quarta-feira, 18 de outubro de 2017

As principiais formas de alienação e fuga.

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Duas são as atitudes típicas do homem diante da realidade: A de conhecimento e a de alienação ou ignorância e duas as atitudes típicas do homem face ao conhecimento de uma realidade contrária a suas aspirações: O afrontamento e a fuga.

A alienação tem sido comumente explorada por aqueles que detém o poder. De modo a possibilitar-lhes o exercício de um controle discreto da Sociedade.

Embora saibamos que as situações de miséria são comumente frutos da exploração do homem pelo homem, aqueles que tiram benefício da exploração esforçam-se por convencer os explorados de que tais situações são consequências de fatores ou de causas bem distintos.

O objetivo deste artigo não é nada ambicioso. Pois limita-se a apontar algumas explicações alienantes produzidas ou utilizadas peplos donos do poder com o auxílio da mídia ou dos meios de comunicação de massa.

Não nos prenderemos aqui ao artifício mais comum que consiste em maquiar a realidade ou em distorcer sua aparência. Passando direto aos estratagemas com que buscam ocultar os fatores verdadeiramente responsáveis pelas situações/problema, ou sejam, as causas.

Afinal de contas na mesma medida em que a Internet ampliou o acesso da população a realidade vivida, enfraquecendo a maquiagem das situações, a necessidade de ocultar as causas dos problemas tornou-se ainda maior. Hoje mais do que nunca, o sistema, para proteger-se, precisa recorrer a alienação enquanto produção de causalidades falsas ou aparentes.

Assim enquanto a maçonaria conspirava verdadeiramente em favor do neo liberalismo, os líderes de diversas nações apresentavam os judeus responsáveis por todas as crises ou problemas que acometiam a sociedade. Durante muito tempo foram os judeus vilões 'reais' fabricados pela mídia de acordo com as necessidades de Estado ditadas pelo capital. Hoje continuamos assistindo a fabricação de outros tantos supostos vilões, já de talhe irreal ou fabuloso, e no entanto não menos suficientes.

Os ciganos também chegaram a ser acusados, embora em menor escala que os judeus e de modo geral quaisquer minorias étnicas ou religiosas tendem a se-lo em determinadas circunstâncias.

De qualquer forma chegamos a primeira fonte de alienação:

1 - Teorias de conspiração. Por trás de tudo quanto nos acontece de mal. Dos juros, da inflação, do arroxo salaria, da miséria, etc existe um determinado grupo de pessoas, que não correspondem ao governo e menos ainda a 'bolsa de valores'. Em algumas situações este grupo é identificado como sendo uma unidade étnica minoritária como os judeus ou os ciganos. Noutras com uma minoria religiosa como os hindus ou siks na Inglaterra. Nem podemos deixar de admitir que no tempo presente, os próprios radicais e terroristas afiliados ao islamismo sunita, correspondam a este propósito na Europa, tal e qual os latinos correspondem a ele nos EUA. Devemos no entanto deixar bem claro que os muçulmanos sunitas, com seu ideal de arabização e de implantação da sharia correspondem perfeitamente a este desígnio. Não estamos portanto querendo dizer - como os esquerdopatas ingênuos - que o radicalismo islâmico sunita não seja de fato um problema e um problema bastante sério para a cultura européia, o que estamos dizendo é que a simples presença desses fanáticos no cenário Europeu bem pode propiciar a edição de hipóteses simplistas em torno de uma monocausalidade que oculte o papel da economia de Mercado ou do sistema capitalista. Quando na verdade um problema não exclui o outro. O Capitalismo no entanto pode muito bem manipular a realidade a ponto de esconder-se por trás do radicalismo islâmico, convertendo-o em bode expiatório.

Atualmente no entanto, a grande massa de teorias conspiracionistas que povoam o imaginário popular, parece girar em torno da mitologia. O que não as torna menos impactantes e poderosas. Referi-mo-nos obviamente as quimeras divulgadas pelo espertalhão Dan Brown com o auxilio da imprensa ou da fábula dos Iluminati, bem como a sua reedição mais recente em torno dos tais reptilianos. Havendo inclusive quem vá mais além e avançando pelo caminho da religiosidade ou da alucinação postule um controle social exercido desde um lugar chamado shambala ou mesmo por extra terrestres ou habitantes do interior da terra... No tempo oportuno escreveremos um pequeno ensaio sobre todos esses delírios habilmente explorado pelos legítimos donos do poder, i é, aqueles que vivem de juros, mais valia, especulação financeira, etc

Naturalmente que este primeiro gênero de alienação nos remete facilmente ao segundo -

2) O fundamentalismo religioso. O fundamentalismo religioso, devido a seu teor fetichista, tem o vezo de eliminar todas as causas intermediárias e identificar o sagrado ou a divindade como causa direta de todas as coisas. Outra variante consiste em culpar um poder externo ou paralelo chamado destino e nem estou interessado em saber como o vulgo concilia a ideia de destino com a ideia de divindade. Por esta variante chegamos a crença na astrologia segundo a qual nossa condição é produzida pelos astros ou por suas condições, de modo que são eles os causadores tanto de nossa felicidade quanto de nossas desgraças. Certamente que essa crença precisa ser discutida num artigo a parte.

Entre os muçulmanos é deus quem tudo decide por meio do Qadar ou de seu decreto eterno. Tudo quanto se sucede com os homens, inclusive a repartição de bens e riquezas, é resultado da vontade eterna de alá, daí a título de qualquer coisa exclamarem: Esta escrito ou seja Maktub! Alá é que causa terremotos, maremotos, epidemias, incêndios, e todas as formas de desgraça que acometem o gênero humano sendo de todo inútil rebelar-se contra elas. Tal a causa primária da resignação e apatia observáveis em tais sociedades. Assim em número maior ou menor de Cristãos prevalecem as mesmas ideias embora jamais tenha sido assumidas pela Teologia Católica e sejam cada vez mais rechaçadas como absurdas. No entanto alguns fanáticos, mesmo entre o clero, insistem em adotar semelhante ponto de vista. Bem mais comum é a crença dos protestantes na predestinação, característica dos calvinistas. Os quais por via do antigo testamento não tem sido indiferentes a crença fetichista segundo a qual Deus também seria causa imediata de todos os acontecimentos naturais e sociais, doutrina que aproxima-se deveras do fatalismo islâmico.

Ultimamente os sectários protestantes elaboraram uma versão bem mais refinada do fetichismo associando-o - pasmem - a dinâmica do Mercado e por assim dizer santificando-o ou canonizado, tal e qual o papa canoniza seus santos. Assim os pentecostais, para os quais o milagre não é apenas possível, mas absolutamente banal, conceberam a ideia segundo a qual a divindade recompensaria os contribuintes da igreja, isto é aqueles que sustentam o pastor por meio de dízimos, não apenas com saúde ou conquistas amorosas, mas sobretudo com emprego, dinheiro e fortuna; tornando-os ricos e bem sucedidos, exatamente conforme as metas e ideais da Sociedade capitalista, os quais certamente encaram acriticamente como absolutamente Cristãos. Ainda nesta perspectiva aqueles que são mal sucedidos financeiramente (i é os que não ficam milionários) pertencem ao número dos descrentes, dos pecadores ou dos que tem a fé demasiado fraca. Os que pertencem a primeira categoria não fazem jus a fortuna. Os que pertencem a segunda categoria estão sendo punidos ou castigados. Já os que pertencem a terceira categoria estão sendo provados na medida em que permanecem pobres. Importa saber que como pouquíssimos entre eles enriquecem de fato, jamais cessando de lavar banheiros, são amiúde enfiados pelo pastor numa das duas categorias acima, i é na dos pecadores ou na dos que por algum motivo tem fraca fé e estão sendo provados. Deus certamente lhes esta reservando algo, pelo que devem esperar. Assim vão vivendo de esperanças e protelando o dia da 'graça' até morrerem ou virem de fato a perder a fé. Importa terem contribuído bastante e não poderem recuperar a grana perdida.

Embora seja raro no espiritismo kardecista não é lá muito raro na umbanda e outros grupos sincréticos que além das enfermidades e problemas afetivos, também os problemas financeiros como o desemprego sejam relacionados com a doutrina do Karma, praticamente na perspectivas do Hinduísmo. Noutros cultos, no protestantismo ou mesmo no catolicismo popular o insucesso financeiro, como quaisquer outros problemas é muitas vezes relacionado com o mal feito ou seja, com a o catimbó, com a feitiçaria, com a bruxaria, com os assim chamados trabalhos ou mesmo com simples pragas ou maldições.

Bem se vê que uma pessoa simples a ponto de dar crédito a qualquer uma destas 'explicações' e cujo padrão de pensamento é mágico fetichista ou infantil, jamais poderá suspeitar quanto as verdadeiras causas dos males que a afligem como a incompetência por parte do Estado, a dinâmica do Mercado, etc Não pertence a carga de suas possibilidades a aceitação de causas comuns, naturais ou materiais, as quais ela simplesmente não percebe e por incapacidade invencível. Culpara sempre o destino, deus, o karma ou uma bruxa e jamais o regime assalariado, a usura, o lucro, etc


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Repressão sexual, civilização, barbárie e sexualidade - Ensaios sobre Freud




Uma das abordagens mais interessantes de Freud diz respeito certamente a relação existente entre repressão ou limitação do prazer e Civilização ou cultura.

Conforme teoriza ele a criação da Sociedade Civilizada só foi possível a partir da limitação do prazer. Inclusive do prazer sexual, dentre outros. Não nos esqueçamos de que o próprio ócio é um prazer.

No entanto este mesmo homem também se via ameaçado pela decadência de seu próprio corpo que é a velhice, pela enfermidade, pela dor, pelos movimentos arbitrários da natureza e, o que é pior, pelo convívio com seus próprios semelhantes. De modo que as ocasiões de sofrimento não eram poucas.

Diante disto concebeu e implementou o ambicioso plano de alterar, até onde fosse possível, as forças da natureza, tendo em vista reduzir ao máximo as ocasiões acima elencadas. A partir daí foi que surgiu a técnica e posteriormente a ciência, as quais ao menos por um tempo tornaram sua vida mais amena.

O espaço em que a técnica surgiu e em que a vida tornou-se mais amena foi o espaço urbano das primeiras cidades. Com a expansão da vida urbana é assumido um ideal de civilização ou de desenvolvimento.

Tudo isto já o sabemos...

Há no entanto muita coisa de interessante nas entrelinhas a par de algumas possíveis deduções apressadas que poderiam ser feitas. É este aspecto embutido na teoria freudiana de Sociedade que queremos abordar.

A dar a limitação do prazer e a restrição da sexualidade por impulso em termos de civilização e as civilizações por mais ou menos desenvolvidas a primeira conclusão a ser sacada é que quanto mais notável é uma civilização tanto mais repressora é. A dar tal inferência por exata seriamos forçados a concluir que as civilizações egípcia e sumeriana, grega e romana, chinesa e indiana foram acentuadamente maniqueístas, puritanas e repressoras.

Ao que parece a hipótese do Dr Freud, em termos de uma repressão meramente funcional i é relacionada com a disciplina do trabalho. As civilizações ou melhor o esforço dispendido tendo em vista a elaboração delas, teve por consequência uma redução, relacionada ao menos com o montante de tempo gasto com a obtenção de certos prazeres sensíveis, dentre os quais o sexo. Caso aqueles homens primitivos tivessem optado por estar dormindo ou fazendo sexo durante a maior parte do tempo disponível por um lado o trabalho coletivo seria impossível de ser realizado e por outro chegariam ao esgotamento. O tempo teve de ser ordenado e a fruição do prazer, do lazer ou do ócio relegada a um determinado período. Além disto, na mesma medida em que o esforço fosse tanto mais intenso e o gasto de energia maior, a própria fruição do prazer devia ser restringida.

Houve uma restrição em termos de prazer, não todavia em termos absolutos, senão em termos relativos e funcionais. Nos períodos em que não estavam trabalhando e nas horas do dia em que não estavam trabalhando aqueles homens deviam ter livre acesso ao prazer. Outro aspecto tanto mais importante e digno de ser considerado é que a restrição dos prazeres em tais sociedades, as mais avançadas, deu-se prioritariamente em termos de quantidade, jamais ou quase nunca de qualidade ou forma. Necessário ressaltar este aspecto. Quero dizer que em nenhuma das civilizações acima apontadas topamos por exemplo com a condenação de alguma forma de fruição sexual em si mesma. Assim a prostituição, assim a masturbação, assim a homoafetividade... jamais chegaram a ser questionadas em si mesmas. Restrita quanto ao acesso em termos de tempo, a sexualidade chinesa, indiana, egípcia, sumeriana ou greco romana permanece aberta, indeterminada e rica quanto as formas.

Como não pretendo escrever uma História do sexo na antiguidade ou nas antigas civilizações, digo das mais desenvolvidas e, graças as escavações em Pompéia estamos bastante bem informados sobre a presença do sexo na vida dos antigos romanos, limitar-me-ei em abordar, de passagem apenas, a sexualidade no antigo Egito. Nada ali era tabu uma vez que Ramsés, o grande Faraó, contraiu matrimônio com sua própria filha Meritamon. De fato o sexo estava difuso em toda civilização Egípcia, a começar pelo universo religioso. Aton, o deus primordial, masturba-se com o objetivo de produzir os primeiros seres divinos. Chu e Tefnut transam produzindo Geb e Nut, os quais dão origem aos primeiros reis divinos. Crianças assistiam a realização do ato sexual feito por seus pais. Noutras circunstâncias Geb pratica a auto felação. Amiúde os deuses são representados com o falo ereto, ejaculando. O próprio Faraó masturbava-se publicamente no Nilo, uma vez por ano, com o objetivo de fecundar a colheita. Segundo um mito já clássico Isis após recompor o corpo do falecido Osiris recria seu falo por meio da magia. Cenas de caça são pintadas nos túmulos significando veladamente a sexualidade. Havia um deus da líbido, da dança, da embriagues, do sexo; o qual era Bes. O papiro erótico de Turim, representando a vida quotidiana num bordel de Tebas, expõem aos leitores cenas explicitas de masturbação feminina, etc Preciso mencionar a saga do padeiro Panet? E mencionar que sequer foi castigado ou punido pela lei? Nem preciso dizer que os antigos egípcios não tinham maiores problemas com seus corpos ou com a nudez; que meninos e escravos andavam praticamente nus enquanto que as mulheres da elite limitavam-se a cobri-se sumariamente com um pano de linho fino. Nada mais comum em Deir el Medinat do que desenhos de natureza sensual ou erótica. O matrimônio era flexível, o divórcio comum, a poligamia e a semi poligamia amplamente disseminadas e a mística da virgindade ignorada. Mesmo a homo afetividade era originalmente tolerada desde que não houvesse subjugação forçada. Além disto os egípcios drogavam-se usando flores de lótus, embriagavam-se com cerveja, etc, etc, etc Prazer ali não parece ter sido tabu.

Trabalhavam, e refiro-me aos trabalhadores livres, no entanto esses egípcios dez dias durante a semana. Sendo assim como encontravam energias ou forças para praticar sexo? Acaso não estaria o sexo apenas na imaginação ou na fantasia de tais pessoas??? Algumas pinturas e representações parecem indicar-nos que a vetusta civilização do Nilo conhecia já o que chamamos de excitantes ou melhor dizendo substâncias afrodisíacas. Certamente não faziam sexo a todo tempo mas quando o faziam faziam intensamente. E no entanto apesar da fruição do prazer, seja por meio do sexo, da cerveja, dos narcóticos ou da dança, a civilização Egípcia foi o que foi. Não sobrecarregou ao extremo seu povo com tabus sexuais, os quais sequer existiam.

Quanto aos antigos indianos limitar-me-ei a mencionar que são os autores do Kama Sutra...  Diga-se o mesmo do Tantra.

Outro é o caso da sexualidade na Mesopotâmia, pelo simples fato de que achasse esta região de par com as 'terras santas' do islã e do judaísmo, e devido a presença da cultura semita. Claro que tomamos por base aqui a cultura original sumeriana ou de matriz sumeriano/asiânica, atendo-nos especialmente ao Sul desta região, ocupado posteriormente pela cultura babilônica, em oposição ao Norte assírio muito mais bem mais semitizado. Tenha-se em mente que os acádios são um povo sêmita.

Compreende-se portanto porque o tema foi relegado ao silêncio e porque a sexualidade dos mesopotâmicos foi ocultada ou mesmo negada desde os bons tempos da 'santa' rainha Vitória... Apesar disto salta a vista de todo e qualquer sumerólogo o aspecto positivo com que os antigos babilônicos não apenas encaravam mas representavam, comumente, o sexo. Basta dizer que a Epopéia de Gilgamesh refere-se ao sexo como um dos principais prazeres de que os mortais devem desfrutar enquanto passam pela vida. O texto de Shumma âlu CIV, 1,14 refere-se explicitamente ao sexo anal sem adicionar qualquer juízo depreciativo. O mesmo texto acima citado refere-se positivamente a prática homossexual desde que levada a cabo com um 'assinnu' ou prostituto profissional, excluindo a coação (outra era a postura dos assírios). Já foi sugerido alias que havia certo conteúdo homo afetivo entre Gilgamesh e Enkidu. A prostituição por fim era tida em conta de sagrada e em algumas regiões deviam as moças prostituir-se em honra a deusa do amor Astarte. O incesto no entanto é tido em conta de Tabu e a mulher goza de muito menos liberdade do que no Egito. Não se pode no entanto sustentar que a primitiva Sociedade mesopotâmico/sumeriana fosse demasiado repressora ou mesmo repressora em termos de sexualidade ou de prazer. Tornou-se no entanto cada vez mais limitada e policiadora na medida em que o elemento sêmita se foi tornando preponderante, especialmente ao Norte, entre os assírios.

Após termos passado em revista a sexualidade em tais civilizações, a saber as mais desenvolvidas e ricas da antiguidade, podemos estabelecer que mesmo admitindo-se como certa aquela redução quantitativa em termos de prazer necessária a produção da cultura, a forma por assim dizer do contato sexual jamais tornou-se objeto de tabu ou policiamento, e que inexiste por assim dizer uma relação proporcional entre restrição ao prazer ou melhor dizendo entre preconceitos de natureza sexual e grau de desenvolvimento cultural. O desenvolvimento da cultura ou o florescimento da civilização antiga não parece estar na dependência do que podemos classificar como comportamento moralista, maniqueísta ou puritano em termos de negação consciente do corpo ou do orgasmo. Tal tipo de relação é o que não se constata. Eis a primeira relação a que chegamos.

O que nos leva a um problema ou a uma pergunta.

E a existência das culturas maniqueístas implica algum tipo de relação em termos de sentido ou organização social.

Quanto a esta pergunta talvez nos seja possível sugerir um caminho novo ou diferente.

Não precisarei ser erudito ou onerar o leitor com outra aula de História com o objetivo de sugerir uma certa relação existente entre a repressão sexual, os tabus, a negação do corpo ou o maniqueísmo e o espírito agressivo ou a belicosidade de algumas culturas.

Chegado a este ponto devemos esperar pelos protestos de alguns. Os quais dirão que todos os povos e culturas da antiguidade eram agressivos e belicosos na mesma proporção. Este tipo de afirmação se me parece arbitrário e artificial, gratuito enfim. Típico daquela gente simplória que diz para si mesma: Como todas as culturas são iguais todas devem estar em posse das mesmas qualidades e dos mesmos defeitos. Aqui tudo muito apriorístico.

No entanto ousarei perguntar a toda essa boa gente relativista por que não damos com as mesmas cenas de empalamento, esfolamento, tortura, etc representadas nos painéis dos palácios assírios no contesto da antiga China? Por que no Egito temos um Akhenaton abolindo os sacrifícios sangrentos e cogitando sobre a igualdade existente entre todos os homens enquanto o rei da Assíria declara estimar tanto a boa leitura quanto o hábito de cortar as orelhas e narizes de seus prisioneiros de guerra? Por que os Egípcios após terem tomado uma cidade limitavam-se a matar ou escravizar os combatentes enquanto que o 'povo eleito de jao' i é os antigos israelitas massacravam sem piedade até mesmo as crianças, os idosos e os animais que habitavam as vilas tomadas por eles? Por que os indianos ou mesmo os egípcios não saíram pelo mundo afora gritando 'Converte ou morre'? Então pelo amor de Zeus não venham dizer-me que a violência estava presente com a mesma intensidade na antiga China e na Assíria. Na antiga Índia e no antigo Israel. Na cultura islâmica e no antigo Egito.

Indianos, Egípcios e Chineses mal saíram de seus domínios com o intuito de conquistar outros povos ou de submeter outras culturas e mesmo quando foram levados a faze-lo (no caso do Egito após as invasões dos Amu) fizeram-no muito a contragosto e obedecendo determinados padrões de humanidade. Sumerianos e mesmo os Babilônicos, durante certo tempo, tampouco fugiram a estes padrões. Outro é o caso dos Assírios, dos antigos hebreus e dos árabes cujas façanhas todos nós conhecemos muito bem. Assírios pilhavam e aterrorizavam outros povos. Os hebreus promoveram ao que parece o primeiro genocídio de que temos notícia na História e os muçulmanos, a princípio árabes em sua totalidade, buscaram levar sua jihad aos confins da terra. Do que resultou uma quantidade de agressões, mortes, derramamentos de sangue e destruição apenas comparáveis as futuras guerras dos cem anos, dos trinta anos e mundiais...

Certamente que algum estudioso tanto mais realista fará questão de apontar-me os determinantes geográficos ou climáticos, o que vem sendo apontado desde os tempos de Ibn Khaldun e foi assumido entre os nossos, pela primeira vez, por Montesquieu. Os povos do deserto - e estamos diante de três culturas sêmitas - tendem a ser mais rudimentares, agressivos e belicosos do que os povos agrícolas das planícies ou cidades, em função de suas vicissitudes como o nomadismo ou a falta de recursos. Longe de mim questionar que tais fatores possam também eles cooperar quanto a gênese deste espírito belicoso. Suspeito no entanto que neste terreno qualquer enfoque monocausal seja improcedente, e que devamos tal caráter a uma convergência de fatores, assim em parte ao clima ou ao solo, mas não somente a ele.

Há aqui algum ou alguns fatores a mais e nós acreditamos poder identificar um deles com a negação do corpo e a restrição da sexualidade intencionalmente decretadas pelo legislador com o objetivo de potencializar ou de aumentar ao máximo esta alegada agressividade já favorecida pelo meio. Que a cultura semita se tenha esforçado - muito provavelmente mais do que quaisquer outras culturas - no sentido de ocultar o corpo humano e em nega-lo se me parece indubitável. Que tenha adotado igualmente uma série de tabus com relação a fruição do prazer sexual não me parece menos evidente. Tal o escopo - a princípio - do machismo e da homofobia, e posteriormente - já no contesto judaico 'cristão' da modernidade - da monogamia, da indissolubilidade matrimonial, etc Até a formação de um super ego estritamente moralista, em conexão com uma cultura moralista, a qual impôs o recalque dos desejos como sinônimo da virtude ou ideal a ser alcançado por todo homem piedoso.

Certamente resultaria de tais medidas uma epidemia de neuroses a ponto destas assumirem um caráter coletivo, isto caso as religiões de Assur, Javé e Ala, não canalizassem toda a agressividade latente produzida pelo recalque sexual para os domínios da guerra religiosa, tornando tais povos mais agressivos do que já eram ou belicosos no mais alto grau. Pelo que vinculamos essa produção intencional de agressividade e violência a afirmação desse padrão cultural maniqueísta ou puritano e a revolta instintiva latente nesta multidão de recalcados. Em certo sentido a negação da sexualidade chegou a produzir um sentido de Tanatos, um certo desprezo pela vida e uma certa tendência para morte decorrente da infelicidade e da frustração. Não é sem menos razão que podemos relacionar a mística revolucionária assumida por certas pessoas com problemas, desajustes ou disfunções de caráter sexual a apresentar ao menos alguns revolucionários fanáticos como não realizados sexualmente e portanto como seres amargurados. A frigidez, a impotência e a impossibilidade do orgasmo tirou de tais pessoas a vontade de viver a ponto de converte-las em suicidas inconscientes. Guerras, sedições, conflitos, etc dependem de eunucos ou de meios eunucos, enfim de gente que não goza... Assim é que se formam os exércitos e multidões de incendiários revoltosos, os quais ligam muito pouco valor a suas próprias vidas.

A Idade média tinha de ser combativa. Grécia e Roma tiveram de ser combativas; pois havia toda um conjuntura externa que favorecia a combatividade. As idades moderna e contemporânea não conheceram semelhante conjuntura, e no entanto foram ainda mais belicosas. Desde o século XVI ao XIX o número de guerras e conflitos recrudesceu, declinando apenas a partir de meados do século XIX. Durante todo este tempo que vai da reforma ao período vitoriano os ideais maniqueístas e puritanos embutidos na sociedade Cristã pela cultura judaica não cessaram de consolidar-se. O que não pode ter deixado de aumentar ainda mais a pressão do recalque e portanto a produção da agressividade e o desejo inconsciente pela destruição. Desejo que originalmente inexiste, sendo produzido, bom dize-lo, pela cultura da repressão. Seja como for, durante quase trezentos anos este desejo alimentou um sem número de guerras e conflitos estimulados e sancionados pelo fanatismo religioso. Esta relação - Repressão, agressividade, conflito e Religião, marcou toda uma Era, até os idos de 1830 ou 48. Desde então assistimos, sem que o puritanismo saísse de cena (afinal estamos em sua Idade dourada que o período vitoriano), uma redução do número das guerras e dos conflitos ( a qual se prolonga até o surgimento da primeira grande guerra mundial). Neste caso que foi feito de toda esta agressividade?

Desde 1830, com a consolidação do modelo de produção liberal ou capitalista nos moldes clássicos, foi a agressividade canalizada para outros fins, assim para o mundo do trabalho, tornando sua relação com a própria sexualidade ambivalente. Até que Freud apareceu em cena, e após ele os contraceptivos e as Revoluções sexual e feminina, dispondo todas estas relações doutro modo.



domingo, 15 de outubro de 2017

Entrevista com o 'inocente' útil, isto é com o pobre liberal

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Pobre liberal: A pobreza é fruto da vagabundagem. Pobre é pobre porque não quer trabalhar e viver decentemente de salário. Rico é rico porque trabalhou, porque se esforçou.
Outro: E você, é rico ou pobre?
Pobre liberal: Sou pobre...
Outro: Logo?
Pobre liberal: Quero dizer não sou rico nem pobre, ou seja, nem uma coisa nem outra.
Outro:????
Pobre liberal: Quero dizer que ainda estou trabalhando para enriquecer, afinal ainda sou jovem.
Outro: Excelente. E seu pai?
Pobre liberal: Meu pai o que?
Outro: Seu pai é rico ou pobre?
Pobre liberal: Pobre, claro.
Outro: Logo, vagabundo...
Pobre liberal: Não...
Outro: Veja, se seu pai trabalhou por vinte ou trinta anos, economizou e não enriqueceu quer que eu pense o que dele?
Pobre liberal: É que meu pai passou por certas dificuldades.
Outro: E os outros, os outros pobres vagabundos e os patrões vitoriosos acaso não passaram por dificuldades ou as dificuldades são apanágios exclusivos do seu pai?
Pobre liberal: Quando disse que todos os pobre são vagabundos não quis dizer todos os pobres.
Outro: Evidentemente que quis excluir sua família.
Pobre liberal:... Até concedo que existam alguns pobres esforçados que não chegam a lugar algum...
Outro: Pelo que vejo já chegamos a algum lugar...
Pobre liberal: A maioria no entanto é mesmo acomodada.
Outro: Acomodada?
Pobre liberal: Sim acomodada.
Outro: Acomodada como?
Pobre liberal: É sempre possível buscar um emprego melhor.
Outro: Com tanta gente desempregada formando esse enorme mercado de reserva o amigo é capaz de crer que alguém receberá ou recebe muito mais pelos mesmos serviços oferecidos?
Pobre liberal: Se você percebe que sua profissão não é rentável tem que mudar de profissão?
Outro: Como mudar de profissão se a aquisição de uma nova técnica exige aprendizado efetivo?
Pobre liberal: Sei lá, tornando a estudar ou fazendo um curso técnico.
Outro: Neste caso como poderá fazer economias tendo de pagar pelo curso em questão ou pelo material, além de ter de alimentar-se melhor para poder estudar e trabalhar ao mesmo tempo, gastar com passagem de ônibus, etc
Pobre liberal: Claro que enquanto estuda e trabalha não poderá economizar.
Outro: Neste caso economizará quando?
Pobre liberal: Quanto estiver formado e em posse de um emprego melhor.
Outro: Quando a maioria dos brasileiros e brasileiras costumam fazer algum curso já passaram os vinte.
Pobre liberal: E?
Outro: Significa que essa pessoa que terminou seu curso e conseguiu um empreguinho pouco melhor agora tem família para sustentar i é tem filhos, sem que no entanto tenha casa própria, tendo de pagar aluguel.
Pobre liberal: Se essas pessoas não tem condição de ter por que põem filho no mundo? Por que se casa? Por que abandona a casa dos pais e vai morar de aluguel?
Outro: Porque na maior parte das vezes nascem nessas condições e imitam seus pais, tal a força da cultura. Especialmente entre pessoas pouco ou mal escolarizadas. Certas situações sociais tendem a ser reproduzidas. Por isso muitas vezes essas pessoas já nascem em casas alugadas. Por outro lado, conforme a situação dos humildes em geral vai piorando de geração em geração a tendência é que em determinado contesto social apareça um número cada vez maior de conflitos. Quero dizer que os pais e responsáveis tendem a fugir cada vez mais a realidade vivida, a frustração e a falta de esperança recorrendo a bebida, a droga e a própria sexualidade. Com isto o número de filhos ou de crianças aumenta cada vez mais enquanto a condição delas vai se tornando cada vez mais precária. Um número cada vez maior de jovens e crianças tende a ficar exposto a situações de agressão. Disto decorre que o lar, ao invés de apresentar-se como ambiente acolhedor, apresente-se cada vez mais como um ambiente saturado de violência e portanto indesejável. Diante disto mal o jovem consegue um emprego surge a ideia de alugar um comodo, construir um barraco e juntar-se a alguém que esteja nas mesmas condições. Melhor do que ter de entregar todo dinheiro nas mãos de um pai ou de uma mãe violenta e ser agredido... A formação de um lar, por piores que sejam as condições, tende a insuflar alguma esperança naqueles corações, embora posteriormente tais esperanças se mostrem ilusórias, cedendo lugar a frustração, a angústia, a falta de perspectivas e a fuga por meio dos já citados vícios ou do fanatismo religioso. Renovando-se de geração em geração o mesmo ciclo. Não é questão romântica, de escolha, mas de condições dadas. Ninguém dá aquilo que não tem ou o que não recebeu.
Pobre liberal: E o papel da educação na vida dessas pessoas, acaso não existe Escola perto da casa delas?
Outro: Percebo que estudou.
Pobre liberal: Apesar de ter nascido pobre meus pais faziam questão de mandar-me a escola, de irem as reuniões, de olharem o boletim e até de fornecerem alguma explicação sobre as lições.
Outro: Percebo que não nasceu em comunidade de periferia ou na roça.
Pobre liberal: A bem da verdade nasci num bairro de classe média baixa ou quase de classe média baixa.
Outro: Tipo com água quentinha no chuveiro, cama arrumadinha...
Pobre liberal: Mas que vem isso ao caso?
Outro: Já pensou em como deve ser legal ir para a Escola de barriga vazia ou com o estomago apertado de fome?
Pobre liberal: Até onde sei a escola fornece merenda.
Outro: De fato em S Paulo temos umas bolachinhas de maizena e uns copinhos de suco de laranja...
O quanto basta para atrair um certo número de crianças pobres que lá vão merendar, raramente aprender, pelo simples fato de terem trabalhado em algum outro período do dia, de estarem desnutridas, de terem sido espancadas, de terem a afetividade inibida, etc
Pobre liberal: Melhor estarem na escola do que em casa né?
Outro: Sem dúvida, em tais condições a escola equivale a um refúgio face as mazelas da vida. O que não significa que aquelas crianças estejam em condições de aprender muita coisa, pelo simples fato de que o aprendizado depende de certas condições materiais, afetivas e psicológicas as quais já nos referimos.
Pobre liberal: Acaso os professores não estão ali para isso? Acaso não são pagos para isto?
Outro: Fossem suficientemente pagos não precisariam cumprir duas ou três jornadas para poderem sobreviver e certamente poderiam preparar e ministrar aulas muito melhores.
Pobre liberal: Se estão insatisfeitos com seus salários por que não mudam de profissão?
Outro: Não mudam porque não tem uma opção melhor, alias a bem da verdade os melhores professores não permanecem no serviço público estadual e isto já diz tudo, é um sistema retém intencionalmente os educadores menos competentes i é os que menos tempo tem para capacitar-se, sim pois os que teem menos tempo para capacitar-se e se destacam na profissão passam a outros sistemas de Ensino, nos quais inclusive contam com uma estrutura de apoio muito superior.
Caso o estado (S Paulo) quisesse manter os melhores professores e investir na qualidade do ensino remuneraria melhor os seus professores de modo a que não precisassem cumprir dupla ou tripla jornada, destarte poderiam capacitar-se como os demais e nem teríamos professores de segunda classe, mas temos, porque sendo mal remunerados precisam sobrecarregar-se.
Pobre liberal: Bobagem, quem quer ensinar ensina de qualquer jeito, independentemente das condições.
Outro: Somente uma pessoa que não compreende absolutamente nada em termos de ensino aprendizagem poderia dizer uma pérola destas. Não existe ensino feito no ar ou independentemente das condições sejam psicológicas, emocionais, intelectuais, econômicas ou materiais e isto pelo ensino aprendizagem ser um ato complexo em que entram todos estes fatores. Basta dizer que o ensino depende de determinadas técnicas, que estas técnicas dependem de determinados materiais e que estes determinados materiais, tendo custos, implicam investimento por parte daquele que gerencia a Educação. O professor faz sua parte na medida em que ama seus alunos e aspirar cumprir honestamente com sua função. Não é no entanto um taumaturgo ou seja não faz milagres, ficando sempre na dependência das condições naturais que são em parte materiais. Na falta de livros, giz, quadro de giz, retroprojetor, slide, vídeo, ônibus, etc ou na base do improviso, sua ação torna-se cada vez limitada, até tornar-se de todo improfícua. Quando ultrapassa-se o número de vinte alunos por turna e salas convertem-se em depósitos de jovens e crianças, digo que o ato de ensinar é intencionalmente obstruído. A escola privada, excepcionalmente, pode contar com profissionais de qualidade inferior, os quais no entanto sempre poderão produzir medianamente, devido ao apoio pessoal ou material oferecido a tais profissionais. A escola pública com os melhores profissionais e as melhores intenções ficará sempre atrás da escola privada caso não haja significativo investimento em termos de estrutura pessoal e técnica. É exatamente o que acontece. E tem uma razão de ser. Afinal a construção de uma Sociedade menos desigual começa com oportunidades ou chances iguais para todos. Todavia como falar em oportunidades iguais quando a qualidade do Ensino não é Igual???
Pobre liberal: Não compreendo essa Filosofia que consiste em aliviar as responsabilidades das pessoas de baixa renda, das crianças da periferia, dos professores públicos, etc e lança-la toda sobre as costas largas do Estado.
Outro: Uma vez que existe um Estado certamente não existe de enfeite, comportando determinada missão. Para tanto pagamos impostos e somos onerados por uma carga tributária que muito querem reduzir em benefício do patrão mas que sempre poderia ser mantida e revertida em benefício dos trabalhadores e da gente humilde por meio de investimentos nos setores da educação, saúde, habitação, lazer, segurança, etc a exemplo do que ocorre nos países do Norte da Europa, em especial na Escandinávia. Uma vez que lá os tributos revertem a população sob a forma de qualidade de vida por que não poderia acontecer o mesmo aqui? Certamente há pessoas, administradores inclusive, que não desejam que o estado cumpra com sua função social e de certo, e para que? Para que todos os serviços sejam assumidos pela iniciativa privada revertendo em favor do Mercado e endossando ainda mais a ordem liberal ou neo liberal.
Por outro lado não se trata aqui de aliviar a barra de quem quer que seja mas sim de considerar diversos fatores e fazer justiça. O amigo é que fundamentado num idealismo, vulgar, grosseiro e aberrante ou numa concepção romântica da existência, desconsidera tudo quando em termos de materialidade influência as ações humanas executadas no tempo e no espaço ou seja num universo material e corpóreo. Daí achar que a boa intenção tudo pode ou que a boa vontade tem poderes mágicos. São certamente fatores vitais, os quais jamais podemos excluir, mas que isoladamente pouco ou nada produzem. Precisamos certamente de muita boa vontade, mas também nos meios necessários para faze-la acontecer. Parto de uma perspectiva realista, considerando a realidade das pessoas sejam trabalhadores, alunos e professores, os quais são necessariamente influenciados pelo meio.
Liberal pobre: Quem quer fazer as coisas faz independentemente das condições.
Outro: É obrigação do Estado oferecer as condições necessárias para que o ofício de professor e a vocação de aluno concretizem-se no nível mais intenso, aproximando-se de um ideal de perfeição. Se a iniciativa privada fornece tais condições a seus docentes e alunos, o poder público não pode ficar atrás. Isto sob a pena de termos dois padrões de qualidade diferente, um para os ricos e outro para os pobres. Caso as condições sejam consideradas por um sistema de ensino deverão ser igualmente consideradas pelo outro.
Liberal pobre: Se de fato aspiram por uma educação igual para todos por que não aprovam a privatização das escolas?
Outro: Antes de responder a sua pergunta devo dizer que privatização não é nem de longe garantia de qualidade como costumam declarar os meios de comunicação patrocinados por corporações liberais. Para tanto devemos considerar que o maior desastre ambiental acontecido neste país foi consequência da falta de controle de qualidade por parte do setor privado e não do estatal. Outro exemplo não menos clamoroso diz respeito aos abusos, recorrentes alias, cometidos pelos planos de saúde. Dos quais tem resultado gravíssimos danos a seus afiliados. Via de regra afirma-se que caso o SUS funcionasse ou fosse superior não existiriam planos de saúde. Sabemos no entanto que boa parte das pessoas, pelo simples fato de custearem igualmente o SUS, na prática, acabam servindo-se de ambos os sistemas. Então a primeira pergunta a ser feita é se a qualidade dos planos seria a mesmos caso inexistisse o SUS? Já a segunda pergunta a ser feita diz respeito - adotando-se a ótica da privatização - ao que aconteceria com aquela parcela da população incapaz de pagar por um plano de saúde caso o SUS deixasse de existir? Seriam deixados a mingua na sarjeta para morrer como mostrou Michael Moore em seu documentário sobre a assistência médica nos EUNA ou teriam de hipotecar suas casas, automóveis, etc em caso de doença???
Liberal pobre: Uma vez que todos ganhassem suficientemente bem?
Outro: Todos?
Liberal pobre: Uma vez que a maior parte das pessoas pudesse pagar por tais serviços.
Outro: Poderia pagar por eles um trabalhador assalariado, mormente quando os senhores da mesma maneira a fixação de um salário mínimo por parte do Estado?
Liberal pobre: Os salários devem obedecer a lei da oferta e da procura.
Outro: Neste caso com tanta gente desempregada e procurando por serviços temo que jamais seriam suficientes para custear tais serviços.
Liberal pobre: Evidentemente que se trata de uma Sociedade em que mérito de alguns poucos seria bastante reconhecido.
Outro: Como você poder falar em mérito se a concorrência parte de planos diferenciados, de condições de vida preexistentes, de qualidades de ensino diferente, etc??? Como você espera que o pobre alcance o rico se o rico sempre parte a frente dele. Acaso já assistiu a alguma maratona em que os corredores partam de pontos diferentes? De fato até poderíamos falar em merecimento, esforço, etc desde que a concorrência partisse de oportunidades iguais para todos.
Liberal pobre: Como chegar a algum lugar sem fazer sacrifícios?
Outro: Nada mais canalha do que pedir sacrifício aos demais enquanto recebemos a fortuna de bandeja por meio da herança. A homem algum assiste o direito de exigir dos outros aquilo que ele mesmo jamais fez...
Liberal pobre: Você fala tanto em realidade e ignora que as coisas sempre tem sido assim, desde o começo do mundo.
Outro: Quem ignora supinamente as lições da História são vocês, haja visto que a primeira tentativa de reforma social foi implementada há cerca de quarenta e cinco séculos pelo rei Urukagina de Lagash. Grosso modo somos autorizados a dizer que algumas sociedades jamais cessaram de conceber, imaginar e implementar instituições cada vez mais eficientes no sentido de estabelecer ou de, se possível fosse, esgotar a demanda da justiça.
Liberal pobre: Quer dizer que nem sempre fomos capitalistas?
Outro: Basta olharmos para a Idade Média, para as civilizações antigas ou para as culturas primitivas...
Liberal pobre: Seja como for tem o homem de evoluir e tal qual o homem a Sociedade.
Outro: Sem sombra de dúvida, no entanto a opinião segundo a qual o Capitalismo constitui uma evolução face aos sistemas precedentes, inda que apoiada pelo odiado K Marx, não passa de um juízo de valor.
Liberal pobre: De fato nem mesmo Marx ousaria colocar o sistema estamental das ordens feudais acima do nosso capitalismo.
Outro: Como não sou marxista ortodoxo, direi na esteira de um heterodoxo marxista, que apesar de sua deficiência em termos de técnica a Idade Média jamais cogitou em colocar o TER acima do SER. Com efeito se nossos ancestrais medievos morriam devido a fome ou a enfermidade é certamente porque não havia comida ou medicamentos. Morriam porque não se sabia fabricar este ou aquele remédio, porque inexistia este ou aquele aparelho, por falta de técnica ou de conhecimento enfim e não pode má vontade. O medievo jamais conceberia a destruição deste ou daquele gênero alimentício como meio lícito para aumentar seu valor enquanto parte dos cidadãos estivesse morrendo de fome, lhes pareceria monstruoso! Se produzimos alimentos em quantidade suficiente para extinguir a fome em termos globais, por que cargas d água ainda há gente passando fome no mundo? Se não há problema técnico quanto a produção então o que? Onde esta o problema? O problema aqui diz respeito a distribuição dos alimentos enquanto fruto da vontade humana? Afinal esta distribuição é feita conforme os interesses do Mercado ou do Capital/lucro e não dos seres humanos... Temos técnica, o que não temos é Ética. O defeito deles dizia respeito aos meios, o nossos diz respeito ao caráter. Como se diz então que este sistema assumido por homens sem caráter era superior ao deles?
Liberal pobre: O capitalismo com todas as suas mazelas e defeitos é o que de melhor ou de menos mal temos em termos sociais. Pois ao menos possibilita, como nenhum outro sistema jamais possibilitou, a ascensão da maior parte de seus membros.
Outro: Tudo quando o sistema Capitalista tem possibilitado é de um lado o acumulo de uma quantidade cada vez maior de bens nas mãos de um número cada vez menor de pessoas e do outro a partilha de um montante cada vez menor de bens nas mãos de um número cada vez maior de pessoas. Do que decorre um nicho cada vez menor em que o mérito possa inserir-se, e não um nicho cada vez maior ou ao menos estável. Mesmo com relação aos que supostamente possuem méritos é exigido um grau cada vez maior de esforço, pois as chances restringem-se mais ao invés de ampliarem-se. Destarte se há um sistema desfavorável para as classes médias é o capitalismo.
Liberal pobre: Importa que o acesso a tal nicho seja franqueado aos melhores.
Outro: Assim fosse... No entanto a dar por melhores ou mais excelentes os cientistas ou intelectuais não podemos dizer que os pináculos do sistema estejam franqueados a eles. No frigir dos ovos podemos dizer que no sistema capitalistas o corpo é comandado pelas mãos e pés, não pelo cérebro, uma vez que os intelectuais e cientistas ocupam sempre posições subalternas já com relação ao poder econômico já com relação ao poder político. Segundo a organização capitalista os mais excelentes obedecem ou executam enquanto que os medíocres ou espertos, assim digamos, governam o mundo como deuses. É um sistema feito para espertalhões e medíocres... Os demasiado éticos ou os demasiado reflexivos jamais chegam a pertencer a cúpula do poder.
Liberal pobre: Se ao menos o pobre economizar parte de seus salário...
Outro: Dirá você que ele chegará a ser rico?
Liberal pobre: Certamente nem todos...
Outro: Como o seu pai...
Liberal pobre: Ao menos alguns...
Outro: Para com isso meu amigo. Quantos assalariados você conhece que já viraram milionários, banqueiros ou grandes empresários?
Liberal pobre: Bem... Conhecer pessoalmente não conheço, no entanto acredito ter lido na Revista Veja ou visto no Globo Repórter alguma reportagem sobre alguns pobres que se esforçaram, venceram e se tornaram milionários.
Outro: Afinal de contas quantos?
Liberal: Certamente mais de trinta ou quarenta pessoas. Afinal é mais de uma reportagem, talvez cinco..
Outro: Nada mal para duzentos e sete milhões de brasileiros. Basta dizer que os ricos compõem 10% da população brasileira ou seja vinte e sete milhões de pessoas e o amigo vem me falar em dezenas de pobre que se tornaram ricos. Ainda que fossem centenas ou mesmo milhares de pessoas, que vem elas ao caso num montante de vinte e sete milhões de seres humanos??? Que fossem quinhentos mil pobres a se tornar ricos por meio do trabalho numa geração! Seria uma ascensão social a cifra de 2% a cada dez ou quinze anos, e portanto de no máximo 20% de novos ricos a cada cem anos! Agora quantos pobre temos (estamos excluindo a classe média intencionalmente)? Admitido que haja neste pais 50% de pobres chegamos a cifra de 103 milhões de pessoas. Caso nos atenhamos a extrema pobreza temos de nos haver com 1/4 da população, ainda assim com 52 milhões de almas. Diante disto que significa a ascensão social de meio milhão de pessoas a cada quinze anos ou década? Assegurado que pessoa alguma viesse a se tornar pobre, precisaríamos de mil ou mesmo de dois mil anos para erradicar a miséria deste pais! Queremos dizer com isto que em termos sociais a tão decantada mobilidade social oferecida pelo capitalismo é pura e simplesmente inexpressiva. Afinal sequer consideramos os que baixam de posição e cujo montante não é desprezível...
Liberal pobre: Caso as pessoas não enriqueçam por meio do salário, do trabalho honesto ou da economia, de que modo enriquecem?
Outro: A bem da verdade a maior parte dos ricos já nasce rica limitando-se a aumentar o montante de riqueza recebida quando não tem a desgraça de perde-la, o que por sinal é bastante fácil num sistema que privilegia o capital financeiro. Imagine alguém que tenha ganhado na loteria. Tal aquele que por acaso nasce no seio de uma família rica e é contemplado pela herança. Caso o herdeiro seja medíocre conseguirá talvez conservar o que recebeu, situação que poderá ser revertida pela esperteza do herdeiro subsequente. A fortuna vai conservando-se de geração em geração, embora oscile.
Liberal pobre: Uma vez que a herança não pode remontar a eternidade deve ter tido um ponto de partida i é as economias frutos do trabalho.
Outro: Quisera de boa vontade que assim fosse mas...
Se até mesmo os padres da Igreja, que floresceram nos primeiros séculos desta Era, foram capazes de  perceber - e muito facilmente - através do estudo da História, que diversa era a origem da riqueza: Aqui o roubo de terras, ali a pirataria, mais além a corrupção e por fim a pura e simples exploração do trabalho alheio... Que haveremos de dizer nós, os filhos do século XXI? Que tudo mudou e entrou os eixos após a adoção do modelo capitalista? Haja ingenuidade...
Aqui as terras tomadas aos índios, ali o rapto e escravidão dos africanos, mais além a exploração insidiosa da mão de obra estrangeira na lavoura e por fim a clássica obtenção da 'mais valia' nas fábricas...
Liberal pobre: Mais valia? Afinal que vem a ser isso?
Outro: A parcela mais considerável do quanto a produzido pelo operário e que ele jamais recebe por meio do salário, digamos assim, a parte do leão.
Liberal pobre: No entanto, uma vez que o empresário adquiriu ou comprou já os meios de produção, ja a matéria prima, venhamos e convenhamos, é justo que ele retenha para si uma determinada porcentagem do quanto é produzido pelo operário.
Outro: Uma coisa seria reter certa parcela do que é produzido, parte a guiza de compensação, parte a guiza de lucro. Outra totalmente distinta é reter a quase totalidade do que é produziu pagando ao operário um salário de fome ou necessário apenas para que aquele subsista ou mantenha a vida. De fato a miserabilidade só não cresce a passos mais largos devido a instituição do salário mínimo. Fosse o salário deixado ao alvedrio do patrão onde não teríamos chegado, isto pelo simples fato de que a dinâmica do Mercado é definida em termos da obtenção de um lucro máximo e não de uma retribuição justa em termos de necessidades humanas ou familiares, segundo o ponto de vista da Ética.
Liberal pobre: O valor os salário é determinado objetivamente pela lei da oferta e da procura.
Outro: Como o operário jamais tem como controlar o fator da procura ou das vendas... a tal objetividade tresanda sempre em subjetividade, curvando-se a doutrina da maximização dos lucros. Compreende-se que a partir de semelhante prática, que consiste em despojar o trabalhador da quase totalidade daquilo que produz, fique fácil acumular uma vasta fortuna em pouco tempo... Tanto melhor para aquele que foi contemplado pela herança já ao nascer, e que jamais teve de trabalhar de fato pegando numa marreta ou numa pá. Limitando-se a administrar o que ganho de mãos beijadas tornar-se-a ainda mais rico. Enquanto que aquele que fato produz, empenhando suas energias, permanecerá sempre pobre, a menos que se torne miserável.
Tal o quado sinistro do capitalismo: Aquele que vive de renda vai se tornando cada vez mais próspero, enquanto aquele que pega no batente vive e morre pobre.
Liberal pobre: Acredito na honestidade e probidade do patrão.
Outro: Como disse Freud cada qual acredita no que bem quer, havendo quem por isso mesmo creia no saci pêrere, na cuca ou na fada do dente
No entanto como você não é patrão esperarei até ve-lo converter-se em patrão e só depois acreditarei em você.
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O futuro de uma ilusão (S Freud) - A caminho da frustração e da desesperança.

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Enquanto Adler, tanto mais realista, limitou-se a ver no homem um instinto para a afirmação ou para a realização pessoal Freud - fortemente influenciado pela primeira grande guerra com seu estouro de violências - encarou este instinto (descoberto originalmente por Adler) como um instinto de agressividade. cf 'Para além do princípio do prazer' 1919.

Julgo que essa constatação foi muito mais dramática para a Psicologia e a Psicanálise do que a descoberta do princípio do prazer e da sexualidade infantil, o qual nada tem de sujo ou de negativo como pressupõem arbitrariamente a 'sifilização' maniqueísta ou puritana. O prazer e a busca pelo prazer, inclusive na dimensão sexual, nada tem de aberrante. Outro é o caso de um instinto de agressão ou violência. Aqui é Freud por outra via que se aproxima do maniqueísmo e paradoxalmente da doutrina Agostiniano/calvinista do pecado original. Pois se o homem porta em si mesmo um princípio de agressividade inata ou um princípio anti social que pensar sobre a origem deste homem?

Seja como for transita Freud, a partir dos anos 20, de um monismo sexista ou pansexual para um dualismo em termos de Eros e Tanatos, dois princípios opostos e conflitantes em torno dos quais desenvolve-se a personalidade humana e a própria civilização, esta concebida literalmente em termos de choque ou luta entre os dois princípios antagônicos - o do amor, cuja matriz é a sexualidade e o da morte/agressividade que conduz a dissolução. Um faz perpetuar já a vida biológica e já transfigurado (objeto inibido) a vida social, o outro busca dissolver a vida biológica e também a social.

Quanto a dissolução da vida Biológica Freud bem sabe que nada podia ou poderia ser feito de efetivo nem nutre qualquer esperança em termos de uma sobrevivência post mortem. Aqui o triunfo da morte sobre o indivíduo é completo, restando apenas sua continuidade noutro ser distinto de si, mas ao mesmo tempo semelhante quanto a certas estruturas e capacidades. Já em termos sociais, ao menos em sentido lato, não logra o instinto de morte a prevalecer totalmente face a cultura e destruir a civilização. Importa saber que ele jamais retirou-se da arena ou abandonou a luta, e que continua a matricular multidões de descontentes em suas fileiras. Freud não apenas não esta matriculado entre as fileiras dos descontentes ou rebelados, os quais encara como vítimas de um jogo urdido pelo sentimento de culpa, como faz-se paladino da civilização tendo em vista a atividade científica de que decorre, em última instância, um melhoramento das condições de nossa existência ou uma diminuição de nossos sofrimentos, o qual víria a compensar todas as limitações impostas tendo em vista a implementação deste ideal, a civilização.

Em 'Futuro de uma ilusão' Sig já se mostra cônscio quanto a forma economicista de nossa civilização - Ocidental ou melhor Norte Americana - e seus problemas e isto a ponto de fazer-se apreensivo. Uma civilização que produz multidões de descontentes num ritmo tão rápido parece por a si mesma em grande perigo. "Uma medida constante de descontentamento se imporá no seio desta cultura, o que poderá fomentar rebeliões perigosas." pondera ele. E arremata melancolicamente: "Não devemos esperar uma interiorização de proibições culturais por parte dos oprimidos, muito pelop contrário, eles não estão dispostos a reconhecer tais proibições, mas empenhados em destruir a cultura e, eventualmente, até em abolir seus pressupostos... Não é preciso dizer que uma cultura que deixa insatisfeito um número considerável de seus membros e que incita-os a rebelião não tem perspectivas de se conservar perpetuamente E SEQUER O MERECE."
Assim se suas críticas o sistema não são tão contundentes quanto as de um Marx - pelo simples fato deste estar situado no plano da economia - ou de um Berdiaeff, nem por isso deixam de ser menos enfáticas. É como se Freud não desejasse por as mãos em lodo tão sujo ou analisar em si mesmo ao modelo capitalista, sendo até possível que ele estivesse convencido de não estar a altura deste desafio. Talvez não estivesse mesmo e por isso lança toda carga de sua crítica contra as instituições religiosas, prestando muito pouca ou quase nenhuma atenção ao problema da Ética da essência e depositando suas esperanças moribundas sobre os altares da ciência. Tal a dinâmica de o Futuro de uma ilusão.
Freud até cogita piedosamente, e tenta oferecer aos homens algo melhor do que a religião ou o que é mais dramático ao teísmo naturalista; tenta ter alguma esperança... Mas veremos que não consegue e que a dar por certas as críticas formuladas neste opusculo só nos restaria aceitar a frustração propiciada pela razão nos termos de um Camus, a dar-nos por totalmente iludidos e a perder toda esperança. Sem cogitar a respeito da religião sobrenatural ou da fé, dou-me por satisfeito com o afirmar que com a impugnação do teísmo racional, nos termos dos pensadores gregos, particularmente de Sócrates, Platão e Aristóteles, nada nos restaria, a nós homens em termos de civilização, cultura ou esperança.

O valor de Freud aqui é, a partir do que ele mesmo constatou, deslindar um drama ainda maior, um drama ético, um drama cósmico.

O primeiro aspecto do problema foi em parte levantado no artigo precedente, pelo que vamos aborda-lo bastante superficialmente. Esta ele relacionado com a crítica endereçada a Freud pelo sábio francês Roman Rolland e diz respeito a um suposto instinto ou tendência religiosa existente em todos os homens ou ao menos em parte deles. Em parte porque muitos como Freud e os irreligiosos alegam não estar em posso dele. Sig por sinal declara-o explicitamente no primeiro capítulo do Mal estar. No entanto, admitidas as premissas do próprio Sig i é a psicanalise, não seria nem um pouco prudente contentar-nos apenas com o testemunho da consciência, ao menos quanto a este aspecto da personalidade. Tal o sentir de K G Jung, bem como do Pe Victor White os quais dedicaram-se a elencar evidências e argumentos favoráveis a tese de Rolland dando Freud e seus partidários como recalcados ou como pessoas que em virtude de determinados traumas não foram capazes de lidar com o sentido religioso, lançando-o fora da consciência, mas não da mente, no fundo da qual subjaz, mal resolvido e enquanto possível fator de neuroses... Há portanto outras versões no terreno da própria psicanalise.

Freud, quiçá racionalizando (para ele apenas os outros racionalizavam) arquiteta uma bela tese segundo a qual Rolland e os demais seres humanos, que se declaram em posse de um sentido religioso (inda que desvinculado de qualquer forma ou instituição), representam um tipo de Mente estacionada numa fase anterior ao desprendimento do Ego face ao mundo externo, possuindo juntamente do Ego desprendido resíduos de um outro ego tanto mais rudimentar ou primitivo, digamos assim de um proto ego. A hipótese é engenhosa, embora sua finalidade, refutar a tese de Rolland e sobrepor-se narcisisticamente ao rival, salte a vista. Ele Freud acaba sempre estando em posse de uma mente normal e equilibrada enquanto seus contraditores... Freud piedosamente lhes remove toda culpa ou malícia, juntamente com a normalidade/sanidade que reserva para si mesmo. Jung e White limitam-se a dar-lhe o troco supondo-o desajustado ou incapaz de lidar com o problema religioso devido a alguma sequela porque tenha passado na infância ou na juventude.

O problema aqui é que o desajuste individual face a esta tendência a religiosidade - que muitos vinculam externamente a cultura - não a elimina nas outras pessoas e isto a ponto de Freud - o qual como Plutarco e Heródoto deve ter levado em conta a presença da religiosidade em absolutamente todas as culturas do Planeta, sem exceção - postular uma neurose coletiva em termos universais. Tanto a religiosidade não determinada transcende a relatividade da cultura que o próprio Freud, que com os antropólogos de fancaria poderia ter tentado resolve-la no plano da cultura (Postulando a existência de sociedades irreligiosas ou ateias), é obrigado a transferi-la para o domínio interno e comum da mente e reconhecer sua universalidade embora como neurose. É uma neurose coletiva, não cultural e tampouco individual; pois esta presente e difusa em todas as Sociedades humanas. Mas é transmitida pela educação. Afinal a educação produz essa tendência religiosa difusa ou limita-se a comunicar-lhe uma forma?

Freud mesmo, num momento de lucidez em que pugna contra si mesmo, parece intuir a resposta:

"Se o senhor deseja eliminar a religião de nossa cultura européia, isso só poderá acontecer MEDIANTE A ADOÇÃO DE UM OUTRO SISTEMA DE DOUTRINAS, E ESTE ASSUMIRIA DESDE O PRINCÍPIO TODAS AS CARACTERÍSTICAS PSICOLÓGICAS DA RELIGIOSIDADE... O senhor precisará de alguma coisa desse tipo para corresponder as exigências da cultura e não poderá renunciar a tanto..." O futuro de uma ilusão cap IX

Talvez Freud ainda não se houvesse dado conta mas enquanto escrevia estas linhas em 1925, em Viena, na Austria, ali mesmo ao lado, no Norte da Alemanha, a religião protestante luterana, cada vez mais secularizada, estava - sob os auspícios de Hegel, During, e outros - assumindo o aspecto de uma nova mística secular, o nazismo. Haviam no entanto outras tantas místicas seculares, engendradas em sociedades irreligiosas e sem embargo disto herdeiras da religiosidade ou da tendência inata a religião. E quem diz nazismo diz fascismo, comunismo ou mesmo capitalismo, afinal por trás de cada uma delas damos com uma mística em torno de elementos naturais seja a raça, o estado, o partido ou o capital. Crane Brinton é apenas um dos que - em sua monografia sobre a Anatomia das Revoluções - relaciona essas místicas secularizadas ou religiosidades profanas com o sucesso das Revoluções.

Posteriormente as próprias culturas de morte ou místicas seculares - a exceção do capitalismo, pelo simples fato de distorcer nosso sentido de afirmação ou realização - exauriram-se. Nem por isso tem cedido espaço, a uma sociedade absolutamente irreligiosa ou ateia (A Sociedade Escandinava é o que temos de mais próximo no sentido de uma sociedade irreligiosa no sentido de que a religiosidade permanece em seu estado natural ou informe, e no entanto mesmo nela o ateísmo compreendido segundo a acepção da palavra é apenas residual), mas cada vez mais a expansão do islã. Assim essa mesma Europa com relação as quais os ateus e agnósticos acalentavam os mais belos sonhos no sentido de criar-se uma Sociedade emancipada, ateia e irreligiosa após a erradicação do Cristianismo tem, paradoxalmente, abraçado a forma mais arcaica, fetichista, irracionalista e virulenta de religião, a saber o islamismo sunita salafita. O que não nos surpreende nem um pouco.

Uma coisa é certa, nem o ateísmo crasso ocupou o lugar antes ocupado pelo Catolicismo ou pelo protestantismo; nem a irreligiosidade parece ter se imposto definitivamente no contesto europeu, mas apenas provisoriamente enquanto passagem para o islã, o que nos reporta mais uma vez ao estagirita: "Os extremos se tocam."

Ora toda argumentação assumida por Freud no Futuro de uma ilusão sabe a esse falso dilema posto entre os extremos de uma religiosidade cega e primitiva com seus delírios fetichistas e a irreligiosidade - compreendida em termos de um ateísmo crasso - proposta pro ele. Aqui, para S F não há qualquer escala ou meio termo. Nosso homem desconsidera-as intencionalmente e como tantos e tantos paladinos do ateísmo ele não parece estar nem um pouco disposto a dialogar com os expoentes de uma alta teologia Católica ou mesmo com os deístas, sucessores dos antigos filósofos gregos e paladinos da religião natural. A impressão aqui é que Freud ainda esta preso ao modelo arcaico, primitivo e grosseiro de divindade formulado por seus ancestrais, o qual parece encarar como a obra prima do pensamento religioso. Parece ter feito sua opção e só é compreender a divindade em tais termos, afinal é a que melhor serve a seus propósitos e cai-lhe como a mão a luva. Freud como quase todo o ateu, precisa de um espantalho para surrar facilmente e por isso vai ao mercado e escolhe o pior tipo de deus, da-lhe uma sova e em seguida declara ter esgotado o conceito...

Mas e o Deus de Anaxágoras e Sócrates? E o Deus de Platão? E o Deus de Aristóteles, de Erigena, de Davi de Dinant, de Amauric de Benne, de Spinoza e Whitehead??? E o Deus de Descartes e Bacon??? Destes todos passa do largo, se bem que os conheça e sinceramente declare não pode refuta-los - Isso mesmo, nobre leitor, o campeão do ateísmo, confessa sinceramente não poder atingir ao Deus dos Filósofos e da religião natural:

"Com efeito se vossas ideias religiosas se restringirem a afirmar a existência de um Ser Supremo de caráter espiritual cujas qualidades são indefiníveis e as intenções sumárias, ELAS SE TORNARÃO INVULNERÁVEIS FACE AS OBJEÇÕES DA CIÊNCIA, mas certamente os homens é que perderão seu interesse por elas." O futuro de uma ilusão. Cap X

Mas acaso os nomes acima citados não são nomes de homens ou de seres humanos? Acaso eram tais pensadores minerais ou vegetais? Tal o Deus tal o homem Dr Freud... Tal a condição do intelecto humano tal o Deus Dr Sig. Assim o problema não em Deus mas no conceito ou ideia que dele se faz e certamente há certo número de ideias relativamente distintas a respeito da divindade. Entre a concepção mágico fetichista escolhida pelo senhor e a inexistência vai ao menos alguma outra coisa intermediária que o senhor parece ter descartado sem examinar atentamente. Claro que o homem do povo ou o homem comum tendo em vista sua presente condição não pode interessar-se pelo Deus de Anaxágoras ou pelo Deus de Aristóteles, ponto pacífico... Devemos admitir então que os homens sempre serão assim? Uns imbecis ou idiotas dominados por seus impulsos? O senhor mesmo Dr Freud reservou a si mesmo o direito de acalentar a esperança de que nem sempre fosse assim, e de que num futuro próximo ou distante este homem assumisse um caráter tanto mais racional e distinto daquele que o qualifica no tempo presente.

Admitido que os homens alcancem este estádio tornando-se tanto mais críticos e reflexivos por que motivo seria impossível mostrarem algum interesse num Ser Supremo espiritual no moldes acima descritos? Por que entre a ideia ultrapassada e a negação total não poderiam optar por uma terceira via ou por uma ideia mais depurada e digna de Deus? Por que teriam de aderir necessariamente ao ateísmo sem ao menos examinar a proposta do deísmo ou da religião natural? Tudo quando posso perceber ou antever aqui é preferência preconcebida pela solução radical do ateísmo... Claro que o ateísmo precisa ser examinado e considerado mas em comparação com o deus fetichista da fé ancestral e o Deus legislador da alta teologia ou do deísmo. Cada hipótese deve ser atentamente examinada pela criatura racional e livre, de modo que sua opção seja ainda mais consciente.

Afinal admitida a existência de um instinto egoísta voltado para a agressão e a morte - ou ao menos duma distorção cultural sofrida por ele - bem como de um primado da vida inconsciente ou dos impulsos (Trieb) como poderíamos estabelecer normas ou regras de convivência válidas e aceitas por todos??? Admitida a relatividade absoluta da cultura, no sentido que lhe é dado por Freud, como fazer valer universalmente os valores inerentes a pessoa humana ou mesmo postular valores inerentes sob a forma de direitos? Como poderia a relatividade da cultura vencer instintos universalmente arraigados no âmago mesmo da pessoa??? Alias como superar a força titânica do Tanatos sem recorrer a comunhão com esse poder difuso por todo Universo??? Como esperar vencer o Tanatos a partir de uma cultura fragmentada??? Como evitar que a cultura humanista a que chamamos civilização dissolva-se por completo nas culturas de morte??? Como encontrar uma força ou poder capaz de vencer o poder do lucro ou do capital??? Como garantir a afirmação do Ser sobre o Ter? Como preservar a própria racionalidade do desgaste por parte de uma crítica insidiosa??? Como impedir que a ciência seja lançada ao fogo juntamente com a religião e a Filosofia???

Ao terminar este ensaio devo advertir o leitor de que este mesmo Freud, que em 1925 ao escrever O futuro de uma ilusão reportou-se diversas vezes a palavra esperança apresentando-a como um valor, foi, durante os quinze anos subsequentes de sua vida, perdendo- a por completo, até mergulhar no total desesperança e no pessimismo absoluto. Basta dizer que pouco antes de morrer já se refere a ela, a esperança, tal e qual referia-se a religião, ou seja, nos termos de uma neurose coletiva. De certa forma Freud chegou, pelo messianismo, a vincular a esperança a religião. Claro que se trata de esperanças falsas e artificiais. Nos outros campos, da natureza ou da imanência, passou a concebe-la tal e qual Camus e alguns outros existencialistas chegaram a encarar a própria razão - enquanto promotora de um sentido que não existia - ou seja como uma espécie de verme que corrói a mente.

Afinal, como filho do positivismo - e apesar da segunda grande guerra mundial - ele apostará no poder redentor da ciência. A qual além de se ter inclinado facilmente ao poder do capital e do Deus Mercado, tornou o segundo conflito ainda mais mortífero e medonho. A segunda grande guerra demonstrou cabalmente que ciência não produz consciência e que o poder de Tanatos era colossal por assim dizer. Eros foi mortalmente abatido e com ele as esperanças de Sig.

Outra aposta errada foi na razão. Não na razão enquanto razão, a qual para todos nós tem imenso valor ou até mais valor do que para ele Freud na medida em que rechaçamos as críticas de Kant e Hume continuando a praticar a velha metafísica, da qual a Ética é um setor. O problema aqui é a credibilidade da razão. A qual após Hume e Kant tornou-se tão vulnerável quanto a religião. Levaram a guerra até ela e como aludimos acima chegaram a encara-la como um verme. Assim se Freud nos diz que resta algo, o escocês dirá que nada nos resta em absoluto e o alemão que nos devamos contentar com aparências.

Apostou que após o fim da fé chegaríamos as portas do paraíso, mas, desde que a fé entrou em crise com a pseudo reforma protestante, chegamos as portas da geena conduzidos pelas mãos de seu substituto, o Capital. Apostou que após o fim do delírio religioso sobreviria a normalidade mas o que sobreveio a ele foi nazismo, fascismo e comunismo...

Apostou na afirmação da incredulidade e vemos o santuário de nossa cultura ancestral assaltado pela forma mais rude e grosseira de religião, o islã. Isto ele, Freud não precisou testemunhar para perder toda a esperança.

No entanto estes quinze anos que transcorreram de 1925 a 1939 foram cruciais para que o pai da Psicanalise, se certificasse de que a extinção da fé ou da religiosidade não redundaria em maiores benefícios para a pobre humanidade e de que sendo assim deveríamos abdicar de todas as esperanças quanto ao futuro da humanidade, aceitar nossa própria frustração e quiçá concluir que o próprio surgimento do fenômeno humano equivale a uma tragédia cósmica. Agora poderá o homem engolir resignadamente tais verdades sem ópio, narcótico ou anestesia??? Tudo quanto sei é que não poucos daqueles que tragaram até o fundo o mesmo cálice que o Dr Freud optaram por tirar a própria vida, seja como ato concreto de desesperação e impotência face um mundo irracional e despido de significado, seja lentamente por meio da bebida ou da droga; afinal quem não sente vontade de fugir face a um universo tão hostil em que a dor é por assim dizer insuperável. Buda ainda pode oferecer a seus profitentes a esperança do Nirvana, Freud após ter destruído a fé religiosa que nos oferece??? Nada, absolutamente nada, apenas a desesperação.




sábado, 14 de outubro de 2017

Os custos e benefícios do 'mal estar'

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Se por um lado não somos daqueles que se opõem as Revoluções 'a posteriori' advogando a repressão, por outro também não somos daqueles que aplaudem-nas entusiasticamente acreditando que sejam as vigas mestras da civilização. Não, não somos daqueles embiocados que recebem a Revolução como uma espécie de penitência religiosa. Penitência social ah isto é e portanto algo a ser evitado por meio do planejamento efetivo.

A 'profilaxia' revolucionária exige reformas sociais.

São portanto os conservadores empedernidos, inimigos das reformar, que promovem, inconscientemente, a Revolução.

Tanto mais uma Sociedade foge as reformas de que precisa e tanto mais aproxima-se de uma solução final em termos de Revolução.

O dilema esta posto - Reforma ou revolução.

Conservar o que não funciona e manter o que não tem sentido é pura idiotice. E então a mentalidade conservadora é idiota, alias um extremo que leva a sociedade a outro extremo.

Afinal Sociedade não é formação ociosa ou algo que se pareça com um enfeite.

Civilização é coisa que tem custo, como demonstrou cabalmente Freud no ensaio sobre o 'Mal estar da civilização'. Algo que impôs e impõem limitação, esforço e sacrifício tendo em vista, certamente, um bem maior, conforme a consagrada relação: Custo/benefício.

Se a Civilização teve ou tem Custo só pode ter sido aceita ou melhor construída tendo em vista alguns benefícios.

O próprio Sig teme estar repetindo frioleiras, tal a obviedade de sua demonstração, nem por isso menos verdadeira. Apenas desconsiderada pelos condutores do sistema...

Civilização se constrói com esforço conjunto ou comum ou seja com trabalho. O Trabalho costuma a ser mais fecundo quanto executado em comunhão ou comunitariamente. Tal dimensão do trabalho no entanto implica, necessariamente, numa maior ou menor restrição quanto a esfera privada da vida, assim não apenas da busca pela satisfação prazerosa ou da sexualidade, mas inclusive do convívio ameno e também do ócio. Introduz-se novo modelo organizacional com relação ao tempo, e dispendem-se as energias humanas noutro campo. Implica menor fruição em termos de prazer. O trabalho nem sempre é reconfortante mas muitas vezes desagradável.

O homem no entanto impôs a si mesmo esta tarefa. Não o 'homem' isolado, não o indivíduo mas determinadas sociedades. Tornaram-se mais coesas por meio da aproximação até a intimidade e assumiram uma meta comum qual seja drenar pântanos ou irrigar desertos. O que despendeu, já dissemos, tempo e energia; em detrimento não apenas dos apetites mas do próprio repouso.

Então por que raios assumiram as diversas sociedade tal tarefa?

No dealbar da História escrita estava já o homem em posse de um estádio de consciência capaz de fazer com que percebesse a produtividade superior ou melhor a fecundidade da dimensão social do trabalho em comparação com sua dimensão pessoal. Podendo deduzir a partir daí o quanto seria capaz de auferir em termos de conforto ou de benefícios caso se associasse a outros tantos homens tendo em vista determinados fins. Num determinado momento de sua trajetória sobre a terra este homem foi capaz de perceber que seria muito mais fácil submeter as forças da natureza na medida em que o trabalho assumisse cada vez mais uma conotação social. Atuando ou agindo isoladamente seria muito mais difícil ou mesmo impossível atingir tal escopo. Noutras palavras descobriu o princípio segundo o qual 'A união faz a força'.

No entanto a questão da proximidade ou da Unidade entre os homens não era assim tão simples. A bem da verdade como mamífero ou primata nasce já o homem numa dimensão social e não isolada. Sucede porém que a administração de uma pequena comunidade ou grupo familiar, digamos de um clã, não oferece lá tantos problemas devido a pequena quantidade de contatos num contexto cultural homogêneo. Outra no entanto é a situação que envolve sociedades tanto mais complexas e maiores como as Sociedades pré urbanas ou urbanas aparecidas ao longo do neolítico.

Em semelhante contexto os contatos humanos entre pessoas oriundas de tradições familiares distintas tornam-se cada vez mais frequentes e intensos, pelo simples fato de terem de trabalhar juntos. Naturalmente que uma situação como esta só tende a potencializar o conflito. Caso cada qual aspire comportar-se como numa comunidade menor ou segundo as normas e regras peculiares a pequena comunidade, conflitos estourarão aqui e acolá. Pois cada família ou comunidade tem seus princípios e valores, princípios e valores divergentes. Chegamos assim a incompreensão. A menos que a macro comunidade em formação busque estabelecer princípios e valores comuns por meio da lei, dela excluindo aqueles todos que não quiserem se submeter.

Muito dificilmente naquele período determinada Sociedade estaria em posse de um aparelho repressor capaz de manter as pessoas submissas impedindo-as de fugir. Afinal nem estavam as tais sociedades unificadas em províncias ou nações nem possuíam os governantes uma noção realista em termos de espaço geográfico. O campo ou a floresta eram bem maiores e, caso quisessem, os homens sempre poderiam desertar da cidade em formação e retomar o modo de vida ancestral. Caso a vida nas primeiras sociedades urbanas ou civilizadas fosse desinteressante este homem sempre poderia retornar ao clã ou a família, resultando disto um êxodo urbano...

Não foi o que aconteceu. As cidades baixaram leis restritivas e dentro delas criaram aparelhos coercitivos sem que no entanto passassem por qualquer tipo de crise demasiado grave. A qual pusesse em risco tal tipo de existência. Mesmo tendo de abrir mão de uma liberdade mais ampla ou da peculiaridade de seus costumes, a maior parte dos homens parece ter decidido permanecer na cidade. Mesmo sob a pena de ter de se submeter a uma autoridade não poucas vezes arbitrária este homem decidiu ficar.

Mas o que motivou-o a ficar apesar de tantas restrições???

Já aludimos aquilo que o fez ficar na cidade.

As alterações impostas na natureza traduzidas em termos de maior comodidade ou se preferirem de menos sofrimento.

As condições do mundo externo não hostis. Fazia-se mister suaviza-las, o que só era possível a partir do esforço comum e consequentemente de restrições já em termos de fruição de prazeres, já em termos de liberdade.

No contexto das primeiras cidades, explica do profo V Gordon Childe, e que pela primeira vez na História houve o acúmulo de excedentes alimentícios. Implica isto na primeira reserva econômica de que temos notícia, e a qual foi empregada com o objetivo de dispensar algumas pessoas do trato direito com a terra, possibilitando que se exercitassem numa técnica qualquer como a marcenaria, a panificação, a tecelagem, etc A cidade converteu-se em paraíso da técnica, adquirindo cada serviço mais qualidade ou excelência. No fim das contas toda cidade foi beneficiada com o surgimento de vocações específicas como a do pedreiro ou a do sapateiro...

Especialmente os que conservando algum excedente de terra ou produção podiam pagar por tais serviços. Os demais contentavam-se com a esperança ou com o beneplácito episódico dos governantes. De um modo ou de outro esta forma de vida apresentou-se desde logo como mais amena ou sedutora do que a vida vivida nas pequenas comunidades agrárias ou clãs dispersos pelo campo.

Desde o primeiro impulso a urbanização ou a vida civilizada foram surgindo outros tantos impulsos. Sempre no sentido de tornar mais comoda ou menos sofrida a vida humana. Restrições, limitações, esforço e trabalho convergiam para uma meta comum que era eliminar cada vez mais o desconforto oriundo já do mundo externo já da nossa própria condição.

Uma vez que a vida comum ou civilizada dispende imenso gasto de energia, além de certa restrição em termos de liberdade, temos que considerar que só foi aceita tendo em vista sua contrapartida ou os benefícios auferidos pela coletividade. Seus membros permaneceram unidos, coesos e fiéis porque julgaram essa coesão oportuna, vantajosa ou interessante. Destarte podemos definir os vínculos sociais na esteira de S Freud ou seja enquanto LUCRO em termos de benefícios. A Sociedade só fará sentido na medida em que seus membros estiverem conscientes de que o custo pago por eles, em termos de limitações ou de restrições, será concretamente excedido pelos benefícios. Caso não haja excedente de benefícios a Sociedade humana perder seu sentido ou razão de ser.

Uma Sociedade inoperante em termos de qualidade de vida ou se preferem uma Sociedade mínima, que não faça qualquer diferença para a maior parte dos cidadãos perde por completo seu sentido, na medida em que perde sua função. Enquanto aparato inútil para a maior parte das pessoas a Sociedade tende a ser encarada como onerosa para elas. Enquanto organismo voltado para as necessidades artificiais de um reduzido número de pessoas ou a serviço de uma elite econômica a Sociedade perde sua credibilidade ou razão de ser. Em tais situações as pessoas passam a questionar cada vez mais os motivos pelos quais permanecem presas a determinada estrutura social, e vão perdendo por completo a sensação de pertencimento. Tendem a aspirar por uma hipotética situação de individualismo crasso ou de isolamento, a qual cogitam lhes concederia mais liberdade. A reflexão sobre uma Sociedade ineficaz ou onerosa tende a alimentar a ideologia individualista.

No momento em que as pessoas, que deveriam se sentir protegidas e seguras passam a sentir-se oprimidas pela estrutura social é necessário repensar as origens e os fins, melhor dizendo, o sentido da Sociedade. Uma Sociedade que faz as pessoas sentirem-se oprimidas de modo algum corresponde a seus fins. Mas a Sociedade mínima, inoperante, eticamente diferente e desumana tende a isto mesmo, a desacreditar-se e vivemos uma Era de descrédito social cujo fundamento mais remoto é a ideologia liberal economicista.

Sobretudo nossa Civilização ocidental ou capitalista, sobretudo ela tornou-se absolutamente indesejável. Aos sucessivos encantos, até chegarmos ao positivismo ou ao cientificismo, sucedeu-se o desencanto ou o fim da magia. Mesmo para parte dos que perderam a esperança e concluíram que o capitalismo é o ponto final da civilização e consequentemente seu inglório fim tudo isto soa imensamente trágico. Não como o começo de uma Nova Era de Luzes mas como a agonia do mundo, e os cristãos acomodados, perplexos e frustrados - porque sua proposta ético social não foi realizada ou ao menos mantida - vão até aos confins do catastrofismo... Nem preciso chegar a essa negra noite ou eclipse da cultura perceber que a avaliação da Sociedade, em termos gerais não é boa. Prevalece a insatisfação. Por fim o fato de parte das pessoas não aspirarem pelo Comunismo - motivos não lhes faltam - ou mesmo pelo Socialismo ou por qualquer solução nítida não significa que querem o Capitalismo ou que apreciam-no. Grosso modo o Capitalismo só é amado pelos milionários ou pelos idiotas, o homem médio apenas suporta-o como suportaria um supositório ou quinino... Naturalmente que não se trata duma perspectiva social atraente... Uma sociedade supositório...

Nosso Civilização esta desacreditada e por que?

Simples. Por que o homem comum chegou a conclusão de que os atuais benefícios ou vantagens que lhe são oferecidas por esta Sociedade não excedem e sequer correspondem aos esforços dispendidos pala mante-la. Pior; uma quantidade cada vez maior de cidadãos tem chegado a conclusão segundo a qual o modelo social vigente agrava a o desconforto ou sofrimento experimentado por eles ao invés de suaviza-lo. Não poucos acreditam que nosso modelo social é prejudicial ou danoso.

O homem antigo receava ter o outro contra si. Um clã vivia atemorizado face a outro até que a formação das grande cidades - ao menos por algum tempo e enquanto o número delas não era lá muito grande - acenou com estabilidade, segurança e paz... Hoje o homem do século XXI, sente todo peso de uma máquina social contra si mesmo e julga-se esmagado por ela desde que esta sociedade foi cooptada pelo Capital passando a servir, não mais o homem, mas a interesses privados ou a uma elite financeira. Desde que o produto do trabalho tem sido em sua maior parte subtraído ao trabalhador temos assistido a produção da miséria numa escala cada vez maior, a qual sequer é coisa digna de ser vista...

Foi o calcanhar de Aquiles desta civilização moribunda e decadente exposto a mais de um século pelo ensaísta Americano Henri George: A um lado podemos observar um acumulo de bens cada vez maior nas mãos de um grupo de pessoas cada vez menor e a outro uma restrição no acesso aos bens por parte de uma multidão cada vez maior de modo que as grandes fortunas aumentam na mesma proporção que a miséria social. Tendência esta a que não fugimos, exceto nas Sociedades em que foi adotado o modelo de bem estar social preconizado primeiramente por Lorenz Von Stein e em seguida por J M Keynes, assim no Norte da Europa, contexto em que a Sociedade recobrou seu sentido e importância.

Este abismo social que se abre cada vez mais sob nossos pés é que ameaça engolir nossa sociedade. Irrelevante e inútil apelar a doutrina da circulação das elites de Pareto se no contexto do capitalismo o próprio nicho ocupado pela elite econômica se torna cada vez mais restrito enquanto a população mundial aumenta. Caso esta elite não amplie sua esfera é ocioso aludir a ela. Pois ela jamais consegue ou conseguirá servir de obstáculo a intensificação de desigualdade. E o que o capitalismo tem feito é justamente ampliar, não as oportunidades ou chances gerais, mas a desigualdade social.

Diga-se de passagem o que já foi dito em artigo precedente - Que esta circulação de elites no topo do Capitalismo é absolutamente artificiosa e injusta. Pois mesmo admitindo que os indivíduos revezem-se no topo do sistema econômico e consequentemente no comando da Sociedade economicista, prevalece no topo como padrão ou tipo a mediocridade e não a genialidade. O Liberalismo econômico não franqueou, como parecia ter franqueado, ao homem superior ou aos gênios ou acesso ao poder seja político ou econômico. Em certo sentido muito pouco mudou desde que o velho Confúcio vinculou o comércio ou as finanças de modo geral mais a esperteza - e a vulgaridade - do que a excelência, esta peculiar ao Filósofo ou ao Cientista, ao intelectual enfim.

Não será o Capitalismo que agora satisfará os justos anseios de um Confúcio ou de um Platão no sentido de colocar o cérebro no controle do corpo. Nosso corpo social é controlado por mãos e pés sem talento superior, não pelo cérebro ou pela mente; afinal nos domínios do capital o cientista ou filósofo é sempre subalterno ou pau mandado de empresários e banqueiros imbecis. Não passam da técnica ou da execução, que decide praticamente tudo, nos domínios da política e da sociedade por sinal, são os burgueses ou patrões i é aqueles que tem capital. Diante de tão abominável e monstruosa inversão, que é um corpo comandado pelas mãos e pés, como esperar algo de positivo?

Em tais conjunturas o intelectual, relegado a funções subalternas, em que pese seus talentos e sensibilidade, tornar-se-a rancoroso até a medula dos ossos e fará causa comum com o operário e com todos os párias não apenas contra este modelo econômico mas contra o próprio ideal de civilização. Lançará o nosso legado greco romano ao monturo e tornar-se-a primitivista! Afinal este legado ético e humanista há muito que foi calcado pelos pés do economicismo! O capitalismo como um ácido feroz ou cancro maligno corrompeu das bases de nossa cultura ancestral e tornou nossa civilização indigesta aos olhos da multidão. É uma vereda ou uma via suicida.

O capitalismo com sua produção de misérias, injustiças e conflitos tem tornado não apenas a Civilização mas a própria vida social insatisfatória ou indesejável e certamente não se trata de um bom negócio.

A dar Freud por certo - e não há como deixar de da-lo por certo - só existe um caminho possível caso aspiremos resgatar nosso sentido sentido de pertencimento face a Civilização e este caminho consiste em assumir a doutrina do bem estar social ou da qualidade de vida como finalidade social. É necessário que a Sociedade democrática ou popular se faça cada vez mais presente na vida do cidadão criando uma situação de segurança, estabilidade e conforto ou seja uma situação compensatória face as energias dispendidas tendo em vista sua manutenção. O homem comum tem de sentir o impacto do benefício excedente em termos de habitação, saúde, cultura, lazer, etc e não sentir o impacto da miséria generalizada como tem se sentido até hoje... E jamais se sentir ameaçado por esse rolo compressor a serviço de Indústrias, Bancos e Corporações. E jamais se sentir infernalizado pela arbitrariedade de poderes econômicos. A Sociedade não pode nem deve servir a interesses econômicos privados mas ao que Aristóteles definiu como 'bem comum' ou média de insumos necessários a realização pessoal de cada indivíduo. Evidente que o Capitalismo não cogita no bem de todos os cidadãos na perspectiva da igualdade...

Segundo a solução radical dos Comunistas para sanar o mal pela raiz deveríamos atuar na estrutura material dessa Sociedade suprimindo a propriedade privada DOS BENS DE PRODUÇÃO (Marx jamais postulou o roubo ou a supressão da propriedade privada DOS BENS PESSOAIS advindos do trabalho - Pequena propriedade) e do regime assalariado. É uma solução possível, embora drástica, o que mais uma vez reporta a relação custo/benefício especialmente em termos de uma Revolução. Em termos de democracia direta ou de Plebiscitos e referendos é uma hipótese a ser discutida como outra qualquer e a ser implementada caso aprovada.  O problema quanto supressão da propriedade privada dos meios de produção e do regime assalariado não é questão de essência, afinal não são necessários mas contingentes, mas de ocasião ou método e jamais poderia ser encarado como solução total ou definitiva, como observou Freud. 
Temos de lidar obviamente com o estímulo cultural e educativo a avareza ou ao egoísmo e de planejar uma educação socializadora para o desenrolar da vida. Temos de manter o instinto de afirmação ou de realização em seus saudáveis e naturais limites e impedir que a Cultura transforme-o em qualquer outra coisa em termos de individualismo, avareza, egoísmo, rivalidade mórbida, etc Eis uma tarefa que transcende os limites simplórios da materialidade ou das estruturas produtivas e suas relações. O buraco, como costumavam dizer os antigos, é mais embaixo ou também embaixo. A escola de Franckfurt bem o percebeu, com rasgos de genialidade.

Destarte, enquanto não pudermos experimentar ou implementar democraticamente a solução comunista radical temos de adotar um outro modelo, talvez provisório, talvez não, o qual em todo caso terá de ser avaliado pelos membros das diversas sociedades que o adotaram. Claro que me refiro ao já aludido modelo de recolhimento de impostos - tomados aos 'empreendedores' - por meio do Estado e de sua redistribuição entre os cidadãos por meio de investimentos no domínio do social: Educação, saúde, habitação, lazer, etc Destarte a Sociedade civilizada, a partir de seus mecanismos democráticos, interfere ativamente na realidade econômica com o objetivo de impedir a produção da miséria. O resultado concreto dessa política e manutenção de uma relativa igualdade social ou de um saudável equilíbrio econômico. O resultado de tais esforços é a construção de uma sociedade relativamente sã vivenciada por pessoas satisfeitas e não por pessoas revoltadas.

Tal o ideal proposto por nós tendo em vista a manutenção das condições civilizatórias. Temos de sacrificar algumas coisas para manter o essencial. Temos, no mínimo, de rever o ritmo do mercado, da economia, da produção; abandonando a ideologia economicista e colocando em primeiro lugar as necessidades vitais da pessoa, não da pessoa abstrata mas da maior parte das pessoas concretas. Do contrário um número cada vez mais de descontentes passará a encarar a civilização como onerosa e a desertar dela ou melhor a investir contra ela e a investir com violência. Revoluções estourarão e sobrevirá o 'caos' com todas as consequências decorrentes, as quais tão bem conhecemos. Melhor poupar sangue, suor, lágrimas, patrimônio cultura, recursos, etc e tomar o caminho das reformas sociais.

Cumpre dizer por fim que no Brasil existe todo um aparato material e imaterial sujo objetivo é impedir que a Sociedade Política funcione e recupere sua credibilidade. O que poderia levar-nos justamente a implementação de um Estado de bem estar. Bem, não querem um estado de bem estar... Então que aguardem pela Revolução. Como registramos no começo deste artigo nós não acreditamos na mística ou na mágica da Revolução, mas estamos convencidos a respeito da imensa e colossal burrice dos conservadores, acima de todos os primeiros promotores da Revolução. Nós somos pela solução intermediária ou como dizem conciliatória, por via de reformas institucionais ou democraticamente implementadas. O recurso a força ou a sedição, como registrou F Engels reservemos a situações de golpe i é a ditadura, ao totalitarismo, do despotismo... E por falar em ditadura vai bem um FORA TEMER GOLPISTA!

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Dialogando com M Freud, superando o preterismo, analisando o sentimento de culta e tomando o caminho da libertação...

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Não se conserta mais carruagem. O automóvel de Benz e Daimler no entanto é modelo que continua sendo remodelado até nossos dias.

Assim a Psicanalise de S Freud, a crítica de Marx ao Capitalismo, a teoria evolucionista formulada por Darwin/De Vries, a Sociologia weberiana, etc Tais teorias são em parcialmente depuradas ou revistas justamente devido a seu conteúdo imorredouro.

Psicanalise, Das Kapital, Teoria sintética e Culturalismo são aquisições, marquem bem, definitivas, digo definitivas, em termos de conhecimento humano.

É coisa que na mesma direção se pode ampliar, aprofundar e aperfeiçoar, mas que não se pode arrenegar até as raízes ou fundamentos.

Lamento quanto aos puritanos, capitalistas, criacioburros ou simplistas com seus sonhos dourados, mas assim o é.

E não sou em, o pobre profo Domingos da Baixada Santista, com seus parcos conhecimentos experimentais e teóricos quem há de fazer reparos ao carro de S Freud tornando a Psicanálise ainda mais fecunda. Quem sou eu, um pobre educador provinciano??? Sinto-me feliz por ser capaz de refletir e sobretudo por poder aprender e conhecer um tiquinho...

Aprender é minha forma predileta de orgasmo. Sinto tesão pelo ato intelectual de aprender e jamais saberei se no fundo isto é refinado epicurismo ou platonismo, eu que sou aristotélico rsrsrsrsrsrsrs Deo gratias!

Mas, tornando a Freud os reparos a equipagem foram já realizados, drasticamente pelos críticos analíticos ou pelos 'heréticos' da Escola, isto é aqueles que o zeloso e honesto hebreu excomungava sem maiores cerimônias.

Elenquemo-los: O secretário Adler; a 'águia', o sedutor Dr C G Jung, o atilado Otto Rank, Stekel; é claro, o Católico Allers, a conciliadora Karen Horney, etc Cada um deles vai por assim dizer criticando algum aspecto acidental da teoria freudiana, acrescentando conclusões próprias - inda que tão estreitas ou excludentes quanto aos do velho Freud (devido ao mito onipresente da monocausalidade) - e enriquecendo a Psicanalise. Se é certo que deixam de ser freudianos ortodoxos, até certo ponto mantem-se meio freudianos (heterodoxos por certo) e certamente psicanalistas ou exploradores da mente humana.

Nada mais interessante do que as crônicas desses 'heterodoxos' do freudianismo com suas lutas intestinas em torno de um determinado padrão ou critério específico.

Psicologicamente a própria ideia de trauma nos remete a algo mais simples como a fratura de um braço ou de um osso qualquer do nosso corpo, o qual se tendo partido, caso seja devidamente tratado torna a solidificar-se, restando no entanto uma marca indelével a que chamamos de sequela.

A teoria de Freud sendo evolucionista linear, tornou-se basicamente preterista por salientar a importância da sequela produzida no Eu ou na mente por determinadas situações. A princípio, de modo bem mais simples e sóbrio, Sigmund formulou a hipótese do eterno retorno a situações ou problemas não resolvidos, os quais como espectros ou fantasmas ficariam pairando em nosso inconsciente, e provocando, dentre outras coisas, pesadelos... Situações análogas ou semelhantes ocorridas em qualquer tempo futuro desencadeariam uma carga ainda maior de energia, e a formação das neuroses.

Posteriormente, após ter descoberto a vida sexual infantil, o Psicólogo judeu vienense, deslocou sua teoria de certas situações particulares e indeterminadas - o que não podia satisfazer seu espírito positivista - para os complexos, compreendidos como fases evolutivas não percorridas, em que o sujeito por assim dizer travou ou estacionou.

Longe de nós negar o conceito de trauma ou sequela. Tudo quanto pretendemos indagar é se de fato todo e qualquer desajustamento procede de um fenômeno acontecido no passado ou de uma sequela, e se ao menos alguns não poderiam ser provocados por situações de tensão acontecidas no momento presente???

A partir de Adler temos uma resposta muito bem formulada por K Horney em torno dos conflitos, da pressão e da angústia no tempo presente; situação a que o velho Freud não parece ter ligado muita importância, quiçá atribuindo a gênese a um evento pretérito ou a uma sequela mental, mesmo quando não localizada. Admitidos os pressupostos da pesquisadora Norte Americana o cenário até se torna mais sombrio rsrsrsrsrsrs Pois admitindo-se que a pessoa tenha conseguido atravessar a infância e a juventude percorrendo sem maiores problemas todas as fases evolutivas delineadas por Sigmundo e eliminando todos os complexos i é sabendo lidar com eles, ainda assim, em qualquer momento futuro, poderá tornar-se vítima de pressões, conflitos, tensões, etc provocados por uma nova experiência ou situação com que não consiga lidar. Destarte um bom caminho percorrido durante a infância e a juventude nada garantem em termos de sanidade mental, e você sempre poderá vir a perde-la no curso da vida, diante de novas situações/problema.

O conflito entre o Super ego que o homem medíocre carrega e as novas situações provocadas pela dinâmica social sempre poderá acontecer e devastadoramente...

Do ponto de vista social a problemática é instigadora na mesma medida em que Freud colaborou no sentido de produzir uma Sociedade cada vez mais libre, aberta e dinâmica, na exata medida em que teceu severas críticas aos preconceitos maniqueístas ou puritanos relacionados com a formação do Super ego. Desde que exarou seus pontos de vista sobre a repressão ou melhor sobre a opressão exercida pelas sociedades tradicionais face as exigências da natureza, não poucas pessoas - as pessoas geniais - optaram por afrontar a sociedade, por resistir, por rebelar-se, por não se deixar colonizar e por frustrar a gênese do Super ego. A partir das denúncias lançadas pelo homem um número cada vez maior de sujeitos passou a lutar pela própria libertação mental e até podemos falar em movimento de alforria face aos imperativos do super ego. Do que recorreram, quando a técnica veio ao encontro das expectativas globais, as Revoluções feminina e sexual. As quais não teriam ocorrido sem o freudianismo.

Evidentemente que nem todos os Super egos, enquanto produções dadas numa determinada realidade familiar e social, acompanharam esta evolução sócio ambiental. Não poucos super egos continuaram a ser formados segundo o clássico modelo maniqueísta puritano da negação do corpo, da nudez e do sexo; numa sociedade não apenas cada vez mais natural, mas até mesmo mais sexual e na qual a nudez e a sexualidade se fazem cada vez mais presentes. Dentro de um quadro como este: De super egos pré históricos ou retrógrados numa sociedade cada vez mais sexualizada, inverte por completo o quadro social preterista conhecido por Freud. No curso do século XIX era o ímpeto sexual florescente na criança fortemente reprimido por um tipo de moralidade intransigente até a produção de um super ego poderoso e forte a ponto de produzir sentimentos de culpa a priori ou antecipados face ao que classificavam como tentação. Clássico o exemplo de Martinho Lutero para quem a própria tentação ainda que não consentida era encarada como de criminosa, levando-o ao paroxismo do terror. Mesmo dentro da igreja romana não se tratava de fato isolado... Resultado - A culpa acumulava-se aos turbilhões na própria criança e impedi-a de lidar com todos aqueles complexos, ficando-a. O esquema de Freud fazia certo sentido naquela realidade.

Em nossa Sociedade as sugestões de Adler, Jung e Horney em torno do conflito atual enquanto produtor de angústia nos parece bem mais realista.

Assim quando o puritano luta combate em torno do ideal de uma Sociedade fechada e repressora, esta na verdade tentando proteger seu super ego. Enquanto o homem superior, demandando pela liberdade, busca enfraquecer e eliminar o super ego, mantendo apenas a estância da consciência Ética, supinamente desconsiderada por Freud. Até certo ponto o homem de hoje não quer mais ser cópia, reproduzir valores ou viver para a Sociedade, como um escravo. Exige algo para si e quer viver também para si... Dirá alguém que este homem esta errado? Direi que se prejudica concretamente o outro esta errado, mas que se não prejudica ou causa dano a quem quer quer seja, lhe é defeso viver a seu modo e gritar: Meu corpo minhas regras. Este homem quer ser plenamente livre e produzir a si mesmo e temos de considerar que esta meta é um direito seu.

Não poucos acusam Freud de ter andado mal na medida em que partiu da anormalidade ou de situações de neurose para chegar a normalidade. A objeção peca pela simplicidade e chega a ser absurda, afinal Decroly, Montesori e muitos outros educadores também partiram das crianças anormais até chegar a criança normal. Para tanto bastaria dar com o elemento causador da anormalidade e isola-lo e o psicólogo hebreu soube faze-lo com absoluta maestria. O pivô da anormalidade, dos complexos, da fixação era a repressão externa, princípio do Super ego. Noutras palavras a pressão social em torno daqueles tabus sexuais arbitrários é que produzia desajustados como o estrume produz cogumelos... Portanto era a própria dinâmica social do passado que precisava ser questionada e desconstruídas. A criança precisava ser encarada com realismo e naturalidade e não reprimida por meio de castigos físicos ou de terrorismo psicológico.

Será normal aquele homem que no curso da infância e da juventude não introjete princípios e valores anti naturais ou aquele cujo super ego seja despojado de toda essa carga maniqueísta e puritana legada pelo passado. Será normal quem desde cedo aprender a conviver com seu corpo e aceitar a própria sexualidade. Tal o caminho, e não há outro. Onde prevalecer a artificialidade, a mediocridade, o temor supersticioso, o contato com o mundo livre produzirá conflitos e tensões e deflagrará neuroses. A luta aqui será travada no sentido de emancipar-se a tutela de um super ego tacanho, mesquinho e exacerbado.

Quem perder esta luta perderá a tranquilidade, a menos que se feche em seu mundinho artificial ou numa redoma de vidro.

Todo escravo voluntário sente-se humilhado ao tratar com pessoas livres e emancipadas, a audácia e coragem demonstrada por elas abate-o. O escravo só se sente bem em meio a pessoas de sua condição. Assim a liberdade sexual de muitos não pode deixar de incomodar certo número de pessoas. No fundo no fundo todos almejam ser livres. A alguns no entanto falta coragem ou força para lutar... Daí o desejo satânico no sentido de que todos sejam igualmente escravos ou igualmente controlados... A ideia aqui é reprimir e oprimir para proteger-se.

Passando aos exemplo apelarei a um exemplo a um tempo já clássico e a outro polêmico. Do ponto de vista biológico ou natural somos todos bissexuais estando a bissexualidade, em maior ou menor grau, presente em todos os espaços naturais. Temos inclusive exemplos de sociedades antigas que aceitaram integralmente tal pressuposto, assim Grécia e Roma, cuja perspectiva tem sido bastante falseada pelos moralistas do tempo presente, pelos puritanos, pelos fanáticos, etc Mas podemos dizer sem sombra de dúvida que aquelas sociedades ignoravam por completo o que chamamos de normatividade heterossexual. Claro que haviam matrimônios heterossexuais pelo simples fato de procriarem, mas de modo algum uma sexualidade hétero fechada e constituída em torno de certos tabus.

Ter pênis ou vagina não significa de modo algum, ao menos do ponto de vista da natureza, que o pênis tenderá sempre e necessariamente a vagina e vice versa. Assim a fixação do objeto com que devemos transar ou a orientação sexual, parte sempre da cultura. É o discurso sancionado pela Sociedade que diz: Homem só pode transar com mulher e vice versa. Para além disto apelam a vontade de deus e a um montão de bobagens com o objetivo de fixar a regra. A partir daí, tendo em vista o controle da natureza, criam uma Sociedade habilidosamente repressora e fazem a roda girar até ser desmantelada pelo 'satânico' judeu vienense... Pois esta cultura fundamentada no sagrado e em punições espirituais draconianas consolida-se ou torna-se hegemônica.

E no entanto é tudo precário e artificial ali.

Pois na medida em que a dinâmica social é alterada no sentido da liberdade e que as pessoas são autorizadas a aproximarem-se umas das outras sem preconceitos, sucede uma epidemia de homoafetividade, uma autêntica febre... Mas como se a heterossexualidade é absolutamente natural? Como se pode trair a natureza em tão larga escala? Absurdo sobre absurdo.

Neste sentido o homem póstumo ou genial, que afronta ou despoja o super ego se entregará livremente - exceto em caso de compromisso fechado, o qual certamente teria de ser dissolvido (aqui a questão se torna Ética) - aos prazeres lícitos sem complexo de culpa. Ciente de que esta fruição foi disposta pelo sagrado. Já o homem medíocre, dominado pelo super ego e norteado pelos preconceitos, experimentará dadas situações de conflito, oscilação ou tentação e a subsequente carga de angústia... atingindo situações de neurose. Pois se sentirá atraído por alguém do mesmo sexo e experimentará certas tentações, as quais tentará fazer guerra, sendo possível inclusive que venha a experimentar sentimentos de culpa a priori.

Enquanto este homem não confrontar o super ego, revisando seus princípios e valores e eliminando quaisquer complexos de culpa - a priori ou a posteriori - não logrará vencer a angústia e estabilizar-se. Precisa para tanto repudiar a convenção, reconciliar-se com a natureza e viver para si.

Gostaria de abordar rapidamente um tipo de caso até certo ponto raro bastante explorado pelos membros da Igreja romana e que diz respeito a alguns santos muito bem sucedidos quanto a um ideal de vida puritana e até certo pondo aparentemente normais. Claro que também há um número considerável de canonizados vitimados pela neurose, a qual alguns 'católicos' desmiolados chegam a encarar como uma espécie de dádiva celestial !!! Mas o que devemos esperar de pessoas que chegaram a encarar a possessão, e sob o ponto de vista sobrenatural e não natural (como é o nosso), como um meio de santificação??? Tal o caso retumbante do Pe J J Surin de que resultou um dos aspectos mais monstruosos dos neo catolicismo - a mística da possessão.

Atenha-mo-nos no entanto aos religiosos que optaram por abraçar uma ética de perfeição ou um ideal de virtude, o próprio Freud admitira que canalizaram a libido, compreendida como energia sexual - Jung a compreende como energia amorfa ou informe - e desviaram-na para outros fins. A igreja antiga no entanto compreendeu que essa canalização de energias deveria ser facilitada por uma série de exercícios que receberam o nome de disciplina e que até certo ponto fazem lembrar a psicologia reflexiológica do condicionamento.

Importa saber que quanto mais uma pessoa identifica-se com determinado ideal ético, mais forças tende a obter e a aplicar contra as inclinações que possam frustra-lo. Tais pessoas são capazes de tomar decisões bastante firmes, pelo hábito vão formando um caráter forte e tornam-se capazes de resistir a situações de tentação, mesmo em circunstâncias que possibilitam a consumação do ato que consideram ilícito. Elas vencem as tentações, triunfam face aos apelos da natureza e aparentemente não sentem qualquer abalo. Como explicar semelhantes fatos por sinal questionados pela literatura naturalista do século XIX para a qual todo e qualquer monge era decididamente um fingido???

Ao menos estas situações de resistência face a consumação de um desejo natural não me parecem suficientemente explicáveis a luz da teoria da canalização. Então o que??? Estou convencido de que situações de triunfo ou vitória como estas, é capaz de levar algumas pessoas, ao menos inconscientemente, ao paroxismo do orgulho, uma experiência - quiçá orgânica - análoga a do orgasmo sexual experimentado por nós. O religioso que vence a tentação também deve lá experimentar o seu orgasmo, ainda que no plano da imaterialidade, mas certamente com decorrências físicas.

E o religioso, o moralista ou o homem medíocre que cede ou cai pondo em prática o que condena ou que considera imoral? Terá de rever seus pontos de vista ou encontrar na própria religião - caso tenha uma - um rito expiatório capaz de purificar-lhe a consciência. Se judeu aguardará o Yon Kipur, se Católico recorrerá a penitência, se protestante evocará o sangue redentor de Jesus... Com o sentimento de culpa a posteriori dificilmente poderá viver. Interessante salientar que quanto mais os sistemas religiosos dificultam o acesso ao perdão normatizando seus ritos, tanto mais atemorizam o 'pecador' e fortalecem a sociedade fechada. Na proporção inversa na mesma medida em que tornam o acesso ao perdão demasiado fácil, tendem a aliviar ou mesmo a minar o super ego e a desestabilizar a sociedade fechada. Não é por mero acaso que as sociedade luteranas como a Escandinava e a Alemã seja talvez as mais liberais em matéria de sexualidade no contesto Cristão. Afinal os luteranos vincularam o acesso ao perdão ao ato individual de fé, o qual sempre poderia ser refeito ou renovado tendo em vista a fragilidade da natureza. Destarte as situações de pecado - infelizmente não apenas as de natureza moral ou sexual mas também as de ética - tornaram-se recorrentes, comuns, banais, até que por força de cometer sucessivos pecados as pessoas deixaram de acreditar que fossem verdadeiros pecados passando a aceita-los como algo absolutamente natural. Infelizmente, como já dissemos, isto também se aplica a situações de injustiça, engano, opressão, etc

Resta-nos por fim aquilatar as opiniões do Dr Henri Baruk sobre a loucura, o complexo de culpa e o pecado, vejamos que diz ele:

"Em alguns casos dos estudados por Freud os sujeitos se convertem eu neuróticos por terem reprimido o acesso ao desejo do instinto. Outras pessoas caem no paroxismo da psicose e do ódio e chegam as raias da loucura por terem seguido demasiado fácil a seus desejos e reprimido as exigências da moral." 1951

Quanto ao primeiro caso tornam-se neuróticas porque a resistência ao desejo consome uma dose excessiva da energia. E Aquino até diria que consumo da energia atinente ao ato de resistência, esta relacionado com a intensidade do desejo suscitado e enfim com as qualidades do objeto externo. Tanto mais apetecível ou bem ou objeto externo desejado, tanto maior o abalo produzido na consciência e tanto maior o montante de energias despendidas na resistência. A ponto de, atingindo os limites do ser, extenua-lo. Aqui o super ego chegou a seus limites e nem podemos desprezar a possível presença do sentimento de culpa a priori...

Já a situação apontada por Baruk refere a angústia produzida pelo sentimento de culpa a posteriori. Agora donde provém este sentimento de culpa? Da consciência Ética ou desse apêndice de moralidade social e repositório de preconceitos chamado Super ego. Em caso de supostos pecados sexuais é evidente que procedem da segunda fonte, neste caso tupo quanto temos é a presença de um mecanismo repressor, nada que Freud já não tenha dito.

Claro que uma pessoa que se considera culpada por ter posto em prática determinado ato pecaminoso e recusa-se a receber o perdão ou a perdoar-se pode vir a desenvolver psicose. Nem importa se o pecado em questão é verdadeiro pecado ou não, importa que seja pecado para ela. Assim se vir a acreditar que roer a unha das mãos é pecado e vier a faze-lo, sofrerá intensamento por isso. Não é a partir dessa relação que se estabelece digamos um imperativo de resistência. Imperativo de resistência clama por uma definição convincente e satisfatória - não arbitrária ou caprichosa - de pecado. Definição que a moralidade puritana jamais poderá vir a oferecer-nos contaminada como esta pelo veneno maniqueísta. De fato o pecado não esta no copo do home ou em seus órgãos sexuais, mas em seus relações com o outro ou quanto ao que faz de seu irmãos em termos de dano ou prejuízo concreto.

Neste sentido temos de buscar por outros possíveis tipos de contradição - é aqui que temos de ir a Adler ou a Jung - pois a analise freudiana correspondia a um tipo dado de cultura ou sociedade, a uma sociedade superficial. Na sociedade ética os conflitos serão bem outros, envolvendo valores essenciais e perenes como lealdade, justiça, verdade, solidariedade, bondade, etc Aqui é bem sacrificar princípios e valores por status, poder e dinheiro; até que ponto isto também produz sentimento de culpa, angústia, depressão, neurose e loucura. Aqui temos o homem traindo a si mesmo e precisamos saber qual o preço psíquico pago por ele.

Vou citar um exemplo clássico neste domínio e com ele encerrar estas reflexões sobre a presença da ética na mente e a negação dos valores.

A rainha Dna Maria I de Portugal era uma adolescente quando seu pai, o então rei D José I, instigado por seu todo poderoso ministro Pombal, fez acusar e supliciar a Casa dos Távoras. A bem da verdade tanto ela quanto sua mãe conseguiram salvam um vultoso número de condenados, mas não a Marqueza de Távora e seus familiares mais próximos, a cujo bárbaro suplício foram obrigadas a assistir juntamente com toda nobreza. A cena por si só jamais pode ser esquecida pela infeliz moça, a qual além disto jamais pode perdoar-se por não tem conseguido o perdão dos demais condenados dos quais julgava-se co assassina por omissão. Deste sentimento de culpa insuperável e volumoso decorreu seu obscurecimento mental, a ponto de entre os brasileiros vir a ser conhecida como Dna Maria, a louca.

Aqui um conflito ético, e portanto mais profundo por tocar as fontes do ser. É claro que este tipo de fenômeno não estava no acesso de Freud, o qual viveu numa Sociedade que pelo simples fato de policiar doentiamente a sexualidade humana, valorizava-a demais. Afinal não valorizamos somente aquilo que aceitamos, mas também aquilo que obstinadamente negamos.