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terça-feira, 17 de julho de 2018

A dupla tradição do comunismo - Sua gênese e desenvolvimento

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Conforme dissemos num artigo anterior, o Comunismo se nos apresenta, face ao anarquismo - particularmente face ao anarquismo proudhoniano, mas também face ao bakuninismo (Kropotkin foi quem pela primeira vez tento sistematiza-lo racionalmente polindo as 'arestas') - como um sistema bem mais simples, orgânico e coeso. Conhecendo certa coerência mesmo quando pelo cisma divide-se em correntes rivais. Cada uma delas parte de um princípio oposto presente na gênese da ideologia e desenvolvido até o fim. No anarquismo percebemos inúmeras ideias opostas e contraditórias sobrepostas como que flutuando. Além de esta cindido em duas tradições básicas: Ocidental e Oriental ou russa, o anarquismo encontra-se cindido em torno de inúmeras questões, inclusive práticas e suas correntes assemelham-se as seitas protestantes.

O marxismo, grosso modo, conhecerá apenas duas variedades: A um lado a Social democracia, seja a crítica ou prudente, de Engels, Bebel e Rosa; a moderada de Kautsky, Adler, Bauer, Gramsci, etc ou a radical de Bernstein e por ext dos fabianistas ingleses... O nível a que tais críticos aderem ao insercionismo pode variar quanto o grau, mas não quando a essência do conceito. A outro teremos apenas o jacobinismo radical, demolidor e iconoclástico de Lênin, Trotsky e turma. Os mencheviques de Martov e Axelrod inclusive, tendiam a solução social democrata...

Ainda hoje o marxismo achasse cindido entre comunistas ou leninista a um lado e sociais democratas, 'revisionistas', gradualistas, 'heterodoxos' ou reformistas a outro. E aqueles que arrogantemente revindicam para si o título de 'Ortodoxos' ou fiéis, apegando-se a um aspecto do pensamento de Marx como pronto, acabado e imutável - quando jamais deixou de ser repensado ou revisto pelo próprio Marx - não tem deixado de fazer suas mãos pesarem sobre aqueles que encaram como heréticos, mesmo quando hipocritamente criticam a Igreja Católica.

Importa saber que esta situação característica do marxismo é insuperável ou insolúvel.

Mas por que?

Porque uma e outra corrente partem de dois princípios antitéticos presentes na gênese do pensamento marxista. Quiçá o jovem Marx até tenha pensado em concilia-los, mas só podia falhar, como de fato falhou.

Agora que elementos ou princípios contraditórios Marx buscou unir e qual a gênese de cada um deles?

A um lado temos um ideal de Revolução jacobinista expresso pelo conceito de conjuração levado a cabo por uma elite minoritária. Este ideal foi tomado por Blanqui ao babovismo e transmitido ao jovem Marx, que incorporou-o ao primitivo conceito de Revolução, anterior a 1848. É a ele que se refere Engels no prefácio de 1895 e Bernstein em seu estudo a respeito das fontes ideológicas do marxismo.

Este ideal de Revolução implica admitir que um grupo de heróis ou de homens superiores; um 'quadro' enfim, pode mudar por si só o curso da História, o que nos faz lembrar a noção de herói em Carlyle ou mesmo em Sorel. Implica saber que nem Carlyle, nem Sorel e finalmente nem mesmo Babeuf eram ateus ou mesmo materialistas. Daí terem enfatizado ou salientado o potencial da ação humana, mesmo na esfera individual. Eles certamente acreditavam que a História podia ser adiantada e ignoravam a noção de processo histórico e condicionamento material. Blanqui, que a ser ateu e materialista assimilou o pensamento insurrecionista de Babeuf, era, tal e qual Bakunin, um homem simples ou intelectualmente vulgar. Não podia perceber a contradição entre o método recomendado por Babeuf e as decorrências de seu próprio modelo de pensamento; tampouco o jovem Marx foi capaz de percebe-lo porquanto guiado pelo entusiasmo.

Marx no entanto fora bem mais atilado que Blanqui, no sentido de deixar-se conquistar por um materialismo consciente, que chegou a ser chamado materialismo dialético, por conformar-se com a dinâmica estrutural do pensamento hegeliano. Esse materialismo levou-o a formular o conceito de infraestrutura e de superestrutura e a consagrar o pensamento economicista.

Curiosamente os etapistas, gradualistas e sociais democratas todos apegaram-se a este conceito de materialismo economicista, ulteriormente desenvolvido pelo próprio Marx. Segundo este modelo de pensamento ou esquema o capitalismo carregaria em si o germe das contradições que plenamente desenvolvidas - em sua maturidade - levariam-no inevitavelmente ao colapso. O pensamento clássico de K Marx só poderia ser, como foi, radicalmente determinista. O Capitalismo transporta em seu seio germes de morte... Quando chegar a seu ápice declinará e entrará numa crise da qual jamais poderá sair. O partido deve treinar o proletariado para que seja capaz de detectar o momento em que este processo atingir seu 'clímax' - Só então o proletariado poderá exercer ou cumprir seu papel que é aproveitar-se da oportunidade oferecida pelo processo histórico e assumir a liderança do corpo social. Implica isto caminhar com a História e esperar pela oportunidade dada, que depende do curso do capitalismo... Este desenvolvimento do capitalismo só pode ser apressado pela dinâmica interno do próprio capitalismo, no sentido de atingir sua maturidade e tornar-se vulnerável. TODA E QUALQUER AÇÃO HUMANA QUE PRECEDA ESTA EVOLUÇÃO ECONÔMICA OU MATERIAL É INCONCEBÍVEL OU ABSURDA.

Neste caso como se dará a Revolução babovista ou blanquista?

O velho Marx julgou sabe-lo e poder dize-lo.

Acreditava que no correr da carruagem a proletarização do trabalho eliminaria já os elementos da antiga ordem, já o mundo rural, já as classes médias ou intermediárias. Ao fim do processo todo este universo intermediário cessaria de existir, sendo absorvido, é claro pelo mundo do trabalho. Ao fim do processo, uma capitalismo maduro poderia ser socialmente descrito como uma multidão colossal de proletários face a um diminuto grupo de burgueses monopolistas, estes, naturalmente, a testa da sociedade. Claro que sempre poderia restar um grupo mais ou menos largo que sempre poderia vender-se a burguesia e combater por ela - tal o lupem proletariado. Seja como for Marx chegou a acreditar que apesar dessa possível traição por parte da massa amorfa, alienada e manipulada, o poder cairia como uma maçã madura nas mãos dos trabalhadores. Ele jamais pensou nos termos apocalípticos, catastróficos ou sangrentos da velha Revolução francesa e chegou a crer numa transição/revolução que a não ser pacífica tampouco corresponderia ao 'terror' robespierriano... Tão execrado pela nova elite dominante francesa ou mesmo pela elite dominante inglesa.

Claro que esta visão, por diversos títulos, não se encaixa com a visão anteriormente descrita, em termos de blaquismo/babovismo, legado pela Revolução francesa. Aqui, a ação humana ou individual embrenha-se pelos caminhos do idealismo, podendo por si só mudar os caminhos da História sem contar com agentes condicionantes ou limitantes, ou mesmo exigir uma visão acurada dos tempos, na qual uma elite intelectual busca por sinais. Grosso modo a sanha dos guerreiros e revolucionários não conhece tais elementos condicionantes - como o processo histórico ou a dinâmica interna do capitalismo - presentes no pensamento de Marx e é exatamente esta ignorância a respeito das limitações externas ou dos límites que a torna combativa e invencível no dizer de Sorel.

Assim a corrente marxista mais sofisticada ou determinista, torna-se hermética ou astrológica no dizer de Sorel, na medida em que depende de cálculos externos sobre a realidade feito por um corpo de especialistas. Especialistas que por exigências de caráter racional seriam levados do jacobinismo a social democracia. Por chegarem a crer que ao contrário da conjuração babovista/blanquista esta revolução deveria ser previamente calculada ou preparada nos mínimos detalhes, o que certamente demandaria algum tempo. Por outro lado tempo é que não lhes faltaria, sendo oferecido pela evolução interna do capitalismo, a qual deveriam acompanhar. No entanto o resultado daquela evolução era absolutamente previsível: O colapso do sistema e a oportunidade revolucionária. No campo externo a sociedade capitalista nada poderia ser feito no sentido de 'abreviar os tempos', destarte urgia esperar e enquanto se esperava a política institucional ou melhor a social democracia bem podia fazer as vezes de tática, tendo em vista a futura revolução. Temos aqui um pensamento muito próximo ao de Engels e a respeito do qual nos referimos já em diversas ocasiões. Ainda conta com a Revolução e é crítico, mas por exigência do materialismo - que já se transforma em realismo - faz a revolução recuar ou posterga-a...

Antecipar a Revolução, dirá Engels, é como por o carro a frente dos bois, fazer o jogo da burguesia, ser esmagado e expor-se a ver  a causa do socialismo aniquilada. A revolução ou a ação humana, só poderá ser bem sucedida em seu tempo, quando as condições materiais, oferecidas pelo sistema, mostrarem-se propícias. É a maturação do capitalismo quem nos oferecerá a grande chance - Marx o disse!!!

Diante disto Bebel, Adler e outros, com as bençãos de Engels e antes, com as do velho Marx, podem lançar-se sem temor ao seio da disputa eleitoral e levar os ideais comunistas ao parlamento, beneficiando-se da máquina chamada propaganda. Afinal elemento algum, fosse de ordem política ou não, seria capaz de atalhar a dinâmica do capitalismo e, consequentemente de impedir o estouro da Revolução. A revolução estava determinada pelo processo histórico - em termos de produção econômica - e nada seria capaz de alterar esta realidade. De modo que a ação parlamentar era muito bem vinda.

Perceba amigo leitor que o rígido materialismo mecanicista de Marx conduziu seus seguidores a via eleitoral ou a inserção.

Por outro lado, quando Bernstein, no final do século XIX, avançou até praticamente negar o colapso deduzido ao materialismo crasso e a necessidade de uma revolução, afirmando a ação parlamentar como algo definitivo e quando até mesmo os centristas chegaram a identificar a 'tomada' do parlamento pelos socialistas com a ditadura do proletariado, a ala jacobina - que sempre se mantivera calada por respeito a Marx e a Engels - não pode deixar de retomar o ideal revolucionário, inda que não pudesse repudiar ao materialismo gradualista ou denunciar Engels como revisionista. Diante disto levantaram as mãos contra Kautsky, o testamenteiro de Engels, e contra diversos outros pioneiros, fazendo alarde em torno das mutilações de Liebknecht, agora apresentadas como falsificações e ignorando ou fingindo ignorar a existência de muitas outras fontes e documentos quais sejam as cartas de Engels e de Eleanor Marx. De modo geral o conjunto de tais documentos revelam-nos um Engels que apesar de seus precauções e criticidade abraçou não apenas a via parlamentar mas a violência defensiva, repudiando o golpismo peculiar as correntes blanquista e bakuninista. Claro que os comunistas jacobinos não podiam admitir nada disto, pelo simples fato de não acreditar na via institucional ou parlamentar. Assim, desviando os olhos de Engels e de seus últimos escritos, eles passaram a classificar todos os sociais democratas como renegados e a arvorar o revolucionismo como única solução não apenas viável mas possível. Ao menos da Rússia a coisa tomou este caminho, tomando o jacobinismo o nome de leninismo e hipostasiando-se ao comunismo soviético ou marxismo ortodoxo.

Claro que e Lênin sempre pôde apelas ao jovem Marx blanquista/babovista com o objetivo de santificar seus ideais. O que ele não poderia ter feito é ignorar o conjunto do pensamento marxista e seu desenvolvimento ulterior. O que sobretudo não poderia ter feito é ignorar os ulteriores pronunciamentos de Engels, atribuindo a Kaustky uma ruptura que jamais havia acontecido. Ao apresentar os sociais democratas como inovadores e apóstatas Lênin mostrou-se absolutamente desonesto. O único renegado ou traidor aqui foi Lênin, embora a bem da verdade, devamos admitir que ele apegou-se a um princípio individualista, idealista e rival, que num determinado momento Marx e Engels tiveram de sacrificar ou ignorar - A possibilidade de indivíduos ou grupos, por meio de golpes ou conjurações, antecipassem as condições dadas pela História - Fazendo com que esta avançasse. Para tanto teve Lênin de fazer certos empréstimos ao teórico anarquista G Sorel - outro implacável adversário do determinismo economicista - pensador que mais tarde veio a descrever, hipocritamente, como embaralhado ou confuso.

Paradoxalmente Engels não desejou destruir por completo a esperança na futura Revolução, mas apenas posterga-la. Grosso modo podemos dizer que ele assumiu uma posição social democrática 'crítica', ficando como que no meio do caminho, entre Lênin e Bernstein. Por isso Bernstein como Kautsky, pode revindicar para si o título de sucessor, caso admitamos que Marx e Engels possam ser superados ou revistos; como se supõem de seres humanos e falíveis, inda que geniais e bem intencionados. Na medida em que o pensamento de Marx conheceu uma evolução e do Engels mais ainda, por que supor que este padrão de pensamento não pudesse continuar a evoluir após a morte deles convertendo-se numa Bíblia ou num Corão?

Importa saber que para mater viva a esperança de uma revolução final, Engels teve de reler, reinterpretar ou revisar o materialismo mecanicista e economicista de Marx, renunciando ao que chamamos determinismo, e postulando o que chamamos de condicionamento ou possibilismo. Vale a pena reproduzir suas belas palavras:

"Devemos provar a nossos adversários o princípio essencial - o lado econômico - que eles repudiavam; e então nem sempre tinhamos tempo, facilidade ou ocasião PARA POR EM RELEVO OS OUTROS FATORES QUE EXERCEM AÇÃO RECIPROCA... A evolução política, jurídica, filosófica, religiosa, literária, artística... dependem certamente da evolução econômica. NO ENTANTO TODAS SE INFLUEM MUTUAMENTE E ATUAM, A SEU TEMPO, SOBRE A BASE ECONÔMICA." Carta de 1890 publicada no Sozialisticher akademiker em Outubro de 1895Admitido o simples condicionamento material, Engels, tornava mais aceitável e reforçava ainda mais a doutrina revolucionária da interação, partir da qual os futuros comunistas puderam deduzir que caso a oportunidade oferecida pelo processo histórico não fosse 'trabalhada' ou aproveitada pelo elemento humano, a chance de implementar com sucesso a Revolução ficaria abortada - Daí a insistência cada vez maior no sentido do partido ou da propaganda preparar uma elite de homens no sentido de aproveitarem a oportnunidade histórica.


Daí Rosa Luxemburgo, cogitar que a oportunidade revolucionária não aproveitada poderia descambar em algo totalmente distinto do capitalismo ou do comunismo, o que ela define como barbarismo. Prenúncio do Nazismo??? Quem sabe... Foi o quanto bastou para Lênin e seus sequazes assinalarem-na como heterodoxa, tal e qual Kautsky, Bernstein, Plekhanov, Axelrod, Martov, Gramsci, etc, etc, etc Curiosamente, o citado G Sorel, que nutria séria dúvidas quando ao materialismo mecanicista, também nutria certo temor face a um futuro sombrio e barbaresco...


Importa saber, e esta é nossa conclusão, que o marxismo nascente comportava dois princípios antitéticos, contraditórios ou opostos - Um consciente e outro não. E que no decorrer do tempo Marx e Engels foram apegando-se cada vez mais ao princípio consciente, que conduziria fatalmente a social democracia, até que este foi ligeiramente corrigido por Engels, tendo em vista a elaboração de uma ideologia mais equilibrada, do que resultou uma espécie de social democracia crítica, em que o ideal da Revolução foi protelado para um futuro incerto, como após a revolução russa o fim da ditadura do proletariado seria sucessivamente protelado para um futuro incerto, até atingir setenta anos, e por a luz do dia a farsa ou o equívoco da transição. Claro que, em tais condições, exceto em caso de golpe de estado (Situação em que seria exercida a violência defensiva - Otto Bauer, 1926) os socialistas poderiam conformar-se indefinidamente com a política parlamentar.


Lênin teve de reassumir o ideal do jacobinismo - sem todavia identifica-lo com o idealismo - e de negar toda evolução ulterior, rompendo com ela, e negando, ao menos o pensamento mais elaborado e desenvolvido de Engels. Claro que tudo isto supõem uma traição, inda de inconsciente. Os princípios opostos no entanto, já ali estavam, envenenando o pensamento de Marx. Tudo quando podemos dizer aqui é que Marx era jovem e que o pensamento de cada personagem intelectual deve ser analisado numa perspectiva cronológica e evolutiva.





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sábado, 3 de dezembro de 2016

Humanidade, tempos de auto contenção ou de extinção

Tempos houve em que não passávamos de algumas dúzias de seres simiescos a vagar pelas savanas da mãe África.

Pouco depois as primeiras levas de Sapiens atravessaram Península do Sinai e iniciaram sua grande aventura pelos dois grandes grandes continentes do mundo antigo.

Bem podemos comparar essa travessia como a ruptura de um dique e a uma inundação, melhor dizendo a um dilúvio em que marés de sapiens espalharam-se pela mãe terra varrendo tudo, inclusive os demais ramos da espécie, como os Neandertais e o H das flores, senão outros cuja existência ainda ignoramos enquanto não redescobrimos nossa História.

O fato é que os bem preparados Neandertais desapareceram como dizem aniquilados pela explosão de um grande vulcão localizado nas proximidades de Napoles. No entanto a explosão por grande que fosse não aniquilou todos os neandertais, embora tenha reduzido bastante seu número. Sempre poderiam ter se reproduzido, multiplicado e recuperado, no entanto não o fizeram. Certamente porque nossos belicosos ancestrais souberam das um empurrãozinho.

O catástrofe natural fez sua parte, não o negamos. Noutra conjuntura porém, em que não entrasse o Homo Sapiens cá estaria o Neandertal, talvez erguendo cidades e arranha céus... O que o cataclismo vulcânico iniciou foram nossos 'meigos' ancestrais que concluíram e disto resultou a eliminação de mais uma forma de vida.

No decorres desta expansão a princípio lenta tiveram os animais da Eurásia, já habituados a presença - nada amistosa por sinal - dos neandertais, tempo suficiente para aprender a desconfiar do novo tipo de homem e a fugir dele ocultando-se nas selvas e fendas da terra. Pois os que não se ocultavam e escondiam eram logo abatidos pelas lanças atiradas com o auxílio do propulsor e enfim das certeiras flechas.

Desde que os propulsores e arcos foram inventados os pobres animais, por colossais que fossem já não tiveram paz e sossego exceto nos ínvios sertões ou nos recônditos dos ermos. E lá fossem mamutes especialmente, ia o homem busca-los. Pois precisava de gordura para o lume, de pele para as roupas, de ossos para os implementos e especialmente de carne para o estomago.

Assim sendo a que correspondiam os mamutes, rinocerontes lanudos, a rena, o grande alce, o auroque, etc senão a dispensa cheia de nossos dias ou a fartura???

Eram tempos difíceis aqueles. O homem precisava lutar para garantir a sobrevivência da espécie. Precisava matar sem contemplações. E matou, e quanto mais sua população crescia mais matava. E continuou matando, até que diversas espécies não mais resistiram e deixaram de existir. Porque seu ritmo reprodutivo era mais lento do que a atividade carniceira de nossos ancestrais.

Assim a cerca de quatro mil anos, na longuiqua Ilha de Wrangel, nos confins da Sibéria chegaram os primeiros homo sapiens e supliciaram os últimos mamutes, tombando o derradeiro membro da espécie sem que fosse derramada uma única lágrima. E como não vivemos num mundo de poesia, muito provavelmente o céu não ficou turvo por aquela espécie que chegava a seu fim...

Muito antes disto porém, haviam já nossos perspicazes ancestrais inventando canoas de boa qualidade com que pudessem rasgar o denso véu cristalino dos mares e chegar a outros mundos inexplorados. Assim sendo dia houve em que este ser inquieto tocou ao paraíso dos marsupiais, a Austrália. Isto sem que a terra nossa mãe desse um único gemido...

É suposto que tal evento tenha se dado há cerca de 40 ou 45 mil anos passados.

A bem da verdade o clima local passava por algumas transformações. A despeito das quais a natureza sempre havia sabido recuperar-se.

Desde então, com a chegada dos 'trogloditas', tudo seria bastante diferente. Pois não traziam consigo apenas o fogo mas a fatídica queimada por meio da qual acabavam com as florestas, ilhavam e perseguiam os animais. Animais que por não estarem habituados com aquela presença estranha sequer cogitaram em fugir. Alias fugir para onde???

Assim tombaram sem saber porque levados por aquele vendaval humano.

E extinguiram-se o leão marsupial, o wombate, o coala gigante, o canguru gigante, etc, etc, etc

Uma a uma cada uma dessas espécies foi sendo literalmente aniquilada por nossos ancestrais.

Os quais não pararam por ai mais ao que parece correram pelas ilhas e ilhotas ainda não totalmente cobertas pelas águas e acompanhando o curso do litoral da Antártida chegaram a Patagônia e a América Sulina, enquanto ao mesmo tempo ou pouco depois outra leva de sapiens penetrava o mesmo continente pelo Norte ou seja por Behring.

Quando isto se deu não sabemos ao certo. Seria a 30, 20 ou mesmo 15 mil anos??? Responder com precisão não o podemos.

Sabemos no entanto que ao cabo de dez ou cinco mil anos espalharam-se por todas as partes deste novo mundo produzindo um efeito não menos devastador que os colonizadores espanhóis trazidos por Colombo.

E 9000 anos antes de Colombo já haviam dado cabo do tatu gigante, do soberbo Megatério, dos camelídeos, das manadas de cavalos, etc, etc Em nome da auto suficiência nossos antepassados acabaram com tudo. Supostamente não caçavam nem devoravam dentes de sabre, mas concorriam com eles e subtraiam-lhes o até então farto alimento. Pelo que devem ter sido abatido pelo mais negro de todos os flagelos e morrido de fome!!! Afinal de contas nem mesmo seus dentes ameaçadores eram capazes de rivalizar com o aparato técnico do homo sapiens... E o mais valente e astuto dos smilodontes não seria capaz de concorrer com nossas lanças e frechas...

Importa saber que o mesmo desastre ecológico repetiu-se infinitamente todas as vezes que alguma sociedade humana embarcada em suas canoas topou com uma Ilha até então desocupada e deserta fosse ela Madagascar, Nova Zelândia, Marquesas, Salomão, Samoa, etc Para onde se instalavam levavam por assim dizer a guerra... Assim sendo outro não podia ser o destino da Moa ou do Lêmure gingante senão a aniquilação.

Ao cabo desta peregrinação ou viajem iniciada a uns 60 mil anos, lá na África ou melhor ao cabo de vinte mil anos estava a existência de nossa espécie praticamente consolidada na medida em que ocupava todos os continentes.

A contrapartida no entanto era assombrosa, pois em cinquenta ou sessenta mil anos havíamos exterminado centenas de preciosas e admiráveis formas de vida - e me refiro apenas aos grandes mamíferos - com que a dinâmica evolutiva brindara a mãe natureza ao cabo de cinquenta milhões de anos... E quando a cruz foi arvorada no cume do calvário o calvário de tais espécies já havia sido consumado a muito tempo. Não sendo mais dado a nossos olhos contemplar os modos de tantos e tantos seres fascinantes.

Apesar disto há cerca de 2.700 anos, alguém, lá nos confins ou desertos da antiga Judeia fez questão de escrever: Crescei e multiplicai-vos, colocando tais palavras na boca de seu deus étnico Jao.

Para tal povinho isolado equivaliam tais palavras a um mandamento divino.

Ademais ainda havia muito espaço no mundo, muita selva, muita floresta, muitos animais não abatidos, etc

Porquanto o Homo Sapiens continuou a multiplicar-se e a crescer.

Cerca de dois mil anos foi este conselho adotado por outros povos e culturas, também a guiza de mandamento divino e chegou a ser anexado ao ritual do Matrimônio.

E a espécie continuou a multiplicar-se, a crescer e a espalhar-se ainda mais.

Embora a sujidade, as guerras, a fome e a peste fizessem seu trabalho, ceifando outras tantas vidas.

E ficava a balança equilibrada.

Acontece no entanto que aquele mesmo ser inteligente ou melhor esperto que inventara os machados de pedra, lanças, propulsores e frechas concebeu também as vacinas, os soros, a esterilização, os medicamentos, a cirurgia, a higienização, etc, etc, etc... Ficando desde então garantida a sobrevivência da maior parte dos nascituros e alargada a existência dos adultos... pelo que nos últimos dois séculos chegaram a aparecer casais com vinte ou mais filhos!!!

Os homens multiplicaram-se por demais e cresceram ao infinito. Orçando a casa dos milhões e enfim dos bilhões.

Foi quando um clérigo inglês de rara inteligência, achou por bem advertir os zelosos observantes do mandamento hebraico a respeito de que o espaço ou a terra não aumentava de tamanho, nem as terras, nem os campos... Disse, falou, escreveu e discorreu com impeto a respeito do óbvio: A limitação de nossos recursos e o descompasso existente entre o ritmo da fauna, da flora e daquilo que orgulhosamente cognominamos progresso.

Afinal, amigo leitor, apenas ao cabo destes últimos dois séculos nossa vaidosa espécie ou ao menos diminuta parte dela pode compreender que equivalemos a parte da natureza e não ao todo. Afinal não somos seres autótrofos i é que sintetizam clorofila e fabricam seu próprio alimento... Ao que parece dependemos de outros seres, os quais imolamos tendo em vista a obtenção de suprimentos (proteínas) e a conservação da vida. Esses outros seres por fim, sendo animais, são igualmente heterótrofos e tal qual nossos vegetarianos obtém seu alimento a partir das únicas formas autótrofas de vida representadas pela flora.

Senso assim: aniquilados todos os representantes da flora, destruídas todas as florestas, devastada toda mataria 'inútil' dão-se por perdidos todos os animais inclusive nós! Deem por certo que quando murchar a derradeira folha de arvoredo estamos condenados a morte por inanição e extintos a exemplo daqueles que nós mesmo extinguimos no passado.

Coexistiremos harmoniosamente com os representantes da fauna e da flora ou caminharemos para o suicídio coletivo.

Isoladamente, como senhores orgulhosos da devastação, não podemos existir.

Todavia para respeitar o fluxo da natureza há uma única saída.

Nossa espécie precisa diminuir o número de estômagos e bocas. Pois a natureza já não pode fornecer o montante que lhe é exigido por bilhões de bilhões. E seu ritmo já não acompanha nossas necessidades, impostas por este mandamento, ora estúpido e contraproducente do 'Crescei e multiplicai-vos'. Ao menos que anjos desçam dos céus trazendo pão ou que chova arroz, feijão e carne este mandamento converteu-se num mandamento suicida e numa ameaça a civilização.

Do que precisamos atualmente é de restrição, de planejamento, de controle racional da população.

Atualmente importa não crescer e não multiplicar mas reduzir ao máximo nosso ritmo de crescimento.

Do contrário seremos levados a contaminar água, terra, ares... a exterminar as poucas formas de vida animal que ainda restam e cortar a última árvore por fim. Talvez até consigamos prolongar nossa existência por um ou dois séculos convertendo todo espaço existente em plantações e pastagens gerenciadas pena mais alta tecnologia, mas será uma sobrevivência triste. Pois a exceção dos cães, gatos, ratos, coelhos e talvez alguns cavalos (além do gado bovino de corte é claro) todas as demais formas de vida só poderão ser contempladas em álbuns de fotografias ou em livros, a guiza de recordação. Quiçá alguns de nossos descendentes contemple choroso a imagem de uma zebra ou de uma girafa, ou de um leão tal e qual nós mesmos contemplamos a de um mamute ou megatério...

Então ao cabo de dois ou três séculos, por não termos sido capazes de reeducar-nos, de mudar nosso modo de vida, de conter nosso ritmo virá o colapso, a fome, a miséria, a convulsão social e o fim ou quiçá alguma nova Idade da Pedra muito primitiva e precária. A partir da qual teremos de reiniciar nossa marcha...

A outra possibilidade com que acenam os tecnocratas é colonizar outros planetas, para lá transplantando o excedente populacional bem como nossos insumos agrícolas. Talvez seja o caso de esgotar por completo os recursos naturais desta terra até abandonar sua carcaça imunda... Acaso não procedem assim os vermes???

O ideal no entanto, e este ideal nem sempre fica bem escondido, é dar com um novo 'continente' ou melhor com outro planeta cheiinho de formas de vida capazes de nos sustentar. Caso este dia infeliz venha a raiar nossos mestres e lideres proclamarão alegremente que aquelas criaturas ou formas de vida não sendo humanas ou sendo inferiores não tem o direito de existir ( a menos que existam para servir-nos) seguindo-se a mesma triste história de sessenta mil anos atrás. Faremos deste novo e infeliz planeta nossa vaca ou melhor nosso mamute cevado... exterminaremos uma a uma suas espécies e esgotaremos seus recursos naturais...

Caso semelhante possibilidade se concretiza estaremos evidenciando que não passamos de um vírus ou duma bactéria nociva espalhada no corpo do Universo...

Já fomos comparados com o câncer, mas ainda temos a possibilidade de olhar para o passado, de contemplar nosso saldo de destruição, de encarar a sujeira moral por nós produzida e enfim de limpar nossa ficha. Talvez seja a derradeira chance que nós é concedida. Aproveite-mo-la tendo em vista restringir as loucas pretensões que nos são ditadas pelos preconceitos religiosos e pelo fanatismo. Aproveite-mo-la para criar uma vida de respeito, amor e comunhão com a fauna e a flora. Aproveite-mo-la para desenvolver a fraternidade e mostrar gratidão para com a mãe natureza.

Mostremos que somos verdadeiramente Sapiens integrando-nos a mãe natureza numa perspectiva solidária, porque aquilo que o homem semear isto haverá de colher.

Portanto cessemos agora de semear a dor.

Ou colheremos lágrimas amargas.

domingo, 11 de outubro de 2015

Como afirmar o evolucionismo perante seus alunos! III

Conclusão geral -



O que se espera de um educador consciente é uma atitude sóbria e equilibrada.

Que argumente honestamente buscando convencer seus alunos sobre a excelência do modelo evolucionista.

Não se trata aqui de exigir que o educando abandone sua tradição ou fé religiosa.

Mas que admita o critério da demarcação.

Reservando para a ciência um espaço em sua visão de mundo.

E admitindo que a imanência (natureza) esteja no acesso dos sentidos e da razão.

Ao contrário da fé cega a ciência não pode pretender absorver a vida do ser humano como um tudo.

Cumpre distinguir perfeitamente entre visão científica e mística cientificista.

Esta pretende impor o ateísmo e o materialismo a clientela nos mesmos termos que visão fundamentalista.

Pelo que ambas violam os direitos da pessoa humana.

O educador humanista reconhece a seus alunos o duplo direito de cultivar uma espiritualidade e de receber uma educação científica, conciliando as duas áreas ou partes por meio do critério da demarcação.

Não se discute aqui se tem ou não direito de apresentar-se como ateu o materialista caso seja instado por seus alunos; mas sim o direito de impor seu modo de pensar ou de exigir que seus alunos rompam com a fé.

Importa que as partes em conflito abstenham-se de invadir o terreno alheio.

O ideal aqui seria que as religiões se abstivessem de estabelecer dogmas como o criacionismo - em torno da origem do universo material e que os cientistas se abstivesse de apresentar suas constatações metafísicas em torno do ateísmo e do materialismo como científicas.

No entanto o que podemos observar no plano da concretude é que ambas as ideologias: criacionista e ateística, contam com defensores fanáticos.

Daí a praxis impositiva...

E criminosa!

Pois não é dado a qualquer professor seja fundamentalista ou ateu, impor sua visão de mundo ou orientação ideológica a turma.

A questão aqui diz respeito apenas ao Criacionismo enquanto padrão mágico fetichista de pensamento e ao critério da demarcação; em torno dos quais o professor consciente deve argumentar com habilidade.

Diz respeito a como este mundo foi constituído por Deus ou sem ele e não se Deus existe ou não existe. Uma vez que a questão da imaterialidade ou do que esta para além dos sentidos não pertencem aos domínios da ciência.

Agora se esta ou aquela organização religiosa obstinasse em ignorar a demarcação e em invadir o terreno da ciência; a responsabilidade não é nem da ciência, nem do cientista, nem do professor...

Nem se pode exigir que em pleno século XXI a ciência ou o magistério professoral curvem-se docilmente as exigências de líderes religiosos imbecis que jamais examinaram a fundo a questão, cedendo a pressão exercida pelo padrão mágico fetichista de pensamento.

Tal era viável no israel do século IV ou III a C... não no contexto da civilização moderna, em cuja base esta o padrão greco romano ou científico de pensamento. Padrão a que não podemos sacrificar sem que de tal sacrifício resulte um recuo civilizacional de amplas dimensões. Uma vez que o criacionismo, correspondendo a uma crença apriorística, destrói pela base a solidez do pensamento científico.

Quanto a este problema ou impasse não se trata de negar por completo a fé ou de romper radicalmente com  o paradigma religioso mas apenas e tão somente de substituir a fé cega por uma fé mais madura e esclarecida, que reconheça o critério da demarcação e o espaço - a imanência - que cabe por direito ao modelo científico.

Neste sentido não há como fugir a questão. Mais cedo ou mais tarde o fundamentalista, após ter investigado honestamente todos os lados, terá de decidir se pretende de fato encarcerar a própria mente dentro das páginas de um livro ou se pretende ficar com o testemunho fornecido por seus sentidos e sua racionalidade. Ou sacrificara o fundamentalismo e aceitará o desafio de - para além da fé (que sempre poderá manter) nas coisas invisíveis - sentir e pensar o mundo em que vive; ou sacrificará a si mesmo, sua percepção, sua racionalidade, sua natureza...

Conciliar as exigências totais e descabidas do fundamentalismo ou da fé cega com a realidade do mundo externo não poderá. Ou será forçado a negar uma ou outra...

A tarefa do educador consciente outra não é que orientar o educando, buscando mostrar os pontos fracos do 'pensamento' mágico fetichista e argumentar habilmente sobre a excelência do padrão científico, sem no entanto exigir o sacrifício integral da espiritualidade ou da ideia de Deus. Importa como esse Deus e a espiritualidade são encarados e se concedem espaço a ciência... neste caso serão elementos irrelevantes.

Importa que o educador científico jamais reproduza os erros ou crimes perpetrados pelo educador fundamentalista. Que jamais recorra a imposição, que jamais argumente desonestamente, que jamais impeça o outro de contra argumentar, que jamais perca o bom humor a jovialidade, que jamais recorra a qualquer tipo de violência, etc

Deverá ser firme sim, mas dentro de sua área que é a imanência.

Abstendo-se de pontificar sobre as demais áreas da existência.

Deverá concentrar sua atividade em termos de processo evolutivo, buscando expor as evidência e problematizar.

Sem jamais abordar assuntos propriamente religiosos ou metafísicos, exceto se a iniciativa partir dos educandos.

Neste caso convém esclarecer sempre que se tratam de opiniões pessoais e permitir que os alunos contraponham suas próprias opiniões e crenças, num clima de mútua compreensão e tolerância.

Importar lutar para por cada coisa em seu lugar: a fé na transcendência e a experiência na imanência.

Abstendo-nos de exercer um fundamentalismo invertido e termos de irreligiosidade, materialismo e ateísmo.

E de tornar as verdades científicas amargas e desagradáveis para as massas.

Evitemos associações artificiais e arbitrárias. Abstendo-nos de metafisicar em torno de ideologias.

Fixemos a atenção apenas e tão somente nos fatos e teorias verdadeiramente científicos.

Tomando por guias as palavras do Filósofo: "Os extremos quase sempre de tocam e a verdade esta quase sempre no meio."

Sejamos cautelosos sem ser medrosos e firmes sem ser intolerantes, exercitando a paciência com os mais jovens!







sábado, 10 de outubro de 2015

Como afirmar o evolucionismo perante seus alunos! II

Continuação

3 - Caso seu aluno diga: Acaso o senhor já observou a evolução acontecer?

Poderá responder-lhe da seguinte maneira:

Sabe quanto tempo é necessário para a formação de uma Ilha no Delta de um rio (como o Nilo, o Tigre, o Eufrates, o Prata ou o Amazonas)?

Quatro, cinco, seis mil anos ou até mais tempo.

De fato não podemos acompanhar o desenvolvimento da vida de uma Baleia ou de um Elefante, animais que via de regra vivem mais tempo do que nós.

Nem por isso deixamos de saber quanto tempo vivem tais seres. Porque aquilo que observamos é completado pelas observações das gerações seguintes.

É verdade que geração alguma de seres humanos dedicou-se a observar e relatar o crescimento das sequoias gigantes, abetos, pinheiros, carvalhos, oliveiras... sujo desenvolvimento dura séculos ou mesmo milênios.

Basta no entanto que contemos os anéis de seus troncos para que obtenhamos a resposta...

Humano algum poderia ter assistido a deposição salina no fundo dos Oceanos ao cabo de centenas de milhões de anos... No entanto como o sal continua sendo depositado até hoje em um ritmo mais ou menos regular a cada ano, podemos mensurar o total da deposição e dividir esse total pelo tamanho de uma faixa anual...obtendo um resultado matematicamente exato.

Percebe como os processos que envolvem a natureza ultrapassam o limite da vida humana?

Mas que apesar disto podemos quase sempre mensurar tais transformações em termos anuais e, consequentemente calcular a duração do processo 'in totum'?

Não podemos ver o que acontece em centenas de milhões de anos. Mas podemos ver o que acontece em um, dois, dez ou mesmo cem anos. A partir dai podemos pesar, medir, contar e conhecer com relativa exatidão a extensão do fenômeno.

É natural que nós, os seres humanos, tenhamos dificuldade em lidar com tais cifras numéricas, especialmente quando dizem respeito ao tempo.

O fato de não ter podido observar o curso do processo evolutivo não me impede de perceber que o processo evolutivo interliga e relaciona centenas de fatos que por si só permaneceriam isolados, imprimindo-lhes um sentido. Este sentido posso percebe-lo perfeitamente.

E você por acaso viu sua Bíblia - ou livro religioso - ser escrito ou seu deus produzir o mundo em seis dias?

4 - Caso o aluno seja sincero e responda que não viu mas que alguém lhe disse ou que esta escrito, poderá responder-lhe:

Neste caso estamos empatados pois também me disseram - e pessoas muito conceituadas  (poderá citar Dobikhaszy, Mayr, Jay Gould, etc) que os seres vivos evoluem, o que também esta registrado em nossos livros de ciência e biologia.

5 - Se o aluno rebater:

Acontece que a Bíblia é sagrada.

Poderá replicar: Sagrada para você mas não para os outros, para todos ou para mim.

Alias o fato de ser sagrada não a transforma em livro de Física, Química, Biologia, História, Geografia ou Sociologia.

6 - Se o aluno disser:

Sua evolução não foi testada!

Poderá responder:

Tampouco sua criação.

7 - Caso o aluno pergunte:

O senhor já viu um macaco se transformar em homem?

Talvez seja conveniente replicar:

E você já viu a divindade modelar um bonequinho de barro e soprar-lhe nas ventas?

(Perceba o professor que em termos de ver ou testemunhar poderá reverter a Bíblia e a Criação todo e qualquer argumento emitido contra a evolução!)

De minha parte não julgo o macaco menos honroso do que o barro ou o lodo; isto pelo simples fato do macaco além de ser vivo, ser animal e mamífero estando consequentemente muito mais próximo de nós do que um pedaço de barro.

Nem vejo como possa ser vergonhoso (para o homem, que é um animal) este laço de parentesco absolutamente natural.

8 - Se o aluno atalhar:

Não consigo perceber qualquer semelhança entre o homem e o macaco.

Poderá replicar:

Neste caso como consegue perceber qualquer semelhança entre o ser humano e um torrão de barro?

Uma coisa é certa> há mais chances de relação entre as coisas próximas e semelhantes do que entre as distantes e diferentes...

Por outro lado nem poderia eu ter observado qualquer macaco transformar-se em humano pelo simples fato de que o macaco não é ancestral mas colateral (primo) do ser humano. Queremos dizer com isto que descendem ambos de um mesmo ancestral comum, no caso um primata.

Este ancestral como da classe dos primatas não era nem macaco nem homem mas alguma outra coisa.

9 - Caso seu aluno dispare:

Ouvi dizer que a Evolução não passa de uma teoria como a Criação.

Convém responder-lhe:

Seu equivoco consiste a acepção vulgar ou profana da palavra, segundo a qual teoria seria o mesmo que hipótese, opinião ou suspeita. Cientificamente no entanto 'teoria' nada tem a ver com hipótese ou opinião, muito pelo contrário, cientificamente 'teoria' refere-se a um explicação geral que liga ou unifica certo número de fatos isolados comunicando-lhes um 'sentido'.

Órgãos vestigiais, fósseis, especiação regional são alguns dos elementos ou fatos solidamente unidos pela teoria evolucionista.

Já a criação sequer pode ser encarada como hipótese científica e isto por uma razão bem simples: a formulação de qualquer hipótese científica é sempre posterior a investigação da natureza. A narrativa da criação mágica no entanto precede em milênios a codificação do método científica; merecendo ser classificada como uma crença 'a priori' ou seja anterior a qualquer tipo de observação. Propriamente falando a narrativa do Gênesis não passa de um mito ou duma explicação em torno da origem das coisas, tomado de empréstimo - pelos sacerdotes israelitas - a cultura dos antigos Sumérios.

A Criação não pode a título algum ser classificada como 'teoria' hipótese rival da Evolução mas como um mito aprioristicamente construído. Resumindo: A evolução se sustenta porque parte dos fatos ou do material examinado para a explicação, a criação é totalmente furada porque parte do livro ou da narrativa para a realidade, cabendo a esta adaptar-se a narrativa contida no livro... Apesar disto a natureza não se adapta.

10 - Aqui é possível que algum aluno questione:

Não é melhor acreditar no testemunho de Deus no que no testemunho dos homens?

Neste caso poderá seguir este roteiro:

O problema aqui não é Deus.

Jamais o vi dar entrevista na TV dizendo que criou o mundo em seis ou dez dias!

O problema aqui é o livro ou melhor os livros. Pois diversos livros tem a pretensão de corresponder as palavras de um deus, assim os Vedas, os Gatas, a Torá e o Corão, dentre outros.

Conclusão: Os adeptos do criacionismo estão divididos e cada qual apresenta uma narrativa diferente a respeito da tal criação.

Neste caso por que preferir, sem mais, a narrativa escrita pelos antigos israelitas e não qualquer outra?

Quanto ao testemunho de Deus e ao dos homens, penso que cada qual deva ter seu lugar.

11 - Como assim professor?

Uma vez que Deus mesmo concedeu ao homem capacidade suficiente para perceber - através de seus sentidos - e compreender - através da razão - o universo em que vive não vejo porque deveria 'revelar-lhe' qualquer coisa neste sentido.

Parece-me que o ato de revelar esteja posto para as coisas ocultas ou seja inacessíveis aos sentidos e a razão humana.

Neste sentido até posso compreender que o Deus invisível revelasse algo sobre seu Ser ou sua vontade; conhecimentos aos quais nós seres humanos não temos qualquer acesso.

Quanto as questões em torno da origem do universo, da vida e das sociedade humana julgo ter concedido aos mortais a incumbência de investiga-las a partir de suas próprias capacidades, do contrário te-lo-ia constituído inepto para tanto... Apesar disto este homem sente, percebe, reflete e julga.

Concluindo: Que Deus revele-se a si mesmo parece-me possível, agora que aspire passar por professor de cursinho universitário é perfeitamente escuso ou desnecessário.



quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Como afirmar o evolucionismo perante seus alunos! I

Nada mais desagradável do que um ambiente hostil. Nada mais desagradável do que ter de dizer verdades duras a uma platéia que não deseja ouvi-las. Nada mais desagradável do que ter de dialogar com fanáticos e sectários.

São coisas que ninguém gosta de fazer.

Mas que no entanto precisam ser feitas, devem ser feitas.

Poucos de nós gostam de passar suas próprias roupas ou de lava-las ou ainda de preparar a própria refeição. No entanto caso não possuamos os recursos necessários teremos de faze-lo e pronto. É algo necessário, que se deve fazer...

No curso da vida sempre nos depararemos com coisas que não gostamos de fazer.

Mas que precisarão ser feitas.

No curso da vida não desejaremos fazer muitas coisas.

Mas deveremos faze-las.

Afinal não são nossos gostos que definem a realidade ou fixam as leis.

Quantas vezes somos incapazes de satisfazer nossos gostos e desejos...

Menos mal...

Coisas há no entanto as quais não nos podemos furtar.

É imperativo categórico, dever, necessidade.

Assim construir um mundo melhor, assim lançar os fundamentos duma sociedade mais tolerante, assim redirecionar o que esteja mal direcionado, assim auxiliar as pessoas a redefinir seus valores, e por ai vai.

Nem sempre poderemos passar a mão da cabeça das pessoas e declarar que estão agindo corretamente.

Nem sempre poderás concordar, aprovar e aplaudir.

Nem sempre poderás ignorar e desculpar.

As vezes terás de ter coragem suficiente para afrontar, denunciar, corrigir, resistir, discordar...

Terás de ter ousadia. A ousadia de contrariar ou ser do contra.

Especialmente no ambiente escolar.

Onde temos mentes e carácteres sendo formados.

Onde temos de educar em termos de reorientar, redirecionar e corrigir.

Onde temos de afirmar certos princípios.

Mas o que tem tudo isto a ver com o ensino do evolucionismo.

No momento presente, em que mais e mais um certo ideário religioso importado dos EUA, consolida-se entre nós, tudo. No momento em que as religiões de caráter mágico fetichista tornam a expandir-se em níveis nacionais e globais, tudo. No momento em que o criacionismo passa da defensiva ao ataque em nossas escolas públicas, tudo!

Raro o professor - de ciências, biologia ou mesmo de história, geografia ou filosofia - que já não foi rudemente questionado ou mesmo atacado por algum aluno em nome da tal inerrância bíblica e do criacionismo??? Quem de nós já não ouviu frases como esta:

"Nossa professor, o senhor acha mesmo que o homem veio do macaco?"

ou

"Quer dizer que o senhor prefere acreditar nesse tal de Darwin a acreditar na Bíblia?"

ou ainda:

"Esse negócio de evolução é uma teoria de origem humana."

Etc, etc, etc

Não poucas vezes a abordagem dos pequeninos chega a ser insidiosa.

Diante disto não poucos professores optam por silenciar.

Tendo em vista uma falsa compreensão da liberdade religiosa.

Outros até chegam a concordar, o que é pior ainda.

Já ouvi professor acuado declamar: Cada um tem sua verdade, para mim é a ciência ou a evolução, para você a fé ou a Bíblia; e cada um fica com a sua!!!

Nada mais especioso, nada mais venenoso...

Diante de tantos desfalques decidimos fornecer ao educador crítico, reflexivo; que não pretende nem se omitir nem concordar, uma série de estratégias pedagógicas destinadas a ensinar a teoria da evolução em sala de aula dirimindo todas as possíveis objeções levantadas pelo fundamentalismo.

1 - Se seu aluno perguntar: E se desejar crer na Bíblia e rejeitar a doutrina da evolução?

De fato você pode escolher acreditar no que quiser: numa vaca voadora, no coelhinho da páscoa, no drácula, etc e nem por isso muda a realidade.

Pode negar a existência do Sol e ele não deixará de brilhar. Sua opinião ou sua crença não incomoda o universo nem o comove.

Milhões de pessoas creem na existência de Ganesha, mesmo assim você nega a existência desta entidade e percebe que não existe. Pois as crenças não alteram a realidade do mundo.

Claro que você pode crer que existe um conteúdo científico na sua Bíblia, isto no entanto não torna sua crença verdadeira. E posso sempre insistir que sua fé esta equivocada!

Clado que pode crer no mito judaico da criação, o que lhe dará um visão de mundo cientificamente inexata.

O que você precisa fazer é investigar as coisas detidamente e sem preconceitos.

Investigar primeiro e julgar depois.

Assim se estudar detidamente a teoria da evolução e depois chegar a conclusão de que esta errada, merecerá ao menos o título de homem honesto!

2 - Meu pastor disse que a evolução não é verdadeira.

Resposta: Será que seu pastor já leu algum livro sobre evolucionismo?

Se leu será que compreendeu?

Ou será que limita-se a ensinar o que ouviu de outros pastores?

Será que ele investigou o assunto?

Do contrário a opinião dele valeria tanto quanto a de um boato.

Fulano disse, que disse, que disse e ninguém investiga nada... vai ver e o boato é falso. Oh coisa feia.

Para dizer que uma coisa é verdadeira ou falsa deve-se antes de tudo conhece-la.

Se quiser poderá acrescentar: eu li diversas partes do antigo testamento e cheguei a conclusão de que aquilo não poderia ter sido real. Pode citar o exemplo dos anjos tendo relacionamento com as filhas dos homens, o dilúvio, a morte de Golias por três personagens diferentes, a fábula da burra de Balaão, a narrativa de Jonas no ventre de um peixe, etc


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