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sexta-feira, 22 de setembro de 2023

Garrett surrando o Sardinha ou deslindando a toxidade, não da democracia ou da liberdade, mas do Economicismo ou do ethos burguês.






Em apoio do quanto registramos no artigo precedente reproduzimos abaixo as profundas considerações do ilustre literato português sobre o velho estado religioso ou confessional, sem duvida deteriorado pelo estatismo e absolutismo, em comparação com o um Estado Político de trânsito ou passagem para a treva economicista e portanto contendo os germes que o haviam de fazer enfermar, agonizar e morrer no tempo presente. 

Atentem que a visão acurada de Garret, falecido em 1854, era bem mais acurada que a do Sardinha (Nascido em 1887 - Portanto mais de trinta anos depois.) o qual, preso de estranha paranoia, pouco ou nada presumia do capitalismo ou do mercado e do protestantismo - Exatamente como os neo romanos ou tortodoxos de fancaria, títeres da cultura de morte protestantes ou da sifilização norte americana.

Substituam a expressão 'barões' por 'burgueses' por 'capitalistas' e a atualidade do texto saltara as vistas:

"Frades... Frades... Não, não gosto deles. Como os temos visto neste século, como os conhecemos hoje, não gosto deles e não os quero para nada, moral ou socialmente falando.

No ponto de vista estético porém, o frade faz muita falta...

Nos campos o efeito era ainda maior: Eles caracterizavam aquela paisagem, poetizavam a situação mais prosaica do monte ou vale; e sem tais necessárias e obrigadas figuras aquele painel não é já o mesmo.

Além disso, o convento no povoado e o mosteiro no ermo, amenizavam e davam grandeza a tudo: ELES PROTEGIAM AS ÁRVORES, SANTIFICAVAM AS FONTES e enchiam a terra de poesia e solenidade.

O que não sabem, podem ou querem fazer OS BARÕES AGIOTAS que os substituíram.

É muito mais poético o frade que o barão.

O frade era, até certo ponto, o Dom Quixote da Sociedade antiga.

O barão é, sob quase todos os aspectos, o Sancho Pança da sociedade nova...

O barão é pois USURARIAMENTE revolucionário e revolucionariamente usurário...

Por isso brigamos muito tempo, afinal vencemos nós, e assentimos em que os barões corressem com os frades da terra. No que fizemos uma SANDICE como nunca se fez outra. O BARÃO MORDEU NO FRADE, DEVOROU-O E ESCOUCEOU-NOS A NÓS DEPOIS...

Sim, o frade não nos pode compreender a nós e por isso morreu, e nem nós pudemos compreender o frade, e por isso constituimos esses barões que nos conduzem a morte e fazem morrer.

São a moléstia deste século; são eles e não os jesuítas, a cólera morbus da sociedade atual são os barões. Nosso amigo Eugênio Sue errou feio em seu 'Judeu errante', o qual precisa ser refeito.

Decerto foi o frade que errou primeiro em não querer compreender a nós, a nosso século, a nossas inspirações e inspirações; com que falseou sua posição, isolou-se da vida social e fez de sua morte uma necessidade por assim dizer infalível e sem remédio.

Assustou-se com a liberdade, que era amiga sua, e que o havia de reformar, e associou-se ao despotismo, que de modo algum o amava, senão relaxado e vicioso, para dele servir-se e servido ser.

Nós também erramos em não entender o tolerável erro do frade e em lhe não dar outra direção social, e EVITAR ASSIM OS BARÕES, QUE É O MAIS DANINHO BICHO ROEDOR...

E eu que sou da liberdade e do progresso antes prefiro a oposição dos frades de ontem a dos barões de hoje...

O progresso e a liberdade perdeu, não ganhou.

Quando me lembra tudo isso, quando vejo os conventos em ruínas, os egressos a esmolar pelas ruas e os barões de berlinda, sinto saudade dos frades, não dos frades que foram mas dos que podiam ter vindo a ser."

Não era democracia ou liberdade em si mesma como fim mas, democracia de ocasião, de passagem ou trânsito para o mercado, para o acúmulo irrestrito de bens, para um novo ethos, para uma nova cultura, para uma cultura exógena, para o economicismo. E foi a ruína e transtorno do nosso universo seja ele grego, latino ou medievo - Nem o Rei e menos ainda o Povo ou os cidadãos mas o barão i é o burguês, o patrão ou o empresário > E Sim, este novo mundo saiu muito pior do que os antigos!

Já não há decerto o monstro infame das inquisições, colossalmente inchado ou engordado pelos 'liberais' ingênuos ou safados... Que nem todos os frades eram queimadores de gente (E a maioria não era!) como foram cruéis e insensíveis e assassinos os barões ou patrões do século XIX já na Inglaterra, já na Alemanha e quiçá na própria França...

A figura desse empreendedor santificado pela imprensa moderna. A figura desse empresário sem consciência. A figura do bancário avarento foi historicamente muito mais danosa que a do inquisidor, a do rei ou a dos Revolucionários, ao menos quanto a extensão do poder. Apenas a figura do empreendedor conta com advogados contratados que lhe emprestam as mais róseas tintas, e fica como um macaco maquiado... 

Porém foi ele que poluiu e polui a terra, que exterminou e extermina animais, que aniquilou e aniquila florestas não sem ter feito trabalhar a mulher grávida, o idoso e a criança de seus quatro anos em troca de um mísero naco de pão...

Essa História já foi muito bem escrita e registrada não por Marx, Engels ou Lênin ou ainda por seus embiocados seguidores mas pelo Cristão Charles Dickens - A tinta negra ou vermelha brota do cálamo de Dickens o qual nos revela o feito desses barões que prostituíam nossa democracia e nosso liberalismo puro tal e qual haviam prostituído a fé nos tempos da infeliz reforma protestante...

Sardinha, cego pela ideologia ou pelos amores que dedicava a anglos ou germânicos, não pode percebe-lo, mas percebeu-o o velho Garrett, que lhe dá uma aula.

O frade romano ou ortodoxo lá estava, no quadro ou contexto, do campo e da Vila em comunhão com a mãe natureza, convivendo ou comungando com animais, e árvores, e fontes - A exemplo do seráfico pai S Francisco ou de S Serafim de Sarov... E os defendiam, guardavam e protegiam... Mantendo e conservando aquele ambiente pintado pelo pincel de Millet - Em que ao por do Sol os lavradores dobravam os joelhos sobre a negra terra que os nutria e recitavam a Ave Maria a mãe de seu pobre Deus enquanto dobravam os sinos... 

Havia trabalho duro e fatigante, sim havia. Mas também havia sentido para quem era senhor de seu pequenino torrão, para aquele que em sua choupana era aguardado pela esposa devotada e pelos filhinhos saudosos... Congregados em torno de uma mesa onde havia pão cheiroso tirado do forno, azeite, queijo e vinho. E flores plantadas e torno a pequena casa. E o cão e o gato abanando suas caudas.

Parte deles não era constituída por proprietários ou donos de terra. Havia que se lhes ter dado terra e não movido a cidade. Pois já não há terra para dar... E sequer trabalho nas grandes cidades - Menos ainda trabalho digno. E menos ainda liberdade. E lhe tiraram a esposa - Que hora também trabalha como uma burra! - e os filhinhos (Postos na creche), e as flores, os animais... Tudo enfim. Até que esse homem e essa mulher, pelas mãos do barão ou do burguês, conheceram a angústia e o desespero, uma escravidão oculta ou disfarçada.

Sim, o tempo do Frade era menos ingrato.

Não nos enganemos - Não considero esse modelo ideal ou perfeito, antes muito mesquinho... Porém em comparação com o mundo urbano do assalariado é e era paraíso.

E não adianta dizer ou clamar que o capitalismo que pinto não é mais o mesmo, que transformou-se também e tornou-se mais humano e suportável, e desejável em tempos em que um governo inspirado. Tal devemos agradecer aos anarquistas, fabianistas, trabalhistas, católicos, etc que moveram céus e terras para criar uma legislação protetiva que jamais cessou de ser ameaçada pelos economicistas ou capitalistas.

Nem a concederam de bom grado, nem jamais se conformaram com ela.

Daí a atividade frenética do governo anterior, liberal economicista ou capitalista - Não fascista como quer a esquerda pós modernista desmiolada. - no sentido de destruir essa legislação e fazer o Brasil recuar ao século XIX, inglês, por sinal... Quadro social a respeito de que, diziam alguns analistas, era ainda mais cruel do que a escravidão negra em nosso país. Pois o cenário urbano na Inglaterra e na Alemanha do século XIX foi monstruoso... E o ideal economicista jamais se desprendeu dele, clamando a todo instante pela ilimitação ou pela restrição do Estado, ainda quando democrático ou popular.

Para as populações rurais de toda Europa foi o liberalismo econômico autêntica porta sobre o qual bem se poderiam fixar as memoráveis palavras: "Vós que aqui entrais perdei toda esperança de sair." 

Não, o frade jamais fora tão cruel e mesquinho quanto o patrão e os mosteiros até ofereciam escolas, enfermarias, dispensários, asilos, etc O que jamais se viu ser oferecido em larga escala pelos maravilhosos empreendedores do século XIX.

Parece-me, como a Garrett, necessária, a passagem do regime confessional ou credal ao político e laicista, de modo algum a passagem ou trânsito do Estado político ao estado Econômico, empresarial ou economicista - Como já é abertamente defendido por certos panfletários ANCAP oriundos dos EUA. No entanto se tal passagem, do puramente político ao econômico corresponde a um fenômeno inelutável, então laboramos em erro grave e devemos reconhecer que os conservadores totais ou ''católicos" atidos ao modelo medieval estariam certos. 

Pois nossa democracia, a democracia que queremos não é a dos EUA ou da Inglaterra por não ser mínima quanto a qualquer coisa mas ampla (Dentro do espaço do Bem Comum) o suficiente para proteger o trabalhador, a ecologia, a natureza, as plantas, os animais, o mar, o solo, etc Nosso projeto é tão amplo quanto ao do frade de outrora uma vez que nosso olhar político e cidadão se inspira nos mesmos valores. 





sábado, 21 de julho de 2018

A Igreja e o espantalho do anti abortismo II ou repisando velhos erros...


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QUANTAS VEZES VOCÊ FEZ ISTO???




Agora que fazem esses Católicos acomodados, superficiais e insensíveis matriculados na escola do farisaísmo???

Voltando as costas para seu dever social e buscando encontrar soluções concretas para o aborto - Capazes de impedir sua descriminalização - assume a fatuidade da ideologia protestante e (pasmem!) transplantam o anti abortismo e outros temas morais (o que é muito pior) para o terreno da política EM DETRIMENTO DA DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA, a qual, como levianos, menosprezam quando não ignoram. Tristia tempora! Tristia mores!

E põem-se a gritar como pegas ao cio: Não vote neste candidato porque é a favor do aborto!!!

Que temos a dizer diante disto.

Certamente que todo humanista, quanto mais um Cristão, se oporá ao aborto e pronunciar-se-a em favor da vida e sua dignidade. Não em favor da vida intra uterina apenas - seria uma distorção da concepção Católica de existência - mas em favor da vida infantil, juvenil, adulta, madura, idosa e sob diversas outras circunstâncias que exigem uma proteção por parte da Sociedade. A Comunidade deve proteger integralmente a vida, do começo ao fim. A solidariedade impõem-se como algo continuo e não é possível ou coerente que o homem, oponha-se a imolação de fetos e apoie e imolação diária de crianças, jovens e adultos face a miséria e a ignorância.

No entanto quando dizemos que o Cristão se oporá ao aborto devo dizer que também se oporá a todas as condições sociais que favorecem-no, e assim a exploração econômica, a injustiça social, a pobreza extrema, ao analfabetismo, etc Somente dentro de um contesto mais amplo o anti abortismo faz algum sentido.

Além disto como já dissemos, buscará ele, a medida de suas posses, solidarizar-se com as pessoas vulneráveis a esta situação. Já adotando, apadrinhando, socorrendo ou mantendo orfanatos e abrigos. Então terá idoneidade para críticas ou poderá começar a falar. Após ter cumprido seu dever... ao invés de emitir discursos vãos!

Por fim este homem, acima de tudo, assumirá tantos quantos filhos tiver, os valorizará, assumirá e cuidará deles. Mesmo que desligado da mãe de seus filhos estará sempre disposto a ajuda-la financeiramente ou pessoalmente, pois de seu filho não se pode desligar. E saberá apoiar filhas, sobrinhas, afilhadas, etc ameaçadas por semelhante risco. Ele não favorecerá esta prática infame em sua família ou círculo de amizades. Não abortará sentido de jamais consentir que sua companheira aborte. Buscará dissuadir qualquer mulher disposta a faze-lo não apenas por meio de argumentos, mas concedendo-lhe proteção e apoio. Ele viverá o anti abortismo e o colocará em prática na própria vida.

Pois não é incomum entre políticos e palradores destes tempos, condenar publicamente este ou aquele vício e depois, po-lo em prática as ocultas. Assim demagogos que após terem denunciado o abortismo a cabo de anos seguidos, pressionaram a jovem amante a abortar!

Portanto ser Cristão não significa condenar mulheres pobres ou exigir que sema punidas e penalizadas sem que a condição delas seja levada em conta e menos ainda berrar contra a legalização do aborto, mas opor-se ao aborto com a vida. Abster-se de po-lo em prática ou de favorece-lo através de suas atitudes. Isto sim é ser anti abortista!

Porque o lugar da moralidade é a vida privada.

Enquanto que a política diz respeito a coisa pública.

Portanto se alguém aborta ou não ou se apoia o aborto ou não, isto não tem relação concreta com a coisa pública e comum.

Claro que a legalização ou o financiamento público do aborto são temos políticos, que no entanto derivam de situações sociais.

Opor-se a legalização ou descriminalização do aborto irrestrito não nos deve impedir de votar ou de apoiar um político simplesmente porque é a favor desta pauta. Uma análise deste tipo pode induzir-nos a erros fatais devido a sua tacanhice. O apoio a um político deve ter por base uma análise sobre o conjunto de seus propostas e não uma opção isolada, ainda que equivocada.

Teoricamente o Fuherer de S Paulo, Geraldo Alckmin, afetando um Catolicismo aparente, que folga opor-se a Doutrina social da Igreja, declara opor-se a legalização do aborto. Devemos portanto apoiar um tal sujeito ou votar nele? Observemos a situação tanto mais de perto. Este cidadão confuso e desorientado, não apenas pertence a um partido cujo programa é de inspiração neo liberal ou capitalista como assume esta pauta neo liberal, de modo algum conforme a Doutrina Social da Igreja. Em conformidade com seu ponto de vista, o citado candidato pretende aprovar a Reforma da Previdência assim que assumir a presidência do país.

O que quero que o leitor perceba é que este homem adota soluções incompatíveis face a tradição social do Catolicismo. Afeta ser anti abortista para granjear votos. Mas esta disposto a executar uma reforma,- dentre tantas e tantas outras - destinada a potencializar situações de miséria e indignidade, que na base acabarão favorecendo situações de aborto!!! Com um discurso hipócrita e um falso moralismo, declara opor-se ao aborto. Por meio de uma política neo liberal todavia, acabará estimulando este crime.

É antiga a constatação de que o Capitalismo ou liberalismo econômico - e não seu sucessor o Comunismo - destrói a família e a moral tradicional pena base. Todo conservador sabia-o por intuição desde os albores do décimo nono século. Verificou-o, o Católico Le Play, após exaustivas investigações, cerca de 1850. O Comunismo tem o mérito de ser sincero e de combater abertamente a organização familiar costumeira - que os anti abortistas alegam amar. O Capitalismo destrói-as sútil ou sorrateiramente, solapando toda a moralidade convencional ou como dizia Bernard de Mandaville vendendo, negociando e promovendo diversas formas de vícios. Foi a criação do modelo fabril pela Revolução industrial - apoiada pelos protestantes - que separou pai, mãe e filhos; assestando duro golpe nas famílias, além de afasta-las do convívio com o mundo natural.

Tudo isto é obra do liberalismo, ideologia que inspirou os programas de diversos partidos políticos nos quais prolifera um discurso anti abortista ou puritano - incoerente e inconsequente como tudo que é protestante. É um discurso falacioso e aparente, na medida em que o mesmo liberalismo implementa e tem implementado, cada vez mais situações de miséria, injustiça e alienação. Mas não são os Comunistas que dizem tais coisas??? Não, quem constatou semelhante situação foi o escritor Charles Dickens, e além dele St Simon, Fourier, Owen, Ruskin, Morris, Carlyle... além dos insuspeitos Chesterton e Belloc... E Hérzen, Lavrov, Sorel... O Bispo Von Keteller na Alemanha... Os Católicos sociais da França a partir de Villeneuve de Bargemont, Lammenais e Buchez... Henry George nos EUA... A miséria trazida e promovida pelo capitalismo foi uma constatação empírica geral, como a imoralidade potencializada por este novo mundo: Alcoolismo, consumo de drogas, prostituição... Tudo quando os neo Católicos moralistas afetam detestar foi estimulado pelo Capitalismo.

Portanto como combater o aborto e as demais formas de imoralidade apoiando um sistema materialista e economicista que solapa as bases e fundamentos da moral - É DAR UM TIRO NO PÉ!!! Admitem-no os conservadores ou meio reacionários ingleses como Russel Kirk e Scruton, além de John Gray. O capitalismo destrói as redes tradicionais de solidariedade ou apoio, nas quais nossos ancestrais encontravam acolhida, e lança-o isolado e só num torvelinho de forças econômicas. E assim se vão todos os sonhos, dirá T S Elliot. E também toda moralidade antiga... A qual desaba e vem abaixo, porque lhe falta o necessário substrato real ou material. Não se fala de Deus ou de religião a quem tem a barriga vazia, já dizia o Escolástico!

A moralidade Católica depende de bases concretas ou materiais da qual a pessoa fica privada desde que posta a merce do Capitalismo e o resultado disto é uma sociedade abortista... E ao apoiar um candidato liberal ou neo liberal você, Cristão, ajudou a edifica-la, inda que ludibriado por um falso discurso!!!

Diante disto que solução buscar???

Soluções políticas para problemas comuns. Soluções sociais para problemas sociais.

E temos um excelente guia, temos um padrão, temos um critério, na doutrina social da igreja, que é um desenvolvimento da nossa tradição social e da nossa consciência Ética.

É a doutrina social da igreja e não a qualquer elemento isolado de moralidade que devemos reportar nossa análise política, examinando a proposta de cada candidato em seu conjunto, no que tem de propriamente política ou social. É a doutrina social da Igreja que o Católico deve tomar por base ao analisar qualquer programa partidário ou proposta pessoal.

Claro e evidente que no Brasil não daremos com uma absorção integral desta doutrina por parte de qualquer candidato e menos ainda de qualquer partido. Agora quem são os responsáveis por semelhante estado de coisas senão estes neo Católicos filiados a partidos liberais ou neo liberais??? Esses elementos superficiais e levianos que ignoram os ensinamentos sociais da igreja??? E que ousam posar como Católicos nos palanques...

Diante de tal fato deve o Católico guiar-se por aproximação. Votará em candidatos cujas propostas melhor contemplem as exigências da doutrina social da igreja. Grosso modo elegerá candidatos que defendam os direitos do trabalhador, que deem respaldo a promoção humana e que estejam comprometidos com a justiça em sua dimensão social.

Diante disto apoiará partidos socialistas ou compactuará com o socialismo?

De fato, temos de dizer que nem tudo no socialismo é mau e que ele não é mau em seu conjunto ou totalidade - Ao contrário da avareza, principal 'virtude' encarnada pelo capitalismo, a qual é um pecado. - mas apenas quanto a certos aspectos filosóficos, como o naturalismo, ou (Em certos casos) o materialismo, o ateísmo, a negação da propriedade pessoal, etc Aos quais o Católico obviamente não aderirá. No mais não se trata de filiar-se a tais partidos ou mesmo de filiar-se a ele, mas de reconhecer que a plataforma deles esta infinitamente mais próxima da doutrina social da igreja do que a doutrina liberal ou neo liberal. Esta é condenada em sua base mesma e fulminada em seus princípios. Aquela apenas quanto a certos aspectos.

Portanto não pode nem deve o bom Católico furtar-se de apoiar uma política trabalhista ou justicionista, sob a alegação - especiosa e vã - de que os socialistas ou mesmo os comunistas apoiam-na. A estupidez aqui seria tanta como opor-se a um projeto destinado a coibir a pedofilia ou a disciplinar a entrada de muçulmanos na República pelo simples fato de ser ele apoiado pelos socialistas. A partir deste tipo acrítico e imbecil de oposição chegamos aos mais monstruosos absurdos.

Toda e qualquer proposta fundamentada na Doutrina social da Igreja merece total apoio dos Cristãos Católicos inda que parta de seus adversários. Não pode o Católico, desamparar o direitos dos trabalhadores ou os serviços de assistência social, sob a alegação de que os socialistas ou comunistas são favoráveis a eles porque a doutrina da igreja também o é, e terminantemente! Os fanáticos cooptados pelo protestantismo e poluídos pelo liberalismo economicista podem não gostar, mesmo assim há pontos comuns, e diversos, entre a doutrina social da Igreja e o socialismo naturalista ou mesmo o comunismo. Assim a necessidade da intervenção por parte do estado ou da sociedade nos domínios da produção econômica, visando proteger os operários, campesinos, etc De fato a igreja jamais engoliu os paradigmas do liberalismo clássico.

Pode e deve portanto o Católico, com a consciência pura diante de Jesus Cristo e firmado na tradição dos Santos Padres e dos escolásticos votar em candidatos que pertençam a partidos socialistas moderados, mesmo quando sejam abortistas ou estejam em oposição a moralidade comum. Isto não os torna apoiantes do aborto ou da dita imoralidade. Não os torna naturalistas e não faz deles comunistas. Apenas estão buscando a melhor saída política para problemas políticos e conforme o espírito da igreja. Que até 1937, na Alemanha, apoiou o nazismo sem tornar-se por assim dizer nazista.


O melhor e mais seguro critério, em termos Católicos, para analisar o conjunto de qualquer discurso político, é e sempre será a doutrina social da Igreja e jamais qualquer elemento isolado em termos de moralidade. Não podem os Católicos por em prática o aborto ou se abortistas. Votar em políticos abortistas, desde que haja razão suficiente para tanto, podem faze-lo tranquilamente.


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OLHA AI QUEM PODE LEVANTAR O DEDO E CRITICAR!!!





domingo, 15 de julho de 2018

Semiologia ou Semiótica do anarquismo...

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Entre o anarquismo e o comunismo há uma diferença significativa - alias há várias rsrsrsrs - no sentido de que este sempre se mostrou mais sistemático, orgânico e compreensível, desenvolvendo-se numa linha mais ou menos coerente. Marx e Engels, e especialmente este último, foram pensadores do mais alto quilate, ao menos no plano da economia (E sintetizadores no mínimo interessantes quanto no plano da Sociologia). Julgo que a nível de anarquismo apenas Kropotkin aproxime-se deles, apresentando um padrão de coerência e clareza que não encontramos num Proudhon ou num Bakunin.

Ademais, é notória e perceptível a influência venenosa da metafísica anti estatista francófona e do individualismo alemão mesmo sobre um teórico eslavo como Bakunin. Mesmo porque, segundo lemos em diversas publicações, as constatações de Bakunin não parecem ter partido de qualquer fonte russa ou eslava, mas de Proudhon e mesmo de Max Stirner, e os atuais anarquistas ou anarcóides, mesmo quando afetam socialismo, parecem não fugir a esta regra. Max Stirner parece estar nas bocas de muitos deles, o que nos conduziria a Bastiat, Rand, Rothbart e ao que chama de libertarianismo Norte Americano, e aqui já demos a volta ao parafuso, pois nos encontramos face ao adversário número um do socialismo ou da sociedade política.

Seja como for temos que Bakunin foi capaz de corrigir-se numa perspectiva cada vez mais social e de chegar ao velho conceito de democracia direta quiçá por influência da tradição Nairodinik ou populista da Rússia - forte pelos idos de 1860 - quiçá por ter tido contado com qualquer tradição Suíça relativa a democracia direta ou ao 'landsgemeine', conservada em alguns cantões Católicos. O fato é que Bakunin caso não tenha endossado, criou o que mais tarde veio a ser chamado anarquismo eslavo, de que Kropotkin foi o maior teórico. E devemos compreender que este anarquismo esta em oposição ao anarquismo de matriz francesa - derivado de mais de Voltaire do que de Rousseau - que desenvolvendo-se nos EUA e incorporando elementos de origem protestante ou alemã - via Max Stirner - deu origem ao já citado libertarianismo dos Ancap.

De um modo ou de outro os anarquistas jamais souberam manter um saudável equilíbrio em suas afirmações no sentido de apresentar - o mínimo que se esperaria deles - o capital tão opressor quanto o estado, e fazer guerra a ambos. Já em Bakunin, detectamos este discurso segundo o qual a opressão exercida pelo que chamam Estado é mais forte ou tirânica do que a exercida pelo capital ou pelo reino do dinheiro. Aqui a tese contrário, sustentada pelos marxistas, parece ser muito mais consistente e apoiada pelos fatos tomados a História.

Fato é que nossos anarquistas jamais romperam com este padrão de discurso, mais anti estatal do que anti capitalista e que ele só podia desembocar na tragédia Ancap - na qual o Estado continua sendo o vilão e o capital assume o papel de herói...

Queremos salientar antes de tudo qual o fim de tais discursos numa linha de coerência...

O anarquismo ocidental ou franco estado unidense, digamos assim, jamais negou Max Stirner, embora este - não Bakunin e menos Kropotkin - tenha negado, por primeira vez no curso da História, a Sociedade, a qual opõem a estranha noção de indivíduo isolado, quiçá tomada a J J Rousseau - que mais tarde afirmará a noção de contrato, em sua dimensão social - e que o Bakunin mais velho ou refletido, dirá ser tão falsa e inconsistente quanto a ideia de Deus (Bakunin era ateu virulento - a ponto de assustar Marx e Engels).

O anarquismo oriental, russo ou eslavo, quiçá devido, as mesmas fontes culturais que inspiraram a Nairodnaya, teve como ponto de inflexão, sua marcada consciência social, e a elaboração, como já mencionamos, pelo próprio Bakunin, de uma teoria de democracia direta bastante próxima da velha democracia grega - que girando em torno da cidade estado é municipalista - se bem que mais ampla por incluir mulheres e operários, e isto num tempo em que o sufrágio direto não passava de novidade. Isto é o que constatamos apesar das deficiências presentes no vocabulário anarquista, o qual pelas razões acima expostas, não é uniforme ou sistemático, mas sujeito a variações e o que é pior, a interpretações discordantes.

O que nos leva ao problema do significado.

Relativo ao que Bakunin e os militantes de seu tempo teriam querido dizer.

Teriam querido dizer o mesmo que Proudhon ou Stirner? Há quem sustente esta tese...

A pergunta é vital para nossos dias. Dias em que o anarquismo volta a carga ou melhor a propaganda e nos quais assume diversos discursos. Claro que nos Socialistas, que somos igualmente amigos da liberdade, queremos saber até que ponto um Stirner, um Bastiat ou uma Rand estão presentes nesse discurso, uma vez que estamos e queremos continuar distantes de um Mises, de um Fridman ou de um Hayek, com os quais parte considerável deles acaba conciliando-se nos termos finais, devido a ideia segundo a qual o capital é menos insidioso do que o estado e a dominação econômica mais leve do que a estatal.

No terreno de uma social democracia ou de uma inserção parlamentar, temos sempre de ter diante de nós as advertências de Engels, que na verdade remontam a F Lassalle e a 1860 no sentido de que nenhuma aliança ou pacto seja feito com os elementos da burguesia, ou de que levemos a cabo uma política honesta, noutras palavras éticas, sem que nossos princípios sejam sacrificados ou ideais negociados sob quaisquer alegações. Temos de adotar um padrão estrito de coerência ou, caso contrário, como Bakunin, chegaremos aos pés de Maquiavel, o ídolo da política burguesa, e isto será tido em conta de sinceridade, e até mesmo aplaudido...

A política deverá ser suja, e nós nos deveremos sujar ou poluir...

Importa que nós, socialistas honestos, não nos podemos aproximar dos que sustentam um estado mínimo. E de modo algum trabalhar junto com os que pretendem derrubar este estado 'burguês' para estabelecer uma ordem ainda mais burguesa sem a presença do estado. Os socialistas não obteriam vantagem alguma em destruir o estado político e manter a estrutura de produção capitalista, do que resultaria, creem eles uma tipo de opressão ainda mais duro.

Alias não há sequer acordo a respeito do que os anarquistas definem como Estado pelo simples fato de seu modo de se expressar ser confusionista ou inexato, favorecendo um discurso capcioso.

Tomemos o exemplo dos anarquistas brasileiros, daqueles que atuam entre nós no momento presente, i é, em 2018.

Antes de tudo constatamos, apavorados, quão poucos dentre eles estão familiarizados com os escritos de Bakunin e Kropotkin, os quais amiúde, são citados de segunda mão. Muito do que vemos nos círculos anarquistas brasileiros provém da tradição ocidental, franco estado unidense, o que confere um acento demasiado individualista as seus discursos, favorecendo não poucas vezes uma aproximação com minimalistas e Ancaps, aos quais eles, anarquistas, acreditam estar ligados pela mesma causa comum - O fim do estado ou da autoridade. Para qualquer socialista, que demanda antes de tudo por uma relativa igualdade econômica em torno de oportunidades, esta aproximação é inaceitável.

Basta dizer que em tais círculos a presença de Max Stirner não é incomum e a opinião subjacente entre eles - aqui o nó do problema - é que Bakunin e Kropotkin concordam com ele. Ora quem teve a oportunidade de ler um e outro, seja ou não anarquista, sabe que não há acordo e que os russos demandavam por algo muito mais amplo e profundo do que a mera destruição do que chamavam Estado. Afinal tanto Bakunin quanto Kropotkin, ao contrário do individualista alemão, não identificavam o ESTADO com a SOCIEDADE.

"La Sociedade es anterior al individuo y le sobrevive, como la naturaleza. La Sociedade es eterna, como la naturaleza, mas bien, nacida sobre la tierra durará tanto quanto dure nuestra tierra." M Bakunin

Diz ainda mais:

"Al margen de la sociedad, el hombre hubiera sido eternamente un animal salvaje."


O problema dos nossos anarquistas tupiniquins é justamente este: Tendo tomado M Stirner por guia identificam o Estado com a Sociedade, de modo que aniquilando o Estado nada resta além do indivíduo ou de indivíduos isolados, e portanto do caos, daquele caos previsto por Hobbes, em que homens convertem-se em lobos sanguissedentos, pelo simples fato de nada haver além deles...

Concluindo: Eles não leram uma linha de Bakunin ou de Kropotkin e não estão familiarizados com a terminologia conceitual empregada por eles, do contrário saberiam que não há acordo entre ambos e o alemão Max Stirner. Caso esta consciência sempre estivesse viva e presente entre eles jamais teriam se aproximado de alguém como Ayn Rand ou Mises.

Portanto forcejemos para compreender o que Bakunin e Kropotkin, estavam querendo dizer.

Segundo Georges Lefranc 1960 p 164 'Bakunin se pronuncia en favor de la sociedad en contra del estado.' Tornemos a Bakunin:

"Espero que la organizacion de la Sociedad y de la propriedad colectiva o social, se produzca DE ABAJO ARRIBA, por la via de LA LIVRE ASSOCIACION, Y NO DE ARRIBA ABAJO, POR MEDIO DE LA AUTORIDAD, SEA CUAL SEA."Perceba o leitor que Bakunin estabelece algumas relações que não são muito difíceis de entender. Relaciona o movimento de Baixo para Cima e portanto do povo para o 'comando' com a livre associação, a comuna, o município, uma pequena organização social. E da mesma forma relaciona o movimento de Cima para Baixo, i é um comando exercido por UM ou ALGUNS apenas, com a odiada autoridade.


Temos assim que para Bakunin o Estado corresponde ao sistema da autoridade ou do autoritarismo (ele não gaz diferença entre os dois tipos de conceito) ou de um comando exercido por um ou alguns sobre os demais. Claro que tem em mira antes de tudo a monarquia e também das diversas formas de aristocracia e certamente as democracias artificiais... tudo quanto duponha dominação.


Para ele, o inverso de Estado - com seu esquema de autoridade vertical - é a Sociedade. Na comunidade social não há comandantes e comandados ou governantes e governados porque todos os cidadãos são chamados a participar das decisões políticas que digam respeito a vida comum. Aqui o comando é de todos, e portanto horizontal. Importa saber se no esquema de Bakunin o indivíduo pode colocar-se acimada comunidade social ou das decisões comuns? O próprio Bakunin responde, sem qualquer artifício, que não. Que após a discussão e a deliberação comum, aquilo que foi decidido pela maioria converte-se em lei, demandando submissão por parte de todos os membros do grupo ou dos dissidentes, pelo simples fato de que tiveram a oportunidade de argumentar sobre seus pontos de vista e de convencer os demais. A ideia que anima este ponto de vista é bastante clara; e pode ser assim definida: Duas cabeças pensam melhor do que uma... Claro que isto pressupõem todo um trabalho educativo/formativo, Bakunin não o ignora, supõem-no. Ele crê que ao menos quanto as coisas comuns, a deliberação da maioria é sempre mais segura do que a opinião individual. Exceto, é claro quando temos massas incultas, situação que levaria o grupo a oclocracia.


Que temos de novo aqui no esquema de Bakunin - apresentando sob as vestes de Proudhon como anarquia??? Nada além da velha democracia direta ou da policracia - apenas ampliada - posta em prática nas cidades estados da Grécia antiga...


E embora Bakunin repudie o nome, continuamos tendo autoridade, a autoridade comum do grupo, em oposição ao autoritarismo, arbitrário e caprichoso, exercido por monarcas, déspotas, tiranos, senadores, falsos representantes, etc Aqui temos uma autoridade justa porque compartilhada. O que excluí como já dissemos a oposição individual dos dissidentes, o que admitido levaria o grupo a destruição. Os dissidentes, caso se mantenham, inflexíveis - é Bakunin quem o diz - são colocados fora do pacto ou da proteção oferecida pela comunidade, sendo-lhes franqueado o direito de abandona-la, exilando-se a si mesmos e formando uma comunidade a parte, conforme seus pontos de vista. Uma coisa é certa, permanecer na cidade, causado distúrbios não podem. Bakunin sabe qual seria o fim da oposição individual 'assentida' após cada deliberação e por isso desaprova-a. Sua comunidade não pode ser e não é a comunidade de indivíduos isolados porque uma tal comunidade é inexequível. A comunidade se mantém por laços comuns, o que demanda submissão a decisões comuns, as quais são legítimas quando tomadas pelo conjunto dos cidadãos.

Toda argumentação de Bakunin gira em torno disto e então - posta de lado a questão dos meios ou da social democracia - sou tão anarquista quanto ele, por subscrever 'in totum' seu ideal policrático de sociedade.

Kropotkin, como é sabido de todos, levou ainda mais adiante o princípio da legítima autoridade exercida comunitariamente por uma determinada sociedade e nada sabia a respeito da 'autonomia' de indivíduos isolados vivendo no seio da comunidade. Neste sentido político e social Bakunin e Kropotkin são verdadeiros socialistas, mormente quando no ideário de ambos a produção econômica é planejada e controlada pelo grupo social tendo em vista suas necessidades concretas e não a ambição e o lucro. Eles não situam o econômico fora do político ou do social i é como algo independente e não conferem ao mercado uma existência separada da comunidade.

Claro que aqui, os alemães de modo geral, em especial os que haviam estudado Hegel não partilhavam nem podiam partilhar das prevenções franco estado unidenses, a respeito do estado existente. E se os comunistas mostraram alguma hesitação, o Manifesto de 1848, com surpreendente lucidez, refere a busca pelo sufrágio universal como parte da luta comunista. E Engels, retomando este viés em 1895, admite que Lassalle, tomou aquele ideal e levou-o adiante, até chegar-mos a eleição de Bebel e ao programa de Gotha em 1875. E embora Marx tenha demonstrado alguma resistência na 'Crítica...' especialmente quanto ao caráter nacional do partido socialista alemão, do qual desconfiava. Seja como for, segundo sua filha Eleanor, pouco antes de morrer aderiu aquela solução, e mais ainda Engels, até morrer...

Em determinado momento os alemães, ao contrário dos anarquistas, concluíram pela estrutura neutra do estado recém cooptado pela burguesia e pela possibilidade de, através do sufrágio universal, inserir-se no parlamento e tomar posse dela, desmontando-a por dentro e transformando-a, a longo prazo, na própria 'ditadura do proletariado'. Claro que o mesmo tipo de raciocínio impõem-se no sentido de transforma-la numa policracia ampliando-a ou aprofundando-a por dentro, ao invés de buscar destrui-la por meio de golpes ou sedições. Claro que aqui já tocamos ao problema da instrumentalidade ou dos meios.

Os anarquistas mantiveram sua metafísica maniqueísta até mesmo quanto as palavras.

Esta percepção tanto mais realista já não diz respeito ao Estado enquanto forma de organização essencialmente opressora, mas a diferentes formas de organização social. Uma autoritária ou dualista na qual Estado e Sociedade/Comunidade são compreendidos como entidades distintas e sobrepostas - o que supõem um indivíduo, um grupo ou um setor comandando os demais. Nós, com Bakunin e Kropotkin avaliamos este tipo de governo como indesejável e ilegítimo. Mas há uma outra concepção segundo a qual o Estado corresponde a própria Sociedade por meio da participação direta de todos os cidadãos nas decisões comuns ou da policracia. Claro que é uma questão de termos ou nomes e que para Bakunin isto é impossível, pelo simples fato dele identificar arbitrariamente o Estado com o autoritarismo ou o comando arbitrário.

A questão aqui não é o estado mas sua relação com a sociedade.

E um repúdio a metafísica francesa anti estatal bem como a terminologia bakuninista, francamente confusão, colocaria a questão em termos de democracia direta ou policracia ou da identificação do estado com a sociedade. Neste sentido a solução elaborada pelos marxistas alemães no curso de sua História, até o fim do século XIX, parece imensamente mais rico do que a insistência furiosa de parte dos anarquistas a respeito das conjurações sucessivamente fracassadas. Claro que tudo isto conduz fatalmente a solução social democrática e que a social democracia, já advertia Engels, pode poluir a si mesma por meio de falsos acordos, pactos, negociatas, etc tornando-se vulnerável e perigosa. É coisa que se deve analisar com prudência noutro artigo.



domingo, 18 de fevereiro de 2018

Em torno de um vídeo - Catolicismo Vs Capitalismo (Youtube)

Esta 'breve' defesa foi elaborada após termos iniciado a leitura da obra 'O século do nada' de Gustado Corção. Obra 'confusionista' em que o polemista atrabiliário busca desmerecer as figuras de grandes Católicos como E Mounnier e J Maritain, tal como já fizera com Tristão de Athayde.

Corção, como Vintila Horia e o Bispo Fulton Sheen, faz parte do seleto grupo dos comunófobos ou dos contra revolucionários do tempo presente, isto é claro numa perspectiva ingênua ou idealista. Afinal também nós, como Católicos, somos contra revolucionários. Não no sentido superficial e tosco de reprimir as revoluções 'a posteriori' ou pelo emprego da força, o que denota falta de inteligência. Mas no sentido realista ou profiláxico que leva a eliminar 'a priori' as potenciais causas que possam ativa-la. Nós somos por evitar as Revolução ou por sofre-las como quem sofre uma penitência (Berdiaeff).

Afinal que são as tais Revoluções senão a morte e dissolução de sociedades que estavam enfermas? Acaso um homem que deseje escapar a morte não procurará o médico, fará dieta, tomará os medicamentos receitados e se submeterá a quaisquer tratamentos, inclusive a uma cirurgia, se necessário for? Assim as Sociedades que aspiram escapar as Revoluções devem reformar-se, necessariamente. Nós somos pelo único caminho viável, a eliminação de todos os abusos que alimentam o espírito revolucionário.

Tornando agora a Corção, Horia e F Sheen, forçoso é declarar que ainda existem Católicos deste talhe no seio da igreja, a qual prestam imenso deserviço, não é claro por serem anti Comunistas, pois é evidente que o Católico não pode ser comunista, já porque não visa os mesmos exatos fins que o comunista, já porque não recorre nem poderia recorrer aos mesmos meios, ao menos de modo geral. Tal não é o caso. Importa declarar em alto e bom som que não basta ser anti comunista. Ser apenas anti comunista é ser parcial, injusto, arbitrário, oportunista e até mesmo canalha. É necessário ser bem mais do que anti comunista, já o veremos!

A bem da verdade a igreja sempre deu combate a todas as formas de naturalismo, exceto, em certa medida - que não vem ao caso agora - ao naturalismo político. Diante disto faz-se mister ser também e igualmente anti Capitalista, opondo-se tanto ao Comunismo quanto ao Liberalismo econômico, mormente quando Sheen, Horia e Corção são obrigados admitir que aquele é fruto ou filho deste. Foram os erros do liberalismo econômico que produziram o Comunismo e as diversas formas, naturalistas, de socialismo. Socialismo não é causa, é efeito, consequência, reação face as mazelas produzidas pelo Capitalismo. Ainda aqui, mais uma vez, faz-se mister ir as causas, as fontes e expor as raízes do mal. Afinal o machado da palavra de Cristo deve ser levado a raiz do mal, para extirpa-la sem maiores contemplações.

Ainda hoje há muito Católico mal orientado ou mesmo mal intencionado que reproduz este tipo de discurso posto em circulação pelo protestantismo. O protestantismo sendo lacaio do capitalismo será necessariamente anti comunista, somente isto e nada mais que isto. Pelo simples fato de que o âmago da questão, como perceberam Maritain e Mellawace, toca a velha questão da fé e das obras, e jamais saí disto. A questão da Doutrina social da Igreja é questão que toca diretamente a questão do homem, da graça, das obras e do mundo material. Não é algo dogmaticamente ocioso ou irrelevante. Daí a necessidade imperiosa do Católico refletir sobre ela numa perspectiva coerente, ao invés de adotar posturas que nada tem de Católicas. Os protestantes negando a regeneração interna do ser humano, renunciaram a possibilidade de transformar a Sociedade dos homens. O Catolicismo não pode renunciar a este ideal ético sem renunciar a si mesmo...

A arenga não é ociosa uma vez que Corção, ao contrário da quase totalidade dos neo Católicos, mergulhados na ignorância e no conformismo, conhecia detalhadamente o que chamamos - e ele também - Catolicismo social. Alias o próprio Corção busca traçar a genealogia deste movimento tão importante para a consciência Católica, e chega a Adolphe Thery, Bourgemont, Villermé, Buchez, Ozanam - Cf 'O século do nada' Record p 146 sgs - Albert de Mun, Le Play, Leon Harmel, La Tuor du Pin, etc quanto a França, e a Ketteler, Manning, Gibbons, Decurtins, Pottier, Verhaegen, etc no exterior. Temos outras narrativas preciosas - A de Luiz Francisco F de Sousa (Socialismo uma utopia Cristã), a de Francisco Nitti (Socialismo Católico), a de Brunetière, a de Guyau, a de Laloup Nelis - e outros tantos nomes como os de Mably, Morelly, Meignam, Lammenais, Bloy... Ireland... Wietling... De Amicis, Nitti... Alias o nome de Bloy é importante pelo simples fato deste personagem, citado por Corção no frontispício da referida obra, estar relacionado com Berdiaeff, Maritain, Mounnier e outros indevidamente incriminados pelo panfletário brasileiro.

Corção tem razão contra os comunistas, e até mesmo Polanyi e Hobsbaw o reconhecem - A igreja não deixou de atuar contra as forças tenebrosas do Capitalismo emergente, no entanto entre suas fileiras haviam dois tipos de mentalidades, as quais encaravam o problema da miséria de forma bem distinta. A primeira linha de pensamento, segundo a tradição de S Vicente de Paulo - o qual vivera no século XVII, num contexto tradicional e não num contexto capitalista -  situava a questão na esfera da caridade, da assistência ou do que chamaríamos hoje 'paternalismo'. Esta corrente, representada por Ozanam, incorporava não poucas vezes um conceito formalista de propriedade, associado a uma abordagem voluntarista (relacionado com o próprio conceito de caridade) e a um certo receio face a um estado interventor.

Crucial declarar que o ponto de vista acalentado por este grupo não está de acordo com a doutrina comum aos padres da igreja e menos ainda com o ensino corrente da escolástica, uma vez que seus membros ignoravam supinamente os ensinamentos de Tomás de Aquino. O estudo da obra de Tomás de Aquino só viria a ser sistematicamente retomado sob os auspícios de Leão XIII pelos idos de 188

Curioso observar que um estudioso brasileiro dedicado ao tomismo, o profo Jorge Boaventura, falecido em idade provecta na última década do século passado, após ter publicado inúmeras obras de polêmica contra os Marxistas - editadas pela Biblioteca do exército - chegou a conclusão, alguns anos antes de morrer, que o ensinamento de Tomás de Aquino era sem sombra de dúvida socialista ou ao menos incompatível com o que chamamos liberalismo econômico, o que alias sabe a obviedade. A conclusão a que chegou este pensador honesto e sincero, produziu, aquele tempo, imensa consternação entre os católicos incoerentes e protestantizados, os quais chegaram a declarar que o professor Boaventura estava caducando ou esclerosado. A bem da verdade ele limitou-se a constatar o que o grande Cardeal Mercier de Malines (+ 1926) e seu sucessor Von Royer, haviam constatado há muito: Que entre o ensinamento social da Igreja e as pretensões do liberalismo econômico há uma abismo intransponível e que por ser a igreja anti comunista não pode ser menos anti capitalista ou anti liberal.

Alias por qualquer outra via que se tome, chega-se sempre a mesmíssima conclusão. Veja que o Pe Hurtado ingressou nas fileiras do Catolicismo social a partir da leitura das obras de D Columba Marmion, o que aconteceu comigo mesmo, embora no meu caso ja tivesse lido os padres da Igreja. A leitura de Marx ou de qualquer ideólogo Comunista foi absolutamente desnecessária para a maior parte dos Católicos que perceberam a antinomia - Catolicismo - Capitalismo. Todos os grandes eclesiólogos e cristologistas da Católicos são obrigados a considerar a comunhão dos santos em seu vínculo, e a insistir sobre os laços de fraternidade, solidariedade, alteridade... existentes entre aqueles que são membros de um só e mesmo corpo, chegando a doutrina do amor, da justiça e das obras...  A ilação teológica conduz o Católico, necessariamente, aos braços do fraternalismo... em oposição ao individualismo e ao sistema econômico alimentado por ele. O próprio M Weber não pode deixar de compreender tudo isto, embora estivesse fora da igreja... As premissas do solidarismo Católico já estão em Sertillanges, K Adam ou qualquer outro grande teólogo que tenha buscado deslindar a vida íntima da Igreja.
 
COMO OS CATÓLICOS PROFESSAM UM IDEAL COMUNITÁRIO DE SALVAÇÃO, deduzem uma economia solidária ou humana. Como os protestantes afirmam uma salvação individual ou egoísta, deduzem uma economia individualista, marcada pela rivalidade ou pela concorrência.

Mas tomemos agora a segunda via de pensamento percorrida pelo Catolicismo social.

A qual reconhece que o sistema economicista liberal tem sido produtor de uma ordem social injusta, e portanto incompatível com os ensinamentos éticos do Catolicismo.

A importância desta constatação é amplamente fecunda. Pois caso situemos a gênese do problema no âmbito da caridade, ou de meros 'conselhos evangélicos', como doar todos os bens aos pobres... sempre poderemos fugir desonestamente a ele, apelando a liberdade... Embora estejamos obrigados em função da lei de Jesus Cristo a amar e a amar concretamente o próximo, sob pena de não sermos Cristãos. Isto no entanto suscitaria uma discussão enorme... E sempre fugiria a realidade e a verdade.

Não se trata aqui de negar ou de reconhecer uma luta ou conflito existente entre as classes sociais pelo simples fato de tal conflito ser oficialmente estimulado pelo credo liberal. O credo liberal, associado a uma visão darwinista da realidade, jamais encara os homens como irmãos, mas sempre como concorrentes ou rivais na 'luta' pela sobrevivência. Apresentando o patrão bem sucedido como apto e o proletário explorado como inapto, quando na verdade - na maior parte dos casos (aqui Max Nordau - Mentiras convencionais de nossa civilização) o primeiro limitou-se a herdar enquanto o outro nada herdou...

Naturalmente que semelhante tipo de ideologia acabaria produzindo uma Sociedade enferma ou em estado de conflito. Aqui a negação da existência do conflito exigiria do Católico o sacrifício de sua honestidade. Esta ele numa Sociedade em estado de conflito. O conflito é real, é histórico e independe da vontade do Católico - é dado ou fato empírico irredutível a vontade. E a honestidade exige que o Católico, como Berdiaeff fez, reconheça a existência do conflito.

Nisto o Cristão não se distingue do Comunista e sequer podería distinguir-se dele, exceto se viva numa sociedade tradicional ainda não infectada pelo virus do Laisez faire... Do contrário estará situado numa Sociedade dividida, pelo simples fato de uns explorarem outros ou viverem as custas do trabalho alheio e não do próprio. A existência de opressores e oprimidos é concreta e não produto de nossa imaginação!

Assim a questão posta, ao Católico e ao Comunista, não é de fato mas de valor.

Como o Católico avalia este conflito implementado e estimulado pelas forças Capitalistas de produção ou por seu éthos???

O Comunista dirá que o conflito é o motor da História e que portanto tal situação deverá ser intensificada. Ele aplaudirá e estimulará todas as situações de conflito, acompanhando a dinâmica do liberalismo econômico em seu desenrolar e 'excitando' os justos rancores do proletariado, com o objetivo de produzir uma consciência de classe estribada muitas vezes num ódio feroz.

Agora qual o posicionamento do Cristão???

Eis uma pergunta que é crucial e que toca ao âmago do problema!

Quanto a negar ou ocultar o conflito social, já vimos que não é uma solução honesta.

A outra postura, igualmente desonesta, consiste em exigir que ambas as partes, patrões e operários, façam as pazes e vivam em harmônia sem estipular quais sejam as condições em que tal convivência se dará. Pois aqui exigir a paz e a conciliação equivale a ordenar que os operários se conformem com sua situação, se resignem, e se deixem explorar passivamente como sequer uma ovelha procede com relação ao lobo, porque até mesmo a ovelha foge...

Usar o mandamento sagrado do amor com o objetivo de cimentar uma situação de injustiça é, permitam-me dizer sacrílego, senão diabólico.

Antes do amor, apresentam-se as exigências da justiça, e ninguém, nem mesmo a mãe igreja, a qual deve ser tão justa quanto seu esposo e mestre, pode ordenar a seus filhos que sofram injustiça! Antes é grave dever dela eliminar as situações de injustiça, de modo a suprimir o conflito e evitar, como já foi dito, a catástrofe da revolução, desejada por anarquistas e comunistas.

Nivelar a vítima com o agressor é e será sempre uma atitude iníqua. Por isso a voz da igreja deve se dirigir não aos proletários com o objetivo de conte-los ou apazigua-los mas aos ricos e poderosos.

Neste caso que deve fazer ela?


Simples - Conter, por força de sua lei a parte agressora ou opressora, advertindo-a a respeito de seus deveres e obrigações.

Numa situação em que os patrões exploram e oprimem os operários o único caminho a ser seguido é proibir aqueles dentre os patrões que se declaram Católicos, de explorar seus operários, sem sem importar com a praxis vigente entre os acatólicos sejam ateus ou protestantes, no caso subservientes as flutuações do deus Mercado.

O Católico tem obrigações sociais e econômicas que lhe são impostas pela doutrina social da Igreja - como o pagamento do salário família e de todos os demais direitos trabalhistas mesmo quando não tenham sido sacramentados pela lei - e as quais não pode fugir sob pena de excomunhão, devendo de fato ser posto fora da igreja caso teime em seguir as regras assentes pelo liberalismo econômico.
Tal o dever dos Bispos e clérigos, fazer valer a doutrina social da igreja e aliviar a situação do povo de Jesus Cristo. A menos que a doutrina social da igreja não passe de letra morta ou de algo para 'inglês ver' como insinuam os comunistas, o que seria insultuoso para a igreja - ter leis e não leva-las a sério. Agora se houve ou houver acomodação, é resultado da falta de fé...

A Igreja tem tradições e leis e elas consistem em reprimir a avareza, a cobiça, o amor as riquezas materiais... a exemplo do que era posto em prática e comumente executado por um S Antonio de Pádua, cuja defesa dos pobres e miseráveis face aos banqueiros é bastante conhecida de todos. Tal o modelo a ser seguido. Não Mises, Fridmann, Hayek e outros ateus que para a igreja nada são mas Asterius, Crisóstomo, Basílio, Antonio, etc os quais são nossos maiores e nossos refenciais.

Ora esta questão da justiça foi reconhecida e posta em relevo pelos Bispos alemães congregados em sínodo sobre a presidência de Immanuel Von Ketteler, Arcebispo de Maguncia, em 1848 ou seja no mesmo ano em que Marx publicava o seu manifesto ultrafamoso. Agora que diziam os Bispos, dignos representantes de toda uma tradição muito mais antiga que o Marxismo? Reconheceram publicamente a injustiça inerente ao sistema Capitalista de produção, e apontaram intrepidamente os fatores responsáveis por um semelhante estado de coisas -

  • O Caráter anti ético do economicismo.
  • A desvinculação da propriedade face a sua função social.
  • A recusa do estado em interferir (Dogma basilar do liberalismo econômico) e
  • A destruição das corporações medievais por uma legislação inspirada dos novos princípios do liberalismo.

Alias estes dois fatores, em especial o último foram salientados igualmente, por Leão XIII na Rerum Novarum, reconhecendo o chefe da igreja romana, a necessidade do estado interferir em favor dos operários em diversas situações, o que contraria, como já foi dito, a doutrina liberal da não intervenção ou da intangibilidade do Mercado.

Foi o ponto de partida para uma tomada de consciência ainda maior por parte dos Católicos mais dedicados. Embora a reação continuasse sendo desproporcional... A própria política nos países Católicos era dirigida por acatólicos, em sua maior parte alinhados com a ideologia liberal. Os próprios positivistas e cientificistas, após a morte de Augusto Comte e sob a direção de Litreé, tornaram-se subservientes face aos interesses do capital e buscaram 'modernizar' as Sociedades Católicas introduzindo nelas o modo capitalista de produção. Positivistas e liberais nutriam não menos horror que os comunistas a gente do campo e aos modelos tradicionais de organização social. O ideal Católico era considerado sempre ultrapassado quer fosse monarquista ou social... E o liberalismo, especialmente sob o viés econômico encarado como progressista.

O pior no entanto era a existência de um imenso número de Católicos formais e alienados. Os quais nada sabiam sobre a doutrina social da Igreja ou julgavam-na ociosa, raciocinando, é claro, como protestantes. O fundo do poço, como ainda hoje, eram os Católicos que acreditavam ser possível ser Cristão e Capitalista ou liberal economicista ao mesmo tempo, havendo dentre eles, inclusive, os oportunistas, que clamavam contra o comunismo anti Cristão enquanto cobiçavam por oprimir seus irmãos em Jesus Cristo membros do mesmo corpo místico. Já o Visconde de Inhomirim fustigava esses Católicos de fancaria que haviam compactuado com a chaga da escravidão. Eliminada a escravidão esta ralé de solifideistas pos-se logo em sintonia com o Mercado - Hora de contratar e oprimir imigrantes italianos ou de explorar a mão de obra nordestina corrida pela seca de sua terra Natal. Esses eram os principais problemas da igreja aquele tempo... E como nem todo Bispo ou prelado tinha virilidade suficiente para 'encarar o problema de frente'... A igreja era constantemente descrita por seus opositores socialistas, como uma instituição hipócrita. Reconhecemos que nem sempre tem sido regida por homens de valor, para cada Ambrósio, Atanásio ou Teodoreto há mil acomodados...

Felizmente, cerca de quarenta anos após o Sínodo presidido por Ketteler ter feito suas objeções ao liberalismo, Leão XIII publicou a já citada Encíclica, em sob a perspectiva tomista. E houve quem o levasse bastante a sério na Bélgica ou melhor dizendo na Lovaina. Foi nesta Universidade em que sob a presidência de Mercier, Arcebispo de Malines, resgatou-se a doutrina social tomista, centralizada no conceito aristotélico do 'bem comum'. Foi a partir de tais pesquisas que foi sendo formulada a doutrina social da Igreja e os Códigos sociais de Malines, dentre outros documentos. E no mesmo ambiente tomaram corpo o Sillon, a Ação Católica e o Jocismo de Cardjin, para sermos sucintos. Foi todo um florescer de consciência social autenticamente Católica fundamentada na doutrina de Tomás de Aquino, até então completamente ignorada pela corrente rival.


Afinal, teólogo medieval algum, disserta com maior propriedade, em termos de Ética Cristã, a respeito da distinção entre a ordem da caridade, que Aquino relaciona, até certo ponto, com a liberdade humana; e a ordem da justiça, que   Aquino apresenta como de estrita necessidade. Ora Aquino, situa todas estas questões atinentes ao trabalho, a produção de bens, a economia, etc não na ordem da caridade mas na ordem da justiça. E o próprio bem comum é situado por ele nesta ordem de bens, relacionados com a justiça, e portanto, estritamente necessários. Como se vê não é algo voluntário ou desejável, mas algo absolutamente necessário e a ser expresso por meio de leis obrigatórias ao povo de Jesus Cristo.

Desde então, todos os principais expoentes do Catolicismo, a começar por Maritain, tiveram de acompanhar os Dominicanos de Lovaina e Tomás de Aquino. Já não era possível encarar a questão social apenas sob o ponto de vista ou a perspectiva unilateral da caridade e adotar os meios postos por S Vicente de Paulo numa Sociedade tradicional. A situação criada pelo liberalismo econômico - foi bastante bem descrita na Inglaterra por Dickens e na França por Zolá - demandava por novos tipo de reflexão e ação. Era necessário que a Sociedade Católica reassumisse seu autêntico 'modus vivendi', rompendo com o éthos puramente naturalista do economicismo liberal, interferindo positivamente nos setor da economia, implementando a justiça social na mais larga escala possível, investindo na pessoa humana e erradicando a miśeria produzida pela injustiça.

Este programa só será esboçado com absoluta nitidez a partir das primeiras décadas do século XX devido as contribuições de diversos pensadores quais sejam - Bloy, Berdiaeff, Maritain e Mounnier. Tais pensadores constituem as vigas mestras por assim dizer do pensamento social Católico - alias Berdiaeff, é nosso i é Católico Ortodoxo - em construção, e nenhum deles, como veremos, estava sob influxo do marxismo, mas sob influxo da corrente de pensamento tomista e da tradição patrística. Lamentavelmente Corção permaneceu atrelado a primeira corrente de pensamento, delineada na França por Ozanam. Deixando de acompanhar o desenvolvimento suscitado pelos estudos tomistas iniciados na última década do século XIX e as possibilidades descortinadas pela Rerum Novarum... E isto a ponto de chegar a encarar os legatários desta corrente como inovadores influenciados pelo marxismo. Esta errado e basta dizer que estes teóricos estão todos relacionados com o círculo de Leon Bloy e que este estava muito bem a par do que ocorria na Lovaina. Foi um movimento comum, de convergência, fruto da própria consciência Católica voltada para sua tradição mais pura e para suas raízes mais profundas. evidente que hoje, mais do que nunca, precisamos resgatar tudo isto.

A Teologia da Libertação procede em parte doutra cepa. Tem, como os socialismos naturalistas - e Ozanam mesmo o reconhece - uma herança Católica comum, a par de diversos erros. Ao contrário de seus erros, em grande parte de origem protestante, vou insistir sobre os acertos! Não errou ao servir-se de Marx e dos teóricos marxistas com o objetivo de conhecer melhor a realidade produzida pelo Capitalismo e seus mecanismos internos de natureza econômica. Aqui um pouco de Gabriel Le Bras ou de Lallemant faz bem - Marx é um teórico como outro qualquer, podendo ber servir como ferramenta a crítica Católica e mais ainda Max Weber, e outros mais... Alias não foi ele quem produziu a situação que descreve! Materialismo já havia sido posto em circulação há muito tempo, pelos economicistas... A questão é que os adeptos da TL deixaram-se cooptar por certos ideais e métodos propriamente comunistas, além de adotarem um vocábulo de tal modo técnico que afastou-os do povo Católico afeito a um linguajar tradicional com que os comunistas jamais souberam lidar. A TL foi pelo mesmo caminho e cometeu os mesmos erros... Embora houvesse nela um princípio de justiça, como havia um princípio de lealdade entre os feudais.

Seja como for a libertação total da pessoa humana não é, como ordinariamente se crê, assunto relacionado meramente com a ética Católica ou com a doutrina social da igreja, mas assunto relacionado com a soteriologia e a antropologia Católicas exaustivamente debatido na ocasião em que foi levantando o problema da fé e das obras. A simples afirmação, sinergista, segundo a qual as obras são absolutamente necessárias a salvação, já nos encaminha a solução do problema social. Assim a doutrina da igreja visível, da comunhão dos santos e da ressurreição da carne apontam para a mesma perspectiva de uma salvação integral do homem, não quanto a um diabo ou a um inferno, mas quanto o mal e o pecado. A afirmação de uma graça capacitante por parte do Catolicismo não pode deixar de culminar com a elaboração da ideia de uma Redenção integral e portanto de fundamentar a tese da transformação do mundo a luz do Evangelho ou do triunfo da lei de Jesus Cristo numa perspectiva social. Por isso o Catolicismo sempre será um modo de vida ou uma lei, jamais uma fé somente e totalmente separada do mundo material. A fé Católica esta sempre em diálogo com o mundo buscando transforma-lo a luz da Encarnação e ampliar a presença do Cristo. A própria escatologia torna-se otimista e plena de esperança!



sábado, 14 de outubro de 2017

Os custos e benefícios do 'mal estar'

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Se por um lado não somos daqueles que se opõem as Revoluções 'a posteriori' advogando a repressão, por outro também não somos daqueles que aplaudem-nas entusiasticamente acreditando que sejam as vigas mestras da civilização. Não, não somos daqueles embiocados que recebem a Revolução como uma espécie de penitência religiosa. Penitência social ah isto é e portanto algo a ser evitado por meio do planejamento efetivo.

A 'profilaxia' revolucionária exige reformas sociais.

São portanto os conservadores empedernidos, inimigos das reformar, que promovem, inconscientemente, a Revolução.

Tanto mais uma Sociedade foge as reformas de que precisa e tanto mais aproxima-se de uma solução final em termos de Revolução.

O dilema esta posto - Reforma ou revolução.

Conservar o que não funciona e manter o que não tem sentido é pura idiotice. E então a mentalidade conservadora é idiota, alias um extremo que leva a sociedade a outro extremo.

Afinal Sociedade não é formação ociosa ou algo que se pareça com um enfeite.

Civilização é coisa que tem custo, como demonstrou cabalmente Freud no ensaio sobre o 'Mal estar da civilização'. Algo que impôs e impõem limitação, esforço e sacrifício tendo em vista, certamente, um bem maior, conforme a consagrada relação: Custo/benefício.

Se a Civilização teve ou tem Custo só pode ter sido aceita ou melhor construída tendo em vista alguns benefícios.

O próprio Sig teme estar repetindo frioleiras, tal a obviedade de sua demonstração, nem por isso menos verdadeira. Apenas desconsiderada pelos condutores do sistema...

Civilização se constrói com esforço conjunto ou comum ou seja com trabalho. O Trabalho costuma a ser mais fecundo quanto executado em comunhão ou comunitariamente. Tal dimensão do trabalho no entanto implica, necessariamente, numa maior ou menor restrição quanto a esfera privada da vida, assim não apenas da busca pela satisfação prazerosa ou da sexualidade, mas inclusive do convívio ameno e também do ócio. Introduz-se novo modelo organizacional com relação ao tempo, e dispendem-se as energias humanas noutro campo. Implica menor fruição em termos de prazer. O trabalho nem sempre é reconfortante mas muitas vezes desagradável.

O homem no entanto impôs a si mesmo esta tarefa. Não o 'homem' isolado, não o indivíduo mas determinadas sociedades. Tornaram-se mais coesas por meio da aproximação até a intimidade e assumiram uma meta comum qual seja drenar pântanos ou irrigar desertos. O que despendeu, já dissemos, tempo e energia; em detrimento não apenas dos apetites mas do próprio repouso.

Então por que raios assumiram as diversas sociedade tal tarefa?

No dealbar da História escrita estava já o homem em posse de um estádio de consciência capaz de fazer com que percebesse a produtividade superior ou melhor a fecundidade da dimensão social do trabalho em comparação com sua dimensão pessoal. Podendo deduzir a partir daí o quanto seria capaz de auferir em termos de conforto ou de benefícios caso se associasse a outros tantos homens tendo em vista determinados fins. Num determinado momento de sua trajetória sobre a terra este homem foi capaz de perceber que seria muito mais fácil submeter as forças da natureza na medida em que o trabalho assumisse cada vez mais uma conotação social. Atuando ou agindo isoladamente seria muito mais difícil ou mesmo impossível atingir tal escopo. Noutras palavras descobriu o princípio segundo o qual 'A união faz a força'.

No entanto a questão da proximidade ou da Unidade entre os homens não era assim tão simples. A bem da verdade como mamífero ou primata nasce já o homem numa dimensão social e não isolada. Sucede porém que a administração de uma pequena comunidade ou grupo familiar, digamos de um clã, não oferece lá tantos problemas devido a pequena quantidade de contatos num contexto cultural homogêneo. Outra no entanto é a situação que envolve sociedades tanto mais complexas e maiores como as Sociedades pré urbanas ou urbanas aparecidas ao longo do neolítico.

Em semelhante contexto os contatos humanos entre pessoas oriundas de tradições familiares distintas tornam-se cada vez mais frequentes e intensos, pelo simples fato de terem de trabalhar juntos. Naturalmente que uma situação como esta só tende a potencializar o conflito. Caso cada qual aspire comportar-se como numa comunidade menor ou segundo as normas e regras peculiares a pequena comunidade, conflitos estourarão aqui e acolá. Pois cada família ou comunidade tem seus princípios e valores, princípios e valores divergentes. Chegamos assim a incompreensão. A menos que a macro comunidade em formação busque estabelecer princípios e valores comuns por meio da lei, dela excluindo aqueles todos que não quiserem se submeter.

Muito dificilmente naquele período determinada Sociedade estaria em posse de um aparelho repressor capaz de manter as pessoas submissas impedindo-as de fugir. Afinal nem estavam as tais sociedades unificadas em províncias ou nações nem possuíam os governantes uma noção realista em termos de espaço geográfico. O campo ou a floresta eram bem maiores e, caso quisessem, os homens sempre poderiam desertar da cidade em formação e retomar o modo de vida ancestral. Caso a vida nas primeiras sociedades urbanas ou civilizadas fosse desinteressante este homem sempre poderia retornar ao clã ou a família, resultando disto um êxodo urbano...

Não foi o que aconteceu. As cidades baixaram leis restritivas e dentro delas criaram aparelhos coercitivos sem que no entanto passassem por qualquer tipo de crise demasiado grave. A qual pusesse em risco tal tipo de existência. Mesmo tendo de abrir mão de uma liberdade mais ampla ou da peculiaridade de seus costumes, a maior parte dos homens parece ter decidido permanecer na cidade. Mesmo sob a pena de ter de se submeter a uma autoridade não poucas vezes arbitrária este homem decidiu ficar.

Mas o que motivou-o a ficar apesar de tantas restrições???

Já aludimos aquilo que o fez ficar na cidade.

As alterações impostas na natureza traduzidas em termos de maior comodidade ou se preferirem de menos sofrimento.

As condições do mundo externo não hostis. Fazia-se mister suaviza-las, o que só era possível a partir do esforço comum e consequentemente de restrições já em termos de fruição de prazeres, já em termos de liberdade.

No contexto das primeiras cidades, explica do profo V Gordon Childe, e que pela primeira vez na História houve o acúmulo de excedentes alimentícios. Implica isto na primeira reserva econômica de que temos notícia, e a qual foi empregada com o objetivo de dispensar algumas pessoas do trato direito com a terra, possibilitando que se exercitassem numa técnica qualquer como a marcenaria, a panificação, a tecelagem, etc A cidade converteu-se em paraíso da técnica, adquirindo cada serviço mais qualidade ou excelência. No fim das contas toda cidade foi beneficiada com o surgimento de vocações específicas como a do pedreiro ou a do sapateiro...

Especialmente os que conservando algum excedente de terra ou produção podiam pagar por tais serviços. Os demais contentavam-se com a esperança ou com o beneplácito episódico dos governantes. De um modo ou de outro esta forma de vida apresentou-se desde logo como mais amena ou sedutora do que a vida vivida nas pequenas comunidades agrárias ou clãs dispersos pelo campo.

Desde o primeiro impulso a urbanização ou a vida civilizada foram surgindo outros tantos impulsos. Sempre no sentido de tornar mais comoda ou menos sofrida a vida humana. Restrições, limitações, esforço e trabalho convergiam para uma meta comum que era eliminar cada vez mais o desconforto oriundo já do mundo externo já da nossa própria condição.

Uma vez que a vida comum ou civilizada dispende imenso gasto de energia, além de certa restrição em termos de liberdade, temos que considerar que só foi aceita tendo em vista sua contrapartida ou os benefícios auferidos pela coletividade. Seus membros permaneceram unidos, coesos e fiéis porque julgaram essa coesão oportuna, vantajosa ou interessante. Destarte podemos definir os vínculos sociais na esteira de S Freud ou seja enquanto LUCRO em termos de benefícios. A Sociedade só fará sentido na medida em que seus membros estiverem conscientes de que o custo pago por eles, em termos de limitações ou de restrições, será concretamente excedido pelos benefícios. Caso não haja excedente de benefícios a Sociedade humana perder seu sentido ou razão de ser.

Uma Sociedade inoperante em termos de qualidade de vida ou se preferem uma Sociedade mínima, que não faça qualquer diferença para a maior parte dos cidadãos perde por completo seu sentido, na medida em que perde sua função. Enquanto aparato inútil para a maior parte das pessoas a Sociedade tende a ser encarada como onerosa para elas. Enquanto organismo voltado para as necessidades artificiais de um reduzido número de pessoas ou a serviço de uma elite econômica a Sociedade perde sua credibilidade ou razão de ser. Em tais situações as pessoas passam a questionar cada vez mais os motivos pelos quais permanecem presas a determinada estrutura social, e vão perdendo por completo a sensação de pertencimento. Tendem a aspirar por uma hipotética situação de individualismo crasso ou de isolamento, a qual cogitam lhes concederia mais liberdade. A reflexão sobre uma Sociedade ineficaz ou onerosa tende a alimentar a ideologia individualista.

No momento em que as pessoas, que deveriam se sentir protegidas e seguras passam a sentir-se oprimidas pela estrutura social é necessário repensar as origens e os fins, melhor dizendo, o sentido da Sociedade. Uma Sociedade que faz as pessoas sentirem-se oprimidas de modo algum corresponde a seus fins. Mas a Sociedade mínima, inoperante, eticamente diferente e desumana tende a isto mesmo, a desacreditar-se e vivemos uma Era de descrédito social cujo fundamento mais remoto é a ideologia liberal economicista.

Sobretudo nossa Civilização ocidental ou capitalista, sobretudo ela tornou-se absolutamente indesejável. Aos sucessivos encantos, até chegarmos ao positivismo ou ao cientificismo, sucedeu-se o desencanto ou o fim da magia. Mesmo para parte dos que perderam a esperança e concluíram que o capitalismo é o ponto final da civilização e consequentemente seu inglório fim tudo isto soa imensamente trágico. Não como o começo de uma Nova Era de Luzes mas como a agonia do mundo, e os cristãos acomodados, perplexos e frustrados - porque sua proposta ético social não foi realizada ou ao menos mantida - vão até aos confins do catastrofismo... Nem preciso chegar a essa negra noite ou eclipse da cultura perceber que a avaliação da Sociedade, em termos gerais não é boa. Prevalece a insatisfação. Por fim o fato de parte das pessoas não aspirarem pelo Comunismo - motivos não lhes faltam - ou mesmo pelo Socialismo ou por qualquer solução nítida não significa que querem o Capitalismo ou que apreciam-no. Grosso modo o Capitalismo só é amado pelos milionários ou pelos idiotas, o homem médio apenas suporta-o como suportaria um supositório ou quinino... Naturalmente que não se trata duma perspectiva social atraente... Uma sociedade supositório...

Nosso Civilização esta desacreditada e por que?

Simples. Por que o homem comum chegou a conclusão de que os atuais benefícios ou vantagens que lhe são oferecidas por esta Sociedade não excedem e sequer correspondem aos esforços dispendidos pala mante-la. Pior; uma quantidade cada vez maior de cidadãos tem chegado a conclusão segundo a qual o modelo social vigente agrava a o desconforto ou sofrimento experimentado por eles ao invés de suaviza-lo. Não poucos acreditam que nosso modelo social é prejudicial ou danoso.

O homem antigo receava ter o outro contra si. Um clã vivia atemorizado face a outro até que a formação das grande cidades - ao menos por algum tempo e enquanto o número delas não era lá muito grande - acenou com estabilidade, segurança e paz... Hoje o homem do século XXI, sente todo peso de uma máquina social contra si mesmo e julga-se esmagado por ela desde que esta sociedade foi cooptada pelo Capital passando a servir, não mais o homem, mas a interesses privados ou a uma elite financeira. Desde que o produto do trabalho tem sido em sua maior parte subtraído ao trabalhador temos assistido a produção da miséria numa escala cada vez maior, a qual sequer é coisa digna de ser vista...

Foi o calcanhar de Aquiles desta civilização moribunda e decadente exposto a mais de um século pelo ensaísta Americano Henri George: A um lado podemos observar um acumulo de bens cada vez maior nas mãos de um grupo de pessoas cada vez menor e a outro uma restrição no acesso aos bens por parte de uma multidão cada vez maior de modo que as grandes fortunas aumentam na mesma proporção que a miséria social. Tendência esta a que não fugimos, exceto nas Sociedades em que foi adotado o modelo de bem estar social preconizado primeiramente por Lorenz Von Stein e em seguida por J M Keynes, assim no Norte da Europa, contexto em que a Sociedade recobrou seu sentido e importância.

Este abismo social que se abre cada vez mais sob nossos pés é que ameaça engolir nossa sociedade. Irrelevante e inútil apelar a doutrina da circulação das elites de Pareto se no contexto do capitalismo o próprio nicho ocupado pela elite econômica se torna cada vez mais restrito enquanto a população mundial aumenta. Caso esta elite não amplie sua esfera é ocioso aludir a ela. Pois ela jamais consegue ou conseguirá servir de obstáculo a intensificação de desigualdade. E o que o capitalismo tem feito é justamente ampliar, não as oportunidades ou chances gerais, mas a desigualdade social.

Diga-se de passagem o que já foi dito em artigo precedente - Que esta circulação de elites no topo do Capitalismo é absolutamente artificiosa e injusta. Pois mesmo admitindo que os indivíduos revezem-se no topo do sistema econômico e consequentemente no comando da Sociedade economicista, prevalece no topo como padrão ou tipo a mediocridade e não a genialidade. O Liberalismo econômico não franqueou, como parecia ter franqueado, ao homem superior ou aos gênios ou acesso ao poder seja político ou econômico. Em certo sentido muito pouco mudou desde que o velho Confúcio vinculou o comércio ou as finanças de modo geral mais a esperteza - e a vulgaridade - do que a excelência, esta peculiar ao Filósofo ou ao Cientista, ao intelectual enfim.

Não será o Capitalismo que agora satisfará os justos anseios de um Confúcio ou de um Platão no sentido de colocar o cérebro no controle do corpo. Nosso corpo social é controlado por mãos e pés sem talento superior, não pelo cérebro ou pela mente; afinal nos domínios do capital o cientista ou filósofo é sempre subalterno ou pau mandado de empresários e banqueiros imbecis. Não passam da técnica ou da execução, que decide praticamente tudo, nos domínios da política e da sociedade por sinal, são os burgueses ou patrões i é aqueles que tem capital. Diante de tão abominável e monstruosa inversão, que é um corpo comandado pelas mãos e pés, como esperar algo de positivo?

Em tais conjunturas o intelectual, relegado a funções subalternas, em que pese seus talentos e sensibilidade, tornar-se-a rancoroso até a medula dos ossos e fará causa comum com o operário e com todos os párias não apenas contra este modelo econômico mas contra o próprio ideal de civilização. Lançará o nosso legado greco romano ao monturo e tornar-se-a primitivista! Afinal este legado ético e humanista há muito que foi calcado pelos pés do economicismo! O capitalismo como um ácido feroz ou cancro maligno corrompeu das bases de nossa cultura ancestral e tornou nossa civilização indigesta aos olhos da multidão. É uma vereda ou uma via suicida.

O capitalismo com sua produção de misérias, injustiças e conflitos tem tornado não apenas a Civilização mas a própria vida social insatisfatória ou indesejável e certamente não se trata de um bom negócio.

A dar Freud por certo - e não há como deixar de da-lo por certo - só existe um caminho possível caso aspiremos resgatar nosso sentido sentido de pertencimento face a Civilização e este caminho consiste em assumir a doutrina do bem estar social ou da qualidade de vida como finalidade social. É necessário que a Sociedade democrática ou popular se faça cada vez mais presente na vida do cidadão criando uma situação de segurança, estabilidade e conforto ou seja uma situação compensatória face as energias dispendidas tendo em vista sua manutenção. O homem comum tem de sentir o impacto do benefício excedente em termos de habitação, saúde, cultura, lazer, etc e não sentir o impacto da miséria generalizada como tem se sentido até hoje... E jamais se sentir ameaçado por esse rolo compressor a serviço de Indústrias, Bancos e Corporações. E jamais se sentir infernalizado pela arbitrariedade de poderes econômicos. A Sociedade não pode nem deve servir a interesses econômicos privados mas ao que Aristóteles definiu como 'bem comum' ou média de insumos necessários a realização pessoal de cada indivíduo. Evidente que o Capitalismo não cogita no bem de todos os cidadãos na perspectiva da igualdade...

Segundo a solução radical dos Comunistas para sanar o mal pela raiz deveríamos atuar na estrutura material dessa Sociedade suprimindo a propriedade privada DOS BENS DE PRODUÇÃO (Marx jamais postulou o roubo ou a supressão da propriedade privada DOS BENS PESSOAIS advindos do trabalho - Pequena propriedade) e do regime assalariado. É uma solução possível, embora drástica, o que mais uma vez reporta a relação custo/benefício especialmente em termos de uma Revolução. Em termos de democracia direta ou de Plebiscitos e referendos é uma hipótese a ser discutida como outra qualquer e a ser implementada caso aprovada.  O problema quanto supressão da propriedade privada dos meios de produção e do regime assalariado não é questão de essência, afinal não são necessários mas contingentes, mas de ocasião ou método e jamais poderia ser encarado como solução total ou definitiva, como observou Freud. 
Temos de lidar obviamente com o estímulo cultural e educativo a avareza ou ao egoísmo e de planejar uma educação socializadora para o desenrolar da vida. Temos de manter o instinto de afirmação ou de realização em seus saudáveis e naturais limites e impedir que a Cultura transforme-o em qualquer outra coisa em termos de individualismo, avareza, egoísmo, rivalidade mórbida, etc Eis uma tarefa que transcende os limites simplórios da materialidade ou das estruturas produtivas e suas relações. O buraco, como costumavam dizer os antigos, é mais embaixo ou também embaixo. A escola de Franckfurt bem o percebeu, com rasgos de genialidade.

Destarte, enquanto não pudermos experimentar ou implementar democraticamente a solução comunista radical temos de adotar um outro modelo, talvez provisório, talvez não, o qual em todo caso terá de ser avaliado pelos membros das diversas sociedades que o adotaram. Claro que me refiro ao já aludido modelo de recolhimento de impostos - tomados aos 'empreendedores' - por meio do Estado e de sua redistribuição entre os cidadãos por meio de investimentos no domínio do social: Educação, saúde, habitação, lazer, etc Destarte a Sociedade civilizada, a partir de seus mecanismos democráticos, interfere ativamente na realidade econômica com o objetivo de impedir a produção da miséria. O resultado concreto dessa política e manutenção de uma relativa igualdade social ou de um saudável equilíbrio econômico. O resultado de tais esforços é a construção de uma sociedade relativamente sã vivenciada por pessoas satisfeitas e não por pessoas revoltadas.

Tal o ideal proposto por nós tendo em vista a manutenção das condições civilizatórias. Temos de sacrificar algumas coisas para manter o essencial. Temos, no mínimo, de rever o ritmo do mercado, da economia, da produção; abandonando a ideologia economicista e colocando em primeiro lugar as necessidades vitais da pessoa, não da pessoa abstrata mas da maior parte das pessoas concretas. Do contrário um número cada vez mais de descontentes passará a encarar a civilização como onerosa e a desertar dela ou melhor a investir contra ela e a investir com violência. Revoluções estourarão e sobrevirá o 'caos' com todas as consequências decorrentes, as quais tão bem conhecemos. Melhor poupar sangue, suor, lágrimas, patrimônio cultura, recursos, etc e tomar o caminho das reformas sociais.

Cumpre dizer por fim que no Brasil existe todo um aparato material e imaterial sujo objetivo é impedir que a Sociedade Política funcione e recupere sua credibilidade. O que poderia levar-nos justamente a implementação de um Estado de bem estar. Bem, não querem um estado de bem estar... Então que aguardem pela Revolução. Como registramos no começo deste artigo nós não acreditamos na mística ou na mágica da Revolução, mas estamos convencidos a respeito da imensa e colossal burrice dos conservadores, acima de todos os primeiros promotores da Revolução. Nós somos pela solução intermediária ou como dizem conciliatória, por via de reformas institucionais ou democraticamente implementadas. O recurso a força ou a sedição, como registrou F Engels reservemos a situações de golpe i é a ditadura, ao totalitarismo, do despotismo... E por falar em ditadura vai bem um FORA TEMER GOLPISTA!

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Os percalços históricos dos socialismos

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Após termos analisado os motivos porque os intelectuais e professores, e pequenos funcionários públicos, com seus méritos pessoais, tendem a assumir uma postura não apenas crítica, mas hostil face ao Capitalismo cumpre examinar a questão seguinte - vide artigo precedente - sobre o insucesso dos socialismos.

"Existiram e existem vários lugares em que não deram certo."

Mas, aparentemente a democracia ateniense, extinta no século III a C, também não deu certo...

Deveríamos tornar ao esquema dos reinados divinos do Oriente?

Uma coisa que não deu certo num determinado período histórico ou em determinadas condições, bem poderá dar certo noutras.

Assim a democracia direta ou policracia nos Landsgemeine suíços ou o Demoex na Suécia.

Acho hipocrisia lançar criticas a pequenina Cuba pelo simples fato de estar sob um embargo econômico unilateralmente imposto por um Império. Levantem o embargo, julguem a pequena Ilha em condições de IGUALDADE -  exigência da justiça - e então ai discutiremos. Desconsiderar o embargo imposto a essa república, é para mim pura e simples desonestidade.

Antes de criticarem a Revolução Venezuelana tentem observar imparcialmente a conjuração de formar internas e externas que levantou-se contra ela. Afinal quem nestes nossos tempos ignora que o mercado financeiro engendra e administra crises econômicas com objetivos meramente políticos assim desestabilizar determinadas sociedade que adotaram um modelo 'não ortodoxo' buscando levantar as massas contra os governantes???

Certamente não aprecio a Revolução cubana devido a seu conteúdo autoritário ou despótico, no entanto quem não vê ou percebe quão pouca democracia real existe nas esferas mais altas do governo Norte Americano? Concedo sem maiores problemas que os norte americanos tenham forte tradição democrática, admirável por sinal, mas na esfera do municipalismo, não enquanto Estado nacional. Todavia para ser justo quanto a república de 'Castro' tenho de considerar a realidade social anterior ao regime comunista que era a da não menos despótica e imperialista Emenda Platt... E tenho de levar em conta as críticas tecidas, já no século XIX, pelo não comunista, Jose Marti, um dos ícones da Revolução cubana. Desconsiderar todos este fatores é julgar sem devido conhecimento de causa.

Há uma Coréia do Sul. Beleza mas também há Estados Unidos da América do Norte policiando ideologicamente o mundo com ferocidade e arrogância; buscando tirar proveito econômico. Há um Bush, há um Trump... Há idiotas, psicopatas e palermas com bombas atômicas do outro lado, quem se importa ou incomoda??? Alias por que os EUA podem ter bombas atômicas e as demais sociedades livres não podem? Em que são melhores ou superiores??? Isto não cria uma disparidade em termos de poder como foi dito pelo Dr Enéias Carneiro??? Em que critério material nos baseamos para classificar os EUA como bons e a Coréia do Norte como má? Aqui os paralogismos vão se acumulando ao infinito...

Há no momento atual um esforço político muito bem coordenado no sentido de impedir a todo custo que soluções não capitalistas, logo socialistas, deem certo. São pura e simplesmente boicotadas por meia da força seja física ou econômica. Não morrem de morte natural, por si mesmas (falência múltipla de órgãos). São mortas ou assassinadas por outras Sociedades... São impedidas de dar certo por obra de um poder externo.

Vou no entanto retroceder e examinar o passado.

A primeira reforma social aconteceu muito mas muito tempo antes que se ouvisse falar no odiado Karl Marx. Que digo? Aconteceu muito mas muito tempo antes que se ouvisse falar os nomes de Jesus, Sócrates, Buda ou Confúcio. Pois aconteceu na pequena cidade de Lagash, na Suméria ou no Sul da Mesopotâmia - atual Iraque - há cerca de 3.500 anos, por iniciativa do rei Urukagina. Os detalhes podem ser encontrados - há textos originais - na "Suméria, berço da civilização." de Samuel Noah Kramer e numa versão tanto mais abreviada em Max Beer "História do Socialismo". Curioso aqui é que Urukagina apelava a uma ordem social mais antiga, fixada no início ou aurora dos tempos, apresentando-se destarte mais como um reacionário e restaurador do que como um revolucionário. Seu ideal de justiça ou de sociedade equilibrada, numa perspectiva histórica, esta no passado.

Teria sua reforma social dado certo? É o que não podemos saber uma vez que pouco depois de ter sido implementada foi a pequena Lagash invadida e conquistada por Lugalzagezi de Umma.

Outra tentativa, um pouco mais sutil e de teor mais religioso, de reforma social, afogada em sangue deu-se no Egito de Akenaten, o faraó monoteísta e anti imperialista que aboliu os sacrifícios sangrentos. Podemos le-la romanceadamente no 'Egipcio' de Mika Watari, filmado em 1953 creio eu. Temos aqui mais uma vez, uma iniciativa de reforma social pacifica até certo ponto, violentamente reprimida pelos poderosos sacerdotes de Amon Rá e pelos chefes militares.

Segundo Aristóteles o primeiro grego a idealizar uma Constituição socialista foi Faléias de Calcedônia. Aristóteles pode passar a proposta de Faleias por uma severa crítica, não pode todavia apelar a realidade concreta e certificar que a proposta de Faléias não havia dado certo, o que nos leva a supor justamente o contrário, isto é, ter ela vigorado com relativo sucesso na cidade de Calcedônia.

Para além disto podemos compendiar os seguintes exemplos:

  • A Bizâncio Cristã nos séculos IX a XII pode ser descrita como uma república em que a promoção social atingiu alto nível de sofisticação em que pese as estrutura política formal da monarquia. Embora ela tenha passado por sérias mudanças sociais e crises foi destruída pelos turcos seljúcidas no século XV.
  • O Império inca funcionou perfeitamente por no mínimo um século adotando um modelo fortemente socialista destruído pelos espanhóis em 1530.
  • A República guaranítica dos Jesuítas, criada no Paraguai pelos idos do século XVII, também foi por assim dizer destruída externamente pelos conquistadores portugueses após ter dado certo por cerca de um século.



Temos acima o exemplo de três sociedades relativamente socialistas que deram certo por um bom tempo e que foram destruídas externamente por outras sociedade sem que tivessem apresentado - no caso das duas últimas ao menos - sérios problemas estruturais a nível de organização interna.

Quanto a Europa civilizada no entanto, após a reforma protestante, impos-se cada vez mais um modelo burguês, liberal economicista ou capitalista cuja dinâmica foi descrita com absoluta precisão por David Ricardo já no comecinho do século XIX. A simples substituição do ideal gregário - tomado pelo catolicismo já ao judaismo, já ao platonismo grego - pelo ideal individualista canonizado pelo protestantismo mudou por completo a dinâmica da cultura na medida em que conferiu uma sansão espiritual ou metafísica ao novo padrão de relações econômicas até então incipiente. A igreja antiga fiel ao pensamento de Aristóteles a respeito dos juros e ao conceito tradicional de avareza legado pelo judaísmo, jamais havia se disposto a conceder tal tipo de sansão aos ensaios de liberalismo feitos pela burguesia. Sua tendência era reprimi-los justamente por meio daqueles poderes e sansões imateriais de plasmam a cultura e a mantém estável.

Eis senão quando estoura a reforma protestante, trazendo em seu bojo outros tipos de valores como o aquele individualismo peculiar as sociedades nórdicas e teutônicas e cuja gênese foi detalhadamente explicada por Le Play e Turville. Após ter sido ele introduzido na esfera da religiosidade Cristã, em franca oposição a tradição milenar, fica fácil compreender como e porque inseriu-se facilmente em todos os demais domínios da cultura produzindo outros tantos nichos de pensamento individual ou liberal. Desde então pode o liberalismo incipiente ou a avareza alimentar-se da cultura e impor-se materialmente no mundo real, criando novas estruturas. A partir da dinâmica cultural criada pelo protestantismo o liberalismo econômico, mesmo antes de sua codificação pôde encarnar-se muito facilmente em todas as sociedades europeias e esta solução cultural, ao menos nos países protestantes, inviabilizou qualquer saída pelo socialismo.

Em todas estas sociedades o Socialismo, mesmo enquanto parte do ideário Cristão tradicional, foi cada vez mais retomando aquela direção ancestral naturalista característica do modelo grego, e seguindo pela decididamente pela via do agnosticismo até o ateísmo e o materialismo. O que vindo a chocar as sociedades católicas tradicionais acabou despertando uma estranha oposição. Isto a ponto do Catolicismo romper com seus próprios valores no curso dos séculos XVIII e XIX, ocasião em que os Católicos mais esclarecidos, capitaneados por F Lammenais, Von Keteller e Maning criaram um partido Católico social resgatando sua tradição. Na Itália Nitti e De Amicis apresentaram este partido como socialista. O termo socialista havia sido inventando pelo pensador francês Pierre Leroux pelos idos de 1830.

Quanto ao socialismo naturalista foi proposto primeiramente proposto pelos niveladores ou diggers durante a revolução inglesa. Assim Liliburne, assim Winstanley inda que de modo bastante sutil e de matiz religioso. Devemos lembrar que a Inglaterra é pátria do único reformador protestante classificado por muitos como socialista Hugh Latimer e que a proposta do anglo Católico W Laud e seu circulo era igualmente socialista e até mais socialista e popular em oposição ao ideário puritano/calvinista em que topamos já com uma orientação liberal economicista. Seja como for a Revolução Inglesa jamais foi comandada pelos diggers em qualquer uma de suas fases ou etapas, enquanto que o partido anglo católicos foi esmagado com o rei, ficando vencedores os puritanos. E este é o motivo porque é classificada como uma Revolução burguesa do começo ao fim ou em sua totalidade. Jamais houve uma fase ou período socialista na R Inglesa, apenas uma fermentação teórica.

Outra é a situação da R Francesa, sobretudo com o incorruptível Robespierre. Aqui pela primeira vez damos com um ideário socialista no comando e portanto com uma fase caracteristicamente socialista, o que evidentemente supõem uma direção relativamente igualitária e teses como a reforma agrária, o abolicionismo, etc No fim das contas Robespierre é assassinado, sucedendo-se uma restauração sob Bonaparte. Babeuff seu continuador, avança na direção de propostas ainda mais radicais e aspira levar as reformas robespierrianas a frente capitaneando a 'conjuração dos iguais'. A conjuração falha vindo ele a ser processado e morto. É sucedido por Ph Buonarroti e este por A Blanqui sob diversos aspectos práticos, como a polêmica 'ditadura do proletariado' inspirador e mentor de K Marx. Fácil compreender que a direção desta cepa vai de tornando cada vez mais radical até dar no extremismo comunista.

Concomitantemente, no século XIX, especialmente após a revogação das leis sobre o fornecimento de suprimentos aos pobres (criadas logo após o fantasma da Revolução ter ameaçado a Merry England após a 'queda' da França) pelos idos de 1830, a formação de um denso mercado de reserva e a implementação de uma dinâmica capitalistas ideal nos moldes clássicos de teóricos já consagrados - como - Smith, Davi Ricardo, Petty, etc - a opção socialista ou mesmo comunista vai se tornando cada vez mais atraente para os clérigos - fossem unitários, romanistas ou anglo católicos - professores, pequenos funcionários públicos, artistas, poetas, cientistas, etc enfim para tantos quantos recusavam-se a aceitar a realidade dada como única opção possível e aspiravam reconstruir a sociedade noutros moldes. A imensa produção de injustiça, miséria e ignorância no cenário áureo da Inglaterra vitoriana exasperava os setores mais reflexivos e críticos daquela sociedade na mesma medida em que agradava os donos do poder.

Desde 1870 os conflitos sociais tornam-se agudos e desde 1880 a 1920 há um grande esforço por parte das elites intelectuais, pertencentes as classes médias, no sentido de buscar soluções institucionais para o problema em termos de reformas e de reformas destinadas a limitar ou conter o Mercado. Na Inglaterra o conjunto dessas aspirações reguladoras (logo socialistas) de viés institucional, destinadas a proteger a pessoa do trabalhador recebe o nome de trabalhismo. Essas reformas são sistematizadas e organizadas de modo efetivo em 1945 quando Clement Attle esmaga o 'vitorioso' Churchill e adota uma agenda de bem estar social inspirada em J M Keynes. 

Destarte, num nível maior ou menos a Inglaterra foi socialista ao cabo de cem anos i é desde 1880 a 1980 i e ao período Tatcher e mais acentuadamente ainda a partir de 1945 sem que no entanto esta opção acarretasse maiores problemas ou levasse o país ao colapso. De fato nada no período pré Tatcher sugere qualquer tipo de crise mais séria em termos sociais ou econômicos. Havia estabilidade e relativa segurança. Neste caso qual a razão ou razões de Tatcher??? Antes de tudo a conjuntura externa da guerra fria e o decorrente alinhamento com os EUA. Era necessário demonstrar que a proposta neo liberal era não apenas viável mais excelente e aqueles que na Inglaterra sentiam saudades da doutrina clássica do lucro máximo compraram a ideia. Assim o socialismo foi em parte desmontado com o objetivo de promover ideologicamente o liberalismo num clima de guerra fria.

Tal a situação da Inglaterra. De modo que não se pode dizer que o socialismo não deu certo naquele contexto. Ser arbitrariamente removido num contesto de institucionalidade é bem outra coisa.

O segundo exemplo de socialismo bem sucedidos e tão bem sucedidos a ponto de amenizar os conflitos étnicos que seriam reavivados uma década depois - num contesto de liberalismo ascendente - é a então Jugoslávia de Iosip Broz Tito, a qual partindo do comunismo tomou um rumo sui generis, chegando inclusive a conquistar o respeito da URSS e a funcionar muito bem até a morte do Marechal, ocasião em que veio a passar por uma crise devido a questões de natureza política como a liderança e a ser levado de roldão juntamente com as demais sociedades comunistas do Leste Europeu.

O terceiro exemplo bem sucedido e muito bem sucedido temos nos países Escandinavos, capciosamente apresentados como capitalistas ou liberais por certa propaganda desleal e desonesta. Th Picket no entanto não apenas faz lembrar que tais países tem permanecido rigorosamente fiéis ao modelo de bem estar social inspirado em J M Keynes pois mais de meio século, como faz questão de demonstrar que tais países apresentam as mais altas taxas de impostos do mundo ( por onde se vê que não são liberais nem em sonho) e que o montante desses impostos é redistribuído a toda população por meio de investimentos sociais implementados nas áreas da habitação, educação, saúde, lazer e cultura, o que impede o aumento excessivo da desigualdade e a proliferação da miséria. Evidentemente que este mecanismo redistributivo, responsável pela situação de equilíbrio vigente em tais sociedades, não é econômico ou financeiro, mas político e externo ao Mercado. Nem se vê como esse princípio regulador externo esteja de acordo com as aspirações do liberalismo clássico...

A honestidade nos obriga a reconhecer que os países do Leste europeu nada tem de capitalistas, pois na mesma medida que concedem total liberdade a iniciativa individual ou privada, taxam implacavelmente toda as iniciativas bem sucedidas por meio de impostos com o objetivo de reverter parte da renda produzida pelas empresas capitalistas aos trabalhadores. Situação em que a sociedade ou o estado realiza uma mediação muito bem sucedida e eficaz. Claro que o livre consentimento dos liberais não esta em jogo e que eles não cessam de criticar ferozmente estes sistema, o qual nada tem de capitalista.

Ora este sistema de redistribuição de renda pautado nos impostos e na promoção social tem se mantido até hoje e se mostrado relativamente eficaz. Basta dizer que se trata das sociedades com o melhor índice de qualidade de vida do planeta. E que estão muito a frente da Sociedade norte americana, a qual como demonstraram Lênin e Rosa Luxemburgo não se pode sustentar sem recorrer ao imperialismo, a pirataria internacional e a guerra desde que conquistou os territórios indígenas em 1890 e atingiu o máximo limite possível em termos de expansão territorial contínua. Os cidadãos Norte americanos tinham razão em ser otimistas e confiantes em 1776 quando ainda havia um imenso território a ser conquistado e um montante colossal de riquezas naturais a serem pilhadas, o que possibilitava, até certo ponto a sustentabilidade. Outra é a situação dos EUA a partir do final do século XIX e especialmente no decorrer do século XX na medida em que a própria dinâmica do Capitalismo vai produzindo desigualdade e miséria cf Henry George 'Progresso e pobreza' e estimulando o conflito social.

Desde então a 'maravilhosa' sociedade Yankee teve de enfrentar um pavorosa crise econômica, com todo um lastro de tragédias pessoais e o recrudescimento da repressão com o consequente apego doentio ao mecanismo repressor da pena capital, além de implementar uma política cada vez mais imperialista - sancionada culturalmente pela doutrina do destino manifesto - responsável pela eclosão de centenas de conflitos por todos planeta. Diante disto não podemos deixar de pensar aquela sociedade animada pelo espírito capitalista como um morcego vampiro ou uma sanguessuga, enfim com um ser parasitário cuja existência depende da matéria tomada a outros seres, no caso a outras sociedades, votadas a uma situação de subdesenvolvimento (anemia espiritual).

Toda a vez que qualquer pessoa muito mal informada questiona-me sobre o fato do Capitalismo ir muito bem nos EUA obrigado ou dos EUA irem muito bem (não importa a forma da pergunta), limito-me a replicar: Mas a que preço, mas a que custo! Já pararam para pensa na contrapartida representada pelo imperialismo, o sub desenvolvimento, a miséria e as guerras??? Será pouco??? Acaso os EUA com seu belo capitalismo poderiam sustentar-se sem molestar ou abusar de outras sociedades ou manter-se ficando na sua??? Será portanto o capitalismo um modelo internamente sustentável ou um modelo que depende da existência de outras sociedades e continentes humanos a serem explorados ou melhor escravizados???

Só para concluir: Tenho observado diversos modelos socialistas perfeitamente realistas e funcionais em todo decorrer da História desde Faléias de Calcedônia. O que não me convence por outro lado é a perfeita funcionalidade de um modelo que dependa da pilhagem e da força, da guerra e da sabotagem, de embargos e terroristas para manter-se. E que tenha causado tantos problemas ao mundo em menos de cem anos. Por fim na medida em que este sistema de lucro máximo viraliza outras sociedades damos com os recursos naturais se esgotando, com a mãe natureza explorada num ritmo irracional e com a fauna e a flora cada vez mais ameaçadas por uma extinção em massa. Nesta perspectiva o que vejo e a ideologia ou proposta capitalista conduzir a humanidade ao suicídio ou convertendo-nos em predadores implacáveis. Afinal não podemos adotar propostas infinitas e pretensiosas num plano finito, e tampouco estimular os instintos agressivos e doentios do ego com esse tipo de proposta. De fato há em nós uma tendência que aponta para o egoísmo crônico, a qual precisa ser educada ou mesmo reprimida (pela ética ou pela fé religiosa é claro).

Tendemos a nos multiplicar ao máximo, a acumular ao máximo... mesmo sendo entidades distintas numa cifra alarmante. Tudo isto é marcadamente irracional até a loucura pois ignoramos nossa condição e os limites de nossos recursos, sonhando em pilhar outros mundos e oprimir as formas de vidas que neles vivam. O Capitalismo nos tem convertido em zumbis predadores alucinados por cérebros... Por isso profanamos a terra em que vivemos cf Scott Nearing estupramos a mãe natureza e convertemos a sociedade num inferno sobre a terra.

Enfim admitindo que os socialismos não tivessem funcionado não estaria demonstrado que o capitalismo funciona ou funcionou algum dia. Dado por certo que o socialismo não funcionasse por defeito estrutural ou de natureza interna, seriamos forçados a concluir que nada funciona. Tudo quando nos restaria seria o nada absoluto e a total falta de esperança. Ora o homem não pode viver sem esperança ou mesmo utopia. Em posse plena de suas faculdades não é um ser conformado...