Mostrando postagens com marcador totalitarismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador totalitarismo. Mostrar todas as postagens

domingo, 26 de novembro de 2023

Algumas reflexões sobre o Estado e a Economia: Por um Estado real e não fictício ou aparente.

Curiosa a oposição extremista entre marxistas ou comunistas e anarquistas. 

Pois para os primeiros o Estado, que nada é quando controlado pelos capitalistas, passa a tudo ser após a afirmação da ditadura do proletariado. E todavia jamais deixa de ser uma casca ou película controlada por forças econômicas. Pois esse Estado se torna tudo sempre por mediação do econômico, ao qual serve como meio ou instrumento. Inexiste qualquer possibilidade de autonomia para o poder político e o contrário disto seria idealismo ingênuo.

Outro o caso dos anarquistas, que jamais levam o Mercado ou os poderes econômicos a sério, tributando toda carga de opressão na conta do poder político ou do Estado.

Destarte buscam os primeiros, como já foi dito, servir-se do Estado com objetivos econômicos diversos... Sem perceber que se utilizam do poder político para controlar e submeter os poderes econômicos ou as forças de produção... Atribuída essa finalidade 'socialista' ou Comunista ao Estado, adquire ele um desígnio que o torna importante.

E desta visão procede uma rigorosa ou radical estatolatria, e totalitarismo, e ditadura, e tirania, e opressão... Tudo coberto com o pomposo termo de 'Ditadura do proletariado' a qual, para os pupilos de Marx e ovelhinhas de Lênin corresponde a um Dogma tão sacratíssimo como a Igreja para os Cristãos Católicos. 

Nem posso deixar de assinalar que alguns críticos atilados já assinalaram inclusive as semelhanças entre os órgãos de controle do PC na velha URSS e os órgãos de controle do Vaticano. Creio que foi o Dr Fulop Miler.

Outro o caso dos anarquistas, cujas propostas sociais jamais se concretizaram.

De minha parte creio que sairia pior, e bem pior, do que o 'paraíso' comunista essa ideia ultra ingênua de eliminar a organização política ou diminui-la até os limites de um micro Estado e deixar intacta a estrutura econômica ou manter o Mercado... Julgo que disto resultaria ditadura mil vezes pior do que as ditaduras comunistas, nazistas e fascistas, inda que hipocritamente dissimulada.

Nem é por mero acaso que os ultra capitalistas tenham assumido essa pauta sob a legenda ANCAP, prova de que ninguém deseja mais a total demolição do poder político ou do Estado - Que muitas vezes o serviu tão bem, MAS NEM SEMPRE... - do que os detentores do poder econômico e apóstolos do liberalismo economicista em máximo grau.

Convém alias, expor aos comunistas, que os mesmos senhores do capital, receiam não pouco da Religião, ou melhor, do Cristianismo histórico ou antigo, do contrário seus ancestrais não teriam o teriam sabotado, por meio da reforma protestante, com o objetivo de instaurar essa nova ordem economicista. Foi necessário satanizar o Cristianismo antigo, apostólico ou autêntico, semear boa dose de ceticismo, fragilizar a igreja velha, etc com o objetivo de engendrar a incredulidade e a partir dela esse novo mundo materialista. Foi por meio do protestantismo que o Cristianismo tornou-se completamente dócil e servil face aos poderes econômicos ou ao mercado em formação.

Desde então o Capitalismo ou liberalismo econômico tem buscado por todos os meios favorecer ou facilitar o protestantismo e atacar com não menos sanha as igrejas anglicana, romana e Ortodoxa, devido ao sentido espiritual de insubmissão ou de rebelião que anima algumas de suas parcelas e súditos. O protestantismo, quase como um todo, colabora ou coopera, os 'catolicismos' jamais inspiraram confiança ao Mercado. Portanto a ideia de combater a religião ou certas formas religiosas não é prioridade do comunismo ou invenção sua. Apenas o liberalismo econômico sabia o que devia ser atacado ou o que temer.

E aos anarquistas convém expor que nem sempre o Estado foi dominado pelo capital ou por poderes econômicos, e que em algumas circunstâncias se lhe opôs, apenas para ser esmagado ou triturado, mas se lhe opôs - Com Laud, com Robespierre, com Vargas, com Peron, sob a ideologia de Keynes ou do bem estar social em alguns países do Norte da Europa, na Inglaterra fabianista que por um tempo enjaulou a besta, etc De modo que tampouco o Estado foi sempre dócil ou servil face a tal ordem como supõem o mito anarquista. 

Outro o caso do tempo presente, após o consenso do Washington e a cruzada neo liberal, no qual o poder econômico parece disposto a recobrar um controle total sob a fórmula de um Estado mínimo, policial ou de enfeite. Porém o que foi desalojado no passado poderá ser desaloja-lo em qualquer tempo futuro. Desde que se ressuscitem e alimentem umas velhas ideologias (Antes de tudo a do Direito natural ou jusnaturalismo.)... O que foi feito antes sempre poderá ser feito novamente depois - Desesconomizar o Estado ou opo-lo a nova religião do Mercado, É PERFEITAMENTE EXEQUÍVEL.


O PAPEL DO JUSNATURALISMO E DO TEÍSMO NATURALISTA.


Não basta termos um Estado politicamente liberal ou formalmente democrático.

Precisamos ter um Estado Ético, voltado para os direitos fundamentais da pessoa humana.

Por isso é que se faz premente afirmar tais direitos como naturais e inalienáveis e não como conjecturais ou relativos a qualquer pacto social de natureza positiva. Os direitos humanos devem transcender a qualquer pacto ou decreto de natureza política para que adquiram essencialidade e perenidade.

Pois tudo quanto, sob o termo de convenção, possa ser atribuído a lei positiva ou ao poder político por ele pode ser revogado. Apenas a lei natural pode servir como fundamento inamovível a nossos direitos e garantias.
Por isso o mesmo poder que estimula o fundamentalismo religioso e sectário - Devido a seu sinistro discurso (Sobrenatural!) em torno da submissão acrítica e passiva. - não se sente molestado de forma alguma pelos discurso ateísta (Exceto pelo comunista, o qual vai muito além do puro e simples ateísmo, a que alias é irredutível.). Dado que a partindo do ateísmo é impossível fundamentar uma lei ou uma ordem natural e imutável expressa por direitos humanos inalienáveis. De fato a ausência de um Legislador supremo desampara qualquer humanismo, por tudo relativizar e atribuir a lei positiva ou a pactos sociais.
Alguns nichos religiosos não fundamentalistas existentes nas igrejas anglicana, romana e Ortodoxa, no espiritismo e em algumas outras expressões religiosas (Radicalmente comprometidas com os direitos humanos e com a justiça social.) incomodam muito mais os poderes econômicos e políticos do que esse ateísmo por vezes neutro ou esquivo as causas sociais.

Isto porque aquelas expressões religiosas possuem doutrinas sociais, atribuídas aos céus e infensas a manobra capitalista, coisa que a maior parte da corrente ateísta, a exceção do complexo e desacreditado Comunismo, jamais nos ofereceu. Por isso encaro esse ateísmo metafisicamente virulento e socialmente vazio como absolutamente irrelevante e prefiro um papista que reza o terço ou um espírita embiocado que se identificam com o trabalhador ou com um cidadão oprimido, a um desses chateus... Parte dos quais (Refiro-me aos chateus.) inclusive mantém a mentalidade - Favorável ao mercado e ao americanismo. - incutida pelas 'emprejas' protestantes. Pois uma coisa é assumir uma senha qualquer e outra totalmente diversa questionar uma cultura ou romper com ela > E eu, como ex protestante, não precisei negar levianamente a existência de um Ser Supremo ou me tornar ateu, para abandonar aquelas visões de morte e tornar-me humanista e trabalhista.
Parece-me que o capitalismo teme e receia muito mais dessas velhas ideias e tradições humanistas Socráticas ou Cristãs do que desses ateísmos todos, a exceção do comunismo. Daí a necessidade de controlar a impressa e as escolas com o objetivo de satanizar o Cristianismo antigo ou de elevar seus erros e crimes a uma dimensão colossal. Pois é esse Cristianismo antigo, mesmo quando desfigurado (Pelas igrejas romana e anglicana por exemplo.), veículo de ideias e propostas assentes pela Filosofia clássica com todo seu aparato crítico.

Aliás o ateísmo comunista me parece mais digno - E é o mais odiado, mas não por mim, que nada tenho de comunista! - que seus rivais justamente por se ter mostrado sensível face as gritantes injustiças cometidas pelo capitalismo e por se ter aliado ao operariado.
Os demais ateísmos me parecem tão alienados e cômodos quanto o protestantismo - O grande promotor e aliado do capitalismo... - que produziu-os.
Não acredito que por si mesmo o ateísmo signifique, pois acredito mais em ações que em doutrinas e se adiro a Sócrates e a Jesus Cristo é porque antes um aceitou beber cicuta enquanto outro aceitou ser pregado na cruz. Acredito no testemunho dos que se deixam matar (Não dos que matam!) ou dos mártires que podendo resistir, recusam-se a faze-lo por algum motivo sério. Jamais vi mártires que tenham dado seus vidas pelo não ser ou pelo ateísmo...


quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

O espectro do maniqueísmo estatólatra - Satanizando a dimensão sexual da vida...



Resultado de imagem para john stuart mill


É necessário fechar as portas do totalitarismo... Tranca-las, trava-las com ferrolhos de aço, com os ferrolhos do liberalismo, não do econômico e dúbio é claro, mas, com os ferrolhos dos liberalismos saudáveis, do Liberalismo moral, do Liberalismo social e do Liberalismo Político, guardiões de nossa civilização, ou do que ainda resta dela.

Neste sentido toda e qualquer brecha ou fissura deve ser imediatamente denunciada e execrada, por mais inocente que pareça ser. Toda grade inundação ou avalanche começa com uma pequena rachadura ou com uma pequena pedrinha... a qual se vai abrindo, ou rolando, e tudo arrastando em seu percalço e semeando morte e destruição. Tudo no entanto começou com uma gotícula quase invisível ou com um pedacinho de cristal.

Como o menino da fábula há que se por o dedo no furo e ali ficar. Para salvar o dique ou a represa. Não podemos deixar de perceber o desprendimento da pedrinha, e de gritar - Alerta, alerta!!!

É sintomático e doentio que todas as atuais e indevidas intromissões do poder público ou do Estado nas vidas dos cidadãos e em nichos que devem ser regulados pela Liberdade pessoal (Como a moralidade) partam sempre daqueles que condenam as mesmas intromissões no campo divino ou sagrado da economia (Economicistas)... Aspiram estes senhores - demagogos ou fariseus - emancipar as atividades econômicas (Inclusive face a certas exigências ÉTICAS) as custas de outros setores da atividade humana, como a política, a moralidade, etc Até podemos avançar e declarar que boa parte dos liberais economicistas são, concomitantemente autoritários em política (E favoráveis a sistemas ditatoriais ou despóticos desde que canonizem suas opiniões econômicas), puritanos ou moralistas e não poucas vezes fanáticos e intolerantes em matéria de religião.

Engana-se redondamente aquele que faz dos liberalismos um embrulho ou pacote só. Pois as aspirações do Liberalismo econômico são totalitárias e absorventes. Já declaramos um bilhão de vezes - Há um terrível conflito entre os Liberalismos e o pivô é o liberalismo econômico - Prática falaciosa que aspira afirmar-se as custas dos demais liberalismos (essenciais) sacrificando-os.

Este conflito, facilmente negado - Pelos oportunistas do pacote - faz-se cada vez mais patente em todo nosso mundo ocidental, dos EUA ao Brasil, onde vemos os capitalistas unidos e associados não apenas a ditadores, déspotas, tiranos, militarizantes, autoritários e golpistas, mas também a massas e líderes religiosos fundamentalistas, cuja suprema aspiração é criar ou recriar estruturas repressoras e moralizantes nos moldes da Torá ou da Sharia e a partir delas dominar, oprimir e escravizar mentalmente os homens livres, privando-os de sua autonomia. Compreende-se que a religião, através da vida Ética, seja INDIRETAMENTE totalizante - nos princípios e valores éticos que afirma e propõem para seus seguidores. E nisto vemos um bem. Outra coisa é ser totalitária e aspirar servir-se do Estado com o sórdido objetivo de impor uma uniformidade moral, pautada em preconceitos absurdos. Monstruoso é o Estado, por meio dos falsos liberais (economicistas), que dele se apossaram por meio de uma estrutura democrática meramente formal, aproximarem-se deste setor obscurantista.

No passado acreditava-se que os liberalismos essenciais cairiam sob os golpes do Comunismo, do Fascismo ou do Nazismo... Ora percebemos que vacila sob os golpes do fundamentalismo religioso ou sectário (Sempre resistente ao éthos ou a orientação LIBERAL, essencial a vida democrática e fundamento seu), cada vez mais alimentado e apoiado pelos economicistas traidores do liberalismo, os quais querem um Estado mínimo ou policial apenas em termos econômicos ou de propriedade. Desde que possam 'Comprar e vender' - O termo pejorativo é de Confúcio - pouco se lhes dá que as massas ou o povo como um todo seja entregue como rebanho ou gado nas garras dos líderes religiosos sem consciência... Pouco se lhes dá que a Torá ou o Corão prevaleçam política e socialmente desde que se mantenham ricos ou em posse do poder.

A suprema ameaça enfrentada pelos liberalismos essenciais e por toda civilização ou seu projeto é esta sútil aliança entre o banqueiro, o deputado/presidente e o pastor, i é entre o poder econômico (Em posse do político ou no controle) e esta fermentação sectária que demanda por uma estrutura teocrática e, consequentemente, por uma sharia ou inquisição destinada a eliminar os dissidentes e a extinguir as diferenças, até uniformizar moralmente o homem, convertido já em escravo...

O objetivo agora - Pasme cidadão!!! - é queimar dinheiro público favorecendo um determinado ideal - Particular, jamais público! - de éthos sexual: A abstinência ou melhor a continência. Nada de novo debaixo do sol... Parte considerável da igreja romana sempre foi favorável a tal tipo de solução, mas, apenas uma parte ainda menor ou mínima, arvorou-se em dirigir os governos anteriores, tendo em vista esta finalidade. Em geral a igreja romana - fazendo uso de um direito que é seu - limitava-se a orientar seus fiéis quanto a esfera da vida pessoal. O que ora assistimos, trinta ou vinte anos depois, é a atitude concreta de apossar-se do poder público e de volta-lo para uma finalidade que a própria igreja romana, há mais de trinta ou quarenta anos, reconheceu como pessoal. É algo voltado para os partidários de tal e tal agremiação religiosa, não para os cidadãos como um todo. Uma vez que as concepções e valores sexuais são distintos e todos merecem - do ponto de vista social - a mesma tolerância.

Se não cabe a esfera da religião impor tais valores e tais práticas no contesto de uma Sociedade pluralista, menos ainda ao Estado pode caber tais aspirações!!! Não cabe a uma dada seita ou grupo religioso julgar uma sociedade política pluralista. Como não cabe ao poder político faze-lo, arvorando-se em juiz de moralidades distintas. Foi o governo constituído para velar pelo bem comum ou pela dimensão do comum, assim pelos imperativos da ÉTICA, pela interação e conduta social, etc não para interferir na dimensão privada das vidas de seus cidadãos. Sem que disto deixe de resultar a mesma confusão entre o público e o privado que alimentou - A não muito tempo - a prática anti liberal e anti democrática da censura e pouco antes dela as inquisições e autos de fé.

Penso e julgo que os cidadãos livres deveriam fazer algo de concreto face a tal abuso. Pleiteando junto aos meios jurídicos, últimos guardiães dos princípios e valores liberais... O que a cidadã Damares esta planejando nada é além de mais uma investida - A última foi contra a agremiação artística Porta dos fundos - urdida pelos fundamentalistas e fanáticos religiosos (Em geral bíblicos, calvinistas e pentecostais - Sempre com o apoio e imbecis úteis pertencentes as igrejas Ortodoxa e romana.). São eles os principais promotores desta nova Cruzada puritana ou moralizante bem a gosto dos E U A.

Aprovado esse tido de campanha não tardarão os moralizantes (Exportados pelo Sul dos E U A) a
avançar e ditar 'regras' a fala, ao vestuário, ao cardápio, etc até chegarmos ao modelo da Genebra de Calvino, o qual sempre pretenderam impor a sua pátria de origem - Sem que jamais obtivessem completo sucesso. Admitida uma intervenção esses urubus jamais recuarão, pararão ou se darão por satisfeitos. Até lançarem toda Torá pela guela desta infeliz república, convertendo-a em Califado bíblico protestante. Começarão, a princípio, idealizando outras tantas campanhas com o dinheiro público - Isto com o objetivo de criar entre nós (Ou de consolidar) uma consciência puritana ou moralista tanto mais agressiva. Serão campanha contra o Palavrão, a Masturbação, a Homo afetividade, as roupas curtas ou imorais, determinadas músicas ou danças até chegarem a abstinência de álcool, exatamente como nos E U A...  Em seguida eles tentarão impor tais costumes ou pontos de vista e opiniões por meio da lei.

Consiste isto em utilizar do erário com o objetivo de construir ou alimentar determinada consciência IDEOLÓGICA. Levado a cabo, hipocritamente, por um governo que se diz descomprometido ou não ideológico, apenas por não ser comunista rsrsrsrsrs Como se fosse o Comunismo a única Ideologia da face da terra... Enquanto o governo fiscaliza ou finge fiscalizar, arbitrariamente, uma única janela, entram ideologias muito piores (Inspiradas no Sagrado!!!) pela porta escancarada de um Estado muito pouco liberal.

Foi um ministro do STF que recentemente proferiu esta alocução imortal (Se bem que constante num autor como John Gray - Apud Anatomia): Estamos assistindo a uma manobra maligna, a construção de um Estado democrático não liberal ou anti liberal. Noutras palavras: Ao invés de avançar e construir uma democracia cada vez mais real e proativa como na Antiga Grécia, estamos implementando aquele modelo defeituoso de Rousseau (apud Nisbet), apenas uma casca ou carcaça de democracia, uma mera estrutura externa (Sem vida) ou formalismo. Um tipo de democracia como este, destinado a impor a vontade de algum grupo majoritário e a extinguir a liberdade não é democracia, apenas tirania exercida pela maioria, e em detrimento de direitos fundamentais.

Num momento crucial como este só me pode ocorrer e vir a mente uma figura.

A figura exponencial de um J S Mill. Espectro hoje - Para quem tem a felicidade de conhecer - mais ameaçador do que o de um Marx ou o de um Proudhon, quando penso Mill, penso Freud, Malthus, Peter Singer, Marcuse, Nearing... E alguns outros rebeldes seletos. Imaginem só, face a mística irresponsável e destrutiva de um capitalismo - C ujas aspirações parecem ser infinitas o valor de um conceito tão racional quanto "Economia estacionária". Foi cunhado por J S Mill há século e meio. No entanto Mill soube ir além e levar seus princípios as derradeiras consequências. Por isso Gray (Opus cit.) ousou declarar que ele aceitaria com absoluta naturalidade tanto a prática da Eutanásia quanto a da Homoafetividade como decorrências lógicas e necessárias de sua doutrina sobre a liberdade, alias, a que tem dado suporte a nossa cultura democrática e vivificado nossas instituições marcadas por guerras fratricidas, pogrons, golpes, censuras e inquisições.

A figura soturna e patética da Sra Damares oponho este colosso do pensamento humano chamado J S Mill. Isto numa Era preocupante, em que as massas tupiniquins principiam confundir Mill ou Ellul com Marx, liberalismo político ou policracia com Comunismo (rsrsrsrs). Alias para eles tudo é comunismo é os pastores ineptos só avançam graças ao espantalho do Comunismo, o qual falseiam e distorcem, apenas para apresentarem-se como nossos defensores...



Imagem relacionada

sábado, 27 de outubro de 2018

O pai e o avô do Leviatã... e o Cristianismo II - A Inglaterra hobbesiana...

 


Resultado de imagem para Thomas Hobbes



Homem algum produz ideias a partir do nada... As ideias de um homem são resposta sua a problemas existentes no meio em que vive. E como o homem busca superar ou solucionar o problema podemos compreender as coisas em termos de 'oposição' a um dado modelo social...

Já vimos como as coisas se passaram com Platão. Cuja obra maior é por assim dizer, uma reação face a anomia produzida pela corrupção do ideal democrático. Sem querer justificar Platão ou concordar com ele podemos tentar compreende-lo e não apenas a ele mas a Hobbes, a Rousseau, a Marx, a Freud, etc Com certeza, a busca desta compreensão tornará nossa inteligência mais sólida!

No entanto se em Platão damos com alguém que delineia um possível futuro, em Hobbes damos com alguém que em certa medida ao menos reporta ao passado e a um passado não muito distante. Uma vez que Hobbes escreve cerca de 1651 mas nasce em 1588. Portanto meio século após a morte de Henrique VIII. De fato após o pequenino Portugal converteu-se a Inglaterra no primeiro Estado unificado da Europa e logo num Estado total ou absoluto, como Portugal jamais fora ou seria. Sem ter sido feudal teve Portugal seus cavaleiros a combater os Mouros, teve a Igreja romana com sua poderosa hierarquia e teme inclusive cortes e liberdades municipais. De modo que o poder do soberano luso estava longe de ser absoluto...

Willian no entanto, após conquistar aquela Ilha, exigiu juramento de submissão a cada senhor. Tampouco havia o municipalismo romano ou como querem, a Djemaa árabe, naquele pais. A velha nobreza fora em parte dizimada pela recente guerra entre as duas rosas. O quanto restava fora de controle na Inglaterra as vésperas da reforma protestante eram as universidades, as guildas e acima de tudo a toda poderosa Igreja romana, com seus mosteiros espalhados por todo pais, de modo que o poder do monarca, inda que substancioso, não era absoluto ou ilimitado. De fato por poderoso que fosse, especialmente após o fim da guerra das rosas, Henrique VII sequer podia sonhar com o poder que um dia seria acumulado por seu segundo filho.

Antes de prosseguirmos sejamos justos. Henrique VIII jamais foi protestante ou reformador como declaram ridiculamente algumas publicações romanistas. Separando-se de Roma ele jamais rompeu com a fé Católica e se mandou dissolver os mosteiros é porque eram a um tempo fiéis a Roma papal e a outro imensamente ricos. Teólogo, jamais compactuou com os princípios canonizados por Lutero ou Zwinglio os quais encarava como hereges pestilenciosos e não hesitou em remeter os luteranos e zwinglianos ou protestantes de modo geral,a fogueira. Uma anedota refere que folgava amarrar um protestantes e um romanista no mesmo poste e incendia-los juntos. Diante disto não poucos concluíram que na verdade não passava de um incrédulo, o que por sinal é bem possível. Formalmente foi o que os papistas costumam classificar como cismático, o que aproxima-o de nós Católicos Ortodoxos... Tudo quanto ele fez foi aproveitar-se das condições provocadas pela reforma para separar a Igreja inglesa da igreja Romana, sem que com isto altera-se nimiamente sua estrutura. E permaneceu não apenas Católica quanto a fé, mas episcopal e hierárquica.

Teólogo como já dissemos ele certamente estava muito bem informado a respeito de Justiniano e dos demais basileus que tentaram usurpar o poder eclesiástico em Bizâncio. Tais seus modelos. E foi mais bem sucedido que eles, obtendo do clero inglês, com algumas poucas exceções, uma submissão reverente. Submetendo a Igreja nacional converteu-a em repartição de Estado, tal e qual descreve Hobbes no Leviatã. Desde então teve sua inquisição espanhola. E pode controlar não apenas as guildas e universidade como o Parlamento, convertendo-o em quintal seu. A partir daí exerceu um poder absoluto e inconteste, e tantos quantos ousavam objetar qualquer coisa perdiam a cabeça.

Sintomático que tenha feito passar mais leis pelo Parlamento do que todos os seus predecessores. Ele de fato tudo aspirava controlar. Assim sua filha Maria, a sucessora desta Isabel e por fim Tiago I, teórico absolutista. Todos estes monarcas avançaram na direção apontada por Henrique, embora Isabel tenha mostrado mais prudência ou pudor. Seja como for, desde Henrique as leis inglesas atribuíam tal poder ao monarca.

Enquanto os reis absolutos comandaram a Inglaterra contaram com o decidido apoio da Igreja Anglicana ou Anglo Católica e com a oposição marcada de dois grupos bastante ativos: Os romanistas, representantes da antiga religião e os protestantes, já calvinistas, já anabatistas chamados de modo geral não conformistas. Ambos os partidos assacavam constantemente as fileiras anglicanas buscando desfalca-las e obter a hegemonia. Os romanistas temiam a preponderância dos sectários não conformistas e os sectários não conformistas temiam a influência dos romanistas. Os anglicanos ou realistas eram considerados aliados dos protestantes pelos papistas e dos papistas pelos protestantes embora de modo geral fossem por si mesmos. Segundo diversos autores o grupo anglicano era mais político do que religioso e muito pouco sincero e comprometido, enquanto que os extremistas - de um lado e do outro - eram movidos por convicções fortes.

O quanto de pode dizer a respeito daquele tempo e do que aconteceu é que os anglicanos, que até então formavam o Centro, foram sendo paulatinamente conquistados pelos papistas e pelos protestantes, disto resultando um profundo desequilíbrio. O rei, a corte e a alta nobreza pendiam cada vez mais ao partido do papa, a burguesia ao calvinismo e pelo menos parte dos mais pobres ao não conformismo. Até que o próprio anglicanismo viu-se cindido entre as duas correntes: Alta ou anglo Católica e baixa ou puritana, reproduzindo-se a mesma cisão fora da Igreja oficial. Cerca de 1625 achava-se a Inglaterra cindida entre as duas facções extremistas. A partir daí romanistas e anglo Católicos a um lado (realistas) e sectários ou revolucionários do outro iniciaram as hostilidades que levaram a Guerra civil ou a assim chamada Revolução, contando Hobbes com cerca de trinta e sete anos. Esta situação prolongou-se até no mínimo 1660 - i é seja por cerca de trinta e cinco anos - ou, segundo outros até 1688, ou seja, até a deposição do rei Jaime.

Foram cerca de sessenta anos de turbulência e instabilidade. Período muito semelhante aquele que fora vivenciado por Platão de 404 até sua morte, em Atenas. Até o advento da Reforma protestante achava-se a Europa espiritual ou religiosamente unificada, enquanto separava-se politicamente. Após o advento da Reforma, interpretado por muitos como a decadência do Cristianismo ou ao menos do Cristianismo ocidental ou latino, a separação entre as nações europeias tornou-se total, i é a um tempo religiosa e a outro política.

Particularmente no que diz respeito a Inglaterra, o advento da Reforma protestante propício as circunstâncias necessárias para cimentar a Unidade Política e respaldar o Absolutismo. Pois o sagaz Henrique VIII, tornando-se 'cismático' (sic) sem tornar-se protestante, logrou, pela espada ou pela força extinguir as dissenções religiosas e manter o reino espiritualmente unido em torno do trono e do anglicanismo episcopal, o que foi um golpe de mestre. A bem da verdade Henrique VIII tirou proveito da politicagem que envolvia o papado aquela época, a qual desagradava inclusive parte dos Católicos. No entanto a partir do momento em que os tutores de Eduardo introduziram os princípios protestantes no pais os próprios Católicos fossem romanos ou anglicanos tornaram-se mais comprometidos. Desde então um grupo opoz-se tenazmente ao outro.

E este estado de oposição entre consideráveis minorias Católica e Protestante amortecidas por um anglicanismo ou episcopalismo formal jamais cessou. Isabel no entanto, reeditou com sucesso a solução de compromisso de seu pai, apelando já a espada, já ao patriotismo... E mais uma vez obteve a conciliação entre os partidos, embora não na mesma medida que seu pai, alias mais intolerante. Henrique certamente encarava os extremistas papistas e protestantes como fanáticos, enquanto estes encaravam-no como um incrédulo ou oportunista, o que talvez não fuja a verdade. Izabel era do mesmo tipo, conciliatória e sagaz, quiçá descrente.

No entanto durante todo seu reinado e durante os dois que se seguiram os 'comprometidos' ou crentes foram não cessaram de concentrar-se nos 'extremos' debilitando cada vez mais aquele centrão anglicano e predispondo a sociedade ao conflito iniciado em 1620. Desde então as facções Católicas - Romana e anglicana - congregadas sob o signo do realismo, e protestantes, chegaram as vias de fato, e a Inglaterra conheceu o inferno. Praticamente todo século XVII foi isto.

Alguém que, imaginemos Th Hobbes, ama-se a paz e a tranquilidade odiaria viver na sociedade Ateniense do seculo V, na sociedade romana do século I a C ou do século V d C, na Sociedade europeia dos séculos X e XI ou na Inglaterra do século XVII... Conhecendo a fundo as causas das situações problema enfrentadas por estas Sociedades nosso homem construiria soluções na direção radicalmente oposta. E como cada uma delas remete a dissolução e ao conflito nossos críticos promoveriam a unificação e a paz, pagando tributo a autoridade.

Platão incriminou a democracia e por isso delineou um estado despótico, em que os vigilantes exercem rigoroso controle sobre os demais setores da Sociedade, comandando-os. Hobbes face a turbulência promovida pela religião chegou, muito provavelmente a uma incredulidade que a seu tempo não era prudente assumir. Recriminou não apenas o protestantismo por ter canonizado o livre exame - Método que brilhantemente relacionou com a discórdia e a confusão doutrinal - mas o próprio sentido universal ou Católico da fé Cristã, o qual encarou como uma finalidade política e anti estatal inadmissível.

Hobbes deve ter pensando do Cristianismo o que a maior parte de nós hoje pensa sobre o Mercado. Que equivale a uma espécie de besta fera a ser enjaulada. Para ele a anarquia social de seu pais era fruto de uma religiosidade ou fé que fugira ao controle. Portanto Hobbes só pode conceber o Cristianismo como uma instituição submetida ao poder estatal ou seja nos mesmos e exatos termos que Henrique VIII ou Isabel reinados cujo histórico ele bem conhecia e para os quais suas vistas estavam voltadas, como que para uma Era de ouro.

Escrupuloso Hobbes tende a desconfiar, em menor medida, de todas as comunidades ou associações não políticas ou intermediárias, dando por certo que elas debilitam o poder do soberano, ameaçando, consequentemente a paz. A existência de guildas, universidades, colegiados, etc só pode ser admitida quando estritamente necessária e a guiza de concessão ou seja enquanto algo autorizado pelo soberano. De 'per si' não teem tais comunidades direito a existir. Frente ao Estado, corporificado no soberano, existe apenas o indivíduo, nenhum outro tipo de entidade.

Agora como justificar metafisicamente tal estado de coisas?

Diante do que testemunho no curso da primeira metade do século XVII, concluí Hobbes que o homem seja um lobo, um predador, uma fera; sempre disposto a devorar o outro homem. Como o Freud da maturidade ou da velhice, o totalitário inglês, postula que o homem é dominado por um impulso de agressividade. Onde estiver mais de um indivíduo a tendência será o conflito, não mero conflito classista, como queria Marx. Para o autor do Leviatã o conflito é individual e inevitável...

E no entanto este homem, e damos com Freud novamente, agressivo, aspira pela paz e pela tranquilidade.

Como chegar até ela?

Por meio do contrato as partes, tendo em vista este bem maior, que é a paz, devem abrir mão de suas liberdades e entregar-se a tutela de um soberano forte. Uma vez que todos sejam controlados com mão de ferro pelo soberano e nivelados pela submissão, o conflito generalizado cessará.

Encarado deste modo não é o Leviatã algo mau ou indesejável, mas algo verdadeiramente bom e desejável, enquanto caminho único para a aquisição da paz social ou da estabilidade. Da submissão ou obediência ao Estado e suas leis é que advirá o equilíbrio. Da servidão voluntária resultará a harmonia. A partir da qual a pessoa humana poderá cultivar suas habilidades. Já o exercício do que chamamos liberdade produzirá inevitavelmente a discórdia ou a guerra, a qual impedirá que o homem de realizar-se enquanto tal. Aqui uma espécie de denominação comum face a Platão: Qualquer situação de liberdade ou democracia resultará, necessariamente, em anomia, anarquia ou conflito. Diante disto a alienação da liberdade e o recurso a autoridade absoluta são requisitos exigidos por uma sociedade bem ordenada.

Por ai se vê que podemos discordar de Hobbes mas de modo algum duvidar de sua sinceridade ou negar a coesão de seu pensamento.

Nem podemos estar totalmente certos de que em situações sociais semelhantes as que ele ou Platão vivenciaram discordaríamos deles. A menos que nos presumamos mais habilitados ou inteligentes...




terça-feira, 23 de outubro de 2018

As mutações da Comunidade...



Imagem relacionada


Algumas Reflexões sobre Formas de comunidade, Sociedade política, Apogeu, Declínio, Crise, Anomia, Anarquia, Despotismo, Totalitarismo, Democracia, Liberalismo político, etc tomadas as diversos autores.



Muito se tem discutido em torno do termo 'político', o qual a bem da verdade, numa perspectiva mais estrita ou policrática, deveria acoplar-se ao termo 'sociedade'. Todavia é certo que o político e o social movimentaram-se separadamente por muito, muito tempo. Sempre que isto aconteceu o político ou permaneceu apenas em potência ou degradou-se. E a comunidade permaneceu militar - apesar do apelo político - ou tornou-se econômica, deixando de captar a intensidade do político. A Piccarolo e R Nisbet

Precisamente por isso - dando que o político e o social andaram separados por um bom tempo - aqueles que definem a ação política enquanto relações de poder, encaram tanto a monarquia quanto a aristocracia como entidades políticas, no sentido já explicitado, duma estrutura política que não se identifica plenamente com o que chamamos sociedade. Claro que essa política, feita a chicote e espada não pode ser a boa política, mas uma política de segunda classe ou categoria.

A política só adquire qualidade e se torna consciente de si mesma quando se faz democrática ou quando o discurso e a argumentação substituem a espada, enfim quando se busca livremente o consenso ao invés de estabelecer um acordo formal por meio da coerção externa.

Portanto, se num sentido 'lato' temos de considerar a monarquia e a aristocracia como formas políticas, num sentido mais estrito ou purista apenas a democracia o é - e quando dizemos democracia queremos dizer democracia verdadeira: Inclusiva, liberal e direta (inclusiva e liberal por nós e direta pelos gregos rsrsrs) - pelo simples fato de apenas ela comportar cidadania.

Monarcas e aristocratas tem súditos i é pessoas que aceitam submeter-se a um poder externo a si e portanto imposto. Na forma policrática o cidadão identifica-se com o governante manipulando ele mesmo, diretamente, o poder. É ele um co governante com os demais cidadãos membros do corpo social. Daí a identificação - Governo/Sociedade. É exatamente este aspecto que torna a vida democrática intensamente rica em comparação com as formas precedentes, que ressentem a militarismo, a autoritarismo, a coerção, a imposição, a arbitrariedade...

Sabido é de todos ou de quase todos que a Democracia foi criada ou inventada pelo ateniense Clístenes no ano 509 a C, uma data memorável. Claro que não se trata de nossa democracia anglo saxã, obra de John Locke.

O que poucos de nós sabem ou imaginam - e de fato é insólito - é que o conceito de cidadania ou participação política antecede o conceito de pessoa. É a democracia anterior ao que chamamos de liberalismo político. Compreendido como espaço próprio da pessoa ou privado, ou ainda como santuário inviolável da consciência. Já Fustel de Coulanges, na clássica 'Cidade antiga' referia-se a esta verdade. De que nos tempos antigos era a cidade Estado tudo e a pessoa nada... posto que as leis invadiam e regulavam todos os setores da existência humana, de modo que nada tocasse a liberdade ou a autonomia.

Além de exclusiva, no sentido de excluir o escravo, a mulher e o estrangeiro, foi a democracia grega não menos totalitária do que a monarquia ou a aristocracia, e não devemos nutrir ilusões a respeito. 
 
 De fato os gregos conceberam a ideia genial de que polis fosse governada pela totalidade dos cidadãos. O que ele jamais imaginaram é a existência de setores da vida humana que não fossem determinados ou controlados pela polis.

Para as antigas civilizações, anteriores ao advento do Cristianismo, tudo, inclusive a religiosidade, dizia respeito a família ou ao estado, a tradição ou as leis cabendo ao homem amoldar-se. Após ter absorvido a família com suas tradições a polis, por meio da lei escrita, tornou-se senhora absoluta das existências. Um dos primeiros juízos que define e restringe com precisão a esfera e o alcance do político e por ext do social, encontra-se na clássica passagem de Suarez: "O objetivo da sociedade cívil - leia-se estado, poder público, etc - é o BEM COMUM TEMPORAL."

E no entanto estes gregos, que não era tontos, puderam imaginar as decorrências da vida democrática.

Por isso, durante cero tempo, parte dos gregos pôde - ao menos quanto o foro interno da consciência - desprezar as instituições e tradições, inclusive religiosas.

E no entanto esta convenção, que separava a liberdade de pensamento da liberdade de expressão, estava longe de corresponder ao nosso Liberalismo, filho do Cristianismo e do martírio.

Pois jamais grego algum acalentou a possibilidade assumir publicamente suas negações ou ceticismo. Formal ou publicamente eram todos adoradores dos deuses, todos religiosos, todos devotos... E ofereciam sacrifícios! Os gregos mantinham as aparências ou a ficção com firme zelo, sabiam até onde podiam chegar. Um mínimo desvio, com efeito, implicava beber cicuta, ser exilado (assim Aristóteles) ou arrastado a um processo ignominioso (assim Anaxágoras)... Não havia liberdade alguma para ser diferente ou e tinha os filósofos de suportar a canga da hipocrisia.

Portanto, os refinados atenienses jamais imaginaram um setor qualquer da existência separado da polis ou privado. É justamente este setor da existência, setor pessoal ou privado -  fundamentado num direito mais alto ou natural (Lembre-se de Antígona) - que possibilita a qualquer homem apelar ao tribunal interno da consciência face as ambições totalitárias do poder público (Lembre-se de Creonte). Os antigos atenienses não tinham para onde apelar. Nós reconhecemos que a existência corresponde a duas esferas bem distintas, uma privada e regulada pela própria pessoa e outra pública, regulada pelo poder político. E admitimos que cada uma delas seja soberana em sua própria esfera. De maneira que o privado/pessoal não se sobreponha ao público na esfera do político e que o público não invada a esfera privado/pessoal. Os gregos nada conheciam neste sentido.

Assim se Locke concebe uma democracia capenga ou representativa - Inventando um processo por meio do qual o poder é transferido do povo para alguns poucos representantes - ao constatar que os produtores não podiam não podiam participar integralmente da atividade política - como na polis grega - sem causar graves danos a atividade econômica, ou que trabalhando excessivamente não podiam fazer a boa política, Platão opta pela solução radicalmente oposta. E - ao menos quanto aos viligantes - eliminando a família busca atingir a vida privada em seu coração. Desde então o estadista platônico poderá consagrar-se por completo a atividade pública ou política. 

Se o inglês, comprometido com o capitalismo emergente, restringe a esfera da coisa pública, falseando a ordem democrática (Arendt), o grego de ombros largos cogita suprimir a esfera do privado, caindo, é claro, em mais uma utopia, corrigida, posteriormente através das 'Leis', obra do Platão mais maduro e realista.

Bem, chegamos a Platão, e Platão é sempre um tema interessante.

Karl Popper na Sociedade aberta e seus inimigos, divisa em Platão o Patriarca das sociedades fechadas e busca relaciona-lo com o quimérico passado de Atenas. O equívoco salta a vista pelo simples fato da antiga sociedade ateniense ter sido do tipo familiar, enquanto que Platão, como vimos, preconizava uma Sociedade sem famílias. Acerta no entanto ao alista-lo entre os teóricos da sociedade fechada e alias como seu primeiro grande teórico. Alias Platão já foi classificado como fascista, comunista, etc

Que Platão seja decididamente social ou comunal cheira a obviedade. Apesar disto não sei se poderíamos classifica-lo como socialista. Os socialistas assumem a liberdade humana, Platão... Tampouco era ele comunista ou fascista...

Então que era ele???

Era platão totalitário e despótico, assim como os comunistas e fascistas. Nem por isso era comunista ou fascista pelo simples fato de ignorar supinamente o quanto seja característico de tais sistemas. Totalitário e despótico sim, e por isso não poucas vezes odiado... Platão de fato exaspera os liberais e os democratas. Todavia devemos tentar ser justos com ele e buscar compreende-lo, inserindo-o no quadro a que pertence. Pois compreendendo os medos de Platão estaremos aptos para diagnosticar nossa própria época.

E para compreender o homem devemos situa-lo em seu tempo e situa-lo com exatidão.

E que é este Platão senão um testemunho eloquente da decadência de Atenas e de uma democracia em colapso?

De fato se compreendemos que Atenas atingiu seu apogeu ou zênite entre 509 e 429 - assim por cerca de oito décadas - saberemos que Platão nasceu - em 427 - quando ela principiara a morrer... Lavrava a pavorosa guerra do Peloponeso, ganha em 404 pelos espartanos. Os quais impuseram a indômita Atenas 51 tiranos. A princípio Platão acreditou que eles saneariam moral e politicamente sua querida cidade... E no entanto que fizeram eles senão justiçar precisamente aquele que melhor conhecia os problemas em questão? Paradoxalmente aquele Sócrates, que criticando honestamente a democracia, poderia te-la seneado...

De fato todo caminho precorrido por Platão, da morte de Sócrates a sua própria morte foi um caminho em direção a Esparta, não a Atenas da tradição ancestral, mas a militar, belicosa, despótica e totalitária Esparta. Afinal não esmagará ela a brilhante Atenas???

Eis um evento que impactou poderosamente as mentes de todos os gregos, sem falar nos próprios atenienses.

Importa saber que Platão jamais o perdeu de vista...

Quanto a nós, esforce-mo-nos por relacionar a nova ordem policrática com o novo padrão de pensamento, racional.

Já dissemos que imperava a convenção, que as aparências deviam ser mantidas e que nem todas as tradições reconhecidas pela Polis podiam ser formalmente negadas. O equilíbrio social exigia um tal sacrifício ou uma tal restrição.

Resultou disto uma estabilidade bastante precária e posteriormente - após o fim da Idade Média - viemos, nós mesmos, a conhecer semelhante estado.

Mesmo buscando alguns compromissos a razão nem sempre podia abster-se de questionar os mitos e mesmo o surgimento da alegoria ou do simbolismo - que buscava amortece-lo - o choque chegou a ser traumático. Platão ousa clamar contra Homero e Hesíodo, educadores das gerações precedentes... Sócrates tampouco pode admitir que os deuses praticassem imoralidades e acima deles sobrepõem um Ente racional, invisível, ilimitado, etc Entidade a respeito da qual Xenófanes, Anaxágoras, Apolônio e outros já haviam insistido, inconvenientemente...

Após a religiosidade praticamente tudo foi submetido ao crivo da razão e logo, em alguns casos, a experiência. A medicina já havia ensaiado tais passos... Desde então os rios se convertem em fluxos d água e os astros em pedras flutuantes... com grande agravo de Diopeites e das massas populares que clamavam contra tais impiedades. Afinal de contas a identidade social, o sentido de pertencimento, os princípios, os valores, tudo enfim, repousava sobre tais crenças... critica-las era como golpear a raiz de uma árvore... Num determinado momento parte das pessoas sentiram-se desenraizadas, confusas, fragilizadas, desprotegidas, ameaçadas.

Em Atenas, como observamos, este movimento pode assumir uma forma marcadamente política através da democracia e desenvolver-se. Noutras cidades, onde exasperou os monarcas e tiranos, foi violentamente suprimido. Pitágoras queimado vivo em sua Escola, Zenon moído vivo numa mão de pilão, etc Como não existisse um Basileu em Atenas, esta situação de crítica se foi acentuando mais e mais... E os intelectuais se tornando cada vez mais ousados.

Por algum tempo, tempo daquele equilíbrio e são 'realismo' que caracterizam o apogeu de qualquer civilização (Sorokin), a razão e a sobriedade lograram manter-se no controle, alias respeitando a ficção ou tentando substitui-la discretamente.

Em seguida porém, cindiu-se aquela sociedade em dois grupos radicalmente opostos. E a ruptura, seja dito, não partiu dos conservadores ou tradicionais mas dos próprios filósofos ou melhor dizendo, de sua ala mais radical; os sofistas que agora voltavam-se contra o critério comum da razão. E antes que a razão substituiu-se a fé ou a tradição era já solapada por eles...

Agora veja o leitor - De um modo ou de outro lograram a razão e a experiência, inserir-se num espaço até então completamente dominado pela tradição, ensaiando os primeiros passos do pensamento naturalista e do conhecimento científico. Os sofistas no entanto, antecipando Hume e Kant, levaram o processo crítico a razão, que era o elemento comum porque os essencialistas buscavam substituir a superstição e a autoridade. E o resultado disto foi a elaboração de uma teoria subjetivista e relativista, a princípio e, em seguida totalmente cética. Isto num ambiente cujas estruturas eram totalitárias, despóticas e solidárias.

Não 'a humanidade' através do elemento comum da razão, mas o individuo isolado, converteu-se em medida de todas as coisas, produzindo sua verdade parcial, pela qual bem podia pretender guiar-se, e assim matar ou roubar, caso tivesse tais ações em conta de boas... Observe a extensão de um problema que é nosso e que hoje se exprime pela negação de uma Lei Natural, único fundamento plausível de uma Ética objetiva ou universalmente válida, para homens de todos os tempos e lugares.

Foi em oposição a esta maré individualista, subjetivista, relativista e cética que levantou-se a maré conservadora ou reação, tudo engolindo pela frente, inclusive o genial Sócrates, mesmo porque, o grande público ou a massa, alheia aos grandes temas da Filosofia, era incapaz de discernir entre uma corrente e outra. Destarte toda Filosofia, compreendida como sofística, tornou-se ameaçadora. Mesmo sem terem conhecido o liberalismo político, os gregos tiveram uma experiência de liberalismo metafísico extremo (epistemológico e ético) a qual não lhes foi nada agradável, e chegou a aterroriza-los...

Na medida em que o ensinamento dos sofistas era assimilado pelos elementos mais jovens da comunidade o pouco que restava dos laços sociais anteriores a afirmação da comunidade política principiou a dissolver-se muito rapidamente, dando lugar a uma situação de anomia, de anarquia, de caos, de conflito generalizado... face a qual parte significativa da sociedade sentiu-se nostálgica quanto a um passado já em parte idealizado.

De modo geral os atenienses do século IV a C não estavam preparados para testar aquele futuro ou para ver até onde as coisas chegariam... Sabiam intuitivamente que sem religião, fé, Deus, deuses... cada individuo converter-se-ia em padrão absoluto de bem e mal, e deduziram as consequências sociais desde individualismo crasso.

Quanto aos culpados, como já dissemos, foi bastante fácil identifica-los com a Filosofia e a Democracia, cuja relação, aos olhos eles, era bastante nítida. O elemento racional comum a ambas era o elemento por assim dizer corruptor, que envenenará a Sociedade. Não a crítica a razão ou a metafísica... Eles não sabiam distinguir racionalidade de empirismo crasso ou ceticismo...

Assim a anti comunidade de Platão é idealizada em oposição a 'comunidade caótica', anômica ou anárquica dos sofistas (Nisbet) identificada com a comunidade democrática ou como consequência dela.

O remédio aqui era olhar para a polis vitoriosa, Esparta, cidade militarista e fiel a suas tradições, que jamais se deixará desviar pelo fantasma da razão, pai filosofia e da democracia. É nesta perspectiva e em oposição ao veneno instilado pelos sofistas/filósofos que Platão escreve seu clássico. Não é a democracia que ele leva combate, mas a sua forma decadente e corrompida... A qual no entanto, para ele, é consequência dela.

Isto não foge a experiência que ora vivenciamos ou ao choque entre as diversas formas - corruptoras - de individualismo, assim: Relativismo, subjetivismo, ceticismo, anarquismo individualista ou ANCAP, liberalismo econômico, plutocracia, democracia meramente formal ou representativa, etc a um lado, e as soluções totalitárias, como nazismo, fascismo e comunismo a outro... É um dilema bastante parecido.

A Democracia perdeu seu espírito, acomodou-se estrutural ou formalmente, deixou-se dominar por outros setores (não políticos), desvinculou-se do essencialismo ético, deixou-se impregnar pelo individualismo, foi abalada pelo ceticismo, etc, etc, etc Entrando em declínio, o qual ora vivenciamos... Em que pese os arroubos de jacobinismo típicos dos EUA...

O fato é que nossa democracia por descuido educativo ou formativo quanto o espírito, não consolidou-se. Antes, colonizada pelo capitalismo, converteu-se em instrumental do poder econômico e não do bem comum, como queria Aristóteles. Tudo quanto temos hoje é demagogia, plutocracia, oclocracia... não democracia, pois não há cultura democrática, espírito, profundeza. E essa forma instrumental ou espúria é a que tem sido propagada pelo jacobinismo yankee, posto que os N Americanos como os ingleses, não distinguem um liberalismo do outro, tomando liberalismo por uma coisa só.

Destarte tem sido o liberalismo político, que é essencial a vida democrática  - juntamente com o liberalismo religioso e o liberalismo moral - sucessivamente traído pelo liberalismo econômico e sacrificado em seu benefício e já aludimos ao sacrifício primordial quando nos referimos a Locke e ao que Arendt definiu como um esvaziamento do político em benefício do econômico ou ainda do público e comum em benefício do privado.

Não atingimos ou perdemos nosso ponto de equilíbrio. A balança tem pendido decididamente para o individualismo, com as mais terríveis consequências... E os EUA alimentado doentiamente este padrão.

Mas já se pode observar um fenômeno análogo ao observado durante o período entre guerras que é a reação totalitária e despótica ou o renascimento das diversas culturas de morte, como fascismo, comunismo e nazismo, as quais tem entrado em choque entre si, com o anarquismo, com a democracia formal e com as teocracias, disto resultando um clima próximo ao caos - EIS A ATENAS DE PLATÃO... Eis a decadência da cultura democrática e a total perda do equilíbrio... A um lado um materialismo que chega ao ateísmo, ao nihilismo e como já dissemos ao relativismo e a anomia (em termo sociais) e a outro um idealismo - não poucas vezes representado por formas primitivas e obscuras de religiosidade - tão totalitário e despótico quanto o de Platão. O ateísmo/materialismo pela anarquia absoluta e o Idealismo/fideísmo pela repressão e pelo controle absolutos. Uma Era de extremos. Quiçá a sofisticada Atenas do século IV a C tenha vislumbrado este cenário.

Agora, ao tempo de Platão não era, a solução totalitária ou despótica, tão variegada quanto a nossa mas, até certo ponto unitária e portanto tanto mais sedutora. Platão emprestou-lhe as tintas de poeta e moralista, mas não pode ver sua realização.

A um tempo a democracia estalou, veio abaixo e caiu, dando espaço ao Imperialismo de macedônico. Alexandre inspirava as melhores esperanças, pois havia sido aluno de Aristóteles... e Aristóteles, como já dissemos, ao menos quanto a política e suas estruturas não era metafísico mas empirista, realista ou relativista. Tudo quanto ele fazia era associar o ideal de 'bem comum' a determinada estrutura e assim legitima-la. Sob este aspecto era a monarquia tolerável, e até desejável, caso tivéssemos em mira a destruição do império persa. Esperava-se inclusive que Alexandre tivesse assimilado as lições do Filósofo e que inaugura-se uma nova era da ouro. Eram expectativas gerais, que malograram logo após sua morte. Sucedendo-se o inferno dos diadocos e epígonos... E a crise filosófica representada pela afirmação, ainda mais decidida, do ceticismo (cf V Brochard).

Agora como aproxima-se este Platão de Esparta se os tiranos, empossados pelo poder Espartano deram cabo de seu Mestre?

Ao tempo em que Sócrates fora condenado a beber cicuta o equilíbrio entre as facções era precário ou melhor dizendo delicado. Górgias de Leontinum e Protágoras haviam assestado golpes não apenas contra a razão mas também contra a tradição posto que eram uns iconoclastas nihilistas... Por outro lado temos o discípulo ingrato de Sócrates, Alcebíades, fazendo das suas... E sobretudo Aristófanes, que representa o sentir geral, não só ridicularizando os sofistas mas apresentando Sócrates como um deles, o que ele de modo algum era...

Já a entente conservadora precisava obter um bode expiatório e correr com ele da cidade, para dar exemplo. Em geral os Filósofos, uma vez acuados, fugiam... Era necessário fazer um deles fugir e Sócrates, em função das circunstâncias acima descritas, foi o escolhido. Ele no entanto não era o que dele pensavam. Não estava disposto a fugir, não fugiu e por isso mesmo converteu-se em mártir, não da democracia, a qual criticava positivamente, mas do pensamento crítico ou da liberdade de expressão. Ele insistiu muito nisso e podia ter aberto um 'nicho' favorável a pessoa... Disto beneficiariam-se igualmente os radicais. Portanto Sócrates tinha de ser imolado.

Em certo sentido Sócrates foi o único representante do liberalismo pessoal ou político em Atenas. Foi o dissidente, foi a objeção de consciência, foi o elemento discordante e acreditava ser direito seu portar-se assim. Certamente esta irrupção do pensamento liberal numa Atenas que sequer era democrática chocou há muitos e exasperou os ânimos. Sempre podia ser explorada pelos individualistas, anômicos, nihilistas, etc como sói ainda hoje. Mas os atenienses não estavam dispostos a arcar com o ônus social que semelhante exigência implicava.

Ainda hoje, e com plena razão, os extremistas irracionalistas, individualistas, relativistas... que tomam carona no liberalismo político ou moral, produzem escândalo entre os elementos ponderados da Sociedade e mesmo alguns distúrbios isolados. Tentem conceber a sensação que estas remoras ou sanguessugas da democracia produziram nos Atenienses há dois mil e quinhentos anos... Comprometeram e ainda comprometem as instituições democráticas esses extremistas e radicais, pelo que merecem ser ferozmente impugnados no plano das ideias.

Identificado, de um modo ou de outro, com os sofistas e portanto com o mal, foi Sócrates imolado pelo partido da ordem ou conservador. E no entanto era ele o médico... O único que criticando positivamente as falhas da democracia podia ter lhe dado vigor e vida. Pois a democracia precisa justamente de críticas construtivas e seus melhores amigos são aqueles que apontam seus defeitos. Pela que o democrata fanático ou formalista, de ontem ou de hoje recuse-se a percebe-lo.

Ainda aqui genial, Sócrates percebeu o descompasso - e como já dissemos isto é atual - entre uma boa estrutura e a falta de preparo ou de capacidade dos homens que a compõem ou que nela estão inseridos.

Não foi contra a democracia mas a favor de uma aristocracia aberta que Sócrates posicionou-se. De uma aristocracia potencialmente democrática, de uma aristocracia do saber, de uma aristocracia do mérito ou da competência, franqueada a tantos quantos buscassem dignificar-se. 

Sócrates percebeu o óbvio. Percebeu que a democracia demanda preparo por parte dos homens ou dos cidadãos de modo a não transforma-se numa oclocracia. Postulava que os juízes fossem escolhidos, dentre aqueles que conhecessem as leis... Postulava que os generais fossem escolhidos, dentre aqueles que conhecessem a arte da guerra... Postulava que aqueles que tivessem conhecimento a respeito de determinado tema ou assunto fossem levados em consideração pelos demais... Queria trazer qualidade a vida democrática. Suas críticas no entanto foram muito mal compreendidas e os democratas fanáticos jamais o perdoaram...

O próprio Platão pode ter tomado a crítica de seu Mestre noutro sentido. No entanto não há qualquer evidência de que Sócrates fosse tão totalitário ou despótico quanto seu pupilo. Seu liberalismo político coadunas-se mais com a forma democrática. De um modo ou de outro foi Sócrates um democrata lúcido ou crítico, que conhecia os defeitos ou vícios do sistema e buscava elimina-los. Por isso, ainda hoje é ele consumado modelo de polícrata para nós... Que sabemos faltar cultura ou espírito onde sobejam estruturas... prenúncio de morte.

Resta esclarecer que Atenas, quanto o passado, é o que temos mais próximo de nós. Nela podemos observar uma trajetória social bastante parecida com a nossa. Digo das sociedades 'políticas' que tendo ultrapassado o modelo romano, calcado no Digesto, tornaram-se ao menos formalmente democráticas.

Atenas surge, a exemplo das demais cidades, como uma comunidade familiar, que se faz militar e logo democrática com Clístenes, até aproximar-se por fim de algo como um mercado desregulado ou de um liberalismo econômico que sem embargo não se faz pleno. Pois os resíduos familiares, religiosos, militares e políticos o sufocaram; até que esta trajetória foi por assim dizer 'cortada' por Alexandre, seguindo outros rumos.

Atenas não nos segue ou acompanha até o fim embora a sucessão de formas comunitárias porque passou seja a que mais se aproxime da nossa. Por isso o estudo da civilização grega ou ateniense e seus problemas é tão fecundo para nós.

Roma não. Roma é outra coisa.

Associamos Roma a Grécia, porque após sua vitória em Queroneia tornou-se Roma província cultural de Atenas. E isto a ponto de tomar Platão por guia ao descrever o poder Cesáreo. Neste sentido Roma é grega, enquanto platônica no campo da política.

E nossa Renascença foi muito mais romana do que Grega ou ateniense. Aulo Gélio já o havia dito. Roma não manteve o sentido humano da coisa, descambando num eruditismo pedantesco e frio. Assim os humanistas da Renascença.

Roma, a exemplo de Atenas, começa como uma Sociedade familiar ou tradicional e militar na qual aos poucos - i é durante a República - vai se formando uma aristocracia aberta em posse de uns instrumentos semi policráticos quais sejam os plebiscitos e referendos. Tal seu elemento característico ou seu diferencial.

Roma sempre fora militar e jamais deixou de se-lo para tornar-se política.

Admitido que existiu nela uma orientação para a democracia, ao menos num determinado momento de sua trajetória, é necessário reconhecer que ela frustra a si mesma, embota-se e fica sem realizar-se. Roma jamais se tornará democrática. Através do Império Roma retorna ao ideal monárquico em termos ainda mais enfáticos e já foi sugerido (Antonio Piccarolo) que o Imperador associou-se as massas com o objetivo de suplantar aquela aristocracia senatorial que num dado instante fechou-se em si mesma.

Fato é que o impasse entre as aspirações populares e as aspirações acalentadas pela elite senatorial resultou numa pavorosa guerra civil, a qual perdurou por quase um século.

E como durante as revoluções e guerras a parte mais vulnerável é sempre a mais humilde, não nos devemos admirar de que, num determinado momento as camadas populares, fatigadas, se tenham inclinado a paz... Júlio Ceśar e Otaviano, que eram mentalidades genais, captaram muito bem esta situação propícia e buscaram explora-la em favor de si mesmos, colocando-se desde então ao lado do povo e contra o Senado.

Eles também eram lideres militares muito bem sucedidos e até mesmo estimados.

Diante disto o Senado, em situação de isolamento, apelou a ficção, passando a validar tudo quanto desejava o 'Imperador'. O Império nada mais era do que o comando supremo das forças armadas ou do exército e uma instituição belicosa... A paz augusteana foi mais uma paz interna do que externa, embora a paz externa tenha sido imposta pelas circunstâncias, assim pelo desastre de Teutburg, onde Varo perdeu suas legiões. Com Roma jamais entramos na política e jamais saímos da caserna. Assim após sua morte é Augusto divinizado, e quase nos sentimos no antigo Egito... Essa Roma que é a um tempo familiar, religiosa e militar, jamais se torna propriamente política, em termos estritos. Porque jamais se faz democrática.

Importa que todos estavam felizes: Os militares porque vigiavam as fronteiras colossais do Império em troca de soldo, a casta burocrática dos funcionários públicos, a hierarquia religiosa, o povo romano que recebia benefícios ou moedas de ouro e até mesmo o Senado que mantinha uma aparência de autoridade 'respeitada' pelo Imperador... Sendo assim Augusto tinha mesmo de ser canonizado ou divinizado. Era o arquiteto de algo mais ou menos estável trezentos anos após Alexandre. É como se todos estivessem dispostos a pagar pelo fim do conflito com o sacrifício da liberdade e dos direitos, i é com  submissão e este é o grande dilema das democracias formais parasitadas pelo capitalismo ou do estado mínimo o qual nada oferece as massas, o que torna essas democracias desinteressantes para elas e o odiado Comunismo, atrativo...

As liberdades abstratas e utópicas não atraem estômagos vazios ficando esta democracia censitária ou economicista sempre ameaçada pelos totalitarismos, desde que saibam manejar um simples prato de comida. A combinação democracia e miséria não é nada propícia aos valores democráticos.

Assim, se a jurisprudência romana coloca o Imperador acima da lei a redescoberta das Institutas ou do Digesto (Pandectas) durante a baixa Idade Média servirá para justificar ideologicamente o absolutismo ou o direito divino. Ainda aqui foi Roma uma fonte de atraso, estagnação social e inquietação para nós.

E quanto a economia?

Teria a sociedade romana atingido o mesmo grau de desregulamentação que antiga Atenas?

Talvez ao tempo de Augusto ou durante o século I, enquanto o poder Imperial ainda estava sendo construído. Pois desde o século II esse poder se vai ampliando e invadindo todas as esferas da vida humana - inclusive a religiosa, a ponto de conflitar com o Cristianismo nascente - até absorve-las por completo.

Temos assim, ao cabo do século III diversas leis destinadas a regular a atividade econômica. No entanto, por esse tempo, avança já a crise simultaneamente econômica e social, provocada pelo escravismo, pela estagnação territorial e pelo abolicionismo Cristão; dos quais resultou a inflação, o aumento de impostos, etc. O grande problema da economia romana foi o escravismo. A Grécia, de modo geral, não parece ter passado por isso...

A bem da verdade, a impressão que se tem é que na Atenas do século IV a C ou na Grécia antiga o número de pequenos ou médios empreendedores livres sempre foi maior. Assim o número de trabalhadores livres... tradição que parece prolongar-se no Império Cristão Bizantino. É uma hipótese a ser averiguada.

Em Roma temos, ao que parece, a macro empresa formada por um imenso número de escravos sob a tutela de um só homem. E um bando de homens teoricamente livres sustentados pelo imperador ou pelo poder público. Eu até ousaria dizer que Roma faz lembrar o capitalismo de Estado... não fosse a forma escravocrata. Em Atenas as coisas não se dão em tais termos...  

Seja como for, graças ao histórico do Império sabemos que não existe uma ordem fixa ou metafísica de sucessão quanto as formas de comunidade, e que nem sempre as coisas se sucederão como em Atenas.

Quanto a sociedade europeia contemporânea temos a ligeira impressão de que tendo partido de um modelo familiar/militar comum aos germânicos e análogo ao romano, tornou-se político na Inglaterra do século XVIII ou na França pós Revolucionária de 1789 para logo tornar-se econômico e dar lugar a uma terrível crise de cultura e identidade, semelhante aquela vivenciada por Platão. Karl Polanyi Resta dizer que o liberalismo político é uma construção comum, assim como o liberalismo religioso e o liberalismo moral. Há afirmações suas na Espanha, na França, nos EUA, na Inglaterra e mesmo, pasmem, na Rússia Csarista; pelo simples fato de ser um princípio Cristão.

Curiosamente a França revolucionária ou se preferirem jacobina construiu um modelo de democracia despótica - no sentido de que poderia ser imposta externamente a uma determinada sociedade -  análogo ao modelo ateniense ou ainda mais virulento ora assumido pelos EUA. Bem antes do Comunismo e do Anarquismo revolucionário, e do fascismo o jacobinismo desesperou da Educação e da Cultura i é do Espírito, assumindo um deplorável formalismo, inspirado no materialismo crasso.

Posteriormente, foi a mesma visão bizarra de uma democracia imposta por golpe ou oferecida por uma minoria, legada ao positivismo, o qual por sua vez inseriu-a em nosso pais... Onde democracia brota como Atenas da cabeça de Zeus, de um golpe militar, assumindo um viez militarista. Donde resultam todos os nossos problemas, assim os sucessivos golpes reencarnados e avatares ditatorais, filhos de uma democracia mal consolidada, meramente formal, sem espírito, consciência, cultura; numa só palavra - profundidade. Filha do jacobinismo é nossa democracia superficial.

O Comunismo percebeu a incongruência do jacobinismo, manteve o golpe, eliminou a liberdade e jamais compreendeu a dinâmica da cultura... Quanto ao liberalismo é certo que a França promulgou os direitos do homem e do cidadão, mesmo quando concedeu a doutrina da vontade geral uma abrangência tal que dificilmente encontraria apoio nos escritos daquele que a formulou e a ponto de tornar esta vontade totalitária. Numa perspectiva democrática mais direta admitimos que a 'vontade geral' seja internamente soberana em sua esfera - pública ou política  - mas não que seja totalitária, a ponto de imiscuir-se no que diga respeito ao privado... A separação entre o público é o privado é princípio de que não podemos abrir mão, assim o espaço sagrado da pessoa humana face a estatolatria. Ficamos assim entre o totalitarismo estatólatra e o individualismo, condenando veementemente a ambos, pois como declarou o Filósofo: Os extremos sempre se tocam.

Após ruminar tais pensamentos, colhidos neste ou naquele autor - Fustel de Coulanges, Crane Brinton, Hannah Arendt, K Popper, John Gray, R Nisbet, Ortega Y Gasset, P Sorokin, Victor Brochard, Alfred Weber, Antonio Piccarolo, Nicolas Berdiaeff, V G Childe, Harold J Laski, Jacques Maritain, Emanuel Mounier, etc -  entrega-mo-los ao juízo do amigo leitor...



sexta-feira, 6 de julho de 2018

As fontes espirituais do Nazismo!

Antes de concluir a série de artigos sobre o Nazismo e o Papismo cumpre repassar o quanto já sabemos sobre o assunto - O protestantismo, enquanto crença responsável por ter lançado os fundamentos do nazismo foi muito mais vulnerável a ele do que a igreja romana, tendo colaborado em maior escala e sido perseguido em escala menor.

A Igreja romana esboçou uma resistência bem maior a Hidra nazista, a pondo de ser, mais uma vez, apontada como inimiga número um do povo alemão, como traidora, etc Discurso editado em 1543, em 1870 (kulturkampf) e pelos nazistas desde 1937/38.

Para compreendermos o pôrque do nazismo se ter afirmado a partir do protestantismo temos de acompanhar Nisbet apud "Os filósofos sociais" caput "A comunidade religiosa." top Lutero.  Que nos diz ele?

Lutero principiou enaltecendo a fé e mesmo espiritualidade individual, para acabar endossando o estatismo, o absolutismo, a tirania e o erastianismo/cesaropapismo... Ao afirmar que a igreja importavam apenas as coisas da fé de modo algum separou-a do Estado, antes criou condições ainda mais atraentes no sentido do Estado abraçar a fé que ele anunciará, pelo simples fato desta mesma fé auto suficiente, abandonar tudo mais nas mãos do estado - Assim a moralidade/ética, a orientação política e o serviço social, o qual alias não foi assumido pelo estado, cessando de existir com o abandono da fé antiga. De fato ao protestantismo primitivo, diz Cobett, pouco interessava assumir a demanda social, ao menos em parte, assumida pela igreja medieval. Vindo as antigas instituições - Asilos, orfanatos, dispensários, hospitais, escolas, etc a colapsar num primeiro instante e, num segundo instante, a compor um enorme exército de reserva, entregue a miséria mais abjeta ou a mendicância. É um fato - A 'magnífica' reforma protestante lançou multidões a sarjeta.

Tudo quanto o estado quis assumir foram os bens materiais da igreja antiga - dos quais as massas sofridas não viram um cobre furado! - e o controle não apenas sócio, político e econômico, mas moral ou ético daquelas sociedades. É claro que ao revindicar semelhante controle - O controle da consciência - numa perspectiva ética, tal estado tornou-se absoluto ou totalitário. Sem a concorrência ou rivalidade exercida pelo Bispo, o senhor, rei ou príncipe assume o controle de todos os aspectos da existência humana, e Lutero dirá que este senhor deve ser obedecido dócil e cegamente ou seja, sem qualquer questionamento... Antes o Bispo era uma espécie de rei ou monarca espiritual, agora o rei é uma espécie de Bispo profano. Da noite para o dia é o senhor ou o príncipe descrito como um servo ou representante de Deus face ao qual é terminantemente proibido resistir, quanto mais rebelar-se.

Nisbet dirá que o luteranismo, demolindo a noção de comunidade religiosa - responsável pela afirmação de valores éticos destinados a inspirar as diversas esferas da ação humana - converte o estado ou a organização política numa 'igreja secular'. E desta noção de uma igreja secular deriva toda uma mística construída em torno do Estado Alemão, que degenera na estatolatria nazista, no momento em que - por via de Hegel - este estado é divinizado ou passa a ser compreendido como uma manifestação divina. Negando que a igreja antiga, externa, visível e comunitária seja algo Lutero converte o estado em tudo... Em fonte de princípios e valores, numa instância responsável pela afirmação da ética e da moral.

Como o Luteranismo não se ocupa de absolutamente nada além da fé, e de uma fé sem obras ou apartada da ética, o estado alemão ocupa o vácuo deixado pela igreja antiga. Substitui-a e herda parte de seu prestígio.

Isto na menos pior das hipóteses pois em algumas regiões da Alemanha, nem mesmo a fé permanece nas mãos da Igreja, na medida em que o príncipe ou rei, que segundo Lutero, enquanto Cristão é também sacerdote, passa a portar as duas espadas ou a exercer a autoridade religiosa. Este acumulo de poder é concebido e teorizado pelo luterano T Erasto. Por meio do erastianismo o estado torna-se Onipotente. E nada se lhe pode opor ou resistir, pois resistir-lhe equivale sempre a um pecado ou a uma heresia. Submeter-se passivamente aos caprichos de um soberano protestante converteu-se em dever religioso e rebelar-se numa tremendo sacrilégio, como podemos ler no panfleto sobre as Hordas dos camponeses fanáticos, os quais ele, M Lutero, manda trucidar em no nome de Deus...

Paulo dissera que TODO governante era ministro de Deus empossado por ele. Os protestantes, sem pingo de vergonha, declaram que o rei Católico poder ser legitimamente derrubado (Knox) enquanto que a majestade protestante deve ser obedecida em todas as coisas. Por isso que governante 'cristão' algum conseguiu ser mais despótico do que um Calvino ou um Cromwell... Lutero, Calvino, Erasto, Cromwell... Cada líder protestante adicionou um tijolinho a este 'muro' e mesmo quando a fé deixou de existiu, ele sobreviveu enquanto construção secularizada. Fragilizado, o luteranismo tornou-se ainda menos resistente a este novo poder. A partir do século XIX vai se tornando ainda mais vulnerável a ele. Assim o único obstáculo que resta em 1870, é, de novo, a velha igreja romana, e assim em 1937... A velha igreja sempre se reencarna na mente germânica, religiosa ou secularizada, como representante do mal. Na medida em que se opõem as místicas totalitária, racista e neo pagã.

Lutero consagrou suas forças a abater a igreja 'paganizada', Bismarck a combater - por meio da Kulturkampf - a igreja ultramontana e Hitler e seus comparsas a igreja judaizada... Foi um combate comum ou sem quartel porque desde Lutero, como diz Santayana, o que se estava a construir-se eram uma religião secularizada ou uma mística germânica. Se é certo que durante algum tempo a seita solifideista dos luteranos aspirou substituir a organização papista ou veio a substituí-la breve e ocasionalmente, quem substituiu a velha igreja de fato foi o Estado Alemão criado por Bismarck. Após 1870 a própria palhoça luterana passou a ser considerada como rival pelos primeiros teóricos do sistema e se não foi perseguida e satanizada quanto a igreja romana é porque foi demasiado colaboracionista. Nem podia uma organização desprovida de Bispos, substituir com sucesso a igreja medieval... predissera Melanchton, deplorando da decisão tomada por Lutero, de extinguir a ordem episcopal. Grosso modo o Bispo sempre fora um contrapeso ao poder real ou secular, e uma autoridade paralela a que os fracos e oprimidos podiam recorrer...

Desde Lutero, uma igreja presidida por Reis e senhores, tornou-se uma força a mais nas mãos dos ricos e poderosos. No momento em que os príncipes se tornaram Bispos a opressão assumiu um nível jamais conhecido em qualquer parte da Europa - Ali na Alemanha de Lutero, onde o feudalismo assumiu formas ainda mais consistentes e manteve-se firme até 1800, quando foi abatido por Napoleão Bonaparte. Como já dissemos, o absolutismo só se tornou mais forte nos cantões calvinícolas, onde os líderes religiosos - como Calvino, Knox ou Cromwell - exerceram o poder, direta ou indiretamente. Por meio do protestantismo todos os antigos pontos de equilíbrio foram rompidos e se com Lutero, na Alemanha, forma-se uma religião estatal ou uma mística secular, com Lutero e o Calvinismo, a democracia (Suiça por exemplo) converte-se em teocracia, segundo o modelo judaico ou vetero testamentário que os nazistas deploram. E pode-se dizer que ainda aqui, o protestantismo criou e alimentou dois modelos extremistas: O cesaropapismo erastiano que deu lugar a estatolatria nazi e a teocracia Calvinista, sendo o homem esmagado num e noutro caso, em nome da liberdade e do individualismo - movidos contra a religiosidade comunitária do passado...

Quanto a questão do nazismo racismo, a explicação é semelhante. Mais do que a velha igreja romana, apresentou-se a comunidade Luterana como um Novo Israel, já espiritual, já sucessor do antigo. E esta consciência de ser um novo Israel, juntamente com o apreço ao antigo testamento, foi crescendo de uma tal maneira até tornar-se obsessiva, o que de modo algum ocorrera na igreja antiga. No seio do luteranismo esta identidade mística atingiu uma dimensão tal que a simples existência do Israel físico ou histórico - na Inglaterra irrelevante - levou os 'piedosos' luteranos ao paroxismo do ódio.

E quando o luteranismo colapsou, os alemães de origem luterana, enquanto comunidade étnica, passaram a encarar a si mesmos como um povo ou uma raça naturalmente superior a todas as outras. Mesmo quando o sentido religioso desapareceu o sentido de superioridade permaneceu, assumindo uma conotação naturalista. Não se tratava mais de um povo eleito para Deus, no sentido de salvar-se no além. Mas de um povo destinado a fazer grandes coisas neste mundo e a deslocar os povos inferiores, como o israel carnal deslocara os antigos cananeus. Os alemães, por via do luteranismo, perderam o sentido universal ou Católico do Cristianismo, assumiram uma ideologia judaica e levaram-na as últimas consequências. É o que diz Santayana. E foi uma catástrofe.




segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Mais problemas de Socialismo - Foi esta teoria ultrapassada?

Resultado de imagem para socialismo cristão


Após termos considerado a situação das sociedades contemporâneas reguladas pela ideologia Capitalista ou as consequências produzidas por esta ideologia, não menos utópica e certamente mais irracional e insidiosa do que o socialismo, podemos passar a terceira questão, proposta nos seguintes termos:

"Não é - o socialismo - uma ideologia ultrapassada? A ideia de Marx daria certo no nosso contexto hoje?"

De minha parte começarei apontando um aspecto bastante curioso e contraditório da crítica direcionada o modelo socialista.

Curioso e sobremodo curioso que alguns adversários destes sistema acusem-no de utópico enquanto que outros acusam-no de ultrapassado. Mas como poder ser utópico, i é impossível de ser implantado ou realizado no mundo e ao mesmo tempo ultrapassado, logo até certo ponto trivial ou comum?

Seja como for a indagação posta nestes termos - Se foi ele, o socialismo, ultrapassado? - é importante na medida em que damos com ele em diversas situações geográficas e históricas não enquanto mera ideologia utópica mas enquanto práxis ou prática i é enquanto modelo de organização social.

Nem é como mera ideologia que deve ser avaliado, ele ou o capitalismo; mas na prática ou na aplicação.

Neste sentido é perfeitamente redarguir com outra pergunta: E o capitalismo, não é ele uma ideologia ultrapassada? Pelo simples fato de nos ter conduzido a beira de um colapso ambiental ou de um suicídio enquanto espécie? Pelo simples fato de ter acenado com o infinito num sistema que é finito? Por ter sancionada a tendência do indivíduo tornar-se lobo do outro? Por ter estancado a circulação das elites e criado um Império de medíocres (Reverto assim a crítica favorável dos elitistas mal informados)? Por ter ignorado supinamente a existência da dimensão ética da vida conforma as lições do positivismo? Por ter promovido um sem número de guerras fratricidas? Por não poucas vezes ter 'brincado' com o veneno do fanatismo religioso?

Por quanto mais nossa terra poderá resistir?

Não sabemos, mas intuímos que não nos resta mais muito tempo...

E tudo graças a quem?

A teoria segundo a qual o principal objetivo desta vida é obter dinheiro, lucro ou fortuna em máximo grau, SE POSSÍVEL, honestamente.

Dados os objetivos foram delineados os meios, os quais conhecemos muito bem...

E agora temos diante de nós os resultados - milhares de espécies de plantas e vegetais definitivamente extintos, a terra em estado de super aquecimento, os pólos derretendo, os oceanos subindo de nível, os tornados e ciclones tornando-se mais poderosos, etc, etc, etc E gente e mais gente dizendo que tudo isto é perfeitamente normal ou mesmo que não esta acontecendo absolutamente nada. Que somos uns tolos cooptados pela propaganda vermelha, cujo objetivo é massacrar a reputação do bom e velho capitalismo!!!

Diante de tudo isto que ouvimos por parte dos chefes ou das cabeças medíocres ou mesmo imbecis do sistema (Bush e ou Trump)???

Que o ritmo da economia Norte americana é mais importante do que a conservação do planeta ou que não podemos parar de produzir...

Tal a resposta que nos é oferecida pelo sistema da moda ou do momento.

Mas os tubarões estão atacando os banhistas nas praias do Recife, coisa que jamais se viu... Tudo efeito da propaganda socialista ou do PT, os tubarões foram certamente cooptados.

Por fim como falar na viabilidade ou no sucesso de um sistema responsável pela depredação do planeta no mais alto grau e que continua, após dois séculos, repetindo como mantra que devemos acumular, lucrar, produzir ou explorar ao máximo????!!!! Que nível de racionalidade pode existir neste padrão de pensamento???

Fomos enganados desde o princípio por um sistema falacioso que editou promessas em torno de infinitude ou ilimitação num espaço material que é finito e quantificável.

O que nos leva a sonhar com foguetes e colônias na lua ou em Marte onde possamos continuar a explotação após termos transformado este nosso planeta num cadáver um numa carniça ambulante, contaminado por um nível de poluição jamais visto no universo observável. Estamos no mínimo transformando a terra em que vivemos num imenso lixão, monturo ou depósito de resíduos, e ainda não podemos sair dela ou abandonada a semelhança dos ratos que saltam do convés.

Apesar disto o discurso é o mesmo e se mantém inalterado, havendo quem insista em tecer loas e dirigir aplausos ao deus capital.

Agora vou revelar ao amigo leitor uma verdade importante e a respeito da qual muito devemos meditar: E este nosso mundo todo infectado por sucessivas epidemias de socialismo não é o ambiente ou mundo ideal sonhado pelos liberais ou capitalistas...

Como é???

Isso mesmo. Devido ao maior ou menor grau de contaminação socialista produzida pela revolta ou pela resistência de tantos idiotas, o capitalismo jamais atingiu o seu nível ideal de desenvolvimento porque jamais foi de fato deixado livre e ao sabor de suas próprias forças!!!! Você compreendeu bem???

Diante disto temos de considerar a profunda reflexão do outro Karl, o Polayni: Via de regra desdouramos quanto a todo este grau de resistência experimentado pelas diversas sociedades face as aspirações do liberalismo, sem imaginar o quanto toda esta resistência desacelerou-o. Sabe-se lá em que estádio de degradação estaríamos agora caso não fosse a soma de toda resistência ao modelo do lucro máximo... Se ainda não chegamos ao fim da linha, agradeçam o odiado socialismo enquanto elemento de contenção.

Evidentemente que o Capitalismo desejaria ter feito mais e muito mais...

Tendo por modelo a clássica sociedade vitoriana da livre iniciativa, a qual esteve em vigor de 1830 a 1880, ou seja mais ou menos durante meio século na querida Albion. Temos ai a santa Genebra do capitalismo ou sua idade áurea com que jamais cessou de sonhar. Nem precisamos ler as obras dos rancorosos socialistas que tudo falseiam para conhecer a sociedade de Jack, o estripador; pois temos as obras clássicas e estilosas do britaníssimo Mestre Charles Dickens, condecorado por sua majestade. Nada muito distante do quadro pintado pelo odiado Marc Ferro em seu 'Livro negro'... Há quem diga e não sem fundamento que durante o período áureo do capitalismo os escravos brasileiros desfrutavam de uma condição pouco melhor do que os trabalhadores livres de Manchester... Os quais além de viverem em barracões de papelão sem água encanada, luz ou esgoto, comiam, quando tinham, um pedaço de pão duro, além de cobrirem-se com trapos, num pais em que o inverno é bastante rigoroso.

Estou falando em crianças de seis anos (alguns registros dizem quatro!), de octogenários e de mulheres no oitavo mês de gravidez, trabalhando nos corredores das minhas de carvão sem qualquer tipo de proteção, com um pedaço de pão velho no estomago (muitas vezes vazio) por até dezoito horas por dia e 364 dias ao ano. Tudo muito bem regulado em nome da liberdade de contrato... Afinal quem não quisesse bem poderia deixar de trabalhar PARA MORRER DE FOME COM SUA LIBERDADE!!! Bom insistir que tudo isto foi sustentado e mantido em nome da bela doutrina da livre iniciativa e da neutralidade do estado face a dinâmica natural do próprio Mercado. Mais, em nome de tudo isto, até foi formulada uma refinada doutrina a respeito do mínimo de insumos a serem oferecidos ao trabalhador em troca da força de trabalho, o qual lhe permitiria apenas conservar a vida! O que ainda hoje é seriamente discutido entre os acadêmicos liberais!!! Preciso entrar nos detalhes desta quantificação matemática em termos de pão, água e pano necessários ao trabalhador para permanecer vivo e trabalhando ou melhor produzindo para seu patrão???

Enfim nobre amigo leitor, este é o ideal ou a proposta clássica do Capitalismo, frustrada apenas e tão somente devido as ardilosas conjurações tecidas pelos socialistas frustrados e rancorosos, os quais recusaram-se - oh céus - a aceita-la. Aqui todos são vagabundos pelo simples fato de não quererem trabalhar intensamente, isto é, ao máximo - e a pão e água - por aquele empreendedor exemplar que é o patrão. E não venham com chorumelas pois esse negócio de 'mais valia' não existe rsrsrsrsrsrs

De fato o Capitalismo tem acenado não apenas com a circulação das elites mas também com a posse de riquezas para todos ou para a maioria dos membros do corpo social e ao menos para os mais esforçados, que adotem sua regra de vida, i é, trabalhar honestamente e economizar. No entanto quando examinamos mais de perto o que vemos? Vemos a maior parte dos trabalhadores ou assalariados - o capitalismo clássico é contra um salário mínimo fixado pelo estado em nome do maravilhoso livre contrato - enriquecerem??? Não. Então o que vemos??? Bem o que nós vemos é os herdeiros enriquecerem (mais e mais a cada geração)... Os que jamais põem as mãos na massa enriquecerem... Os trapaceiros sem consciência enriquecerem... Os bem casados enriquecerem... E acumularem cada vez mais riqueza.

Vemos quem não trabalha mas vive gozando a vida enriquecer ou acumular e quem busca ganhar o sustento com o suor do próprio rosto rojar na miséria... É o que amiúde vemos, e por que??? Porque, respondem-nos os advogados do capitalismo, os trabalhadores, os trabalhadores são esbanjadores - pelo simples fato de quererem provar vinho ou atum uma vez por ano ou uma vez na vida - enquanto que os patrões são sacrificados, morigerados, heroicos, disciplinados e praticamente, abençoados por deus rsrsrsrsrsrsrs Alguém se lembra de Max Weber e da 'Ética protestante...' Como se vê o capitalismo tem seu 'hagiológio' onde constam os nomes dos patrões morigerados, apesar do caviar, do Hanessy, dos banhos em leite de aveia, das cirurgias plásticas, iates, ferraris, heliportos, etc Quem não percebe que proporcionalmente este patrão gasta muito pouco para viver tão bem???

Agora por que acumula tanto é o que não explicam... Porque lá entra a mais valia ou a parte - colossal - do trabalho produzido de cada trabalhador abnegado, a qual fica com o senhor patrão. Imagine então o que sucede com quem explota o trabalho de dez mil operários abnegados... A cada ano mais dez fábricas ou filiais, apesar dos limitadíssimos gastos com festas e recepções a um milhão de reais cada!!! Enquanto o trabalhador ganha 900 pratinhas graças ao salário mínimo fixado pelo Estado ou pelo poder político... Pois a depender da maravilhosa ideologia capitalista passaria muito bem com cem reais por mês caso não morresse. Quanto aos filhos pequeninos - salário família ou o bolsa família correspondem a situações monstruosas para nosso asceta do capital - que se prostituíssem como nos velhos tempos da Rainha Vitória e fossem respeitosamente deflorados pelos membros da elite reinante.

A bem da verdade o que temos aqui é pura falácia (cf Henry George 'Progresso e pobreza) i é miséria acumulando-se de um lado na mesma proporção em que a fortuna acumula-se do outro em muito poucas mãos. E uma ampliação continua da separação social entre as classes. Uma minoria incipiente de milionários cada vez mais milionários e uma maioria de miseráveis cada vez mais miseráveis. O que nos conduz de chofre - na medida em que a religiosidade apaziguadora vai perdendo a força - a situações de conflito e violência e consequentemente a necessidade das elites terem as mãos um aparelho repressor - em certo sentido retornamos ao paradigma da coerção física na medida em que a alienação da fé vai perdendo sua força - muito bem organizado, tal e qual uma polícia militar.

Tal a situação entre as classes, mas não só entre elas; pois na mesma medida em que algumas sociedades vão abraçando a ideologia capitalista e atingido máximo desenvolvimento em seu espaço, tendem a lançar-se contra as sociedades mais fracas com o objetivo de coloniza-las ou escraviza-las gerando outras relações de dependência e uma situação de miséria social generalizada, assim o subdesenvolvimentos. Por outro lado na medida em que as sociedades exploradas vão tomando consciência de sua situação, mesmo quando não se tornam comunistas ou mesmo socialistas, tendem a insubordinar-se e a sacudir o jugo da dominação imperialista, resultando disto outros tantos conflitos extra nacionais ou mundiais i é as guerras.

No interior das diversas sociedades o capitalismo alimentando a revolta estimula a rebelião e a sedição, produzindo um clima continuo de instabilidade e insegurança. Externamente produz uma série de choques e guerras entre as diversas sociedades imperialistas e subdesenvolvidas. Outras tantas guerras que fogem a esta dinâmica são produzidas ou alimentadas tendo em vista as necessidades da indústria bélica ou mesmo da indústria civil - cujo objetivo premeditado é a reconstrução da infra estrutura destruída pelas guerras - enfim do Mercado. O Mercado precisa ser aquecido pelas guerras, as guerras são feitas e exploradas economicamente.

De tudo isto, tenho de parar por aqui ou de escrever uma Enciclopédia rsrsrsrsrs, ressalta claramente a inviabilidade do Capitalismo, observada desde as mais priscas eras i é desde Th Morus e Campanella. Melhor dizendo, desde Evemeros, Zenon e Jambulos. E desenvolvidas por Bacon, Harrington, Mably, Morelly, etc St Simon, Owen, Fourier... Não a poucos observadores qualquer uma destas utopias - que só é utopia enquanto não é realizada por algum homem mais atilado - é preferível a realidade acima descrita. Foi o desencanto - a expressão é de T S Elliot - ou a angústia produzidos pela nova sociedade do capital que lançou parte dos homens nos braços da utopia.

O socialismo no entanto, em maior ou menos medida, tendo existido concretamente e na maioria das vezes com sucesso, numa determinada conjuntura histórica, não nos parece nem ultrapassado nem inviável, mas absolutamente necessário enquanto única forma de oposição a realidade indesejável que temos, o Capitalismo.

Como poderia ser ou estar ultrapassado se no momento presente ou agora mesmo - e há mais de meio século - regula os destinos das sociedades mais civilizadas do planeta, no Norte da Europa ou Escandinávia? Como poderia ser ou estar ultrapassado sem em Cuba tem enfrentado com relativo sucesso um embargo imposto pela nação mais poderosa da terra? Como poderia ser ou estar ultrapassado após tudo quando tem realizado pela população mais humilde da Venezuela e na perspectiva de uma democracia semi direta? Como poderia ser ou estar ultrapassado se em parte contribuiu com o que a de melhor para as legislações trabalhistas da Alemanha, Inglaterra, França, Itália, Espanha e Portugal tornando tais sociedade relativamente estáveis apesar dos progressos do capitalismo???

Já quanto as ideias de Karl Marx - já dissemos que o Socialismo não procede de K Marx mas de Urukagina, Akenaton, Faléas, Sócrates, Buda, Confúcio, Jesus, Paulo, Padres da Igreja, Escolásticos, Utópicos, etc - temos que distinguir seu duplo conteúdo: O conteúdo científico, de crítica formal ao modelo capitalista, vazado em sua obra clássica o capital. Temos aqui uma análise empiria e econômica de uma realidade dada, a qual revela sua inoperância ou seus defeitos estruturais. Neste terreno as críticas de Marx são tão válidas que tiveram de ser consideradas e incorporadas por J M Keynes. O capitalismo é viciado e inviável socialmente falando.

Já no 'Manifesto comunista' e obras congêneres temos um projeto de sociedade futura fundamentado em determinados princípios e valores, e portanto numa ética tomadas ao Cristianismo e ao Humanismo socrático. Concedemos sem maiores problemas - não somos positivistas - que este projeto seja mais ético, abstrato, metafísico, etc do que científico. Para além disto a proposta do Marx socialista costuma ser mais radical que as demais propostas socialistas de modo que ele é um tanto demolidor ou iconoclástico e isto a ponto de querer eliminar o regime assalariado - contaminado pela mais valia - e para tanto fazer uma 'reforma agrária' dos meios de produção, compreendido como os instrumentos ou aparelhos destinados a produzir algum bem de natureza econômica i é negociável. Naturalmente que isto, para nós - que não somos comunistas - é discutível. Por fim quanto aos meios embora Marx mesmo, tal como Engels, Kautsky e Berstein e nós mesmos, tenha em sua última fase optado pela via institucional (superando assim sua crítica um tanto radical assumida na 'Crítica ao programa de Gotha) devemos lembrar que Lênin, a partir de Sorel, elaborou uma mística revolucionária a partir da qual o conceito de Revolução passou a ser compreendido necessariamente e exclusivamente em termos de um conflito bélico sempre regado com sangue. Desde então os comunistas ou marxistas ortodoxos esforçam-se por atribuir esta opinião a Marx e isto a ponto de alguns deles acusarem já não somente Kautsky, mas o próprio F Engels e mesmo Eleonor - filha de Marx - de terem falsificado o pensamento do barbudinho e criado ou legalizado a social democracia compreendida como via institucional. Segundo esta visão artificiosa tantos quantos precederam Lênin teriam sido renegados ou falsificadores. No mínimo, nenhum deles teria penetrado e compreendido perfeitamente o pensamento de Marx antes do russo. O idealismo embutido nessa teoria salta a vista - É como se Paulo tivesse compreendido melhor a mensagem de Jesus do que Pedro, Tiago e João i é as testemunhas oculares da palavra ou como se os califas tivessem compreendido os ensinamentos de Maomé, melhor que a shahaba.

Claro que todo este projeto de Marx e mais ainda a metodologia canonizada por Lênin e jamais aceita acriticamente pelos sociais democratas e 'revisionistas' é mais do que discutível e eu não penso que a mística ou receita de bolo da Revolução armada e violenta ou da sedição, seja viável - abstratamente - em quaisquer sociedades. Os modos porque alcançar o socialismo são diversos ou múltiplos e a institucionalidade poderá ou não se possível, em muitas situações o é. Isto porém é discutir com Lênin não com Marx e tenho para mim que a cosmovisão de Lênin, segundo reconhece Engels numa de suas últimas cartas a Kautsky só é viável em situações não democráticas de exceção, assim como um golpe de estado semelhante ao qual estamos vivenciando hoje no Brasil. E não preciso ser comunista e nem mesmo socialista mas simples liberal (em política), democrata ou policrático para reconhecer que um governo ilegítimo ou golpista deva ser removido por meio da força ou das armas, este ensinamento não é de Marx ou Engels mas dos grandes teóricos da Revolução Francesa, de Alfieri, enfim de John Locke ou mesmo do Pe Jesuíta Juan de Mariana. Não é problema de socialismo ou marxismo mas de política e de liberalismo clássico face a tirania. A própria Constituição dos EUA é taxativa ao declarar que todo cidadão tem o dever de rebelar-se face a uma situação anti democrática de golpe. Salvo em tais situações anti democráticas que fogem a legalidade os socialistas, mesmo marxistas - não leninistas - aceitam o jogo democrático, embora os mais esclarecidos aspirem desconstruir a democracia burguesa ou formal ampliando-a e aprofundando-o na perspectiva de uma democracia cada vez mais direta, a exemplo do bolivarianismo venezuelano, do Demoex na Suécia, etc o que reporta a Gramsci, Polantzas e outros teóricos que seguem na vertente oposta a de Lênin. 

Penso que qualquer uma dessas propostas socialistas - excluída a da ditadura do proletariado, conceito tomado por Marx ao atrabiliário Blanqui e canonizado por Lênin - seja preferida a realidade capitalista. Não me refiro aqui ao comunismo enquanto solução futuro ou ao marxismo ortodoxo, mas apenas e tão somente a qualquer solução socialista nos termos de uma social democracia vinculada a implementação de uma democracia direta ou semi direta que permita ao povo desmassificado e esclarecido tornar-se agente de sua História. Sim eu acredito na viabilidade desta proposta. Temos aqui uma vasta gama de propostas socialistas a serem empiricamente testadas no corpo social e não podemos dizer que seja inviável antes de testa-las e esgota-las todas.