Mostrando postagens com marcador contradição. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador contradição. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 17 de julho de 2018

A dupla tradição do comunismo - Sua gênese e desenvolvimento

Resultado de imagem para Eduard bernstein






Conforme dissemos num artigo anterior, o Comunismo se nos apresenta, face ao anarquismo - particularmente face ao anarquismo proudhoniano, mas também face ao bakuninismo (Kropotkin foi quem pela primeira vez tento sistematiza-lo racionalmente polindo as 'arestas') - como um sistema bem mais simples, orgânico e coeso. Conhecendo certa coerência mesmo quando pelo cisma divide-se em correntes rivais. Cada uma delas parte de um princípio oposto presente na gênese da ideologia e desenvolvido até o fim. No anarquismo percebemos inúmeras ideias opostas e contraditórias sobrepostas como que flutuando. Além de esta cindido em duas tradições básicas: Ocidental e Oriental ou russa, o anarquismo encontra-se cindido em torno de inúmeras questões, inclusive práticas e suas correntes assemelham-se as seitas protestantes.

O marxismo, grosso modo, conhecerá apenas duas variedades: A um lado a Social democracia, seja a crítica ou prudente, de Engels, Bebel e Rosa; a moderada de Kautsky, Adler, Bauer, Gramsci, etc ou a radical de Bernstein e por ext dos fabianistas ingleses... O nível a que tais críticos aderem ao insercionismo pode variar quanto o grau, mas não quando a essência do conceito. A outro teremos apenas o jacobinismo radical, demolidor e iconoclástico de Lênin, Trotsky e turma. Os mencheviques de Martov e Axelrod inclusive, tendiam a solução social democrata...

Ainda hoje o marxismo achasse cindido entre comunistas ou leninista a um lado e sociais democratas, 'revisionistas', gradualistas, 'heterodoxos' ou reformistas a outro. E aqueles que arrogantemente revindicam para si o título de 'Ortodoxos' ou fiéis, apegando-se a um aspecto do pensamento de Marx como pronto, acabado e imutável - quando jamais deixou de ser repensado ou revisto pelo próprio Marx - não tem deixado de fazer suas mãos pesarem sobre aqueles que encaram como heréticos, mesmo quando hipocritamente criticam a Igreja Católica.

Importa saber que esta situação característica do marxismo é insuperável ou insolúvel.

Mas por que?

Porque uma e outra corrente partem de dois princípios antitéticos presentes na gênese do pensamento marxista. Quiçá o jovem Marx até tenha pensado em concilia-los, mas só podia falhar, como de fato falhou.

Agora que elementos ou princípios contraditórios Marx buscou unir e qual a gênese de cada um deles?

A um lado temos um ideal de Revolução jacobinista expresso pelo conceito de conjuração levado a cabo por uma elite minoritária. Este ideal foi tomado por Blanqui ao babovismo e transmitido ao jovem Marx, que incorporou-o ao primitivo conceito de Revolução, anterior a 1848. É a ele que se refere Engels no prefácio de 1895 e Bernstein em seu estudo a respeito das fontes ideológicas do marxismo.

Este ideal de Revolução implica admitir que um grupo de heróis ou de homens superiores; um 'quadro' enfim, pode mudar por si só o curso da História, o que nos faz lembrar a noção de herói em Carlyle ou mesmo em Sorel. Implica saber que nem Carlyle, nem Sorel e finalmente nem mesmo Babeuf eram ateus ou mesmo materialistas. Daí terem enfatizado ou salientado o potencial da ação humana, mesmo na esfera individual. Eles certamente acreditavam que a História podia ser adiantada e ignoravam a noção de processo histórico e condicionamento material. Blanqui, que a ser ateu e materialista assimilou o pensamento insurrecionista de Babeuf, era, tal e qual Bakunin, um homem simples ou intelectualmente vulgar. Não podia perceber a contradição entre o método recomendado por Babeuf e as decorrências de seu próprio modelo de pensamento; tampouco o jovem Marx foi capaz de percebe-lo porquanto guiado pelo entusiasmo.

Marx no entanto fora bem mais atilado que Blanqui, no sentido de deixar-se conquistar por um materialismo consciente, que chegou a ser chamado materialismo dialético, por conformar-se com a dinâmica estrutural do pensamento hegeliano. Esse materialismo levou-o a formular o conceito de infraestrutura e de superestrutura e a consagrar o pensamento economicista.

Curiosamente os etapistas, gradualistas e sociais democratas todos apegaram-se a este conceito de materialismo economicista, ulteriormente desenvolvido pelo próprio Marx. Segundo este modelo de pensamento ou esquema o capitalismo carregaria em si o germe das contradições que plenamente desenvolvidas - em sua maturidade - levariam-no inevitavelmente ao colapso. O pensamento clássico de K Marx só poderia ser, como foi, radicalmente determinista. O Capitalismo transporta em seu seio germes de morte... Quando chegar a seu ápice declinará e entrará numa crise da qual jamais poderá sair. O partido deve treinar o proletariado para que seja capaz de detectar o momento em que este processo atingir seu 'clímax' - Só então o proletariado poderá exercer ou cumprir seu papel que é aproveitar-se da oportunidade oferecida pelo processo histórico e assumir a liderança do corpo social. Implica isto caminhar com a História e esperar pela oportunidade dada, que depende do curso do capitalismo... Este desenvolvimento do capitalismo só pode ser apressado pela dinâmica interno do próprio capitalismo, no sentido de atingir sua maturidade e tornar-se vulnerável. TODA E QUALQUER AÇÃO HUMANA QUE PRECEDA ESTA EVOLUÇÃO ECONÔMICA OU MATERIAL É INCONCEBÍVEL OU ABSURDA.

Neste caso como se dará a Revolução babovista ou blanquista?

O velho Marx julgou sabe-lo e poder dize-lo.

Acreditava que no correr da carruagem a proletarização do trabalho eliminaria já os elementos da antiga ordem, já o mundo rural, já as classes médias ou intermediárias. Ao fim do processo todo este universo intermediário cessaria de existir, sendo absorvido, é claro pelo mundo do trabalho. Ao fim do processo, uma capitalismo maduro poderia ser socialmente descrito como uma multidão colossal de proletários face a um diminuto grupo de burgueses monopolistas, estes, naturalmente, a testa da sociedade. Claro que sempre poderia restar um grupo mais ou menos largo que sempre poderia vender-se a burguesia e combater por ela - tal o lupem proletariado. Seja como for Marx chegou a acreditar que apesar dessa possível traição por parte da massa amorfa, alienada e manipulada, o poder cairia como uma maçã madura nas mãos dos trabalhadores. Ele jamais pensou nos termos apocalípticos, catastróficos ou sangrentos da velha Revolução francesa e chegou a crer numa transição/revolução que a não ser pacífica tampouco corresponderia ao 'terror' robespierriano... Tão execrado pela nova elite dominante francesa ou mesmo pela elite dominante inglesa.

Claro que esta visão, por diversos títulos, não se encaixa com a visão anteriormente descrita, em termos de blaquismo/babovismo, legado pela Revolução francesa. Aqui, a ação humana ou individual embrenha-se pelos caminhos do idealismo, podendo por si só mudar os caminhos da História sem contar com agentes condicionantes ou limitantes, ou mesmo exigir uma visão acurada dos tempos, na qual uma elite intelectual busca por sinais. Grosso modo a sanha dos guerreiros e revolucionários não conhece tais elementos condicionantes - como o processo histórico ou a dinâmica interna do capitalismo - presentes no pensamento de Marx e é exatamente esta ignorância a respeito das limitações externas ou dos límites que a torna combativa e invencível no dizer de Sorel.

Assim a corrente marxista mais sofisticada ou determinista, torna-se hermética ou astrológica no dizer de Sorel, na medida em que depende de cálculos externos sobre a realidade feito por um corpo de especialistas. Especialistas que por exigências de caráter racional seriam levados do jacobinismo a social democracia. Por chegarem a crer que ao contrário da conjuração babovista/blanquista esta revolução deveria ser previamente calculada ou preparada nos mínimos detalhes, o que certamente demandaria algum tempo. Por outro lado tempo é que não lhes faltaria, sendo oferecido pela evolução interna do capitalismo, a qual deveriam acompanhar. No entanto o resultado daquela evolução era absolutamente previsível: O colapso do sistema e a oportunidade revolucionária. No campo externo a sociedade capitalista nada poderia ser feito no sentido de 'abreviar os tempos', destarte urgia esperar e enquanto se esperava a política institucional ou melhor a social democracia bem podia fazer as vezes de tática, tendo em vista a futura revolução. Temos aqui um pensamento muito próximo ao de Engels e a respeito do qual nos referimos já em diversas ocasiões. Ainda conta com a Revolução e é crítico, mas por exigência do materialismo - que já se transforma em realismo - faz a revolução recuar ou posterga-a...

Antecipar a Revolução, dirá Engels, é como por o carro a frente dos bois, fazer o jogo da burguesia, ser esmagado e expor-se a ver  a causa do socialismo aniquilada. A revolução ou a ação humana, só poderá ser bem sucedida em seu tempo, quando as condições materiais, oferecidas pelo sistema, mostrarem-se propícias. É a maturação do capitalismo quem nos oferecerá a grande chance - Marx o disse!!!

Diante disto Bebel, Adler e outros, com as bençãos de Engels e antes, com as do velho Marx, podem lançar-se sem temor ao seio da disputa eleitoral e levar os ideais comunistas ao parlamento, beneficiando-se da máquina chamada propaganda. Afinal elemento algum, fosse de ordem política ou não, seria capaz de atalhar a dinâmica do capitalismo e, consequentemente de impedir o estouro da Revolução. A revolução estava determinada pelo processo histórico - em termos de produção econômica - e nada seria capaz de alterar esta realidade. De modo que a ação parlamentar era muito bem vinda.

Perceba amigo leitor que o rígido materialismo mecanicista de Marx conduziu seus seguidores a via eleitoral ou a inserção.

Por outro lado, quando Bernstein, no final do século XIX, avançou até praticamente negar o colapso deduzido ao materialismo crasso e a necessidade de uma revolução, afirmando a ação parlamentar como algo definitivo e quando até mesmo os centristas chegaram a identificar a 'tomada' do parlamento pelos socialistas com a ditadura do proletariado, a ala jacobina - que sempre se mantivera calada por respeito a Marx e a Engels - não pode deixar de retomar o ideal revolucionário, inda que não pudesse repudiar ao materialismo gradualista ou denunciar Engels como revisionista. Diante disto levantaram as mãos contra Kautsky, o testamenteiro de Engels, e contra diversos outros pioneiros, fazendo alarde em torno das mutilações de Liebknecht, agora apresentadas como falsificações e ignorando ou fingindo ignorar a existência de muitas outras fontes e documentos quais sejam as cartas de Engels e de Eleanor Marx. De modo geral o conjunto de tais documentos revelam-nos um Engels que apesar de seus precauções e criticidade abraçou não apenas a via parlamentar mas a violência defensiva, repudiando o golpismo peculiar as correntes blanquista e bakuninista. Claro que os comunistas jacobinos não podiam admitir nada disto, pelo simples fato de não acreditar na via institucional ou parlamentar. Assim, desviando os olhos de Engels e de seus últimos escritos, eles passaram a classificar todos os sociais democratas como renegados e a arvorar o revolucionismo como única solução não apenas viável mas possível. Ao menos da Rússia a coisa tomou este caminho, tomando o jacobinismo o nome de leninismo e hipostasiando-se ao comunismo soviético ou marxismo ortodoxo.

Claro que e Lênin sempre pôde apelas ao jovem Marx blanquista/babovista com o objetivo de santificar seus ideais. O que ele não poderia ter feito é ignorar o conjunto do pensamento marxista e seu desenvolvimento ulterior. O que sobretudo não poderia ter feito é ignorar os ulteriores pronunciamentos de Engels, atribuindo a Kaustky uma ruptura que jamais havia acontecido. Ao apresentar os sociais democratas como inovadores e apóstatas Lênin mostrou-se absolutamente desonesto. O único renegado ou traidor aqui foi Lênin, embora a bem da verdade, devamos admitir que ele apegou-se a um princípio individualista, idealista e rival, que num determinado momento Marx e Engels tiveram de sacrificar ou ignorar - A possibilidade de indivíduos ou grupos, por meio de golpes ou conjurações, antecipassem as condições dadas pela História - Fazendo com que esta avançasse. Para tanto teve Lênin de fazer certos empréstimos ao teórico anarquista G Sorel - outro implacável adversário do determinismo economicista - pensador que mais tarde veio a descrever, hipocritamente, como embaralhado ou confuso.

Paradoxalmente Engels não desejou destruir por completo a esperança na futura Revolução, mas apenas posterga-la. Grosso modo podemos dizer que ele assumiu uma posição social democrática 'crítica', ficando como que no meio do caminho, entre Lênin e Bernstein. Por isso Bernstein como Kautsky, pode revindicar para si o título de sucessor, caso admitamos que Marx e Engels possam ser superados ou revistos; como se supõem de seres humanos e falíveis, inda que geniais e bem intencionados. Na medida em que o pensamento de Marx conheceu uma evolução e do Engels mais ainda, por que supor que este padrão de pensamento não pudesse continuar a evoluir após a morte deles convertendo-se numa Bíblia ou num Corão?

Importa saber que para mater viva a esperança de uma revolução final, Engels teve de reler, reinterpretar ou revisar o materialismo mecanicista e economicista de Marx, renunciando ao que chamamos determinismo, e postulando o que chamamos de condicionamento ou possibilismo. Vale a pena reproduzir suas belas palavras:

"Devemos provar a nossos adversários o princípio essencial - o lado econômico - que eles repudiavam; e então nem sempre tinhamos tempo, facilidade ou ocasião PARA POR EM RELEVO OS OUTROS FATORES QUE EXERCEM AÇÃO RECIPROCA... A evolução política, jurídica, filosófica, religiosa, literária, artística... dependem certamente da evolução econômica. NO ENTANTO TODAS SE INFLUEM MUTUAMENTE E ATUAM, A SEU TEMPO, SOBRE A BASE ECONÔMICA." Carta de 1890 publicada no Sozialisticher akademiker em Outubro de 1895Admitido o simples condicionamento material, Engels, tornava mais aceitável e reforçava ainda mais a doutrina revolucionária da interação, partir da qual os futuros comunistas puderam deduzir que caso a oportunidade oferecida pelo processo histórico não fosse 'trabalhada' ou aproveitada pelo elemento humano, a chance de implementar com sucesso a Revolução ficaria abortada - Daí a insistência cada vez maior no sentido do partido ou da propaganda preparar uma elite de homens no sentido de aproveitarem a oportnunidade histórica.


Daí Rosa Luxemburgo, cogitar que a oportunidade revolucionária não aproveitada poderia descambar em algo totalmente distinto do capitalismo ou do comunismo, o que ela define como barbarismo. Prenúncio do Nazismo??? Quem sabe... Foi o quanto bastou para Lênin e seus sequazes assinalarem-na como heterodoxa, tal e qual Kautsky, Bernstein, Plekhanov, Axelrod, Martov, Gramsci, etc, etc, etc Curiosamente, o citado G Sorel, que nutria séria dúvidas quando ao materialismo mecanicista, também nutria certo temor face a um futuro sombrio e barbaresco...


Importa saber, e esta é nossa conclusão, que o marxismo nascente comportava dois princípios antitéticos, contraditórios ou opostos - Um consciente e outro não. E que no decorrer do tempo Marx e Engels foram apegando-se cada vez mais ao princípio consciente, que conduziria fatalmente a social democracia, até que este foi ligeiramente corrigido por Engels, tendo em vista a elaboração de uma ideologia mais equilibrada, do que resultou uma espécie de social democracia crítica, em que o ideal da Revolução foi protelado para um futuro incerto, como após a revolução russa o fim da ditadura do proletariado seria sucessivamente protelado para um futuro incerto, até atingir setenta anos, e por a luz do dia a farsa ou o equívoco da transição. Claro que, em tais condições, exceto em caso de golpe de estado (Situação em que seria exercida a violência defensiva - Otto Bauer, 1926) os socialistas poderiam conformar-se indefinidamente com a política parlamentar.


Lênin teve de reassumir o ideal do jacobinismo - sem todavia identifica-lo com o idealismo - e de negar toda evolução ulterior, rompendo com ela, e negando, ao menos o pensamento mais elaborado e desenvolvido de Engels. Claro que tudo isto supõem uma traição, inda de inconsciente. Os princípios opostos no entanto, já ali estavam, envenenando o pensamento de Marx. Tudo quando podemos dizer aqui é que Marx era jovem e que o pensamento de cada personagem intelectual deve ser analisado numa perspectiva cronológica e evolutiva.





Resultado de imagem para lenin murder


sábado, 3 de outubro de 2015

O mal estar da civilização

Há uma espécie de mal estar difuso entre os membros da Sociedade Ocidental Contemporânea.

O qual parece remontar a primeira metade do século XIX ou seja a afirmação do sistema capitalista.

E parece igualmente ter sido agravado ou intensificado pelo americanismo.

Aspira o homem por realidades amplas e profundas, mas, a cultura produzida nos EUA oferece-lhe apenas profanidades. Superficial, meramente tecnicista e consumista, é este novo padrão cultural de todo impotente para satisfazer as mais legítimas inclinações do coração humano.

Ademais os elementos da cultura ancestral, profundamente implantados em nossas consciências não foram de todo eliminados, especialmente nos rincões em que a americanização ainda não foi de todo consumada, assim nos campos e nas vilas do Sul da Europa e da America Latina.

Esta luta entre o que é ou deve ser e o que deveria ser é uma das possíveis fontes deste mal estar. Pelo que ainda retemos de humano e pelo que assimilamos ao materialismo economicista somos uma civilização contraditória e incoerente, cujos elementos acham-se em estado de oposição.

Temos plena consciência de que devemos por o homem, a vida, a justiça, a liberdade, a igualdade, a paz... em primeiro lugar e acima de tudo. Todavia tudo em nossa volta e em torno de nós afirma a primazia do capital ou do lucro.

Diante disto somos levados a crer ou ao menos a imaginar que as gerações do passado mais ou menos distante eram mais felizes do que a nossa ou que a Sociedade era melhor.

A bem da verdade, parece que em todas as épocas, parte das pessoas tiveram suas vistas postas no passado buscando uma mítica idade de ouro e julgando que as gerações do passado eram de fato mais prósperas e felizes.

A diferença aqui é que no passado ou nas épocas anteriores e nossa este passado obscuro era idealizado pela imaginação das massas, porquanto a História propriamente dita inexistia. Não lhe havia sido dado um método rigoroso... nem as ciências auxiliares estavam devidamente constituídas. Sobrando bastante espaço para a fantasia correr solta e produzir mitos.

Hoje no entanto além de conhecermos relativamente bem nossa própria época podemos revindicar um conhecimento mais consistente e real a respeito do passado. Olhando para trás somos mais ou menos capazes de distinguir alguns vultos sinistros como o fascismo, o nazismo, o comunismo, o liberalismo, os golpismos sangrentos, os genocídios, etc Mesmo assim, a maior parte das pessoas não consegue encarar este nosso tempo como melhor ou superior. O mal estar prevalece!

Mas por que prevalece se uma terceira guerra mundial ainda não explodiu?

Porque em certo sentido estamos vivendo uma guerra surda, mas continua e quase que mundial contra o ser humano. Embora as frentes sejam diversas - fundamentalismos, comunismo, nazismo, fascismo, individualismo, CAPITALISMO, etc - todas tem em mira o rebaixamento do homem, a restrição da liberdade, a negação da igualdade, a relutância em cumprir a justiça, o ódio a paz, o instinto da maldade, a afirmação do egoísmo...

Não é decerto um tempo de violências físicas.

Mas é certamente um tempo de fermentação...

Em que a tempestade ou a borrasca esta se formando e se preparando para varrer nossa civilização até seus fundamentos mais remotos. Do que talvez resulte uma nova alta Idade Média ou algo ainda pior e mais sinistro!

O fato é que nossa consciência social ou nosso imaginário coletivo DÓI e essa dor é uma dádiva divina enquanto alerta de que algo vai mal, e muito mal.

Enquanto há dor, sabemos que o corpo esta enfermo e ainda podemos buscar a cura.

Quando não sentirmos mais dor ou mal estar, quando estivermos conformados e em 'paz', a enfermidade terá se tornado inconsciente... pois os elementos da nova ordem terão aniquilado os elementos da antiga ordem, e a contradição essencial.

Quando a crise se tornar imperceptível é justamente porque foi assimilada em sua plenitude, sem deixar de ser crise.

Nem poderá deixar de ser crise enquanto subsistirem a fome, a nudez, a miséria, a injustiça, o morticínio, a mentira, etc Poderá ser introjetada na cultura e institucionalizada mas será sempre crise. Poderá ser afirmada e reconhecida oficialmente como ordem, mas jamais deixará de ser desordem!

Verdade que temos ciência, técnica e poder para transformar o mundo.

Então por que ainda não o transformamos num lugar melhor para viver?

Afinal o que estamos assistindo é o extermínio de diversas espécies constituídas ao largo dum lento processo evolutivo, a alteração acelerada do relevo e do clima graças a extração imoderada de riquezas naturais ou matérias primas, ao envenenamento progressivo dos mares, da terra e do ar; enfim a um suicídio lento imposto por necessidades artificiais ditadas pelo Mercado econômico, esse deus terrível ou novo Hades!

Nem percebemos que após o fim da guerra fria, o desaparecimento do comunismo e a consequente e oportunista retomada do liberalismo clássico ou implantação do neo liberalismo tenham as sociedades feito qualquer progresso considerável em termos de organização social. Antes percebemos a retomada das contradições nos mesmos termos do século XIX ou do período ante guerras! Problemas e patologias sociais avolumam-se mais uma vez como no passado...

Diante disto como impedir que as velhas e falsas soluções, como comunismo, fascismo, nazismo e agora os fundamentalismos religiosos, sejam retomadas numa escala maior?

Sequer podemos apelar a uma ética objetiva capaz de condena-las em termos de essência...

O capitalismo como sempre mostra-se cego face as angústias que produz.

A angústia no entanto tem medida.

É coisa com que não se brinca.

Mais uma vez o capitalismo esta a desumanizar o homem e a barbarizas as massas.

Do que resultará uma devolutiva.

Na posse da mesma técnica e da mesma ciência que teriam feito nossos ancestrais?

É uma pergunta que faço a mim mesmo todos os dias.

Ao que parece nossa técnica não nos tornou mais humanos, não ampliou nossa sensibilidade, não alimentou nossa solidariedade...

Ao que parece nossa ciência não aprofundou ou ampliou nosso estado de consciência.

Perdemos o sentido do homem porque colocamos qualquer outra coisa em seu lugar: a fé, o lucro, o partido, o estado, a raça, o ego, etc

Lançamos os fundamentos de uma cultura inumana ou desumana e deflagramos um processo de auto destruição ou suicídio coletivo!

Sabemos que deveríamos ter resistido a este novo espírito Capitalista mas traímos a nós mesmos, a nossos ancestrais, a nossa cultura, a nossa espiritualidade! Negociamos com a idolatria mais sórdida que há, a idolatria do Capital e assim nos tornamos plenamente profanos! Afastamos o próximo de nossas vistas, passamos a encarar o semelhante como concorrente, nos acostumamos a encarar os irmãos como rivais e assim nos alienamos do Cristo!

Passamos a viver de mentiras e a cultivar uma vida de aparências! A ouvir a leitura do Evangelho nos Domingos e nas festas e a profana-lo de feira a feira, dia após dia!

Ingerimos o veneno do fideísmo e tombamos no conformismo!

Nos inclinamos diante dos juízes no fórum e fazemos juramentos e juramos em falso! Nos inclinamos perante o rico que vive de mais valia explorando seus empregados! Nos curvamos diante dos políticos corruptos e venais! Nos curvamos diante das espadas e metralhadoras dos militares! Nossos ancestrais enfrentaram a máquina mais mortífera de todos os tempos: o Império romano.... nós não temos pingo de virilidade e só sabemos negociar comodamente!

Degeneramos amigo leitor! Degeneramos!

Pois já não sabemos resistir ao mal! Não ao mal físico que massacra nossos corpos, mas as ideias más que contaminam o espirito, as falsas crenças que destroem a alma, aos pensamentos corruptos que ditam um comportamento corrupto!

Consentimos que esta ideologia materialista e grosseira construída em torno do lucro tomasse posse de nós. Nós mesmos lhe oferecemos parte de nosso ser! Negamos algo a Cristo, concedemos algo ao capital! Separamos a realidade! Imaginamos setores impermeáveis a ética! Produzimos uma nova cultura, uma cultura de morte... Cedemos, negociamos, falhamos e impedimos o Reino de Jesus Cristo de acontecer e florescer neste mundo!

Desde então, desde que o Capitalismo impôs sua nova ordem e desde que americanismo contaminou nossas Sociedades podemos dizer com Jacques Ellul que o Cristianismo, esse Cristianismo dócil, tornou-se uma traição imperdoável!

Sim, querido leitor, pois o Cristianismo antigo dos cinco primeiros séculos jamais foi dócil face a riqueza, ao acumulo, a cobiça, a avareza, os pressupostos do materialismo! O que os darwinistas sociais aclamaram como vencedor o Cristianismo histórico classificava como ímpios! Leiam o Crisóstomo e depois Basílio, Astério, Gregório Nisseno, Ambrósio, Jerônimo, etc Decretou nosso Cristianismo, nosso Cristianismo histórico, nossas fontes, nossas raízes, que o burguês é um tipo indesejável e fiel ao pensamento de Cristo proclamou que não entrará no reino dos céus!

E este eco no Ocidente ou na Igreja Latina prolongou-se até Fernando de Bulhões, o Santo Antonio de Pádua, cuja parte substancial dos sermões constitui uma Filipica contra os ricos, os banqueiros, os poderosos!

Mesmo durante os tempos da pseudo reforma estava esta consciência viva, a ponto de um único dentre os reformadores Dr Hugo Latimer, ter condenado inexoravelmente o acumulo de bens materiais. Limitando-se a repetir o que encontra-se escrito no Santo Evangelho: Não acumuleis bens neste mundo!

Agora se acumula bens neste mundo como obedece a Jesus Cristo????

Responda-me quem puder e for capaz!

Então nem me falem de Karl Marx. Foi bom crítico das estruturas capitalistas em termos materiais; mas não precisamos dele! Nossa consciência histórica, nosso passado, nossa memória, da manjedoura ao advento da pseudo reforma, é sentença de condenação ao capitalismo!

Não é possível associar o Cristianismo ao materialismo como não é possível misturar azeite e água ou juntar o Oriente com o Ocidente, ou prender os céus a terra...

Quem pretendeu ocultar esta antinomia foi que lançou as sementes da crise porque ora passamos!

Nem se esgotam aqui as fontes da crise porque são muitas.

O Cristianismo foi posto de lado...

Mas o maniqueísmo perfeitamente conservado e já o veremos!

Deseja todo homem conhecer e conhecer a realidade que o envolve.

Tanto isto é verdade que aborrece a ignorância e o mistério, e incomoda-se deles como do escuro e da morte.

Pois instintivamente sabe que a ignorância não é seu estado natural e que não existe para ela.

A laranjeira não aspira produzir laranjas, mas é fiel a sua natureza...

O homem aspira pelo saber.

Os profetas da modernidade no entanto disseram que seu aparelho cognitivo é completamente inepto e que a realidade chega a ser falseada pelos sentidos!

Proclamaram que essa antipatia para com a ignorância é absurda e que a inclinação para o saber é ilusória.

Que o homem encontra-se cercado pelas densas trevas duma noite eterna! E que nada do quanto crê ser verdadeiro o é!

Verdade não passa de quimera e a razão de um câncer ou de um verme a corroer lentamente nossas entranhas e a provocar uma agonia insuportável.

Assim como já dissemos tudo foi tirado ao homem: a fé, a razão, a experiência... até que não restou verdade alguma, conhecimento algum...

Só nos resta concluir com Camus que a vida é desprovida de sentido!

Não há qualquer propósito ou sentido superior para a existência humana!

Assim a única coisa a fazer é cogitar se devemos ou não sair de cena.

Afinal por que raios estaríamos obrigados a suportar até o fim uma vida que sendo sempre tormentosa carece de qualquer sentido?

Admira-se o leitor de que aqueles que não tenham coragem suficiente para por fim a própria vida descambem numa sexualidade desenfreada, no alcoolismo ou na droga??? Buscando ampliar a ilusão ou fugir ao tédio reinante??? Quem ousará condena-los??? Esta filosofia prostituída que proclama ter aniquilado não só a fé mas a razão, a ética, a ciência e o sentido sem nada deixar aos mortais???

Justifica-se aqui plenamente a fuga da realidade porque é de fato uma realidade indesejável, ou uma péssima nova esta trazida pela escolástica nihilista!

Quem não tiver a audácia do jovem Werther, invista na imaginação, na fantasia, na alienação desta realidade tenebrosa!

Bem se vê que não há qualquer necessidade absoluta de um Agostinho, de um Lutero, de um Calvino ou de um deus qualquer para proclamar o homem limitado ou incapaz.

Um Hume, um Kant, um Litreé, um Huxley, um Heiddeger, um Deleuze, um Camus, um Foulcault, etc bem podem faze-lo sem deus algum.

E pode lá o agnosticismo ou o ateísmo incoerente reproduzir acriticamente as mesmas crenças.

Grego algum ousou negar a metafísica. Pois como ignoravam supinamente a doutrina maniqueísta não se lhes podia ocorrer a negação ou restrição capacidade cognitiva do homem.

Tudo quanto vem após Agostinho, Lutero e Kant trás consigo este travo maniqueísta, alias arbitrário.

Muito revisaram, reformaram, refizeram; mas ficaram com a pior parte...

Lançaram fora o amor, a paz, a justiça, a sacralidade da vida, a veracidade, etc

E mantiveram, secularizado, o velho pessimismo de Manes, Agostinho, Montaigne, Lutero, Kant...

Diante disto já sabemos porque o ateísmo nega ser uma metafísica, apesar dos teóricos do agnosticismo...