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sábado, 2 de dezembro de 2023

Apresentação do Cristianismo Histórico não deturpado pelos Ocidentais ou latinos (Protestantes e romanos)


- Jamais existiram quaisquer Adão e Eva, criado a partir do barro ou magicamente feito a partir de uma costela.
Como jamais existiram árvores do bem e do mal, serpentes com asas ou patas ou ainda um jardim do Éden.
Tudo isso não passa de um relato mitológico produzido a partir do 'Enumah Elish', um relato babilônico ancestral. Alias nesse relato é o homem feito a partir do barro de modo a significar seu alto valor posto que do solo barrento da Mesopotâmia eram feitos os tijolos com que se construíam as cidades, os potes de cerâmica e até mesmo as tabuinhas com que se escrevia.
Em sua ingenuidade os antigos hebreus copiaram o relato ancestral, o que se enquadrava perfeitamente em sua mentalidade era mágico fetichista ou pré científica.
Forçoso declarar que nada há de histórico ou real em tal relato. No máximo teríamos uma ilustração alegórica sobre a presença do mal no mundo ou ainda sobre a ação organizadora do espírito sobre a matéria, ainda que muito mal compreendida. O mais provável é que o elemento material seja eterno e que o elemento Imaterial ou divino atue eternamente sobre ele produzindo uma infinidade de mundos.


- E no entanto o mal moral ou ético está presente no mundo dos humanos desde seus primórdios e representa uma infidelidade a própria consciência, testemunha de uma Lei superior e divina.

- Naturalmente que o mal moral faça pressupor, naqueles homens, consciência ou conhecimento e livre vontade. Embora o raio dessa consciência dependa das circunstâncias histórico sociais. Nem precisa ser sua extensão idêntica a nossa.

- A própria doutrina Ortodoxa declara e admite que esse mal, não metafísico ou essencial, perpetuou-se pelo exemplo, i é, através da educação, da cultura, etc Não se trata portanto um mal juridicamente imputado a pessoas inocentes e menos ainda a uma 'massa' de seres humanos. Pois não é próprio da justiça infinita transferir a culpa do criminoso aos inocentes e isso é sempre aberrante.

- Tampouco corrompeu ele por completo a natureza humana, a ponto de afetar a racionalidade e a livre vontade ou as capacidades para conhecer e decidir, limitando-se a feri-la ou debilitada. Nem poderia qualquer ação humana destruir por completo a 'Imagem e semelhança' de nosso bom Deus.

- Disto resultou a alienação da espécie com relação ao Sagrado ou uma ruptura. Noutras palavras: Perdeu o ser humano sua comunhão com Deus e com o todo ou o universo e, a partir daí, fragmentou-se ainda mais. E por esse caminho chegamos a ambivalência e ao conflito interno.

- Para sanar, recuperar, purificar e educar esse ser fragmentado e decadente, a Trindade consubstancial e indivisível, assumiu a natureza humana e se manifestou na carne.

- Nem as pessoas divinas se separaram - Qual fossem diferentes deuses. - e deram morte uma a outra ou pagou a excelsa divindade qualquer coisa a quem quer que fosse. Pois não há poder superior a ela nem é ela masoquista.
Quis a divindade partilhar da nossa condição e padecer na cruz para manifestar sua solidariedade ou seu amor e ser nosso companheira na jornada da dor e do sofrimento. E tal é um ato de infinita nobreza, gentileza, benevolência e filantropia. Embora seja Deus impassível em si mesmo, tornou-se nosso camarada por meio da natureza humana a que se uniu.
Imolou portanto a si mesmo apenas para nos atrair a si.

- Por fim todos os humanos, mesmo após a morte e sem dúvida alguma até o dia do juízo final, tem a possibilidade de se unirem a Jesus Cristo ou de abandonar o mal e passar ao bem. E alguns de nós tem a esperança de que tal possibilidade se estenda para além do juízo final e de que todos sejam recuperados ou restaurados no Deus encarnado Jesus Cristo.

Tal a versão original, legítima e correta do Cristianismo - Sem Triteísmo, expiação, predestinação ou penas eternas. - não deturpada pelos papas romanos, reformadores protestantes e sobretudo Agostinho. A Ortodoxia oriental é testemunho histórico disto.

domingo, 4 de julho de 2021

Cristãos incoerentes, afinidades eletivas e noética.

Vivemos em tempos difíceis de viver ou passamos por tempos difíceis. Nós quais a verdade objetiva, a experiência, a razão e a própria Revelação são eclipsadas por um turbilhão de ideologias e culturas de morte, a maior parte delas notável pelo conteúdo irracionalista ou melhor por aquele absurdo já apontado com seriedade por Camus. Vivemos na Era ou na Idade do absurdo e é isto deprimente. Importa ter esperança - Para Freud era veneno, para os pupilos do Evangelho é virtude.

Esperamos estar passando por tempos difíceis ou por tempos nublados, aguardando pelos raios do Sol... Cremos e esperamos que as nuvens, sombras e trevas sejam espancadas pelo Sol da razão e pela luz da experiência, enfim pelo brilho da verdade divina, para qual são os homens encaminhados pelo que chamamos Filosofia. Não qualquer Filosofia, mas a Filosofia perene de um Sócrates, de um Aristóteles e mesmo, com prevenções, de Platão.

Todavia, enquanto aguardamos este novo 'Renascimento' ou glorioso porvir, temos de ir tateando em meio a este cipoal e tentar cortar-lhes os galhos ou tentáculos.

Tudo está muito confuso e as coisas fora do lugar.

Como disse Brecht, e eu considero patético, são tempos de ensinar o óbvio.

Sim, tempos em que se deve insistir sobre as obviedades ou sobre o que é axiomático, ou seja, evidente por si mesmo. Em tempos de idiotice generalizada já o evidente por si mesmo não parece tão evidente, o que é desesperador.

Bem, quando escrevo Cristãos - Bom advertir o amigo leitor! - certamente jamais me refiro aos protestantes, por mais boa vontade que tenham eles, mas apenas e tão somente a meus confrades os Cristãos Católicos Ortodoxos, ou mesmo aos apostólicos romanos e episcopais (Pertencentes a igreja alta ou ao anglo Catolicismo.) cujas agremiações conservam certos elementos do Catolicismo ou da tradição apostólica. Por questões de ordem cultural apenas alguns deles me poderão compreender.

Os protestantes, digo alguns protestantes, podem ser honestos e acalentar os melhores e mais nobres sentimentos, o que não torna o protestantismo Cristão, na plena acepção da palavra. Devo insistir nisto. Claro que as seitas protestantes são formalmente Cristãs e assim classificadas por todos os manuais de História das religiões. O protestantismo é formalmente Cristão, ponto pacífico. Outra coisa é ser autenticamente Cristão pelo 'espírito' de Cristo... Mesmo a igreja romana, apesar de seus diversos erros e do veneno agostiniano o é, ou ao menos setores e partes suas. Há ainda algo de Cristão em alguns apostólicos romanos - Não nos integristas ou nos carismáticos, e quiçá nem mesmo nos tradicionalistas (Com seu moralismo puritano que os conecta com o que há de pior no Protestantismo i é ao Calvinismo!) mas supreendentemente nos apostólicos romanos moderados - Alguns deles remanescentes da Era Tridentina e outros adeptos da TL (A qual nem por isso deixa de ser um sistema teológico defeituoso!) - apesar da missa moderna, que é como sabemos de origem protestante. Está a Igreja romana, dos pés a cabeça, doente de protestantismo: Do tridentinos aos carismáticos ninguém é incólume naquela comunhão (Isto por dupla via: O agostinianismo e o puritanismo, duas vias de acesso do ecumenismo e da apostasia.), no entanto alguns ainda amam honestamente a Tradição. É a estas pessoas que nos dirigimos, aos que amam o sentido ou a consciência Histórica do Cristianismo, amor há muito perdido pelas seitas protestantes.

Não nos iludamos, já por via do biblismo, que é filho legítimo da invenção da imprensa, é o protestantismo um sistema totalmente novo, uma revisão do Cristianismo histórico ou antigo ou ainda uma adaptação as novas circunstâncias sociais, políticas e econômicas. Só por isso é ele questionável ou mesmo detestável, pois não pode a instituição divina curvar-se face aquilo que é humano ou ceder em qualquer coisa. A instituição do Cristianismo cabe - E com muito mais razão - a diretriz exarada por um dos líderes Jesuítas a respeito de sua Companhia: Ou continuaremos sendo o que somos ou cessaremos de ser. Melhor seria ao Cristianismo desaparecer por completo da face da terra sem deixar vestígios, do que abjurar de seus princípios e doutrinas fundamentais fazendo concessões ou negociatas. O Cristianismo não pode ou deve mudar, e no entanto o protestantismo foi e é mudança.

Mudança por seu individualismo inusitado, mudança por seu transcendentalismo avesso a imanência, por sua antropologia - Agostiniana - viciada, por sua epistemologia capenga, etc 

O protestantismo trouxe sérios problemas a Cristandade. Novidade alguma até aqui.

Aberrante que a igreja apostólica romana ou mesmo que o Catolicismo Ortodoxo tenham assumido o filho bastardo que não lhes pertence. Refiro-me ao fundamentalismo bíblico ou a judaização - Noutras palavras, a todo esse universo formado pelo criacionismo, pelo terraplanismo, pelo geocentrismo, enfim pelo negacionismo científico. 

Nada mais triste do que testemunhar um Rose ou um Corção envidando esforços contra a Evolução Biológica - Um tentando infirma-la a partir de citações do antigo testamento como qualquer protestante, e outro forjando ensaios escolásticos ou metafísicos com o objetivo de refuta-la > Jesus, quanta treva! - o que é somar esforços com os setores mais radicais e obscuros do protestantismo, e daí caminharam (Ortodoxos e romanistas), para o terraplanismo, o geocentrismo, a negação da Lei da gravidade, etc como não poderia deixar de ser, se bem conhecemos o caráter do antigo testamento! De fato este movimento não se deterá no criacionismo! 

Assumido pelos Cristãos apostólicos o postulado protestante e falso dogma de que o antigo testamento em sua totalidade é pura palavra de Deus, chegaremos aos confins do islã, nada restando em termos de Filosofia e Ciência neste mundo. Afinal as raízes da Filosofia e da Ciência encontram-se na Grécia pagã, não no judaísmo ou no antigo testamento, cujo caráter (A par do divino ou do profético voltado para o anúncio do Verbo Jesus!) é mitológico, fetichista, mágico e intragável.

Nada mais comum nestes tristes tempos do que abordar o negacionismo científico. Coloquemos o dedo no fundo da ferida e busquemos suas causas - Como ex protestante direi e alto e bom som: É o negacionismo científico (Com suas propagandas anti vacina, terraplanista, geocentrista, etc ) fruto do fundasmentalismo bíblico protestante - Exportado para as comunidades Ortodoxa e apostólica romana inclusive! - seja ele pentecostal ou calvinista. Tais suas autênticas fontes, em termos técnicos: A doutrina supersticiosa da inspiração plenária, linear e verbal. Para parte dos protestantes (Aqui no Brasil imensa maioria) é a bíblia, ou melhor, o antigo testamento, autoridade absoluta e infalível em termos de conhecimento da natureza criada, ficando a Ciência totalmente desacreditada, quando não atribuída ao Diabo, nos mesmos termos que a 'idolatria' romana.

O aspecto mais triste porém é que parte dos nossos Ortodoxos ou dos apostólicos romanos - Os quais deveriam terçar armas em torno do Novo Testamento ou pugnar pelo Evangelho, que é a pura palavra de Cristo e Lei dos Cristãos - assumem tais postulados e endossam a manobra. Nada mais triste do que ver um Cristão apostólico fazer causa comum com o sistema dentre todos mais avesso a sua fé, que é o protestantismo. Afinal para os pentecostais os apostólicos não passam de idólatras amaldiçoados por Deus enquanto que para os calvinistas não passam de predestinados a condenação eterna. Apesar disso uns e outros não cessam de beber em fontes protestantes, de assumir seus postulados e de estender-lhes as mãos fortalecendo seu poder.

E nossos ortodoxos e neo romanos sempre me fazem lembrar os ratinhos conduzidos pelo flautista de Hamelin...

Eles ignoram as ilações doutrinais ou as afinidades eletivas e por isso não cessa o Cristianismo de diluir-se no protestantismo e de servir a interesses protestantes. Sendo nossos Ortodoxos e Romanos fundamentalistas usados como marionetes ou espantalhos.

Mas e os Apóstolos (Paulo) e os Padres?

Os apóstolos e padres procederam com honestidade e pureza de consciência pelo simples fato de terem florescido antes do advento da ciência, a partir do século XVI. 

Outro o caso dos reformadores protestantes, os quais tendo já vivido nos albores da ciência, foram e são modelos de negacionismo científico. Afinal, tendo em vista a doutrina do Corão Cristão ou do biblismo, esbateram-se ferozmente contra a ciência emergente, Lutero, condenando decididamente o Diácono Romano Nicolau Copérnico e com ele o geocentrismo... Calvino opondo-se a Acquapendente (Assumido por Servet pouco antes de W. Harvey) e a circulação do sangue... Tudo porque o heliocentrismo e a doutrina da circulação do sangue 'Não se achavam na bíblia' ou melhor dizendo, no antigo testamento, sendo supinamente ignoradas pelos antigos israelitas. 

A bem da verdade essa Cruzada bíblica, calvinista, judaizante, sectária, etc jamais cessou. Pois no século XVII os amenos Luteranos da Suécia abriram processo contra Nils Celsius (1679) - Apud Bivort de la Saude, 1959 p 112 - por ter ousado professar o Heliocentrismo. Pela mesma época, aproximadamente, tendo o insigne Nicolaus Stenius verificado o quanto seus confrades luteranos eram apegados a letra do antigo testamento e ao criacionismo chão, passou a igreja romana - Onde obteve o título de Cardeal - e tornou-se um dos próceres da Paleontologia. Já no século seguinte foi Joseph Priestley que teve seu laboratório incendiado pelos bíblicos. Também Moleschoot teve de fugir da Holanda para poder cultivar seus estudos em Roma (...) Darwin enfim exitou bastante em publicar suas conclusões pelo simples fato de viver numa Inglaterra ainda parcialmente calvinista e sectária...

Apesar disso a ciência fez sua caminhada e seus progressos. Sem que pudesse o protestantismo trava-la. Pois o máximo que os fanáticos bíblicos puderam fazer quando o benemérito Jener inventou a vacina foi dizer que os vacinados criariam chifres e se transformariam em vacas. Como dizem hoje aos nossos índios que, caso sejam vacinados, virarão homossexuais ou terão marcas na cabeça (Uai serão os chifres do século XVIII???) - Tal o serviço que prestam os pastores a humanidade em nome de sua bíblia!

Mas tornando ao 'Outro o caso', a negação da ciência pelos reformadores ou por qualquer um de nós em tempos modernos ou pós científicos planteiam uns sérios problemas que jamais ocorreram a Paulo, aos demais apóstolos ou aos antigos padres, os quais honestamente criam nos mitos judaicos tomados a Suméria e ao Egito. 

Pois negar a ciência, e suas conclusões, frutos da experiência sensível, implica criar um problema epistemológico e um problema antropológico. Claro que tal raramente se colocará para um Valdomiro Santiago ou para qualquer ovelha semi analfabeta do Malafaia ou do Feliciano... permanecerão eles bem ajeitados no berço esplendido da ignorância, e nada de mais sucederá. Tal o nível deles...

Outro o caso dos apostólicos romanos ou Ortodoxos que abraçam tal modelo teológico, posto que mais livres e medianamente instruídos. 

Destarte pelo menos alguns deles plantearão a questão da 'veracidade' bíblica do AT, da inspiração plenária ou linear, da falsidade da ciência, deste falso conflito e da credibilidade do conhecimento humano assim da condição humana e aqui teremos o drama, digo o estrago, produzido pela mentalidade protestante, bíblica e fundamentalista.

Os Ortodoxos explorando certos aspectos teológicos muito discutíveis do hesicasmo e tributários do neoplatonismo, irão dar na tal da noética... Há muito assumida pelas seitas protestantes luteranas, pentecostais e mesmo calvinistas. Os romanos irão dar na mesma solução por via do Agostinianismo ortodoxo e mais além irão seguindo na direção de uma antropologia nefasta até o jansenismo, o luteranismo ou calvinismo. 

Ocidente e Oriente por via da noética, que é princípio subjetivo e indemonstrável que se ajusta a qualquer crença ou heresia, desarmarão a Mãe Igreja face as seitas e falsas religiões no exato momento em que carece fortalecer sua apologética com o objetivo de confrontar as ditas seitas, as culturas de morte e o islã - Vejam então como tudo isto é trágico e como os fundamentalistas de modo geral prestam péssimo serviço a Igreja. 

Após terem judaizado, assumido os mitos ineptos dos antigos israelitas e menosprezado os autênticos mistérios de nossa fé, e fragilizado as 'razões' da Igreja - Apresentadas pela Filosofia clássica - os fundamentalistas devem necessariamente flertar com o integralismo. Afinal desprovida de seus fundamentos ontológicos ou apologéticos - I é da demonstração racional e experimental da verdade!  não pode a mãe Igreja caminhar sobre seus pés, devendo ser, como uma palhoça capenga, sustentada pelo poder autocrático e arbitrário do Estado. 

Fundamentada na mística, na noética, na iluminação ou na relevação particular e subjetiva perde a fé seus mais sólidos fundamentos - Sejamos honestos: Qualquer apresentação da Ortodoxia neste sentido só deliciará os Ortodoxos, qualquer apresentação do papismo por esta via só deliciará os papistas, e assim por diante. É a tal noética de todo inapta para convencer os contrários, refutar seus erros e firmar um são proselitismo! E falhará ela cabalmente face as seitas protestantes, ao islã, ao ateísmo e as culturas de morte. Atrairá apenas os elementos semi analfabetos ou analfabetos pertencentes as massas, fortalecendo as seitas. Pessoas mediatamente instruídas, críticas ou geniais não conquistará e agregará a Igreja de Cristo. Do contrário, fosse boa a tal noética para nossas igrejas apostólicas, não teria ela sido assumida com unhas e dentes pelos heréticos... Por isso nada quero com ela... Porque desarma a Igreja e não se presta aos misteres que temos em vista!o, que como grego tem veleidades não apenas hesicastas mas noéticas, que me contento em assumir a fé Ortodoxa, mas não essa Teologia ou Theologumena, ficando com a velha Escolástica ou melhor com a propedêutica da Filosofia clássica assumida por Clemente, Irineu, Orígenes, Atanásio, Eusébio, Gregório de Nissa, Damasceno, etc Vereda sólida e segunda para a apresentação objetiva da fé e sua justificação. 

O que nos leva a afastar-se ao máximo da posição agostianiana com sua epistemologia já suspeita e sua antropologia maniqueísta que redundou necessariamente em calvinismo, como do calvinismo resultaram o fundamentalismo, o puritanismo, a teocracia e mesmo a afirmação do liberalismo econômico ou do capitalismo, pelo que não podem os Cristãos apostólicos assumir tais elementos culturais, os quais nem lhes pertencem ou são seus.

Tal a importância das relações entre os elementos culturais ou das afinidades eletivas, a qual nos permitem ir além da fé e da teologia, e examinar o panorama da cultura com toda sua abrangência. Ora quem diz panorama da cultura, diz projeto social, político e econômico em termos de civilização. E mais uma vez aqui, as Igrejas apostólicas e o protestantismo separam-se. Veja bem e anote isto: São dois projetos culturais não apenas distintos mas apostos; o que vale já para a Igreja romana e muito mais para o Catolicismo Ortodoxo.

Daí apontarmos a leviandade com que papistas e Ortodoxos, assumindo pautas protestantes, como o fundamentalismo, a depravação total, a noética, o integralismo, o puritanismo, o liberalismo econômico, etc protestantizam-se em certa medida. São Ortodoxos que chocam-se contra a cultura e o projeto social da Ortodoxia e romanos que ignoram ou confrontam o projeto sócio cultural de sua confissão, traindo uma mentalidade protestante. Ora um Ortodoxo ou um papista não pode ter uma mentalidade protestante, de modo que jamais será ou poderá ser capitalista ou individualista, fundamentalista (E assim criacionista, terraplanista, geocentrista ou negacionista em qualquer grau.), integralista, carismático, puritano, etc pois cada um desses elementos chocam-se com a norma e regra da tradição e com a mentalidade vigente no padrão apostólico.

É uma questão de coerência. 

Verdade é que a igreja romana tem abdicado cada vez mais - Século após século - de seu próprio projeto, tão caro a consciência medieval. É um fato demasiado triste, pois implicou ceder espaço a esse projeto sujo e porco que ai temos, o qual é de origem protestante e redundou em tais culturas de morte contra as quais nos esbatemos: Capitalismo, Comunismo, Anarquismo, Fascismo, Nazismo, etc Observe que o projeto protestante original, se é que existia (Em termos de teocracia bíblica), abortou miseravelmente. Desde então o Cristianismo foi perdendo cada vez mais o seu ascendente sobre as Sociedades ocidentais... Havendo um esvaziamento Ético em termos de princípios e valores. 

Sob pressão do Islã sucedeu o mesmo no Oriente quicá numa proporção ainda maior. E embora nossos Ortodoxos conheçam algo sobre o império Bizantino, o quanto sabem é sobre sua forma política em parte ultrapassada. Sobre sua estrutura e ações sociais quase nada sabem, sendo a ignorância quase total. Importa dizer que esse projeto jamais completado nada tem em comum com o projeto protestante ou calvinista até certo ponto materializado nos EUA. 

Repito, como houvesse um projeto protestante original: Bíblico, fundamentalista e teocrático; foi definitivamente repudiado pelo Ocidente, pois partindo de seus princípios deletérios o protestantismo produz tensões insuperáveis. Foi e é um projeto de que resultam extremos perigosos: A total descristianização da sociedade e o abandono do mundo a um lado e o ideal de república bíblica pautado no Israel do século VI a C. Até certo ponto parece que essa dicotomia horrenda renasce no Brasil de hoje. Pois se o protestantismo brasileiro teima obstinadamente em enjaular a mente humana ou de enfiar a sociedade na bíblia, o Cristianismo, a partir deste padrão tosco, passa a ser cada vez mais odiado pela outra parte da Sociedade.

Está situação exige por parte dos Ortodoxos, papistas e anglicanos um posicionamento - Especialmente face a infecção ecumênica - e tomada de consciência e eu aconselharia a cada um deles o caminho da coerência: Tornem a luz. Afastem-se de todos os princípios assumidos pelo sectarismo bíblico: Individualismo, biblismo, subjetivismo crasso, negacionismo científico, fetichismo, integralismo, liberalismo econômico, etc Rompam decididamente com esse padrão sócio cultural e retornem a suas raízes. Tornem a Ética da solidariedade, ao Evangelho, a Tradição comum, ao objetivismo, a Filosofia clássica, a ciência, a vida democrática, a justiça, a tolerância, ao amor, enfim a tudo quanto seja humano, nobre, justo e excelente. 

Não tentem usar remendo velho em roupa nova ou colocar vinho novo em odre velhos... Não dará certo. O Evangelho, a lei Cristã, a Cristandade antiga, tem uma visão total e projeto próprio. E não é o que temos... Não é comunismo e não é capitalismo, pronto. Não é objetivismo sem subjetividade e tampouco subjetivismo crasso. Não é cientificismo e tampouco negacionismo... É algo sóbrio, equilibrado, harmonioso e complexo, que foge aos extremismos e ao sectarismo bizarro. Tornemos e retornemos a este projeto humanista, pois dele depende a cura do homem e o Renascimento da civilização, ou sua preservação.

Não temos muito tempo, portanto apressem-nos.

Desculpem a prolixidade e a extensão deste artigo mas foi necessário, pois o repetir é que nos faz claros. Claridade é tudo ou ao menos muita coisa. 

sexta-feira, 2 de julho de 2021

Católicos pela Democracia!


Ch. Maurras - Intelectual brilhante mas, péssimo Cristão!


Patente a existência de uma máfia anti democrática operando nesses tristes trópicos. De uma organização terrorista financiada as custas do erário. De uma conjuração totalitária.

Já o suspeitávamos e já o supúnhamos.

Investigada a 'denúncia' temos por absolutamente certo que o ilícito venha a luz, e como Cristãos, Católicos e Ortodoxos, em plena sintonia com o liberalismo político e com o espírito democrático, esperamos que os membros de tão sinistra organização sejam rigorosa e exemplarmente punidos.

Afinal é a democracia providencial custodiaria dos direitos essenciais da pessoa humana.

Nem podemos compreender como nossos Ortodoxos ou mesmo como os apostólicos romanos e os anglo 'católicos' possam pensar e crer diferentemente, flertando com o autoritarismo, com a dominação, com a tirania, com o despotismo, etc como sói um calvinista ou marxista, uma vez que Calvino e Marx, Marx e Calvino, o ateu e o herético, encontram-se na negação do livro arbítrio, fundamento basilar da vida Ética.

Por isso imaginava eu, em minha ingenuidade ou inocência, que a alma da conjuração ditatorial fosse algum membro da famigerada bancada evanjéguica, afiliado a assembléia de deus ou a qualquer outro alcoice fundamentalista... 

E eis que somos surpreendidos com a notícia de que o líder da seita é um certo Allan Santos, o qual folga pertencer a comunidade apostólica romana. No entanto o que mais nos surpreende é o fato de não ter a dita igreja excomungado tal elemento - A exemplo de Ch Maurras, ídolo de pés podres que nos tempos em que a dita Igreja era séria, mereceu ser brindado com a excomunhão.

Nos termos das comunhões históricas, seja no Catolicismo Ortodoxo ou nas igrejas romana e anglicana, quando topamos com o repúdio as instituições Democráticas - Que nos foram remotamente legadas pela veneranda antiguidade. - topamos geralmente com a Hidra integrista ou integralista, seita politiqueira que busca 'ajudar' ou vir em socorro da Igreja de Cristo, quando em verdade ataca-a não menos do que os arianos e muçulmanos. 

Temos de ir as fontes teológicas e desmascarar esse monstro de incredulidade que é o integrismo. E seus papas ou líderes seja aquele espanhol tosco chamado Donoso Cortês, Maurras ou o estúpido do Padre Murillo. Não sou em quem usurpará o encargo divino e julgará suas consciências, assim as de seus pupilos contemporâneos, alguns dos quais supõem estar ajudando a Cristandade, enquanto a atrapalham, decididamente - Pois há que ajudar da maneira correta ou da melhor maneira possível.

A bem da verdade é o integrismo um complexo de ideias ou de opiniões heterodoxas. Pois engloba em si diversos pressupostos moralistas ou puritanos, certo viés de fundamentalismo tolo e tosco, a assinalada politicagem, etc 

Importa saber que a base deste sistema ideológico não pode deixar de pagar tributo a Agostinho e a seu pessimismo antropológico. Daí imaginarem que o homem ou a comunidade dos homens são incapazes de gerirem a si mesmos, devendo ser tutelados ou contidos - Como eternas crianças - por uma estrutura ou máquina estatal superior e externa a eles. Velha a conexão entre o pessimismo antropológico de Agostinho e entre os sistemas despóticos e totalitários. O que deveria bastar, por si mesmo, para manter nossos Ortodoxos afastados de tudo isto... Mesmo os apostólicos romanos mais instruídos deveriam considerar que sua Igreja jamais assumiu integralmente o pensamento de Agostinho ou o Agostinianismo 'ortodoxo' - Como registrou o falecido João Paulo II (Aqui com propriedade) em sua carta 'apostólica' 'Augustinum Hipponensem' de 1986. 

De modo que o integrismo caberia melhor num calvinista, num luterano a 'moda antiga' (Dos de Flacius e Amsdorf) ou num jansenista do que num apostólico romano. Posto que a antropologia apostólica romana ou tridentina quanto ao homem 'pós pecado' - I é reconciliado com Deus - é bem mais amena e otimista, a ponto de dar suporte a vida democrática na sua expressão mais ampla, ou seja, mesmo quanto a Democracia direta ou policracia grega. Donde se vê que seres ou criaturas que tão mal presumem dos homens ou dos batizados - Como Norris, Cortês ou Maurras - são criaturas de Agostinho... Daí medrarem como cogumelos na Espanha e proximidades... 

E mergulham de tal modo tais mestres na lama maniqueísta (Como já diziam S Juliano de Aeclanum e S Teodoro de Mopsuestia.) que chegam a questionar até mesmo o caráter racional dos seres humanos, o que eu mesmo tive ocasião de perceber ao dialogar com um de seus líderes há alguns anos atrás. Curiosamente o mesmo 'concílio' ou sínodo ocidental que canonizou a falsa doutrina da Infalibilidade papal em 1870 - O Vaticano I - foi que lançou a última pá de cal no que chamavam de tradicionalismo epistemológico. Outro legado agostiniano sustentado pela seita e que se opunha a teodiceia expressa por Aristóteles, assumida por Paulo e defendida pela escolástica. Pretendendo os últimos campeões de Agostinho que o homem sequer poderia aduzir a existência de Deus e a Imortalidade da alma por via racional, ficando patenteado seu pessimismo epistemológico derivado do maniqueísmo. 

Resta esclarecer que tanto eles - Agostinianos, 'tradicionalistas' do século XIX, Luteranos e Neo Calvinistas - quanto parte de nossos Tortodoxos desorientados, por via do intuicionismo e da subjetividade chegaram ao que chamam noética, pagando tributo a essas sinistras seitas pentecostais que massacram a Mãe Igreja... E deste modo feita foi a volta do parafuso. A todos estes, a uns e a outros, com Clemente, Irineu, Orígenes, Eusébio e outros Mestres, afirmamos em alto e bom som o caráter propedêutico da Filosofia Grega ou melhor da Filosofia clássica inspirada em Sócrates, face a instituição Cristã, a capacidade do homem natural para pensar, a capacidade do homem reconciliado para atuar livremente e a capacidade de uns e outros para gerenciar suas vidas e a vida da Polis segundo princípios policráticos. 

Não deve o homem ser arbitrariamente coagido a praticar o bem e evitar o mal, mas participar da elaboração das Leis destinadas a regular a cidade. O que está de acordo com sua dignidade de Filho de Deus, no caso dos Cristãos. Ele não só pode como deve dar seu contributo a administração, servindo a República, já legislando com seus pares já tomando parte ativa no governo, ao invés de curvar-se ao capricho de um tirano. Sendo função precípua do Estado Cristão educar os cidadãos para tal fim, ministrando-lhes todos os subsídios necessários ao desempenho de tal encargo. E estado algum pode furtar-se a essa missão formativa, que é educar o povo para o exercício da Democracia.

Outro o caso do déspota ou tirano, o qual precisa criar ou consolidar o que chamamos de 'massas' para manter-se no poder como tutor. Sendo o quanto basta para qualificar esse modelo de governo como anti humano, por recusar-se a oferecer todas as oportunidades educativas aos cidadãos, impedindo-os de terem acesso a uma educação integral e de desenvolverem todas as suas potencialidades convertendo-as em habilidades ou virtudes. Temos aqui portanto um modelo ímpio e sacrílego, o qual não apenas contém mas mutila os seres humanos.

Toda essa estrutura despótica, tirânica e totalitária supõem a criação de capachos ou vermes não de homens na plena acepção da palavra. Pois a tirania receia da existência de autênticos seres humanos, racionais, cônscios de sua autonomia e hábeis. Outra coisa não pode querer a verdadeira religião ou o Cristianismo, pois onde está o Espírito ai está a liberdade e não a servidão abjeta. Ora a criatura racional, imagem e semelhança da divindade, não foi feita para a escravidão ou para a servidão.

Continua -

Ps Na segunda parte deste ensaio sobre o veneno anti democrático analisaremos o ceticismo religioso embutido no pensamento integralista e anti democrático, considerando inclusivo porque um intelecto tão brilhante como o de Maurras mereceu ser fulminado com a excomunhão pela igreja romana, o que muita falta faz a todo integralista ou totalitário: Ser excomungado! Assim se quanto a Teologia da Libertação algumas heresias periféricas são manifestas é o integralismo uma heresia ou veneno essencial, algo não menos sacrílego que o arianismo ou o islamismo, em que pese sua piedade dissimulada e falsa devoção. 

Palavra de quem já foi classificado como 'monge louco e perigoso' por ter comparado o integralismo com as demais culturas de morte como o comunismo, o capitalismo, o anarquismo, o fascismo, o nazismo, etc assim o integralismo - Fruto do mesmo saco podre, inimigo da verdade revelada, da piedade e da religião.  








sábado, 12 de maio de 2018

Progressos do imbecilismo contemporâneo

Como não sou partidário de um evolucionismo linear como Marx, Spencer, Comte, etc mas do um evolucionismo em 'aspiral' formulado por V G Childe, o qual considera a possibilidade de crises, recuos civilizacionais, declínios provisórios, etc não me assusto face a atual crise nem perco a esperança. Também o homem evolui ou progride enquanto tal, embora hajam crises, como a da adolescência, analisada com propriedade por Erickson. Homens e Sociedades, e Civilizações conhecem crises, mas as crises podem ser superadas, dentro de um quadro geral positivo.

A História conheceu já crises intensas - O primeiro período intermediário no Antigo Egito pós Fiops ou Pepi II, A destruição do império acadiano pelos gútios, A destruição da civilização minóica pela explosão de Santorini, a destruição da civilização Micenica pelos Dórios, O conflito entre epígonos e diádocos após a morte de Alexandre e por fim a queda do Império romano, a mais pavorosa de todas... e que pois fim a Idade Antiga.

Posteriormente repetiram-se novas e sucessivas crises, das quais a primeira foi a reforma protestante seguida pelas revoluções inglesa, francesa e russa, pela ascensão das diversas culturas de morte como o fascismo, o nazismo, o comunismo, o neo liberalismo, o anarco individualismo... pela afirmação de ideologias aberrantes como o ceticismo crasso, o relativismo, o subjetivismo, o positivismo... pelo assaque do islamismo, do pentecostalismo,do fetichismo, etc... pelo sucesso de diversas formas de alienação...

Eis onde chegamos...

A experiencialidade é contestada, o apanágio da razão ridicularizado, a Filosofia desmerecida (o ceticismo é a negação de toda Filosofia desde os tempos de Pirro de Elis cf 'Os céticos gregos' por Victor Brochard), o conhecimento científico endeusado por uns ou negado por outros, a religiosidade ética repudiada, a Ética natural ignorada, o humanismo vilipendiado, o estudo minimizado, as normas objetivas da produção artística postas de lado, o valor da vida humana relativizado, os direitos escarnecidos, a justiça apresentada como utópica, o quietismo louvado, a violência canonizada, o egoísmo promovido, o irracionalismo encarecido sob todas as formas, os preconceitos mais obscuros santificados, os extremos abraços com fervor, a cultura mal compreendida, todas as tradições desafiadas, toda mudança ou variação condenada... e por ai vai...

É como se todos os fundamentos da Civilização estalassem, ruíssem e viessem abaixo.

Diante disto, apenas para distrair-me, após ter assistido - como faço amiúde - mais um documentário arqueológico, desta vez sobre o antigo Egito, ou melhor, sobre a Esfinge, as pirâmides, os obeliscos e a origem de tais monumentos, fui, maroto que sou, espiar os Cocomentários...

Li algumas centenas, um mais medonho do que o outro e ouso reproduzir alguns:

Esse arqueólogo não sabe nada...

Um mistificador...

Charlatão...

Pirâmides são túmulos, onde já se viu???

Os antigos egípcios construíram as pirâmides, esse homem tá de brincadeira?

Como sempre ocultando os extraterrestres...

E a civilização Atlante, por que não disse nada sobre ela?

Alavancas e roldanas uma ova, aquilo só podia ser erguido mesmo com tecnologia de ponta vinda de outros planetas.

Quem não sabe que os egipcios ergueram tais pedras com o Mana ou com encantamentos?

Deveriam ter lido Sichtin.

Não me enganam porque li os deuses do Daniken

etc, etc, etc

99% dos cocomentários iram por este caminho ou linha de desracioncínio, chegando a vulgaridade e ao xingamento.

Pesquisadores de campo nada sabem... são imbecis, otários, idiotas, toscos, etc

Os comentaristas virtuais, muitos dos quais jamais puseram seus pés no Egito, na Suméria, na Grécia, na Itália ou na América central, sabem absolutamente tudo, porque leram a 'verdade' nas obras do Sichtin, do Daniken, do Churchward, do Braghine e de outros místicos e visionários que jamais provaram ou demonstraram suas opiniões ou crenças.

As pessoas repetem o que leram em livros escritos por charlatães, místicos, visionários, etc - os quais por sinal estão cheios de erros escabrosos - e negam-se peremptoriamente a aceitar pesquisas de campo ou estudos realizados seriamente profissionais!!! Para essa gente que vive repetindo baboseiras nada significa analisar a composição química de uma pedra, comparando-a com a composição química de outra, analisar a composição da terra, o fluxo das marés, o pólen, datar carbono 14, medir ossos, escavar tumbas e tempos, decifrar inscrições ou seja, realizar um trabalho verdadeiramente experimental. Elas simplesmente não compreendem o alcance disto tudo, dos materiais, dos fatos, da concretude... e dão preferência a suas crenças queridas...

E no entanto ciência história ou arqueológica não se faz com delírios, comunicações, visões, boatos, diz que me diz, etc mas com material coletado em campo e devidamente analisado.

É com fragmentos de restos de comida, pedaços de ossos, DNA, ruínas, cacos de cerâmica, etc que se faz a História real, quase sempre prosaicas para muitos...

É com fotos, gravações, satélites, etc que se faz a melhor geografia.

É com fósseis que se faz a melhor Biologia...

Não com bíblias, não com publicações sensacionalistas, não com afirmações gratuitas, não com suposições absurdas, etc

Ajuntem-se aos esotéricos ou místicos os criacionistas, os terraplanistas e os geocentristas e o 'samba do crioulo doido' estará completo!!!

Leram em seus livros sagrados, em seus almanaques, em seus manuais e esta lido; portanto não há qualquer necessidade de paleontólogos, arqueólogos, exploradores... enfim de pesquisa. Pois eles já foram, antecipadamente, informados sobre todas as coisas por meio de 'publicações'...

Talvez essas pessoas acreditem ou julguem que todo conhecimento foi ou é produzido por livros...

Quando é produzido por escavações, explorações, estudo de campo, analise de materiais, enfim de pesquisa ou de trabalho duro. Conhecimento não cai sobre a cabeça do historiador como chuva, não lhe entra nos miolos por osmose, não é produzido por mágica, mas, fruto do trabalho duro, perseverante e paciente... Tudo para que depois, um leigo arrogante e presunçoso venha questiona-lo, fundamentado não em evidências materiais, mas nas obras de Deniken, no antigo testamento ou mesmo numa comunicação espiritual ou psicografia... O cúmulo do absurdo.

O conhecimento do concreto é fruto da observação e da pesquisa de campo, os livros só servem para divulgar, jamais para produzir o conhecimento.

Ah mas o Daniken fundamentou sua interpretação em diversos monumentos. Monumentos que ele mesmo não encontrou ou escavou por não ser arqueólogo, mesmo amador como por exemplo Scheleimann ou Isidoro Falchi... Monumentos cuja autenticidade ou genuinidade ele não pode certificar por não ser arqueólogo... Por isso quando sua interpretação choca-se com a daqueles que escavaram tais monumentos ou estudaram-nos durante anos a fio, claro que fico com a interpretação destes... e não com a dele, uma vez que nada produziu de relevante ou nada encontrou. Tanto pior para um Sichtin ou para um Curchward, o qual declarou, como o fundador dos Mórmons, Joseph Smith, ter encontrado os arquivos de Shambala ou Lemúria, sem no entanto jamais os ter mostrado ou dado a público, exigindo fé...

Ora se você quer ter fé no Churchward ou no Sichtin, tenha fé, é um direito seu. Só não venha apresentar sua fé como ciência ou como algo concreto ou o que é pior ainda, exigir que tenhamos a mesma fé, negando assim o produto da experiência... Pois aqui sua atitude não se diferencia em nada da dos criacionistas com sua Torá ou seu Gênesis, da dos geocentristas ou da dos terraplanistas... Você apenas trocou de livro, mas o princípio é o mesmo: Livros, fé em livros, etc Nós temos um princípio mais seguro, o princípio concreto, da pesquisa de campo, da escavação, da análise de materiais, da tradução de inscrições deixadas pelos antigos, etc o que inspira uma confiança muito maior e induz a certeza absoluta.

Não creio na Batalha de Megiddo. Leio sua descrição nos painéis mandados gravrar por Tutmosis, o grande e estou a par das escavações realizadas no local... Não creio na Batalha de Kadesh, estou a par não apenas do relato mandado compor por Ramsés II, mas também do que fora redigido por ordem de Supililiuma, rei dos Hititas... Não se trata aqui de coisas sonhadas, ouvidas, escritas, etc mas de relatos de primeira mão confirmados por vestígios materiais.

Assim quando se diz que os antigos egipcios valeram-se de gruas, rodas, roldanas, rampas, fogo, talhadeiras de pedra e bronze, barcos, etc para extrair pedras, transplanta-las e grava-las; resultando de tais esforços as pirâmides ou a esfinge, temos elementos materiais ou vestígios que comprovam-no cabalmente; parte dos quais foram novamente testados, em nossa época, pelos arqueólogos, e com sucesso. Temos pinturas que representam tais esforços. Temos maquetes encontradas em túmulos de construtores. Temos ferramentas encontradas. Temos a análise de restos... Evidência de sobra!

Não há portanto qualquer necessidade de atribuir-se a construção de tais monumentos a atlantes ou Ets...

Basta aplicar a navalha de Ockam para deduzir que os Egípcios tudo fizeram e concluir pela genialidade de nossos ancestrais...

Fascinante é concluir que tais monumentos colossais foram feitos por homens como nós há cerca de cinquenta séculos.

Durante muito tempo acreditou-se que tais templos e túmulos haviam sido edificados a chibatadas por uma multidão de escravos. Hoje se sabe que foram edificados por uma multidão de trabalhadores livres, unidos pelo entusiasmo religioso ou pela fé... Coisa que hoje já não se sucede. Temos dificuldade para unir uma multidão colossal em nome de qualquer coisa... Portanto não podemos crer que os antigos tenham sido capazes de faze-lo, e nosso ceticismo falseia a realidade histórica e nos envenena.

A questão aqui não é encarar os incas ou os egipcios como incapazes, no sentido de que fossem culturas inferiores... É mais profunda e diz respeito a nós mesmos como espécie ou humanidade.

O homem contemporâneo, que parte de uma antropologia negativa, é cético, ao menos quanto a si mesmo e suas possibilidades. Ele não vê a si mesmo como capaz de erguer as pirâmides de Gizé ou de traçar as linhas de Nazca porque não vê a si mesmo como alguém capaz de conhecer por meio de seus sentidos, porque não encara a si mesmo como alguém capaz de raciocinar com propriedade e enfim porque não acredita em sua capacidade para atingir a perfeição ética ou moral...

Os antigos gregos, a exceção dos pirronianos, que importaram seu ceticismo ou pessimismo volitivo da antiga Índia (i é do Budismo), não tinham maiores dificuldades para admitir que os antigos egipcios haviam esculpido a grande esfinge ou construído as pirâmides e certamente encarariam as linhas de Nazca como produto natural da atividade humana. Nós no entanto fomos envenenados pela doutrina maniqueista ou agostiniana do pecado original i é da corrupção total da natureza e portanto de nossa fragilidade. Desde Agostinho a cristandade latina assentou a incapacidade ou a fragilidade humana como dogma inquestionável. E Lutero e Calvino manifestaram-se para reafirmar com mais intensidade ainda essa antropologia pessimista...

Via de regra a sociedade latina secularizou ou deixou de crer em tais tolices ou mitos desde o século XVIII. No entanto, a guize de repeti-los por mais de mil anos, lá ficaram seus resíduos envenenando a cultura... E fazendo-nos duvidar de nós mesmo, de nossa capacidade e da capacidade de nossos ancestrais. Nossos ancestrais no entanto, não duvidavam de si mesmos... E por isso, inspirados por outro tipo de antropologia - natural e positiva - construíram muralhas ciclópicas, pirâmides colossais, dolmens e menires, linhas e terraços de cultura... rivalizando uma com a outra.

Parte dessas construções atravessou os tempos e chegaram até nós. Do contrário negaríamos que tivessem sido feitas... Negar a existência dos terraços de cultura do Peru, da muralha da China ou da Esfinge não podemos. Neste caso fazer o que se estamos convencidos de nossa própria incapacidade??? Atribuí-las ou a supostos poderes sobrenaturais suscitados pela magia, como o mana... ou a civilizações imaginárias, como a Atlântida ou a Lemúria (cuja tecnologia era muito superior a nossa)... ou o que é ainda pior, a alienígenas ou extra terrestres, os quais teriam vindo de Órion ou das Pleíades e atravessado o universo com o propósito de amontoar pedras diante de nossos primitivos ancestrais, demonstrar um poder imenso e ser cultuados ou aplaudidos por eles...

Quem não vê que tais extra terrestres, supostamente tão evoluídos equivaleriam aqueles dentre nós que se embrenhassem no seio inóspito das mais distantes florestas com o objetivo de construir uns muros ou empilhas umas pedras para ser reverenciados pelos gorilas, chimpanzés ou orangotangos... Nós no entanto, mesmo sendo tão pouco evoluídos, não buscamos tão estranha glória. Neste caso por que seres tão evoluídos quanto os habitantes de Órion haveriam de busca-la, a saber, de buscar reverências e aplausos nesta nossa terra??? Chega a ser bizarro!

No entanto a humanidade prefere apegar-se a ideia absurda de um deus interventor nos moldes fetichistas, de Ets, de Atlantes, reptilianos, iluminatis, etc a admitir que nós seres humanos somos produtos de um lento processo evolutivo - certamente concebido por uma inteligência suprema - que a terra é esférica e gira em torno do Sol, que nossos ancestrais ergueram pirâmides e traçaram linhas tão colossais quando as de Nazca, etc

Talvez parte dessas pessoas acredite que uma História feita apenas por humanos numa terra esférica que gire em torno de um Sol inserido numa galáxia colossal - dentre as bilhões de galáxias que compõem este universo - seja demasiado enfadonha...

Todavia caso paremos um pouco para refletir talvez cheguemos a conclusão de que o fato da vida unicelular surgida neste planeta há alguns Bilhões de anos ter se desenvolvido a ponto de favorecer a manifestação de uma inteligência capaz de planejar e executar tão grandes projetos - Como as pirâmides, a grande muralha da China ou as linhas de Nazca (Em que pese a tecnologia disponível e o esforço necessário) seja uma dos acontecimentos mais significativos do universo. Será que negando nossa capacidade e nosso histórico evolutivo não estamos eliminando o mais fascinante de todos os mistérios, o mistério de nós mesmos??? Seja como for não acredito que os antigos egipcios ou peruanos acolheriam bem as nossas negações e o nosso ceticismo, fruto de uma mentalidade eurocêntrica ou melhor dizendo modernista, segundo a qual nossos ancestrais jamais poderiam ter feito algo melhor ou mais interessante do que nós mesmos, decadentes filhos do século XXI d C...




sábado, 19 de setembro de 2015

O agostinianismo e a não realização do Cristianismo III - A expansão do agostinianismo e o conflito teológico no Ocidente medieval

 III - A expansão do agostinianismo e o conflito teológico no Ocidente medieval


No momento em que Agostinho enunciou sua teoria gracista e maniquéia muitos poucos dentre os ocidentais, mesmo elderes, foram capazes de aquilatar o impacto daquilo que estava sendo anunciado e como tais doutrinas viriam subverter por completo o sentido da vida cristã. Apenas uns poucos como o já citado Juliano, o diácono Anianus e o monge Celestius foram capazes de antever o futuro tenebroso da Cristandade.

Combalida em parte pelo abandono do ideal heroico da santidade e da perfeição e em seguida pela conversão aparente dos últimos pagãos, alias os mais obstinados, tornou-se a instituição Cristã meramente teórica, tombou no fideísmo e ficou irrelevante em termos de imanência.

A cidade de Cristo foi substituída pelo céu, o paraíso ou o além túmulo e este mundo abandonado as forças tenebrosas do mal e do pecado. Satanaz tornou-se de fato o 'deus' deste mundo, mundo que deveria te-lo banido em nome de Cristo e entrado numa nova ordem, a ordem ética do Evangelho. No entanto esta ordem deixou de ser instaurada e transferida para além dos umbrais da eternidade. Considero esta postergação uma tragédia, a suprema tragédia porque passou a humanidade.

O Oriente mais do que o Ocidente, por uma questão de cisão cultural e a precariedade dos meios de transporte e comunicação, tardou a dar-se conta do que estava acontecendo. No entanto quando veio a informar-se melhor não tardou a descortinar suas origens, caráter e suas decorrências. S Fócio, que é considerado um dos grandes esteios da Ortodoxia Cristã, apesar de ter Agostinho em conta de homem santo não deixou de precaver seus colegas a respeito de sua teologia equivocada. Em seu 'Mirabiblion' encontramos um fragmento de uma obra já perdida composta por Teodoro de Mopsuestes um dos maiores expoentes da teologia grega.

Neste fragmento Teodoro classifica o Bispo de Hipona como professor maniqueísta. Mesmo sem apreciar o gênio de Teodoro, S Fócio foi obrigado a concordar com ele e a declarar que os ensinamentos de Agostinho sobre o impacto do pecado ancestral eram incompatíveis com a tradição Cristã. Apesar disto até um russo como Berdiaeff acabou assimilando seus ensinamentos pessimistas.

Pessimistas porque Agostinho em sua teologia concede mais espaço ao pecado do que a graça, apresentando como Lutero, uma graça frágil e insipiente, sempre incapaz de consertar a essência do homem e de torna-lo Bom como Deus é Bom. Concede portanto mais espaço ao mal que transtorna o Bem do que ao Bem que jamais acontece neste mundo e concede mais espaço ao diabo ou anti Cristo a quem atribui o poder ou a capacidade de alterar radicalmente a ordem divina e de impossibilitar a concretização do plano divino no mundo material. Não posso ver otimismo nisto...

Foi com Agostinho que o neo Cristianismo aprendeu a anunciar mais o pecado, o diabo, o mal, o inferno, etc do que a verdadeira 'Boa Nova' centrada na virtude, em Cristo, no bem, no paraíso, etc. Desde então converteu-se o Cristianismo numa nova má e indesejável. A ponto de enunciar a rejeição por parte do próprio Deus, da maior parte de suas criaturas racionais predestinadas ao inferno... Por fim esse anuncio do abandono havia de engendrar mesmo a descrença, o materialismo, o ateísmo, o capitalismo, o comunismo, o fascismo e preparar os caminhos do pentecostalismo e do islã...

Seja como for menos de um século após a morte de Agostinho (529) e um período ainda mais amargo em termos de controvérsias, quando o SINODO (assim classificado com toda razão pelo teólogo protestante R Olson) de Orange - presidido pelo fanático Cesário de Arles discípulo de Próspero, cognominado 'o segundo Agostinho' - pretendeu impor aos latinos uma visão ainda mais estreita e rigorista do que a do Bispo de Hipona e já bastante próxima do calvinismo.

Todavia, graças a instalação do monge grego João Cassiano na cidade de Marselha, recebeu o agostinianismo as merecidas críticas. João Cassiano era discípulo de S João Crisóstomo e paladino da legítima teologia Cristã, semi pelagiana. Foram discípulos seus o Dr Faustino de Riez e S Vicente de Lerins 'pai' de todos os tradicionalistas ocidentais.

Alias, o 'Commonitorio' com sua ênfase a respeito do princípio da tradição e sua condenação feroz ao espírito da inovação no terreno da teologia, teve por escopo denunciar o agostinianismo como uma invenção desprovida de qualquer fundamento histórico. O que de certo modo reporta a S João Crisóstomo e seu sentido da tradição.

Por dois ou três séculos ainda, graças a atuação dos monges de Lerins, avançou esta controvérsia. Atalhando os passos do Agostinianismo e dos orangistas, que no século IX encontraram um campeão no monge Gottschalk, uma espécie de Agostinho redivivo ou de Lutero, Calvino ou Jansenio antecipado. Desda vez no entanto as coisas não foram assim tão bem para os adeptos do gracismo, pois apesar de apresentar-se como mero repetidor de tudo quanto dissera o hiponense, Gottschalk foi encerrado num mosteiro por ordem do metropolita S Himcmar. O qual classificou sua teoria a respeito da dupla predestinação como essencialmente ímpia e blasfema.

Passados mais alguns séculos no entanto já era o tal sínodo de Orange apresentado como Concílio Ecumênico e imposto a todos os fiéis pela igreja barbarizada de Roma. Sabemos no entanto que este sínodo provincial jamais recebera a aprovação de todos os Bispos gauleses, quanto mais de todos os Bispos latinos e que jamais fora conhecido, quanto mais aprovado pela parte Oriental ou grega da Igreja Católica. E no entanto foi graças a sua apresentação como Concílio ecumênico, e logo infalível e inquestionável, que o agostinianismo conseguiu quebrar todas as resistências e impor-se como a única teologia autorizada. Tudo graças a uma confusão ou farsa que subsistia ainda por ocasião do 'Concílio' Tridentino.

Forçoso é reconhecer, no entanto, que mesmo após a imposição do falso Concílio pelo papa romano e os esforços feitos por Bernardo de Clairvoux o agostinianismo não granjeou o status de teologia majoritária e muito menos de teologia única.

Apesar de estarem constrangidos a receber formal, mecânica e externamente decretos de Orange, parte dos teólogos latinos buscou elaborar soluções de compromisso ou de meio termo entre o agostinianismo e a teologia Ortodoxa. Esta busca por soluções de compromisso prolongou-se de Tomas de Aquino a Alberto Pighius em 1530. Muito papel e tinta foram gastos e surgiram tantos sistemas quanto cabeças, uns mais próximos do orangismo como o Tomismo e outros do semi pelagianismo como o de Cajetanus. Foi um esforço tão inutil quanto titânico mas que não foi capaz de impedir a reversão luterana de 1521.

Mesmo após o Concilio Tridentino, que limitou-se a fixar alguns decretos igualmente vagos e conciliatórios, jesuítas e dominicanos não exitaram e classificar uns aos outros como heréticos, tal e qual os franciscanos e dominicanos haviam se tratado alguns séculos antes pelo mesmíssimo motivo. Afinal a teologia jesuíta concedia amplo espaço a natureza enquanto que a dominicana, sem ser rigorosamente orangista, pendia para o agostinianismo (um agostinianismo suavizado).

O próprio Concílio Tridentino fora vago, superficial e conciliatório - se bem que simpático ao Orangismo - porque a par dos jesuítas chefiados por Lainez tomaram parte nele os dominicanos, os franciscanos e os carmelitas além é claro dos agostinianos. Os franciscanos inclusive é que assumiram o legado espiritual do Bispo de Hipona antes mesmo que a ordem agostiniana fosse fundada, formando uma frente com os agostinianos e os carmelitas em Trento. Os dominicanos ficaram no centro e os jesuítas, adversários jurados do luteranismo e da reforma protestante, no extremo oposto, vindicando os pressupostos do semi pelagianismo só que com uma terminologia distinta tomada a Filosofia.

Levado a cabo somente pelos jesuítas é possível que o Concilio de Trento tivesse de fato estabelecido uma verdadeira contra reforma anto agostiniana ou humanista. Todavia a presença dos 'orangistas' resultou em definições demasiado vagas e genéricas ou numa indefinição em torno da questão da graça. A qual não pode tornar a ressurgir alguns anos depois.

Tendo em vista acabar com tais discussões o papa declarou a questão insolúvel e proibiu os latinos de abordarem-na. A bem da verdade a igreja romana não fora capaz de sacrificar a doutrina daquele que encarava como uma espécie de super padre ou padre por excelência. E tampouco de prestar contas a razão, que revindicava os direitos da natureza... Diante disto ficou posta entre Cila e Caribdes ou como a sogra de pedro suspensa entre os céus e a terra.

Tal não se deu no entanto no espaço em que os orangistas - fossem franciscanos, agostinianos ou carmelitas - haviam conseguido vindicar por completo a reputação de seu mestre e impor sua malsinada teologia. Vindo este espaço a ser ocupado pela reforma protestante.

Por meio da reforma protestante as opiniões do Bispo de Hipona não são apenas retomadas mas desenvolvidas e impostas como dogma. Trata-se dum retorno completo, não ao Evangelho de Cristo mas ao agostinianismo, que é formalmente assumido. No caso do luteranismo por sinal, o triunfo foi completo e podemos defini-lo, sem medo de errar, como um sistema mais agostiniano do que cristão.

Outro é o caso do Calvinismo, que jamais veio a assumi-lo por completo até conhecer uma  significativa reversão levada a cabo por Tiago Ariminius. Tiago Arminius representa a busca por uma solução de compromisso por parte das consciências mais nobres que haviam aderido a revolução protestante. O agostinianismo nu e cru de Lutero conseguiu fixar-se apenas na Alemanha e Escandinávia e não deixa de ser assaz curioso o fato de que os povos do estremo Norte da Europa tenham pautado suas crenças nos ensinamentos de um padre africano. Prova de que as ideias circulam!

Mesmo após o concílio de Trento ainda houve na igreja romana um partido agostiniano ortodoxo chefiado pelo Dr Berti e pelo cardeal Henri Noris os quais sustentavam a condenação de eterna de todas as criancinhas não batizadas e com um pouco mais de sutileza e prudência a dupla predestinação, escudando-se quase sempre nas palavras do próprio Agostinho e apresentando-as como mera opinião teológica...

A este partido pertencia o teólogo Belga Jansenius. Após ter estudado exaustivamente a obra do Bispo de Hipona Jansenius ressuscitou os erros de Próspero, Cesário, Gotteschalk, Lutero e Calvino enunciando formalmente e como artigo de fé a doutrina da dupla predestinação. Disto resultou uma corrente ou grupo que chegou a conquistar certo número de adeptos na França de Luis XIV, até constituir-se formar uma seita cismática em Utrech na Holanda.

Uma após a outra, de Tomás de Aquino a Nicole e Duvergier foram tais discussões semeando dúvidas nos corações dos Cristãos mais simples e de boa vontade. Por fim, a reforma protestante e o jansenismo com suas disputas intermináveis em torno de Agostinho, da graça e da vontade, do monergismo e do sinergismo, do solifideismo e da virtude... saturaram a consciência Cristã e lançaram os fundamentos da incredulidade reinante. Pois enquanto o protestantismo assumia sua irracionalidade a igreja romana oferecia mais um mistério desnecessário a sua clientela.

Resta-nos esclarecer uma dúvida.

Se da divulgação e progressos do Agostinianismo na antiguidade, como sustentamos, resultou uma abandono do ideal heroico e dum estilo de vida rigorosamente Cristão por que tanto o calvinismo quanto o jansenismo constituíram sistemas excessivamente moralistas ou rigoristas?

Tal anomalia se deu por que tanto os Calvinistas quanto o Jansenistas - ao contrário dos Luteranos - recusaram-se a seguir Agostinho até o fim, professando na verdade um meio agostinianismo marcadamente no que diz respeito ao estado do homem antes de sua conversão ou da predestinação positiva para o inferno (dupla predestinação). Quanto a condição do convertido ambos os partidos admitiam que havia uma recuperação parcial (não total como ensinavam os semi pelagianos) por parte da natureza. Eis porque calvinistas e jansenista adotavam uma disciplina extremamente austera; tendo em vista a consolidação desta recuperação ou cura parcial. Eles acreditavam que uma disciplina rigorosa era capaz de restringir as ocasiões de queda ou pecado.

Eles bem podiam ter reproduzido o são equilíbrio da igreja episcopal. Não fosse a doutrina da dupla predestinação, a ignorância a respeito do próprio estado e o estado de angústia que disto decorre. Foi esta angústia ou pânico que introduziu calvinistas e jansenistas nas vias de um ascetismo monacal, o qual secularizado, após a perda da fé, serviu de impulso a ordem capitalista. Era todo um evitar os momentos de ócio e tranquilidade tendo em vista evitar qualquer pensamento mórbido em termos de predestinação e vida futura, e; consequentemente todo um dispersar-se, primeiramente nos exercícios religiosos e, em seguida no trabalho. Era um trabalhar para não refletir, um trabalhar para esquecer o drama da salvação, um trabalhar para não raciocinar... para fugir de si mesmo.

Um trabalhar que perdeu consciência de seus fins por ter se convertido em fuga...

Um fugir do pensamento!

Já os luteranos - pelo contrário - soltaram a corda... e degeneraram por completo. Até perderem a fé...

A igreja romana, curiosamente, foi pendendo mais e mais para o lado do luteranismo. Até tombar completamente nele e perder mais uma parcela de sua consciência Católica.

Hoje para a maior parte dos neos cristãos falar em Cristianismo como Lei, regra, norma ou REGIME DE VIDA não faz mais qualquer sentido. Eles só sabem fé Cristã, nada sabem em termos de vida Cristã ou de Cristianismo integral.







O agostinianismo e a não realização do Cristianismo II - A barbarização do Ocidente e a afirmação do Agostinianismo

II - A barbarização do Ocidente e a afirmação do Agostinianismo


Antes de levarmos adiante a exposição iniciada no artigo anterior temos de fazer uma observação importante.

O amor a justiça obriga-nos a prestar um esclarecimento necessário.

Rigorosamente falando apenas o luteranismo reproduziu integral e fielmente os equívocos do Bispo de Hipona. Numa escala superior ao calvinismo. Pois enquanto este limitou a admitir a monstruosa e abominável doutrina da predestinação e a inutilidade do livre arbítrio antes da adesão a fé, o luteranismo manteve de pé a tese segundo a qual mesmo após sua adesão a fé o homem permanece sendo escravo do pecado.

Queremos dizer com isto que para Agostinho e Lutero a liberdade humana jamais é reabilitada, nem mesmo pela unidade de Jesus Cristo i é a graça. Portanto, mesmo após sua conversão, permanece o homem enfermo, fragilizado e espiritualmente débil, ou seja, sempre sujeito a pecar, a reincidir, a cair, a praticar o mal, a cometer crimes; dos quais é eximido tendo em vista o sangue de Cristo e a fé somente. Pois é sempre incapaz de corrigir-se, de romper definitivamente com o pecado, de abster-se, de deixar de pecar, de ser santo, de granjear a perfeição.

Para Lutero o Cristianismo não passa dum sistema 'puramente' espiritual ou mágico, cujo principal objetivo é oferecer o perdão e a salvação a um ser essencialmente mau. Perdão que é oferecido repetidamente e salvação voltada exclusivamente para a outra vida uma vez que o destino do Cristão neste mundo é continuar pecando e nisto sua vida não se distingue em nada da vida dos pagãos ou dos infiéis. A única coisa que o Cristão tem a mais do que os outros é uma fé meramente teórica na disposição de Jesus perdoa-lo sempre, pelo simples fato de ter morrido por ele.

Enquanto o Oriente grego sustentava unanimemente que o pecado limitou-se a fragilizar a condição humana e que após o retorno do homem ao sagrado, esta condição não só podia como devia ser superada ficando o homem completamente sarado e sua vontade livre plenamente restaurada. Agostinho foi quem primeiramente lançou o veneno da duvida e do comodismo nos corações e nas almas daquelas elites que de fato não desejam assumir integralmente as exigências da nova fé. Foi Agostinho que forneceu aos hipócritas oriundos do paganismo a justificativa teológica de que precisavam para declarar: Non possumus!

Não podemos cumprir com as exigências de santidade e perfeição contidas no Evangelho pois somos criaturas frágeis e imperfeitas, sempre incapazes de perseverar na prática do bem e da justiça.

Foi Agostinho quem primeira vez enunciou esta doutrina comodista em torno da salvação mágica e facil a qual até nossos dias apegam-se as massas decadentes. Após ele foi Lutero que enunciou em alto e bom som a salvação NO pecado (e não a salvação Ortodoxa DO pecado) atraindo multidões! E como diz Kierkegaard rebaixou o ideal até então heroico, produzindo um sistema indiferente e vulgar, voltado exclusivamente para o além túmulo. 

O calvinismo, sejamos justos, jamais esgotou o fundo da taça, antes reverteu um tiquinho a Ortodoxia, admitindo que após a conversão, os predestinados tinham a livre vontade restaurada, o que associado a disciplina da igreja era capaz de preserva-los duma vida essencialmente pecaminosa e de predispo-los a uma 'meia' santidade, com quedas ocasionais ou mesmo raras. Foi esta concepção que permitiu a Calvino retomar, em parte, o ideal eclesiástico demolido por Lutero e a criar uma anti igreja ou seja uma igreja protestante; visível, hierárquica e autoritária, com seus sínodos e presbíteros!

Os próprios luteranos com seu apego fanático a Lutero e a Agostinho e sua insistência mórbida a respeito da miséria e incapacidade humanas, não puderam encarar a seita rival como uma espécie de novo papado ou novo Catolicismo, embora os dogmas dela muito pouco tivessem de Ortodoxos. A atividade dos calvinistas no entanto rivalizava com a dos episcopais, na medida em que admitiam a reabilitação da livre vontade ou uma cura, ainda que limitava.

Até aqui o século XVI...

Tornemos agora a Sociedade Ocidental e Cristã do século V e procuremos descobrir porque vias conseguiu o agostinianismo afirmar-se e sustentar-se no seio duma igreja até então ORTODOXA, sintonizada com o Oriente e, consequentemente semi pelagiana.

Aos olhos de alguns ao menos, admitida nossa interpretação acerca do Agostinho e do agostinianismo estaríamos diante de um autêntico mistério. Pois teríamos no século IV uma igreja como já se disse semi pelagiana e como tal, plenamente consciente de sua capacidade e responsabilidade e, pelo final do seculo V ou começo do século VI uma igreja agostiniana, enfim quase luteranizada.

Penso que a opinião acima não expresse com exatidão e fidelidade o estado das coisas tal como se teria passado.

Pois nem os sentimentos de unidade em torno da Ortodoxia ou comunhão com a parcela da Cristandade Oriental achavam-se intactos no século IV, nem havia uma igreja agostiniana no século VI desta Era mas apenas no século XVI com o advento do luteranismo. Grosso modo podemos dizer que do século III ao XVI, ao cabo de uns 1300 anos houve como um estado de passagem ou transição da Ortodoxia Católica para a fé agostiniana. Importa saber que este processo só se concretizou no século XVI por ocasião da assim chamada reforma protestante, quando os pressupostos de Agostinho foram retomados, desenvolvidos e apresentados como dogmas de fé.

Quanto a seu caráter inclusive, podemos descrever este período ou fase de transição como um período de tensão ou conflito. Conflito entre os elementos tradicionais da fé ou a autêntica consciência Cristã, semi pelagiana e um agostinianismo cada vez mais insidioso ou vigoroso. Ao cabo do qual, ao menos em certo espaço, o agostinianismo veio a triunfar por completo. Decorrendo deste triunfo o total abandono da proposta autenticamente Cristã e evangélica embasada no mistério da Encarnação ou da criação de uma estrutura social ou cidade Católica.

Como podería o agostinianismo, que se apresentava incapaz de transformar o homem, propor-se a transformar a Sociedade dos homens? A princípio com Agostinho e depois com Lutero o ideal de uma Sociedade Evangélica encarnada neste mundo sai completamente de cena, sendo definitivamente transferido para as nuvens do céu ou o além túmulo. Assim o Cristianismo é postergado e deixa de acontecer cedendo passo não só a um ideal de Sociedade absolutamente naturalista, mas a um ideal materialista, logo economicista.

Na mesma medida em que o novo Cristianismo, cujas bases haviam sido lançadas por Agostinho, abdica de seu mais nobre e elevado ideal, é este mais e mais assumido pelo Capitalismo. E enquanto este vai se alastrando pela terra antes Cristã, o Cristão alienado vai buscando mais e mais o reino descarnado do espírito puro ou do platonismo. A terra fica entregue aos poderes diabólicos do mal e do inferno e a única esperança possível posta no imaterial e invisível, como se o Deus dos Cristãos a semelhança de Javé ou Allá jamais tivesse se encarnado e assumido o mundo material.

Claro que semelhante movimento não poderia ter se dado de um dia para o outro ou seja em um ou dois séculos.

Noutra conjuntura teria sido o agostinianismo nascente denunciado as autoridades eclesiásticas ou Bispos e condenado num Concilio ecumênico. Sucede no entanto que a novidade aflora em circunstâncias atípicas i é num cenário de confusão e anomia em que os bárbaros germânicos estavam invadindo e assolando o que restava do Império Romano no Ocidente, destruindo os meios de transporte e comunicação, incendiando escolas e bibliotecas, assassinando os próprios Bispos, e trazendo o caos ao mundo antigo.

E já não havia proximidade e contato entre Ocidente e Oriente os quais principiavam a separar-se culturalmente um do outro e a formar duas unidades, a princípio politicas e em seguida culturais.

O próprio Agostinho (da mesma forma que Jerônimo e os mais padres antigos) mostra-se perplexo diante de semelhante estado de coisas, a ponto de ensaiar uma interpretação sociológica: a 'Cidade de Deus'. E morre enquanto os vândalos, recém chegados da Hispânia, cercam sua cidade episcopal.

Grosso modo podemos dizer que a ruptura cultural fora iniciada século e meio antes quando o escritor Cristão Tertuliano - igualmente africano como Agostinho - abandona a lingua grega ( em que havia sido codificado o Evangelho) e passa a escrever em latim. De modo que no fim mesmo daquele século (III) Victorino de Poetabiae é o último escritor latino a empregar o grego. Meio século depois, nasce Agostinho e descuida completamente da lingua helênica, a ponto de não aprecia-la ou mesmo -segundo alguns - ignora-la por completo. Passados alguns século apenas um punhado de Bispos e doutores latinos compreendiam bem a lingua grega, sendo capazes de ler e compreender das obras dos teólogos orientais.

Já em meados do século IV é a vez da igreja romana abandonar o emprego do grego em sua liturgia substituindo-o igualmente pelo latim barbarizado. A igreja africana já havia se adiantado neste sentido e banido o grego de sua liturgia ainda no tempo em que Victorino escrevia suas últimas obras. Este alienar-se da lingua grega e consequentemente da teologia oriental esta na gênese do agostinianismo nascente.

Por outro lado as condições materiais e culturais do mundo ocidental ou latino no século VI, i é após as invasões teutônicas, não beneficiavam de modo algum o exercício e cultivo da alta teologia nos termos de um Gregório de Nissa... ou de um Teodoro de Mopsuestes. Havia uma massa de germânicos analfabetos que sequer sabiam soletrar o latim vulgar e barbarizado do século IV... e que criados e formados na mitologia pagã achavam-se mais chegados a mitologia judaica do antigo testamento do que dos mistérios Cristãos propriamente ditos ou da antropologia católica.

Como esperar que tais multidões de neófitos chegasse a compreender o alcance da controvérsia agostiniana ou assimilar os pressupostos do semi pelagianismo? Seria como espera-lo de nossos pentecostais ou dos muçulmanos. Lamentavelmente a teologia que estava no acesso daquelas mentes era a mais vulgar, a agostiniana, com seu conteúdo mágico ou fetichista.

A miséria, o analfabetismo, a incompreensão da tradição oriental, a diluição da consciência Cristã, o éthos cultural, tudo enfim pendia para o agostinianismo. Formidável aqui foi a resistência esboçada pelas diversas formas, assumidas ou não, de semi pelagianismo até Alberto Pighius em 1530...



O agostinianismo e a não realização do Cristianismo I - A saga de Aurélio Agostinho

I - A saga de Aurélio Agostinho


A Encarnação de Deus no homem Jesus Cristo constitui a mensagem central da religião Cristã. É um aproximar-se a transcendência da imanência ou um contato.

Disto segue-se, como corolário necessário, que mesmo não procedendo ou sendo deste mundo, mas do mundo invisível, espiritual, imaterial ou ideal; deve a mensagem Cristã, a semelhança daquele que proclamou-a, encarnar-se nas estruturas do mundo material alterando-as radicalmente. Deixar de ser apenas teoria para ser também prática ou realidade. Nem se pode compreender a mensagem do Evangelho a não ser nos termos duma libertação INTEGRAL.

Não se trata aqui duma libertação platônica ou parcial concedida apenas ao espírito noutro plano; mas duma libertação total concedida também aos corpos e que principia já neste mundo antecipando a realidade do mundo futuro. Trata-se portanto duma proposta completa, posta para o homem todo e não só para a alma do homem.

Implica isto num ideal de cidade, reino ou sociedade: o reino dos céus, a cidade de Deus, o Império do bem... tal a proposta de Jesus Cristo. Precocemente no entanto, foi esta proposta contaminada e desfigurada pelo platonismo. Ficando este Reino restrito ao domínio das almas. Afinal Cesar e os demais potentados deste mundo não desejavam ser molestados... alteraram assim a dinâmica do Reino, para não terem seus costumes alterados.

É bem verdade que o Cristianismo jamais pretendeu exercer um controle direto sobre a sociedade humana ou o poder político. Judaísmo e islamismo apostaram no controle direto do político pelo religioso através da teocracia. O Cristianismo não; admitiu a separação já aventada pelos antigos gregos e deixou o poder político nas mãos do César.

Implica isto abrir de transformar o mundo?

Não caso o César fosse sinceramente Cristão reproduzindo os princípios e valores legitimamente Católicos. Caso o poder secular tivesse assumido a Ética do Evangelho e pautado suas operações políticas na consciência religiosa. Caso estivesse de fato persuadido ou cresse. O fato é que a conversão dos Cesares, dos nobres, dos ricos e dos poderosos fora superficial, visando apoiar a velha política de sempre no fundamento da Igreja.

Para tanto bastava-lhes uma fé meramente externa, formal, aparente, teórica e fetichista. Batismo, recitação de fórmulas, adesão a decretos, observância de certos rituais, etc Obviamente que todas estas coisas são elementos do Cristianismo ou aspectos da fé ortodoxa; mas não bastam, não são suficientes e não prestam para fazer alguém Cristão exceto se forem animadas pela CARIDADE VIVA.

É esta caridade viva que leva o Cristão converso a viver ou por em prática a Ética Cristã ou a lei Evangélica.

Temo que os reis e potentados que em determinado momento abraçaram a doutrina Cristã ignorassem que fosse caridade viva. Foram em sua maior parte conversões políticas ou fingidas. As quais introduziram no corpo da Igreja um viver viciado ou acomodado peculiar as massas pagãs, sequer atingidas pela Filosofia.

Foi toda um cultura pagã em crise ou estado de abatimento, artificialmente assumida pelo Cristianismo.

A vida Cristã por assim dizer foi saindo de cena... o ideal sendo rebaixado e a meta da fé obscurecida.

Em meio a este espetáculo deprimente, em que os césares buscavam domesticar o heroísmo Cristão, heroísmo responsável pela formação de vinte milhões de mártires, foi que Aurélio Agostinho ou Agostinho de Hipona, veio ao mundo na pequena Tagaste, situada no Norte da África.

Aparentemente a paz dos césares e a conversão dos reis e poderosos trouxe mais males a nova fé do que a própria perseguição. Durante a perseguição os Cristãos obstinaram-se em afirmar e em viver sua fé imaculadamente. Após a perseguição foram relaxando... até perderem todo o heroísmo, desesperarem do primitivo ideal (de transformar as estruturas deste mundo) e tornarem-se rancorosos catastrofistas como os antigos judeus.

Neste sentido o papel do Bispo de Hipona foi crucial.

Ninguém antes dele havia anunciado com tanta clareza a impossibilidade deste ideal.

Dissera Jesus: "SEDE PERFEITOS COMO VOSSO PAI CELESTIAL PERFEITO É." No entanto desde Agostinho, Lutero, Calvino... tornou-se tabu falar em perfeição nos meios do Cristianismo Ocidental. O pecado ou a debilidade da natureza foram arvorados como dogmas indiscutíveis. E de escola de virtude que era passou a instituição Cristã a ser encarada como um repositório de derrotados. Era um celeiros de bravos, converteu-se em asilo de frustrados... Desde então inverteu-se por completa a natureza da religião de Cristo.

Agora por que vias afirmou-se e alastrou-se tal infecção no organismo do Cristianismo a ponto de quase mata-lo?

Não é por acaso que Lutero era Agostiniano. Nem é por acaso que Agostinho, antes de sua conversão, fora MANIQUEU. Assim a tradição maniqueista chegou a Lutero e por meio de Lutero consumou-se a transformação.

Basta dizer que o maniqueismo encarava o corpo humano como essencialmente mau e a condição humana como naturalmente pecaminosa...

Por outro lado, ignorando todo o esforço realizado pelos padres gregos no sentido de fundamentar os motivos do Cristianismo no aparelho intelectual da razão e de fomentar uma fé teológica e esclarecida, Agostinho, tendo em vista a glorificação da fé, não exitou em fazer algumas críticas bastante destemperadas a razão, antecipando até certo ponto as impugnações de Gazalli, os anatemas de Lutero, as duvidas de Montaigne e Pascal e as cogitações de Kant... Sendo a frágil a natureza da razão e duvidosas suas constatações, era muito mais sábio e prudente adormecer no berço esplêndido da fé ou melhor do fideísmo intelectual.

Enfraqueceu o elemento unificador da razão para facilitar a aquisição da fé praticamente nos mesmos termos que Kant o filósofo de Lutero e reformador da Filosofia.

Enfraqueceu a vontade humana para enaltecer a graça em termos de ação ou comunhão divina.

A princípio aderiu formalmente a fé da igreja e conformou-se, ao menos externamente com a tradição semi pelagiana (vida Harnack). Inconscientemente no entanto, e por motivos de temperamento, manteve-se maniqueu. Foi apenas no fim da vida, que durante a questão pelagiana, no calor da peleja, forjou e apresentou suas teorias. E como pouco ou nada soubesse em termos de grego e de teologia oriental falseou tanto o significado dos escritos paulinos quanto os caminhos da teologia em construção. Produzindo ou tradição ou uma fé nova. Destinada a triunfar por completo no Ocidente ou na Igreja Latina.

Nos últimos anos de sua vida este Bispo arrogante (é Jerônimo de Stridon que apresenta-o assim) teve por adversário um homem verdadeiramente notável. Um eclesiástico erudito, profundo conhecedor do grego, representante da cultura antiga (ora Cristianizada) e amigo de S João Crisóstomo. Refiro-me a Juliano, Bispo de Aeclanum, na Itália.

O homem era versado nas categorias de Aristóteles e bastante hábil em termos de lógica. Bastou-lhe tomar os livros que Agostinho escrevera contra Pelágio em suas mãos para dar com os mais clamorosos absurdos. Pos-se a tirar conclusões lógicas de tudo quanto o Bispo de Hipona enunciara a respeito da graça com o intuíto de chegar ao absurdo e pulverizou por completo seus argumentos infantis. Obstinado, teimoso e irredutível Agostinho foi deixando-se guiar por seu adversário, e admitindo como dogmas um por um dos absurdos apontados até chegar as proximidades da doutrina da predestinação particular ou da graça soberana.

Juliano divulgou o testemunho de S Crisóstomo. Agostinho replicou dizendo que o Bispo de Constantinopla era um tolo que nada sabia a respeito da graça de Deus... e registrou, num de seus último livros sobre a graça, que era ela mesmo irresistível e soberana. Juliano compôs um último livro em que perguntava ao Bispo de Hipona se o mesmo Deus que convertia irresistivelmente os salvos recusava-se a converter a salvar os réprobos... No entanto quando este livro chegou a Hipona já Agostinho havia falecido. Ficando a obra do Bispo de Aeclanum sem resposta.

De nossa parte estamos firmemente persuadidos de que o Bispo de Hipona fosse incapaz de recuar ou de retratar-se e que pressionado pelo Bispo Juliano teria antecipado em mil anos as teorias de Lutero e Calvino sobre a predestinação absoluta i é a predestinação positiva dos condenados ao inferno. A morte no entanto fez com que parasse a beira do abismo. Contendo, em certa medida, a reversão total da fé por dez séculos.

Forçoso é reconhecer, todavia, que a doutrina de Agostinho sobre a graça e a livre vontade, a natureza e o pecado ancestral, o bem e o mal, contem já embutida ou potencialmente, a doutrina luterano/calvinista e que esta não passa duma conclusão ou inferência lógica feita a partir das premissas teológicas sustentadas pelo teólogo norte africano.