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segunda-feira, 22 de maio de 2017

A produção de uma democracia não palatável e suas razões...


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Observador atento e bom conhecedor da realidade política de seu tempo Platão, o ateniense, sabia melhor do que ninguém, que as mazelas, as impurezas, as profanidades... que maculam esta realidade tendem a fazer com que os cidadãos mais nobres e virtuosos, afastem-se dela, obviamente com o receio de virem a manchar-se.

Tal a realidade do nosso Brasil contemporâneo, em que um número cada vez maior de cidadãos excelentes, sejam humanistas, socialistas, laicistas, amigos da liberdade, etc tem se deixado dominar pelo desamino, abater-se e optado pela abstenção, convertendo-se alguns inclusive, em apóstolos do abstencionismo.

E não é minha intenção neste artigo acusar tais pessoas de traição, conspiração ou qualquer outra coisa... De modo algum.

Tudo quanto pretendo, amigo abstencionista, é problematizar sua opção.

Começando por perguntar-lhe se acha que os paladinos do neo liberalismo e do liberalismo, noutras palavras - PSDbestas e aliados, também se sentirão desconfortáveis em meio a tanta profanidade, e optarão por abster-se? Crê de fato que os demagogos, charlatães, degenerados, vendidos, etc haverão de omitir-se também?

Admitindo que o maior número de desiludidos, desesperados, frustrados, abatidos, desanimados, desgostosos e consequentemente de abstencionistas, pertençam a plataforma de centro ou de esquerda, qual plataforma ficara mais fragilizada?

Admitindo ainda que a atual estrutura política conserve-se inalterada e nos mesmos moldes parlamentares a quem favorecerá o recuo da plataforma trabalhista? Por quem haverá de ser ocupado? Quem obterá a hegemonia no Parlamento? Que resultará de tão calamitosa situação?

Será que você acredita mesmo que o ato de abster-se e de desamparar a esquerda trabalhista atingirá os agentes mais ativos da corrupção, cuja plataforma é bem outra?

Retorno a primeira pergunta: Que o leva a crer que os eleitores da plataforma neo liberal ou liberal são tão sensíveis a chaga da corrupção quanto você partidário da esquerda?

E retorno ao citado Platão apenas com o objetivo de transmitir suas considerações ao amigo leitor:

'Caso o cidadão mais excelente opte por não participar da vida política qual haverá de ser o preço pago por ele? Sua punição será ser governado pelos medíocres e por toda gente inferior a si. Pois se o bom não participa com o objetivo de tornar a politica boa, os maus assumirão seu lugar tornando a política ainda pior do que é. E ele não poderá reclamar.' eis mais ou menos o que li há muito tempo já na clássica República.

E faz todo sentido.

Se você sendo nobre, honesto, bom, virtuoso e excelente; afasta-se da política com medo de contaminar-se, como admirar-se de que o nicho ou espaço aberto por si seja ocupado por alguém menos bem menos digno do que você, enfim por um bandido, ladrão, corrupto, venal, degenerado, canalha, etc??? Se você que é animado por princípios e valores saudáveis se abstém para não poluir-se, como deixar de concluir que o cenário só poderá piorar ainda mais devido a inserção dos maus???? Se você que é humanista recua enojado como evitar que um liberal desonesto ou um pastor charlatão preencha a vaga deixada por si e elabore leis com o objetivo de oprimir ainda mais nosso bom povo???

Como podemos ter esperança numa política melhor se quem tem princípios, valores, ética, virtude e nobreza é justamente quem se escandaliza e afasta???

Tudo quanto podemos esperar num cenário destes, de abandono e abstenção é que a condição da política agrave-se ainda mais...

Por fim, abandonado o cenário pelos virtuosos e bons poderão os corruptos e viciados prevaricar mais facilmente...

Perceba portanto caro leitor, que o abandono da política pelos virtuosos, acaba indiretamente, facilitando ainda mais o ofício do prevaricador. O qual se sentirá mais a vontade e menos ameaçado...

Afinal quem fiscalizará, quem vigiará, que denunciará tal categoria de pessoas caso o parlamento seja ocupado exclusivamente por elas?

Perceba amigo leitor que por trás da própria corrupção e sobretudo da divulgação da corrupção, coexistem diversas intencionalidade, e uma delas, com toda certeza, consiste em apresentar a política ou a democracia como algo essencialmente imundo e imprestável, desiludindo a tantos quantos aspirem sanea-la moralmente.

Há ali, deliberado propósito de apresentar a política como algo essencialmente mau, de que só tomam parte viciados, canalhas e degenerados e que não é feito para o homem honesto e decente. Uma das tônicas é sim alimentar o abstencionismo por parte dos bons, até que os maus obtenham total controle da situação. Não sei se há um programa de ação voluntária e conjunta por parte dos parlamentares corruptos neste sentido... Mas que alguns tem uma clara percepção a respeito nos parece evidente.

Podemos então falar na produção intencional e política de uma democracia não palatável por parte de alguns políticos corruptos. Os quais aspiram porque a corrupção seja divulgava aos quatro ventos, exposta, apresentada, etc com o objetivo de produzir repulsa por parte dos bons e mante-los afastados. Querem apresentar-nos a política ou a democracia como um pedaço de excremento ou carniça face ao qual sentimos vontade de vomitar e de permanecer afastados.

Por isso digo que a exposição da corrupção ou melhor dizendo a 'ostentação' que dela ser faz bem como a avidez com que é cometida, correspondem sim a tentativa de apresentar a política como algo pernicioso, nocivo, indigno e incorrigível. A ponto das pessoas acreditarem que as coisas sempre foram assim, e que não há remédio com que sanea-las, restando-nos apenas a opção de 'desertar' do cenário político, deixando-o entregue aos criminosos e sendo governados por eles.

Se ao menos as pessoas favoráveis a abstinência acreditassem na solução Revolucionária, unindo-se em torno de um ideal comum, a saber a destruição do Parlamento... A situação seria menos degradante.

Sucede no entanto que boa parte das pessoas desencantadas, que se afastaram da política vigente e das eleições, parece optar por viver num mundo paralelo, em que continuamos a ser comandados pelo Parlamento e fingimos que isto não afeta nossas vidas. O que não passa de ficção ou de delírio.

Mesmo que não participemos da política institucional a simples existência dessa política ou a realidade de um parlamento, continua a afetar dramaticamente a condição de milhões e milhões de seres humanos seja reduzindo-lhes as liberdades ou suprimindo-lhes os direitos, e consequentemente agravando diversas situações de miséria, ignorância, violência e indignidade.

Portanto de pouco vale abster-se e manter-se a parte da vida política, se não aderimos a qualquer outra pauta tanto mais 'realista' e objetiva, como a dos revolucionários e sedicionistas. Posso até discordar deles como discordo sem no entanto ter de classifica-los como inconsequentes e levianos...
Agora como haverei de classificar pessoas que tendo se afastado da vida política institucional, continuam a tolera-la, agindo como se não existisse?

Em que o fingir que determinada estrutura, forma ou organização existente inexiste haverá de beneficiar alguém???

Em que ir para a savana negando a existência de leões haverá de beneficiar o viajante?

Benefício aufere aquele que admitindo a existência real dos leões e o perigo representado por eles interna-se na savana levando consigo rifle e munições.

Por mais que o outro proceda como se os leões inexistissem nem por isso estará mais seguro.

Portanto fingir que a política não existe ou não dar a mínima por ela, ou ignora-la não te preserva das decisões políticas tomadas pelos corruptos.

De uma maneira ou de outra, enquanto o Parlamento não for destruído e instaurada uma nova ordem, você e seus entes queridos continuarão sendo afetados por suas decisões.

Se você acredita que pode destruir o Parlamento agora e instaurar uma nova ordem política da noite para o dia, não temos o que discutir. Boa sorte...

Por outro lado, caso tenhamos de conviver com o parlamento e a política institucional por certa medida de tempo, melhor encarar o problema de frente. Melhor analisar, ponderar, atuar e participar; entrando na liça com boas ideias, com bons princípios, excelentes valores e intenções virtuosas; porque isto sim assusta bastante os políticos corruptos - O simples fato de terem os cargos disputados com gente de boa índole e reputação destinada a observa-los! Temem acima de tudo ser vigiados! Cerque-mo-los! Mas para isso é preciso que a gente de bem, aceite o desafio de por as mãos na massa sem medo de contaminar-se ou de poluir-se.

Temos de acreditar que é possível sim fazer uma política diferente, pautada em sentimentos nobres e virtuosos e fundamentada na ética.

O simples conhecimento, básico e elementar, da condição humana, basta-nos para constatar que sempre haverão elementos corruptos inseridos nas estruturas políticas de modo geral e nos partidos políticos, mesmo naqueles cujos estatutos e programas objetivem a afirmação da justiça social e do bem comum. Nem mesmo os melhores partidos, inspirados nas fontes do humanismo, são ou haverão de ser incorruptíveis... Eis porque não podemos sonhar com um parlamento perfeito.

Daí a conveniência de encaminhar-se para a democracia direta ou semi direta e de se recorrer tanto quanto seja possível a plebiscitos e referendos. Eliminando-se, gradativamente, a mediação do parlamento.

No entanto quanto ele existe e na medida em que existe, é dever do homem nobre, excelente e virtuoso impedir que seja completamente dominado e usado pelos maus elementos.

Eis porque temos de insistir sobre a necessidade da inserção.

Os elementos bons e virtuosos é que devem ocupar as cadeiras do Parlamento, constituir maioria e controla-lo em detrimento dos elementos indignos e corruptos. Tal a realidade distante que com fé devemos perseguir.

Sem jamais sonhar com super homens, falsos salvadores, 'mitos', deuses... com partidos incorruptíveis ou com um parlamento perfeito. No melhor dos partidos sempre haverá maus elementos e no melhor dos parlamentos sempre haverá homens dispostos a corromper-se. Basta que estejamos sempre dispostos a enfrenta-los, vigia-los, denuncia-los, conte-los e frustra-los; impedindo-os de comandar.

E no entanto tal só será possível caso os bons tomem consciência de seu dever e tornem a apoiar a plataforma socialista, que é sem dúvida uma plataforma ou proposta excelente.

Que contemplem apenas a própria integridade e o ideal de justiça a ser perseguido, sabendo que os crimes e maldades perpetrados por outros não são capazes de atingi-los.

Ah, mas se tomar parte na política ficarei mal falado... Mas se alguém do meu partido causar escândalo perderei minha reputação... Mas caso seja denunciado maliciosamente ou caluniado terei minha honra atingida, etc, etc, etc E assim acabarei expondo-me sem necessidade.

Quanto a tais objeções diria que ao justo basta a consciência limpa e, no máximo, a confiança dos seus, digo dos familiares e amigos. E que muitos homens nobres e excelentes foram processados, acusados e caluniados a exemplo de Aristides, o justo, em Atenas... E que mesmo dentre os nossos homens base não poucos foram expostos a calúnia e mentirosamente atacados, em que pese a inocência comprovada, assim: Zacarias, Sinimbu, Júlio de Castilhos, Borges de Medeiros, Bernardino de Campos, Vargas, Juscelino, Goulart, Montoro, Brizola, etc os quais nem se deixaram abalar, não perderam a cabeça e tampouco deixaram de contribuir, cada qual em sua medida, para o bem estar geral da República.

De fato a sorte de um politico virtuoso e comprometido com o bem comum e com a justiça nem sempre é fácil e invejável. Demandando alias certa abnegação e sacrifício, o que não se pode exigir de quem quer que seja.

Então vá lá! Não aspirar candidatar-se ao menos apoie os homens virtuosos que ousam faze-lo e vote neles. Vote dos que conhece e confia, apoie-os ativamente se de fato são excelentes e comprometidos. Lute por eles e introduza-os em seu nome no Parlamento para que de fato te representem fielmente.

Mas e se estiver enganado e o homem vier a degenerar - Uma vez que somos mutáveis - e a corromper-se???

Para justificar-te, basta que tua intenção seja pura! Caso não tenhas tido a intenção de eleger um criminoso, estas inocentado. Errastes, fostes ludibriado, enganado, iludido ; tal a sorte dos mortais - Nada mais humano do que o erro! Certamente aquele que busca eleger um candidato honesto, após ter investigado e buscado conhecimento de causa, converte-se em vítima, ao ser traído por ele.

E no entanto o medo de errar não nos deve impedir de tomar as decisões que julgamos certas ou de agir.

Do contrário sequer atuaríamos de qualquer modo com medo de 'pecar' ou de cometer ações indignas, face as quais somos sugestionados frequentemente. E no entanto a inação ou a omissão são sempre mais perniciosas do que o risco. Viver é aventurar-se, é arriscar-se, é expor-se...

Importante, já o disse, é a pureza das intenções ou a vontade de acertar.

O que no âmbito da ação politica implica busca pelo conhecimento.

Vote portanto em quem já conhece e confia ou, busque conhecer de perto e com suficiência de tempo os candidatos de sua plataforma. O que é facilitado no caso dos que já atuam e pleiteiam a reeleição pelo conhecimento de seu histórico político. Certamente que há políticos comprometidos com os interesses populares que jamais foram denunciados ou citados por improbidade, assim diversos membros da bancada do PSOL dentre os quais Ivan Valente Luiza Erundina; o deputado trabalhista Bohn Gass; o ínclito deputado pedetista Ciro Gomes; assim aqueles que foram levianamente citados sem produção material de provas como a nobre Senadora Gleisi Hoffman e a deputada Jandyra Fegalli do PS do B, dentre outros. Sempre existiram e ainda existem pessoas que valham a pena dentro do cenário político e devemos cerrar fileiras em redor delas.

No entanto de que nos valerá eleger meia dúzia de gatos pingados honestos contra uma aluvião de demagogos vendidos???

Claro que a militância cidadã implica trabalho de conscientização a ser realizado, buscando esclarecer o outro e ganha-los para esta boa causa.

Importa fortalecer esta minoria de combatentes valorosos como os parlamentares que se opuseram:

  • A PEC 241 que visava estabelecer um teto de gastos públicos
  • A proposta sobre o financiamento das candidaturas políticas por empresários
  • A terceirização do trabalho
E que se opõem a sinistra Reforma da Previdência.

Que tal começar levantando seus nomes e buscando conhecer melhor o trabalho deles?

São corruptos tais Parlamentares, foram denunciados ou incriminados?

Não são corruptos, jamais foram denunciados ou incriminados?

Então você não pode dizer que são todos iguais ou farinha do mesmo saco...

E suas apreciações não estão sendo justas.

Alias as generalizações quase nunca são justas.

Suponhamos agora que houvesse apenas um político honesto em todo Parlamento... Nem por isso deixaríamos de estar obrigados a apoia-lo e a reelege-lo!

Justiça é virtude que independe do número.

Não faça portanto o jogo dos políticos corruptos, omitindo-se. São eles os únicos beneficiados por sua abstenção... E te agradecerão roubando ainda mais, prevaricando mais...

Não de omita ou melindre, mas ponha a mão na massa e com responsabilidade atue e participe sem medo de errar.

É por meio de acerto e erro que se constrói e aprimora o organismo democrático.

Por mais perfeito que seja não imagine ou pense que será capaz de viver fora da realidade, e pense sobretudo nas pessoas que serão afetadas por um política pior com relação a que já existe... Pense como as vidas dos trabalhadores e das pessoas mais humildes podem ser tornar ainda difíceis na medida em que as leis são formuladas por homens vis e sem consciência, escravizados pelo dinheiro! E pense no quanto pode contribuir para evitar ou amenizar esta situação votando em pessoas dignas e comprometidas com o bem comum!

Sendo bom a afastando-se do cenário político certamente colabora para torna-lo pior.

Resta esclarecer por fim que a estratégia destes demagogos poderá, ainda a curto prazo, significar um tiro no pé...

Isto na medida em que as pessoas honestas alheias a ordem democrática, sempre poderão vir a comprometer-se com sistemas sedicionistas ou totalitários: Assim o Anarquismo, quanto ao primeiro caso; assim Monarquismo, Integralismo, Fascismo, Nazismo, Comunismo... Os quais vão se fortalecendo e avultando na medida em que mingua a consciência democrática.

Tanto mais desacreditada a democracia Parlamentar ou representativa fica entre nós e tanto mais observamos a construção de ideários rivais, especialmente entre as faixas mais jovens da população, as quais tem optado preferencialmente por aderir a credos não democráticos, ao invés de alimentar a farsa segundo a qual o Parlamento não passa de um enfeite que não afeta nossas vidas... e que consequentemente deve ser suprimido.

Certamente que a exposição e manipulação cavilosa da própria corrupção pelos políticos alimenta semelhante estado de coisas, tornando-o cada vez mais instável e perigoso. Identificada pelo vulgo com o Parlamento a ordem democrática jamais foi tão questionada e exposta a tão duras críticas como no momento presente. Afinal para a maior parte das pessoas um Parlamento corrupto implica uma democracia corrupta, que não funciona e que deve ser removida.

Vejamos que resultará de toda esta farra ou brincadeira iniciada pelos parlamentares irresponsáveis!

Quanto aos que concordam com o divino Platão, como nós, cumpre buscar votar conscientemente, dignificar candidatos honestos, fazer uma boa política, injetar esperanças no povo e construir o caminho para uma democracia cada vez mais direta e para uma sociedade cada vez mais justa, solidária e fraterna. A todas as pessoas de boa vontade convidamos amorosamente para que analisem sem preconceitos o nosso ideário -

VAMOS FORTALECER A CORRENTE DO BEM!



terça-feira, 13 de outubro de 2015

Uma réplica ao sr. Domingos acerca do abstencionismo







Em seu post intitulado Problemas em torno do anarquismo: anarquismo, socialismo e individualismo II o professor Domingos que é um dos escritores deste blog ataca o abstencionismo e propõe que a melhor forma de mudar o sistema viciado é mantê-lo, tese interessante, tão interessante quanto a dos marxistas que fazem a revolução, tomam o Estado, reproduzem o Estado burguês para que este um dia se torne comunista, isto é, uma sociedade sem classes. Não vou analisar o texto por inteiro mas apenas as partes mais significativas.

Segundo o professor Domingos:

"Só podemos admitir a viabilidade da democracia liberal ou burguesa COM O OBJETIVO DE TRANSFORMA-LA, DE AMPLIA-LA, DE APROFUNDA-LA; ENFIM DE TORNA-LA DIRETA OU POPULAR. Os sociais democratas não tiveram diante de si tal perspectiva, não lutaram por este ideal, não conceberam esta ideia ou possibilidade e por isso cometeram o equívoco fatal de conformarem-se com este padrão viciado. Tal não é de modo algum a nossa perspectiva".

Essa tese é muito parecida com a dos marxistas que falam da ditadura do proletariado, vamos governar o povo com mão de ferro e à medida que o socialismo se expandir a fase de transição que é a ditadura do proletariado cairá magicamente sozinha. A história está repleta de exemplos que o sistema representativo não funciona ou pelo menos não funciona como deveria funcionar e acreditar nesse sistema e querer perpetuá-lo é uma ilusão. Proudhon  que era anarquista tentou fazer conqistas no congresso, foi parlamentar e falhou miseravelmente.

Sobre as leis ele escreveu: O governo, portanto, deverá fazer leis, isto é, impor-se a si mesmo limites; porque tudo o que é regra para o cidadão torna-se limite para o príncipe. Ele fará tantas leis que chocará interesses; e, visto que os interesses são inumeráveis, que as relações nascentes umas das outras se multiplicam ao infinito, que o antagonismo não tem fim, a legislação deverá funcionar sem parar. As leis, os decretos, os editais, as ordens, as decisões cairão em abundância sobre o pobre povo. Ao cabo de algum tempo, o solo político será coberto por uma camada de papel que os geólogos não terão senão que registrar sob o nome de formação “papesóica”, nas revoluções do globo. A Convenção, em três anos, um mês e quatro dias, vomitou 11.600 leis e decretos; a Constituinte e o Legislativo não produziram muito menos; o Império e os governos posteriores trabalharam do mesmo modo. Atualmente, o Bulletin des Lois contém, diz-se, mais de 50 mil; se nossos representantes cumprissem seu dever, esta cifra enorme seria logo duplicada. Acreditais que o povo, e o próprio governo, conserva sua razão nesta balbúrdia?

Acerca desse governo defendido pelo sr. Domingos, Kropotkin escreveu:

"Os defeitos das Assembléias representativas não nos causarão estranheza, se refletirmos um momento apenas sobre a maneira como elas se recrutam e como funcionam.

Será preciso que eu descreva aqui o quadro, tão pungente, tão profundamente repugnante, e que nós todos conhecemos, – o quadro das eleições? Na burguesa Inglaterra e na democrática Suíça, na França como nos Estados Unidos, na Alemanha como na República Argentina, não é essa triste comédia em toda parte a mesma?

É preciso contar como os agentes e as comissões eleitorais “forjam, arrumam” uma eleição (verdadeira gíria de larápios), espalhando para um lado e para o outro, promessas políticas nos comícios; como eles penetram nas famílias, adulando a mãe, o filho, acariciando se for preciso o cão asmático ou o gato do “eleitor”? como eles se espalham pelos bares, convertem os eleitores e atraem os mais calados abrindo com eles discussões, como esses burlões que vos arrastam ao “jogo da vermelhinha”? como o candidato, depois de se ter feito desejar, aparece enfim no meio dos seus “queridos eleitores”, com um sorriso benevolente, o olhar modesto, a voz melíflua, – tal qual como velha megera que aluga quartos em Londres, ao procurar enredar um locatário com o seu doce sorriso e os seus olhares angélicos? É preciso enumerar os programas mentirosos – todos mentiosos – sejam eles oportunistas ou socialistas-revolucionários, nos quais o próprio candidato, por pouco inteligente que seja e por pouco que conheça a Câmara, acredita tanto como acredita nas predicações do “Mensageiro Coxo” e que ele defende com entusiasmo uma verbosidade, uma entoação de voz, um sentimento dignos de um doido ou de um ator de feira? Não é debalde que a comédia popular se não limita a fazer Bertrand e de Robert Macaire simples burlões e lhes acrescenta a essas excelentes qualidades a de “representantes do povo” à busca de votos e de lenços para roubarem".
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Kropotkin continua a surrar impiedosamente essa "democracia maravilhosa" tão querida pelo sr. Domingos:

"Transformai o sistema eleitoral como quiserdes: substitui o escrutínio por pequenos círculos, pelo escrutínio de lista, fazei as eleições em dois graus como na Suíça (eu falo das reuniões preparatórias) modificai-o quando puderdes, aplicai o sistema nas melhores condições de igualdade, – talhai e retalhai os colégios eleitorais – o vício intrínseco da instituição não terá com isso desaparecido. Aquele que souber conseguir a metade dos sufrágios (salvo muito raras exceções, nos partidos perseguidos), será sempre nulo, sem convicções – o homem que sabe contentar toda a gente".


Sobre Proudhon parlamentar escreveu Kropotkin:

"Pobre Proudhon, eu calculo os seus dissabores quando teve a ingenuidade infantil, de entrar na Assembléia, de estudar a fundo cada uma das questões como ordem do dia. Levava ã tribuna algarismos, idéias – nem sequer o escutavam. As questões resolveram-se todas antes da sessão, por esta simples consideração: é útil, é prejudicial ao nosso partido? A contagem de votos está feita: os submissos são registrados, contados cuidadosamente. Os discursos não se pronunciam senão para efeito teatral; não se escutam senão quando têm valor artístico ou se prestam ao escândalo. Os ingênuos imaginam que Roumenstan, arrebatou a Câmara com a sua eloqüência, e Roumenstan no fim da sessão, estuda com os seus amigos a maneira como poderá realizar as promessas feitas para caçar os votos. A sua eloqüência não era mais do que uma cantata de ocasião, composta e pronunciada para divertir a galeria, para manter a sua popularidade com algumas frases empoladas". 4  

Isso para não falar de outros anarquistas e/ou abstencionistas que tem alertado contra o sufrágio universal desde o século XIX. Os socialistas autoritários acusam os abstencionistas de traidores, de fazer o jogo da direita mas essa tática é velha. No fim das contas quem faz o jogo da direita é sempre a esquerda, esquerda essa que se metamorfoseia na direita. Eu mesmo tornei-me abstencionista depois das eleições de 2014. Desde que o PT é situação tenho votado no PT para a presidência da república e no PSOL  para candidatos à senadores e deputados federais e estaduais. Depois que a Dilma Rousseff escolheu Joaquim Levy para ser ministro da fazenda e Kátia Abreu para ministra da agricultura deixei de acreditar no  PT e no sistema representativo. Não votei no PT para esse partido agir como o PSDB.  Isso para não falar no governo de austeridade do PT com seus cortes, com ideias de criar e arrecadar mais impostos. Desse modo o PT revela-se mais um partido mais do mesmo e nesse quesito chega a ser pior do que os partidos da direita pois a direita não engana quanto à sua proposta e o PT enganou seus eleitores. O que levou-me ao abstencionismo não foi tanto as leituras anarquistas mas a prática canalha do PT assim como a cegueira dos partidários do Lula & cia. 

Domingos escreve em seu post: 

"Se os libertários e os socialistas retirarem-se da via institucional ela só poderá ser ocupada pelos totalitários e capitalistas. Agora que proveito resultará disto??? Como queixar-se das igrejas, parlamentos, sindicatos e escolas que nós homens virtuosos abandonamos? Com denunciar o pecado das igrejas, a infidelidade dos parlamentos, a imoralidade dos sindicatos, a condição totalitária de nossas escolas se não estamos lá combatendo tais vícios". 

O Brasil elegeu dois presidentes do PT e o que mudou? O Brasil elegeu senadores e deputados do PT e o que mudou? Para os pobres não muita coisa e o PT só está no poder porque teve que curvar-se ao capital, não foi o povo que elegeu o PT foi o dinheiro dos investidores e o poder do marketing advindo de muita grana. Depois de 4 governos petistas acreditar que o Brasil vai tornar-se socialista pelas vias da representatividade é de duas uma ou loucura ou burrice.  Ademais o sr. Domingos acredita que democracia é ir em sua seção eleitoral a cada dois anos e votar. Anarquistas, autonomistas e abstencionistas em geral fazem política além do voto. A verdadeira política independe de governo mas é muito mais  fácil eleger líderes e ficar com a consciência tranquila do dever tranquilo. O sr. Domingos pensa que a democracia representativa pode ser transformada na verdade é ao contrário que acontece, quem dela participa é que é transformado, veja o PT dos anos 1980 e veja o PT de hoje. 

Para justificar sua paixão pela "democracia representativa" ele cita Platão:

Não posso deixar de concordar com Platão: "Se você sendo bom retira-se da vida política não deve reclamar que a vida política esteja má. Se os virtuosos retiram-se da arena política como evitar que seja ocupada pelos viciosos? Se você é bom entre na vida política e torne-a boa."

Os anarquistas e os abstencionistas ao deixarem de votar não se retiraram da vida política, não, eles fazem política de outra forma. A abstenção é uma forma de política é a não aceitação de um sistema que não funciona, que não atende e nem atenderá as demandas populares, tudo não passa de encenação, farsa. 

Domingos afirma:

Cuida talvez que as instituições que condena e abandona nada signifiquem ou produzam. No entanto tais instituições continuam a influenciar poderosamente as vidas das pessoas para mal ou para bem. Querendo ou não os parlamentos produzem leis e as leis afetam as vidas de milhões e milhões de seres humanos. O anarquismo abstencionista 'encara' as instituições como se não existissem, convencido de que o mundo seria bem melhor sem elas. Problema é que esta vontade ou desejo não faz com que as instituições deixem de existir e de operar.

Com votos ou sem votos as leis vão continuar sendo feitas mesmo a contragosto do povo pobre, pois os parlamentares não estão lá para representar os interesses do povo mas sim os interesses de seus partidos e seus próprios interesses. 

Para arrematar o sr. Domingos afirma que o abstencionismo é um dogma anarquista, não, não é dogma e essa sua afirmação é risível, não votar é princípio de coerência, pois se voto eu aceito o Estado, suas leis, aceito que legislem em meu nome, que me representem sem me representar. O anarquismo não tem dogmas mas tem princípios como qualquer instituição/ideologia. Por afirmar a liberdade isso implica que o anarquista deve deixar todo mundo fazer o que quiser como por exemplo: matar, roubar, estuprar, enganar? O que o anarquismo propõe é a liberdade para todos e a liberdade para todos implica em opressão para ninguém nem mais nem menos. 

Notas:

1. PROUDHON, Pierre Joseph. A propriedade é um roubo e outros escritos anarquistas.
2. KROPOTKIN, Piotr. O Governo representativo.
3. KROPOTKIN, Piotr. O Governo representativo.
4. KROPOTKIN, Piotr.   O governo representativo.


quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Problemas em torno do anarquismo: anarquismo, socialismo e individualismo I I

II A tese do abstencionismo


Outra parcela de anarquistas contenta-se em anunciar ou pregar o abstencionismo, sem fazer apologia da revolução ou do golpe em termos para militares ou violentos.

Posso compreender o abstencionismo mesmo sem concordar com seus proponentes. Afinal são pessoas de boa vontade. Que não votam na esquerda NEM NA DIREITA. 

Ao contrário dos oportunistas, que votam secretamente na direita... limitando-se a explorar os escrúpulos da esquerda. Quem é de direita tem receio, mas não escrúpulo. Não tem escrúpulos porque não tem consciência mas tem receio de vir a ser publicamente desmascarado e desmoralizado por votar nessas porqueiras do DEM, PSDB, PMDB, PP, PR, PSC, etc

Os abstencionistas sinceros, que não votam mesmo, que não votam em candidato algum, respeito. Minha questão é com os que declaram: não voto em ninguém, mas que em nas paginas dos grupos sociais atacam apenas a esquerda e os esquerdistas... 

De falsos ou meios abstencionistas a telinha está cheia...

Não é a tais pessoas que me dirijo neste artigo. Alias jamais me dirijo a hipócritas e dissimulados. Prefiro os malvados que assumem sua malignidade aos fingidos.

Abstencionistas são as pessoas que não votam, que se abstém, que se omitem por terem se desesperado da democracia burguesa ou representativa cooptada pelo mercado, i é, pelo sistema econômico.

Também eu sei que esta democracia viciada e precária foi inventada pelo burguês - na plena acepção da palavra: liberal economicista e protestante - John Locke - e que foi posta a serviço da burguesia emergente e de seus sórdidos interesses econômicos. Sei que os candidatos são financiados por empresários e burgueses com o objetivo de sustentar e impor seus interesses de classe. Sei - pois li os Paradoxos de Max Nordau que os partidos, sucessores dos antigos clubes franceses da Revolução, são como que máfias ou filtros destinados a conter o fantasma do progressivismo... sei que culturalmente a democracia formal ou burguesa forma uma espécie de unidade cultural com o protestantismo e o capitalismo a exemplo dos EUA...

A respeito de todos estes graves problemas que achacam nossos sistema político sei muito bem.

O significado da democracia liberal ou meramente formal, representativa e indireta é demasiado problemático, bem o sei.

E se temos apenas este quadro e este quadro apenas diante dos olhos, somos tentados a desesperar.

Apesar disto, de todos estes vícios, limitações, males e problemas penso que haja um outro lado da moeda.

Desde que no século XIX criou-se a assim chamada social democracia ou democracia social com o surgimento dos partidos de esquerda; socialistas ou trabalhista.

O próprio Marx sempre flutuante e sinuoso em termos de política, na última quadra de sua vida optou por este caminho. Criticou, por birra, Lassale na 'Crítica ao pacto de gotha' mas depois aderiu: é o que declaram explicitamente sua filha, seu genro, seu colaborador Engels (numa das últimas cartas a Kautsky) e o próprio sucessor de Engels; Kautsky. Quem falseou aqui, introduzindo a ditadura absolutista do partido foi Lênin tendo em vista adequar o marxismo a mentalidade do povo russo, recém saído do tzarismo e sem a mínima réstia de consciência democrática.

Antes disto por sinal já os 'Católicos' anglicanos e papistas haviam se inserido na política burguesa dos partidos e parlamentos e introduzido seu 'socialismo de água benta' (apud Manifesto Comunista) ao qual se deve consideráveis conquistas em termos sociais, como admitem Polanyi e Hobsbawm dentre outros. De fato foi por meio de cartas, abaixos assinados, manifestações, greves, campanhas; bem como DA INSERÇÃO POLÍTICA NOS PARLAMENTOS que a partir de 1880 o liberalismo radical ou ortodoxo, responsável por tantas atrocidades, foi paulatinamente limitado, enjaulado e controlado pelo poder político.

Os sociais democratas como já dissemos entraram por este caminho, acrescentaram forças, ampliaram conquistas, ajudaram a estatuir e assegurar direitos em termos trabalhistas, esforçaram-se por elevar o padrão de vida dos proletários e das massas oprimidas; mas enfim, a partir da segunda década do século passado foram perdendo fôlego e fazendo negociações infames, até perderem de vista seus primitivos ideais. E o motivo desta apostasia foi terem se acomodado e acatado o discurso burguês em torno da imutabilidade da democracia formal, liberal ou representativa. Conformaram-se com ela os sociais democratas e foi esta conformidade maléfica que aproximou-os do liberalismo econômico.

Só podemos admitir a viabilidade da democracia liberal ou burguesa COM O OBJETIVO DE TRANSFORMA-LA, DE AMPLIA-LA, DE APROFUNDA-LA; ENFIM DE TORNA-LA DIRETA OU POPULAR. Os sociais democratas não tiveram diante de si tal perspectiva, não lutaram por este ideal, não conceberam esta ideia ou possibilidade e por isso cometeram o equívoco fatal de conformarem-se com este padrão viciado. Tal não é de modo algum a nossa perspectiva.

Não recebemos a democracia liberal ou burguesa nos termos dos liberais ou seja como algo pronto e acabado, como algo perfeito e imutável, como algo divino e imexível. Não, nós encaramos tal tipo de democracia apenas como uma possibilidade ou melhor como uma facilidade oferecida pela História. Apenas como uma pequena brecha ou rachadura feita na muralha do absolutismo, ora economicista. E como brecha que deve ser alargada.

Ali era um aceitar para conformar, aqui uma aceitar para alterar. Para transformar de dentro para fora. Para facilitar a passagem para um outro estado, mais evoluído.

Mas por que cargas dágua acreditamos ser isto possível?

Por que tivemos a ocasião de testemunhar o esforço positivo de pessoas humanitárias, que sequer eram socialistas (ao menos declaradamente) com o objetivo de afirmar e assegurar liberdades e direitos em meio a atmosfera hostil dos parlamentos dominados pela burguesia. No entanto tais pessoas, com o apoio dos cidadãos, conseguiram propor e obter a aprovação de leis beneméritas quais fosse a Lei Maria da Penha, a Lei menino Bernardo e as leis destinadas a proteger os animais, dentre outras. Leis que condenaram o racismo, o fanatismo religioso, o machismo, o adultismo, a homofobia em diversas sociedades e culturas regidas por parlamentos burgueses cujos partidos e políticos dominantes opunham-se a tal sentido.

Toda História da jaula ou das leis destinadas a proteção dos operários foram conquistadas pelas bancadas socialistas ou trabalhistas nos Parlamentos e, no frigir dos ovos, foram e são tais leis que tornaram o liberalismo clássico ou ortodoxo impossível ou melhor ilegal e criminoso. Anarquistas e comunistas porfiam e minimizar o efeito concreto de tais leis. Foram elas no entanto que fizeram do século XX algo perfeitamente distinto do século XIX, a Era de ouro do capitalismo.

Não se diga que o mesmo bem poderia ter se dado no antigo regime.

De fato o antigo regime opos-se durante muito tempo a nova ordem burguesa. Praticamente até os fins do século XVIII. Enquanto permaneceu associado as Igrejas episcopais como a romana ou a anglicana e influenciado por clérigos suficientemente sagazes para distinguirem na nova ordem um aliado senão um epifenômeno do calvinismo. Quando as classe superior foi perdendo a fé e a incredulidade alastrando após o advento do iluminismo a associação secular chegou ao fim, porque os catolicismos estavam fragilizados. Desde então as monarquias tiveram de buscar apoio por parte da nova classe triunfante e de servir a seus interesses...

Tiveram de tornar-se constitucionais para os poderosos e de conter as massas por força das armas. Foi uma situação complicada para os detentores do poder. Mas sempre se podia resolver as coisas recorrendo a fuzis e baionetas... foi o que fizeram os monarcas da França e da Rússia já mancomunados com as fontes do capital.

A burguesia no entanto não aspirava sustentar perpetuamente o luxo dos reis e suas cortes. Locke já havia indicado o caminho. Apesar do parlamentarismo peculiar a mentalidade dos ingleses, para os povos continentais o Parlamento bem podia sustentar-se sozinho e o poder exercido diretamente pelos patrões, sem mediação da nobreza. As forças em movimento levaram fatalmente a eliminação da nobre e por algum tempo os burgueses, com sua democracia meramente formal e livre mercado viram-se no controle da situação. Assim foi de 1850 a 1880 ou 90, e curiosamente não houve tentativa de Revolução.

A Revolução deveria a todos os títulos ter acontecido na Inglaterra dos 30 aos 70 mas não veio a acontecer... na Alemanha dos 70 aos 900 mas não veio a acontecer.

No entanto pouco tempo depois os socialistas de diversos matizes assaltavam os Parlamentos; inglês, francês, alemão... propondo indesejáveis reformas em termos de proteção ao trabalho. Longe de nós negar a pressão e mobilização externa, exercida especialmente pelos sindicatos. Mas não podemos igualmente negar as refregas ocorridas nos parlamentos e a fixação das leis trabalhistas. Foi duas frentes de combate: uma no espaço mesmo do trabalho e outra no espaço da política e não podemos declarar que qualquer uma delas tenha sido supérflua.

Tais fatos assentes no passado não muito distante das nações europeias fazem-me acreditar na viabilidade do inserção ou na possibilidade da via institucional SEM EXCLUSÃO DAS DEMAIS.

Compreendo que umas pessoas tenham desesperado da Igreja (refiro-me aqui as igrejas de tradição Católica - Ortodoxia, romanismo e alto anglicanismo - pois como Engels encado o protestantismo e sobretudo o calvinismo como uma 'Religião essencialmente burguesa' cf também Max Weber 'A ética protestante e espírito do Capitalismo) outras da política, algumas do sindicato e algumas ainda - como Gusdorf - da Escola; enfim de todas as instituições proclamando sua malignidade essencial e postulando seu abandono. Mas não compactuo com este tipo de visão.

Instituições são compostas ou formadas por homens, homens que são portadores de determinadas ideologias. Num determinado momento histórico parece que esta ou aquela ideologia prevalece no seio desta ou daquela instituição. Apenas prevalece... todavia em qualquer instituição deparamos com homens que pensam ou creem de modo diverso, cultivando outros valores. Em qualquer instituição existem variantes ideológicas! Neste sentido podemos definir qualquer uma delas como um espaço de luta em que a liberdade e a justiça possam ser afirmadas e o socialismo cultivado.

Temos de levar os sentidos da liberdade e da justiça e o princípio do socialismo para todos os lugares e ambientes possíveis. Para todas as instituições e homens de boa vontade, probos, honestos e decentes que fazem parte delas. Há menos que nosso pensamento seja maniqueísta não podemos proceder doutro modo. Afastando-nos das instituições é que fazemos o jogo da burguesia, a qual passará a ocupa-las como espaço legitimamente seu. Quando deveríamos disputar-lhes todos os nichos e espaços; inserir-nos e não retirar-nos.

Se os libertários e os socialistas retirarem-se da via institucional ela só poderá ser ocupada pelos totalitários e capitalistas. Agora que proveito resultará disto??? Como queixar-se das igrejas, parlamentos, sindicatos e escolas que nós homens virtuosos abandonamos? Com denunciar o pecado das igrejas, a infidelidade dos parlamentos, a imoralidade dos sindicatos, a condição totalitária de nossas escolas se não estamos lá combatendo tais vícios.

Como a retirada dos bons, como a omissão, como o abandono, o descaso por parte dos bons e virtuosos poderá resgatar as instituições?

Não poderá.

A menos que as instituições sejam essencialmente más devemos resgata-las.

Agora não podem as instituições enquanto formas ou estruturas serem essencialmente más. São más ou tornam-se más quando assumem um propósito mal definido por seus membros. São os homens com seus princípios e valores que tornam uma instituição ou estrutura má segundo o fim que lhe é imposto. No entanto estes homens maus só conseguem impor determinado fim a uma instituição porque ninguém se lhes opõem ou a falta de oponentes. Donde esvaziar as instituições equivale sempre a agravar sua condição e a piorar as coisas.

Consertar aqui é sinônimo de inserir-se, questionar, opor-se e dar outro fim.

Não posso deixar de concordar com Platão: "Se você sendo bom retira-se da vida política não deve reclamar que a vida política esteja má. Se os virtuosos retiram-se da arena política como evitar que seja ocupada pelos viciosos? Se você é bom entre na vida política e torne-a boa."
Faço deste meu próprio pensamento.

Ao invés de omitir-me acho melhor lutar, combater, resistir, recuperar.

Por fim considero que o grande problema do abstencionismo é que não esta de acordo com a realidade da vida.

Cuida talvez que as instituições que condena e abandona nada signifiquem ou produzam. No entanto tais instituições continuam a influenciar poderosamente as vidas das pessoas para mal ou para bem. Querendo ou não os parlamentos produzem leis e as leis afetam as vidas de milhões e milhões de seres humanos. O anarquismo abstencionista 'encara' as instituições como se não existissem, convencido de que o mundo seria bem melhor sem elas. Problema é que esta vontade ou desejo não faz com que as instituições deixem de existir e de operar.

Negar a existência do Parlamento não o torna inexistente e muito menos inoperante.

Nem parece que o abstencionismo esteva em vias de aniquilar as instituições e alterar radicalmente a realidade. E elas continuam a operar de tal modo que ele parece totalmente inócuo.

Diante da realidade que temos não seria melhor que tais pessoas somassem forças com os socialistas libertários ou democráticos e atacassem o sistema em seu coração TOMANDO POSSE DO PARLAMENTO  e alterando-o democraticamente numa perspectiva libertária e socialista? Que dessem suporte aos elementos humanitários que buscam inserir-se naquele orgão burguês e redefini-lo? Que apoiassem as bancadas esquerdistas ou trabalhistas sustentando ou ampliando os direitos dos trabalhadores?

Penso que a participação de tais pessoas faria toda diferença. Como sua omissão faz bastante diferença.

A realidade do parlamento esta ai e penso que a atitude mais realista é aceitar sua existência real, sua influência e inserir-se nele com o intuito de inocular princípios e valores socialistas e libertários. Ao invés de retirar-se e maldizer...

Penso que um anarquista possa ser abstencionista mas jamais impor o abstencionismo como um dogma. Nada mais contraditório e monstruoso do que um dogma anarquista.

Declarar que 'Anarquista não PODE votar.' ou que quem vota não é anarquista parece-me uma perda de sentido ou traição. É sempre possível e permitido sugerir que 'anarquista não deva votar', e discuti-lo numa perspectiva libertária e dialética... agora apresentar os que julgam positivo votar como conspiradores ou adversários parece-me vício legado pelo Comunismo com seu eterno vezo de encarar os dissidentes como malvados... quando os dissidentes, inclusive os liberais, podem muito bem estar honesta e sinceramente enganados.

Estar em oposição ideológica face ou outro não pode equivaler jamais e a te-lo em conta de impuro, traidor, malvado, desonesto ou conspirador. Não podemos confundir seres humanos com pessoas ou ideias. Ideias e teorias bem podemos condenar, pessoas devemos tentar compreender e sempre tolerar. Tratar pessoas como ideias jamais será sinônimo de humanismo.

Diante disto nada mais justo e coerente do que discutir tanto o golpismo quanto o abstencionismo. Que os comunistas ou leninista não ousem discuti-los é perfeitamente compreensível. Que um anarquista bata os pés, cite textos, apele a autoridades e recuse-se a faze-lo é no mínimo estranho. Diante disso como criticar honestamente os comunistas e religiosos?

Ou não é dado ter dogma algum ou é possível ter tantos dogmas quanto se quer e não vejo como possa haver qualquer meio termo aqui. Se há um ou dois dogmas então temos precedentes para outros tantos... neste caso onde é que fica o anarquismo e a tão alardeada liberdade???