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domingo, 9 de fevereiro de 2020

Grotius x Maquiavel, Bakunin, Hayek ou Humanismo vs pós modermismo

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O que Lutero, Maquiavel, Bakunin, Nietzsche, Mussolini, Hayek tem a ver uns com os outros? Claro que a maior parte deles era individualista e que, com Stirner e Rand, foram os principais teóricos dessa Ideologia venenosa. Curiosamente eram todos irracionalistas, relativistas, subjetivistas, psicologista.... É portanto tão intensos a uma Ética quanto os filhos de Litreé e Kelsen, ou seja, os empiristas/positivistas, fossem estes cá agnósticos, materialistas ou ateus.

Em Cousin, Damiron, Jouffroy, M de Biran, E Renan... temos a outra face da moeda, e ela não foi religiosa, fideista ou revelada como supõe a crítica neo ateistica e superficial, mas naturalista ou metafísica, conforme o modelo grego, seja pré socrático, platônica, aristotélico ou estóico. Grotius parece ter precedido a todos estes, como já veremos, embora suas fontes remontem a escola salmanticense e por esta via comuniquem com a neo escolástica.

Quanto aos autores acima é notório o caráter pré positivista no sentido dos ramos do saber por eles cultivados serem apresentados como autônomos não apenas face a uma moralidade religiosa muitas vezes toscas, mas face a qualquer instância superior, assim a uma ordenação Ética inda que naturalista. Afirmam o primado do conhecimento material ou empírico e chegam inclusive a prometer que de sua ciência empírica ou ignorância crassa, brotara vida Ética.

Ignoram assim que a instância Ética do Ideal seja distinta da instância material ou real do conhecimento científico ou mesmo superior a ela. Pelo que a ciência torna-se soberana e incontrolável, assumindo o lugar o velho Deus e adquirindo acentos religiosos ou místico, tal e qual o comunismo, o fascismo e outras ideologias políticas seculares por trás das quais subjaz a decantada escatologia cristã. A C Grayling.

A epistemogia deles no entanto parece ser mais sofisticada que a do positivismo, na medida em que para eles o empirismo já não aponta para uma perfeição racional e sim para a odiada imperfeição ou para um elemento caótico, que nem mesmo a experiência habitual poderia reverter.

Por isso abominam a Ética ou a desprezam, enquanto tentativa de controle racional sempre infrutífera. Segundo creem qualquer tentativa de controle racional, alheia a realidade, só poderia piorar semelhante estado de coisas. O mais aconselhável seria aceitar a realidade do incontrolável e do irracional tal qual é, deixá-la fruir e acomodar-se. O que implica abandonar todo e qualquer reformismo idealista enquanto tentativa de corrigir a realidade dada.

Maquiavel, além de ter criticado o falso moralismo reinante ou os abusos do tempo, bem poderia ter ensaiado algum tipo de solução Ética. Mas é justamente o que não se vê no Príncipe... A contra partida dos meios de dominação parece inexistir, assumindo o mal certo contorno absoluto. O fim último parece ser o poder e o mais parece ser meio, enquanto a fortuna é apenas a sorte, o acidental, o estocástico. Mussolini, partindo de Sorel, é igualmente voluntarista e irracionalista, não acredita no auto controle racional do Homem ou no processo social de auto educação, dai sua confiança tola na autoridade cega, no autoritarismo, na tirania, no despotismo, da ditadura, na submissão, no controle, etc

Outro não é o discurso de certos comunistas e anarquistas em torno da tão sonhada revolução. Pois quando perguntamos a eles a respeito dos excessos de violência relacionados com um conflito social de caráter físico ou armado, eles limitam -se a declarar - sofismando - que a violência já existe 'oculta' em nossa sociedade de classes, etc Ignorando ou fingindo ignorar que a condição é bem distinta posto que atenuada pelas leis, e que nem outra seria uma situação de guerra aberta cujos excessos e abusos teríamos de prever para controlar.

Assim que fazer com os que se aproveitam da Revolução para cometer os crimes mais sádicos? Que fazer com os feridos em conflito? Com os prisioneiros? Com os civis? Que pensar sobre a tortura? E os animais... É os famintos... É o patrimônio histórico cultural? Eis assuntos de Ética em torno da tão Revolução que os comunistas e anarquistas deveriam estar discutindo ou pensando desde 1848 mas com relação aos quais nutrem verdadeira ojeriza.

Isto para não aludir a questões práticas em torno da administração pública seja das empresas ou dos municípios... O que ao menos foi considerado pelos heterodoxos Herr, Jaures, Blum... Os ortodoxos no entanto fornecem-nos apenas está miserável resposta: Esperem a revolução acontecer pois é em seu desenrolar que encontraremos as soluções. Embora seja característico do homem calcular, planejar e pensar sobre o futuro. Mas o que há por trás de tudo isto? A suposição de que a revolução é um fenômeno irredutível a razão, incontrolável, imprevisível em seus contornos... Claro que uma guerra ou revolução parte de um impulso. Seus nuances e resultados todavia podem sim ser racionalizado, e toda História das guerras gregas e romanas apontam para este caminho. Do contrário a estratégia das minorias jamais teria vencido o número dos oponentes ou Alexandre vencido os persas.

Criar uma Ética de guerra é tão importante quanto pensar operações estratégicas. Os anarquistas é comunistas porém preferem não pensar o problema ou não refletir, dando tal reflexão por ociosa. Tal o caráter imprevisível e irracionalista dos conflitos humanos. Como o caráter do fenômeno político para o florentino.

Outra não é a opinião de Hayek - derivada é claro de Kant - sobre os movimentos ou flutuações do Mercado, igualmente aleatórios, irracionais e incontroláveis... Daí o caráter negativo, segundo ele, de todo é qualquer controle ou tentativa de planejamento racional exercida pela sociedade política... Apenas os inseridos conheceriam intuitivamente ou pela prática habitual, tais flutuações ou crises, sabendo igualmente que elas possuem dinâmica própria e que, como nos casos de gripe, nada se pode fazer alem de esperar que ela siga seu curso natural. Nada podemos corrigir, em absoluto!

Eis o político, o curso da Revolução e o Mercado descritos quase que nos mesmos termos por um pós renascentista angustiado, por alguns teóricos anarquistas e por um ideólogo neo liberal e a tônica comum é o irracionalismo, irredutível a qualquer modelo ou solução ideal é portanto a uma normatividade Ética. Por isso o maquiavelismo, o anarquismo, o comunismo e o neo liberalismo aproximam-se não somente do empirismo/positivista, mas de outros sistemas irracionalistas - Como o cristianismo protestante Luterano, quanto a resistência a uma vida Ética superior é absoluta.

E o humano fica sempre esmagado - Pela fé religiosa, pelo poder político, pela tirania do Mercado, pelas revoluções 'libertadoras, pela pedido filosofia da fragmentação ou do particular, pela negação do conceito (De justiça ou bem comum...)

A todos estes oponho, além de Sócrates, sempre atento ao que fosse humano; é Descartes, Hugo Grotius. E por que Hugo Grotius? Porque buscou disciplina o que chamamos guerra bem como a convivência entre os Estados fornecendo-lhes uma Ética como produto de anos e anos de cuidadosa reflexão. Imaginou ele diversas situações possíveis e a melhor maneira de relaciona-las com o bem e a justiça, resultando disto um Tomo inteiro com cerca de seiscentas citações.

Numa perspectiva mais ampla sua obra foi resultado de um exercício reflexivo iniciado cerca de século e meio antes em Salamanca, Espanha, onde um grupo de teólogos dominicanos, liderados por Vitória, principaram a refletir sobre a nova condição do mundo após as descobertas de Colombo. Como as novas culturas encontradas achavam-se separadas da cultura Cristã européia quanto a fé, aqueles sacerdotes buscaram por outro elemento comum que pudesse unir os homens, dando com a razão ou a racionalidade e o Direito natural, do qual derivam o que hoje temos em conta de Direitos humanos, direitos essenciais e não duvidosos ou relativos.

Os próprios Dominicanos puderam servir-se do Direito romano e de alguns testemunhos legados pelos antigos pensadores gregos, em especial pelos estoicos. Isto porque os gregos do século VII a C e os romanos do séculos I e II d C haviam sido postos diante das mesmas circunstâncias que os europeus do século XVI - A descoberta de uma vasta pluralidade cultural e credal, a qual levou-os em busca de um elemento comum em termos de imanência - Assim a razão ou a capacidade reflexiva, a partir da qual reduziram uma Ética essencial, a que deram o nome de Direito das gentes, tal a fonte do jusnaturalismo ou da Teoria Ética do direito, a qual o positivista Hans Kelsen opôs sua teoria pura.

Da negação da razão pelo empirismo positivista e pelo pós modernismo resultou a negação desta Ética essencial da pessoa É a crise porque passam a Civilização e a cultura. Pois esta Ética continua sendo relativizado e negada hoje, não passando muitas vezes de vão ou de palavra vazia. Falamos muito sobre Ética mas não a levamos a sério ou vivenciamos, certamente porque não estamos convencidos em termos de veracidade essencial. Neste caso o problema é sempre Epistemológico.... Afinal de que nos serviria uma Ética duvidosa, ilusória ou aparente? Coisas há a respeita das quais devemos ter certeza absoluta e inabalável, de modo a mover a vontade. Nossa cultura envenenada não satisfaz esta demanda psicológica...


Ps.: Poderia adicionar aqui os agostinianos todos, sejam protestantes, como Lutero e a maior parte dos sectários catastrofistas, assim os romanistas que receberam a alcunha de tradicionalistas (século XIX) justamente por repudiarem nosso aparato racional - Assim grande parte dos INTEGRISTAS ou CONSERVADORES: De Bonald, De Maistre, Donoso Cortes, Ubaghs, Tamburini, etc  Estes mereceram condenação explicita por parte do Concílio do Vaticano I - O qual vindicando nossa tradição autêntica afirmou a capacidade da razão humana - embora os conservadores 'católicos' levassem este substrato cultural adiante e podemos constatar este receio face a razão tanto nos agnósticos como Gray quanto nos 'católicos' deslocados como Russel Kirk. Também são irracionalistas como Agostinho e Lutero e por isso pretendem substituir o critério da Razão pelo critério da TRADIÇÃO. O critério ou padrão TRADICIONAL porém só é válido no âmbito interno da divina Revelação ou da Religião e não da imanência, já porque os antigos pagãos apelaram obstinadamente a ele contra o Cristianismo emergente, e nossos apologistas, os padres da Igreja, a Razão, com o objetivo de invalida-lo.



segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O lugar da Ética no espaço escolar> Instrução ou educação? Parte I


I - Condição extra escolar - O universo da ética fora da Escola.




Jamais se falou tanto de Etica quanto no tempo presente.

Fosse pela abundância do discurso seríamos levados a crer que estamos vivendo a Idade da Ética ou um florecimento da consciência humana no mais alto grau.

Apesar disto civilização alguma parece ter sido tão menos ética do que a nossa.

Assim se os assírios machavam suas mãos com sangue humano e também os maias e aztecas parece que a humanidade presente com suas mãos 'limpas' tem um coração de pedra - completamente indiferente as necessidades alheias - ao invés de um coração de carne. E isto nos parece bem mais grave (Sheley). Ultrapassamos a crueldade primitiva por meio da insensibilidade.

Pois se os antigos pareciam sentir prazer em torturar suas vítimas e desafetos, paradoxalmente não eram menos habéis em identificar-se com aqueles que sofriam...

Em nós homens do tempo presente sobejam as belas palavras e minguam as atitudes concretas.

"O homem que se gasta em palavras: raramente se gasta e ações" no dizer do Dr Gustave Le Bon

Tal o fundamento ontológico de crise porque passamos: Mais moral ou ético do que técnico, material ou econômico.

Toleramos vergonhosamente essa chaga chamada capitalismo e nos curvamos perante o ídolo do Mercado. Julgo no entanto que as profundezas do mal toquem as fontes mesmas de nossa consciência e caráter pelo simples fato de sobrepormos o TER ao SER.

Nós - E me refiro sobretudo e antes de tudo ao Cristão (Aquele que foi convocado a amar e a auxiliar, a servir e a perdoar, a beneficiar e a favorecer) mas (numa perspectiva naturalista) também ao socrático - aceitamos muito facilmente a dinâmica mecanicista e inumana do mercado e não soubemos resistir-lhe como deveríamos. Assim, graças a nossa indiferença e comodismo o Mercado estendeu seus tentáculos sobre toda face da terra e estabeleceu uma nova ordem, econômica, não humana.

E nós aquiescemos...

Aquiescemos...

Concordamos, cedemos, negociamos e acreditamos poder viver dignamente sob a tutela de um Mercado financeiro!

Evidentemente que temos de abordar - numa perspectiva econômica - os defeitos estruturais ou internos do sistema capitalista e expor claramente a falácia da auto regulação. É caso de necessidade! No entanto precisamos ir mais além, questionar e buscar saber por que nos identificamos tão apressadamente com este sistema e optamos por viver conforme suas leis apesar de conter defeitos tao notórios.

Até que ponto é, a aceitação do capitalismo e dos demais exemplos de cultura de Morte (nazismo, fascismo, comunismo, etc) corresponde a uma queda em termos de ideal, a uma crise de consciência e a um obscurecimento Ético e o que é que levou-nos a esse entorpecimento...

Acompanhemos para tanto os caminhos da Ética no curso da História.

Durante séculos de séculos, a cabo de milênios infindos, ao dealbar de Eras de eras permaneceu a Ética atrelada as crenças religiosas. Assim durante toda a Idade primitiva, assim entre as civilizações egípcia, sumeriana, indiana, chinesa, assíria, babilônica, fenícia, hitita, etrusca, etc em suma, até o florescimento da civilização helênica. Nicho de cultura em que pela primeira vez a reflexão sobre os valores foi desligada do elemento religioso - deixando de corresponder a um monopólio sacerdotal - para vir a ser objeto de reflexão ou de consideração racional sob os auspícios dum saudável naturalismo.

De fato a religião antiga ou a suposta religião revelada, esta permaneceu sob a tutela dos padres. Não a queriam os pensadores, pois o critério adotado por eles era o emprego da razão e não desejavam confundir as coisas. Tal a perspectiva de um Demócrito e de um Aristóteles. Alguns como Platão ainda tomavam empréstimo ao sagrado em busca de uma linguagem alegórica que os aproximasse mais da gente simples. Outros não. Admitiam o valor da religião, mas como algo distinto da reflexão filosófica, a qual agregavam a questão dos princípios e valores.

Foi um ensaio de emancipação que nem por isso deixou de atrair a atenção colérica e rancorosa de sacerdotes como Diopeites e da mentalidade conservadora representada a um tempo por Licon, Anito, Melito, etc

Seja como for o choque foi atalhado por uma interpretação simbólica ou alegórico dos mitos, pela falta de um aparelho repressor organizado e pela tendência da própria religião em tornar-se ritualista. Por fim a religião manteve a aparência externa dos ritos sancionada pela tradição da cidade e a Filosofia coube a reflexão sobre os atos humanos.

Tal revolução no entanto não representou mais do que um relâmpago a iluminar as trevas duma noite escura.

Assim após o colapso da Civilização antiga e a queda do Império romano, passou a ética, mais uma vez ao domínio da religião, se bem que sob uma forma mais avançada ou evoluída no caso o Cristianismo.

No entanto a medida em que o mundo contemporâneo de sia tornando mais democrático e pluralista impunha-se a separação e a elaboração de uma ética comum do ponto de vista puramente natural.

Importa saber que a construção desta Ética não foi e não é, por assim dizer, algo de fácil execução.

Especialmente se levarmos em consideração que da relação existente entre Ética e religião e da consequente negação da religião resultou a negação da própria ética por parte de não poucos pensadores modernos.

Concomitantemente sugeriu-se mais uma vez que a instrução ou a própria ciência seriam capazes de substituir a Ética ou de produzi-la. Sugestão que de certo modo já havia sido denunciada por Sócrates. Referi-mo-nos ao cientificismo segundo qual os princípios e valores ideais seriam determinados pela própria pesquisa científica.

Os gregos não conheceram o dilema religião e ciência ou religião e ateísmo forjando por assim dizer um teísmo racional ou deísmo naturalista destinado a dar suporte a ideia de uma lei universal e a uma Ética essencialista. Não cogitavam apelar a códigos supostamente sagrados ou revelados como os antigos hebreus, mas também não prescindiam de um legislador ou duma consciência universal enquanto fundamento objetivo do bem e do mal.

Podemos definir sua Ética - de modo geral e atendo-nos as escolas de Sócrates, Platão e Aristóteles, bem como as figuras de um Diógenes de Apolônia, Parmenides, Anaxágoras, etc - como não religiosa ou naturalista, teísta ou deísta (como queiram) e essencialista ou objetiva. Teleologicamente sua ética estava posta para a convivência harmoniosa no seio da Polis, para a unidade social e virtudes cívicas, isto a ponto de terem percebido e afirmado a pessoa, sem no entanto terem ousado coloca-la ao lado do Estado ou da Pólis. Haviam apreendido as noções de pessoa e liberdade mas sempre em estado de maior ou menor sujeição face as necessidades da Polis.

Assim para eles a lei natural compreendia um princípio absoluto (Transcendente/Imanente), uma dimensão social bastante clara e uma unidade pessoal destinada a observa-la.

A ideia de que os próprios indivíduos correspondesse a tarefa de legislar ou de criar leis válidas para si mesmos lhes parecia incompatível com aquele ideal de comunhão que era a Pólis e destinado quiçá a dissolver todos os liames da vida social sem os quais não podiam conceber a existência.

Por isso buscavam algo de comum, um elemento comum, um vínculo comum de que resultasse os fundamentos de uma lei comum a todos os homens. E este elemento redescoberto por nossos deístas durante o iluminismo era a Ideia de uma consciência ou mente suprema capaz de legislar tanto física, quando imaterial ou moralmente.

Os gregos jamais saíram disto e jamais cogitaram em produzir uma ética ateística ou materialista embora nem por isso sua ética fosse sobrenatural ou religiosa mas como já dissemos pautada na reflexão e portanto naturalista. Segundo os gregos a lei natural não precisava ser revelada por Deus ou pelos deuses porque estava no acesso da razão humana. Por isso não dependiam de sacerdotes ou de livros mas apenas e tão somente do exercício dialético, por meio do qual acreditavam ser possível alargar e aprofundar seus conhecimentos.

Tal o ponto a que chegaram e a síntese elaborada por eles.

Este ponto de equilíbrio no entanto foi como que quebrado ou fragmentado pelo homem moderno após sua drástica ruptura com a religião e a solução - da parte de alguns ao menos - pelo ateísmo e pelo materialismo. Já dissemos que alguns destes optaram por sacrificar a ética ou por coloca-la de lado. O que é tapar o sol com a peneira, na medida em que a Sociedade demanda, mais do que nunca por soluções éticas e que a falta delas corresponde a tremenda crise porque passamos.

Muito tem de discutido sobre como o materialismo e o ateísmo seriam capazes de fornecer-nos uma ética objetiva e essencialista capaz de servir de barreira as culturas de morte que nos cercam. Serão o ateísmo e o materialismo capazes de ultrapassar, em termos de ética, os limites do subjetivismo, do relativismo e do individualismo e de propiciar-nos um elemento comum e unificador no terreno dos princípios e valores ou teremos de nos contentar para sempre com opiniões individuais e preconceitos oriundos da cultura ou das culturas???

Claro que todas estas questões precisam ser levantadas e discutidas com serenidade.

Kant levantou todas estas questões e após ter 'demonstrado' que era impossível demonstrar a existência de Deus na "Critica da razão pura" retomou-a sem maiores problemas na tão odiada ou depreciada "Crítica da razão prática" enquanto fundamento do mundo Ético ou moral. E com os gregos admitiu ser impossível ou melhor absurdo postular uma Lei Universal ou natural prescindido de um Legislador inteligente. Do contrário, inexistindo uma lei natural ou universal, torna-se o indivíduo única lei ou padrão de ética para si mesmo. E estamos no terreno do individualismo crasso.

A um lado temos a ética objetiva e essencialista fundamentada na ideia de um elemento unificador, seja mente, consciência, energia, etc ao menos em parte Transcendente face ao gênero humano e a outro uma ótica individualista segundo a qual cada homem é padrão de bem e mal para si mesmo.

Haverá alguma solução intermediária entre estes dois extremos????

Entre a ideia de uma lei universal ou natural por princípio de coerência vinculada ao teísmo e a ideia, assustadora de uma ótica individualista houve quem buscando um meio termo postulasse a ideia de sanção social, Neste caso a lei a ser observada não teria seu ponto de partida nem num Deus supremo nem no indivíduo isolado mas no consenso social democraticamente obtido ou na sociedade.

É solução precária primeiramente porque existem diferentes tipos e formas de Sociedades, o que nos levaria a um imenso número de leis e o que seria permitido de um lado dos alpes já não seria permitido do outro... E a simples mobilidade do ser humano propiciaria intermináveis conflitos. Tanto pior se considerarmos o fato de que as Sociedades ou Estados não parecem infalíveis em matéria de ética ou moral. Substituído Deus ou o individuo pelo Estado temos preparado o caminho da estatolatria e do totalitarismo representados pelo nazismo, pelo fascismo e pelo comunismo. Aqui bom é o que beneficia o poder, a raça ou o partido e mau o que opõem-se as diretrizes e ambições do poder, da raça ou do partido! Face as quais as vidas humanas pouco ou nada significam...

Remete-nos esta ideia ou este critério de ética aos campos de concentração, expurgos, gulags, pogrons, extermínios em massa, etc

E se nos parece que o Estado possa ser orientador tão discutível quando o indivíduo em termos de ética.

O indivíduo arroga-se o direito de matar???? O Estado com mais razões ainda. O indivíduo alega ter o direito de torturar??? Certas sociedades ainda com maior empenho... E como a Sociedade ou o Estado comporta um número bem maior de indivíduos até o estrago acaba sendo maior.

Admitido e aceito que tudo é opinião individual e que o indivíduo é supremo critério em termos de Ética estamos no inferno de Hobbes e sem Leviatã que nos valha! Admitida a solução da estatolatria, converte-se a Sociedade mesma em divindade suprema e estamos nos domínios de Hitler com sua barbárie organizada...

Aqui todo esforço para ocultar ou disfarçar o problema ou sua gravidade é inútil.

Por considerações 'teóricas' ou intelectuais de vária lavra tem alguns homens combatido ferozmente o simples conceito ou ideia de Deus em termos naturalistas e por simples ódio a religião (Nem negamos que parte delas mereça este ódio). E eles nem podem, como os antigos gregos, separar a ideia de Deus da ideia de religião ou fé... E fazem-se paladinos abnegados do ateísmo, postulando inclusive que esta opinião ou teoria - por si só ou associada ao cientificismo - será capaz de produzir um tipo de consciência ética mais elevado.

Nós no entanto temos um demanda prática diante de nós e clamamos por uma solução eficaz.

Precisamos, repito, resgatar a antiga noção de Lei natural e comum (ou universal) ou de uma ética objetiva e essencialista capaz de condenar irremissivelmente todos os totalitarismos.

É portanto direito que nos assiste perguntar aos adeptos do ateísmo e do materialismo: Que tipo de ética vocês tem a oferecer-nos??? Serão vocês capazes de deduzir ou de extrair de seus postulados teóricos esta ética objetiva, essencial e unificadora???

Porque se nos apontam para o indivíduo na perspectiva de um Stirner ou de uma Ayn Rand tememos que o arguto Hobbes tenha já tirado das devidas conclusões. Nem podemos nos deixar iludir pelas conclusões românticas de um Russeau vivendo num universo volitivo deslindado por Freud...

Agora se algum liberal ingênuo nos aponta para o contrato social devemos considerar que este contrato, mesmo quando policraticamente implementado, permanece sempre falível. Sócrates não foi condenado pelos caprichos de um Mussolini mas pelo tribunal de Atenas segundo as formas policráticas de então! Jesus não foi condenado arbitrariamente pelo Sumo Sacerdote Caifás mas pelo órgão classista do Sinédrio. As leis de segregação racial vigentes em diversos estados dos EUA foram democraticamente baixadas! Democracia é bom no que diz respeito ao espaço do político, mas não pode substituir eficazmente o padrão da consciência implantado no universo pessoal.

Quantas vezes a objeção de consciência e a desobediência civil não representou o que havia de mais nobre e virtuoso. Enquanto as leis referendadas pela maioria mostravam-se opressoras???

Aqui uma conclusão salta a vista: As perspectivas puramente imanentes do individualismo e do estatismo ou socialismo não parecem resolver o problema ou oferecer critério seguro a vida ética. Daí dirigirmos aos ateus, materialistas e de modo geral a todos os adversários do teísmo naturalista esta pergunta que não quer calar:

O que vocês nos tem a oferecer de concreto em termos de ética????

Porque esta é a grande pergunta do tempo presente.

E temos de encontrar uma resposta para ela.