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sábado, 12 de maio de 2018

Progressos do imbecilismo contemporâneo

Como não sou partidário de um evolucionismo linear como Marx, Spencer, Comte, etc mas do um evolucionismo em 'aspiral' formulado por V G Childe, o qual considera a possibilidade de crises, recuos civilizacionais, declínios provisórios, etc não me assusto face a atual crise nem perco a esperança. Também o homem evolui ou progride enquanto tal, embora hajam crises, como a da adolescência, analisada com propriedade por Erickson. Homens e Sociedades, e Civilizações conhecem crises, mas as crises podem ser superadas, dentro de um quadro geral positivo.

A História conheceu já crises intensas - O primeiro período intermediário no Antigo Egito pós Fiops ou Pepi II, A destruição do império acadiano pelos gútios, A destruição da civilização minóica pela explosão de Santorini, a destruição da civilização Micenica pelos Dórios, O conflito entre epígonos e diádocos após a morte de Alexandre e por fim a queda do Império romano, a mais pavorosa de todas... e que pois fim a Idade Antiga.

Posteriormente repetiram-se novas e sucessivas crises, das quais a primeira foi a reforma protestante seguida pelas revoluções inglesa, francesa e russa, pela ascensão das diversas culturas de morte como o fascismo, o nazismo, o comunismo, o neo liberalismo, o anarco individualismo... pela afirmação de ideologias aberrantes como o ceticismo crasso, o relativismo, o subjetivismo, o positivismo... pelo assaque do islamismo, do pentecostalismo,do fetichismo, etc... pelo sucesso de diversas formas de alienação...

Eis onde chegamos...

A experiencialidade é contestada, o apanágio da razão ridicularizado, a Filosofia desmerecida (o ceticismo é a negação de toda Filosofia desde os tempos de Pirro de Elis cf 'Os céticos gregos' por Victor Brochard), o conhecimento científico endeusado por uns ou negado por outros, a religiosidade ética repudiada, a Ética natural ignorada, o humanismo vilipendiado, o estudo minimizado, as normas objetivas da produção artística postas de lado, o valor da vida humana relativizado, os direitos escarnecidos, a justiça apresentada como utópica, o quietismo louvado, a violência canonizada, o egoísmo promovido, o irracionalismo encarecido sob todas as formas, os preconceitos mais obscuros santificados, os extremos abraços com fervor, a cultura mal compreendida, todas as tradições desafiadas, toda mudança ou variação condenada... e por ai vai...

É como se todos os fundamentos da Civilização estalassem, ruíssem e viessem abaixo.

Diante disto, apenas para distrair-me, após ter assistido - como faço amiúde - mais um documentário arqueológico, desta vez sobre o antigo Egito, ou melhor, sobre a Esfinge, as pirâmides, os obeliscos e a origem de tais monumentos, fui, maroto que sou, espiar os Cocomentários...

Li algumas centenas, um mais medonho do que o outro e ouso reproduzir alguns:

Esse arqueólogo não sabe nada...

Um mistificador...

Charlatão...

Pirâmides são túmulos, onde já se viu???

Os antigos egípcios construíram as pirâmides, esse homem tá de brincadeira?

Como sempre ocultando os extraterrestres...

E a civilização Atlante, por que não disse nada sobre ela?

Alavancas e roldanas uma ova, aquilo só podia ser erguido mesmo com tecnologia de ponta vinda de outros planetas.

Quem não sabe que os egipcios ergueram tais pedras com o Mana ou com encantamentos?

Deveriam ter lido Sichtin.

Não me enganam porque li os deuses do Daniken

etc, etc, etc

99% dos cocomentários iram por este caminho ou linha de desracioncínio, chegando a vulgaridade e ao xingamento.

Pesquisadores de campo nada sabem... são imbecis, otários, idiotas, toscos, etc

Os comentaristas virtuais, muitos dos quais jamais puseram seus pés no Egito, na Suméria, na Grécia, na Itália ou na América central, sabem absolutamente tudo, porque leram a 'verdade' nas obras do Sichtin, do Daniken, do Churchward, do Braghine e de outros místicos e visionários que jamais provaram ou demonstraram suas opiniões ou crenças.

As pessoas repetem o que leram em livros escritos por charlatães, místicos, visionários, etc - os quais por sinal estão cheios de erros escabrosos - e negam-se peremptoriamente a aceitar pesquisas de campo ou estudos realizados seriamente profissionais!!! Para essa gente que vive repetindo baboseiras nada significa analisar a composição química de uma pedra, comparando-a com a composição química de outra, analisar a composição da terra, o fluxo das marés, o pólen, datar carbono 14, medir ossos, escavar tumbas e tempos, decifrar inscrições ou seja, realizar um trabalho verdadeiramente experimental. Elas simplesmente não compreendem o alcance disto tudo, dos materiais, dos fatos, da concretude... e dão preferência a suas crenças queridas...

E no entanto ciência história ou arqueológica não se faz com delírios, comunicações, visões, boatos, diz que me diz, etc mas com material coletado em campo e devidamente analisado.

É com fragmentos de restos de comida, pedaços de ossos, DNA, ruínas, cacos de cerâmica, etc que se faz a História real, quase sempre prosaicas para muitos...

É com fotos, gravações, satélites, etc que se faz a melhor geografia.

É com fósseis que se faz a melhor Biologia...

Não com bíblias, não com publicações sensacionalistas, não com afirmações gratuitas, não com suposições absurdas, etc

Ajuntem-se aos esotéricos ou místicos os criacionistas, os terraplanistas e os geocentristas e o 'samba do crioulo doido' estará completo!!!

Leram em seus livros sagrados, em seus almanaques, em seus manuais e esta lido; portanto não há qualquer necessidade de paleontólogos, arqueólogos, exploradores... enfim de pesquisa. Pois eles já foram, antecipadamente, informados sobre todas as coisas por meio de 'publicações'...

Talvez essas pessoas acreditem ou julguem que todo conhecimento foi ou é produzido por livros...

Quando é produzido por escavações, explorações, estudo de campo, analise de materiais, enfim de pesquisa ou de trabalho duro. Conhecimento não cai sobre a cabeça do historiador como chuva, não lhe entra nos miolos por osmose, não é produzido por mágica, mas, fruto do trabalho duro, perseverante e paciente... Tudo para que depois, um leigo arrogante e presunçoso venha questiona-lo, fundamentado não em evidências materiais, mas nas obras de Deniken, no antigo testamento ou mesmo numa comunicação espiritual ou psicografia... O cúmulo do absurdo.

O conhecimento do concreto é fruto da observação e da pesquisa de campo, os livros só servem para divulgar, jamais para produzir o conhecimento.

Ah mas o Daniken fundamentou sua interpretação em diversos monumentos. Monumentos que ele mesmo não encontrou ou escavou por não ser arqueólogo, mesmo amador como por exemplo Scheleimann ou Isidoro Falchi... Monumentos cuja autenticidade ou genuinidade ele não pode certificar por não ser arqueólogo... Por isso quando sua interpretação choca-se com a daqueles que escavaram tais monumentos ou estudaram-nos durante anos a fio, claro que fico com a interpretação destes... e não com a dele, uma vez que nada produziu de relevante ou nada encontrou. Tanto pior para um Sichtin ou para um Curchward, o qual declarou, como o fundador dos Mórmons, Joseph Smith, ter encontrado os arquivos de Shambala ou Lemúria, sem no entanto jamais os ter mostrado ou dado a público, exigindo fé...

Ora se você quer ter fé no Churchward ou no Sichtin, tenha fé, é um direito seu. Só não venha apresentar sua fé como ciência ou como algo concreto ou o que é pior ainda, exigir que tenhamos a mesma fé, negando assim o produto da experiência... Pois aqui sua atitude não se diferencia em nada da dos criacionistas com sua Torá ou seu Gênesis, da dos geocentristas ou da dos terraplanistas... Você apenas trocou de livro, mas o princípio é o mesmo: Livros, fé em livros, etc Nós temos um princípio mais seguro, o princípio concreto, da pesquisa de campo, da escavação, da análise de materiais, da tradução de inscrições deixadas pelos antigos, etc o que inspira uma confiança muito maior e induz a certeza absoluta.

Não creio na Batalha de Megiddo. Leio sua descrição nos painéis mandados gravrar por Tutmosis, o grande e estou a par das escavações realizadas no local... Não creio na Batalha de Kadesh, estou a par não apenas do relato mandado compor por Ramsés II, mas também do que fora redigido por ordem de Supililiuma, rei dos Hititas... Não se trata aqui de coisas sonhadas, ouvidas, escritas, etc mas de relatos de primeira mão confirmados por vestígios materiais.

Assim quando se diz que os antigos egipcios valeram-se de gruas, rodas, roldanas, rampas, fogo, talhadeiras de pedra e bronze, barcos, etc para extrair pedras, transplanta-las e grava-las; resultando de tais esforços as pirâmides ou a esfinge, temos elementos materiais ou vestígios que comprovam-no cabalmente; parte dos quais foram novamente testados, em nossa época, pelos arqueólogos, e com sucesso. Temos pinturas que representam tais esforços. Temos maquetes encontradas em túmulos de construtores. Temos ferramentas encontradas. Temos a análise de restos... Evidência de sobra!

Não há portanto qualquer necessidade de atribuir-se a construção de tais monumentos a atlantes ou Ets...

Basta aplicar a navalha de Ockam para deduzir que os Egípcios tudo fizeram e concluir pela genialidade de nossos ancestrais...

Fascinante é concluir que tais monumentos colossais foram feitos por homens como nós há cerca de cinquenta séculos.

Durante muito tempo acreditou-se que tais templos e túmulos haviam sido edificados a chibatadas por uma multidão de escravos. Hoje se sabe que foram edificados por uma multidão de trabalhadores livres, unidos pelo entusiasmo religioso ou pela fé... Coisa que hoje já não se sucede. Temos dificuldade para unir uma multidão colossal em nome de qualquer coisa... Portanto não podemos crer que os antigos tenham sido capazes de faze-lo, e nosso ceticismo falseia a realidade histórica e nos envenena.

A questão aqui não é encarar os incas ou os egipcios como incapazes, no sentido de que fossem culturas inferiores... É mais profunda e diz respeito a nós mesmos como espécie ou humanidade.

O homem contemporâneo, que parte de uma antropologia negativa, é cético, ao menos quanto a si mesmo e suas possibilidades. Ele não vê a si mesmo como capaz de erguer as pirâmides de Gizé ou de traçar as linhas de Nazca porque não vê a si mesmo como alguém capaz de conhecer por meio de seus sentidos, porque não encara a si mesmo como alguém capaz de raciocinar com propriedade e enfim porque não acredita em sua capacidade para atingir a perfeição ética ou moral...

Os antigos gregos, a exceção dos pirronianos, que importaram seu ceticismo ou pessimismo volitivo da antiga Índia (i é do Budismo), não tinham maiores dificuldades para admitir que os antigos egipcios haviam esculpido a grande esfinge ou construído as pirâmides e certamente encarariam as linhas de Nazca como produto natural da atividade humana. Nós no entanto fomos envenenados pela doutrina maniqueista ou agostiniana do pecado original i é da corrupção total da natureza e portanto de nossa fragilidade. Desde Agostinho a cristandade latina assentou a incapacidade ou a fragilidade humana como dogma inquestionável. E Lutero e Calvino manifestaram-se para reafirmar com mais intensidade ainda essa antropologia pessimista...

Via de regra a sociedade latina secularizou ou deixou de crer em tais tolices ou mitos desde o século XVIII. No entanto, a guize de repeti-los por mais de mil anos, lá ficaram seus resíduos envenenando a cultura... E fazendo-nos duvidar de nós mesmo, de nossa capacidade e da capacidade de nossos ancestrais. Nossos ancestrais no entanto, não duvidavam de si mesmos... E por isso, inspirados por outro tipo de antropologia - natural e positiva - construíram muralhas ciclópicas, pirâmides colossais, dolmens e menires, linhas e terraços de cultura... rivalizando uma com a outra.

Parte dessas construções atravessou os tempos e chegaram até nós. Do contrário negaríamos que tivessem sido feitas... Negar a existência dos terraços de cultura do Peru, da muralha da China ou da Esfinge não podemos. Neste caso fazer o que se estamos convencidos de nossa própria incapacidade??? Atribuí-las ou a supostos poderes sobrenaturais suscitados pela magia, como o mana... ou a civilizações imaginárias, como a Atlântida ou a Lemúria (cuja tecnologia era muito superior a nossa)... ou o que é ainda pior, a alienígenas ou extra terrestres, os quais teriam vindo de Órion ou das Pleíades e atravessado o universo com o propósito de amontoar pedras diante de nossos primitivos ancestrais, demonstrar um poder imenso e ser cultuados ou aplaudidos por eles...

Quem não vê que tais extra terrestres, supostamente tão evoluídos equivaleriam aqueles dentre nós que se embrenhassem no seio inóspito das mais distantes florestas com o objetivo de construir uns muros ou empilhas umas pedras para ser reverenciados pelos gorilas, chimpanzés ou orangotangos... Nós no entanto, mesmo sendo tão pouco evoluídos, não buscamos tão estranha glória. Neste caso por que seres tão evoluídos quanto os habitantes de Órion haveriam de busca-la, a saber, de buscar reverências e aplausos nesta nossa terra??? Chega a ser bizarro!

No entanto a humanidade prefere apegar-se a ideia absurda de um deus interventor nos moldes fetichistas, de Ets, de Atlantes, reptilianos, iluminatis, etc a admitir que nós seres humanos somos produtos de um lento processo evolutivo - certamente concebido por uma inteligência suprema - que a terra é esférica e gira em torno do Sol, que nossos ancestrais ergueram pirâmides e traçaram linhas tão colossais quando as de Nazca, etc

Talvez parte dessas pessoas acredite que uma História feita apenas por humanos numa terra esférica que gire em torno de um Sol inserido numa galáxia colossal - dentre as bilhões de galáxias que compõem este universo - seja demasiado enfadonha...

Todavia caso paremos um pouco para refletir talvez cheguemos a conclusão de que o fato da vida unicelular surgida neste planeta há alguns Bilhões de anos ter se desenvolvido a ponto de favorecer a manifestação de uma inteligência capaz de planejar e executar tão grandes projetos - Como as pirâmides, a grande muralha da China ou as linhas de Nazca (Em que pese a tecnologia disponível e o esforço necessário) seja uma dos acontecimentos mais significativos do universo. Será que negando nossa capacidade e nosso histórico evolutivo não estamos eliminando o mais fascinante de todos os mistérios, o mistério de nós mesmos??? Seja como for não acredito que os antigos egipcios ou peruanos acolheriam bem as nossas negações e o nosso ceticismo, fruto de uma mentalidade eurocêntrica ou melhor dizendo modernista, segundo a qual nossos ancestrais jamais poderiam ter feito algo melhor ou mais interessante do que nós mesmos, decadentes filhos do século XXI d C...




domingo, 25 de outubro de 2015

A miséria do neo catolicismo ou desencontros do tradicionalismo, do progressismo e da RCC

A miséria do neo Catolicismo


De todas as religiões e crenças nenhuma mais evoluída que o Cristianismo Católico, sobretudo sob as formas Ortodoxa e romana.

Nem é por acaso que certo número de incrédulos ilustres a exemplo de G Santayana, Whydan Lewis, O Wilde, Ch Maurras, A Comte, E Littré, S Weil,  B Russel, etc simpatizaram com ele e reconheceram-lhe as excelências. Fenômeno bastante comum até os anos 60.

Desde então, com a derrocada do papismo, deístas, agnósticos e ateus, adquiriram um argumento a mais e tomaram a dianteira.

Pelo simples fato da igreja romana ter se afastado a idealidade eterna constituída em torno do belo, do verdadeiro e do bom, mergulhando de cabeça no mundo da modernidade e associando-se as forças tenebrosas do biblismo ou melhor dizendo do protestantismo.

Abandonou sua magnífica liturgia e ritual elaborado a meio milênio. Aderiu a mentira do subjetivismo e do relativismo rompendo com o padrão Aristotélico incorporado por S João Damasceno e Tomas de Aquino e chegou ao fundo do poço perdendo por completo a noção de santidade concreta pautada no amor ao próximo e serviço fraterno até tombar no fideísmo luterânico e proclamar um novo modelo, fácil e falso, de redenção.

Aproximou-se além disto da superstição Biblista e repugnante doutrina na inspiração plenária do livro, retomou os mitos e fábulas do judaismo antigo, indispôs-se com a ciência e tombou no fetichismo crasso!

Esta infecção mística atingiu até mesmo aqueles que não se deixaram influenciar diretamente pelo protestantismo e pelo modernismo, como os tradicionalistas. Este no entanto aderiram ao neo marianismo aparicionista e estabeleceram compromisso não menos nefasto com o liberalismo econômico. De modo que parcela alguma da igreja romana ficou a salvo desta conflagração terrível e todas as suas partes apodreceram.

Quanto aos modernistas devo dizer que os progressistas adeptos da Teologia da Libertação aderiram em parte a heresia modernista ou a crítica iniciada pelos protestantes liberais em torno dos mistérios do Cristianismo, chegando a inclusive a repudiar o dogma da Encarnação ( i é ao padrão niceno atanasiano), a doutrina da presença real do Senhor no Sacramento, a fé na virgindade perpétua de Maria Santíssima, etc confinando com o materialismo e com o ateísmo; além de terem adotado um linguajar técnico de origem marxista a que os fiéis não estavam afeitos impossibilitando um diálogo verdadeiro. E também se mostraram partidários decididos da demolição litúrgica.

Não é para admirar, de que, apesar de seus objetivos precipuamente Cristãos, pautados inclusive na consciência da Igreja, no Evangelho da verdade e na tradição pura, tenha a Teologia da Libertação falhado miseravelmente devido a sua ruptura quase que total com o dogma eclesiástico e a linguagem comum ao Catolicismo. Grosso modo podemos afirmar que não precisamos de uma terminologia marxista ou técnica para denunciar as mazelas do liberalismo econômico, pois contamos com o testemunho eclesiástico dos antigos padres e com a palavra perfeita do Evangelho.

Longe de nós repudiar a crítica científica elaborada por Karl Marx em torno do modo de produção capitalista (Referi-mo-nos aqui não ao manifesto comunista mas ao 'Capital'), coisa que todo pastor de almas ou fiel instruído deveria conhecer. Nossa crítica aqui incide principalmente sobre o emprego de uma terminologia marxista 'empolada' ou de um vocabulário sociológico (sociologuês) com que o povo católico não estava afeito. Não precisamos falar como Marxistas mas exprimir as críticas justas elaboradas por Marx em termos Católicos fornecidos pela piedade.

Nem precisamos abjurar de nossa fé ancestral ou demolir as formas litúrgicas para denunciar as injustiças e clamar contra a exploração do homem pelo homem. É perfeitamente possível proclamar a libertação integral do homem, professar a fé imaculada, manter o brilho do culto litúrgico e manter-se nos limites da comunhão histórica. Neste sentido o progressivismo esquerdista assumiu posicionamentos iconoclásticos que drenou a fonte de suas forças e comprometeu suas bases. É para deplorar esta incompreensão...

Nem posso compreender como aqueles que porfiaram manter o brilho do culto e a imutabilidade dos dogmas foram seduzidos pelo delírio materialista economicista do liberalismo (capitalismo), enquanto que aqueles que aproximaram-se dum conceito elevado de justiça, abjuraram miseravelmente da fé ancestral, romperam com a verdade e sacrificaram a beleza simbólica da hierurgia. Após o Vaticano II consumaram-se tais rupturas e desacertos e instaurou-se o Caos da igreja latina.

Mas não o 'Caos' absoluto.

Não nos enganemos pois não havia a igreja romana, presa do fatimismo ou do marxismo, chegado ao fundo do abismo e miséria suprema; a qual converteu-a em espantalho face a intelectualidade universal!

Tal missão estava reservada ao que chamamos RCC.

Esta mais do que o tradicionalismo incoerente amancebado com o liberalismo e mais do que a teologia da libertação amancebada com o comunismo, manchou a reputação desta igreja até então e sob certos aspectos venerável. Com a RCC pomos nosso dedo no fundo da chaga, da ferida ou do câncer que devora insidiosamente a consciência das massas católicas.

Nada de mais alienígena, nada de mais espúrio, nada de mais alheio, nada de mais oposto ao espírito do Catolicismo do que a alienação ou a abominação Carismática.

Epifenômeno do pentecostalismo introduzido no papismo por um grupo de 'fiéis' americanizados ou americanizantes... cujas almas certamente eram já protestantes e que haviam bebido nesta cultura denunciada não só por Ch Maurras mas por Vailant, Dandier, Aron e outros tantos. Nem podemos deixar de concluir que esta conjuração capaz de corroer a consciência Católica e destruir sua cultura até os fundamentos foi ali forjada e arquitetada com fins claramente políticos, a saber, fazer frente a teologia da libertação e se possível obscurecer o sentido da doutrina social da Igreja!

Antes de romper com a igreja romana -  a qual havia passado após abandonar o protestantismo em que fora criado - e fazer-me Católico Ortodoxo, tive a ocasião e oportunidade de conhecer de perto a RCC e de conviver com seus adeptos. Posso dizer com pleno conhecimento de causa que jamais conheci um deles sequer que estivesse familiarizado com a doutrina social da Igreja... Nem se trata de crítica-la superficialmente como fazem os tradicionalistas, mas de ignora-la por completo. Parte considerável dos fregueses carismáticos sequer sabe que existe uma doutrina social elaborada por sua igreja.

Uma condição assustadora.

Devo dizer todavia que ainda não tocamos ao fundo do abismo!

Antes do vaticano II ou do advento da RCC tinhamos padres cientistas. Sacerdotes familiarizados com as diversas escolas e correntes da alta filosofia, com os estudos psicológicos, com os intrincados arcanos da sociologia, com a experiencialidade pedagógica, etc, etc, etc Basta-me citar um G Mendel, um G Le Maitre, um Teilhard de Chardin...

Hoje que temos???

Padres saltadores, malabaristas, feiticeiros, xamãs, pajés, charlatães, animadores de auditório, 'cantores' (sic)... cópia suja e mal lavada de mediocridade protestante. Um bando de alarves repetidores de versículos e contadores de 'estórias' sem graça tomadas ao antigo testamento. Adversários do conhecimento científico! Supersticiosos! Toscos! Beócios! Criacionistas! Puritanos!

Pela RCC plagiou o romanismo o que há de mais abjeto no pentecostalismo! Reproduziu o que há de mais viciado, corrompido e nocivo no protestantismo! Copiou o que há de mais vulgar e grosseiro na espiritualidade norte americana! Abjurou de seus ideais, inverteu seu caráter, minou as bases de sua cultura e tornou-se desprezível!

A RCC converteu a igreja romana numa ruína desoladora, numa assolação!

Que os protestantes tenham chegado a tal ponto levando adiante os princípios e enunciados por seus pioneiros, os reformadores é perfeitamente compreensível e até desculpável. Que a igreja romana tenha incorporado a si uma série de elementos opostos a sua consciência, a sua tradição e sua cultura é o cúmulo do absurdo!

Basta dizer que ao genial Pe Leonel Franca, a um Bastos Dávila, a um Julio Maria (do Rio de Janeiro), a um Senna Freitas... sucederam o Jonas Abib e o Marcelo Rossi, elementos notáveis pela imperícia e falta de conhecimentos no campo da sagrada teologia para não falarmos no campo das ciência humanas.

Diante disto como admirar-se de que a intelectualidade, antes atraída por esta igreja, torne-se mais incrédula, azeda e indiferente dia após dia e que avolumem-se os contingentes do deísmo e do agnosticismo???

Que esperar duma igreja que perdeu seu rumo, rompeu com suas fontes e raízes e desamparou seus filhos e admiradores mais ilustres?

Se a igreja romana chegou aos confins do fetichismo e da magia renovando a falsa crença nos milagres e convertendo-se numa espécie de 'bazar', que esperança podemos ter?

Não ousem portanto os neo papistas a ministrar-nos qualquer tipo de lição!

Não receberemos calados qualquer lição ou reprimenda de quem recusa-se a levar as últimas consequências os princípios e valores afirmados por sua religião.

Não pouparemos de modo algum a esses neo romanistas que creem poder viver a moda protestante, assimilando princípios e valores de origem luterânica ou calvinista.

Não levaremos a sério estes homens estúpidos que não levam a sério suas próprias crenças.

Admiramos em espírito o espírito do Catolicismo e portanto do romanismo ANTERIOR A REVOLUÇÃO do vaticano II. Período em que os papistas estavam ainda unidos em torno dos três princípios: o Belo, o Verdadeiro e o Bom.

Quanto a este neo papismo fatimista/liberal, comunista ou pentecostal só nos resta deplorar sua infinita miséria!

Nós no entanto mantemos não só nossa autonomia mas franca oposição a todos estes venenos modernos: da economia de mercado ao bolchevismo passando pelo neo marianismo aparicionista, pelo misticismo desbragado e pela heresia protestante; de todas estas ideologias nos afastamos e mantemos prudente distância como de uma infecção.

Oxalá os Católicos de boa fé investigassem suas tradições e valorizassem o que é seu.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

A sexta monarquia... ou a afirmação das monarquias tupiniquins

Depusemos D pedro II.

Novos tempos.

Era necessário arquitetar uma nova estrutura mais evoluída, algo semelhante a República ou democracia.

Incoerentes não começamos por criar uma cultura democrática.

Quero dizer que não realizamos um plebiscito consultando os interessados i é o povo, a sociedade, os brasileiros.... indagando se preferiam a monarquia ou um novo regime.

Penso que seria contra producente. A monarquia venceria.

Por isso fizemos um golpe e impusemos anti democraticamente a forma republicana.

Sobrepusemos uma forma republicana a uma cultura ou imaginário monárquicos arraigados por uma tradição secular.

Do que resultaram diversos golpes e reversões ditatoriais; sempre tendo em vista 'salvar' a democracia....

Chega a ser uma história rocambolesca a destes golpes de 91, 30, 64...

Disse que a monarquia sairia vencedora num plebiscito e por diversas razões.

Uma delas por sinal psicológica e relacionada até certo ponto com o sucesso deste regime proclamado velho, antigo, ultrapassado...

Não eu não sou monarquista, pelo contrário, sou policrata, ou seja, adepto da democracia direta.

No entanto como dialogo com a cultura numa perspectiva realista busco compreender as razões da monarquia.

E fazer justiça ao velho Pedro II, o Imperador democrata...

Justiça é algo que se faz a qualquer um independente da ideologia, da crença, do partido, da concepção social, etc

Torne-mos porém as razões da monarquia ou melhor a razão, porque contentar-me-ei com assinalar uma apenas.

Parte das pessoas tendem a encarar os governantes, mesmo os representantes da democracia formal, como cuidadores, enfim como substitutos de seus pais...

Ninguém melhor do que o rei ou a rainha com sua presença constante encarna a imagem do pai ou da mãe.

Para alguns esta relação parece ser reconfortante.

Pois o pai é alguém que não apenas cuida mas em certo sentido livra-nos da responsabilidade e protege-nos da liberdade na medida em que decide as coisas por nós.

Sempre que errar poderemos culpa-lo.

Jamais nos tornando culpados.

Por incrível que pareça certo número de pessoas aspira porque outros tomem decisões no lugar delas. Não estão preparadas para optar, decidir, julgar, determinar, etc

Então consideram vantajoso ser tuteladas.

Sentem-se protegidas inclusive.

Trata-se com certeza de pessoas imaturas, que não cresceram interiormente, que não desenvolveram suas capacidades.

Pessoas inseguras desejam que a existência de seus pais prolongue-se para sempre.

De modo que continuem a decidir por elas.

Exceto no caso de se casarem com um cônjuge autoritário que reproduza a relação nos mesmos termos de dependência.

Quando não há alguém que controle e decida apegam-se a imagem genérica do pai, assim a do papa, assim a do rei...

O qual passa a ser identificado com o Pai dos crentes ou com o pai comum da nação...

Nem se pode negar que para algumas mentes demasiado leves esta imagem deste pai comum fortaleça e consolide os laços sociais...

A fantasia cria laços artificiais sem que haja qualquer relação ontológica ou essencial. A função social no entanto é preenchida... e possíveis conflitos inclusive, suavizados, pela presença da imagem paterna no governante.

De minha parte não posso deixar de considerar este tipo de relações apolíticas com decorrências políticas ou de relação política disfarçada como algo bastante primitivo e vulgar.

O homem ou a mulher amadurecidos devem assumir o ônus da liberdade e da responsabilidade fazendo suas opções tanto na esfera da vida privada como na esfera da vida pública, neste caso exercendo a cidadania e objetivando administração do bem comum.

Devem ser formados para a cidadania desde pequeninos na perspectiva da cultura. Implica que os pais criem seus filhos para o mundo ou para a vida, para os outros, para a autonomia... Os pais no entanto tem dificuldade para compreender esta dimensão democrática da educação e visam, ao menos parte deles, manter os laços de dependência e sob a forma mais estrita.

E criam cidadãos dependentes... excelentes para as monarquias asiáticas ou para as necessidades artificiais do mercado, mas inaptos para a gestão democrática da comunidade.

Morto o pai sobrevive na figura do rei...

A sobreposição arbitrária de uma forma republicana sobre este tipo de cultura mostra-se sempre inócua.

De modo que em qualquer situação de crise ou perigo o 'ditador' ou déspota é acolhido entusiasticamente como salvador da pátria.

Não as pessoas não aspiram por ser autoras de sua redenção.

O neo Cristianismo - com a ideia monergista de que deus salva o homem sem o homem e de que o homem nada tem a fazer- a seu tempo, reforça ainda mais esta concepção comodista segundo a qual devemos esperar uma salvação a ser dada por outro sem que nada tenhamos a fazer...

E perpetua esta cultura de pais salvadores...

Nem somos capazes de encarar a nós mesmos como agentes da redenção comum.

Tudo nos leva a repousar nos braços da monarquia ou da ditadura como em berço esplêndido.

Evidência de que a cultura permanece e prevalece temos a mão cheia...

Servindo inclusive a propósitos ideológicos.

Por menos que aprecie a monarquia devo reconhecer que tal rei tal povo.

O povo tende a assimilar os costumes de seu modelo, o rei.

Eis porque preferiria um Pedro II, o erudito barbado que frequentava as sessões do I H G B, a um rei imbecil, estúpido ou degenerado.

Se há que se ter rei e nobres que sejam probos, virtuosos, honestos... enfim dignos de imitação pelos méritos do espírito cultivado e não uns porcos de Circe, como diria Sócrates.

Em tais esquemas hierárquicos a virtude tende a ser assimilada verticalmente.

Melhor que os reis e príncipes sejam temperantes, operosos, justos, bondosos, pacíficos, instruídos, amigos da ciência...

O velho Pedro II foi mais ou menos tudo isto. Foi melhor que muito presidente, a exceção talvez de Getúlio, Juscelino, Jango e Lula. FHC não dá a unha do dedo mindinho do grande monarca bragantino...

Eis porque a cultura reteve certo saudosismo da monarquia qual fosse nossa Belle Époche tupiniquim...

Ficou o costume de designar pela alcunha de rei aquele que na Sociedade destacava-se dos demais; assim rei da voz para o melhor cantor e rei do gado para o melhor pecuarista...

Disto apropriaram-se os meios de comunicação de massas, especialmente a TV globo com o intuito de a um tempo resgatar e fortalecer este imaginário decadente e a outro com o intuito de influenciar negativamente o povo, tornando-o mais bronco, deseducado, alienado e rude.

Forjou pois a imprensa falsas monarquias de caráter plebeu e profano colocando-as a serviço de falsos valores.

Eis porque ouvimos constantemente as expressões: 'rainha dos baixinhos', 'rei da melodia', 'rei do futebol'... designando estes falsos monarcas da vulgaridade.

Particularmente nada tenho contra a sra Maria da Graça Xuxa Menegel, absolutamente nada. Muito pelo contrário até chego a admira-la por sabe-la solidária face ao sofrimento e a dor alheia e mantenedora de diversas instituições benemerentes. Além de sabe-la perseguida e caluniada pelos fanáticos religiosos.

Nem por isso aprecio-lhe como cantora ou dançarina; embora algumas de suas músicas tenham certo encanto e sejam úteis para entreter as crianças.

Nem por isso posso encara-la como uma espécie de rainha das crianças ou dos pequeninos.

Implicaria reconhecer que todos os pequeninos teem os mesmos gostos e que todos devem apreciar o tipo de ritmo cultivado por ela...

Considero esta promoção de um culto pessoal e acrítico na fase infantil da existência como algo perigoso senão nocivo. O mito fica enraizado e o 'ídolo' passa a ser encarado como uma espécie de super homem ou como uma espécie de criatura sobre humana... podendo ser transferido para o plano político ou religioso muito facilmente e com consequência catastróficas.

Não são súditos ou bobos de corte que devemos formar mas seres humanos criativos, autonomos e com iniciativa própria.

Triste ver como nossas meninas e garotas vão ficando padronizadas na medida em que imitam os gestos e expressões da tal rainha...

Compreendo até que seja uma fase. Coisa a ser superada e suplantada não alimentada.

No entanto há coisa muito pior do que a realeza do X...

Tomemos o sr Braga, digo Roberto Carlos. A imprensa ousa proclama-lo como rei da música com que direito? Alguém disse, a imprensa reproduziu e os demais continuaram a repeti-lo como um dogma, em que pese haver vozes muito mais belas e cultivadas do que a sua, como a do falecido Agostinho dos Santos ou a do nosso Mauricy Moura, dentre outros é claro.

No entanto após a TV globo imprimir o rótulo ou a etiqueta, fica o personagem entronizado e já não se pode questionar a realeza artificial e ficticia sem acirrar os ânimos da massa.

Importa questionar a quem aproveita tais títulos.

Quem lucra com eles?

Obviamente que atendem a uma necessidade variegada, a qual não é estranho o Mercado!

Compra-se aquele disco, fita ou DVD porque é do 'rei' e não aquele outro porque é de plebeu.

E não se dá qualquer chance para o plebeu provar que canta melhor ou que seu repertório é mais belo porque o título de rei concedido pela imprensa condiciona a maior parte das pessoas.

É um tipo de canonização profana destinada a eliminar o senso crítico.

Deve-se gostar do 'rei' afinal todos dizem que é o 'rei' e até fica chato discordar!

Cria-se um culto.

Já não é questão de música, mérito, beleza ou valor mas de mística, como aquela que envolve roupas e produtos.

Ser 'rei' coroado pela mídia equivale a ser de marca, trás assim a enganadora mística do nome.

Afinal que é um nome?

Até os monarquistas mais zelosos conviriam que o que faz um rei não é o nome ou o título mas a pessoa ou seja conduta.

Assim o 'título' de rei não é garantia absoluta de qualidade.

Ivan IV o terrível foi rei... como Henrique VIII foi rei...

Midiaticamente falando no entanto ser coroado rei por meio de um pacto é a melhor garantia de sucesso e lucro.

Há no entanto coisa bem pior.

Porque duma maneira ou de outra tanto a citada apresentadora loira como o sr Braga parecem-me cidadãos mais ou menos virtuosos, e nada há que pese muito gravemente sobre suas reputações.

Toquemos agora ao monarca supremo ou imperador midiático, o tal rei do futebol, sr Edson Arantes do Nascimento. Nada temos de pessoal contra ele.

Não o conhecemos. Conhecemos de vista sua mãe Dna Celeste, senhorinha que julgo tão boa quanto minha veneranda mãe.

Como não apreciamos modas ou imposições sociais nem de futebol gostamos.

Nem podemos negar ou julgar o talento deste sr como jogador. Não o pretendemos, não ousamos, não podemos...

Sapateiros não ultrapassamos os sapatos!

Todos sabem no entanto que o Brasil contou com muitos outros futebolistas de valor.

Quando era menino recordo-me de Zico, de Sócrates e outros.

No passado remoto houve um Friedenreich 'el tigre' e mais próximo de nós um Garrincha.

Não entendemos bem o assunto mas julgamos que a escolha do sr Pelé deva ser puramente subjetiva e não objetiva.

Até somos levados a crer que este mito foi construído com finalidade social e política pelo simples fato do sr E A N ser negro.

Afinal sabemos muito bem que após a abolição formal da escravatura proclamou-se a República sem que os negros alforriados tirassem qualquer proveito disto.

Alias parte dos apoiantes do novo regime compunha-se de escravocratas paulistas malquistados com a princesa Isabel e sedentos de vingança. Triste fato, mas real...

Falou-se muito em liberdades mas os negros ficaram ai largados ao deus dará ou a ver navios.

Programa algum foi elaborado tendo em vista sua inserção na boa sociedade brasileira. Oportunidade ou chance alguma lhes foi dada.

Até serem implantadas as 'cotas' para afrodescendentes com grande escândalo por parte das elites brancaronas.

A propósito das políticas afirmativas introduzidas pelo governo dos trabalhistas a partir de 2003 ocorre-me a famosa frase de Jacob Gorender: 'No Brasil, implementar pequenas reformas é ser revolucionário.' devido ao caráter ferozmente conservador de nossa sociedade patriarcal e latifundiária. Caráter que o fundamentalismo religioso emergente veio a fortalecer ainda mais nos últimos anos.

Tornemos porém ao mito do Pelé; jovem negro de origem humilde que fez carreira e tornou-se milionário jogando bola...

Como o negro não havia sido inserido na Sociedade brasileira, encontrando-se discriminado e posto a margem dela, forjou-se um mito, o mito Pelé.

E este mito contém uma mensagem perigosa:

"Qualquer jovem negro ou pardo da periferia pode vencer na vida e tornar-se milionário jogando futebol OU SEJA SEM A NECESSIDADE DE DEDICAR-SE AOS ESTUDOS E INSERIR-SE NO MUNDO ACADÊMIA."

Formação superior, escola, estudo... para os meninos brancos filhos das elites. Ao negro ou pardo ficava a esperança ou a ilusão de tornar-se rico e famoso jogando futebol.

Os resultados desta mensagem subliminar ou deste currículo oculto os professores que atuam na periferia sabem de cor. Parte da clientela masculina, especialmente negra ou parda, preocupa-se apenas com as aulas de educação física, as quais por sinal, resumem-se a partidas de futebol. Quanto as demais categorias de estudos é comum ouvi-los declarar: "Não preciso estudar isto, vou ser jogador de futebol como o Ronaldo ou o Neymar!"que são os meninos de periferia que substituiram o Pelé no imaginário deles.

Não poucos sonham com o ficar facilmente ricos, ir para o exterior e namorar moças brancas ou mesmo loiras, residentes em 'locais melhores'....

Trata-se de algo muito triste mas o educador que trabalha com a clientela mais humilde, via de regra, não tem foco no vestibular ou na faculdade. Já exauridos pelo trabalho não cuidam fatigar-se e sacrificar-se ainda mais estudando... afinal puseram em suas cabecinhas de vento que há um modo muito mais facil de vencer na vida: tornando-se craque de futebol como o Pelé...

No entanto quantos e quantos Pelés existem no Brasil???

Em que isto muda uma realidade social partilhada por milhões???

Há única coisa que poderia muda-la seria a democratização do ensino compreendida como acesso livre e igualitário a educação superior.

É isto que os afrodescendentes deveriam cobrar e por isso que deviam mobilizar-se ao invés de manterem seus olhos e os de seus filhos fixados neste ídolo de pés de barro que é o sr Pelé.

Neste sentido a gênese do mito Pelé é essencialmente reacionária.

Por injetar falsas esperanças em nossos jovens de periferia e faze-los abdicarem da única esperança concreta que teem: a instrução, a formação a educação superior.

Agora como as esperanças falsas vão morrendo precocemente ao curso da vida, ao mito do Pelé e a ilusão do futebol sucede muito facilmente a imagem do Fernandinho Beira mar (ou do líder da boca mais próxima) e a ilusão do tráfico com a mesma promessa de acesso facil a riqueza.

Resta-me finalizar deplorando a atitude deste falso monarca que não soube ser pai - logo ser humano - por ter repudiado até o fim a sra Sandra Arantes do Nascimento sua filha ilegítima.

Que tenha tido uma filha bastarda é plenamente compreensível e até comum no cenário cultural brasileiro.

Agora saber ter uma filha em tais condições e renega-la até o fim de seus dias; carne de sua carne e sangue de seu sangue é absolutamente monstruoso. Notório pela falta de ética ou como se dizia antigamente pela imoralidade.

Se este homem é rei, só pode ser rei da imoralidade, da crueldade, da vileza...

O pior no entanto é que as massas guiadas pelos meios de comunicação e pela propaganda, assimilam o comportamento destes falsos monarcas, idolos podres e mitos inconsistentes... e vai degenerando a Sociedade de geração em geração.

Tornando-se mais individualista, mais intemperante, mais insensível, mais rude e mais grosseira.

Em tempos de Pelé D Pedro II não faz mais escola!