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domingo, 10 de setembro de 2017

Por que os professores se tornam socialistas ou comunistas - Uma leitura de Max Nordau


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Após ter, apenas de passagem, aludido a minha fé Socialista numa determinada redê social de que faço parte, um de meus amigos enviou-me a seguinte mensagem:

Percebo que a maioria dos professores são comunistas - socialistas, por que?
Existiram e existem vários lugares em que não deram certo.
Na prática aqui no Brasil daria certo?
Não é uma ideologia ultrapassada?
A ideia de Marx daria certo no nosso contexto hoje?

Por tratar-se de um jovem sincero e de boa vontade, animado pelas melhores intenções e não de um 'conspirador burguês e malvado' segundo o clichê de alguns radicais, vou tentar responder as questões levantadas segundo minhas possibilidades.

Como se tratam de cinco questões, vamos por partes, analisando uma de cada vez.

Percebo que a maioria dos professores são comunistas - socialistas, por que?

De modo geral não sei se a maioria dos professores são socialistas e menos ainda comunistas.

Eu suponho, diante da distinção que faz - socialistas/comunistas - que esteja a par da diferença existente entre os socialistas ou sociais democratas (grupo com que me identifico) e os comunistas, bolchevistas, marxistas ortodoxos, etc

Seja como for vou reforçar. A distinção é muito bem marcada por Kautsky discípulo de Engels nas Tres fontes do marxismo em suas derradeiras páginas; retomada e muito bem exposta pelo argentino Lisandro de La Torre no seu "A questão social e os cristãos sociais". Lisandro na esteira do velho Kautsky declarava que embora os objetivos do Socialismo e do Comunismo sejam próximos ou mesmo idênticos, eliminar a injustiça e estabelecer uma condição de igualdade social, estão em desacordo quando aos métodos uma vez que o socialista, via de regra, aceita a via institucional da democracia e das sucessivas reformas enquanto o comunista, via de regra, opta pela solução da força ou da sedição.

Sem embargo disto há outras disparidades não menos importantes; o aparato conceitual do Comunismo é um. Os socialismos possuem diversos aparatos conceituais, mas, em geral não dogmatizam ou insistem doentiamente sobre o ateísmo e o materialismo, havendo inclusive grupos de Católicos que sempre se apresentaram como socialistas ou sociais.

O comunismo é monolítico. São chamados 'revisionistas', 'traidores' ou renegados os que flertaram com alguma forma de social democracia; assim Plekhakov, Kautsky, Bernstein, Rosa, Bukharin, Lucaks, Althusser, etc Os quais são para o PC o que os heréticos são para a Igreja Católica. Socialismos há quanto cabeças, o Católico, o marxista heterodoxo, o anarquista, o humanista, o babovista, o georgista, o keynesiano, o distributivo, etc

Todo o que pretenda controlar externamente o Mercado, no mínimo grau, interferindo em sua dinâmica externa, pode ser definido, partindo do conceito liberal, como socialista.

Quanto a sua pergunta não tenho certeza de que a maioria dos professores atuais seja socialista.

Talvez tivessem constituído a maioria - provavelmente constituiram - entre os anos 60 e 80.

Hoje sua prevalência da-se apenas no campo das ciências humanas e o mínimo que podemos dizer é que de modo geral os professores de humanidades - História, Geografia, Sociologia, Filosofia e Psicologia, dentre outros - adotam uma postura crítica face ao sistema capitalista, que suspeitam dele, que repudiam-no e que uma parte considerável do professorado adere a algum tipo de solução socialista, havendo até certo número de comunistas.

Seja como for a identificação do professor de humanas ou mesmo de História com o militante comunista não prevalece.

Quanto ao professorado de modo geral, englobando os professores de ciências exatas e naturais, posso dizer que há um bom número de neutros e não posicionados a respeito dos problemas sociais, e um resíduo de liberais e conservadores cada vez mais atuante.

Por que a maior parte dos professores de humanidades são socialistas?

Tal sua pergunta.

Num primeiro momento direi que os professores de humanidades tendem a refletir bastante sobre o homem e a sociedade levando em conta a diversidade história no decorrer do processo histórico. Quero dizer que costumam ter uma visão de conjunto, bem mais ampla que a do leigo, e que amiúde levam em consta as variantes.

O que os leva a questionar a realidade dada ou predominante.

A maioria de nós é levada a crer a a pensar que o mundo sempre foi tal e qual o encontramos ou que as sociedades não mudam.

O Historiador no entanto pode traçar uma lista cronológica em que conste o ano em que surgiram o computador, o avião, o automóvel e tudo quando o homem de hoje julga ser indispensável a vida.

Ele sabe até mesmo que diversos modelos de organização social, assim de matrimônio, vigoraram em determinadas épocas e locais.

O que o leva a adotar uma postura tanto mais crítica e questionadora a respeito do atual modelo de organização social.

Geralmente imaginamos que as coisas são assim porque são e que não poderiam ser de outro jeito.

O Historiador, o Sociólogo, o Geógrafo, vão noutra direção e costumam a indagar se as coisas não poderiam ser diferentes e por que são diferentes.

Tendem portanto a não se contentar com o que é, tendem ao progressismo ou a mudança. O que já os aproxima do Socialismo.

Agora por que aderem a soluções socialistas?

Primeiramente porque mesmo no tempo presente - embora cada vez menos - o socialismo subjaz na cultura e especialmente no terreno da ética.

Basta dizer que nossas Sociedade até bem pouco tempo foi agrária e tradicional. O índice de coesão social e solidariedade mesmo sendo inconsciente, é bastante marcante em tais sociedades.

Temos, em nossa maior parte, ancestralidade indígena. Os índios certamente não possuem uma ideologia ou teoria socialista - como não há possuíam os antigos orientais, inclusive os judeus - na prática todavia seu modo de viver esta mais perto do modelo socialista pelo simples fato de que os índices de coesão social e de solidariedade são marcantes em tal sociedade. O que vale para todas as comunidades primitivas cf A grande transformação de Karl Polayni 

Oriundo de uma Sociedade agrária e tradicional também o Catolicismo trás este legado socialista em seu bojo. Haja visto que nossa oração padrão é o Pai Nosso não Pai meu e que nossa liturgia também possui certo índice de consciência social. A adoração Católica é regulada ou comum.

O que quero dizer é que o socialismo esta no ar ou na cultura e que suas raízes no Ocidente remontam a Sócrates, Platão e Aristóteles de modo que o simples estudo das doutrinas sociais destes pensadores nos põem em contato com ele.

Os próprios romanos apesar de sua boçalidade insistiram demasiadamente a respeito do que chamamos justiça e criaram todo um aparelho legal destinado, ao menos em parte, a promove-la.

Para onde olhamos damos com um socialismo difuso presente em diversas fontes. Não precisamos sequer olhar para Marx ou recorrer a ele.

Aqui estão Platão, Jesus e Treboniano em coro dizendo que algo esta errado em nossa Sociedade... E insistindo aqui e acolá numa princípio ideal chamado justiça.

Segundo o qual deve ser dado a cada um o que lhe pertence.

O próprio Marx, que folgava ser ateu, principia suas críticas no capital, tomando um verso do antigo testamento - não dos esqueçamos de que um dos Isaías insiste bastante a respeito da justiça em sua dimensão social - "Ganharás o pão com o suor do teu rosto." o que o leva questionar sobre o porque daquele que sua não ter pão ou morrer de fome enquanto aquele que não sua banquetear-se fartamente... Estará isto de acordo com a tal ordem divina???

Se colocarmos a pergunta nestes termos: Estará isto de acordo com a ordem natural? ou ainda Estará isto de acordo com a Ética? Não mudamos muita coisa...

De modo que tal pergunta ocorre muito facilmente aos estudiosos no campo das ciências humanas.

Há no entanto um outro fator decisivo que empurra os professores de humanidades a uma solução socialista.

Em geral os professores são pessoas muito inteligentes, as quais por algum motivo - quase sempre de ordem econômica - não puderam tornar-se bacharéis no ramo em que licenciaram-se ou seja advogados, beletristas, psicólogos, sociólogos, historiadores, etc Tornamos mais uma vez a questão das elites que são circulam ou dos homens capazes que não ascendem socialmente.

O máximo que tais pessoas conseguem é se tornar professores ou funcionários públicos, quiçá inserindo-se na ordem mais baixa da classe média.

Um professor, especialmente se funcionário público não ascenderá aos píncaros da classe média e menos ainda comporá com as elites dirigentes.

Em geral as pessoas mal informadas, medíocres, sofridas, faltas de inteligência, alienadas, etc conformam-se com o que tem. Pelo simples fato de que suas necessidades pessoais são básicas ou porque ignoram quais as condições de vida das elites. cf Max Nordau 'Mentiras convencionais de nossa civilização'
O funcionário público, em geral o professor, não só é melhor informado sobre o regime de vida das elites, como ciente de seus méritos e possibilidades. Tornando-se consciente de que não ascende ou de que não vai mais longe porque é barrado e barrado justamente por um sistema que alega hipocritamente franquear-lhe todas as possibilidades. Mas ele sabe que esta fadado a ser professorzinho de aldeia, jamais medico da corte ou advogado de renome...

Como qualquer pessoa este professor ou funcionário público tem sua família e despesas. Foge a penúria, satisfaz suas necessidades básicas definidas como alimentação, roupa, educação dos filhos, etc num termo médio de insumos. Mas certamente não lhe resta nada ou quase nada. Para viver ou manter-se gasta tudo quanto ganha, quando, por ocasião de uma crise não se endivida e passa por apuros.

E no entanto este tipo de homem, intelectualizado, não vê porque deva passar por apuros e vexames ocasionais sendo bem mais sensível a eles do que qualquer outro homem. Inimaginável a posição de um pequeno funcionário público, professor de aldeia ou intelectual de periferia, que esteja prestes a perder sua única casa... Há quem aceite o fato e vá para o cortiço ou para debaixo da ponte debulhado em lágrimas. Quanto a este homem, simples ameaça ou perigo remoto de passar por semelhante situação é capaz de leva-lo ao paroxismo, a instabilidade ou insegurança econômica inerente ao sistema capitalista incomoda-o instintivamente.

E no entanto este professor de aldeia ou pequeno funcionário público aspira ler Ovídeo ou Italo Calvino (cultura tem custo), ir ao Teatro, frequentar assiduamente o cinema, bebericar um Benedictine ou Hanessy, adquirir lá uma tela ou antiguidade, etc Tem necessidades estéticas ou culturais que não são experimentadas por outras categorias da sociedade. Aspira, inda que moderadamente, ter acesso aos mesmos prazeres que a elite econômica cuja mediocridade costuma perceber. Destarte saber que eles podem provar patê de figado de ganso ou assistir a Antígona, enquanto ele não pode, exaspera-o. cf Nordau.
O Intelectual ou homem capacitado que não atinge seu fim por saber-se limitado arbitrariamente já pelas oportunidades iniciais impostas arbitrariamente pelo sistema, torna-se frustrado, revoltado, exasperado... E naturalmente abraçará a uma proposta qualquer que acene com o velho ideal da justiça: A cada um o que lhe pertence.

Aspirará no mínimo por chances ou oportunidades iguais para as crianças e jovens (seus filhos e netos) ou por uma igualdade absolutamente necessária no começo da corrida.

Os professores via de regra são intelectuais e enquanto tais mais sensíveis a qualquer grau de injustiça, miséria, privação ou necessidade, e este aspecto psicológico tenderá, em caso de que a circulação das elites seja estancada - o que o capitalismo não cessa de fazer - a lançar todos estes homens e mulheres descontentes nos braços do Socialismo. Quanto aos princípios e valores já estão embutidos e dispersos por toda cultura latina e brasílica.




Dialogando com Marx, Weber, Pareto e Toynbee

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A Ética apenas assume com absoluta propriedade um caráter de normatividade, determinando como as coisas deveriam ser e projetando seu discurso num tempo futuro.

A psicologia, como a medicina convencional é normativa no sentido em que os fenômenos por elas identificados produzem, no elemento humano, certos efeitos desagradáveis, que eles humanos aspiram ver eliminados. Via de regra há acordo entre o médico e o psicólogo e seus pacientes no sentido de que determinada realidade corporal ou psicológica deva ser eliminada, e portanto quanto a sua avaliação negativa em termos mais ou menos subjetivo.

Sempre poderíamos estender o problema da Medicina e da Psicologia a Sociologia partindo do suposto que existam determinadas patologias sociais que precisam ser eliminadas e não apenas detectadas e descritas. Para alguns críticos seriam tão monstruoso limitar-se a descrever certas realidades sociais quanto limitar-se a descrever certas patologias somáticas ou psíquicas e recusar-se a interferir eliminando-as.

No entanto a situação a ser encarada não é assim tão simples quanto parece pelo simples fato do corpo e da mente humanos formarem uma unidade mais orgânica ou evidente do que por assim dizer o corpo ou grupo social, cuja unidade nem sempre é conscientemente percebida ou sentida por todos os membros com a mesma intensidade. Havendo quem vida em sociedade e não tenha qualquer índica de consciência social. Enquanto a unidade física e mesmo mental parte de determinado fundamento material que geralmente não ousamos questionar seriamente, a unidade social supõem sempre e necessariamente um nível de consciência mais acurado ou uma prévia educação de implique determinados princípios e valores, os quais tanto podem reforçar quanto diminuir a percepção social do individuo, isto a ponto de alguns não se sentirem como pertencentes a qualquer grupo social, encarando a si mesmos como elementos isolados, tal o ponto de vista do individualismo.

Destarte o problema da estrutura social, da organização social, da consciência do social e do pertencimento esta diretamente relacionado com o problema da cultura e com a dimensão ética da vida, da formação, dos princípios e dos valores que recebemos.

Não é certamente questão de Sociologia pura a questão da Sociedade ideal porque aspiramos. Isto porque os indivíduos tendem a conceber a Sociedade futura em termos bastante diferentes ou até opostos, conforme os princípios e valores que cultivam. Assim se temos uma proposta socialista, outros tem uma proposta individualista ou liberal economicista. Como afirmar que ambas as propostas antitéticas tenham o mesmo fundamento: a percepção, a experiencialidade, a cientificidade enfim? Ao menos no campo da Sociologia a ideia de uma normatividade empírica, objetiva e científica se nos parece no mínimo problemática e nem vemos como o campo da Sociologia possa superar a divisão reinante entre os modelos Socialista e Capitalista de organização social, os quais são excludentes e inconciliáveis por definição.

Destarte ao que chamam Normatividade Sociológica prefiro transferir honestamente para o terreno da Ética ou dos princípios e valores ideais propriamente ditos. Reconhecendo que é a Ética e não a Sociologia que cabe examinar e discutir a questão dos princípios e valores que o positivismo tão arrogantemente despreza por ser metafísica ou especulativa. Separamos a Sociologia da Ética - negando portanto seu caráter normativo - não negamos a Ética, pelo contrário assumimos a ética essencial ou objetiva da pessoa nos mesmos termos que o velho Sócrates. Apenas não temos a vã pretensão de vende-la como algo perceptível, empírico ou científico.

Marx, já o dissemos e repetimos umas mil vezes, não tirou seu modelo de sociedade futuresca, isento de contradições e injustiças daquilo que é ou por via da experiência, mas da Ética e da Ética Cristã/Católica que lhe havia sido inculcada por Wietling, tal sua fonte em termos de cultura, princípios e valores; a qual nada tem de científica. O Socialismo, sejamos honestos e francos, nada tem de científico e menos ainda o comunismo que é uma forma de socialismo ainda mais radical ou extremista. Não existe Socialismo científico, a ciência Social termina com a crítica as contradições internas, materiais e econômicas existentes na estrutura do capitalismo. A Crítica econômica feita aos defeitos estruturais do Capitalismo, e cujo fim á demonstrar sua irracionalidade e inconveniência esta a precipuamente científica. E no entanto negar ou questionar o Capitalismo não equivale a substitui-lo por qualquer outra coisa inexistente ou por qualquer projeto futuro. Tudo e qualquer projeto social voltado para o futuro pressupõem sempre e necessariamente determinados princípios e valores, os quais são de natureza ético/especulativa ou metafísica e não de natureza empírico/científica.

Em que pesem as manobras ideológicas feitas pelo sr K Popper, há um conteúdo científico em Marx, sua crítica formal a estrutura capitalista vazada no 'Capital', de par com um elemento utópico ou futuresco - de natureza ética - vazado no 'Manifesto comunista' e que é o próprio comunismo. O comunismo, como toda crítica ao que temos ou ao que é dado, supõem sempre uma ordem natural que toca a essência das coisas e com que deva conformar-se a realidade, sendo a realidade mensurada pela idealidade. E já percebemos que esta petição metafísica não vai bem com o ateísmo e o materialismo professados pelo próprio Marx. Temos aqui um corpo sem pernas... Incapaz de sustentar-se face a uma crítica mais acurada e que por isso mesmo vem ao chão.

Com efeito, caso me perguntassem sobre o que é dado ou o que vejo em termos de organização social, teria, surpreendentemente, de concordar com o diagnóstico de Wilfredo Pareto mesmo nas sociedades mais avançadas e socialmente equilibradas - como a dos antigos incas - não se foge a regra e tudo quando vemos, ao menos ate a atualidade pode ser sim definido em termos de massas e elites. Assim o que vemos são massas controladas por elites e as elites controlando e oprimindo as massas. Importa segundo Pareto que as diversas estruturas sociais garantam aos elementos mais bem preparados, talentosos ou merecedores, acesso aos nichos sociais mais elevados ou a posições de controle, movimento por ele denominado 'circulação das elites'. Uma Sociedade qualquer em impeça a ascensão dos elementos mais bem preparados é uma sociedade ineficaz, não funcional e portanto a beira do abismo ou prestes a entrar em colapso.

A análise de Pareto não me parece nem um pouco forçada ou artificiosa caso observamos aquilo que temos ou aquilo que é dado e Sociedade alguma me parece fugir a este paradigma. Isto a ponto do atilado Pareto partindo com que é dado, ter elaborado sutilmente uma teoria de elites, que muito sutilmente veio a assumir um caráter metafísico, em oposição a proposta socialista. De fato os sucessores e colaboradores de Pareto no afã de opor algo de mais consistente ao Socialismo, atreveram-se a ultrapassar a demarcação positivista ou weberiana e a declarar que a Sociedade não apenas tinha sempre sido assim, mas que certamente sempre haveria de ser assim. De modo que os adeptos da teoria elitista, partindo da análise científica de Pareto, e assumindo um tom de previsibilidade característico apenas das ciências exatas, deram-se a profetizar, asseverando que a dominação da Massa pela Elite implica uma dinâmica natural, essencial e portanto imutável... Produziram assim um discurso tão metafísico quanto o socialista, partindo do que é para concluir a respeito de como sempre seria...

Cumpre aqui estabelecer o mesmo critério já assumido quando a Marx a analise de Pareto em termos daquilo que é nos parece perfeitamente objetiva e válida. Já a postura assumida por seus discípulos segundo a qual Pareto teria descoberto um movimento responsável por regular todas as Sociedades para todo sempre, i é o elitismo, merece ser situada com o Socialismo e o Comunismo no plano abstrato metafísico da idealidade.

A bem da verdade, sempre que observamos as Sociedades de mais perto, tendemos a concluir que a decantada superioridade das elites acha-se na dependência de diversos fatores, em sua totalidade acidentais ou culturais e não essenciais - assim a força acima de tudo e em seguida a educação ou as crenças religiosas. Há um conteúdo de esperteza aqui. O qual hipoteticamente sempre poderia ser assimilado ou cultivado pelas massas... associado a um conteúdo de coerção física. Nada que toque a essencialidade do ser pressupondo uma dinâmica eterna e imutável.

A princípio as relações entre opressores e oprimidos tinham por padrão a força bruta. Cujo emprego teve de ser repensado na medida em que a humanidade evoluia em termos de Ética e de Cultura, questionando este tipo de padrão e classificando-o como inadequado. Curiosamente as religiões, amiúde classificadas como obscurantistas, tiveram um papel significativo dentro deste processo. Assim o culto egipcio de Aton, o Zoroastrismo, o Budismo e o Catolicismo antigo.

Na medida em que o padrão da força era questionado as diversas sociedade em questão tiveram de refinar os meios de controle ou de produzir um novo meio de controle, a saber um meio de controle ideal, imaterial, ideológico, formativo em termos de logro ou esperteza. Desde então o objetivo foi tentar convencer as massas de que eram massas e de que deviam ser controladas, oprimidas, dirigidas ou governadas porque este tipo de relação - senhor e súdito - havia sido disposto pelos deuses (ou por Deus) ou - numa leitura metafísica - pela natureza. Daí o sucessivo apelo a instâncias culturais como o templo, a escola, etc A religião teve de ser mais e mais cooptada pelo poder político e a educação monopolizada por ele tendo em vista a formação de uma consciência subserviente e conformada.

Desde então as massas foram ensinadas a crer que deviam ser comandadas em razão de sua inferioridade essencial. Impuseram-se as relações elitistas mas por via da cultura ou do logro. Claro que a situação de desigualdade era fabricada e reforçada pela fruição desigual dos bens materiais e meios de produção, pela falta de acesso a informação e em última análise pela própria força. O elemento chave no entanto era o discurso filosófico ou religioso, cujo termo final era a essencialidade. Então o que salta a vista aqui é a produção, artificiosa, de uma cultura da submissão, da divisão social e da hierarquia, tudo humano, muito humano e nada transcendente.

Este tipo de relação conseguiu predominar, no Ocidente; ao menos até a Revolução Inglesa de 1649, na qual, por primeira vez damos com um ideal igualitário ao menos em termos políticos representado por Liliburne. Nem por isto deixa esta Revolução de ser burguesa e eminentemente burguesa pelo simples fato de que o ideal igualitário jamais deixou de ser ideal para ser aplicado em qualquer uma de suas fases.

Outra e totalmente distinta era a situação da Revolução Francesa, cujo substrato cultural era bem outro (Católico inda que a fé Católica estivesse em declínio). Nela por primeira vez, com o virtuoso e incorruptível Robespierre temos uma fase socialista ou popular cuja continuidade - malograda - foi assumida por Babeuf. 

Com a Revolução Russa de 1917 topamos pela primeira vez na História (a exceção talvez da Comuna de Paris - 1870) com uma Revolução em que podemos identificar uma certa participação consciente de elementos populares tomados as classes mais baixas da sociedade, assim dos operários. Não queremos dizer com isto que os operários organizaram ou fizeram tudo ou mesmo que constituíram o elemento preponderante nesta Revolução, uma vez que os quadros ou líderes sairam em sua maior parte das classes médias. Temos no entanto a participação ativa e consciente de elementos populares, a qual deve ser assinalada como uma novidade.

Temos aqui parte das massas desmassificada e transformada em povo por meio de um processo educativo prévio ou de uma tomada de consciência. O que parece mostrar-nos que o caráter dos elementos constituitivos das massas não é natural ou essencial mas cultural e portanto mutável. O que parece apontar-nos sim para a uma saída policrática e socialista em termos de igualdade relativa, já em termos políticos já em termos econômicos.

É verdade que juntamente com a emancipação deste elementos, que deixam de ser massa para vir a ser povo consciente de sua missão enquanto agente da História, assistimos a um outro movimento curioso analisado por Ortega Y Gasset que é a rebelião ou sedição das massas, aqui sempre cegas, inconscientes e portanto manipuladas por outro segmento, seja progressista ou conservador. Sim, as massas também se movimentam, mas noutro plano - não formativo, educativo ou consciente - tanto mais imediatista do pão e circo; pedem pão, vinho, carne, roupa, espetáculos (carnaval, futebol, novela, etc), etc e dão-se por satisfeitas com isto, mesmo quando permanecem oprimidas pela Elite. Não poucas vezes no bojo de uma Revolução progressista o movimento das massas - cegas, inconscientes e manipuláveis - pode ser perigoso.

O Objetivo do Socialismo não pode ser levar as massas enquanto massas a rebelarem-se contra as elites porque um hipotético controle das massas seria ainda mais danoso. Sei que os socialistas não apreciam ouvir este discurso, mas o que buscamos é transformar as massas em povo consciente por meio de um processo educativo. Isto sob pena de jamais haver qualquer tipo de revolução - ou transformação significativa e impactante - a qual para ser bem sucedida deverá partir sempre do povo e não de quadros dirigentes. A tarefa precípua do 'partido' operário ou popular não é fomentar sedições elitistas de esquerda (Exceto se e quanto diz Engels a ordem democrática for profanada pelos próprios liberais cedendo espaço ao despotismo) mas produzir um povo i é uma multidão de pessoas conscientes a respeito de sua condição social e sobre a necessidade de muda-la.

Curiosamente o aspecto em que Marx e Mosca parecem estar de acordo é justamente a respeito da sansão ideológica e religiosa, ou da alienação, enquanto elemento chave para compreendermos a sobrevivência de tais modelos sociais no curso da História. Tais relações sociais, ainda que desagradáveis foram mantidas porque a instância ideal/cultural representada pela filosofia ou pela religião, dispos-se a ocultar/disfarçar as verdadeiras causas, sociais, da desigualdade. Até onde sabemos situação alguma de desigualdade social foi aceita enquanto tal (Exceto enquanto vigorava o padrão da força) pela parte oprimida, tendo em maior ou maior medida de ser disfarçada ou suavizada por um discurso essencialista de matiz religioso ou metafísico.

O que mais uma vez nos leva a questionar o tão decantado materialismo marxista. Afinal se a materialidade chã dispõem de tanta força ou poder por que as causas materiais, sociais ou culturais da desigualdade precisam ser disfarçadas por um discurso metafísico??? Se a materialidade é tudo porque em cada sociedade examinada a relação opressor/oprimido deve receber uma sansão religiosa para ser socialmente aceita? Se nada há de mais persuasivo do que a simples materialidade por que as relações sociais de dominação e domínio precisam recorrer a alienação, compreendida mormente como chancela social atribuída por uma instância ideal???

Este simples questionamento a respeito da força social do elemento ideal/imaterial é que conduz-nos naturalmente ao conceito de Mimesis formulado por Toynbee e nos ajuda a compreende-lo, de modo a que possamos compreender com maior propriedade ainda algumas situações de estabilidade quase ideal experimentadas por algumas sociedades. Por estabilidade quase ideal devemos compreender o que é chamado por outros como picos de civilização em que dada civilização intensificou seu ritmo de produção cultural numa escala incomum.

A título de exemplo podemos citar as seguintes situações sociais:


  • Os primórdios da Sociedade Sumeriana. Período proto Histórico até Urukagina de Lagash )ao menos em Lagash)
  • O Egito de Snefru e demais construtores de pirâmides, o Médio Império dos Sesóstris, o Novo Império de Tumósis III e Amenófis III, o Novo Império de Ramsés II (duvidoso para alguns) e a Renascença saíta.
  • A Babilônia de Hamurabi (duvidoso para alguns)
  • A Fenícia dos séculos X e IX a C
  • A Atenas do século V a C
  • A Bizâncio do século IV d C e a Bizâncio dos séculos IX - XII d C
  • A Europa do século XIII
  • Portugal do século XV
  • A França do século XVII

Para mim, dentre todas elas, o paradigma mais nítido é o da Atenas em seu período áureo.

Sem mistificar ou negar que em cada uma destas Sociedades permanece sempre algum índice de desconformidade ou desconforto - que nos impede de falar uma estabilidade absoluta - se nos parece que foram as que mais se aproximaram-se de um padrão 'ideal' em termos de Unidade ou aglutinação social. A impressão que temos ao encarar a Atenas do século V a C, a Bizâncio do século IX ou a França do século XVII é que determinada proposta ou ideário social, com todo um corpo de princípios e valores envolvidos, acabou sendo conscientemente aceita por cada grupo daquelas sociedades fazendo com que assumissem a própria condição dada, diminuíssem o atrito e em relativo equilíbrio intensificassem as produções culturais atingido um grau bastante elevado de civilização. É como se uma ideia ou um propósito impregnasse o conjunto de determinada sociedade suavizando a oposição existente entre os grupos. Esse assumir uma consciência comum - massas e elite, elite e massas é o que se chama Mimesis.

O que temos hoje em termos de cultura não é apenas a ausência da Mimesis ou da assimilação cultural por parte das massas - por vezes em movimento cego e inconsciente de sedição - mas a completa ausência de Unidade cultural mesmo entre as elites que dirigem ou pretendem dirigir nossas sociedades. Inexiste qualquer elemento comum em termos de cultura seja quanto as elites ou quanto ao setor médio da produção econômica. Elite, setor médio e massas orbitam em torno de ideários, princípios, valores e crenças totalmente diferentes. De modo que o estado de conflito entre os diversos grupos sociais, classes, setores, categorias, etc tende a ser cada vez maior e a pulverizar todas as estruturas. A falta de qualquer ideário ou proposta largamente disseminada ou aceita pela maioria dos elementos em cada classe ou grupo social indica-nos um período de dissolução.

Para complicar ainda mais as coisas temos a viva impressão de que o tão decantado mecanismo de circulação das elites não tem sido nem um pouco favorecido pelo sistema capitalista. A tentativa de demonstração feita pelos apologistas do Capitalismo e segundo a qual as famílias que dominavam o Mercado há cerca de cem anos não são mais as que o dominam nos tempos atuais não prova absolutamente nada. Dá por suposto o que deveria demonstrar isto é que os sucessores dos Carnegie, dos Ford, dos Astor, dos Vanderbild, etc são de fato os mais hábeis quanto a inteligência é claro... A menos que devamos compreender a elite de Pareto como uma elite de trapaceiros sem consciência os quais chegaram até onde chegaram não porque tivessem méritos mas porque não tiveram ética e foram capazes de tudo... Toda História registrada sobre o capitalismo contemporâneo conduz-nos a esta conclusão - não em termos de circulação de méritos ou de competência, e sim em termos de circulação de medíocres, ou mesmo de idiotas sem consciência.

De fato em tudo o Capitalismo aponta-nos a ascensão dos medíocres e não dos geniais, dos intelectuais, dos superiores, etc os quais parecem concentrar-se sempre nos setores médios da economia onde parecem ser propositalmente mantidos pelos senhores medíocres com o objetivo de serem usados. Parece haver um stock de intelectuais na classe média e não consigo compreender porque não conseguem ascender como grupo ao comando do sistema e porque devam prestar serviços aos medíocres que ocupam seu topo. Esta dinâmica não me parece corresponder nem um pouco a dinâmica apresentada por Pareto seja numa perspectiva Histórica ou ideal. O que percebo é a monopolização do comando das operações econômicas pelos medíocres sem consciência e um estancamento da circulação das verdadeiras elites, as quais no atual modelo jamais passam dos setores médios, quando deviam ascender ao topo...

Será esta situação desejável ou normal nos simples termos de Pareto (Por trás de cujas constatações tentam os capitalistas escudar-se)? Sou pela negativa. Certamente na medida em que os indivíduos mais aptos ou capacitados perceberem as limitações que lhes são impostas pelo sistema capitalista, e tornarem-se conscientes de que ocupam uma posição subalterna, tenderão a questionar, não menos que K Marx a viabilidade deste sistema e a necessidade de procurarmos outros modelos.