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domingo, 26 de novembro de 2023

Religião, credulidade e incredulidade





                                                          OS MILAGRES


Acho mesmo muita canalhice alguém afirmar que Deus é bom e maravilhoso só porque está tudo bem com ela. Quer dizer que quando der ruim Deus ficará sendo feio e mau...

A meu ver essas pessoas que acreditam que a divindade atua exclusivamente em favor delas ou de seu grupo são pessoas sem caráter, egoístas e centradas em si mesmas.

Não tenho motivo algum para julgar que atue Deus em favor delas enquanto nada faz pelas criancinhas famintas da África ou da Ásia - Mesmo porque as criancinhas são inocentes enquanto que elas...

Por outro lado leio na pura palavra de Deus, que ele - Deus, não faz acepção de pessoas; mas que faz chover sobre justos e injustos, sendo imparcial...

Enquanto o ego carnal se apresenta como especial ou como algo da predileção divina, declara Deus que todos são iguais e portanto que não atua em favor de A, B ou C.

Imagina só o caboclo se matando de estudar para passar no vestibular ou no concurso público e Deus ajudando e promovendo sujeito que não estudou, i é, um vagabundo parasita.

Tampouco me parece digno que altere Deus a ordem de um mundo que ele mesmo criou... Afinal porque consertaria Deus algo que poderia ter feito melhor desde o princípio...

Enfim julgo que pessoa alguma daria o melhor de si para evitar algum erro caso contasse com o bom Deus para consertar suas 'cagadas'. Nesse ponto um sadio deísmo ou naturalismo, que exclui o fetichismo, oferece-nos melhores garantias em termos de prevenção de acidentes... E de fato penso que qualquer profissional que qualquer profissional que acredite em milagres ou intervenção divina, tenda a ser mais displicente que um cesssacionista.

Por fim a busca por milagres e eventos sobrenaturais corresponda a uma alteração da ordem divina na medida em que apresenta a divindade como estando a serviço das criaturas ou como executora da vontade delas.


EXTREMA SIT TAGUNT

São nossos neo ateus notáveis por confundir a totalidade das pessoas religiosas com radicais protestantes ou muçulmanos i é com pentecostais/calvinistas e sunitas... O que me parece uma deturpação da realidade ou pura e simples desonestidade.
Também me parecem equivocados quando associam a existência de Deus ao discurso religioso ou quando atribuem a questão da existência de Deus a autoridade, livros, fé, religião, etc e, ainda aqui, se mostram herdeiros de Kant, um pensador luterano alemão que buscava justificar o fideísmo ou exaltar a fé cega.
De fato, seguindo a mesma linha do agostiniano pessimista Lutero Kant tinha por lema abater a a percepção, a racionalidade e a metafísica naturalista ou a capacidade especulativa dos seres humanos para glorificar a fé ou a Revelação divina. Acho incrível mesmo que os céticos, agnósticos e ateus elevem aos céus um autor cujo pensamento deriva justamente do universo religioso e de um universo religioso deplorável. Os protestantes, bíblicos e fundamentalistas agradecem, - Pois situando a divindade no plano da fé cega o debate se torna impossível, e consequentemente qualquer tentativa de impugnação. Segundo o critério de Kant o deus dos fanáticos é sempre intangível.
De fato se a existência da religião revelada depende da existência de Deus, Deus sempre poderia existir sem se ter comunicado com os seres humanos, como predicam os deistas. De modo que a relação não é natural ou necessária e da falsidade das religiões em seu conjunto nada se poderia aduzir de concreto sobre a existência Deus, exceto que seus supostos ou pretensos porta vozes são falsos. A questão em si, da existência de Deus, continuaria sendo tema da metafísica ou da teodiceia, exatamente como foi colocado pelos grandes pensadores gregos: Xenófanes de Colofon, Diógenes de Apolônia, Anaxágoras, Parmênides, Sócrates, Platão, Aristóteles, Crísipo de Solis, Cleanto de Assos, etc
Acho curioso que os modernos passem da fé cega numa religião qualquer diretamente ao ateísmo ou a negação de Deus, sem sequer examinar o agnosticismo ou o deísmo, ao contrário de nossos nobres e prudentes ancestrais. Coisas da bíblia é claro, digo eu, pois apenas a leitura despreparada e irrefletida desse livro poderia causar um tão estranho prodígio.
'Tocam-se os extremos" como diria o 'estagirita' - E de um extremo a outro vão as massas.


PROTESTANTISMO E INCREDULIDADE.


Coisa notável é o protestantismo por produzir, nas massas idiotizadas, um topor estúpido e nos humanos mais inteligentes, materialismo e ateísmo, i é, apostasia. Disto talvez resulte, no futuro, um grande conflito social entre os dois extremos.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Marx, Darwin e Freud, três intelectuais face ao Sagrado.


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Caso houvesse concurso de mentiras ou lorotas não sei quem ganharia. Se os neo ateus cientificistas ou seus desafetos fundamentalistas. Basta dizer que uns e outros amam classificar o grande Ch Darwin como ateu em suas publicações ineptas... E por ai vai - Os sectários fanáticos classificam como ateus e materialistas, irreligiosos, etc a tantos quantos repudiam seu deus retangular, a bíblia e os neo ateus, aplaudem e declaram: É exatamente assim, encampando um bom número de irreligiosos e agnósticos que jamais negaram a existência de um Supremo Ser ou de uma Consciência universal...

Fenômeno curioso este de dois grupos extremistas e fanáticos explorando os mesmos boatos, fábulas e mentiras. Sem pingo de dor na consciência... Uns quiçá por crerem que o rubro sangue do Nazareno tudo lave, e outros por repudiarem um padrão universal de bem ou virtude.

Por isso resolvi escrever algumas linhas sobre os grande ateus ou sobre os grandes ateus inventados. E começarei por Karl Marx. O qual era ateu de fato, mas de modo algum fanático como seus pretendidos seguidores ou sucessores, que parecem ter chegado a fobia...

Materialista convicto não podia Marx admitir a existência de um princípio espiritual ou imaterial paralelo, por inferência era ateu num sentido muito próximo do de Sartre: A existência dum tal Ser não lhe interessava, além de é claro parecer-lhe sem sentido. Alias, como um materialista poderia encontrar sentido numa entidade Imaterial e Invisível. No entanto Marx não perdia seu tempo precioso buscando convencer os religiosos e teístas ou visando converte-los ou salva-los. De fato ele não entrava em discussões metafísicas como o teófobo Seb. Faure... Não se empenhava em demonstrar ou provar, através de argumentos, a inexistência de Deus.

Mais ainda. O odiado Marx parece até ter tido respeito e sabido lidar muito bem com os sentimentos religiosos alheios, não lhe faltando até certa delicadeza. Ocorre-me ter lido, quando moço, trechos da correspondência que trocará com uma garota ou menina, na qual a mesma aludia ao costume de ir a Missa com a família todos os Domingos. Em certo momento Marx assim se expressa: 'Como de costume sei que iras a Missa...' e 'Porém depois que chegares da Missa...' sem revelar a jovem qualquer sentimento amargo ou negativo. Enquanto qualquer pentecostal fanático diria a queima roupa: A Missa é uma cerimônia demoníaca... em nome de seu belo deus e de seu teísmo azedo e supersticioso. O ateu e 'diabólico' Marx no entanto não procede assim. Parece até saber compreender, tolerar e colocar-se no lugar do outro... Parece que aprendeu muitas coisas boas com o capeta ou com o não deus...

Freud é outro departamento. Ao contrário de Marx e Sartre era ateu forte... tendo o costume de destilar seu ateísmo a todo instante. E juntamente com ele, por admirável força de coerência, toda sua falta de esperança. Um ateu não deveria abrigar o veneno metafísico da esperança em seu coração dizia ele. Evolucionismo, progressivismo e outros vestígios de misticismo Cristãos haviam sido lançados ao limbo por ele bem antes da crítica ácida de Grayling e outros. Para este grande representante do ateísmo, mais do que para o fanático Agostinho de Hipona, os bebês nada mais eram que malvados polimorfos e o homem algo semelhante a um verme ou parasita.

Apesar disto Freud, como todos os neo ateus sentia imenso mal estar em dialogar ou discutir sobre a teísmo natural dos antigos gregos. Em "O futuro de uma ilusão" não hesita sair pela tangente e declarar que esse Deus, o da metafisica racional, de Platão, de Aristóteles ou dos Filósofos, não o interessava. O deus que interessava a Freud, como a Dawkins e a tantos outros, era apenas o espantalho fetichista dos fanáticos religiosos e fundamentalistas i é à la Genesis... Assim, lançando-se contra esse espantalho, fica mesmo fácil...

Agora onde procurar as fontes do ateísmo freudiano? Há uns poucos anos lí uma análise psicanalítica segundo a qual Freud transplantou o ódio que sentia pelo pai e rival para Deus... Achei delicioso, no entanto minha opinião é bem outra. Quiçá a dor e a indignidade física tenham consolidado o grande psicólogo em sua posição. Afinal desde 1920 até a ocasião de sua morte passou ele por cerca de vinte intervenções cirúrgicas, devido a um câncer bucal extremamente invasivo. A cabo do processo esta terrível enfermidade lhe havia destruído a mandíbula e arrancado a lingua. As dores eram lancinantes e a morfina já não conseguia alivia-las... Por fim houve uma rejeição da prótese e necrose, o cheiro tornou-se tão repugnante que afugentou-lhe os queridos cães. Diante disto ele suplicou por uma dose maior de anestésicos e... Pense então numa pessoa que padece de dores atrozes e que por fim se vê apodrecer viva. Coloquem-se no lugar dela. Tentem identificar-se... Difícil estar no lugar de Freud sem pensar como ele ou até revoltar-se. Fácil falar sentado sobre as poltronas do sofá... Julgo melhor tentar compreender mais e julgar menos. Quero dizer apenas que Freud, a partir de sua experiência diária ou de sua vivência, não tinha lá motivos muito fortes para mudar de posição face ao problema de Deus.

Tanto pior se me disser que o deus 'sábio' serviu-se da moléstia que o consumia para castiga-lo. Ora todo castigo vindo de um Ser Bom, Generoso e Filantropo só pode ser a recuperação do homem e não para sua exasperação. No entanto supostas punições, dolorosas e desumanas como estas, só serviram mesmo para exasperar e produzir revolta nos corações dos mortais. Concluo que o deus dos fanáticos nada sabe sobre atrair e reconciliar os seres que criou. Sua pedagogia é um completo fracasso ou um reforço do ateísmo. Já a simples hipótese de estar ele exercendo vingança não passa de sadismo, i é o reforço do sacrilégio e da blasfêmia. Melhor aceitar o fato de que semelhantes desgraças são meros acidentes com que nos brinda a natureza ou a sorte, sem que a excelsa divindade tenha qualquer coisa a ver com elas...

Chegamos assim a Darwin. O qual jamais professou qualquer forma de ateísmo. Haja visto sua reflexão a respeito da sabedoria divina e do processo evolutivo em termos naturais contida na própria Origem das espécies. Religioso durante a primeira quadra da vida e destinado ao ministério eclesiástico confrontou-se aquela mente, antes de tudo, com a grosseria do Gênesis e da mitologia hebraica, porque se batem até hoje os fanáticos bíblicos, não com Deus.

Os advogados da mitologia no entanto, como Sedwigck, não pouparam esforços para fazerem-no avançar em sua posição. O que tal e qual no caso Freud foi reforçado pela própria vivência ou pela experiência pessoal. Pois Darwin teve de assistir a morte de dois de seus rebentos amados, o pequeno Charles, levado pela escarlatina e sua filha predileta e companheira Anne, após lenta agonia, aos dez anos de idade. Desde então parece ter perdido a fé e se tornado deísta. A partir daí podemos observar sucessivas crises existenciais oriundas duma existência tocada pelo sentido trágico da vida, por delicadeza, lirismo e recaídas religiosas... Foram sucessivas crises, idas e voltas, revisões, jamais privadas de uma grave consciência espiritual.

Sua trajetória no entanto, sequer parou por aqui, pois Darwin apenas encontrou escolhos metafísicos jamais vislumbrados antes e assim dignos de nota. Com efeito em suas ulteriores pesquisas pode observar o que compreendeu como um certo índice de malignidade presente na própria natureza ou no mundo natural. Observou o excesso de vida e a carência de alimentos, assim a fome. Observou em certos animais costumes bastante bizarros, que chegam a crueldade. Observou que ao menos em parte o processo evolutivo é estimulado pelo incomodo ou pela dor, enfim por situações de sofrimento, catástrofes, etc Passou então a ter dificuldades para relacionar tais fatos como conceito de um Deus bom e misericordioso... Tanto mais pesquisava e mais parecia divisar uma face maléfica na natureza, representada alias por sua seleção natural. Diante disto, nos últimos anos de vida, parece ter passado do deísmo ao agnosticismo e chegado a duvidar da existência de Deus, sem no entanto jamais obter qualquer certeza a respeito.

Em seus últimos dias Ch. Darwin a todos recebia em seu convívio fossem clérigos, religiosos ou teóricos ateístas... Com uns rezava, em companhia de Emma, com outros ouvia, não poucas vezes ferozes preleções contra a fé religiosa ou mesmo favoráveis ao ateísmo, sem todavia jamais endossa-las formalmente e até exigir certo decoro ou respeito. A atitude muito parecia-se com a de um agnóstico, ao qual fugiam todas as certezas e ambas as metafísicas: A teísta e a ateística... Darwin jamais declarou estar convencido sobre a inexistência de Deus ou tentou demonstra-lo. Tampouco desejava polemizar fosse com os ateus ou com os religiosos... Sua atitude sabe a neutralidade ou isenção, bem a gosto da divisa: Ignorabimus et ignorabimus. Tal parece ter sido seu ponto de vista definitivo, no momento em que abandonou esta existência, portanto apresenta-lo como ateu ou ateu forte sabe a mentira grossa e cabeluda.

Religiosos e ateus sejam antes de tudo honestos, evitando atribuir suas opiniões aos outros ou o que é ainda pior atribuir-lhes uma concepção que julgam ser indigna, porque em ambos os casos vocês, falseando a realidade histórica - Em nome de seus queridos sistemas! -  é que se tornam indignos.


domingo, 3 de setembro de 2017

O problema da neutralidade em ciências humanas

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Um dos temas mais polêmicos no que diz respeito a produção de um conhecimento científico é o da assim chamada 'neutralidade' ou isenção, a qual epistemologicamente chamamos objetividade.

A contrário do que se pensa o tema diz respeito tanto as ciência humanas quanto as ciências exatas, embora pareça mais sensível no campo das primeiras.

Para abordar o problema com propriedade devemos começar estabelecendo uma distinção absolutamente necessária: A neutralidade da produção do saber e a neutralidade em sua divulgação ou uso. E é evidente que ambas as instâncias: obtenção e uso do saber científico pertencem a esfera da ciência. Os positivistas no entanto criaram um espantalho bastante eficaz. Segundo dizem apenas a ciência pura é objetiva, já a ciência aplicada pertenceria a uma Ética, que eles por sinal repudiam.

A bem da verdade, como diz o professor Crane Briton, não se pretende ou pretendia mudar o átomo. A princípio a assertativa até parece veraz. Tenho-a no entanto por inexata, e pelo simples fato de que mal devassaram o átomo os cientistas pretenderam parti-lo com o objetivo de produzir uma determinada força. Diga-se o mesmo a respeito da célula ou dos genes, cuja manipulação tem determinados objetivos externos. Serão estes objetivos relacionados com a partição do átomo ou com a manipulação dos genes, e postos numa determinada direção, neutros, objetivos, isentos ou puramente objetivos? O que se deseja produzir a partir de tais experimentos? E sobretudo para que produzir tais fenômenos? Os cientistas certamente não estão preocupados com os fins últimos da ciência que produzem... Tudo isto no entanto é vendido como ciência. E o cientista vai acompanhando todo processo... Tenho para comigo, com Max Lerner, que nem tudo isto seja neutro...

No entanto nos é vendida a ideia de que a física e a química são ciências absolutamente neutras ou objetivas. Havendo no campo do positivismo quem as encare como equivalendo aos dois únicos campos da ciência, e, portanto - segundo os cânones do mesmo positivismo 'ortodoxo' - como as duas únicas formas de conhecimento válido e verdadeiro a que temos acesso. Segundo estes senhores nada poderemos saber fora do campo físico/químico, no qual vigoraria um tipo de empirismo puro e não contaminado pela razão ou pelo subjetivismo.

Seduzidos pela lábia dos positivistas toda uma série de biólogos e até mesmo de psicólogos e sociólogos adotaram sem mais i é passivamente, os métodos próprios das ciências exatas, buscando assegurar o mesmo grau de objetividade ou de neutralidade. Quanto a Biologia, foi até certo ponto acolhida e tolerada pelos sucessores de Comte, chegando a compôr trio com a Física e a Química, em que pese a jamais observável Evolução das espécies, classificada por K Popper como falaciosa, pelo simples fato de enquanto teoria não poder ser imediatamente constatada dependendo de todo um aparelho conceitual preexistente, o que implica contaminação racional ou subjetiva. Alias evolucionismo implica toda uma cadeia de causalidades, o que cheira a metafísica... Tal Pirro, tal Hume, tal Popper. De fato teoria alguma pode ser reduzida a um empirismo grosseiro supondo sempre e necessariamente algo mais... O quanto basta para exasperar o partido dos céticos.

Cumpre advertir o leitor de que alguns positivistas fanáticos e irredutíveis continuam repudiando o caráter cientifico da própria Biologia, pasme! Um deles alias, e bem recentemente, tendo entrado em polêmica como o famoso Biólogo Richard Dawkins - Devido, as ilações ateísticas e portanto metafísicas que costuma vender como ciência - questionou formalmente seu status de cientista alegando que não era nem físico nem químico.

Evidentemente que esses senhores, completamente dominados pela ilusão positivista construída em torno de um empirismo puro, levam adiante a antiga opinião, até certo ponto emitida por Francis Bacon, de que a ciência lida apenas com fatos imediatamente constatáveis - eles abdicam de quaisquer pretensões em termos de teoria - ou de que a ciência lida apenas com fatos, os quais, na mesma medida em que são descobertos, vão se encaixando por si sós em seu devido lugar... Sabemos no entanto que os fatos não podem se encaixar por si mesmos num plano geral a menos que este plano geral preexista na mente enquanto algo que transcende os fatos... O que nos conduz de chofre a ideia de todo um aparelho conceitual preexistente ou a teoria. Fatos são dados, e dados são organizados, classificados e relacionados pela capacidade racional do homem, numa direção bastante rigorosa a que chamamos lógica. Os positivistas sabem muito melhor do que nós que nem a racionalidade, nem a lógica pertencem a mesma categoria que a experiencialidade. A lógica diz respeito a operações mentais de caráter interno com relação ao homem, são realizadas no corpo físico e pelo corpo físico, fugindo no entanto a materialidade pura e supondo a existências doutra realidade existente na matéria e com a matéria. Não entrarei no mérito desta questão, mas sei que para os positivistas tudo isto implica contaminação subjetiva.

Até aqui restrinjo-me a Biologia, cujo fundamento pétreo é a teoria da Evolução... Algo que não é imediatamente constatável a partir da experiência, e que foge ao empirismo puro canonizado pelos apóstolos do positivismo e do cientificismo. Ah só uma observação: Os criacionistas e fanáticos religiosos agradecem e aplaudem os positivistas na medida em que - com o charlatão Popper - buscam apresenta-la como uma formulação puramente subjetiva ou como mero preconceito, declarando insolúvel a questão sobre a origem da vida. Claro que essa petição de incognoscibilidade tende a favorecer os mitos tomados ao Gênesis, ao Corão e a outros livros religiosos, na medida em que nos tornamos capazes de opor-lhe qualquer outra coisa em termos de concretude. Afinal os espaços que acabam não sendo preenchidos por algum tipo de conhecimento válido e verdadeiro ou científico, acabam sempre sendo invadidos pela superstição. Sintomático que os ulemas e pastores fundamentalistas estejam bastante familiarizados com as epistemologias contemporâneas, sejam elas positivistas, céticas, relativistas, subjetivistas, etc Eu mesmo já tive o prazer de escutar o falastrão do Silas Malafaia recitando K Popper em seu programa de TV!!!

Constato que a epistemologia da ciência, fugindo a solução realista - seja a de Aristóteles, a de Lênin ou qualquer outra - voltou-se contra o próprio conhecimento científico, já no que diz respeito a Biologia. Imaginem então qual seja a condição das ciências ou dos conhecimentos humanos dentro destes esquemas pretensamente neutros ou objetivos???

Do ponto de vista do empirismo puro, que é o carro chefe do positivismo, não há como fugir a constatação de que as ciências humanas não são ciências, e portanto, ainda na perspectiva do positivismo, de que não são conhecimentos válidos e verdadeiros a respeito dos quais podemos ter alguma certeza.

Neste caso que são as ciências humanas?

Tal e qual a Ética ou da metafísica (Porque a Ética é se sempre será domínio da metafísica, fugindo ao monstro da experiencialidade pura - A EXPERIENCIALIDADE NÃO PODE DETERMINAR O QUE DEVE SER APENAS O QUE É.) a respeito da qual os positivistas não fazem caso algum, o que cognominamos 'ciências humanas' não passa de formulação puramente subjetivista, relativa e cultural. Nem mais nem menos...

Naturalmente que nem todos os cientistas concordam com os pontífices do cientificismo ou aceitam as pretensões dos teóricos positivistas. Em maior ou menor medida no entanto refletiu-se a crítica positivista no campo das próprias ciências humanas produzindo uma enorme sensação de insegurança, dúvidas, questionamentos, etc Tudo em torno da busca pela puridade científica definida como objetividade pura e consequentemente neutralidade, isenção; até a apologia do descritivismo levada ao absoluto.

A tônica aqui foi copiar os métodos materiais e empíricos das tais ciências exatas e transferi-lo para o campo das humanidades. Desde então foi proclamada apriorística e pomposamente a materialidade absoluta do homem, o que em termos de Psicologia por exemplo deu origem a curiosa vertente dos behaviorista. Se o átomo e puramente material e a célula puramente material por que cargas dágua o homem fugiria a esta regra geral? Percebam o caráter metafísico ou especulativo do questionamento. De fato alma ou espírito algum - em termos de entidade imaterial - foi encontrado no homem, ao menos pelos Biólogos... Sob pena de heresia, i é de chocar-se com a mística cientificista, tiveram as ciências do homem de professar o novo dogma do materialismo. No entanto entre a noção de limitar o campo de investigação das ciências empíricas a materialidade e professar o que sabemos por materialismo vai larga diferença... Ficando expostas, mais uma vez, as guarras metafísicas do positivismo e seu mórbido estado de contradição.

Tal observação nos leva a um segundo aparte. O que os neo positivistas e cientificistas encaram como um progresso - i é, a afirmação tácita do materialismo no sentido de que todas as formas de existência sejam puramente materiais e que tudo quando exista posse ser percebido por nossos sentidos - era encarado por seus ancestrais ou pioneiros como pura e simples ilação metafisica. Assim o ateísmo, o teísmo, o espiritualismo e o materialismo; aos quais opunham a doutrina do silêncio, alegando que o sábia devia recusar-se a opinar a respeito de tudo quanto estivesse para além da experiencialidade pura ou do empirismo. Tal o domínio do mistério, por definição impenetrável. Os ateus e materialistas no entanto - os quais costumam apresentar-se como honestíssimos - costumam tudo embaralhar e confundir... Sem levar em conta os pressupostos ideológicos embutidos na opção cético/agnóstica e tomando o agnosticismo por brincadeira. No entanto para positivistas sinceros e agnósticos iniciados no domínio da epistemologia uns e outros ultrapassam a demarcação existente entre o conhecimento válido e verdadeiro e a metafísica...

Seja como for lá as ciências humanas deram de afetar não apenas os métodos próprios das ciências exatas como assumir o pressuposto materialista canonizado pelo positivismo contemporâneo. De fato as ciências físicas ou exatas são materiais e empírica no sentido clássico de reprodução controlada dos fenômenos analisados. Agora quanto as ciências humanas, seu campo de estudos é o homem com todas as variáveis resultantes de seu caráter enquanto ser auto movente, auto consciente ou livre. É o homem ser dotado de vontade e também de força para, dentro de certos limites, alterar a si mesmo e o o entorno de si. O que não pode ser desconsiderado sem grave dano para as ciências do homem. Reproduzir o pressuposto materialista e inseri-lo no domínio das ciência humanas, isto sim implica mutilar o homem e distorcer a realidade. Se há algum elemento nas ciência humanas que contamina a dinâmica do conhecimento tornando-a permeável a ação da subjetividade, é justamente a afirmação apriorística do materialismo. Jamais o positivismo ou a ciência levou a sério a simples possibilidade de averiguar seriamente a existência, no homem - e por meio dos efeitos ou consequências - de algo que fuja a materialidade pura e simples. De modo que a ideia ou ideologia foi imposta antes de qualquer inquérito isento ou imparcial.

O materialismo, digamos honestamento, foi transplantado das ciências exatas, físicas ou materiais para os domínios das ciências humanas por exigência dos teóricos positivistas e sob pena das ciências humanas não serem reconhecidas por eles como objetivas e consequentemente como um tipo de conhecimento válido ou verdadeiro. Não nos limitamos a copiar os métodos de todo inadequados das ciências físicas, assumimos seus pressupostos aprioristicamente como se o homem equivalesse a um átomo ou a uma célula, nem mais nem menos. A mente foi ignorada e a própria Psicologia não behaviorista classificada preconceituosamente como anti científica! Para não falarmos na Psicanalise, levada ao mesmo por K Popper ao mesmo pelourinho que a Evolução das espécies e pelos mesmos motivos. Felizmente Engels - pelos idos de 1860 na controvérsia contra o radical E Dietgen - reconheceu que as alegações materialistas ainda não estavam empiricamente demonstradas (queria dizer cientificamente), prenunciado no entanto que tal demonstração não tardaria a ser feita. Mais de meio século depois foi a mesma profissão de fé, realizada pelo líder comunista e epistemólogo W Lênin, o qual também teve de reconhecer que a demonstração científica do materialismo ainda não havia sido elaborada. Isto do lado comunista, cujo amor e dedicação ao dogma materialista são bastante conhecidos. Agora vejamos do outro lado - Popper e Eccles em um livro sobre o cérebro escrito pelos idos de 1970 reproduziram quase que textualmente as palavras de Engels e Lênin admitindo que os fenômenos de consciência não podiam ser, em sua totalidade, reduzidos a massa encefálica em termos de empiria. Penfield pela mesma época e após ter estudado o cérebro humano por quase meio século também teve de admitir que em termos de capacidade cognitiva e consciência, algo fugia a materialidade pura e simples e que em nome da experiencialidade não se podia afirmar que nossa massa encefálica fosse a única produtora de todos estes fenômenos em termos de causalidade pura e simples.

Portanto o processo da Psicologia e a Psicanálise é que não nos parece estabelecido sobre bases científicas ou isentas como querem os positivistas, mas sobre bases preconcebidas e viciadas. Suas constatações e conclusões, auferidas por métodos bastante distintos das ciências exatas, jamais foram levadas a sério, justamente por se lhe exigir - preconcebidamente - que adotasse os mesmíssimos métodos que ela e averiguasse os fenômenos mentais ou de consciência por meio de provetas, tubos de ensaio, réguas, balanças, etc Freud e seus sucessores foram classificados como heréticos justamente por não admitirem tais interferências metodológicas, e isto pelo simples fato de partirem de indivíduos totalmente alheios a especificidade dos fenômenos em questão. Os quais como papas infalíveis e sem conhecimento a respeito da matéria buscavam impor arrogantemente seus pontos de vista empírico/materialistas ou positivistas. Tal o caráter da 'odiosa Revolução' iniciada por Freud.

Não menos do que a Escola behaviorista de Psicologia - que representa uma Psicologia rasa, digamos de passagem - algumas Escolas Sociológicas, embrenharam-se pelo mesmo caminho das ciências exatas ou empíricas. Marx por sinal já havia incorporado a metafísica ou ideologia materialista a sua escola social. Durkheim evidentemente foi pelo mesmo caminho, se bem que o profundo Gabriel Tarde, identificasse já algo de metafísico ou abstrato em suas categorias e formulações, o que não haveremos de discutir neste artigo. Seja como for um dos primeiros teóricos a considerar o aspecto psicológico e livre do homem no terreno da Sociologia parece ter sido M Weber, pensador social cujos escritos reportam frequentemente a intencionalidade do agente humano. É mérito seu ter inserido o homem no contexto social ou sociológico, o qual com ele deixa de ser uma partícula determinada pelo ambiente para ao menos interagir com ele pondo algo de seu. E nem podemos deixar de encarar esta tese, que faz jus a liberdade humana, como a mais objetiva, isenta e próxima da realidade no âmbito da Sociologia.

Quanto a História e o Direito naturalmente que o positivismo não pode encarar tais áreas do conhecimento sequer como ciências humanas mas como técnicas. Reconstituir a História ou analisar as relações sociais em termos legais, é para o positivismo algo eminentemente prático. Mas desde quando a experiencialidade de todas as demais ciências foge a praticidade??? Desde quando aos diversos procedimentos ou metodologias encetados pelas diversas áreas do conhecimento falta este aspecto prático??? A única diferença a ser considerada aqui é que a técnica relativa a produção do saber no âmbito das ciências exatas equivale a determinados meios de controle realizado num local específico chamado laboratório. Tendo por regra a reprodução e controle dos fenômenos em questão. Já o trabalho do Historiador se dá fora de um laboratório - podendo ser realizado em sua residência, num arquivo, numa Biblioteca, etc - ou como dizemos na vida vivida, embora não exclua a contribuição de ciências auxiliares bastante 'laboratoriais'. Assim a arqueologia tem métodos de investigação tão precisos quanto a medicina com seu olhar clínico... É a medicina uma ciência ou uma forma de conhecimento válido ou verdadeiro??? Há positivistas 'sunitas' que ousem nega-lo??? Neste caso apontemos as sucessivas curas obtidas pela medicina e levemos em questão os resultados...

A bem da verdade o praticante de ciências exatas, físico, químicas ou mesmo biológicas, treinado na escola do positivismo, desconfia de qualquer controle realizado fora de um laboratório ou de qualquer método que não seja a reprodução controlada. Acontece que o Historiador não pode reproduzir eventos humanos ou sociais realizados no passado. Sua tarefa não é reproduzir mas reconstituir e compreender, relacionando cada evento com sua causa ou causas imediatas. (Não se trata aqui de causas gerais, as quais são buscadas pela Sociologia, não pela História)

E no entanto, como já dissemos o Historiador academicamente graduado, tem lá seu método, bastante rigoroso e tão adequado aos fins quanto o método do médico ou do detetive. Havendo dentre eles quem faça trabalhos bastante sérios como um L Ranke, um Doellinger, um Jhansens, um Lamprecht, um Breasted, um V G Childe, um P Montet, um Parrot, um Soustelle, um Ganchoff, um Pirene, um Huizinga, um L Febvré, um M Bloch, um Toynbee, um Spengler, um G Duby, um Le Goff, um Christopher Hill, um Keith Thomas, um Delumeau, etc, etc, etc

O problema aqui é tomar a definição de ciência como sinônimo de único tipo de conhecimento válido e verdadeiro - crença subjacente nos domínios do neo positivismo - e lançar em bloco, ao fogo, as obras dos autores acima, juntamente com as obras de arrivistas, charlatães e pseudo historiadores sem formação a exemplo de Daniken, Sichtin, Churchward, etc Claro que a falta de Historiadores reconhecidamente responsáveis e competentes o grande público sentir-se-a tentado a abraçar explicações mitológicas... Até passar dos braços do Daniken as mãos do Malafaia. Tomando a Bíblia e o Corão não só como manuais de Biologia, mas também de História - Vindo o ceticismo dos positivistas a alimentar a superstição e o fanatismo das massas.

A outra face do problema, transferida das ciências exatas para as ciências humanas, gira em torno do caráter meramente descritivo ou normativo da ciência ou das ciências. Via de regra o físico ou o químico não exaram juízos de valor a respeito dos fatos que descobrem. E por si mesmos dificilmente lhes ocorreria a ideia de alterar o ponto de ebulição da água, o qual nem mesmo avaliam em termos de bem e mal.

Já os problemas suscitados pelas ciências humanas, da mesma maneira que os problemas enfrentados pela medicina - isto as doenças - dificilmente deixam de suscitar semelhante tipo de avaliação i é Ética ou em termos de bem e mal. Em geral os assuntos ou fenômenos humanos relativos a ação livre do homem despertam no analista o vivo desejo de opinar, não talvez enquanto analista ou cientista, mas certamente como homem. A própria condição humana leva-nos a avaliar em termos qualitativos o quanto seja humano e esta tendência parece natural e insuperável. O positivismo no entanto compreende que devamos permanecer absolutamente neutros diante deles... No entanto como poderia o médico permanecer total e completamente neutro diante dos sofrimentos de seu paciente ou de uma enfermidade extremamente dolorosa??? Como o Historiador poderia permanecer neutro e isento face a tantos roubos, assassinatos, estupros e crimes hediondos constatados por si???

Podemos exigir do ser humano uma semelhante impassibilidade ou isenção sem mutila-lo? Podemos chegar a um meio termo?

Quanto ao Psicólogo, que trabalha com enfermidades de caráter mental ou comportamental, não vejo como possa deixar de assumir uma postura normativa, já aspirando curar ou corrigir a enfermidade em questão, já preceituando tudo quanto seja necessário a cura. O Psicólogo deverá trilhar o mesmo caminho que o médico do corpo, pelo simples fato de ser o médico da alma. Nem vejo como poderá permanecer neutro e isento diante dos fatores que acarretam ou causam as enfermidades mentais, mormente quando provocados deliberadamente por outros seres humanos. Seria demais pedir a um Psicólogo digno deste nome que encarasse com naturalidade e complacência a cultura da repressão sexual. Naturalmente que uma cultura ou um modo de vida responsável pela produção de certo número de enfermidades mentais, tende a ser questionada pelo Psicólogo ao menos enquanto homem que é. A ciência limitar-se-a a verificar a relação existente entre determinado comportamento ou prática social e a enfermidade mental. A ciência para por aqui e seu trabalho esta realizado. No entanto seria demais esperar do cientista, enquanto homem que deixasse de denunciar aquele tipo de comportamento pernicioso.

Por estranho que pareça a Sociologia não foge tanto a esta regra.

A Sociologia como disse Weber é meramente descritiva, limitando-se a descrever a realidade social tal como é. A Sociologia esgota-se nisto, pleno acordo.

No entanto, não decorre disto, que o Sociólogo - que também é um homem e como tal um Ser Ético -deva furtar-se a toda e qualquer apreciação em termos de princípios e valores, buscando remédios com que sanar as enfermidades sociais e utilizando-se da própria Sociologia como ferramenta preciosa. Como Sociólogo limitar-se-a a descrever. Como homem, cidadão e pensador no entanto é absolutamente natural que denuncie e combate as mazelas sociais que descreve. O único tributo exigido pela honestidade é que apresente-se como Sociólogo apenas quando e enquanto descreve e como pensador ou Filósofo Social enquanto crítica e indica soluções. Alias quem melhor para indicar soluções e propostas do que um pensador social formado em Sociologia??? Quanto a impedir o Sociólogo de pensar a sociedade que descreve partindo de seus princípios e valores, da ética ou da idealidade, em que se baseia tal pressuposto??? O máximo que podemos exigir do cientista em questão é que separe bem uma coisa da outra... Sabendo no entanto que metafísicos ateísticos a exemplo de Hitchens, Dawkins e Harris não procedem assim. E vai lá molesta-los o positivismo??? jamais vi...



quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Intelectualidade e ateísmo, uma resposta definitiva






Certos professores há que em seus cursos asseveram ensinam a repetem, entusiasticamente, que a maior parte da intelectualidade - em termos de cientistas e filósofos - teria professado o ateísmo ou sido ateia. É coisa que se ouve sair dos lábios de qualquer sectário ateísta... E que as custas de ser repetida pelos prosélitos - mal informados ou intencionados - acabo se convertendo numa das tão decantadas 'verdades do tempo'. Particularmente os pensadores mais eminentes e brilhantes teriam sido ateus em sua quase que totalidade.

É o que se ouve, o que se repete, o que se crê...

Tal a fé.

Como já tivemos ocasião de abordar o tema em nosso pequeno cenáculo, aqui em casa, limitar-nos-emos a publicar o que já foi exaustivamente estudado e discutido por nós e pelos comensais.

E para tanto principiamos pela Bibliografia: Manual biográfico literários sobre as ciências exatas e naturais. Johann Christian Poggendorff 1863

A respeito desta obra faz-se mister declarar que constitui uma verdadeira Enciclopédia destinada imortalizar tantos quantos dedicaram-se a pesquisa científica (com exclusão das ciências humanas) até meados de 1860, transcrevendo suas biografias e abordando diversos aspectos de sua vidas, inclusive os pensamentos religiosos. Daí sua relevância neste campo. E já adianto que seu trabalho foi continuado - por outros uma vez que J C P faleceu em 1877 - até cerca de 1900 (volume quarto). Enfim não há como abordar científica e honestamente o tema da religiosidade ou do suposto ateísmo dos cientistas sem se recorrer a esta fonte que é sob diversos aspectos primária e essencial.

Quanto aos filósofos e suas crenças há o livrinho de Huberto Rohden 'Tu és o Cristo filho do Deus vivo" Vozes 1918

Dito isto passemos ao 'problema'


Buscando uma definição para ateísmo


Cujo primeiro aspecto é a irredutibilidade em termos de definição.

Sócrates dissera certa vez: Se aspiras dialogar comigo define os teus conceitos.

Assim se vamos debater em torno do ateísmo a primeira exigência a ser feita é que haja acordo a respeito do que seja ateísmo. Do contrário estaremos a dialogar inutilmente a respeito de 'fenômenos' diferentes...

E no entanto quanto a este aspecto ateísmo e judaísmo caminham de mãos dadas uma vez quer também o judaísmo recusa-se a um definição clara e objetiva.

Perguntas a um judeu? Que é judaísmo? E ele te responde: Crença, fé, religião; excluindo os ateus, incrédulos, budistas, etc

Perguntas a outro judeu: Que é judaísmo? E ele te responde: Judaísmo é povo, é a nação composta pelos descendentes do patriarca Abraão, e arrola em seu número: Ateus, materialistas, irreligiosos, budistas, etc

Segundo a primeira definição Nordau, Marx, Einstein, Asimov, Sagan, etc não são judeus. Já segundo a outra definição continuam sendo contados como judeus. De modo que no fim das contas serão milhões de judeus a menos ou a mais...

E qualquer trânsfuga religioso, relativista e mal intencionado sempre poderá alegar que a religião ou a fé judaica produziu uma 'elite' de intelectuais!

Outra não é a postura - sinuosa - do protestantismo. Quando o protestantismo recebe críticas por parte da Ortodoxia, do papismo, do espiritismo e de quaisquer outras religiões no sentido de ter promovido a incredulidade na Europa contemporânea, seus defensores negam veementemente que os protestantes 'liberais' - inda que pastores como Collani - sejam protestantes. Como negam veementemente que os unitários ou arianos (Testemunhas de Jeová) sejam protestantes... No entanto quando os mesmos críticos ou os incrédulos alegam que o protestantismo (claro que estamos nos referindo ao protestantismo 'ortodoxo' seja batista ou calvinista, e essencialmente 'biblicista') foi bastante pobre em termos de ciência, os apologistas protestantes não exitam arrolar Sir Isaac Newton, - que era unitário ou ariano - ou Sabatier que era liberal, isto quando não têm o desplante de arrolar os Bispos (sic) da Igreja Episcopal.

Na ora de defender a fé os paladinos da reforma lançam tudo que é liberal ou incrédulo (ao menos com relação a totalidade da Bíblia) ou episcopal para fora da arca, o que por sinal é razoável. No entanto quanto se trata de compor 'Apologias' em defesa do protestantismo são quase sempre incluídos. É quando Hanack vira 'cristão piedoso'...

Tal o judaísmo, tal o protestantismo com suas divagações em torno de definição.

Tal o ateísmo.

Pois de modo geral na ora de cooptar prosélitos ou de fazer propaganda os ateus fogem a definição formal e objetiva de ateísmo enquanto 'Convicção a respeito da inexistência de Deus' ou ainda capacidade de demonstrar que Deus não existe, ou ainda como pura e simples negação de Deus, e põem-se a enfiar na 'igrejola' aqueles que apenas duvidam (tanto do ateísmo quanto do teísmo) ou consideram a questão inacessível ao conhecimento humano, assim os céticos, abstencionistas ou agnósticos de Comte. E como não param por ai, incluem ainda os agnósticos ingleses de Huxley os quais sequer - como Spencer e Stuart Mill cujas obras contém diversas alusões a um ser 'INCOGNOSCÍVEL' - ousam por em dúvida a existência de um Supremo Ser mas apenas sua definição ou cognoscibilidade a exemplo dos antigos gregos, e seguindo por este caminho 'largo e fácil' tantos quantos nas Sociedades mais avançadas do Planeta, como a Escandinávia, a Holanda, a Bélgica, a Suíça, os antigos países comunistas, etc simplesmente não têm qualquer vínculo religioso ou fé. Ficando os incrédulos ou indiferentes e matéria de religião alistados como 'ateus' mesmo quando as mesmas pesquisas explicitam, logo na linha abaixo, que essas pessoas admitem a existência de uma energia ou forma de consciência supranatural ou mesmo a existência de um Deus (!!!)

Diante desta manobra ou melhor farra, assiste-nos o pleno direito de perguntar onde é que está a honestidade ou melhor ainda, onde esta a maravilhosa Ética ateística que os leva inclusive a denunciar tudo quando seja religioso como desonesto ou falsificador???

Cade a seriedade, o espírito científico, a probidade, a moral, a Ética dos nossos apóstolos ateísticos???

Sim porque nesta mistura heteróclita e esdrúxula de conceitos que se opõem e excluem mutuamente como:
  • Deísmo
  • Agnosticismo
  • Indiferentismo religioso
  • Espiritualidade não institucional

Tudo quanto posso ver é safadeza mesmo.

No entanto como alguns ateus são mesmo tão fanáticos e obstinados quanto seus desafetos religiosos vou soletrar:

Os agnósticos ingleses - ou ao menos parte deles - que admitem a existência do Incognoscível, bem como aquelas populações das 'repúblicas' ateísticas que admitem a existência de um Deus não revelado ou de uma energia ou ainda de algo sagrado, merecem, ser classificados como deístas.

Como os deístas afirmam a existência de algo que transcende a vida e a matéria, é evidente que estão em oposição aos ateus que negam terminantemente a existência de qualquer coisa nesse sentido. Aqui a exclusão é manifesta uma vez que a afirmação e a negação incidem sobre o mesmo objeto - qualquer tipo de concepção que remeta a Deus.

Os agnósticos franceses ou positivistas da Escola de Comte e Litreé repetiram a exaustão que não eram ateus pelo simples fato de que o ateu - como o teísta - cuida saber a respeito de algo que ele agnóstico afirma nada saber. O agnóstico ao contrário do ateu e do teísta não assume posição a respeito do assunto, não afirma nem nega, abstém-se de formular qualquer juízo metafísico pois como I kant e D Hume não admite a validade desde tipo de conhecimento. Tanto que os agnósticos (aquele que não conhece) partindo de seu ceticismo inveterado classifica o ateísta como metafísico.

Filosoficamente, do ponto de vista da episteme, são posicionamentos inconciliáveis ou paradoxais e podemos asseverar que quando um Filósofo ou pensador define-se como agnóstico, esta querendo dizer em alto e bom som que não esta convencido a respeito da validade do ateísmo e que dele dúvida tanto quanto dúvida do teísmo.

Aos ateus, ainda aqui acompanhando as diatribes dos pastores - quando tentam explicar porque o pagador de dízimos não obteve o milagres alegando que não tinha fé, que é um pecador, etc - resta o péssimo recurso de apresentar os agnósticos como 'ateus fracos', 'ateus medrosos', 'ateus tímidos', 'ateus enrustidos', pois ignorando, como toscos que são, o problema das origens do conhecimento, da gnoseologia, da episteme, da metafisica, etc não podem mesmo admitir que hajam agnósticos sinceros. Daí embrenharem-se pela via do subjetivismo crasso elaborando juízos de valor tão miseráveis em torno da intencionalidade e da sinceridade alheia. Porque recusam-se a assinar a fórmula de fé ateística todo agnóstico fica sendo fracote, tímido, covarde, medroso, etc

Alias nestes tristes tempos em que ateísmo virou moda entre as cabecinhas sem conteúdo que sem contentam em repetir as abobrinhas cozidas ou fritadas pelo Bernacchi e temperadas pelo Oiced Mocam, o fato de boa parte dos intelectuais recusarem-se a referendar o novo credo parece-nos sintomático. Afinal vivemos em tempos de liberdade não é mesmo??? E não há duzentos anos, sob o jugo infame das Inquisições... Ou sob o controle dos déspotas e tiranos.

Medo do que? Receio do que? Que tipo de temor respirariam os intelectuais agnósticos ou 'ateus enrustidos' numa sociedade democrática ou liberal?

Acaso os comunistas não alardeavam seu ateísmo e seu materialismo há cem ou cinquenta anos passados sem que qualquer um deles fosse acusado de 'ateísmo', mas de sedição, pelo simples fato de aspirarem alterar a ordem política e econômica vigente???

Quantos processos ou autor de fé anti ateístas foram realizados no Ocidente ao cabo do século XX???

Pelo modo com que os ateus expressam-se diríamos estar em Meca, Medina, Riad, ou em qualquer uma dessas maravilhosas sociedades muçulmanas em que os ateus são pura e simplesmente executados ou decapitados em obediências as leis do Corão ou melhor aos ditames da Sharia. E eu nem observo qualquer esforço por parte do apostolado ateístico de enviar missionários aos países muçulmanos com o objetivo de conquista-los a esta fé machista, adultista, homofóbica, escravista, etc que tantos males tem causado a pobre humanidade!

Por que raios precisam os ateus esconder-se ou ocultarem-se - com a máscara do agnosticismo - numa Sociedade livre? Será que lhes falta coragem (a essa imensa multidão que os ateus classificam como medrosa ou fingida) para afrontar uma simples crítica ou cara feia??? Admitindo que todos os agnósticos seja mesmo ateus ocultos ou disfarçados seríamos obrigados a concluir pela incapacidade crônica do ateísmo em comunicar coragem ou em despertar compromisso entre seus profitentes... Imagina então se como os antigos Cristãos ou as minorias Cristãs nas sociedades islâmicas essa manada de ateus fracos corre-se perigo de vida??? Haveriam de enfrentar a morte e de morrer por sua fé uma vez que não são capazes de enfrentar as críticas de uma Sociedade liberal?

Ao que parece não é o ateísmo apto para despertar aquela mesma firmeza com que os mártires cristãos souberam enfrentar o jugo do império romano.

Portanto como esperam pode enfrentar e resistir heroicamente a jihad islâmica que já se alevanta nos confins da Europa e ameaça submergir e destruir o berço de nossa civilização (Grécia e Roma, não Inglaterra!)?

Diante da facilidade e rapidez com que os ateus mais atilados classificam seus 'irmãos' e correligionários como 'medrosos' em tempos de democracia só nos resta concluir com o Papa ateísta Richard Dawkins que apenas o Cristianismo ou um retorno decidido a fé ancestral poderá fazer frente a ameaça do islã e salvar a Europa. Não fui em quem o disse querido leitor mas o autor de "Deus, um delírio', os créditos são dele, e a reflexão fica por sua conta...

Continua 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

O positivismo, o ceticismo, a estatolatria e a objetividade da Ética

Eis que retornamos, pela enésima vez, ao tema da Ética.

Pelo simples fato de acreditarmos, com Sócrates, no primado de Ética e, consequentemente em sua objetividade.

A guiza de introdução a este artigo, segue um pequenino resumo da problemática, na perspectiva histórica elaborada por James Rachels 'A questão da objetividade em Ética' (o resumo é livre):

A questão da objetividade em Ética não é nova mas tão velha quanto a própria Filosofia.

A própria 'missão' de Sócrates, incluia fazer oposição cerrada ao relativismo Ético e sustentar a essencialidade do tema.

Foram os céticos que pela primeira vez identificaram a Ética e a moralidade com a cultura, as leis, os costumes ou convenções sociais.


Na 'República' de Platão, Trasímaco esboça a opinião segundo a qual o bem e o mal não passam de palavras vazias destinadas a reforçar a opressão dos fracos por parte dos fortes. As leis não passam de expressão da vontade do mais forte e cada qual busca sempre seus próprios interesses.

Disto decorre não haver qualquer fenômeno ético em termos de essência, nada há na natureza das coisas que que torne uma ação boa e outra má.


Daí Pirro de Elis asseverar que 'Nada é honesto ou desonesto, justo ou injusto, bom ou mau, tudo quando existe é convenção, preconceito, opinião e nada mais.'


Mais um passo além foi dado pelos céticos modernos, como Hobbes, para quem os juízos morais nada refletiam além do gosto ou das preferências do individuo.

No entanto o campeão dentre os negadores da vida Ética outro não foi que o cético David Hume, o qual identificou os juízos éticos com eventos traumáticos e complexo de culpa.
Até aqui reprodução livre do texto de Rachels

Há ainda aqueles que desde da antiguidade - como Aristipo, Alexandre e outros - teem identificado o bem com o prazer, físico ou sensível inclusive, e o mal com a dor ou o sofrimento.

De que resultaram as escolas utilitarista. Aqui o bem estaria relacionado com aquilo que é útil, segundo Benthan, ao indivíduo; e segundo Mill, a espécie humana. O foco do pragmatismo de W James também é a utilidade do ato sem consideração de 'conceitos' ou 'teorias'. No entanto o julgamento de um fato parte sempre de princípios e valores, conceitos e teorias; mesmo quando tomamos o interesse da humanidade como padrão, estamos afirmando o homem, sua vida e sua dignidade como padrão e portanto formulando uma teoria humanista.

Hume por ser cético completo e solapar a credibilidade de nossas experiências e do conhecimento científico pôs muita gente em guarda e jamais obteve aceitação geral nos domínios da Filosofia.

Houve no entanto, quem partindo dos preconceitos anti racionais e anti aristotélicos de M Lutero, tomasse a peito adoçar ou suavizar a doutrina de Hume apresentando ao mundo um semi ceticismo bastante arrevezadinho e coberto com vernizes idealistas. Este homem foi I Kant.

Em sua 'Crítica da razão pura' elaborou Kant uma crítica metafísica (porque epistemologia é especulação e não demonstração empirica) anti metafísica e sentenciou que apenas os conhecimentos empiricamente demonstráveis eram aparentemente verdadeiros. Aparentemente porque jamais ultrapassamos o 'fenômeno' e chegamos a imaginária 'coisa em si' (a qual do ponto de vista realista inexiste pelo simples fato de que as coisas ou objetos materiais esgotam-se na própria materialidade perceptível e manifesta, dada restando para além dela). Kant introduz uma coisa em si nos objetos e afasta para longe de nós a verdade objetiva. Quanto a metafísica nega por completo sua possibilidade.

No entanto na 'odiada' razão prática, busca refazer o caminho percorrido e estabelecer um padrão ou critério de moralidade. Pois não acreditava ser possível a humanidade sobreviver sem Ética, apesar de que a verdadeira Ética é sempre essencial e portanto metafísica.

Ao menos aqui Kant não parece ter sido coerente, como havia sido Hume e haveriam se ser seus próprios continuadores e os positivistas. Para os quais a Ética não passava de convenção social, opinião, palpite, preconceito, lei, cultura; enfim de algo meramente subjetivo ou emocional, para além de toda verificação e objetividade. E jamais fazia sentido buscar uma Ética universalmente válida e verdadeira.

Abandonando os 'senões' do pietista alemão, seus sucessores materialistas, agnósticos, ateus, cientificistas e positivistas do século XIX, em nome da ciência e do progresso afirmaram em alto e bom som o fim ou a morte da Ética. Em seu lugar e no lugar de Deus Legislador (não me refiro ao deus 'revelado' das religiões mas ao Deus naturalista dos Filósofos ou dos deístas) entronizaram a deusa razão. Embora reconhecendo que a deusa razão tinha braços curtos e não podia julgar em termos de bem e mal, vício e virtude, justiça e injustiça... Mais além entronizaram a deusa ciência e atribuíram-lhe os mais belos oráculos e profecias sobre o futuro dourado e paradisíaco da humanidade emancipada da religião e da Filosofia.

Vejamos no entanto que é que aconteceu.

Partindo da negação da Ética ou da objetividade 'moral' pelos positivistas no século XIX, um de meus comensais, imaginou e consequentemente opinou que o enunciado positivista fora amplamente libertador permitindo que cada individuo fizesse o que bem entendera ou ao menos que se opusesse as arbitrariedades do moralismo. Evidentemente porque há éticas ou morais falsificadas e opressoras!

Curiosamente a solução positivista a respeito do comportamento humano não tomou esta direção crítica, contestatória, individualista ou personalista; mas curiosamente a direção oposta.

Pois a exclusão da essencialidade ou da origem transcendente da Ética humanista, além de leva-los - como já dissemos - a identificar a Ética com as convenções sociais, as leis ou a cultura vigente em cada grupo, levou seus mestres a afirmarem o dever da pessoa conformar-se com tais convenções ou de adaptar-se servilmente a cultura. Ao contrário dos 'marxistas ortodoxos' e 'anarquistas' que da relatividade cultural concluíram pela crítica e a contestação os positivistas concluíram pela conformidade ou pela assimilação. Cidadão útil era o que reproduzia os princípios e valores comuns a seu círculo social e que colaborava ativamente com ele.

Extirpado o fórum da consciência e a aquisição de princípios e valores por via reflexiva, passou este nicho a ser ocupado pela sociedade ou pelo estado. Pelo que o estado converteu-se em fonte ou árbitro dos princípios e valores. Desde meados do século XIX a nação, a sociedade, a classe, a categoria, o grupo, a cultura, etc tomou o lugar de Deus e da consciência pessoal enquanto padrão de princípios e valores, o que nos leva a doutrina da completa submissão da pessoa humana ao estado, ao totalitarismo ou a estatolatria enfim e todas as culturas de morte que não foram pelos caminhos do individualismo crasso (anarco individualismo/stirnerianismo) foram pelo extremo deste caminho implementando as mais tristes servidões: Fascismo/nacionalismo, militarismos, nazismo e comunismo (o qual jamais exerce crítica face ao órgão divino do partido ou a cultura proletária).

Enfim, foi a morte da Ética em termos de objetividade, essencialidade e humanismo que conduziu a Europa e grande parte do mundo ocidental a crise de civilização porque estamos passando, a qual é desde já um perda de critério, de padrão, de consciência, de sentido e de referencial. E adiantamos desde já que esse referencial objetivo, essencial e divino é o homem, sua vida e sua dignidade!

Continua -

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Reflexões sobre os postulados éticos da antiguidade Clássica

Não foi apenas Deus que segundo declaram morreu...

Nem sei como existindo poderia ele ter morrido ou como poderia ter morrido inexistindo, no entanto...

Compreenda-se que 'morreu' metaforicamente a ideia de Deus, alias aquilatada como genial por Bertrand Russel, na medida em que uma parte dos homens tem aderido ao agnosticismo ou a indiferença face ao tema de sua existência ou inexistência e outra parcela, bem menor, ao ateísmo.

Negar que o agnosticismo avance não podemos.

Não se trata aqui de um negar dogmaticamente a existência do Sagrado; mas de pura e simplesmente considerar a questão insolúvel, irrelevante ou supérflua.

Agora esqueceram-se de declarar nossos cronistas que a Ética também parece ter morrido.

Dostoievsky foi quem de modo mais eloquente reeditou a relação - Deus Ética - em tempos mais próximos... sabemos no entanto que já havia sido explorada e esgotada por I Kant e antes dele por Voltaire, Russeau, Leibnitz, Descartes, Bacon, entre os modernos. Suas fontes mais remotas no entanto remontam a nossa herança greco romana, a Antistenes, Sócrates, Diógenes de Apolônia, etc

Embora os emancipados desta geração limitem-se a rir debochadamente diante de raciocínios que reputam tão rasos e miseráveis, eles fazem parte de um lugar comum assaz explorado por nossa tradição filosófica até Nietzsche, During, Marx, Dietzgen, Freud, Sartre, Camus... quando o tema de deus foi declarado inadequado ou proclamado tabu.

Desde então a Ética carunchou e apodreceu como sói as batatas...

Claro que o nome Ética continuou a ser empregado.

Afora os positivistas e cientificistas fanáticos poucos atreveram-se a questionar a existência da moral ou da ética.

Houveram mudanças radicais...

Assumindo a nova ética um caráter individualista, subjetivo e relativista muito semelhante aquele que lhe fora atribuído pelos sofistas.

Justamente com Cristo, a Virgem, os Santos e todas as 'fanfarronices' do Cristianismo, também Sócrates e Platão, se quem que gentios e adoradores dos deuses imortais, receberam um pé na bunda ou melhor nas bundas...

Disse Sócrates que no futuro a humanidade reconheceria não ter feito ele mal algum. Já Xenofonte e Platão cogitavam que num futuro não muito distante todos haveriam de convir que jamais havia vivido homem tão sábio e virtuoso quanto o filho de Sofronisco e Fenarete... dois mil e quatrocentos anos depois no entanto... a intelectualidade contemporânea parece ter dado ganho de causa aos sofistas!

Invertemos, subvertemos... importa ter mantido o nome Ética, afinal as mentiras convencionais devem ser mantidas religiosamente, como dizia Mestre Nordau.

Sem mentiras convencionais fica difícil viver assim como vivemos...

Assim discutimos sobre nossos interesses, defendemos o que nos agrada, sustentamos aquilo que desejamos ou queremos e a tais exercícios de vã retóricos atribuímos o nome de ética.

Afinal em que consiste a ética contemporânea, oferecida pelo materialismo, ateísmo e mesmo agnosticismo senão na defesa do 'utilitarismo individualista', nome pomposo com que crismamos nosso egoísmo?

Perguntem ao Stirner, ao Nietzsche, a Ayn Rand e virão a saber que é ética contemporânea, isenta de elementos deletérios ou Cristãos. Nem puderam Benthan e Mill postular um utilitarismo social ou gregário sem que fossem representados como 'beatos' e escarnecidos. De fato nada na ordem natural constrange-nos a sacrificar os interesses individuais pelo interesse social. Eventualmente tal se sucede, como testifica Kropotkin no 'Apoio mútuo', mas nem sempre... Ademais se tais ocorrências não constituem lei tampouco tem o poder ou a força de constranger a criatura racional e livre.

Estou de pleno acordo com o pensador russo no sentido de que não podemos mais permanecer atidos a uma Ética religiosa, particularista e sectária. Nem por isso, com Dostoievsky, satisfaço-me com esta nova ética agnóstica ou ateística. Torno assim mais uma vez ao ideal ético do iluminismo ou melhor dizendo da Grécia antiga, este por sinal construído não em torno duma entidade situada fora do mundo ou para além do mundo, mas em torno duma entidade presente no mundo e em comunhão com ele.

Grosso modo o que distingue a ética antiga da nova ou a ética dos antigos gregos desta ética contemporânea é o desinteresse e o interesse.

Quando os antigos gregos refletiam a respeito dos grandes temas ou problemas relacionados com a Ética e sustinham esta ou aquela teoria face a qual nós, modernos, acreditamos poder tirar máximo proveito, verificamos que ele, raramente auferiam proveito das teorias que sustentavam.

Trata-se de um aspecto deveras interessante que nos conduz diretamente ao tema do amor a verdade, da busca pelo conhecimento, da livre pesquisa, da investigação desinteressada... e reputo este aspecto como um dos mais interessantes em termos de filosofia clássica.

Concentre-mo-nos na figura de Aristipo de Cirene, um dos familiares de Sócrates e desafeto constante de Platão... como é sabido de todos, concebeu ele um sistema de ética em torno do prazer apetitivo ou físico em termos de comida, bebida, sexualidade, etc Diante disto só nos restaria imagina-lo como um comilão, beberrão e promiscuo sobremodo intemperante. No entanto as descrições que dele possuímos parecem desfazer este juízo apressado... ao que tudo indica tratava-se de um homem virtuoso ou mesmo sóbrio.

Então por que raios arquitetou uma doutrina destinada a justificar a fruição dos prazeres físicos ou corporais? Certamente porque estava persuadido de que sua doutrina correspondia a realidade ou que era verdadeira... Diante disto por que não tirou maior proveito dela vivendo como um porco de Circe? Por que não tinha interesse ou melhor porque os antigos pensadores gregos não tinham o vezo de defender seus próprios interesses ou o que mais os agradava.

Argumentar em torno dos próprios interesses parecia muito pouco filosófico para aqueles homens.

O exercício da Filosofia parece ter algo a ver com o desinteresse imediato...

Não era um ato de argumentar em torno de conveniências ou oportunidades.

É justamente este viez que faz a grandeza daquela Filosofia.

Homens sustentavam teorias, ideias e opiniões, que aparentemente, não lhes propiciavam qualquer benefício ou qualquer vantagem imediata.

Sustentavam este ou aquele sistema por estarem persuadidos de que era verídico.

O padrão ou critério daqueles homens não era o proveito imediato ou uma vantagem a se tirar, mas a verdade ou o conhecimento da realidade.

Disputavam, arengavam, debatiam, discutiam, dialogavam... tendo em vista esclarecer algum ponto obscuro. E não justificar seus gostos ou seus vícios.

Filosofia grega jamais foi sinônimo de justificar algo que se fazia ou pretendia fazer. Eles não partiam de seus desejos, gostos, aspirações... tentavam antes de tudo alcançar o ideal ou saber como deviam fazer.

Os post modernos é que converteram a ética num exercício destinado a argumentar em torno das próprias ambições, gostos, desejos, aspirações... e a justificar os próprios vícios e defeitos, em particular o egoísmo. Tudo quanto temos hoje são apologias do egoísmo, sob a alcunha de individualismo.

Primeiro o homem age e depois justifica sua maneira ou modo de agir. Desde quando isto é ética?

Nenhum questionamento, problema, esforço... apenas defesa do que já se fez e pretende continuar fazendo sem cogitar em qualquer possibilidade de mudança. Afinal o homem de hoje converteu-se mesmo em medida de todas as coisas e legislador supremo para si... Como, diante disto, poderia este homem auto suficiente procurar por uma regra externa e universal de vida a qual adaptar-se???

Se constitui norma e regra para si mesmo...

Agora que elemento comum podemos ter que transcenda a política ou a democracia formal?

Elemento algum.

Pois somos individualidades específicas ou ilhas humanas cada qual com seus princípios e valores.

Diante de semelhante revindicação ou tomamos o político ou o social como único tipo de convenção destinada a nivelar a multiplicidade dos seres livres e estabelecer os limites do privado e do comum; ou reconhecemos como realidade única e irredutível esta infinidade de átomos humanos sempre prestes a se chocarem uns contra os outros...

No primeiro caso temos um estado ou uma comunidade, ou ainda um grupo soberano e inquestionável na medida em que a lei natural é obscurecida, restando apenas a lei positiva. Aqui os direitos e garantias da pessoa humana ficam em certo sentido ameaçados...  agora como postular direitos essenciais e inquestionáveis, sem fazer postular uma lei natural? E como postular uma lei ou direito natural sem tocar o problema de um Legislador natural??? Agora se o estado ou o grupo social assume o lugar deste legislador supremo ou natural quão grande não será o seu poder!

No segundo caso, do relativismo crasso ou absoluto, nem poderíamos condenar positivamente o nazismo, o fascismo, o comunismo, o fundamentalismo religioso, etc Pois o que um de nós condenasse outro justificaria... os homens passariam da discussão as vias de fato, desta a guerra, e chegaríamos ao Caos nos termos do 'Leviatã' de Hobbes... A extinção de todo e qualquer vínculo social, última e derradeira fase do individualismo, resultaria justamente no domínio do fraco pelo forte i é na tirania; ou num conflito universal.

Face a este dilema a solução mais plausível consiste em reconhecer o benefício da unidade política (em termos de uma democracia o mais direta possível) ou da lei positiva; limitada no entanto pela lei natural enquanto fiadora dos direitos essenciais da pessoa humana. Isto no entanto implica a ideia de um Legislador natural... Sem a ideia de um legislador natural ou de uma alma do mundo não há como erigir uma ética objetiva em torno da essencialidade, a Ética de que precisamos no momento presente para dar suporte ao humanismo.

Não podemos sair desta xaropada individualista ou destas justificativas em torno do egoísmo se apelar a um elemento unificador. Agora caso apelemos ao estado ou ao grupo social correremos sempre o risco de diviniza-lo ou de atribuir-lhe competência total. Neste sentido julgo mais prudente apelarmos a uma consciência ou espírito universal mais ou menos difuso nas criaturas racionais e cuja forma é a própria racionalidade.

Para que não venhamos todos a perecer faz-se mister ressuscitar o sentido da ética, o sentido antigo, o sentido clássico, o sentido perene. Para tanto talvez tenhamos de resgatar a ideia de Deus ou ao menos discuti-la com a mente aberta e isenta de preconceitos.

No próximo artigo tornaremos a Filosofia grega com o intuito de repensar algumas doutrinas formuladas no campo da Ética.





domingo, 1 de novembro de 2015

Sócrates encontra Bertrand Russel





Bertrand Russel: Cheguei a conclusão de que todo medo é mau. Porque não sou Cristão 44
Sócrates: Interessante. No entanto qual foi teu ponto de partida para chegar a tamanha conclusão?
Bertrand Russel: Acaso os homens ilustres não tem encarado o medo como algo vergonhoso? id
Sócrates: Os homens também tem encarado o ato sexual como vergonhoso e por isso decretado sua ocultação. Mas nem por isso fica sendo ele mau.
Bertrand Russel: Penso que o medo derive sempre da ignorância. Assim se tomamos a ignorância como um mal a ser superado não podemos tomar o medo por bem a ser desejado.
Sócrates: Não me parece que o medo derive sempre e necessariamente da ignorância. Acaso aquele que conhece a dor cessará de teme-la porque a conhece? Em que o conhecimento diminui o medo ou receio da dor?
Bertrand Russel: Este homem, que tem medo da dor, ignora certamente que em si mesma ela corresponde a um benefício na medida em que informa-o sobre alguma anomalia ou enfermidade presente no organismo predispondo-o a procurar o médico, a tratar-se e a obter a cura.
Sócrates: Pareces ignorar que algumas enfermidades dolorosas, mesmo quando diagnosticadas precocemente, excluem toda e qualquer esperança de cura ou mesmo alivio. Neste caso qual seria o benefício da dor?
Bertrand Russel: Exercitar a coragem ou a firmeza do caráter.
Sócrates: No entanto se este homem encontra-se a caminho da morte e da aniquilação, que benefício lhe traria tal exercitamento?
Bertrand Russel: Convenhamos então que a consciência da dor também produz medo, acaso seria tal medo bom?
Sócrates: Talvez devamos situar este gênero de medo como natural. A principio não ousarei classifica-lo como um bem, não vejo todavia como o possas classificar como mal.
Bertrand Russel: Queres dizer com isto que homem algum seja capaz de vencer o medo da dor:
Sócrates: Quero dizer com isto que os que venceram tal tipo de medo tiveram de conhece-lo, pois caso não o tivessem conhecido não o teriam vencido. Da mesma forma todos os que jamais lograram vence-lo. Todos os homens conheceram o medo da dor.
Bertrand Russel: Sabemos no entanto que alguns homens jamais conheceram a dor.
Sócrates: Todavia pela experiência comum puderam saber que se trata dum estado desconfortável, que é temido pelos homens e portanto indesejável.
Bertrand Russel: Deixemos de lado o problema específico da dor e convenhamos que a parte dela, os homens tem medo daquilo que ignoram.
Sócrates: Mesmo pondo de lado o problema específico da dor não poderia estar de acordo contigo?
Bertrand Russel: Mas por que caro Sócrates?
Sócrates: Os homens tem medo da pobreza mesmo quando cônscios de seus resultados, como temem do mesmo modo e forma a vergonha, mesmo sabendo do que se trate.
Bertrand Russel: Cessa de embromar oh Sócrates e declara logo onde queres chegar?
Sócrates: Quero dizer que os homens temem tudo quanto provoca desconforto a natureza, tando no corpo quanto na alma. Assim como a dor representa um desconforto ou incomodo para este corpo físico, certas circunstâncias externas como a miséria, a vergonha, a solidão, etc mesmo quando bem conhecidas não podem deixar de produzir certa dor ou desconforto na alma.
Bertrand Russel: Agora te peguei grande Sócrates! Pois se o medo da miséria, da vergonha e da dor devem ser superados ou vencidos e esta superação é um bem, deves convir comigo que tais medos devam ser classificados como males!
Sócrates: Eu sempre poderia responder dizendo que caíste na falácia romântica que tende a tudo encarar em termo de bens ou males absolutos, segundo o padrão binário de pensamento; e redarguir que entre o Bem e o Mal absolutos há uma gigantesca escala de bens e males maiores e menores. E já poderia dizer que o temor de algumas coisas é um Bem, mas que a superação de tais temores constitui um bem maior.
Bertrand Russel: Então ousarás declarar que tais medos correspondam a bens?
Sócrates: Sim, pois é justamente o temor a esta ou aquela circunstância imposta pela vida que te levará a envidar todos os esforços possíveis com o objetivo de evita-la. Não houvesse o temor dos naufrágios em que estado ficariam as peças dos navios?
Bertrand Russel: Julgo que ninguém lhes daria lá muita importância...
Sócrates: No entanto tanto mais perigoso é um mar e tanto mais aprestados são os navios que por ele circulam, achando-se cada peça em seu lugar e os cordames e as velas, tudo muito bem conservado.
Isto em virtude do que? Do medo...
E o medo impede que a desgraça de concretize!
Bertrand Russel: Parece-me que desta vez acertastes.
Sócrates: Assim ao curso da vida o homem previdente, temendo tornar-se miserável evitará o desperdício e fará economia. O que teme qualquer tipo de vergonha buscara viver virtuosamente, no exercício da temperança e o que teme a solidão tudo fará para acercar-se de bons amigos e rete-los. O que de modo algum fariam caso nada temessem!
Bertrand Russel: De acordo. Agora não te parecem que alguns medos ao menos estejam relacionados com a ignorância, e que esta categoria de medos ao medos seja nefasta?
Sócrates: Penso que te refiras ao temor do escuro, acalentado pelas crianças de pouca idade e do temor da morte.
Bertrand Russel: Exatamente. Pois nem sabemos o que haja ou não no escuro e para muitos a morte equivale a uma espécie de mistério.
Sócrates: Deves saber que não só as crianças pequenas imaginam que hajam monstros no escuro, em seus armários ou debaixo de suas camas; mas que também aos adultos ajuizados é molesto sair a rua durante a noite onde não haja iluminação pública ou ao menos uma archote.
Bertrand Russel: De fato sempre poderia haver um buraco ou uma pedra solta no meio do caminho, uma fera ou um ladrão.
Sócrates: A luz, em especial a do dia, torna visíveis os obstáculos e perigos que deves evitar. As trevas ocultam-nos. Pode ser que nada haja lá de perigoso, mas também pode ser que haja algo. Sair de casa e enfrentar as trevas do caminho é sempre uma aposta que envolve a sorte e portanto a incerteza ou a insegurança, a qual produz sempre algum desconforto na alma. Por isto o homem, mesmo adulto teme a escuridão, caro Russel, porque o risco ou o perigo, a aposta e a sorte, sempre incomodam o homem.
Bertrand Russel: Diante disto só lhe resta explorar o ambiente e perder o medo.
Sócrates: Ou encontrar um obstáculo qualquer e perder a vida...
Bertrand Russel; Pendo ter compreendido o que queres dizer...
Sócrates: A situação que precede a investigação, no caso do escuro, sempre envolverá o medo. E este nem sempre será ocioso. Pode ser que o homem por obra e graça do temor, conserve a vida, que é o mais precioso dos bens.
Conhecer neste caso, sempre implicará a possibilidade de conhecer algo de funesto ou pernicioso e ignorar por força do medo sempre implicará a possibilidade de conservar a vida ou a integridade. E não me poderás convencer de que vir a conhecer um buraco, um charco, uma áspide ou a um ladrão armado corresponde a um conhecimento bom.
Bertrand Russel: Que me dizes agora a respeito dos que temem a morte?
Sócrates: Se a morte corresponde a cessação do ser não há porque teme-la, quando ela vier não serei, enquanto eu for ela não terá chegado. Agora se corresponde a uma espécie de reencontro com os ancestrais que imbecilidade não seria temer tal reencontro... (Apologia de Sócrates - Platão)
Bertrand Russel: Queres dizer que não sabes que seja a morte?
Sócrates: Como poderia saber que é a morte se não sei que seja a vida? (Confúcio 'Analectos')
Bertrand Russel: Te direi o que é a morte caro Sócrates > Penso que, quando morrer, apodrecerei, e nada do meu eu sobreviverá. Porque não sou Cristão p 44
Sócrates: Diz-me cá uma coisa oh Bertrand, por que modo e maneira somos nós homens mortais capazes de conhecer a realidade?
Bertrand Russel: Ora Sócrates por meio do contato ou da experiencialidade.
Sócrates: Neste caso como poderias saber o que se sucede no momento da morte, acaso já morreste ou tiveste uma experiência de morte?
Bertrand Russel: Certamente não.
Sócrates: Então como podes afirmar que o conhecimento se dá por via de experiência e contra tua própria doutrina afirmar que saber o que se sucede conosco após uma morte que ainda não experimentaste?
Bertrand Russel: Acaso algum homem tornou do mundo dos mortos para declarar que sobreviveu?
Sócrates: Tua pergunta é demasiado delicada, mas, por mera aquiescência direi que não e peguntar-te-ei: A que propósito vem isto?
Bertrand Russel: Uma vez que falecido algum jamais manifestou-se declarando-se estar vivo, dou por certo que a alma morre juntamente com o corpo físico, isto se existe.
Sócrates: Sabes melhor do que eu que nada se pode de positivo do argumento do silêncio. Caso um morto houvesse se manifestado e demonstrado estar vivo, teríamos o direito de declarar que a alma sobrevive a dissolução do corpo. Agora face a hipótese segundo a qual morto algum jamais teria se manifestado aos vivos, jamais teríamos como sair da dúvida ou resolver o problema. Permaneceríamos em estado de ignorância ou dúvida.
Bertrand Russel: Uma vez que os falecidos não se manifestam aos vivos é perfeitamente lícito e justo inferir que não haja sobrevivência alguma.
Sócrates: És um bom fenomenologista. Eu no entanto não creio que a existência de qualquer tipo de ser, esteja na dependência de nossa consciência ou capacidade sensorial. Bilhões de estrelas que jamais foram percebidas por nós existem em si mesmas como existiam - em nosso próprio mundo - tantas e tantas coisas mesmo antes de terem sido percebidas e descobertas por nós. Tu confundes conhecimento ou manifestação com existência, de minha parte não posso deixar de encara-lo como uma espécie de antropocentrismo gnoseológico... os falecidos bem poderiam sobreviver e por qualquer causa por nós ignorada não se poder manifestar a nós ou comunicar conosco. Assim de uma fato não se pode deduzir outro.
Bertrand Russel: Ainda assim sou propenso a crer que de meu eu nada restará.
Sócrates: Assim tudo quanto aprendestes a cabo de tantas penas, esforços e sacrifícios reverterá ao nada?
Bertrand Russel: Não sou jovem mas amo a vida. Id 44
Sócrates: Penso que se amas a vida é porque ela corresponda a um bem.
Bertrand Russel: Decerto não poderia ama-la caso corresponde-se a um mal. Amar o Bem e odiar o mal constituem a suprema norma de virtude.
Sócrates: No entanto cogitas perde-la para sempre?
Bertrand Russel: A felicidade não é menos felicidade nem menos verdadeira por ter de chegar a um fim. Id p 44
Sócrates: Deixa ver se te compreendi - Amas a vida porque corresponde a um bem que te torna feliz?
Bertrand Russel: Concedo que a vida corresponda a um bem, assim a amo, e concedo que a posse da vida torna-me feliz enquanto via de acesso aos demais bens que me tornam feliz.
Sócrates: Ótimo. Concedes que a morte corresponda ao oposto da fruição da vida?
Bertrand Russel: Sim, parece-me exato que a morte corresponda ao contrário da vida.
Sócrates: Neste caso se a posse da vida corresponde a um bem, como poderíamos avaliar a morte ou cessação da vida senão como um mal?
Bertrand Russel: Julgo que pensamento e o amor não percam seu valor pelo fato de não serem eternos. P 44
Sócrates: Assim devemos aceitar que tudo quanto haja de mais elevado e nobre neste nosso mundo esteja fadado a destruição?
Bertrand Russel: É o que me parece.
Sócrates: E te parece que a verdade, o amor, a justiça, etc enfim que tudo isto tenha fim e desapareça por completo?
Bertrand Russel: É o que me parece.
Sócrates: Agora não te parece que tudo quanto dizes ser fadado a ter fim corresponda a virtudes, princípios e valores sobremodo belos e excelentes?
Bertrand Russel: Sim, a existência deste gênero de bens parece-me bela, sem dúvida.
Sócrates: Agora se reconheces em tais virtude alguma beleza, como poderias deixar de reconhecer em sua total aniquilação o triunfo da feiura?
Bertrand Russel: As coisas são como são...
Sócrates: No entanto se enquanto coisas existentes tu ousas avaliar tais virtudes como bens e a contemplar suas belezas, não vejo como possas deixar de classificar a destruição de tais bens como um mal e de tais belezas como feiura.
Bertrand Russel: Neste caso sou constrangido a admitir que a ordem geral deste universo seja feia e má Sócrates.
Sócrates: Uma vez que atribuis ao provisório e passageiro predicados de bondade e beleza com que nossas almas são atraídas para em seguida repudiar tacitamente a estabilidade e continuidade desta ordem de coisas não posso deixar de aquilatar teu universo como imperfeito e tua visão como desastrosa.
Acaso poderia eu deixar de considerar a inexorável aniquilação do Bom, do Verdadeiro de do Belo; e do ideal de sublimidade e perfeição, senão como uma catástrofe?
Bertrand Russel: É que não podes compreender o bem, a verdade e beleza a não ser como entidades eternas.
Sócrates: É que não posso encontrar verdadeiro Bem, verdadeira verdade e verdadeira beleza, enfim autenticidade senão no que seja duradouro, estável e eterno. É que não posso dar com um sentido de perfeição num benefício que desapareça e se converta em nada... É que não ousaria reverter o que há de mais precioso quanto a categoria do ser, ao não ser.
É que considero o bem, a verdade e a beleza dignos de existirem para sempre e este meu ideal humano é mais elevado do que este teu universo em que as formas mais preciosas da existência revertem ao nada...
É que tua concepção se me apresenta como má, feia, desastrosa e imperfeita.
Bertrand Russel: Pura questão de ponto de vista...
Sócrates: Pura questão de ponto de vista...