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segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Comunismo > Uma metafísica paralítica

Já nos expressamos inúmeras vezes a propósito do Comunismo.

Primeiro enquanto ideologia reprodutora, a qual além de assumir um tipo ideal posto pelo Cristianismo antigo ou pelo socratismo\platonismo,  reproduziu igualmente diversos vícios do capitalismo, do liberalismo político primitivo e do positivismo, como o materialismo economicista, o 'método' revolucionário e o relativismo ético - Isto a ponto de formar uma construção sincrética.

De fato não se pode negar que apesar de todos os seus erros possuí o Comunismo algo em comum com o socratismo e o Cristianismo antigo, que é a sensibilidade face a injustiça e a aspiração de reformar a ordem natural das coisas, eliminando a injustiça. 

Enquanto que a suprema miséria do capitalismo, do positivismo e do darwinismo social, bem como do ceticismo é conformar-se com o mundo tal qual é, aceitando suas mazelas e avaliando-as como algo comum ou mesmo invencível. 

Em que pese o materialismo tomado ao capitalismo, os comunistas não acompanharam seus companheiros 'coerentes'. Mantendo o ideário Cristão segundo o qual deve a realidade do mundo conformar-se com um ideal Ético ou com uma Lei natural e suprema. 

Por parte do Cristianismo antigo, conformar-se com o mundo e seus pecados, seus vícios ou suas maldades é blasfemo, devendo a ordem do mundo ser corrigida e reformada segundo a lei natural e suprema.

Portanto o Cristianismo leal ao Evangelho e o Comunismo partilham do mesmo sentimento de revolta. 

Sendo em parte o Comunismo, um Cristianismo apostólico secularizado. Tal e qual o capitalismo e o destino manifesto são secularizações do protestantismo. Em certo sentido o conflito "Catolicismos" ou "Ortodoxia" e protestantismo, prolonga-se no conflito "Socialismos" X Capitalismo. Apenas a luta secularizou-se, mas mantém o sentido. 

Naturalmente que o materialismo, sendo necessariamente mecanicista, não se encaixa com esse sentimento de inconformidade ou mesmo com o método revolucionário.

Justiça seja feita a Marx, porquanto era ele etapista - Reconhecendo que caberia ao processo histórico ou a evolução interna do próprio capitalismo que produziria as condições necessárias para que a Revolução fosse bem sucedida. Cabendo ao comunista estar atento para reconhecer o sinal dos tempos, e atuar em comunhão com a História.

Foi Lênin que, partindo de Sorel, objetor e adversário de Marx, eliminou o etapismo ou o determinismo materialista e propôs que a Revolução poderia ser feita noutros contextos. Talvez por isso as revoluções Comunistas tenham revertido e falhado. Por outro lado Marx não foi capaz de perceber a habilidade do capitalismo para adaptar-se as condições externas, inclusive restringindo-se, contendo-se ou limitando-se quando sob pressão ou ameaçado pelas sociedades tradicionais.

Sorel sendo irracionalista, meio idealista e próximo ao anarquismo com o paradigma do espontaneísmo ou da imprevisibilidade, o qual de modo algum se encaixa com o materialismo e seu decorrente determinismo\etapismo.

Bom lembrar que esse ideal revolucionário jacobinista surge não num contexto materialista dialético porém num contexto materialista mecanista ou formal e de uma total incompreensibilidade em termos de cultura. A ideia, bastante ingênua por sinal, é que o poder, a violência, a força ou o terror pudessem mudar a cultura ou dos padrões de comportamento pessoal e social.

Basta dizer que serenado o terror os padrões culturais anteriores são restabelecidos. E as tais revoluções, após tantas calamidades, revertem. E tal se dá porque a cultura tem dinâmica própria, a qual não é necessariamente material.

Outro aspecto é o relativismo ético, comum aos pós modernistas e derivado do positivismo. O qual dificilmente concilia-se com um ideal de justiça que leva a reforma. 

No entanto o que mais choca o observador atento quanto o comunismo é sua fixação no século XIX. A qual chega a ser escrupulosa, uma vez que atribuem aos escritos de Marx, Engels e Lênin o status religiosos da infalibilidade e da irreformabilidade - Como se tivessem esgotado todas as possibilidades do passado, do presente e do futuro. 

Não poucos entre eles continuam reproduzindo a milonga positivista e anti racionalista, derivada de Kant e Condorcet sobre a ciência ser a única forma digna de conhecimento, etc Quando é, o materialismo querido, uma elaboração metafísica, por violar a demarcação kantiana. 

Outro aspecto simplório do comunismo é a imagem do proletariado urbano e industrial como agente redentor. E consequentemente o menosprezo pelo homem do campo, as prevenções contra aquele funcionariado público que representa a odiada classe média, o horror ao lupem proletariado... 

Continuam eles, os comunistas, encarando a História como um combate épico, binário e maniqueísta entre dois grupos ou facções: Burguesia e proletariado... Enquanto a partir de 1870\80 tornou-se a sociedade capitalista muito mais complexa e variada, com inúmeras sociais intermediárias... (E aqui temos Sorokin, Parsons e Timacheff, dentre outros). Eles porém não abrem mão de seu reducionismo simplista e de sua narrativa ingênua e romântica - Na qual tudo gira em torno de um choque entre dois grupos.

Para eles o mundo jamais mudou e continuamos situados no século XIX...

Outro rudimento metafísico é a concepção do conflito como motor da História. Pois eles mesmos admitem que o conflito parte da propriedade privada (Não necessariamente da propriedade privada dos meios de produção - Pois aqui, com Marx - há certa plausibilidade.), a qual é posterior a Idade primitiva, o que implica situar a Idade primitiva fora da História, justamente devido a sua 'imobilidade' ou ritmo lento, não marcado pelo conflito em torno da posse da propriedade, uma vez que era comunal.

Bem, o que questionamos aqui não é o movimento ou o progresso porém seu ritmo acelerado face a limitação dos recursos materiais de que dispomos. 

Outro o caso do futuro - Pois se a cosmovisão marxista (Que gira em torno de uma Dialética que parte do conflito e da propriedade.) assumir que a derradeira fase - Inaugurada pelo advento do Comunismo - implica a cessação do conflito, teremos de admitir o fim do movimento dialético e por consequencia o fim da História. E aqui é a História como uma espécie de túnel porque passa a humanidade... Pois ao fim tornaríamos ao repouso ou a imobilidade do começo i é da Idade primitiva.

De minha parte encaro esse túnel ou sanduíche como algo muito menos aberrante que o progresso ilimitado ou infinito dos positivistas - Pois tudo quanto começa deve ter um fim. Sem embargo disto, os comunas, ao serem questionados pelos positivistas, anarquistas e outros, alegam que o fim do conflito ou da dialética e o advento do comunismo não marcará o fim de todo conflito porém apenas do conflito economico, que incide sobre as classes. Obviamente que existem ou surgirão outros conflitos (De natureza diversa) que darão continuidade a outro ciclo de movimentação dialética. Mas quem não percebe que essa resposta vai pelos caminhos da imaginação e da fantasia. Pois teria havido outro ciclo de movimento dialético, de outra natureza, na Idade primitiva...

Agora - Existe de fato um motor da História... Ou é ela movimentada por diversos motores...

Já disse que Marx focalizou a propriedade dos meios de produção, relacionada com o modelo capitalista. E aqui parece haver certa verdade, vislumbrada ante dele por um Sismondi, dentre outros... Outro problema do Marxismo é a visibilidade limitada da História de que dispunha Marx em seu tempo - Tempo em que a egiptologia de Champollion e Lepsius e a sumeriologia de Grotefend e Rawllinson estavam a dar os primeiros passos e a idade primitiva de Pertez e Lartet engatinhava... 

Foi as apalpeladas ou tateando que Marx tentou elaborar um esquema tanto mais amplo e metafísico - No pior sentido do termo. Assim a questão do conflito como motor de todas as fases da História, de grupos lutando uns contra os outros, de reformulações sintéticas, etc Através das quais o esquema Burguesia X Proletariado se antecipa e perpetua sob outros termos, como senhor e servo ou dono e escravizado... 

Todos estes esquemas genéricos, como o de Vico, o de Adam Smith, o de Lord Kames, o de A Fergunson, o de St Simon, o de Comte e enfim o de Marx representam uma fase bastante rudimentar da sociologia. 

Quanto a proposta de Marx ou sua tentativa metafísica de classificar as fases ou períodos da evolução social de nossa espécie é importante dizer que teve continuidade sob a escola de Lukács e seus seguidores. Os quais fazem incidir suas críticas não apenas sob a atual forma de posse da propriedade privada i é quanto aos meios de produção, mas sobre todas a propriedade privada como um todo. Por isso registrei acima que os lukacscianos identificaram o ponto de partida do conflito a partir do fim da propriedade comunitária e o surgimento da propriedade privada> A partir daí só mudam os nomes e podemos definir a História humana como uma luta por propriedade ou poder. (E chegamos a Adler, transfuga de Freud)

Naturalmente que nenhuma dessas especulações pode ser rigorosamente demonstrada. E tanto pior para elas enquanto atreladas ao falso paradigma positivista da monocausalidade. Se é certo que o regime de propriedade influencia a produção da cultura, nada nos indica que ele apenas determine a totalidade dos elementos de uma cultura.

E Ratzel teria mais razão em apontar a terra e o regime alimentar como criador de técnicas agrícolas e de técnicas alimentares plasmadoras de cultura. De modo que teríamos antes uma cultura do arroz, uma cultura do trigo, uma cultura do sorgo, uma cultura do milho, uma cultura da batata, uma cultura da mandioca, etc que uma cultura de patrícios e clientes ou de pillis e maceuallis... 

Não quero lançar fora deste processo formativo o dono e o escravizado ou o senhor e o servo, quero porém inserir o ambiente: Gélido, montanhoso, paludoso, florestal, etc as matrizes alimentares... A Escrita, o Bronze, a Ceramica, as Crenças religiosas, etc Numa perspectiva pluri causal, tendo em vista a complexidade da cultura e o processo de sua afirmação.

Certamente o regime de propriedade teve lá seu papel e importancia, mas, não atuou sozinho.

Outro equívoco que atribuo ao marxismo\comunismo e que deriva da ideologia materialista diz respeito diz respeito a compreensão deles a respeito do que seja Capitalismo. O qual definem como uma modo de produção. Do qual deriva um modo de remuneração> O salário. E enfim certas relações estruturais. 

E toda uma definição formal, mecanica e material do liberalismo economico.

Eu no entanto considero tanto mais exata e profunda a definição posta por Sombart, em termos de 'Geist' ou espírito - Quero dizer enquanto conjunto de princípios e valores que derivam da consciencia ou como uma emanação psicológica ou mental que se faz social e cria estruturas.

De fato suponho e creio ter razões para tanto, que o éthos capitalista é um tipo de mentalidade que deriva da pessoa, uma tendencia do caráter... etc e relaciono esse espírito com o que os antigos chamavam de avareza ou acúmulo.

Foi a partir dessa distinção que o padre Meinvielle - Servindo-se da linguagem aristotélica (Em torno das causalidades) - tentou explicar porque a igreja papa, ao condenar o comunismo não condenou o capitalismo ou ao menos sua totalidade. O quanto o Cristianismo pode e deve condenar sem remissão é a fonte do Capitalismo i é seu espírito 'geist', a avareza, o acúmulo desmedido, a ambição ilimitada, o materialismo, etc não a estrutura por ele produzida, a qual sendo neutra, bem poderia ser reutilizada caso tal espírito fosse contido. Não é o caso de que não possa ser destruída (Como querem os comunistas - Pois a proposta meramente econômica dos comunas não se opõem a fé!) e sim de que essa destruição não é imposta pela fé porém assunto por assim dizer puramente humano.

Agora limitando-se a condenar o espírito 'geist' do capitalismo, não fornece o Cristianismo qualquer tipo de chancela divina ou religiosa a estrutura do regime capitalista, como querem os oportunistas infiltrados na Igreja. Ao menos o Cristianismo Ortodoxo, fiel a tradição da Igreja, jamais poderá santificar a propriedade privada dos meios de produção. 

Outro o caso da propriedade privada pessoal derivada do trabalho. Esta o Cristianismo assume como religiosa e intocável enquanto expressão de um direito natural estabelecido pelo poder Supremo. O quanto a pessoa obteve por meio de seu esforço pessoal e de que faz uso para manter-se pertence-lhe legitimamente e não lhe pode ser tomando sem que tal constitua-se em roubo, logo pecado. Neste caso toda e qualquer apropriação, tendo em vista o Bem comum, exige uma indenização por parte do poder público ou do Estado.

Quanto ao espírito materialista, excessivamente ambicioso ou avaro do capitalismo, já no berço, avaliou-o a igreja como maligno.

Até aqui nossas críticas ao Comunismo ou melhor dizendo, apenas algumas delas.

Obviamente que não pode o Cristão aderir ao sistema comunista em sua totalidade - Pelo simples fato de dogmatizar em torno da ideologia ateísta e afirmar-se como materialista. 
 

Conheça também os demais artigos da série 'Culturas de morte': 


  • Americanismo
  • Conservadorismo
  • Anarquismo
  • Positivismo
  • Protestantismo
  • Capitalismo
  • Fascismo
  • Pós Modernismo
  • Sionismo 
  • etc


sábado, 23 de setembro de 2023

O pensamento equilibrado de Almeida Garrett no 'Testamento' de Sardinha

 




Abaixo reproduzirei alguns trechos bastante realistas e equilibrados do literato português Almeida Garrett sobre Conservadorismo e Progressismo ou ainda sobre Manutenção e Revolução. Trechos em que nosso homem, surpreendentemente, afasta-se de ambos os extremos, buscando por uma noção equilibrada de fluxo histórico ou buscando acompanhar a História ao invés de paralisa-la ou faze-la avançar.


Fazer a História parar, como querem os conservadores de vária cepa é impossível e nem mesmo as antigas sociedades egípcia e chinesa, que foram as mais estáveis ou o quanto possível conservadoras, lograram esse feito miraculoso. Posto que sendo vivas também elas se transformaram, sob diversos aspectos, nos séculos em que subsistiram. 

Fazer a História avançar, como aspiram os revolucionários e sediciosos até poder ser possível, porém sempre desastroso. Pois após o aparente avanço segue sempre um retrocesso ou recuo ainda mais grave. Semelhante ao movimento do arco descrito por V G Childe - Embora nesses casos seja recuo cego e sem ulterior avanço.

De fato ambos os extremistas> Conservadores e Progressistas, imutabilistas e revolucionários, paralíticos e avancistas; ignoram o que seja acompanhar o ritmo da História. De fato não sabem marchar em seu compasso. E se recusam a seguir o fluxo natural das coisas. Não querem caminhar em comunhão com o processo histórico mas altera-lo artificialmente seja travando-o ou acelerando-o.

Os Conservadores tem dificuldade invencível para compreender que o dinamismo é caráter essencial dos seres vivos em sua marcha evolutiva. Anti cientificistas parte deles permanecem fixados em modelos mitológicos absurdos como o fetichismo criacionista e decorrente fixismo... E fundamentam o erro sobre a ignorância ou a mentira. De fato o conservador nato é o fundamentalista religioso, com sua cosmovisão mágico... Desamparado pelo mito o conservador fica indefeso ou vulnerável diante dos fatos, posto que sendo vivas as sociedades invariavelmente mudam e se há algo de imutável e fixo é a mudança ou o fluxo.

Corpos vivos e sociedades formadas por corpos vivos e mentes não são animais empalhados, cadáveres ou múmias enroladas em faixas. Sociedades não são compostas por pedras ou estátuas mas por seres humanos, seres vivos e animais racionais providos de intelecto ativo. 

Compreende-se que o movimento de mudança seja gradativo, dando-se por meio de rupturas e permanências. Na medida em que as rupturas se vão acumulando acentua-se a diferença. A transformação nem sempre é acelerada ou rápida, todavia não deixa de ser certa. Transformam-se os seres humanos, e as sociedades, por eles formadas, acompanham tal transformação.

Tão insensato querer tudo conservar quanto querer tudo demolir, implacavelmente. Há que se ser crítico aqui. Há coisas que são dignas de ser conservadas, por corresponderem a seus fins, a legítimos fins e coisas há que de modo algum são dignas de serem conservadas, devendo ser destruídas... Parece-me que os direitos do trabalhador e a política protetiva deva ser conservada, como dever ser conservado o ideal de bem estar social correspondente a noção de bem comum. Como parece-me que a isenção concedida as agremiações religiosas que não mantém qualquer rede de serviços sociais e públicos deva ser revogada. 

Parece-me bom que o 'direito' ao duelo ou a licença para matar esposas adúlteras tenham sido canceladas pelo legislador. Como me parece digna de ser mantido o regime público a que chamamos SUS. 

Há portanto instituições e leis que devem ser conservadas - E quanto a elas é dever ser conservador... E instituições que devem ser demolidas e substituídas por outras mais elevadas e condizentes com as circunstâncias - E aqui se deve ser progressista... Adotar as divisas de conservador ou de progressistas como absolutas é verdadeira idiotice. Como é pura bobagem ser Revolucionário e contra Revolucionário, ao menos de modo geral - E tornamos ao genial Berdiaeff em oposição ao energúmeno Donoso Cortes papa dos contra revolucionários.

As vezes se pode apoiar alguma Revolução - Pois alguns ideais são dignos de serem apoiados e o problema das Revoluções é sempre o meio ou método. De modo geral melhor manter-se alheio a elas, embora não completamente alheio quanto a seus fins ou ideais. Problema das revoluções é a mística da violência, a qual atribuem a capacidade mágica de alterar radicalmente as coisas. E é ridículo, pois as grandes e relevantes transformações se produzem por meio da mudança de consciência, único meio porque se atinge a cultura e a realidade. 

Tanto pior ser contra revolucionário ou se opor a um evento inevitável (A Revolução é o que o sintoma é para um corpo enfermo - Berdiaeff) devido a incúria dos cidadãos. Deveriam ser as Revoluções evitadas institucionalmente por meio de reformas que adequassem as leis a realidade - Não sendo assim serão sempre fatais... Correspondem assim ao resultado se um pecado social ou comum, que deve ser suportado por todos com docilidade e paciência. A Revolução, quando virulenta, dever ser sofrida ou recebida como espécie de penitência, jamais combatida com armas como querem os demagogos.

Unicamente tem direito de critica-la os que buscaram sinceramente evita-las e esses quase nunca são os conservadores obstinados.

Quanto a violência ou a sedição já disse que esgotados os meios institucionais e sendo a situação insuportável, é perfeitamente legítima, tal e qual a guerra justa em caso de agressão. Apenas não se deve crer que a violência ou a sedição trarão alterações radicais ao corpo social. Caso erradiquem ou suprimam determinada situação de injustiça a violência cumpriu com sua finalidade - Mesmo porque constituindo sempre meio e jamais fim em si mesma, a violência, ou seu emprego jamais poderá ser condenada 'in totum' ou abstratamente. A violência sempre deverá ser considerada com relação a seus fins, portanto caso os fins sejam nobre também seu emprego será nobre - Claro que devemos excluir o campo da religião ou da fé, o qual segundo a Lei do Evangelho não admite o emprego da violência mas o da persuasão das liberdades. 

Observamos ainda que o emprego da violência jamais deve corresponder ao ataque ou a agressão mas sempre uma resposta a algum tipo de agressão como uma situação de injustiça. 

Feito tal prólogo passemos as doutas reflexões de Garrett:

"É a missão das Revoluções destruir: É uma lei, e de precisão eterna, a periodicidade desses cometas do sistema social: Jamais edificam ou constroem, criam ou reformam. Porém é a Sociedade imortal e as leis e condições elementares de sua existência perpétuas, assim, mais cedo ou mais tarde, das ruínas necessárias de uma Revolução, ressurgem os princípios insdestrutíveis para remodelar o que é essencial a vida de cada grupo humano, segundo seu modo de ser." Sardinha - 1942 p 88

"Sou eu retrógrado cronologicamente e não metafisicamente. Talvez que os senhores responsáveis pela Revolução não o compreendam... Mas assim sou, cronologicamente retrógrado. Pois aqueles que tudo deslocaram no nosso Portugal fizeram-no por mover EXTEMPORÂNEO E ANTECIPADO, destarte desejo eu retrogradar o país ao justo e razoável ponto em que deveriam te-lo deixado. Não o faço metafisicamente, porque tudo quanto sem grave risco e perigo podemos fazer avançar não ponho limites ao avanço." Id p 82

"Não venha o funesto sofisma que é o medo do passado impedir-nos de resgatar o quanto havia de bom, justo e livre - E que era muito. - nas instituições de nossos ancestrais." Id p 103

"Devemos confessar que neste ponto ao menos, era o antigo regime menos arbitrário do que o nosso, o qual, diante da Liberdade das tábuas da Lei que pusemos sobre um altar, estamos sacrilegamente imolando ao um bezerro de ouro dos nossos interesses e paixões. NÃO VALE A PENA SAIR DO EGITO PARA ISSO E ANTES VAGAR TANTOS E TANTOS ANOS PELO DESERTO, E PASSAR PELO MAR VERMEHO DE TÃO SANGRENTAS GUERRAS CÍVIS." Id p 106

Ocorre-me aqui o triste exemplo da ex URSS com seu despotismo totalitário e sua posterior desagregação - Tão copioso Mar de Sangue para isso: Expurgos de Stalin e retomada do modelo capitalista numa intensidade ainda maior...

Também se me ocorreu a Reversão da Revolução francesa após a fase Robespierriana cheia de promessas e conquistas - Desde então a França se foi reacomodando até a subida de Napoleão e a ascenção de outros régios potentados... Até cair nos tentáculos do Mercado, conforme o modelo de Albion... Tanta efusão de sangue para isso...

Poderia mencionar ainda a inacabável Revolução mexicana, com seus quarenta ou cinquenta anos de curso e decorrentes misérias - Para terminar no Nafta, em plena comunhão com o mesmo país que despojou-o do Texas e da Califórnia...

Certo é que as Revoluções sangrentas ou draconianas revertem sempre, a menos que conduzam a nova sociedade a um poder absoluto que prolongue o espetáculo terrificante. Não são - As Revoluções. - sólidas ou consolidadas porque ficam sempre na superfície da cultura, uma vez que não produzem consciência por meio da educação\formação. No fundo as Revoluções são sempre frágeis e seu legado discutível.

Tornemos porém a sabedoria de Garrett: 

"As nossas antigas colônias tinham um sistema de legislação antiga, obra dos séculos, e só as ordenações dos reis S Manuel e D Sebastião para a Índia tinham quase tanto a se estudar quanto as nossas Ordenações do reino... As legislações da primeira ditadura aplicaram indistintamente a todos aqueles países, tão diversos dos nossos, tão diversos entre si, o mesmo sistema de administração e regimento que já para nós mesmos era inconsiderado...

Veio a segunda ditadura, e remediou em grande parte os males da primeira, retrogradou (Como devia) a muito dos antigos métodos especiais e da legislação local daquelas terras. Mas todo esse direito anda por cá flutuante e vago; como não o há de ser por lá. Que fatal não pode ser aqueles estabelecimentos, cujo estado é já tão tomentoso, que fatal lhes não será que agora se lhes apareça por lá um novo regime e sistema que amanhã declararemos nulo e revogaremos. Que será se o governo ido nesta monção começar a estabelecer o regimento da província... e na próxima lá aportar outra com outro sistema e outras instruções..."

Alude aqui as sucessivas mudanças efetuadas na legislação por sucessivos plataformas e partidos por pura e simples questão de Ideologia, e inclusive as anulações ou revogações de leis que vigoraram em determinados governações.

Pois se é certo que mudanças sejam sancionadas é inconveniente e perigoso que hajam continuas idas e vindas - O que amiúde sucede quando após a governação de uma plataforma progressiva ou equilibrada, aparecem os sinistros conservadores querendo, a força de princípios ou (Que é infinitamente pior!) de livros religiosos ou bíblias, restringir as liberdades conquistadas pelos cidadãos e fazer a sociedade retroagir. Não há atitude mais danosa e desgastante para a legítima autoridade que essas idas e voltas. Por vezes é lícito ou melhor necessário, retroagir - Não sempre ou constantemente. 

Podemos portanto aquilatar o dano produzido pelo governo anterior ao tentar, quase por força de baionetas, fazer recuar nossa legislação ambiental apenas para agradar uns mineradores e fazendeiros i é a particulares. Digo o mesmo sobre os murmúrios em torno da Lei Maria da Penha ou da Lei menino Bernardo, as quais os tarados religiosos e fanáticos, aspiravam tornar mais lassas ou revogar em nome de seu deus. Isso sem falar na constante maquinação em torno da Legislação trabalhista destinada a proteger o trabalhador contra os desmandos dos que detém o poder econômico e arbitrário.

Bem se vê que o que é conservador aos próprios não o é a olhos alheios e que tudo isso é muito relativo. Dirá o leitor que eram reacionários... Tenho por reacionários os que tomam por modelo um passado muito distante, seja ele antigo ou medieval. Esses que aspiram revogar certar Leis progressistas também aspiram revogar outras leis, que como as trabalhistas, inspiram-se em modelos muito antigos, tenho-os em conta de meio conservadores e meio progressistas - É essa inversão de Garrett ou monstruosidade iniqua do tempo: Conservador nas tais moralidades ou em política e ultra liberal em economia, quando, ao menos entre os Cristãos apostólicos e classicistas se deveria dar o extremo oposto: Conservador ou melhor reacionário em economia e ultra liberal e política ou mesmo em moralidades. Bem se vê que eles adotam o modelo Norte americano ou americanista com sua com sua cultura moralista economicista...

É um conjunto incoerente, amorfo e utópico esse do conservadorismo moral associado ao liberalismo religioso que clama por ilimitação absoluta. Posto que o impulso inicial do progressismo ou da dissolução da sociedade antiga partiu justamente do liberalismo econômico e este da reforma protestante. Temos ai a nova fé e o capitalismo iniciando a demolição do modelo antigo e do antigo regime. Como agora querem os livre examinadores que questionavam a Trindade divina, a Encarnação, a Imortalidade, a presença real, etc pousar de defensores de uma moralidadesinha imutável e absoluta... E mancomunados com o sistema econômico que esfacelou a família, após, com falsas promessas, remove-la do campo. 

E continuam esses conservadores, ignorantes ou hipócritas, a propor esse modelo esdruxulo em que entram uma economia que instila e exige mudanças radicais e uma moralidade tosca de múmias e cadáveres associada a um governo paralitico ou a uma política de aparência, que se confunde com uma polícia destinada a manter as diferenças a golpe de baionetas. Afinal esse Estado só é mínimo mesmo para quem precisa, o pobre, o trabalhador ou o cidadão comum. Depois de ter montado nos ombros do rei e lhe atribuído poderes absolutos CONTRA TODA TRADIÇÃO ANTIGA E CRISTÃ, o poder econômico, consolidado, clama por um Estado de enfeite, que o permita oprimir e dominar 'livremente'.

Tornemos porém a Garrett 

"Não contentes de revolver até os fundamentos a pátria desgraça  com inovações incoerentes, repugnantes umas as outras e sobretudo absurdas, sem consultar nossos usos, nossas práticasm nenhuma razão de conveniência, foram atirar com todo esse montão de absurdos para além mar, onde desatinos se tornaram dobrados e se multiplicaram ao infinito pela variedade de obstáculos, repugnâncias, impraticabilidades...

E o mesmo se há de suceder se loucamente nos pusermos a legislar para aquelas remotas regiões, querendo doutrinariamente forçar localidades, circunstâncias, hábitos, modos de ser que ignoramosm a entrar a martelo dentro dos quadros arbitrários, que nossas teorias cá decretam, como se fossemos nós o Criador que disse: Faça-se! Como se pudéramos nós, mesquinhas criaturas, fazer mais do que reconhecer os fatos como eles são, e modifica-los apenas até onde possam ir..."
Id p 79

Lembram tais palavras as de John Gray na 'Anatomia' por sua elevada sabedoria e alto realismo, de que muitas vezes se esquecem os democratas demasiado abstratos ou formalistas, e sobretudo os jacobinos. E tem certo paladar conservador, posto que não se pode torcer por completo uma estrutura social a golpes de martelo ou altera-la sem levar em conta o Estado precedente.

Quero dizer com isso que o liberalismo político e a democracia, não apenas podem como devem, até onde possível seja, adequar-se as diversas culturas e estruturas sociais. Noutras palavras, que não se pode pegar um modelo francês, inglês ou Norte americano e impo-lo a quaisquer outras sociedades; e a sabedoria popular proclama: Era de outro o paletó do defunto...

Tal como roupas e corpos não é possível tomar o sistema democrático de qualquer país e impo-lo em bloco a um outro...

Serão politicamente liberais ou democráticos quanto a essencialidade, porém a seu modo ou do seu jeito.

E se copiar o modelo francês foi equivocado, imitar o inglês ou Norte americano é desastroso.

Alias o liberalismo político e um laicismo não anti clerical jamais alterariam radicalmente quaisquer culturas - O que não se pode dizer da economia de Mercado ou da mudança religiosa, os quais tendem a altera-las ou melhor a introduzir determinado modelo de cultura e a afirmar - Por afinidade eletiva. - um imperialismo cultural. É exatamente por isso que a democracia meramente formal e sobretudo o protestantismo tendem a promover o liberalismo crasso ou o ethos economicista e a reproduzir a pseudo cultura norte americana noutros espaços.

Outra lição preciosa aqui embutida é que a democracia e liberalismo político equivalem sempre a assunção interna ou a evolução de uma dada Sociedade. Diríamos que o espírito democrático é fruto de uma sociedade madura e cultivada ou que corresponde a um caminho percorrido. Implica admitir que cada grupo ou sociedade deve atingir por si só i é por meio da educação ou da cultura esse estado de consciência. Enfim que a vida democrática é resultado de um processo interno. 

O que nos conduz a lição final - Que a democracia, supondo um espírito, jamais pode ser imposta externamente a qualquer sociedade. Que o liberalismo não pode ser dado ou comunicado por meio de uma guerra ou invasão. Que as instituições livres não podem ser levadas ou transferidas, e que o jacobinismo - Francês ou Norte americano - estão redondamente equivocados > A democracia jamais procede de fora. A ideia pode até vir e vem, de fora, porém o sentido de excelência ou de necessidade e enfim a aspiração, deve sempre vir de dentro. Um povo qualquer deve desejar a liberdade e desejar inclusive morrer por ela...

Foi semelhante desejo que fez os atenienses resistirem aos persas e vencerem em Maratona e Salamina.

Recorro enfim aos exemplos arrolados por Gray - Os diversos grupos étnicos e culturas africanas que se atacaram mutuamente e mataram uns aos outros após a supressão do domínio colonialista (Tutsis e Hutus.) ou ainda as seitas religiosas muçulmanas... Com o objetivo de certificar que a autonomia democrática não pode ser conferida por decreto a todas as sociedades humanas sem que estejam a altura desse ideal. Do contrário poderia ser como uma faca entregue a uma criança. Melhor seria para certas culturas de certos locais que mantivessem seus próprios regimes.

O revolucionarismo jacobino N Americano é tão patético quanto os modelos comunista e anarquista e não nos deixemos enganar, tudo quanto os norte americanos aspiram é levar sua cultura 'in totum' a outros lugares, neste sentido não são melhores que os muçulmanos com seu imperialismo árabe. É tudo o imperialismo ou farinha do mesmo saco. A nós, a parte de um liberalismo político suficiente ou de uma democracia básica, convém permanecer leais a nossa cultura - No caso latina, ibérica ou brasileira e diante disso repudiar o liberalismo político ou o capitalismo como elemento exógeno ou importado.

segunda-feira, 26 de julho de 2021

A farra do Borba Gato... Bolsonaro... Nem Revolução nem origem periférica...

A esquerda cirandeira finalmente pegou Borba Gato, com quase trezentos anos de atraso...

Chegado no entanto o momento de acertar as contas foi o implacável bandeirante surrado como Judas em sábado de aleluia e em seguida atearam-lhe fogo.

Claro que o velho safado nada sentiu, posto que morto e apenas representado em sei lá o que. Pois não gastei meu precioso tempo com o saber se era a dita estátua de mármore, granito, pórfiro, etc

Tampouco me dei ao trabalho de averiguar se possuía ela algum mérito estético.

Afinal a tal estátua não me importa muito. 

Sim o ato da esquerda pós modernista comemorar sua destruição, prenúncio, segundo eles de uma Revolução que, pasmem, virá da periferia... Da mesma periferia a um lado dominada pelo crentismo e cada vez mais conservadora e a outro guiada pelos 'acordes' do Funk ou do Baile na Favela, alias, para a vergonha dos brasileiros musicalizados, executada nas Olimpíadas de Tóquio... - Tal a aurora da Redenção cósmica chamada Revolução, quiçá feita com as nádegas ou os peitos balançado, quiçá feita com gestos que aludam ao coito, pelos tigrões e pelas cachorras.

Os marxistas 'ortodoxos' com seu etapismo mecanicista, filho do vezo materialistas, decerto equivocam-se a respeito de muita coisa. Sem no entanto ser ser esdrúxulos como a degenerada esquerda pós moderna...

Com seu funk, sua queima de estátuas, seu identitarismo sectário (Não sou como os marxistas ortodoxos contrário ao identitarismo porém contra o identitarismo sectário cujos membros costumam olhar apenas e tão somente para o umbigo do próprio clã - O que encaro como inevitável abuso ou excesso.), etc

E no entanto, dirão eles, tais estátuas são símbolos de poder... 

Pera lá sr cirandeiro, símbolos do poder de quem ou de qual poder?

Do poder bandeirante ou dos bandeirantes?

Diga-me então onde está ele?

Onde estão os Anhangueras, os Gatos, os Fernão Dias, etc???

Só se exercem algum poder no cemitério, ou no além túmulo. 

Caso em que caberia uma intervenção espirítica e não uma intervenção material.

No entanto, diz o sr cirandeiro, teve tal poder continuidade...

Um momentinho sr cirandeiro. Sou educador e licenciado em História... Escusado dar-me aulas e expor-me como aos bandeirantes sucedeu - No estado de S Paulo pelos anos de 1890 ou mesmo antes. - uma venenosa cultura bandeirista e como inspirou ela a princípio o PRP, em seguida a ARENA, o PDS, o PFL e o nosso DEM... sendo alias incorporada elo PMDB e pelo PSDB. 

Efetivamente esse poder, apenas disfarçado ou maquilado, ai está representando pelo Jorge Dória, fabricante de inúmeras maldades... 

Agora em que fazer churrasquinho de Borba Gato atinge o PSDB ou o Dória.

Quando Getúlio Vargas foi trucidado pelos imperialistas em 1954 a gente simples foi não somente mais ousada como muito mais inteligente que nossos revolucionários da periferia, pois ao invés de queimar ou quebrar estátuas, monumentos, etc dirigiu-se a Sede dos Diários Associados do pulha Chateaubriand e passou tudo a ferro e fogo... Não deixando inclusive de quebrar as sedes de alguns partidos liberais anti varguistas. 

Enquanto Balsonaro e Dória, e L. Hang fazem suas maldades a esquerda cirandeira, vanguarda da tão sonhada Revolução, tira a desforra numa velha estátua posta num parque, e na estátua de um celerado morto há mais de três séculos, o qual por sinal, agia conforme o espírito bronco de sua época... E isto é celebrado nas tendas pós modernistas como prenúncio da Revolução... Diante disto chego até a compadecer-me dos comunistas ou marxistas sérios. De fato é algo humilhante...

Ao que parece está a esquerda cirandeira para o comunismo como os doidos carismáticos para a Igreja Tridentina ora molestada pelo papa Francisco...

Tudo delírios frenéticos de carismáticos, funkeiros, carnavalescos e demais irracionalistas. Sentido algum em tais atos. Como sentido haveria se os revolucionários periféricos se dirigissem ao Palácio do Planalto e chamassem Bolsonaro as contas em nome de toda nação, o que com o Pe Mariana SJ, temos de admitir: Seria justo e digno de apoio. 

Algo até certo ponto relevante caso se dirigissem os tais revolucionários cirandistas ao Congresso com o objetivo de apoiar ou cobrar a CPI ou ainda de enfrentar a brigada genocida lá entocada. Aqui ainda haveria alguma nobreza e valor.

Não sendo tão corajosos bem que poderiam nossos cirandistas toscos ir a qualquer loja da Havan e expurga-las dos elementos favoráveis ao imperialismo estado unidense, o que deveriam alias ter feito nos tempos do Trump... Por que não chamam as contas esse empresário pérfido, traidor de nossa cultura e sim a estátua do velho Borba Gato? Eis o que não possa entender.

Claro que nem por isso e nem de longe sou a favor de que o poder público financie estátuas e monumentos destinados a exaltar figuras anti éticas ou maléficas como os tais bandeirantes. Visar ergue-las no tempo presente é de fato coisa que não pode ser tolerada. Guardem portanto suas forças e entusiasmo para despedaçar e queimar futuros ídolos dedicados aos Aécio Neves, Alckmins, Serras, Dórias, Bolsonaros e a toda essa canalha degenerada. 

O que num passado de ignorância foi feito por pessoas sem consciência fique relegado ao desprezo até cair por si mesmo...

Ademais são documentos ou registros históricos que comprovam a existência de tais personagens sejam eles bons ou maus. 

Quanto ao deflagar da tão sonhada Revolução no tempo presente devo ser suficientemente claro e terminante: É o Brasil, em especial suas cidades, periferias e favelas, um pais em processo de protestantização, do que só pode resultar mesmo bolsonarismo... Jamais ocorreu qualquer Revolução em qualquer sociedade protestante pelo simples fato de serem elas ultra conservadoras. Marx, Lênin e Sorel erraram feio ao supor que o parto cósmico aconteceria na Alemanha, na Inglaterra ou nos EUA, o que não aconteceu nem poderia ter acontecido. Tomem pingo de vergonha e folheiem Max Weber ou Werner Sombart o qual há cem anos perguntava a si mesmo porque Revolução alguma estoura em qualquer país protestante. Caso o futuro do Brasil seja protestante a única 'revolução' que os senhores verão será a revolução fundamentalista ou teocrática cujo modelo é a Genebra de Calvino, onde Miguel Servet pereceu queimado - Tal o ideal de boa parte dos pastores fieis ao padrão bíblico, vetero testamentário ou judaizante.

Enfim quanto ao outro lado da periferia, ainda não cooptada pelo sectarismo protestante, não é a toque de Funk ou pancadão que fará sua querida Revolução. As novelas, o futebol e o carnaval não o permitirão... A maior parte dessas pessoas permanecerá em sua caixinha por força da alienação, apenas imaginando que por quebrarem ou ignorarem as regras da arte acadêmica porão fogo ao mundo. No entanto uma coisa nada tem a ver com a outra. E não será a arte moderna, a arte popular ou o funk que moverão a tal Revolução, na qual alias não acredito.

Resta dizer que tampouco esse sectarismo identitário a deflagará. Na medida em que divide e fragmenta os que são economicamente explorados, lançando nos olhos de muitos uma cortina de fumaça. Há mais de dois milênios o estrategista romano proclamava: Divide em impera, pondo a realidade em pratos bem limpos. Perdido aquele vínculo a que os comunistas atribuíam o termo de consciência de classe, o simples ideal de Revolução vai pro vinagre ou pelo cano abaixo. Digo isto porque o fato segundo o qual existem diversas formas 'sui generis' de dominação não é de forma alguma mais sério ou relevante do que o fato segundo o qual cada uma dessas formas são - No momento presente. - alimentadas e estimuladas pelo poder econômico. O que exigiria por parte de todos os oprimidos uma ação comum e articulada em torno do inimigo comum. Ora certas formas ou certo grau de identitarismo tem frustrado essa ação comum e tornando cada vez mais distante o vulto amado da tal Revolução.

Bastando que algum desses oprimidos seja aceito ou admitido, enquanto indivíduo, nos altos níveis do sistema - Assim por meio do esporte ou de medalhas olímpicas. - para perder o foco e abandonar o tal ideal Revolucionário. Quanto aos marxistas, comunistas, anarquistas e outros que folgam discursar contra o socialismo parlamentar ou verberar contra o imediatismo trabalhista, deveriam antes de tudo voltar seus olhos para o papel do esporte e da estrutura midiática como elementos aparentemente destinados a integrar os oprimidos e identitários, afastando-os decididamente do tal ideal revolucionário. 

Uma coisa é certa: Revolução alguma virá do BBB, do Funk, do Carnaval ou das Olimpíadas, eventos dos quis aufere o Mercado imensos benefícios, alias com a solidariedade dessa esquerda cirandeira, a qual chega a ser mais desprezível do que a seita dos comunistas. Como disse pelo menos os comunistas não chegam ao ridículo.

Da próxima vez pensem em gastar papéis, esqueiros, palitos de fósforo, etc com o Bolsonaro, o Dória ou o Hang, quero dizer no Palácio do Planalto, no Palácio dos Bandeirantes, nas Sedes do DEM, do PSL, do PSDB, etc Afinal, parafraseando Eça de Queirós, de tais lugares só sairá luz quando de fato arderem. 


domingo, 18 de julho de 2021

O Karma ou a roda do Comunismo, de Marx e de Sorel...

Sabido é que mantenho franco diálogo com representantes de pensamento, isto a ponto de ter assistido, como convidado de honra e observador, a todo tipo de reuniões ideológicas. Tenho os ouvidos abertos a todos pois gosto de conhecer ou de aprender e não apenas por meio dos livros, embora eles também ajudem muito, especialmente quando vamos as fontes primárias ou aos autores e suas obras. Alias só não atendi aos convites dos maçons e não as reuniões a que fui convidado porque não me interesso pelo que seja oculto, mas apenas pelo que é público. 

Por isso quando mais moço fui as reuniões dos comunistas, os quais alegavam - Alguns quiçá sinceramente, e outros por bravata. - se terem conciliado com o pensamento democrático e superado o paradigma da Revolução violenta. Observei tudo muito atentamente e não tardei a perceber a terrível contradição existente entre o pensamento de Lênin e o pensamento de Marx e Sorel, mesmo quando Lênin tenha tomado seu éthos revolucionário a Marx e seu método a Sorel. Sucede no entanto que por questões de princípios e coerência lógica Marx e Sorel eram etapistas, julgando que a Revolução seria acionada pelo máximo desenvolvimento do modo capitalista de produção, assim na Inglaterra, na Alemanha ou nos EUA, jamais na Rússia, quase feudal e eminentemente agrária do Czar. 

Posto está que numa Rússia agrária e feudal Lênin não esperou pelo kairós assinalado por seu guru mas ousou agir sem esperar pelo momento histórico e cuidou poder fazer avançar o processo histórico, e agindo assim inverteu e subverteu o marxismo, enquanto esquema dado e modelo pronto, antepondo a Revolução ao desenvolvimento das forças de produção que deveriam aciona-la e transplantando o desenvolvimento das forças de produção capitalistas para depois da Revolução soviética. 

É portanto, perfeitamente natural e compreensível, que a decisão de Lênin e o sucesso da Revolução tenham planteado aos revolucionários bolcheviques toda uma série de problemas jamais imaginados por Marx, Engels ou Sorel, o quais haviam imaginado outro esquema ou outra realidade. Tais problemas a seu tempo receberam distintas respostas por parte dos pensadores comunistas russos, do que resultou a fragmentação, o sectarismo, o conflito e a confusão - Até Trotzky, Preobrajenski, Bukharin, etc ninguém sabia ao certo como lidar com aquela realidade a parte do esquema.

Basta dizer que parte dos Comunistas, e começaremos a crônica da loucura por aqui, eram favoráveis a promover o desenvolvimento das forças de produção nos termos capitalistas ou liberais, enquanto outros propunham a industrialização forçada do campo quase que nos mesmos termos, e por ai adiante.

Claro que outros tantos comunistas ficavam chocados diante de tais propostas e no entanto eram elas coerentes e partiam do etapismo marxista. 

Faço agora uma pausa e torno a minha experiência com os comunistas.

Vez por outra tive ocasião de em alguns autores apostólicos romanos - Quem sequer pertenciam a teologia da libertação, sendo quase todos anteriores ao Vaticano II - (Alguns padres inclusive.) que apesar de seus vícios e erros possuía o comunismo uma vantagem face ao liberalismo econômico ou o capitalismo, e era esta vantagem um sincero desejo de resgatar o homem da opressão (Um certo humanismo), certa compaixão pelos oprimidos e um sentido de justiça social... Após ter convivido com os comunistas de hoje e buscado conhece-los não mais posso corroborar esta premissa humanista... Após ter lido as "Reflexões sobre a violência" de Sorel devo confessar que ao menos parte dos comunistas não partilham de tais princípios. Marque isto leitor amigo!

Todavia antes de tornar ao marxismo para confrontar os marxistas fortes e coerentes, devo dizer duas palavrinhas sobre o anarquismo e declarar que sua condição é muito pior, posto que ao veneno materialista mecanicista juntam um psicologismo mais forte, um iconoclasmo mais amplo e certa doze de individualismo (O que faz dele uma ideologia muito mais virulenta.) O Comunista coerente, após percorrido o caminho, aspira derrubar o modelo econômico atual que ajudou a desenvolver-se, certo de que a estrutura cairá por si mesma. Enquanto o anarquista tudo aspira derrubar e destruir junto com o modelo econômico sem aguardar qualquer transformação orgânica. 

Quando passei a conviver com os comunistas - Como convivi com os fascistas, com os anarquistas e até (Pasme leitor!) com os protestantes (Pois meu irmão e eu fomos observadores num curso de Teologia protestante.) - algo chamou de imediato minha atenção, o famoso grupo do 'Quanto pior melhor', amiguinhos do DEM ou do antigo PFL e do PSDB, que pretendem assistir impassíveis ou melhor complacentemente a marcha do capitalismo e seu fortalecimento no Brasil. Parte dos quais não apenas nutrem um ódio feroz contra aqueles que por meio de reformas procuram atenuar ou conter o capitalismo como chegam a unir-se frequentemente com os janízaros do capital contra os socialistas parlamentares ou sociais democratas.

Na primeira reunião deles que assisti chamei um desses srs a parte e pus-me a solicitar suas razões, motivos, etc Ele no entanto não soube ou não quis responder-me. Posteriormente outro deles, este leitor compulsivo dos teóricos (O que não é comum entre eles!) polemizou com meu irmão alegando que os socialistas parlamentares, sociais democratas e reformistas eram os inimigos por excelência, traidores e apostatas por haverem abdicado do ideal revolucionário e dos meios porque seria ele atingido: O livre desenvolvimento do Capitalismo ou do modo de produção burguês, o qual de modo algum deveriam ser atalhado ou combatido, já porque continha em si mesmo os germes de sua destruição. 

Contendo ou suavizando o capitalismo por meio de reformas políticas inspiradas por uma Ética humanista o quanto fazíamos era conter o fluxo da História e postergar a Revolução. 

Lembrava-me disto e sabia o sentido mas não havia aquilatado a malignidade intrínseca. 

Até o dia em que lí, e a leitura é recente, as "Reflexões sobre a violência" de G Sorel, o qual, quanto a isto, é marxista ortodoxo e mais exaltado que os próprios comunistas.

Pois nada equivale a testemunhar um teórico do Escola referendando com suas palavras tudo quanto havíamos já havíamos intuído sem no entanto querer acreditar, por ser o que é... Mas é.

Também meu irmão, que chegou a ser anarquista ao modo de Tolstoi e Kropotkin, tendo por isso convivido com os 'ocidentais' de Bakhunin e com os libertários dos EUA (Aos quais jamais poupou severas críticas, até desvincular-se do anarquismo por causa deles.), tem se perguntado a cada dia, durante os últimos seis anos, por que os mesmos anarquistas que moveram guerra atroz a ex presidente Dilma toleraram de muito bom grado não apenas o ultra liberal canalha do Temer mas até mesmo o Bolsonaro, esse fantoche da teocracia e títere da bancada evanjéguica?

Pois é questão que se planteia e grave questão.

Por que raios os comunistas aderiram a aliança liberal contra esse mesmo Vargas que de bom ou mau grado reconheceu os direitos dos trabalhadores? Por que na Espanha foram contra Franco, em Portugal contra Salazar, na Argentina contra Peron e na França contra De Gaulle quando todos estes eram combatidos pelos liberais economicistas? Por amor ao política liberal ou as instituições democráticas? Pera lá - Não são os comunistas inimigos inconciliáveis da democracia burguesa e da política parlamentar, partidários da Ditadura do proletariado e do liberalismo moral ou pessoal? Então por que raios se uniram a oposição capitalista em todos esses países? Qual o segredo de tostines?

Sabido é que parte desses ditadores, tal e qual Hitler e Mussolini, foram alçados ao poder num cenário político formalmente democrático pelas massas lançadas numa situação de extrema penúria e angústia, pois haviam captado os anseios imediatos das massas e acenado com reformas destinadas a conter o espírito do capitalismo em ascensão. O que de modo algum havia ocorrido aos comunistas e anarquistas, os quais tentaram em vão conquistar os trabalhadores ( E de fato não pouparam e não poupam esforços para isso.) e mesmo camponeses com suas propostas abstratas e futurescas na direção de uma metafísica revolucionária, insistindo na preparação da Revolução futura. O bom povo no entanto, sejam funcionários públicos, camponeses ou mesmo a maior parte do que chamam de proletariado, jamais se interessou pela tal mudança cósmica futura. E mesmo na Rússia eles só conquistaram a adesão dos camponeses e obtiveram a vitória acenando com a Reforma Agrária.

Quanto aos países protestantes - Onde Marx e Sorel, péssimos conhecedores da cultura, imaginavam explodir a tal Revolução - um ideal funesto imposto pelos pastores tem resistido a todas as forças produtivas por mais de século e meio...

Os nossos no entanto, a suportar a indignidade imposta por um capitalismo plenamente consciente e imperioso, preferiram cair nas garras dos ditadores e demagogos que lhes acenavam com reformas.

Naturalmente que os janízaros do capital denunciaram-nos e combateram-nos desde o princípio, alegando motivações democráticas, quando as verdadeiras motivações eram econômicas: Manter a auto regulação ou as imunidades do capitalismo, e fugir as odiosas reformas. O quanto eles desejavam era manter o trabalhador como vil escravo e é de fato chocante que a proposta de uma emancipação sumária tenha partido de ditadores, porém tal se deu em todos os países citados. São fatos - Que fazer? Assim o é ou foi.

Agora por que raios os revolucionários comunistas fizeram pacto de aliança com os tais Capitalistas e burgueses se não comungavam do valor comum em torno da democracia formal? Alguém me pode dar uma resposta satisfatória? 

A partir de Sorel, interprete fiel do sr Marx posso da-la eu.

Justamente por que os tais ditadores odiosos eram tão reformistas quanto os socialistas parlamentares e a sra Dilma Roussef. E basta ser reformista ou pensar conter o capitalismo para exasperar todos os revolucionários sejam comunistas ou anarquistas. Pois foge a seu esquema etapista, segundo o qual cumpre ao capitalismo desenvolver ao máximo suas forças, aprofundar a luta ou conflito social, inspirar ódio mortal ao proletariado e acionar a desejada revolução, não havendo outra via de acesso, passagem ou caminho.

É o desenvolvimento modo de produção burguês que criará as condições para a Revolução comunista, é ele que nos conduzirá a ela, é ele que a deflagrará. 

Sociólogos humanitários, clérigos justicionistas, socialistas parlamentares, democratas reformistas, ditadores sagazes, sindicalistas imediatistas, etc são todos e efetivamente todos adversários da Revolução na medida em que tentam conter ou fazer recuar o poder do grande capital ou amenizar as mazelas produzidas por ele. Para que surja a revolução a tensão deve agravar-se e não diminuir. 

Perceba, para o comunista leal, para o marxista coerente e para o materialista compenetrado, tais grupos só podem ser vistos como perniciosos e odiosos em máximo grau, pois são os traidores que repudiam formalmente os ensinos de Marx e Engels e que fazem abortar o grande dia. O reacionário portanto, aquele que sonha com uma sociedade economicamente equilibrada ou com a extensão das classes médias, com a estabilidade e com a paz social, é o inimigo por excelência, o proscrito, o maldito.

Quem sabe por que os comunistas maravilhosos se opuseram a Vargas não tardará a intuir porque os anarquistas que combateram Dilma não se empenham em combater seus sucessores. Dilma era a inimiga, assim Lula, posto que uns e outros pretenderam conter a fúria capitalista ou liberal por meio de reformas, i é, porque eram reformistas. Dilma e Lula eram e são ameaças concretas ao destino da sociedade brasileira pelo simples fato de terem buscado a justiça social e aliviado a situação de milhões e milhões de criaturas humanas. No entanto se o preço pago pela promoção humana e pela justiça social é postergar a gloriosa ruptura chamada revolução é um preço demasiado caro - Ferre-se a justiça e vá as favas a promoção humana, pois o que importa é o 'ideal' ou projeto futuresco de Revolução.

É Sorel quem o diz e em alto e bom som: O Verdadeiro revolucionário seja comunista ou anarquista não cogita em Justiça, conceito subjetivo e embaralhado sem maior conteúdo ou valor (Aqui Litreé, Ayer e outros positivistas concordam.). Tampouco (Sendo ateísta.) considera ele algo a semelhança de uma lei natural ou em termos de essencialidade, o que serve unicamente aos poderosos (Aqui mostra ele imensa ignorância em termos de História já quanto o socratismo grego, já quanto o Cristianismo antigo.). Ademais o Revolucionário nada busca de imediato, nem mesmo aliviar os sofrimentos, dores, e angústia dos trabalhadores, mas apenas a Revolução futura, a qual absorve todos os seus cuidados...

Portanto o que dizem alguns Cristãos e padres sobre a busca dos comunistas pela justiça social e dos anarquistas quanto aliviar o sofrimento humano, pode até ser válido por parte de alguns deles - Mormente quanto aos que procedem do papismo, da ortodoxia, do espiritismo, do judaísmo ortodoxo, do budismo, etc e que mantém os valores recebidos ou a cultura (Mesmo caso dos ateus não marxistas ou anarquistas.) - mas não quanto a totalidade deles, especialmente quanto a parcela que nasceu e foi educada no sistema, estando familiarizada com os ensinamentos de Marx e chegado a introjeta-los. Caso sejam coerentes eles chegarão a doutrina do 'Quanto pior melhor'.

Posso pensar ou imaginar algo semelhante a tal padrão de pensamento, materialista, evolucionista, linear e mecanicista?

Sim posso e de fato existe um sistema religioso bastante parecido nos confins do Oriente.

Compreendo que parte do espiritismo kardecista tenha se esforçado, a luz do Evangelho a separar o veículo instrumental da reencarnação da doutrina metafísica do Karma. Por isso parte majoritária dos espíritas preconizam a prática fervorosa das boas obras. Ocorre-me no entanto, ao folhear certo livro doutrinário de origem espírita, em que o autor atribui esse zelo pelas 'imoderado' por boas obras a cultura 'católica' ou melhor apostólica romana, prevalecente no Brasil. Advertindo que a doutrina do Karma considera que é sempre melhor não beneficiar o outro, pois o benefício aparente equivale na verdade a um estorvo.

Advirto mais uma vez que a maior parte dos espíritas não compactuam com tal juízo extremado, buscando manter a doutrina da reencarnação, sem no entanto apresentar a doutrina do Karma como uma roda inexorável ou samsara. Por isso mesmo os espiritas que de algum modo referem ao Karma e buscam exercer a caridade são frequentemente apresentados como incoerentes não apenas pelos papistas e ortodoxos mas até mesmo pelos protestantes. Situação delicada.

Outro o caso do hinduísmo. O qual não se tendo deixado influenciar pelo Evangelho ou pelo Cristianismo, além de carregar o conceito de Karma ou samsara aduziu uma série de postulados éticos ou morais que consideraríamos aberrantes.

Se no marxismo temos uma metafísica materialista e determinista mecanicista no hinduísmo temos uma metafísica espiritualista ou espiritual igualmente determinista mecanicista, a qual face a dor e ao sofrimento leva as mesmas e exatas conclusões: A inação, a não interferência ou a omissão, enfim a uma insensibilidade monstruosa.

Não, não exageramos ao comparar a metafísica marxista com a metafísica hindu, posto que são ambas deterministas, mecanicistas e etapistas.

O princípio do Marxismo já expusemos tanto neste artigo como no anterior, sobre as correntes sociológicas. O princípio do hinduísmo ou da samsara fundamenta-se na crença de que todo e qualquer sofrimento porque passe o homem no curso desta vida é resultado de algum crime ou pecado cometido da vida precedente. Afinal reencarna o homem para fazer penitência ou pagar pelos pecados cometidos durante a existência anterior. Algo tipo a pena de Talião: Pé por pé, mão por mão, cabeça por cabeça. A conclusão é obvia: Cada sofrimento neste vida é uma oportunidade para pagar uma maldade cometida na outra e purificar-se. É o sofrimento físico o modo porque nos purificamos e nos aproximamos da perfeição. Daí a necessidade de aceitar resignadamente os sofrimentos... Tal no entanto não basta, pois na medida em que por compaixão interferimos no processo, com o objetivo de aliviar ou eliminar o sofrimento alheio estamos privando aquela pessoa de uma oportunidade para purificar-se. Portanto ao conceder-lhe um benefício imediato ou material estamos na verdade a prejudicando-a, tipo fazendo-lhe mau quanto ao plano mais elevado ou espiritual.

Por isso o hindu consciente e devoto tenderá ser indiferente aos sofrimentos humanos, já que sofrimento equivale a purificação.

A doutrina ou a teoria pode até ser bela, as consequências no entanto são monstruosas.

Perceberam como o Comunismo, sacrificando uma situação imediata, concreta ou atual de dor, tendo em vista o desenvolvimento desse sistema cruel chamado capitalismo e seu ideal metafísico e futuresco de revolução é análogo hinduísmo, posto que seu etapismo social corresponde a uma espécie de karma material ou materialista?

Os odiados e execrados reformistas ou socialistas parlamentares é que de fato se preocupam com o problema imediato, atual e concreto da injustiça social, da dominação, da exploração e do sofrimento humano. Eles é que se mostram sensíveis e comprometidos quanto a eliminar tais males agora, i é no momento presente, ao invés de recomendar aos sofredores que se conformem (Até que a Revolução estoure!) ou que tenham paciência; ou ainda que saiam lançando bombas em meio a população civil. 

Enquanto os revolucionários inumanos limitam-se a condenar qualquer tentativa no sentido de minorar as situações sociais de vulnerabilidade e angústia. 

A bem da verdade - E o leitor ficará com essa pérola ao termo deste artigo. - os meigos revolucionários (Ou Psicopatas) contam com tais situações de dor, angústia e sofrimento para exasperar ou enlouquecer (E o sofrimento de fato enlouquece.) o povo e lança-los nos braços da Revolução. Sabendo que parte das pessoas são amantes da paz ou acomodadas, por uma questão de cultura, contam esses ideólogos com o sofrimento para torna-las agressivas ou move-las a violência. É como os boiadeiros que para lançar um pobre boi num rio cheio de piranhas (O Araguaia) picam-no sem dó até que entre e seja devorado... Os anarquistas e comunistas encaram os trabalhadores como um boi de piranha, o qual deve ser picado pelo sistema capitalista até entrar no bojo da revolução...

E depois de tudo isso esses demagogos sem consciência ainda tem o desplante de virem a baila para censurar os trabalhadores e camponeses preocupados apenas com si mesmos i é com a condição dos trabalhos que realizam face a Lei ou que lutem por melhorias imediatas, ao invés de focarem na tal Revolução. 

Por isso nada é mais comum em suas reuniões e assembleias eles reclamarem que o povo ou mesmo o proletário é insensível a causa, de modo que as reuniões são formadas majoritariamente por intelectuais, professores e funcionários públicos... Quase todos oriundos das 'classes médias' que censuram e dizem odiar... - Não por proletários, pobres e muito menos camponeses. Diante disto eles se perguntam repetidamente: Por que? Por que? Que devemos fazer para atrair os trabalhadores, por quem lutamos. 

Minha Santa Simone Weill, essa boa gente jamais se colocou no lugar dum proletário ou trabalhou como um... Ideólogos lindinhos eles trabalharam quase sempre instalados em confortáveis poltronas, com ar condicionado, merenda, lanchinho, aguinha gelada (Oh odioso paraíso burguês!)... Assim o é. Agora que lhes tem a oferecer além de um roteiro metafísico cristalizado na palavra (Mágica) revolução? Nada, absolutamente nada. 

Negam que a alma sobreviva a morte do corpo ou que haja uma outra viva e ainda esperam que o trabalhador sofrido abdique do presente e viva em função do futuro.

Contam que os operários, camponeses e pobres sejam uns estúpidos ou idiotas, mas não são e a demonstração cabal é que essa mística materialista que assume a forma monstruosa de uma samsara não penetra eles. 


 

quinta-feira, 15 de julho de 2021

Problemas naturais em torno do emprego social da violência.

Admitir o emprego circunstancial da violência no âmbito social não pode equivaler a repousar em berço esplêndido. 

Pois para o intelectual como para o Cristão autêntico neste mundo não há nem pode haver repouso. É mundo de fenômenos e transformações o mundo em que vivemos e assim fonte de incômodos.

O milionário cuida ser imune a essa loteria sinistra. Desenvolve ELA ou Kreutzfeld Jacob, recorre ao suicídio... Que se há de fazer? Não há quem seja imune aos tentáculos do azar e por isso já foi a vida comparada e um jogo ou a uma roleta.

Evoluímos ou nos adaptamos impulsionados pela dor, daí o rifão: Quem não se emenda pelo amor se emendará pela dor.

Temos uma psicologia sinistra, a ponto de só valorizar o que perdemos. E com grande dificuldade alteramos as estruturas sociais.

Ilusão imaginar como fácil ou trivial o manejo social e circunstancial da violência. Ao sujeito crítico e reflexivo planteia ele problemas que devem ser analisados com toda atenção.

Para começo de conversa devemos acentuar o quanto nossa apreciação sobre a violência defere da apreciação feita pelos revolucionários, os quais por meio do entusiasmo chegam a construir uma mística em torno da violência. O voluntarismo e o irracionalismo conduzem ao odinismo ou melhor são suas fontes. Nós no entanto não aprovamos recurso a violência cega, mas aspiramos a um emprego planejado, calculado, sóbrio, limitado e racional da violência. 

Por isso noutros ensaios comparamos o emprego da violência a manipulação dos venenos ou das drogas assim da radioatividade. 

É algo cujas doses devem ser medidas e muito bem medidas.

Algo que se faz, devo dizer, a contragosto. Pois comporta sérios riscos.

De fato o primeiro problema que se coloca aqui é de ordem psicológica. 

Materialistas e contaminados em maior ou menor grau pela baboseira positivista é de presumir o quanto nossos revolucionários sejam ignorantes em termos de psicologia. Outro bordão nosso: Nos domínios da psicologia é o positivismo uma aberração.

Aqui ou ignorasse ou mistificasse.

Importa saber que devido a fatores de ordem psicológica, alias elementares, o uso da violência corre o risco de sofrer os mais terríveis abusos ou de degenerar.

Advirto que o próprio Sorel reconheceu como nada recomendável o uso da violência na esfera das relações pessoais. Deve a violência permanecer restrita a esfera do social para ser lícita ou digna. 

É a advertência soreliana preciosa.

Afinal o quanto podemos observar quanto as Revoluções no curso da História são abusos. 

Nem é preciso ser gênio ou intelectual de grande calado para deduzir e constatar que equivalendo as Revoluções, sedições, guerras, conflitos e batalhas socialmente a situações de anomia, propiciam facilmente a passagem da violência do âmbito social para o âmbito pessoal, abrindo um leque de possibilidades criminosas, assim assassinatos, tortura, estupro, etc impulsionados pelo rancor, pelo ódio ou pelo desejo de vingança, as quais dificilmente seriam exequíveis numa situação de normalidade.

Vou além por declarar ainda que o emprego indiscriminado, descontrolado e irracional da força ou da violência podem inclusive favorecer a ação de neuróticos e psicopatas afetados pela própria atmosfera de violência. Possibilitando que calculem e cometam seus crimes com mais facilidade do que em condições habituais. 

Ocorre-me uma narrativa clássica ou ao menos bastante conhecida registrada nos escritos religiosos dos antigos judeus. Quase todos haverão de recordar a estória de Urias, oficial do rei Davi, o qual vindo a cobiçar sua esposa determinou que, durante uma situação de violência ou guerra, fosse ele colocado na linha de frente de modo a morrer e... Podendo então o 'querido' rei fornicar com Betseba, sua viúva. Não digo ser isto factual, mas bem poderia ter sido.

Do mesmo modo e maneira os escritos clássicos estão repletos de narrativas sobre vinganças pessoais ou desforras entre inimigos sucedidas nas guerras - É quase como um lugar comum.

Por isso dizemos e repetimos: Manejo racional da violência e não explosões irracionalistas de violência. Pois o subconsciente apresenta-se sinistro mesmo através da arte moderna, irracional e psicologista. 

Ocioso mencionar os abusos a que ficaram sujeitas as populações antigas por ocasião das guerras.

Refiro-me aos ataques a população civil presentes na narrativa da Guerra de Tróia com os habituais estupros, assassinatos, torturas, etc 

A bem da verdade se considerar-mos que a coisa começou com os assírios é fato que persas, gregos e romanos, foram depurando a prática. Embora durante a antiguidade tudo dependesse do carater dos reis ou generais, e se houve um Ciro entre os Persas houve igualmente um L Mumio entre os romanos e, sabido é o que fez a Corinto e sua população. Já o 'afável' Alexandre fez o mesmo a Tebas e a Tiro, e quanto a primeira salvou-se apenas a casa do Poeta Píndaro.

Com a chegada dos povos teutônicos houve, na Europa ocidental, como que um retorno ao padrão assírio e um reforço a violência. O título de 'flagelo de Deus' conferido a Átila já nos revela algo sobre ele e seus Hunos. As coisas só principiaram a melhorar devido a Trégua de Deus estatuída pelo monge Gerardo a luz do Santo Evangelho e desde então, embora muito lentamente, a situação foi melhorando. Até que em algum momento da Idade moderna, foram os civis colocados fora da guerra, a qual converteu-se em ofício de soldados a ser resolvido num campo de batalha. De fato chegamos aqui a um progresso imenso. No entanto desde o século XIX devido aos novos armamentos, assim bombas e metralhadoras, cunhou-se o conceito de Guerra total, tornando a ser a população civil ameaçada. E tivemos aqui um retrocesso.

Por isso aqueles que se referem aos excessos como coisa do passado, do tempo dos reis ou do antigo regime estão totalmente equivocados. Pois temos aqui uma questão humana que toca a nossa condição psicológica que toca as fontes mais obscuras da personalidade humana e ao que chamamos de atavismo. Enfim de algo que sendo feito sob pressão e com grande risco afeta drasticamente o comportamento.

Fato é que sendo o conflito ou a sedição apoiado pela maior parte dos cidadãos de uma dada república, a guerra civil, diferira essencialmente da guerra propriamente dita. Pois o inimigo pertencerá não a outra cidade mas a outra facção, partido ou classe, quando não de outra cepa em termos de Ética. E para fazer petição a violência devemos ter certeza de que tal elemento é sempre minoritário. 

Todavia nem por isso a retaliação afetiva, ligada a ideologias e rancores pessoais, deve ser excluída. Podendo sempre atingir familiares e apoiantes dos que controlam o poder. 

Sorel, embora não esteja totalmente equivocado, tento racionalizar (Ele que era irracionalista) o fenômeno. Atribuindo os excessos cometidos pelos revolucionários a um otimismo idealista e romântico em torno da condição humana. Todavia os marxistas e fascistas, que passam por realistas ou pessimistas nesse plano não foram mais comedidos do que os jacobinos. Por isso digo e repito que o problema da violência, de seu manejo e excessos ou abusos é mais complexo do que se supõem sendo suas raízes psicológicas e afetivas.

Importante para aqueles que aspiram manejar a violência pensarem em mecanismos de controle tendo em vista tais abusos, impedindo assim que a violência se generalize no sentido de ultrapassar as fronteiras do social. 

Mesmo quanto armados e preparados para lutar pela melhoria da República devem os cidadãos ser exortados, no sentido de não cometerem tais abusos, sabendo que serão punidos com o máximo rigor da Lei, bem cabendo a tais excessos, a pena capital. Não se pode usar a guerra ou manejar a violência, destinada a promover a justiça, contra civis indefesos ou mesmo prisioneiros imobilizados. Pois seria desnaturar o emprego da violência além de torna-lo sempre questionável por parte dos pacifistas radicais.

Outra questão importante diz respeito a como recorrer a violência social em caso de necessidade se a legislação, limitando o porte de arma, dificulta que a população como um todo possa armar-se ou estar armada?

É tema ou problema que comumente se coloca. Especialmente quando somos governados por um odinista teocrático como Bolsonaro. O qual aspira armar até os dentes sua milícia de crentes fanáticos e lança-los contra as instituições democráticas. No entanto, do outro lado, nazistas, fascistas, comunistas e mesmo alguns grupos anarquistas esperam armar-se também, valendo-se da mesma 'lei' que facultaria aos civis livre acesso a armas e munições. Destarte poderiam eles formar suas milicias ou organizações paramilitares e deflagrar a tão sonhada revolução ou contra revolução. Posto está, e de modo bem claro, que esses diversos 'exércitos' armados levariam a república ao caos, criando mais um inferno sobre a terra, e desta vez sobre a terra de Santa Cruz. De fato seria uma tragédia ou calamidade assistir fundamentalistas, capitalistas, comunistas, fascistas e anarquistas enfrentando-se uns aos outros a bala em cada praça ou esquina, e denunciando os cidadãos como comparsas de um ou outro dos grupos rivais com o objetivo de justiça-los.

Mas é o que digo, do outro lado há ideólogos radicais ou expoentes revolucionários que concordam em gênero, número e grau com a política odinista do Bolsonaro.

Partidários da violência social, racional e circunstancial junta-mo-nos aqui aos pacifistas de toda casta para dizer um categórico não ao armamento dos civis. 

E por que?

Simples - Porque enquanto não se eclode a tal da Revolução e as armas permanecem nos lares tendem a ser usadas na esfera pessoal sempre que  estoura algum conflito, seja no recôndito da família ou entre vizinhos, facilitando a execução de crimes ou potencializando a gravidade dos mesmos. Ocorre-me ter discorrido largamente sobre a menor letalidade das armas brancas e maior chances de escape e defesa quanto aqueles que por elas são atacados em comparação com as armas de fogo e de fato não se compara nem de longe o potencial mortífero de um rifle ou de uma metralhadora com o de uma faca. Já pensou atacar alguém que maneja uma metralhadora com um porrete ou taco de beisebol? Outro o caso de alguém empunhando uma tesoura ou facão. 

Além disso da existência de armas em casa tem resultado alguns acidentes muito tristes envolvendo crianças, quando não tem resultado em autênticas carnificinas. Vira e mexe lá nos EUA um cinema, uma escola ou mesmo um edifício religioso é invadido por um psicopata que acaba metralhando algumas dúzias de inocentes. O que da mesma maneira tem ocorrido por ocasião as guerras e conflitos, ou mesmo após seu término, por parte de ex combatentes afetados.

Neste caso, quanto o emprego social da violência, devemos concordar com certo grupo de comunistas que preconizam a 'conversão' ou formação ética, diria eu, dos militares e policiais, no sentido de alinharem-se com as aspirações populares. Aqui uma postura maniqueísta como a que demoniza os militares e policiais não ajuda em nada. Pois nas situações de crise caberia a eles treinar os civis, entregar-lhes as armas e combater com eles. 

Quanto aqueles que me classificarem como utópico enquanto postulam a tal abolição do "Estado" ou das "Classes" só lhes posso rogar para que tirem as traves de seus olhos antes de virem soprar meu cisco. 

Pois embora pertençam as organizações problemáticas militares e policiais também são seres humanos, com habilidades e competências humanas, ao menos em potência.

Outro seria o caso de facilitar a posse de armas para todos: Psicopatas, pentecostais, sunitas, nazistas, fascistas, comunistas, anarquistas, capitalistas, nazistas, etc e nossa sociedade está já tão fragmentada e cristalizada em torno de grupos ou setores beligerantes, que admitida esta solução só poderíamos esperar não um manejo racional da força e sim um estado de guerra generalizado, bem no estilo ou nos termos de um Hobbes. Um tipo de conflito como esse, generalizado, não desejo.

Exaradas tais considerações devo por fim a este artigo, pois já me estendi em demasia e consegui registrar minhas razões, sempre na perspectiva equilibrada do realismo. 

Enfim uma coisa é admitir o manejo ocasional da violência na esfera social. Outra coisa, e bem, distinta é vibrar com as explosões da violência cega e descontrolada. Quanto a esta mística da violência não comungamos dela. A violência pela violência ou a simples percepção de que a violência é a chave ou gatilho com que acionar as mudanças porque aspiramos em termos estruturais equivale ao mais venenoso dos enganos. 

Quando manejada por pessoas éticas poderá a violência conseguir algo, retardar o avanço do mal ou mesmo servir como paliativo. Já manejada por espíritos turbulentos e inescrupulosos converter-se-a na pior das maldições ou na nêmesis da civilização. 













quarta-feira, 14 de julho de 2021

Revolução, violência, razão e Cristianismo.

Poucos temas há, tão polêmicos quanto o tema da violência.

Tema em que se vai da rejeição absoluta ou do pacifismo crasso a aceitação absoluta assim ao odinismo, entre os quais há toda uma série de gradações.

No Evangelho damos ora com Jesus Cristo mandando Pedro embainhar sua espada ora com o próprio Jesus expulsando os fariseus do tempo com um chicote. 

Textos que tem dado o que falar e sido empregados por pacifistas como Tolstoi e por odinistas como Sorel.

De modo geral a Igreja Antiga ou dos padres, ao menos no plano da fé, repudiou decididamente o apoio da força ou da violência. Outro o caso das relações pessoais, onde predominou igualmente o pacifismo, alias crasso. E por fim outro o caso das relações sociais, havendo cristãos pacifistas, cristãos revolucionários e cristãos equilibrados ou partidários do emprego a violência circunstancial ou contida.

Agora por que o mesmo Jesus que empunha o chicote aqui repreende Pedro acolá, mormente quando ele Pedro exercita a defesa enquanto que ele Jesus ataca?

Há quem diga, equivocadamente, que Jesus aqui procede como Deus enquanto que Pedro ali procede como mero homem. Não aprecio todavia esse tipo de interpretação, a qual me sabe a monofisita. Evidentemente que quando perdoa Jesus os pecadores sabemos que tal ação tem seu motor primário na natureza eterna e divina. Agora quando exerce certa violência ou força contra os mercadores sacrílegos não temos como saber com exatidão qual seja o motor primário ou mais remoto de tal atitude. 

Direi então que o motor mais provável dessa ação Cristológica executada pela natureza humana seja a natureza divina, embora não possamos demonstra-la. 

Todavia meu ponto de vista e bem outro e consiste em distinguir que faz Jesus do que faz Pedro. Pois Pedro empunha uma espada que fere e mata. Enquanto Jesus emprega um feixe de cordas (Ev de João 2,15).

Insistirei resolutamente quanto a esta distinção, a ponto de apresenta-la como fundamental: Pedro não empunha um feixe de cordas e Jesus não utiliza uma espada. Pois os partidários de que a violência é sancionada por Deus quanto as coisas profanas costumam alegar que dá no mesmo Jesus ter empregado uma feixe de cordas ou chicote, uma espada, uma lança, uma metralhadora ou uma bomba. Advirto porém que o texto em questão não diz respeito ao emprego da violência no plano social, e sim ao suposto emprego da violência no plano religioso ou da fé, o que acaba por chocar-se contra o conjunto dos ensinamentos de Jesus. O qual a um tempo condenou radicalmente o emprego da violência no plano do ideal e a outro jamais imiscuiu-se em questões formais de sociologia ou política, as quais são indiferentes ao Evangelho.

Ora, justamente por tal narrativa estar vinculada a piedade religiosa não cabe recurso a violência ou mesmo a força. 

Segundo a narrativa sumária de S Mateus Jesus expulsou ou teria expulsado os vendedores, derrubando suas mesas e cadeiras. Agora como fez isto? Onde Mateus silencia S João completa: Valeu-se dum feixe de cordas a guiza de chicote. Donde concluem alguns que teria batido nos cambistas. A narrativa todavia indica que com o chicote espantou os animais que ali se achavam. De que resultou terem as mesas, cadeiras e moedas caído pelo chão (Outras foram derrubadas pelo próprio Jesus) e a fuga de ao menos alguns mercadores devido a surpresa e ao pavor, afinal aquele tipo de ataque era algo atípico e inesperado. 

Teria o Senhor ao menos batido nos animais que ali se achavam com o objetivo de espanta-los?

Também isto tenho por demasiado improvável.

É coisa a respeito de que a letra do Evangelho igualmente silencia e o Redentor sempre poderia ter feito girar e zunir aquele chicote com cordas, bem como bater com ele no chão e nas mesas e cadeiras para assustar os animais po-los em fuga e causar todo aquele tumulto assombroso.

Nada no Evangelho impõem a crença ou ensinamento de que chicoteou Jesus os pobres animais e menos ainda que tenha surrado a sacerdotes e cambistas, e isto sempre será ultrapassar a letra, profanar a divina Revelação e simplificar as coisas.

Nem pode aquilo que sequer se equipara a um chicote ser equiparado a lanças, espadas, machados, revólveres, metralhas e bombas... E apenas alguns cérebros doentios poderiam concebe-lo. Ademais o quanto teríamos aqui seria a aprovação quanto ao emprego da violência no âmbito da fé ou da religião. Sendo assim por que os primeiros Cristãos não partiram para o ataque e conquistaram o império romano recorrendo a guerra e a espada? Deixando-se inclusive condenar injustamente sem esboçar resistência? Acaso não compreenderam o sentido 'oculto' do Evangelho?

Admitia essa versão nada teríamos em Jesus além de um outro Moisés ou Maomé, alias, neste caso Zwinglio e Calvino o teriam compreendido melhor do que quaisquer outros. Tal a versão odinista do Jesus fascista e do Jesus fascista uma vez que os Comunistas ao menos não se importam com ele a ponto de distorcer seu caráter e ensinamentos.

Implica essa constatação admitir que o emprego da violência quanto as relações sociais e políticas não é norteado pela Lei religiosa e ética de Jesus Cristo - A qual obviamente remove-o das relações ou do convívio pessoal. - mas pela experiencialidade e sobretudo pela reflexão. 

Apesar disso há algo desse espírito evangélico que se estande remotamente as relações sociais, como que a guiza de inspiração. Trata-se aqui da condenação do primeiro motor do odinismo ou daqueles que estimulam a agressividade e a conquista associadas a violência. Então a violência para ser lícita deve romper com o paradigma anti Cristão da belicosidade ou da conquista. E circunscrever-se a esfera da defesa. O uso político e social da violência na perspectiva Cristã estará sempre a serviço da defesa, jamais da agressão ou da conquista.

Não pode portanto a violência, no sentido Cristão, servir ao assim chamado imperialismo seja qual for ele.

Tal a única baliza ou exigência ética.

Para além disto temos de conceder que é a violência um fenômeno tão instrumental quanto a estrutura política formal de nossa democracia. O qual por isso mesmo deve servir a algum propósito ideal ou ético. Quero dizer que a violência não pode ser avaliada em si mesma como algo bom (Como fazem os odinistas) ou mau (Como faz o pacifismo crasso.) mas sim quanto a seu fim ou objetivo. Então a pergunta a ser feita é se esse fenômeno pode estar a serviço de algo digno como o bem, a justiça ou a virtude, ainda que circunstancialmente.

Pois não pensamos como os revolucionários i é em acionar qualquer gatilho social por meio dela e assim criar novo homem ou nova humanidade. Eis o que não se pode ou deve esperar da violência, engendrando veleidades místicas. Podemos dizer sim a violência, mas não a sua mística. Não posso ver como a violência em si mesma ou mesmo enquanto meio possa entusiasmar o homem reflexivo.

Nem entusiasmar nem demonizar mas apenas avaliar até que medida podemos usa-la vinculando-a a uma boa causa.

Claro que ao utilizarmos a violência em benefício das crianças, dos idosos, das mulheres, dos deficientes, dos injustiçados, da natureza, etc estaremos fazendo um bom uso dela. 

Importa saber que a violência precisa ser administrada pela razão e assim sempre planejada, contida, limitada, etc 

Nem podemos conceber (Ao modo dos odinistas) a violência ou a força física como as diversas culturas de morte afirmam o mercado, a fé, a política, a ciência, etc i é como algo fora do controle da ética ou acima dela. Simples assim: A estância da Ética deve predominar em todos os setores da existência humana. Daí não estarmos de acordo com um uso irracionalista, cego ou voluntarista da violência.

Ao contrário dos Revolucionários, que imaginam a violência como gatilho ou motor primário da mudança, o quanto pretendemos é usa-la em algumas situações sociais circunstanciais, apenas com o objetivo de substituir umas pessoas por outras, assim as más, egoístas e injustas por outras que sejam éticas e tanto mais dignas. Não pretendemos tocar as estruturas, crendo que tenham elas seu fluxo, e que virão a ser alteradas pelas pessoas dignas e conscientes através dos meios educativos, políticos e sociais. Nós acreditamos na evolução orgânica das estruturas ou em sua transformação interna através do acúmulo de reformas acionadas pela formação ética dos cidadãos. É coisa de cultura não de murros, pontapés e bombas.

É por isso mesmo que não atribuímos as situações de violências, guerras, batalhas e conflitos a solução de todos os nossos problemas. Pois de fato nada resolverão. Limitando-se a criar novas possibilidades de ação, conforme delas resulte a troca dos quadros. É recurso destinado a arejar as estruturas e não passe de mágica que as altere radicalmente e a partir delas a sociedade como um todo. Toda essa mecânica social imaginada pelos metafísicos anarquistas, comunistas, nazistas, fascistas, etc é furada e assim as idéias de revolução e contra revolução.

Continua











terça-feira, 13 de julho de 2021

Socialismos, o espelho do Cristianismo II

Já expusemos honestamente nossa vergonha.

Materialistas, mecanicistas, economicistas e positivistas há que ousam revindicar para si mesmos o título nada honroso de cristãos capitalistas ou liberais mercadistas. Fossem eles protestantes não nos admiraríamos disto - Oh Sancta Simplicitas... Pois é o protestantismo individualista, transcendentalista, livre examinista; sancionando quaisquer distorções subjetivas dos textos sagrados, etc

Incoerente, grave e escandaloso é que Cristãos apostólicos: Romanistas, Anglicanos e Católicos Ortodoxos tenham assimilado tão levianamente esse cipoal de heresias filosóficas e sociais enquanto berram como pegas no cio: Comunistas, comunistas... 

Ora, os comunistas não fazem parte da Igreja e aqueles que simpatizam com algumas de suas visões e métodos equivocados devem ser reorientados com toda paciência pela autoridade eclesiástica, ou, constatada a má fé, disciplinados. Aqueles que de fato se preocupam com os oprimidos e cuidam da justiça não terão dificuldade alguma em submeter-se. Pois é de nossa tradição mover guerra espiritual a avareza e denunciar a opressão sob todas as suas formas. É da Igreja tomar o partido dos fracos e oprimidos e vindicar-lhes a causa. No entanto são nossas fontes espirituais e nossos meios específicos.

Não somos comunistas nem nos fazemos comunistas por denunciar como devemos o pai do Comunismo, o Capitalismo esse filho terrível, afilhado ou enteado do protestantismo. 

O protestantismo, temos sempre de bater nessa tecla, foi quem lançou as sementes venenosas do individualismo ou do egoísmo. Foi ele que (Não estou atribuindo este erro fatal a Lutero! - O qual jamais negou as obras e sim que as obras salvassem!) apartou a Cristandade das obras e da imanência, ferindo de morte o ideal insercionista inaugurado pela Encarnação de nosso Deus. Foi ele que dando as mãos ao neo platonismo criou esse cristianismo descarnado, fantasmagórico ou 'espiritualizante'. Foi ele que por necessidade histórica deitou nos braços do poder estabelecido. Foi ele que tornou-se lacaio do Estado e por meio desse servo de forças econômicas. Foi ele que editou a nova versão 'frágil' do Cristianismo, esse Cristianismo fala mansa ou água com açúcar. Foi ele que converteu o Cristianismo em sedativo e tornou-o socialmente irrelevante ou inútil. Tudo isto fez o protestantismo, acalentando a víbora materialista/economicista em se seio e dando-lhe vida.

Aspiravam os poderes econômicos por semelhante oportunidade. De revindicarem autonomia e assumir a soberania. Demandavam portanto por uma Igreja submissa, sem Bispos, monges, conventos, cruzes e sinos... O protestantismo esvaziou e enfraqueceu o nosso Cristianismo, curvando-o face a outros poderes, quando lhe estava reservado o comando (Indireto ou via Ética) de tudo, assim a direção do processo histórico.

Tampouco pôde o protestantismo com sua petição grosseira a bíblia ou ao antigo testamento, assumir tal encargo ou a missão que revindicava. Impediam-no a divisão em seitas e consequentes disputas, a petição ao exame particular, o viés transcendentalista, etc E só por um tempo o monstro de Genebra, com a Torá entre as unhas, governou a ferro e fogo, fazendo verter torrentes de sangue humano e criando - Segundo Pierre Van Paassen (Com o apoio de Stefan Zweig) - o primeiro campo de concentração da História. Afinal a cegueira bíblica ou judaizante só poderia mesmo prevalecer por meio da força... 

Foi um triunfo efêmero.

O protestantismo fragmentou a igreja cismática de Roma num amontoado de seitas e proclamou altissonante seu triunfo, e sem embargo falhou miseravelmente por não ter sido capaz de substituir a igreja rival. O protestantismo de modo algum tomou a condução dos destinos do mundo mas abriu mão dela, e isto equivale a capitulação espiritual do Cristianismo histórico, esse refúgio na extremidade do 'espírito', nas nuvens ou nas alturas - Pelo simples fato do Deus do Evangelho se ter aproximado do mundo e entrado na História por meio da Encarnação. Com o triunfo do protestantismo e sua alienação ou esvaziamento neo platônico perdeu o Cristianismo sua vocação. 

Por incapacidade do protestantismo mitológico (Por via do antigo testamento) e sectário (Por via das seitas) o Cristianismo perdeu a direção das coisas e cessou de inspirar cada vez mais as ações dos homens imprimindo-lhes um cunho social. 

O protestantismo foi e é recuo, abandono e fracasso. Uma opinião firmada em Agostinho e segundo a qual mesmo em posse da graça o homem sequer pode transformar a si mesmo, devendo desesperar-se por completo do mundo e, necessariamente (Como ocorreu e ocorre) tornar-se catastrofista e apocalíptico, assimilando o derrotismo dos antigos hebreus. Toda essa carga de negatividade e pessimismo existente já na literatura judaica ou judaizante dos primeiros séculos o protestantismo absorveu, e a ponto de criar um lema: O mundo não tem solução.

Agora ao recuar de seu posto, até então ocupado, ainda que sofrivelmente pela igreja romana, mas ocupado, o protestantismo permitiu que um outro tipo de poder, o poder material ou econômico, se instala-se em seu lugar inaugurando um novo ciclo na História da Humanidade, o ciclo das ideologias naturalistas ou das culturas de morte, todas ao menos implícita ou dissimuladamente materialistas até os confins do ateísmo, e relativistas (Quando não negacionistas) quanto aos valores espirituais, e isentas de qualquer sentido metafísico profundo, que transcenda o mercado, a pátria, a raça e outras categorias inferiores senão vulgares da existência. O espírito perdeu seu primado já há muito disputado como jamais perdera nos piores momentos da História antiga...

Como de Ideologia em Ideologia, de cultura em cultura, de mística em mística não chegaríamos a borda do abismo que é a negação e a extinção do homem.

Não foi o Deus, assim o teísmo naturalista dos pensadores gregos e tampouco o Deus encarnado e presente do Evangelho que morreu, bateu botas e apodreceu, mas o homem. Nossa espécie é que ora agoniza e se vê prestes a morrer miseravelmente em meio a águas, ares e terras poluídos e a falta de comida! E isto tudo por falta de Ética, por falta de sólidos fundamentos espirituais... E o caminho disto foi a bíblia, digo e repito, o biblismo, o livre exame, o sectarismo. O protestantismo foi o começo de tudo. Precipitou-nos inclusive no vórtice das Revoluções, outra ilusão, delírio ou quimera perniciosa. Fala-nos mesmo por meio de Kant, Nietzsche, Sorel, etc e sempre para o mal ou para o pior... Por isso ele não nos poderá salvar, e tampouco conter este ciclo de culturas de morte que acionou.

E se você leitor protestante, nada percebe ou vê além do falso dilema papismo/protestantismo desespere de toda salvação e aguarde pela pior das mortes no único e verdadeiro inferno produzido pela avareza, pelo individualismo, pelo egoísmo e pelo mar de irracionalismo, e é claro pela falta daquela Ética filha do Evangelho vivo e redentor.

Agora ao estender meu olhar sobre o corpo da Igreja que vejo em termos de consciência social Cristã, de ideários, planos, propostas, métodos, etc

Contemplo antes de tudo aquela multidão de Cristãos alienados que nada sabem sobre as condições do mundo atual e que tampouco se importam com ele, caminhando como cegos ou zumbis em direção do abismo hiante. Tais os Cristãos que se reproduzem organicamente, os de tradição cultural, os reprodutores, os imitadores, os apenas batizados, etc - Nossas massas, como diria J H Newman. Aqueles que receberam o Cristianismo de seus ancestrais mas que jamais sentiram-no ou refletiram sobre eles. Esses homens sem espírito, sem alma ou consciência; nos quais não brilha o amor pelo bem, pela verdade ou pelo belo. Os Maria vai com as outras. Os que concordam com tudo. Os que aceitam tudo. Os mal formados. Os desinformados. Os incoerentes... Nossas massas, nossa cruz. Porque devemos sofrer e chorar com a mãe Igreja.

Deixados estes formalistas e confortáveis de lado devo mencionar os Cristãos que tem consciência de sua fé, digo os que sabem o que sua fé significa e o que espera deles. Estes como Peguy sabem o que devem fazer... Sabem que o Cristianismo Católico ou Apostólico não se limita a missa de Domingo, as procissões e almoços de família... Sabem que Catolicismo não é esse paraíso burguês fechado em torno do jardim... Sabem que esse mundo artificial encerrado numa cúpula - Com sua atmosfera de intangibilidade, nada tem de Cristão. Quem espera repouso não é sabe que é Cristianismo. Pois é o autêntico Cristianismo a mais heroica das religiões e a única destinada a confrontar o mal ou a afronta-lo audaciosamente. É fé de homens e mulheres audazes e corajosos, que nos primeiros séculos suportaram horrendas torturas. Cristianismo é isto, mesmo para o leigo - Incomodo, desafio, perseguição e trabalhos: Ou não seria cruz! Ao menos a consciência de cada Ortodoxo deve sentir o impacto do desafio!

Não e não. Não se pode permanecer neutro face ao reino do dinheiro, a força do lucro, o poder do capital, a sanha da avareza. São ações e fatos que exigem postura clara e decidida. De que lado está você??? 

Pode você face a tanta fome, ignorância, nudez, enfermidade, violência, etc declarar que a vontade de Cristo se realizou nesta terra pela qual pedimos todos os dias ao repetir: Seja feita a tua vontade na terra e nos céus???

Então bata no peito, faça um junto 'Mea culpa' e em seguida se pergunte sobre o que pode fazer ou sobre qual seja teu dever, o dever do Cristão!

Amai-vos uns aos outros como vos amei, diz o Mestre.

E agora examine sua consciência e indague se aquele que explora, oprime, domine e exerce a injustiça ama!

Tornemos já, do Oriente ao Ocidente ao herói Peguy!

E cessem as relações promíscuas com o Império de Mamon! Que Mamon seja definitivamente expulso dos domínios sagrados de Jesus Cristo, nos quais devem impor-se a solidariedade, a justiça e o amor.

Apresentar nosso irmão batizado e filho de Deus como um rival ou concorrente é atitude essencialmente maligna.

Ignorar o irmão que passa fome, sede, frio, etc é ser insensível e ser insensível é não ser Cristão.

Priorizar relações e investimentos econômicos é pecar e nada mais.

Caso o Evangelho que lemos sem artifícios e atenuantes sacrílegos esteja certo o mundo em que vivemos está demasiado equivocado, e se está equivocado é nossa missão corrigi-lo.

Advertir os que erram é obra de misericórdia imposta pela verdadeira religião. Por isso nossa Sociedade não deve ser acalentada com afagos ou aplaudida mas corrigida. E exorta-la é dever que nos impõem o Evangelho. 

Assim se você se diz súdito do reino celestial por que acumula ou junta tantas tranqueiras na terra?

O melhor médico não é aquele que se dirige ao doente com palavras doces. Mas aquele que determina a dieta ou a morte. E que emprega o bisturi e o cautério. O que corta e extirpa os tecidos putrefatos e saneia o corpo por meio da cirurgia, não o que distribui confeitos...

E no entanto esses meios dizem respeito a mente e a privação das coisas sagradas no seio da Igreja.

Resta-me dizer por fim que mesmo entre os Ortodoxos ou apostólicos romanos que aspiram confrontar e transformar o mundo nem todos estão de acordo quanto aos meios e também entre os nossos há muito que existem os adeptos da ruptura radical e da inserção, da revolução e da evolução, da sedição e da reforma. E já advirto que mesmo admitindo o emprego ocasional ou circunstancial da violência, o Cristão opta certamente pela via da inserção, da institucionalidade e acima de tudo da educação, da formação ou da produção da consciência como algo que não apenas promoverá a mudança estrutural como prepara-la-a. 

É um movimento concomitante de certo modo, posto que o acúmulo das sucessivas reformas terá como resultado uma transformação gradativa. Todavia se considerarmos que os responsáveis por dar impulso as reformas - Sejam meros cidadãos engajados ou políticos de carteirinha. - estão sempre na dependência de uma educação/formação ético pessoal, concluímos que o que aciona o processo social é o espírito ou a ideia. Nem poderia a estrutura material e isenta de vida resistir como muralha invencível a ação humana. Transforma-se a sociedade como transforma-se a estrutura econômica, não magicamente ou por si só, mas sempre por ação de algumas pessoas que se acham a frente de seu tempo, são elas que dentro de limites e medidas levam a sociedade adiante, pois não se move a sociedade por si só como algo a parte, sendo movida pelos atores que moveu e move. Há pois um duplo movimento: Um que parte da estrutura e dá vida a cultura, outro que partindo do homem altera a cultura, recria as estruturas e reinventa a sociedade.

Equivocou-se Marx: Não é o modo de produção que determina a consciência. Determina as consciências das massas e influencia a todos, sendo no entanto influenciado e transformado por certas consciências bem formadas. Que tenham as tais consciências, vinculadas a diversos modelos de cultura tradicionais, resistido as investidas do modelo capitalista e contido tais investidas por séculos a fio foi suficientemente demonstrado por Polanyi e Hobsbawm. Que os efeitos das transformações impostos pela toda poderosa estrutura econômica tenham de ser sancionados pela instância do ideal confessou-o Marx. Que haja interação entre ambas as forças concedeu Engels. Que a instância imaterial tenha produzido uma cultura e que essa cultura, em diversos nichos, tenha resistido as pretensões postas pela estrutura econômica ja havia sido demonstrado por Fustel de Coulanges. Que hajam diferentes formas de constelações sociais cristalizadas em torno de princípios e valores de modo algum econômicos foi demonstrado por Sorokin. 

Se bem que não se tenha equivocado tanto ou como um Lênin. Pois era Marx, o Marx autêntico, Etapista. Fosse quais fossem suas diferenças com Hegel Marx jamais concebeu o processo social ou o fluxo histórico como cera quente. Tinha a História para ele um ritmo, sendo necessário ao Revolucionário conhece-lo bem, de modo a perceber o kairós i é a oportunidade, e atuar em comunhão ou sintonia com esse ritmo. De modo que o Revolucionário, se faz avançar um pouco a História, sempre tem consciência de seus limites. Mesmo o conjunto dos homens ou parte da Sociedade atuam sempre dentro de certos limites dados pela estrutura. 

É somente por essa via que pode a Revolução obter acesso ao poder, alterar radicalmente as estrutura e então, magicamente, alterar toda marcha da sociedade. 

Assim se nem toda Revolução é ou se dá nos termos materialistas de um Marx ou de um Bakhunin e da modernidade que é materialista - Pois como veremos toda Revolução (Como a força ou a violência) é instrumental, ficando sempre na dependência de um conceito chave ou matriz geracional que pode ser ou não ser materialista. - é certo que materialismo e Revolução combinam perfeitamente e que, bem ponderado, o conceito de Revolução conduz facilmente ao materialismo.

Explico. O que Revolucionário algum pretende é transformar a sociedade pela simples mudança em termos de pessoal, ou fica abortado o conceito de revolução. O que ele busca é um elemento chave, material ou imaterial capaz de mudar a cultura e por meio dela as pessoas. O que ele julga ter obtido através de seus estudos é a compreensão de qual seja esse mecanismo responsável pela produção e manejo da cultura. Para em seguida, por meio da violência, tomar posse desse mecanismo e, através desse mecanismo mudar a sociedade.

Importa saber algo.

Que mesmo quando é este elemento imaterial como uma nova fé, o culto a liberdade, etc ele só pode ser manipulado por quem detém o controle da força, o qual depende em última instância de um embate ou confronto físico. Parece que aquele mecanismo a ser acionado está na dependência de alguma estrutura política de poder já em parte material. E que essa estrutura de poder está na dependência de um conflito físico de forças entre corpos e munições. Porquanto o princípio da Revolução ou sua matéria é a violência.

Teríamos assim o seguinte esquema: O confronto físico entre os corpos franqueia o acesso a estrutura em parte física do poder e este por fim ao mecanismo capaz de alterar a realidade social e o comportamento das pessoas. Posso conceber, como fiz acima, uma variante; apenas por trocar o lugar das duas últimas premissas, e conceder que alterando o comportamento das pessoas altero a estrutura da sociedade; e assim atenuo o materialismo, mas não o suprimo. Como não o suprimo ao identificar o mecanismo capaz de transformar a sociedade ou a vontade pessoal com qualquer elemento imaterial. 

O revolucionismo, a metafísica revolucionária, o pensamento revolucionário, deveria, por necessidade, fazer-se marxista porque já nele está contida uma premissa materialista. Uma vez que sua petição secundária é a estrutura política (Tão material quanto a econômica.) enquanto que sua petição primária é a força física. Pois o que faz diferir a Revolução da Guerra não é a matéria mas a forma, porquanto a matéria é a força e apenas se aspira alterar toda uma estrutura ou todo um universo por meio da força física de corpos, armas e bombas, e não por meio da Educação ou da tomada de consciência. Diversos sociólogos intuíram esse aspecto, i é, o antagonismo existente entre o padrão revolucionário da violência (Que descambou no materialismo.) e o padrão evolucionário da formação/educação. Percebeu-o claramente Sorel inclusive. Dando a entender todo um quadro metafísico ou ideológico por trás de ambas as opções.

Exatamente por isso o Cristão, mesmo quando admita - Como eu - a petição a força, jamais pensará a força nos termos de um revolucionário i é como algo algo ampla e profundamente transformador ou princípio de uma nova ordem. Mesmo quando a violência for admitida em sua cosmovisão, o Cristão jamais fará dela ou centro ou o motor dessa cosmovisão, tal como a alavanca de Arquimedes, e a força será apenas um aspecto isolado e circunstancial. 

E será esse Cristão evolucionário, insercionista, institucionalista, reformista, etc mesmo quando partindo da noção perfeitamente Cristã de Guerra, ou de defesa social ou de ordem justa e desejável, admitir que em algumas situações, esgotados os demais meios, cabe e é necessário recurso a violência. Pois a demanda pela justiça institucional só é tolerável até certa medida. Claro que essa situação de violência e conflito que diz respeito a pura e simples troca de pessoas no exercício do poder e que ficará sempre na dependência de relações políticas numa ordem o mais democrática possível, não pode nem deve ser confundida com Revolução. Nem toda forma de violência contra o governo, comporta as ilações metafísicas de uma revolução. 

Tal a questão das estruturas minimamente ou apenas formalmente democráticas. As quais mesmo não correspondendo a um tipo ideal (Que se identifica com a democracia direta ou a policracia.) ou a uma estrutura perfeita, prestam-se no sentido de dar acesso a Evolução ou progresso social, o qual alias se dá nessa estrutura, i é por dentro, devendo partir dela a democracia plena ou resultar ela em democracia direita, mas não por golpe e sim por pressões sociais convertidas em leis. Por isso, ao contrário dos jacobinistas, somos contrários a qualquer sedição ou golpe democrático ou policrático (No cenário de uma democracia formal ou indireta.) e em franca oposição aos primeiros lideres protestantes, que se estribaram no Antigo Testamento, somos decididamente contra qualquer tipo de golpe ou violência religiosa. Somos contra todo e qualquer golpe cujo objetivo seja acionar forças que movam estruturas ou pessoas. Nós não cremos nisto.

Portanto mesmo quando assumirmos o padrão da força lhe daremos outro sentido, assim removeremos pessoas, em beneficio de pessoas mais dignas e melhores. Não acionaremos gatilhos e não buscaremos mudar estruturas exceto por meio da produção de consciência, da educação, da formação, a qual para nós é a chave da cultura. E e claro que o objetivo de toda essa movimentação de consciência tem por fim produzir uma cultura ética e essencial da pessoa humana, valendo-se de nossa herança Cristã que é o Evangelho (Não a bíblia e menos ainda o antigo testamento e seus preconceitos tolos.) e de nossa herança Socrática. 

Eis porque não será o Cristão revolucionário, COMO JAMAIS SERÁ CONTRA REVOLUCIONÁRIO opondo-se ativamente e por meio da força a qualquer Revolução, exceto se religiosa ou credal. 

Por isso no próximo artigo, considerando Sorel, avaliaremos a questão da violência face a razão, para em seguida reforçar nossa oposição ao contra revolucionarismo hipócrita.