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sexta-feira, 2 de agosto de 2019

As empregadas na literatura clássica.

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Há no mínimo duas Nastasyas na obras de Mestre Dosto.

Uma casa-se com Mishkin e leva já sobrenome: Pilippovna. A outra, de 'Crime e castigo' não passa de uma criada sem sobrenome, a que chamam simplesmente Nastasya.

Ao contrário da primeira a segunda não é personagem de primeiro escalão nas crônicas de Rodion, mas personagem de segundo plano, o que não é suficiente para tirar-lhe o encanto, ao menos quando serve chá ao atribulado hóspede esfaimado...

Esta Nastasya como tantas Marias ou Creuzas espalhadas pelo Brasil e mesmo pelo mundo, não tem sobrenome, talvez por pertencer a grande massa dos que servem e produzem. Os marxistas costumam classificar tais pessoas como Lupem e as elites a trata-las com desprezo e até mesmo negar-lhes os mais elementares direitos, e há pouco vociferaram quando o Estado brasileiro concedeu-lhes um amparo bastante sumário.

Apesar de estar a margem da obra clássica, Nastasya não deixa de ser interessante, já por ser pintada por Dostoevsky com a acuidade psicológica que lhe é própria ou singular. E a partir do que narra muito resta a imaginar-se. O mestre russo é tão fascinante que narra ou fala justamente quando omite ou silencia. É consumado em sua arte...

E ficamos nós a perguntar-se sobre um possível amor platônico cultivado pela serviçal. Cujo objeto seria o conturbado Rodion...

Amaria Nastasya e por isso apagar-se-ia face a um amor problemático ou impossível? Permanecendo sempre ali como fiel escudeira ou anjo tutelar? A exemplo das esposas de Carlyle, de Lord Beaconsfield ou da fiel Carolina, esposa de mestre Machado???

Intuo uma certa devoção por parte de Nastasya face ao rebento de Pulchéria Românovicht, associada a diversas virtudes como a compaixão, a discrição, a praticidade... enfim tudo quanto aponta para uma sabedoria divina. No entanto com ela ficamos no 'umbral' e 'Crime e castigo' não é obra que se concentre na vida da apagada serviçal...

Passemos assim a outro clássico calhamaço onde topamos com outras tantas empregadas ou serviçais, assim o 'Vento levou' de M Mitchell (1936) obra focada na figura de Scarlett O'hara e que dispensa maiores atenções. Tá certo, temos também Rhett Butler, Ashley, Melanie, etc Scarlett todavia, como Rodion e Maria Rafferty, ocupa o âmago da trama, constituindo o personagem central. E é uma 'filhinha de papai', granfina ou patricinha, como diríamos hoje... Uma garotinha extremamente mimada pelo pai, fazendeiro de ascendência irlandesa.

As empregadas ou serviçais pertencem a este círculo, pois são, por assim dizer 'amas' de Scarlett. Prissy é a mais jovem e caricata, ao menos no Filme. Doutra lavra é a Mammy, a qual, superando Nastasya consegue em certos momentos da narrativa ameaçar a primazia de Scarlett. No filme a 'rivalidade' acirrou-se ainda mais e podemos dizer que a personagem encarnada por Hattie McDaniel faz jus ao Oscar que ganhou. Mammy encanta e seduz porque representa um tipo que segundo o insuspeito Silvio Romero, aqui e lá, soube vencer as adversidades e conquistar espaço a mercê dos dotes do coração, assim a 'mãe negra', entre nós representada na literatura pela igualmente marcante Mamãe Zabel, quiçá calcada na Mammy de Mitchell, mas muito bem aclimatada a nosso Brasil.

Apesar de toda esta riqueza, como dissemos, Mammy não é a personagem central da narrativa e tampouco uma obra consagrada a figura de uma empregada doméstica. E temos de esperar mais um pouco - seis anos - para apreciar o surgimento de semelhante joia, obra prima da Sra Davenport (Marcia). Aqui temos por personagem central - ou se alguém o desejar por heroína - não apenas uma empregada (O que ao tempo era já um desafio) mas uma irlandesa e católica. A antítese dos White Men's. A inversão do padrão socialmente aceito: Macho, inglês e protestante além é claro de rico...
Maria Rafferty não é nada disto, é mulher, quase menina, e mais tudo quanto dissemos, o que em Pittsburgh torna-a sumamente indesejável.

No entanto ao contrário da pragmática e estouvada Scarlett, Maria Rafferty esta bem mais próxima da mãe daquela personagem, isto tendo em vista os sólidos princípios, já Éticos, já morais, os quais cristalizavam a virtude ao tempo. Maria Raffery personifica-os e com o coração transbordante de doçura conquista a todos, inclusive ao Patriarca calvinista Scott, o qual, numa cena magnífica, triunfa de seus preconceitos e diz a Paulo, seu filho querido: Casarás tu com Maria Rafferty!

Maria Rafferty nos faz pensar na parábola do bom samaritano. Pois eram os samaritanos tão detestados pelos hebreus do tempo de Jesus quanto os irlandeses do século XIX, desprezados pelos ingleses e seus descendentes norte americanos. Maria Rafferty aqui personifica a 'boa samaritana' pois é justamente ela quem irá assistir e aliviar os derradeiros instantes da igualmente bondosa sra Scott, Clarice...

Alias, retornando a cena anterior, em que o Patriarca Scott, opta por afrontar todos os tabus e preconceitos impostos por aquela sociedade em nome da felicidade do filho, temos, já o disse, outra cena memorável e pintada com habilidade. Por meio desta cena nos dá a sra Davenport uma aula ou lição de humanismo querendo dizer que os homens sabem ser superiores a suas crenças e ideologias. Guilherme Scott é  um calvinista devoto e como tal costuma guiar-se pelos costumes, não pelos sentimentos, os quais deveriam ser imolados tendo em vista a dignidade da família. O que nos conduz a toda uma vida de convenções ou de aparências, nas qual a moral social esmaga o sentimento e o espírito. Maria Rafferty no entanto faz com que naquele coração de pedra dura passe a bater um coração de carne, cheio de amor e doçura, e posto para o objeto digno: A Felicidade do filho, pela qual ele opta face as ditas convenções, revelando-se como uma pai na plena acepção da palavra, um pai digno deste nome.

No mais as observações em termos de religiosidade - naquele recorte N Americano - não destoam, pelo contrário aproximam-se bastante as que encontramos em diversas obras: 'O fim do mundo' e 'Pamela e Satã' de Beal Sinclair, o já citado 'E o vento levou', 'Anthony Adverse'... que é o contraste entre a severidade - não poucas vezes forçada e aparente - ou a total incredulidade vigente entre os protestantes (Particularmente entre os calvinistas com seu moralismo afetado) e a sensibilidade, doçura, sinceridade, piedade e equilíbrio dos Católicos... Em todas estas obras damos com referências positivas ou elogiosas a fé Católica e com personagens marcantes oriundos deste credo então distorcido e marginalizado pela crítica protestante. Digam o que disserem é este aspecto sobremodo interessante já a Psicologia já a Sociologia religiosa.

O foco no entanto é este: No 'Vale da decisão' temos, quiçá pela primeira vez uma empregada fazendo o papel de personagem principal de uma trama, o que por si só aponta para o avanço dos costumes, em torno da mulher, do fanatismo religioso, do preconceito racial/cultural, do trabalho, etc Sob todos estes aspectos e muitos outros é a obra da sra Davenport recomendável. E não se assustem com a dimensão: Pouco mais de setecentas páginas, apesar dos erros do tradutor (As atuais edições de 'Crime e castigo' sofrem do mesmo mal), mas de um conteúdo delicioso, propício a ser 'devorado'.

Ademais Mobby Dick, Imãos Karamazov, Crime e castigo, E o vento levou, Anthony Adverse, Poço de solidão, como O vale da decisão e Mobby Dick não apenas merecem ser lidos, é um pecado imperdoável não le-los. Vençam a primeira impressão e obterão a devida recompensa.

Profo Domingos Pardal Braz, de Santos - SP


quinta-feira, 4 de maio de 2017

As opiniões do sr Lebeziatnikoff

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As opiniões do sr Lebeziatnikoff de 'Crime e castigo' (Dostoevsky) fizeram-me recordar S Freud.

Mestre, não se incomoda de que os nazistas estejam a queimar seus livros?

Freud - De modo algum. Certamente progredimos muito pois a cem anos teriam queimado a mim.

E no entanto que palavras ousadas são postas por Dostoevsky na boca de um homem de 1860! (O livro foi editado em 1866).

Tão ousadas que século e meio depois continuam a escandalizar os leitores de 2017!!!

Para quem não sabe Lebeziatnikoff é revolucionário e amigo das ideias novas. Aspira reconstruir a Sociedade noutros termos, em marcada oposição aos valores tradicionais.

Um dos aspectos mais interessantes de seu discurso é o amor livre definido como especie de relacionamento ou casamento aberto em que tanto o homem quanto a mulher mantém (ou melhor adquirem) a liberdade sexual.

Nosso homem lá nos confins da Rússia imagina que tudo isto seja extremamente anti Cristão. Sem saber que do outro lado do Oceano (nos EUA) a tese era defendida justamente nos círculos Cristão liderados por Noyes e Lazarus.
Passemos sem delongas as palavras do jovem revolucionário russo:

"Nós procuramos a liberdade da mulher e o sr cogita apenas em... Pondo de lado a doutrina da castidade e do pudor femininos, como inúteis e absurdas, admito perfeitamente as reservas dela diante de mim, visto que assim usa de sua liberdade e exerce seus direitos. Mas caso me dissesse: Quero que sejas meu. Sentir-me-ia feliz, porque essa moça agrada-me muito... Jamais fizeram justiça as qualidades dela. (Refere-se a prostituta Sonia)" p 372
"O senhor ri porque não tem a força necessária para romper com os preconceitos. Compreendo que no contesto da união monogâmica e legítima constitua afronta ser enganado, é resultado da própria situação que degrada da mesma forma os dois conjuges. No entanto quando a ideia de posse for removida e estabelecido o relacionamento livre o adultério é que deixará de ter significado. Só assim a mulher demonstrará que ama o parceiro no momento mesmo em que ele deixar de por obstáculos da felicidade dela e até poderá prender-se livremente a ele. Julgo as vezes que se casado fosse - Livre ou legitimamente não o importa - e se minha mulher não tomasse amante, eu cogitando em sua maior felicidade, é que haveria de procura-lo, e dizer-lhe: Minha querida, eu te amo e por isso quero que o saibas - Eis o que te ofereço livremente..." p 379


Veja bem o que você acabou de ler, leitor do século XXI, numa obra escrita em 1866...

Se não compreendeu o aspecto revolucionário destas palavras que atravessam os séculos leia mais uma vez ainda.

Porque ainda hoje são afrontosas, escandalosas, revolucionárias, imorais, etc século e meio depois. Ao menos para a imoralidade convencional.

Refiro-me as relações de posse ou monopólio que não sejam - e quão poucas são - produto do amor e da decisão livre. Pois a maioria delas é produto do egoísmo e da fraqueza, alimentados pelos preconceitos. As pessoas se conformam - aparentemente - com a monogamia e com a indissolubilidade tendo em vista a opinião alheia ou a crença da maioria. E adotam, por falta de coragem e dignidade, um modelo de família, que lá no fundo, bem no fundo, aborrecem.

E pela repetição e pelo costume até acabam achando bonita toda essa falta de dignidade.

Claro que não me refiro aqui aos que adotaram esse modelo livremente tendo em vista suas necessidades psicológicas. Mas apenas aos que limitaram-se a aceita-lo externamente, por mera pressão social... Enfim aqueles que sentem ter abdicado de suas liberdades face a imposição alheia e arbitrária. Aqueles que sacrificaram a consciência...

Quantos e quantos ainda hoje não aderem a casamentos ou uniões aparentes apenas para satisfazer a opinião pública ou ludibria-la. Que pode haver de mais abjeto?

Que pode haver de mais indigno e asqueroso do que essa febre de traições e adultérios que prolifera por trás da quase totalidade de casamentos monogâmicos e indissolúveis, nos quais homem e mulher cogitam antes e acima de tudo sobre a melhor maneira de enganar o outro!

Eis o reinado abjeto, asqueroso e imundo da hipocrisia.

Não estou aqui a decantar contra a existência de uniões estáveis desde que verdadeiramente livres. Não, de forma alguma. Até concedo que sejam viáveis senão essenciais a certas estruturas psicológicas.

A questão aqui não é a companhia ou o amor. Mas o próprio sentido do amor com relação ao sexo.

Afinal traição só faz sentido se há posse ou monopólio.

Atraiçoo a alguém caso pertença a alguém.

Agora se pertenço a alguém certamente sou propriedade de alguém e alguém proprietário (a) meu...

Ah mas um pertence ao outro... A relação de posse e propriedade é recíproca.

Mas desde quando uma situação deixa de ser abjeta pelo simples fato de ser compartilhada?

Desde quanto escravidão, assassinato, roubo, etc convertem-se em ações virtuosas desde que compartilhadas?

Desculpem-me os leitores mais susceptíveis mas tenho de dizer: Caso o ser humano possa ser mesmo propriedade de outro ainda estamos lá no tempo do - Não cobiçaras a tenda do teu próximo, o boi do teu próximo, a ovelha do teu próximo, a MULHER do teu próximo... Porque ainda aqui, homem ou mulher já não se distinguem em nada de quaisquer outros objetos de posse, assim da mesa, da cadeira, do sofá, da televisão, do cavalo, do camelo...

Posso compreender que o homem entre na legítima posse pessoal da terra por ele trabalhada e dos objetos que adquiriu a partir do produto de seu trabalho. Pois trata-se daqui de elementos desprovidos de racionalidade e de vontade própria. Uma cadeira não tem consciência de si mesma, uma mesa não pode dispor de si mesma...

Agora como podemos entrar na posse de um ser racional e livre, exceto ele conceda em tal relação sem ser pressionado por qualquer fator de origem externa a si. Ora até hoje os homens e mulheres tem consentido em ser monopólio de outros apenas por força de uma lei externa ou de preconceitos sociais.

Dai a necessidade de desregular o matrimônio e torna-lo absolutamente livre para torna-lo verdadeiro e saber em que medida as pessoas aceitarão livremente ser monopólio de outras. Uma coisa porém é absolutamente certa: Pessoa alguma deveria ser obrigada, por lei alguma, a tornar-se objeto de posse de outra pessoa.

Não somos contra a posse ou o monopólio, desde livre e sem qualquer interferência social ou estatal. Para que o matrimônio monogâmico ou indissolúvel adquira a respeitabilidade revindicada por seus defensores, deverá ser livre. Imposto mostra-se falacioso. Os homens burlam as leis, enganam-se uns aos outros, criam um reinado de hipocrisia, envenenam as fontes da ética e tudo termina em chalaça.

Pessoas há que mesmo aspirando por companhia e amando a pessoa com que vivem não aspiram por essa posse, controle ou monopólio sexual, encarando tal posse como absurdamente ridícula. Tais pessoas não confundem o sexo ou o prazer sexual com o sentimento ou o amor e não misturam uma coisa com a outra. Por isso não se sentem desonradas quando o marido ou a mulher notifica que deseja sair com fulano ou beltrano. Muito pelo contrário mostram-se felizes pelo simples fato da pessoa a que amam ter acesso ao prazer e ser feliz, e chegam ao ponto de se sentirem gratas aquele ou aquele que proporciona prazer ao objeto de seu amor. Pelo simples fato de amarem... Porque amo verdadeiro não conhece limite.

Amar já foi dito não consiste em buscar a própria felicidade mas em buscar a felicidade do outro ou por a própria felicidade na felicidade alheia, como que empenhando-a. O que certamente excluí a posse, o controle, o ciúme, etc Pois tudo isto é opressão e nada disto é amor.

Direi mais: Uma hora a busca pelo prazer sexual chegará ao fim. A multiplicidade de vivências ou experiências sexais trará certamente a saciedade. O amor, a estima, o companheirismo, o vínculo criado, apenas isto permanece para sempre. Nada mais delicioso do que uma pessoa sendo livre oferecer-se exclusivamente a outra... Isto sim é que se chama conquista. O resto não passa de prisão.

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Tais os sentimentos e opiniões de Andrei Semyonovitch Lebeziatnikoff... enunciados em 1866!




O Svidrigailoff de crime e castigo


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Torquemada e João Calvino, ambos os dois, correspondem ao tipo ascético, que desconfia dos prazeres, alegrias e divertimentos comuns a esta nossa vida. Vida que para eles sabe a morte...

Da existência enxergam apenas a cruz. Sem perceber que uma boa dose de vinho com mirra é necessário para suporta-lhe o peso...

Coisa curiosa de ser ver. Como o asceta e capaz de tornar-se desumano e cruel, e consequentemente de cometer a maiores vilanias, como matar, torturar e oprimir em nome de Cristo, de Deus e da fé...

Na mesma medida em que torturam a si mesmo tornam-se insensíveis a sofrimento alheio e perfeitamente capazes de torturar os demais em nome de Jesus ou da religião...

Talvez por puro e simples amargor seja levado a assassinar e fazer sofrer.

Talvez porque a alegria experimentada pelo outro incomode-o ainda mais do que a auto privação. Quem sabe?

Só sei que o mesmo homem que prostrado ao chão vive mais de jejum do que de qualquer outra coisa, é bem capaz de esfolar o adversário até a morte ou de abrir-lhe o ventre e queimar-lhe as tripas sem soltar um suspiro ou derramar uma única lágrima.

O asceta é capaz de matar e de torturar em nome de Deus acreditando exercer uma ação sagrada. Acredita ser uma espécie de soldado ou miliciano a divindade. Talvez acredite, em sua ingenuidade, ser capaz de defender aquele que adora...

Tendo eliminado seus sentimentos e substituído o coração por um pedaço de pedra será um psicopata?

Quem saberá ou poderá dize-lo?

Intolerante consigo mesmo segundo as exigências da virtude, torna-se muito facilmente intolerante face aos outros desvirtuando a fé que o anima.

O mesmo mistério que o faz verter as mais sinceras e doridas lágrimas aos pés do divino crucificado, impede-o de chorar por uma criança acusada de 'blasfemar' contra seus pais, ou contra um idoso suspeito de heresia...

As feridas e chagas de um pecador ou herético conduzem-no ao paroxismo do ódio.

Que é a fome, a nudez, a miséria ou a enfermidade para ele em comparação com o pecado ou a heresia?

O que voluntariamente assume até o heroísmo não pode atinar que imposto pela natureza constitua peso para os demais...

E seu sadismo chega a ponto de não compreender que o sofrimento cause sofrimento aos outros, ao invés de delicia-los.

O asceta não pode encarar todos os demais homens ou todos os cristãos senão como ascetas e amantes do sofrimento. Não pode compreender como alguém possa fugir a determinadas situações de sofrimentos, mesmo quando lhe é dado ler no livro santo: Assim fugi de cidade em cidade...

Para ele furtar-se ao sofrimento já é, em si mesmo, um gravíssimo pecado.

O sofrimento deve ser amado e buscado com sofreguidão...

E este homem jamais busca ou buscará remover os sofrimentos do mundo ou transformar este mundo num lugar melhor.

A simples ideia ou pensamento de que o ato gerativo comporte certa medida de deleite ou prazer a que chamamos orgasmo transtorna a mente deste homem devoto.

E ele não pode encarar a sexualidade humana como algo natural ou decente.

Tanto os sentidos quanto o corpo físico se lhe apresentam como obstáculos reais a salvação. Sendo mais aconselhável e seguro nega-los. Pelo que chegamos ao maniqueismo ou ao puritanismo... Ideologias segundo as quais a dimensão sexual do ser humano é sempre suspeita ou menosprezada.

O asceta rebela-se contra tudo quanto seja humano e vital; assim contra a alimentação, a comida, a bebida; mas sobretudo quanto o orgasmo. Aquelas devem ser limitadas ao mínimo possível e este negado... O que só é exequível caso o corpo seja torturado ou sofra.

É necessário torturar o próprio corpo por meio de exercícios ascéticos tendo em vista mante-lo submisso e até onde é possível alheio as necessidades mais básicas, como comida, bebida e orgasmo.

Evidentemente que todo este esforço colossal fazem deste homem um neurótico e infeliz. Triunfa de suas necessidades básicas mas a que preço? A que custo? Ficando sua mente destroçada e sua personalidade destruída.

Eis porque a simples visão da felicidade alheia basta para exaspera-lo.

Este homem morigerado cuja carne de aço e o coração de pedra sente-se vivamente incomodado pela contemplação daqueles que vivem segundo a natureza, demandando alegria e contentamento.

Este homem heroico e atilado não pode suportar a simples ideia de que hajam pessoas de bem com esta vida...

Quer que todos sofram, voluntariamente, ou...

E tem disposição, céus eternos, não a torna-las felizes, mas a faze-las sofrer como ele mesmo sofre. Sem compreender - Ele jamais compreenderá isto - que o sofrimento só possuí algum valor quando livremente assumido, jamais quando imposto pela natureza ou por qualquer outra situação.

Coisa monstruosa e tremenda; o asceta fazendo a volta do parafuso, chega a acalentar um sentido ou sentimento visceralmente anti cristão e anti humano.

O ascetismo desvinculado do amor não poucas vezes assume caráter de puro sadismo. Perde o foco e degenera...

Daí os Torquemadas e Calvinos sempre dispostos a queimar pessoas (!!!) tendo em vista seus pecadilhos sexuais.

Perceba o leitor que eles acreditam ser lícito torturar e cometer assassinato com o objetivo de penalizar os pecados da carne...

E no entanto, a própria lei divina, classifica o assassinato como constituindo o pecado mais grave. Então como é possível punir um pecado mais leve por meio de um pecado mais grave???

Apelando a devassidão alheia eles justificam o supremo pecado, do morticínio. E violam sem maiores cerimônias a lei que julgam honrar...

Evidentemente que eles consideram os pecados sexuais mais graves do que o pecado contra a vida ou o assassinato...

E no entanto, quanta miséria, até mesmo a lei carnal dos antigos judeus condena em primeiro lugar o assassinato.

Curiosa a mentalidade da profanação. Homem algum jamais pretendeu honrar a Deus por meio de seus 'pecadilhos' sexuais, os ascetas e juízes no entanto, acreditam ser possível honrar aquele que decretou: 'Não mataras' matando em seu nome...

É a propósito de tudo isto que vem Svidrigailoff. 
Raskolnikoff e Dounia dedicam-lhe o mais vivo horror pelo simples fato de ser femeeiro ou promíscuo; buscando enredar as mocinhas indefesas em seu laço e desgraça-las.

Acusaram-no de ter assassinado Marfa Petrovna. Sem que no entanto haja qualquer prova neste sentido.

Alias tendo-se endividado e ameaçado pelo credor, foi, por assim dizer 'comprado' por Marfa Petrovna. A qual certamente jamais viera a amar.

Alias a própria Marfa sabendo-se mais velha e conhecendo os ardores do moço, autorizara-o a andar com as camponesas. As quais certamente não podia encarar como ameaçadoras... e a cuja honra ligava muito pouca dignidade.

O homem é isto, devasso, luxurioso, promiscuo, mas... de modo algum hipócrita. Alias é o primeiro a denunciar-se. Não tem a si mesmo em conta demasiado elevada. Sabe que leva vida escandalosa e assume esta vida ao invés de oculta-la, Viciado e vicioso o homem não tenta justificar-se.

Por fim este homem vem a travar conhecimento com a 'virtude', representada por Dounia. A qual além de chama-lo a correção mostra-se intransigente face a suas insinuações e propostas.

Tal a virtude é bela e sedutora. Vindo este homem devasso e promíscuo a amar a irmã de Raskolnikoff. Dirá o leitor que é amor de interesse ou paixão, fogo de palha ou qualquer coisa parecida. Já o veremos...

O fato é que a professorinha provinciana não sai de sua cabeça.

E viúvo parte em seu encalço com destino a S Petersburgo.

Agora que pretende este homem devasso?

Uma aventura, uma noite de amor, um caso, mais um orgasmo ou qualquer outra coisa?

Haverá um sentido de vida nisto aqui? Sim, pois este homem encarado com horror por Dounia e Raskolnikoff é devasso declarado.

Pode portanto haver ou surgir algo de bom em seu coração?

A pergunta é pertinente porque segundo o tribunal dos maniqueus e puritanos este homem é réu do pecado mais abominável e sujo que se pode conceber, a ponto de nada existir de bom ou digno nele.

Veja o caso já citado de Sonia. Basta que tenha vendido seu corpo ou se prostituído para ficar sendo uma perdida, imunda, suja e indigna... A ponto de pessoa alguma, além do 'afetado' Raskolnikoff enxergar algo de bom nela.

Os demais oprimem seus empregados, praticam agiotagem, mentem, convivem lado a lado com a mais extrema miséria, seviciam animais... Sem que apesar disto inspirem repugnância aos bons Cristãos... Como inda hoje a miséria, a fome, a guerra, a injustiça e outros pecados são encarados com suma complacência ou seja como coisa trivial ou comum.

Apenas os 'pecados' sexuais despertam indignação nas pessoas...

É todo um sentido maniqueista ou puritano socialmente compartilhado.

Tudo é permitido exceto os pecados do sexo.

Pelo que Svidrigaliloff fica sendo um pária ou um verme isento de qualquer qualidade ou virtude. Aos olhos do tempo converte-se em alguém essencialmente mau...

E no entanto podendo ter estuprado Dunia este execrável homem permite que a moça se vá embora e escape a suas mãos.

É, como dizem, um devasso, homem desprezível, vil, torpe e hediondo. E no entanto, ao tornar-se consciente de que não era correspondido por aquela que viera a amar e não ousando viola-la, ao invés de ir buscar consolo noutros braços ou num copo de vodka, este homem, esmagado pela desilusão amorosa, põem fim a vida estourando os miolos!

Eis o drama! Este homem, considerado torpe e pervertido, após abster-se de estuprar e bem podendo afogar as magoas num copo de vinho ou nos braços de uma prostituta opta por sair da vida pela porta dos fundos.

É o quanto nos basta para divisar algo de bom nas entranhas de sua alma.

Afinal quantos homens honestos, virtuosos, controlados, morigerados, etc não teriam violado a pobre moça ou qualquer outra por simples crueldade ou vaidade após um saque feito a cidade após uma guerra? Acaso todo os estupradores que se aproveitaram dos saques e guerras no passado eram promíscuos ou devassos??? Temo que não... Há muita maldade oculta por trás da boa aparência, como também há bondade oculta por trás da maldade atribuída pelas homens!

Direi mais e irei ainda mais além.

Quantos homens virtuosos, morigerados e ascéticos tem se mostrado insensíveis face aos clamores dos órfãos, do estrangeiro e da viúva? Mostrando-se incapazes para exercer mínimo ato de caridade, como oferecer um copo d água ou uma códea de pão a quem tenha sede ou fome???

Quantos desses 'santos' segundo as aparências ou desses heróis aplaudidos pelo mundo tem se mostrado insensíveis face aos apelos do Mestre: Tive fome e me destes de comer, tive sede...????

Quantos destes respeitáveis varões não tem sabido ou tem se recusado a servir e amar?

O odiado Svidrigailoff no entanto - Homem corrupto, asqueroso, devasso e pervertido devido a sua incontinência sexual - lega milhares de rublos a três miseráveis órfãos (Os quais do contrário estariam condenados a vegetar pelas ruas da grande cidade), a sua irmã e tutora - Prostituta - e mesmo a seu desafeto Raskolnikoff. Até a um quase inimigo ou inimigo, soube este homem, dissoluto fazer bem.

Dirá o leitor benevolente que não foi por amor as crianças que o homem realizou a citada dotação, e que esperava obter alguma vantagem ou benefício em troca. Mas que vantagem ou benefício poderia obter 'a posteriori' se tinha em mira por fim a própria vida??? Direis que Svidrigailoff teve em mira obter uma boa reputação para sua memória! E no entanto não me parece que tenha feito alarde em torno da dotação concedida...

Muito há que se pensar sobre a referida personagem.

A primeira imagem que me vem a cabeça é a desses beberrões, comilões e devassos sempre disponíveis a identificar-se com o outro e a favorece-lo. A do 'pecador', como dizem, sensível... Em oposição ao 'santo' ou virtuoso insensível, indisponível e que não aprendeu a amar e servir; quando não chega mesmo a ser desumano e cruel, odiando e cometendo crimes em nome de Cristo.

Pensei naqueles que afetam ortodoxia e ascetismo ou heroísmo; sem no entanto chegar a imitação de Cristo... e convivendo, muito folgadamente com a fome, a sede, a nudez, a miséria, a ignorância, a injustiça, etc E naqueles que mostrando certa fraqueza pessoal, assimilaram, a luz do Evangelho a sensibilidade do espírito de Cristo, sabendo-se obrigados a socorrer os desamparados pela sorte e a mitigar seus sofrimentos.

Assim o doutor da lei e levita que passam a largo do homem ferido a beira do caminho e o samaritano - Odiado, proscrito, vicioso... - bondoso, que soube identificar-se com o outro...

Buscando dito ou citação com que arrematar esta reflexão, topei com este:

"Porque a caridade apaga a multidão dos pecados."







terça-feira, 2 de maio de 2017

A 'Sonia' de Crime e castigo...

Ao ler ou reler uma obra como 'Crime e castigo' - A qual bem poderia der relida, 'trilida', e lida novamente, ao cabo da vida - se nos apresentam tantas e tantas impressões...









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Quando pergunto a mim mesmo sobre a personagem predita - Não a mais interessante e sim a predileta, pois são perspectivas diferentes - me vejo pensando em Nastasia, a serviçal dedicada e a única que se importava com Raskolnikoff.

Nastasia
certamente salvou-o de morrer a mingua.

Nastasia parece ser a única a preocupar-se com ele.

Nastasia. Sempre a imagino com aquela xícara de chá ou com o prato de caldo.

Agora que moverá esta esquálida rapariga?

Talvez a religiosidade sincera posta para o serviço fraterno, dirão alguns.

Bem pode ser.

Eu no entanto, sem ser nada romântico, pressinto aqui um amor de moça e amor que envolvido pela timidez jamais se declara ou manifesta.

Estou persuadido de que Nastasia ama Raskolnikoff mas guarda seu amor para si. Sem jamais ter coragem de dizer...

Se estou certo e assim o é - Pois é como o caso da Capitu e do Bentinho, e de todas as coisas incertas - temos mais um drama oculto no grande drama. E Dostoevsky é justamente uma sucessão interminável de íntimos dramas vivenciados pelos mortais. A ponto de se poder dizer com o Buda, que tudo é dor...

Todavia se Nastasia ama é Sonia, que sem nada fazer, obtém o coração do mancebo.

E quando dizemos que Sonia nada faz queremos dizer que muito sofre e que também ela vive seu drama, e que drama...

E é por muito sofrer que ganha o coração do jovem.

Mas quem é Sonia?

Filha de Marmelodoff e órfã de mãe, Sônia é uma adolescente miseravelmente pobre ou paupérrima que se vê na contingência de prostituir-se para sustentar uma madrasta tísica e seus três filhos pequeninos.

Sacrifica assim sua virgindade, reputação e honra com o intuito de minorar o sofrimento alheio e com o dinheiro que obtém por meio das relações ilícitas mata a fome dos pequeninos, da pobre mulher e do pai. Chegando inclusive a dar dinheiro para que este se embriagasse.

Não se trata todavia de personagem vulgar ou insensível...

Filha da época, Sônia trás em si os preconceitos do tempo, e portanto um imenso complexo de culpa entesourado no fundo do coração.

Não ela mesma parece não desfrutar do prazer que comercializa ou tirar proveiro sensível do deleite oferecido. Dir-se-ia que não goza ou que não se permite atingir o orgasmo... Justamente por acreditar que comete um terrível pecado.

Culta, sensível, finamente educada, segundo os preconceitos do tempo; mimosa e doce, Sônia pode ser considerada pura quanto a alma porque se nega ao prazer ou melhor dizendo, porque prostituir-se é uma tortura para ela. Imagine uma mulher que se faz tábua e se deixa estuprar a contragosto, apenas para obter dinheiro. Esta é Sonia e sua desventura não é menor do que a de uma mulher estuprada! E no entanto se não se deixa estuprar e não se vende...

O drama terrível desta personagem consiste justamente em deixar-se poluir ou profanar apenas para obter alguns cobres.

Outra qualquer em seu lugar, como sugere Raskolnikoff teria se lançado ao Neva ou feito suspender-se numa corda. Sônia no entanto, sequer pode cogitar em acabar com a própria vida e, quem sabe, fugindo a vergonha obter a tão cobiçada paz... Mesmo a alternativa da solução final lhe é negada. Pois sem ela, eles viriam a morrer de fome...

O amor impede-a de suicidar-se e obriga-a a viver envolvida pelo lodo até o pescoço. A abnegação impele-a a poluir-se e a profanar-se quotidianamente.

E nem pode suportar a ideia de que morta, a 'irmã' mais nova Polenka tenha de esbater a mesma senda e viver o mesmo drama. A simples ideia de morrer e ser 'substituída' pela pequenina é o quanto basta para aterroriza-la.

Impedida de suicidar-se é obrigada a arrastar-se por uma vida tormentosa, a engolir a própria dignidade, a humilhar-se, a baixar a cabeça, a ser insultada, vilipendiada, malbaratada...

E sendo prostituta sem querer ser, toma, a semelhança do Cristo, o caminho de um calvário a cujo topo ou fim jamais chega. Sua existência insuportável por ser definida como um aproximar-se da cruz sem jamais atingi-la... É uma agonia, um suplício sem sim.

O mundo no entanto não esta nem ai para seu drama...

E passa a seus olhos como miserável prostituta, criatura repugnante e odiosa, filha da luxúria e da devassidão. Embora sua alma seja tão casta - Senão mais - quanto a de uma freira...

Mas que é a alma? Que é a mente? Que é a consciência? Que é a intenção? Para a Sociedade...

Tudo quanto a Sociedade vê é o escândalo... E nada, nada mais.

Para aquela Sociedade, como para a atual, o mal ou o pecado supremo esta sempre relacionado com o sexo, não com a miséria, a fome, a guerra, o morticínio...

E aquela Sociedade, como parte desta, apresentava-se como Cristã!!!???!!!

E colocava o sexo acima da convivência humana, da dignidade humana, da vida humana!

Eis um Cristianismo subvertido, pervertido e invertido, que perdeu por completo o verdadeiro sentido do amor.

Ocorrem-me as luminosas palavras de Henry Miller: "Todo mundo diz que sexo é obsceno. A única verdadeira obscenidade é a guerra."  

Tal o diagnóstico daquele triste tempo.

Sonia a vítima.

E no entanto ela é verdadeira discípula do Mestre amado, justamente porque ama, e imola-se, e sofre.

"Nisto saberão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros."

Sônia bem poderia pensar apenas em si mesma e odiar aquele pai bêbado execrável com seu bafo nauseabundo, aquela madrasta afetada e arrogante e aquelas crianças sujas e ranhentas... Caso quisesse bem poderia odia-los, e até penso que não seria difícil...

Optou pelo amor, assim pelo sofrimento e pela dor.

Quantas moças respeitáveis, a semelhança de Dounia, não se guardavam até encontrar um pretendente rico capaz de pagar pela oferta da virgindade e desposa-las regularmente, com as bençãos da igreja. E no entanto que era aquilo senão vil comércio??? E prostituição reservada a um só...

E quantas não se vendiam por luxo? Por rendas, por jóias, por vestidos, por sapatos... Enquanto ela, embora se vendesse a muitos, vendia-se premida pela fome alheia... Quiçá morresse de fome, fiel aos preconceitos do tempo. Todavia, contemplar aquele pequenos morrendo de fome...

Mesmo quando parte de um pai o juízo de Marmelodoff não deixa de ser justo!

Como Jesus poderia deixar de perdoar aquela que sacrificara seu pudor, sua honra, sua reputação e se converterá em 'pecadora' miserável apenas para salvar a madrasta, os irmãos e o pai beberrão da morte certa?

Reatualizando a pergunta: Que teria Jesus a perdoar em alguém que optou por sofrer moralmente e por imolar-se, movido pelo sentimento mais nobre e elevado de todos, a saber, pelo amor???

Como teria pecado se com o sacrifício sincero e penoso da virgindade tomou a peito saciar a quem tinha fome ou a cobrir quem estava nu?

Como teria ofendido aquele que disse: Vinde a mim as criancinhas... se foi por três criancinhas desamparadas que decidiu subir o calvário?

Deixemos agora, por um instante apenas, a personagem abstrata de Dostoevsky e tornemos a arena da vida vivida, em busca de outras tantas Sonias, feitas de carne, sangue, ossos e nervos de aço.

Observo naquela esquina uma moça vendendo-se para custear o tratamento do velho pai canceroso. O qual lá no seu recanto, outrora feliz, cuida que a filha exerce o respeitoso cargo de secretária em alguma casa de comércio ou repartição pública.

Ouça quem puder a melodia 'Secretária da beira do cais' e compreenderá o que estou a dizer.

Aquela prostitui-se para comprar os remédios do irmão mais moço, sem os quais não pode passar... Aquela outra para impedir que a pobre mãe, já entrada em anos... continue a ralar-se como escrava lavando banheiro de gente rica.

Temos ainda esta outra que expõem-se ao vexame porque tendo perdido o marido, não é capaz de custear a escola ou internato dos filhos...

Não vou dissertar aqui sobre os motivos que podem levar uma moça ou mulher a prostituir-se... Limitar-me-ei a declarar que nem todas aqueles mulheres abraçaram este ofício levadas pelo que a gente 'respeitável' - Que mata, rouba, mente, explora, faz guerra, etc - qualifica como devassidão! Limitar-me-ei a declarar que há ali muito drama... Dar-me-ei por satisfeito em levantar a ponta do véu que oculta muita tragédia... E a solicitar que os virtuosos censores moderem seus julgamento segundo a norma e regra da prudência.

Antes de apontar alguém, de julgar alguém, de condenar alguém, de repudiar alguém... experimente colocar-se no lugar deste alguém ou a imaginar que poderia te-lo feito tomar a decisão que tomou.

Raskolnikoff apesar de te feito 'aquilo' e cometido um erro demasiado grave, conseguiu não só colocar-se no lugar desta moça desprezada - Ou melhor, odiada pelo mundo e pela 'boa sociedade - compreende-la e ama-la... E amando-a veio a ser amado com não menos intensidade. O que veio a ser para ele um princípio de ressurreição após a morte negra da alma... Pois toda ressurreição parte de um amor.

No entanto se tivermos consciência de que tudo quanto parte da miséria - Assim a embriagues, a droga, a prostituição, etc - é pecado social, partilhado por todos nós... Se tivermos a rara percepção de que somos co responsáveis por todos estes males na medida em que não apenas somos insensíveis, mas em que compactuamos com a insensibilidade alheia, ao invés de, como cristãos, indignar-nos... O mínimo que teremos de oferecer as Sonias que cruzam nossas caminhos são palavras de compreensão, conforto e amor; não de juízo, não de condenação. Pois se não sabemos acolher, abstenha-mo-nos de julgar e condenar.

Assim antes de apedrejar as Madalenas que encontra pelo caminho pergunte a si mesmo sobre o que fez ou tem feito para erradicar as situações de fome, miséria, nudez, etc que afligem e angustiam a desgraçada humanidade... Tem alimentado os famintos? Dessedentado os sedentos? Vestido os nus? Caso sua resposta seja negativa não ouse julgar o irmão que caiu por terra esmagado pelo peso da cruz...

Imitemos o gesto aparentemente louco de Raskolnikoff ajoelhado beijando os pés da rapariga... Quem sabe se somos dignos de beijar-lhe o pó dos pés ou a orla do vestido esfarrapado...

Mas porque cometes este ato insensato? Por que beijas os pés de uma devassa ou de uma perdida?

Não, não é os pés de Sonia que eu beijo, não os pés da mulher, não os pés da filha de Marmelodoff o que beijo ali e ali venero 'É o imenso sofrimento humano.' - O mesmo no alto do calvário pregado sobre a cruz, o mesmo na alcova de uma prostituta inconformada, o mesmo no gesto do pai que roubou uma caixa de leite para alimentar o filho pequenino... Em todo lugar a mesma dor e o mesmo drama santificados pelo Cristo.




Ofereço este ensaio ao querido amigo Dr Carlos Seino, o qual como Cristão honesto e sincero não cessa de progredir na luz de Cristo. 


"Assim a senda dos nobres é como a aurora, que vai brilhando, brilhando, até converter-se em dia pleno." ora nosso dia é o Cristo. Jamais cessemos de avançar nele, jamais nos conformemos com o que temos. Porque ele sempre tem mais a oferecermos e nós a tomar de seus tesouros infinitos.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

O sentido mais íntimo de 'Crime e castigo' ou o problema de Raskolnikoff

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Acho irrelevante ficar discutindo se Capitu traiu ou não o Bentinho. É algo que não me adiciona nada.

Adoro a Trilogia machadiana (Digna de um Dostoevsky, de um Dickens, de um Balzac ou de um Eça - Os mestres supremos!) e por isso digo que há muito mais coisa a explorar-se nela - Digo de relevante - do que as aventuras de Dna Capitu e seo Escobar.

Coisa de maior quilate toca a Raskolnikoff. Poucas personagens tão interessantes ou fascinantes quanto ele. Ocorrem-me apenas o Sinuhe de Mika Watari, o Imperador Claudio de Graves, Dna Lola e mana Rosa da Sra Leandro Dupré...

No entanto Raskolnikoff e mesmo Razoumikhine parecem-me ultrapassar a todas.

Durante quase quinhentas páginas a obra toca aos motivos que levaram Raskolnikoff a fazer 'aquilo'... Quero dizer assassinar a agiota ou o 'verme desprezível', mais sua irmã Isabel, a adela, com um golpe de machado no sinciput, estourando-lhe o crânio.

No entanto a resposta é dada apenas na última parte durante a confissão feita a Sônia.

Após sucessivas tentativas... De modo que podemos imaginar uma cebola tendo suas cascas removidas, uma após a outra, em direção do interior.

Assim Raskonicoff vai analisando a si mesmo a partir da consciência até chegar aos meandros mais sombria da inconsciência e fornecer-nos a resposta mais apropriada.

Já no começo da obra nos deparamos com a afirmação de que ninguém conhece melhor o homem do que ele mesmo.

Eis porque o ponto culminante da obra é a introspecção feita pelo filho de Pulqueria Fedorovna no quarto da prostituta...

Antes que alguém mais afoito suponha que lá foi ter o homem com o propósito de obter uma mera noite de prazer ou para transar, adianto que não.

Em que pese a admiração confessa de Freud por sua obra, o clássico russo não é freudiano na plena acepção da palavra. Svidrigailoff tem via sexual desregrada por assim dizer, sem que por isso sua personalidade deixe ser bastante rica e complexa. Ali a sexualidade não assume proporções 'desmesurada' e tampouco a religiosidade; e a vida ou melhor a tragédia humana jamais se diluí em qualquer uma dessas áreas sendo absorvida por elas. Há sexualidade, há religião, mas a vida ou melhor o drama da vida é muito mais amplo e podemos dizer que Dostoevsky esta muito mais próximo de Adler do que do primeiro Freud, i é, do Freud de 1900.

Nem mesmo o economicismo capitalista/marxista toca ao fundo da questão humana na perspectiva do grande Mestre.

Há algo maior, mais amplo e mais profundo para além da fé, da sexualidade ou da economia.

De um modo ou de outro, de uma forma ou de outra, de qualquer maneira este homem quer Ser ou afirmar-se. E esse desejo de ser, de afirmar-se, de poder, de imortalizar-se é que consome o homem. É existencialismo puro porque o drama do homem é existir. Existo. Mas como prolongar esta existência na memória coletiva da humanidade?

Lembra de algum modo a busca de Aquiles e de Alexandre pela glória.

Tomemos porém as falsas pistas.

Por que mataste a velha Raskolnikoff?
A primeira resposta oferecida é trivial -

Matei porque se tratava de uma agiota sem sensibilidade ou coração, um ser inútil, uma parasita, etc O que suscitou meu ódio.

Mas será?

Por que mataste a velha Raskolnikoff?
A primeira resposta conduz-nos a escola social do direito ou da criminologia, tributária de K Marx:
Matei porque era pobre, porque minha condição era miserável, porque sofria privações, porque não tinha o que comer, impelido pela necessidade enfim. Foram as condições sociais que determinaram fazer o que fiz.

Já antes de ter consumado o crime cogitava que não podia deixar de comete-lo.

Alguns dias depois no entanto confessava que a certeza de que não podia deixar de ter cometido aquele crime seria doce para ele.

Pois se é certo que tendo dado largas aos mais nobres sentimentos empenhou parte do dinheiro enviado regularmente pela pobre mãe com o intuito aliviar o sofrimento alheio, experimentando consequentemente uma situação se penúria, não é menos certo que Razoumikhine experimentava as mesmas dificuldades, recorrendo no entanto a traduções de textos e algumas aulas com o objetivo de angariar subsídios.

Conduzido por uma honestidade inflexível para consigo mesmo o irmão de Dounia conclui que bem poderia ter imitado o exemplo do colega de curso. Sente que não havia esgotado todas as possibilidades viáveis no sentido de ter escapado a penúria.

Ademais obtido o dinheiro ou os recursos desejados, acabou ocultando-os debaixo de uma pedra e abstendo-se de fazer uso dele.

Seja com for há situações de miséria, de penúria ou de indignidade que bastam para conduzir o ser humano a loucura. É constatação científica feita há alguns poucos anos. Claro que há pessoas e pessoas, mentes e mentes, temperamentos e temperamentos... E que os limites variam de pessoa para pessoa. Sem que os efeitos sociais da miséria, sobre uma média de pessoas deixem de ser significativos.

Não é o caso de Raskolnikoff por ele mesmo sente que não chegara ao limite, e que a loucura surgira posteriormente, como consequência do ato praticado. E não antes, como causa. Tal o resultado de sua introspecção.

Então por que mataste a velha Raskolnikoff?
Claro que nosso ex estudante de direito, como todo e qualquer ser humano, tentará racionalizar e em certa medida justificar o crime por si cometido.

E por via alguma conseguia arrepender-se do que havia feito.

Sentia-se mal, constrangido, abalado, etc não por ter partido a cabeça da velha e lhe tirado a vida, mas apenas por ter denunciado a si mesmo num momento de fraqueza (???!!!!???).

De fato não fora pego. Pois a tempo fora notificado sobre a morte de Svidrigalioff... 

Mesmo assim num momento de grandeza ou fragilidade denunciou-se.

Havia portanto ocasiões em que se arrependia não de ter cometido seu crime, julgando-se inocente, mas sim de não ter podido conter-se, de não ter podido vencer a si mesmo, de não ter podido manter a constância da alma, de ter se desestabilizado e ido entregar-se a polícia.

Envergonhava-se quanto ao estado de desordem mental a que chegará após a consumação do crime e cuja gênese sequer sabia explicar.

Julgava-se talvez ou muito provavelmente sabotado pelo próprio medo de vir a ser pego.

Quiçá sua cruz fosse a cruz do medo.

O fato é que não conseguia conviver com esta situação de fraqueza.

A fraqueza ou a sensibilidade face ao crime é que exasperavam-no.

Mas por que?

A resposta temos no artigo que publicará alguns meses antes e que fora usado pelo juiz de instrução criminal, Porfírio com o intuito de conduzir as investigações.

Artigo em que nosso estudante de direito, antecipando Nietzsche, sustentava que o homem superior ou super homem - Fosse um Napoleão, um Cesar, um Maomé ou um Newton; não importa quem! - não só podia como devia cometer quaisquer crimes, e sem o menor constrangimento, pelo simples fato de estar plenamente cônscio a respeito de sua genialidade e de seu desígnio, enquanto benfeitor do gênero humano. Aqui matar, roubar ou mentir, se necessário fosse, não constituía apenas um direito mas um dever daquele homem... Já qualquer laivo de sensibilidade ou de arrependimento face ao 'crime' implicaria fragilidade, e portanto vulgaridade.

Ali a vocação para a riqueza ou a prosperidade, segundo Calvino (cf Weber 'A ética protestante e o espírito do capitalismo') indicaria a predestinação. Aqui o arrependimento ou a sensibilidade indicariam a vulgaridade...

Aquele homem especial, genial ou superior deveria ter suas vistas postas apenas sobre o fim, jamais sobre os meios. Pois os fins justificariam plenamente os meios...

O único crime aqui era ser pego, preso, punido, etc Numa palavra: Falhar e não atingir seu fim.

Pois ninguém (Atente aqui a mente sagaz!) ou quase ninguém, increpa como criminoso aquele que extermina milhares ou milhões de vidas humanas nas guerras. Será que chegamos aqui a Timothy McVeigh? 
E estátuas são erguidas a César, Átila, Maomé, Tamerlão, Henrique VIII, Filipe II, Cromwell, etc E nomes de ruas, praças, escolas, etc são conferidos aqueles que dissiparam tantas vidas humanas.

Enquanto aquele que comete um ou alguns assassinatos, estes são tidos em conta de criminosos, punidos, castigados, suplicados...

Por que raios matar alguns é encarado com horror pelas massas, enquanto exterminar povos inteiros é encarado por elas com a mais absoluta naturalidade?

Porque aqueles milhões, guiados por um gênio ou por um homem superior, lutam por um desígnio... Enquanto os outros, tendo sido pegos, e antes disto aminados por um desígnio vulgar como a fome (???) ou a miséria (???) mostram-se inferiores e vulgares.

Em tese, os crimes do home superior ou genial jamais vem a luz porque ele não foi, não é ou não será pego. Podendo, a custa de crimes perfeitos, realizar sua ascensão até o topo.

Tais as doutrinas expostas por Raskolnikoff  postas em sociologuês...

Toquemos porém a alma...

Porque é evidente que tendo colhido em algum lugar esta 'bela' doutrina do homem sem compaixão e desenvolvido-a o nobre moço não pode deixar de perguntar a si mesmo se é ou não é um destes homens superiores...

Sou ou não sou um deste super homens? Pertenço ou não pertenço a essa casta de homens superiores? Que sou eu??? A que rango pertenço???

Aqui o único teste possível é a execução de um crime, crime feito a sangue frio e perfeito.

Raskolnikoff precisa matar, não para obter dinheiro em primeiro lugar, mas para saber que é? Se é dos homens geniais ou dos vulgares...

Antes do crime vive este dilema e precisa resolve-lo.

E se hesita e não comete o crime já vai tendo a si mesmo em conta de vulgar.

Por isso planeja, por isso apropria-se sorrateiramente do machado, por isso vai a casa da velha e por isso da cabo dela. Sem no entanto contar com a aparição da Isabel... A qual se lhe apresenta a consciência como inocente. E já não sabemos que efeito a morte da pobre adela produziu no íntimo de seu ser.

Então por que Raskolnikoff mata, amigo leitor?

Mata, olhe só, para afirmar-se.

Aqui eliminar a vida do outro é espécie de introdução a vida.

Mata para ser.

E até consumar este ato perverso nosso homem estava firmemente convencido de que passaria pelo teste.

Eis a fé de Raskolnikoff: Que mataria e permaneceria o mesmo, ou seja, indiferente.

Era sua fé e tudo empenhou: A mãe, a irmã...

E no entanto mal comete o crime fragmenta-se em dois. O estado de tensão espiritual aumenta e sua sanidade mental deteriora-se. O homem já não é senhor de si e ao cabe de mil e uma peripécias acaba de entregar-se a polícia.

O fato é que após ter cometido o crime e mesmo sem se julgar arrependido sofria... E como sofria. Talvez sofresse mais pelo medo de ser preso... Mas sofria e não deixa de sofrer.

Julgava-se senhor de si enquanto assistia perder o controle de tudo...

E qual o epílogo de tudo isto?

Sucumbindo a tensão o homem é vencido por si mesmo e constata, necessariamente, a luz de sua doutrina, não ser um super homem mas um fracassado. E acredita nisto e sofre sobretudo por isto. Sofre porque convencido de que não era genial ou predestinado. Sofre porque concluir que não passava de um homem vulgar.

A consequência mais prática aqui fica sendo a morte de sua mãe.

Pois a infeliz Pulqueria Fedorovna não consegue suportar a dor da desventura, e sucumbe miseravelmente após ter perdido o uso das faculdades mentais.

O homem acreditava ter ganho o mundo inteiro ou a oportunidade do mundo, e... no fim das contas perde a criatura que mais amava, a mãe.

E tampouco pode assumir seu grande amor, Sônia, pelo simples fato de ter sido condenado ao degredo por oito longos anos...

Evidente que não pretendo postular a monocausalidade do crime. Toda monocausalidade me parece forçada e suspeita. Há crimes e crimes, motivações e motivações...

Há certamente quem mate por ódio ou vingança, como há quem mate para roubar movido por necessidades materiais... No entanto tais motivações não esgotam as fontes do crime. Há outras.

Assim Raskolnikoff mata para ser, para a afirmar-se e até podemos dizer que mata por uma questão de necessidade psicológica.

Mata apenas para sentir que é capaz de matar, que pode matar ou que tem o direito de matar.

Até aqui 'Crime e castigo', até aqui Dostoevsky, até aqui literatura russa, até aqui ficção.

E no entanto este autor é mestre consumado em matéria de psicologia. E até antecipa Adler.
Neste caso que fazer para que a conquista a auto afirmação não se converta em tragédia?

Penso que a resposta aqui esteja no livro que Raskolnicoff tomou as mãos já nas últimas linhas do romance; no Evangelho.

Na sacralidade com que este livro único nimba a vida humana.

Eis a melhor cartilha com que educar nossos filhos e moderar o instinto vital da afirmação.

De fato o homem deve buscar por sua afirmação, realização, fama e glória; mas sempre numa perspectiva Ética, visando não prejudicar ou causar dano, as beneficiar concretamente o maior número possível de seres humanos sem cometer pecado algum.

Tome não o caminho de Hitler, Bush, Pot, Stalin, Napoleão, Ivan, Tamerlão, Átila, César, etc os quais de fato não passaram de criminosos ou de psicopatas; mas o caminho de Buda, Confúcio, Sócrates, Platão, Jesus... S João de Deus, S Camilo de Lelis, Cotolengo, Abbe L Eppé, Braile, Abbe Pierre, Pe Damien Deveuster, Pe Ibiapina, Pe Bento, Irmã Dulce, A Schweitzer, Madre Tereza... O caminho do amor enfim, que é o melhor de todos os caminhos.

Tomando o caminho de Raskolnikoff tomará certamente o caminho da dor...


quinta-feira, 27 de abril de 2017

A ideologia de Pedro Loujine e o 'Dar metade da capa a quem pedir'

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Não poucas vezes a alta literatura brinda-nos com a feliz oportunidade de refletir sobre diversos assuntos quais sejam religião, sociedade, economia, política, etc

Autores há cujas páginas oferecem-nos a possibilidade de abordar as mais variadas áreas do conhecimento humano. Tal a vastidão e profundeza de suas obras...

Felizmente escritores há, que a semelhança de Midas, tudo quanto tocam convertem em ouro fino e precioso.

Que dizer então se o próprio tema é de elevado quilate?

Assim Machado de Assis e Lima Barreto entre nós brasileiros. Eça entre os lusitanos. Flaubert, Balzac e Mauriac entre os franceses. Dickens, Swift e Defoe entre os ingleses. Os dois Sinclair (Upton Beal e Lewis) Melville e Jakc London nos EUA. Tolstoi e Dostoevsky entre os russo; mas, dentre todos os escritores este último. Entre os românticos: Swell, Bronte, Austen e Stowe. E entre os históricos Watari, Graves e Gore Vidal. Tais os clássicos, dentre os clássicos. Mas leiam Também Edgard Allan Poe. 

Era o predileto de Nietzsche e também de Freud com os quais aqui, estou de pleno acordo.

Preciso dizer que a acuidade psicológica do mestre russo é inexcedível?

Alias sendo 'Épico' por natureza e certamente tolstoiano, não posso deixar de curvar-me face ao moderno mestre universal da tragédia, e em cujas obras topamos com aquele sentido trágico tão peculiar a humana existência, tão patético e tão marcante.

A propósito de qual seja sua obra prima há variedade de opiniões. Assim uns são pelos irmãos Karamazov, uns pelas notas do subterrâneo, alguns por recordações da casa dos mortos, havendo ainda quem seja pelo grande inquisidor ou pelo idiota. A maioria dos críticos no entanto parecer ser por Crime e castigo, obra cujo lançamento acabou de completar século e meio no ano passado uma vez que foi publicada em 1866, no Diário russo, uma publicação mensal.

Uma coisa no entanto é certa - Ao ler qualquer escritor busque uma tradução que reporte ao original e não uma tradução de tradução.

Assim quanto a Crime e castigo não faça regateios e se possível for adquira a tradução feita por Pedro Petrovitch em 1930 e publicada pela Editora Americana. É integra, literal, absolutamente fiel, em que pesem ligeiros errinhos quanto ao vernáculo i é ao português, devido quiçá a edição. Há alguns dias lí um anúncio em que pediam trezentos reais por uma delas. Direi que se trata de um investimento...

Se puder ler antes ou se já leu "Recordações da casa dos mortos" ou "Memórias do sub solo" melhor. Delicie-se então.

Delicie-se porque aquilo é um desfolhar da alma humana, tocando a suas fibras mais íntimas.

Os períodos são imensos, gigantescos, colossais... Fazendo jus a complexidade do objeto.

É uma introspecção após a outra:

"Ignoro assim quais sejam as causas mais remotas a que aludi; porém o amigo deve conhece-las. É homem inteligente e sem dúvida deve já ter analisado a si mesmo."
Analise-se e se reconhecerá em algum de seus personagens seja Raskolnikoff, Razoumikhine, Nastasia...
Quando a mim, neste pequeno artigo, desejo focalizar o Pedro Petrovitch Loujine, noivo de Dounia, futuro genro de Dna Pulqueria e cunhado de Raskol...
Pretendo na verdade focalizar um dos 'discursos' de Pedro Loujine assente a pg 156 (e sg) da citada tradução.

A qual vale a pena reproduzir:

"Não, isto não é um lugar comum! Se me disserem: "Ama teu próximo." e eu queira realizar este conselho, que resultará daí? Respondeu Loujine. Rasgo minha capa e dou metade ao próximo e? Ficamos ambos si - nus... Assim a ciência, a seu lado, mandam-me atender somente a minha pessoa, já que tudo neste mundo baseia-se no interesse pessoal. Aquele que segue esta doutrina, cuida convenientemente de seus próprios interesses e fica com a capa inteira para si. Acrescenta a economia política que tanto mais sólida e feliz será uma sociedade qualquer, quanto maior for o número de fortunas particulares ou de capas inteiras dentro dela mesma. Logo trabalhando apenas para mim, trabalho, pela mesma razão, para todos os outros, do que resulta vir meu próximo a receber mais do que a metade de uma capa; e isto não a merce de liberalidades individuais; mas em consequência de um progresso geral. A ideia se me parece bastante simples; infelizmente levou muito tempo para propagar-se e suplantar a quimera e o devaneio; e no entanto não me parece que seja necessária uma inteligência acurada para compreende-la." 
Já a primeira vista percebemos que se trata de um parágrafo prenhe de considerações ou teorias religiosas, filosóficas, sociológicas...

Há coisa que se explorar ai.

Arqueologia para se fazer.

Ossos para desenterrar.

E hoje, a semelhança dos pós modernos - Pois não há quem erre sempre e apenas erre - vou iniciar minha análise de ponta cabeça ou começando pelo fim.

Quem não compreende o enunciado acima, no caso Jesus e os Cristãos (Especialmente os Católicos ou Ortodoxos) é perfeito idiota. Pois não é necessário ser um gênio ou ter um Q I elevado para atinar com sua 'excelência'. Merecendo o conceito de alteridade ou empatia ser lançado ao mundo das fábulas ou quimeras...

Noutras palavras: Amar o próximo, identificar-se com ele, denotar qualquer nível de sensibilidade, ser solidário, etc Não passa de tolice!

Por cerca de vinte séculos ou de dois mil anos tem este planeta, em sua maior parte, sido povoado por uma imensa cambada de estúpidos ludibriados por um galileu tosco de nome Jesus. O qual ao invés de ensinar-nos a ignorar o próximo, ensinou-nos a ama-lo. Mas que pateta esse galileu... Como demoraram tanto para crucificar um charlatão desses?

Todavia como não podia a verdadeira luz permanecer encoberta e posta debaixo da cama ou da mesa, em algum momento da História teve ela de brilhar.

Acontece que apesar da patética trivialidade enunciada pelo autor a luz só veio mesmo a brilhar com todo seu esplendor a partir do século XIX.

Mas onde?

Em que espaço privilegiado pairou tão fulgurante luz?

"Como nós russos nos deixamos fascinar por opiniões alheias."
Bem se vê por ai, que a luz não surgiu lá na pobre Rússia e nos confins da América Latina... Paragens habitadas exclusivamente por bestas... Não é assim?

Divino Dosto dai-nos tua luz?

"Sim. Por que razões haveria ele de emprestar se sabe que o senhor não o paga? Por compaixão? Mas Lébéziatnikoff, apóstolo das ideias novas, explicou-nos há dias que atualmente é a compaixão condenada pela ciência, e que é esta a doutrina corrente lá na Inglaterra, onde a economia política é o que o senhor bem sabe." p 17

Bingo! A luz resplandeceu em Albion, digo na Inglaterra ou Grã Bretanha e iluminou o mundo espancando as trevas do Evangelho e do amor... Coisa e gente parva e sem instrução.

O livro é de 1866. Passando-se a cena no mesmo no ou, quiçá, no ano anterior, 1865.

Vejamos então que se esta passando em 'Merry England' a esse tempo...

Temos a "Origem das espécies" publicada pelo grande Darwin em 58. Mas... Até ai tudo bem, Darwin, jamais e até o fim da vida, ousou aplicar a doutrina da seleção natural a organização das sociedades humanas. Não era Darwin darwinista social, pois o que ele pretendia explicar por meio da seleção natural era a evolução dos seres vivos em termos biológicos.

No entanto desde 1862 ou mesmo antes Herbert Spencer (Especialmente no "Sistema de Filosofia sintética") divulgava já suas teses sobre o Darwinismo social (A expressão propriamente dita viria a ser cunhada mais de meio século depois) distorcendo o pensamento do naturalista evolucionário. E cunhando termos inexatos como o 'triunfo do mais forte', enquanto para Darwin o mais apto não era necessariamente o mais forte, mas aquele que possuía um aparelho ou instrumental físico mais sofisticado.

Mesmo antes de Spencer alguns pensadores ingleses como Benthan haviam já esposado uma ética utilitarista. Ideia retomada e reformulada por Stuart Mill num sentido mais social.

Nietzsche viria a tonar-se porta voz de todas essas ideias vinte anos mais tarde. Delas resultando a doutrina do super homem, para o qual a ideia de compaixão para com os fracos, ineptos ou desajustados socialmente falando, é uma aberração.

Nem podemos nos compadecer daqueles que a dinâmica social marcou com o insucesso mas consentir que sejam aniquilados pela dor sem soltar um suspiro sequer!

Não se trata aqui de aniquilar ou de exterminar como queriam os nazistas (Os quais deram um passo mais a frente) mas apenas e tão somente de não se compadecer, de não interferir, de não tentar minorar ou suavizar a condição daqueles que foram vencidos pela existência.

Tal a doutrina formulada pelos ingleses em seus círculos sociais pelo idos de 1860, e a qual alude Pedro Loujine.
Continua -