com o livro negro nas mãos e um pouquinho de imaginação os sectários esmagaram o lulopetismo e encadearam ao que chamam luladrão...

O mais curioso face a este cenário doentio é que o próprio lulopetismo e setores psolistas representados por Freixo, falseando consciente ou inconscientemente a questão, declararam que apenas uma ínfima minoria de evangélicos havia tomado parte em tais eventos e que a maioria deles era progressista ou mesmo - pasmem! - socialista... Não podia crer no que estava a ler, mas lí... Bem, eu sou ex protestante e por experiência conheço relativamente bem o mundo e o ideário protestante. Não sei portanto de onde Freixo e Lula tiraram semelhantes impressões, exceto pelo propósito de agradar a todo custo e assim de obter apoio e poder.

Claro que também há progressistas no meio protestante, e até haveria um número significativo caso
admitissemos que a maior parte dos anglicanos ou anglo católicos, sejam protestantes; quando são episcopais, e, em número considerável, ideologicamente Católicos. Alias, tal distinção é irrelevante caso consideremos que no Brasil protestantismo é sinônimo de Pentecostalismo e não de protestantismo histórico. Daí a construção do mito do pentecostalismo progressista, afinal se é pentecostal é marcadamente 'ortodoxo', bíblico ou fundamentalismo. Basta entrar numa livraria protestante qualquer para dar-se conta de que para os pentecostais, em quase sua totalidade, o liberalismo teológico e moral - Assumido por algumas igrejas históricas da Europa ou do Norte dos EUA - nada mais é do que uma abominável heresia ou detestável apostasia. O imaginário coletivo dos protestantes brasileiros i é dos nossos pentecostais pouco se distingue do ideário vigente nas seitas do Sul dos EUA, donde foi importado.

Por isso a propaganda anti socialista ou anti Comunista forjada naquelas terras ter sido importada com tanto sucesso para esta. Até a destruição do projeto lulopetista... Não nos impressiona este fato, já o havíamos predito e assinalado!!! Admira-nos Freixo e Lula fantasiarem ou ocultarem o problema, afirmando ingenuamente que os fundamentalistas são nossos aliados e que os trabalhistas, petistas, comunistas, sociais democratas, comunistas e socialistas de toda casta deveriam associar-se a esta gente e buscar seu apoio. Isto sim é assombroso porquanto Lula e Dilma já foram atraiçoados por esse povo! E porque o recente golpe foi ativamente apoiado por eles, a ponto de - Como na Bolívia - ter sido batizado com o nome de 'golpe evangélico'. Leiam protestante ou pentecostal ou ainda fundamentalista e terão lido corretamente. Pois sem a cooperação de um Malafaia, de um Macedo, de um Feliciano e de outros tantos charlatães, escudeiros de Ed Cunha, tal golpe não teria tido chance de sucesso. Basta ver o quanto os 'crentes' empenharam-se a favor de Cunha e de Temer nas redes sociais!!! Os papistas sem dignidade, foram de carona - como fazer já a quase meio século graças a RCC e ao ecumenismo - num segundo momento, uma vez que já não dispõem de consciência própria e assimilam cada vez mais princípios e valores exógenos de origem protestante.

O que quero dizer ou repetir a exaustão é que toda esta dinâmica do insólito deve ser analisada, lida, interpretada e bem entendida a luz do culturalismo. O protestantismo, ao contrário do que supõem ou dizem Freixo, Lula e outros jamais poderá ser aliado de qualquer tipo de política socialista por ser uma fé 'essencialmente burguesa' (Fr Engels), a qual desde seus primórdios promoveu a afirmação das forças econômicas, materiais ou capitalistas na mesma medida em que pela negação da necessidade de obras Éticas, abandonou o cenário das relações pessoais, sociais e políticas para incidir apenas sobre a fé. Este vácuo ou esta lacuna aberta pelo protestantismo nascente - a qual interpretamos como um recuo do ideal Cristão primitivo - foi que deu espaço as forças econômicas em ascensão ou ao que chamamos economicismo, o qual veio a plasmar toda cultura subsequente, ao menos a partir do século XVIII.

Eis porque o liberalismo econômico teve de surgir e impor-se antes de tudo e primeiramente numa sociedade protestante ou numa sociedade disputada pelas inúmeras seitas advindas da Reforma, nenhuma das quais poderia capitanear uma possível resistência as forças econômicas ascendentes. Destarte tiveram as seitas de omitir-se ou mesmo de apoiar a nova estrutura em formação.

Na terra pura dos EUA, na qual as culturas ancestrais foram eliminadas ou empurradas e não havia resíduo de cultura Católica, pode ser elaborado o novo modelo de agregado social, mais ou menos equilibrado, sob a égide das forças econômicas, mas mantendo uma aparência de religiosidade, concentrada apenas no além e que jamais ocupasse em questionar e transformar a realidade. Eis o Cristianismo conformista, ora ocupando a função de servo ou lacaio, e assim justificando, defendendo ou mesmo canonizando certa forma de organização social, não tão antiga. Os Ortodoxo e papistas deveriam saber, antes de todos, qual o discurso habitualmente empregado pelos pastores yankes com o objetivo de apresentar sua fé como superior a nossa... É simples: Jamais qualquer ideia socialista logrou arraigar-se nos EUA!!! E jamais qualquer esboço de simples sedição... Jamais o espectro sangrento da Revolução, que tantas vezes assombrou, ameaçou e solapou essas sociedades Ortodoxas ou Papistas do Velho mundo - evidenciado que há algo de muito errado nelas, donde procede sua vulnerabilidade - obscureceu o céu azulado dos bíblicos e puritanos... E já foi isto objeto de investigação por parte dos sociólogos da cultura... Adivinhem qual tenha sido a resposta???

É a Sociedade Norte americana estável e invulnerável face a propaganda socialista devido ao - dentre outros fatores - o ideário individualista dos puritanos e sua relação com a predestinação e aquisição de riquezas e sucesso material, faceta alias marcante do calvinismo...

O que quero repetir é que a assimilação da fé protestante, bíblica, calvinista ou pentecostal por parte dos cidadãos brasileiros acarretará, cada vez mais, uma negação de nossas autênticas tradições culturais e a paulatina assimilação de princípios e valores protestantes, do que resultará uma nova estrutura ou constelação cultural bastante semelhante a que percebemos da grande república do Norte. Da mesma maneria e modo como a assimilação do Islã com sua sharia levará qualquer sociedade a uma arabização em termos de cultura a assimilação do fundamentalismo bíblico não poderá deixar de conduzir qualquer sociedade a uma americanização e consequentemente a afirmação de uma política cada vez mais formal (em termos democráticos), puritana, minimalista, etc Marcadamente conservadora em sentido moral ou moralista. Exatamente como estamos assistindo no Brasil de hoje, momento em que Freixo e Lula mais parecem duas belas adormecidas...

Despertemos antes que tarde seja e nos vejamos numa nova Genebra de Calvino ou numa nova Meca de Maomé, tornemos as fontes de nossa cultura e a nossas tradições, princípios e valores próprios.