domingo, 17 de fevereiro de 2019

Dialogando com Russel Kirk - Ideologia, Conservadorismo, Reacionarismo: Definições e fontes

Após ter lido os assim chamados conservadores Católicos, cuja mentalidade conheço, as afinidades reconheço, certo realismo aplaudo... achei por bem ler os outros conservadores, a começar pelo 'esplêndido' Burke - cuja obra ainda não li apreciando apenas alguns resumos de Nisbet, A Weber e outros... Fui quando mudei de ideia e a Burke antepus os principais teóricos conservadores da modernidade, assim John Gray, Scruton, R Kirk, etc Ludovici é controvertido... Ao ler a anatomia de Gray dei conta do espírito - 'Ceticismo, irracionalismo, relativismo e subjetivismo.' e se isto não é ideologia não sei que seja! E no entanto este Gray escreve bastante bem, é fartamente bem informado, um interlocutor primoroso e erudito. Muito aprendi com ele sobre John Stuart Mill - de cujo liberalismo político, em termos de princípios, comungo - Isaiah Berlim e outros.

Acabo de ler o primeiro artigo de Kirk, o qual é dado por muitos como Católico e assim acatado. Claro que tenho de critica-lo sob o ponto de vista do Catolicismo, o qual possui uma Ética encarnada, e assim uma doutrina social bastante exata. Por isso antes de ler o dito artigo examinei o 'índice onomástico' ( Í Remissivo p 474) da Política da prudência 2014. Se Kirk foi de fato Católico é para espantar seu desprezo pelos autores autenticamente Católicos - Crane Brinton, Hugues, A Weber... dentre outros, alistam mais referências Católicas do que ele... Nem sequer uma menção a Leão XIII. Total ausência dos Antigos Padres, dos escolásticos - como Aquino - dos prolíficos salmanticenses - assim Suarez - e obviamente dos Católicos sociais... Afinal tudo aqui inspira ideais e princípios que parte do Sagrado, aos quais o sr Kirk fará uma série de apelações artificiosas e inconsistentes.


Tenta ele, não sei se sinceramente, desvincular-se do que seja ideologia, ao menos das naturalistas ou imanentes, mas, a primeira vista, parece que abdica de todo Ideal ou de ideias firmes e exatas identificando-as com sonhos, fantasias e imaginações... as quais opõem a experiência das formas tradicionais testadas pelo tempo, supondo-as superiores. Parece-me que há aqui um travo de positivismo ou o que seria ainda pior, de ceticismo e irracionalismo. Faz lembrar ainda - e reporto-me também a Gray e outros - aquele 'tradicionalismo' 'Católico' de Bonald, Bautain, Ubaghs, Lammenais, etc que renovando petições a Agostinho, restringia a capacidade do nosso aparato racional. E Agostinho esta na base de tudo isto - de todo ceticismo ulterior - de Occkhan, de Lutero, de Montaigne, de Kant, etc - por ter bebido nas fontes do maniqueísmo. São tradições protestantes que ora se encontram, complementam e reforçam, inda que secularizadas por um Hume ou um Kant.

Mas antes que me esqueça deixem-me apresentar-me. Não sou conservador porque não aprecio o termo relativo e indefinido 'conservador'. Sou daqueles paradoxais 'revolucionários reacionários' descritos por Nisbet ou daqueles que querem mudar radicalmente a sociedade atual ou contemporânea, ocidental, americanizante e americanizada, tomando por base não um futuro hipotético, fantasioso e imaginário, mas o passado, inda que não seja necessariamente tradicional. Pois também as tradições, como tudo que é humano. deve ser criticada, seja por parte da fé, da razão ou da ética, que é um tipo ideal. Gosto portanto de apresentar-me como um reacionário, aos modos lúcidos de um N Berdiaeff, o qual me parece muito mais prudente e profundo do que Burke, ao apresentar a Revolução francesa e todas as outras que a ela se seguiram como efeitos de um processo social degenerativo por assim dizer crônico e fatal, o qual devemos evitar a longo prazo ou sofrer pacientemente, mantendo-se numa justa neutralidade.

Aqui o gênio russo ou latino depurado daquele idealismo alemão assumido por não poucos ingleses e N americanos, o qual pressupunha, leviana ou ingenuamente serem as Revoluções  causadas pelo poder extraordinário de algum ou de alguns indivíduos desordeiros. Enquanto refletem sempre, seríssimos problemas sociais, captados e explorados por tais inteligências. Doutro modo, numa Sociedade bem constituída e sadia os esforços de tais inteligencias seriam totalmente inócuos. As sementes da Revolução só germinam em solo propício, no bojo de.sérias patologias sociais. Eis o que Berdiaeff percebeu.

Então Revoluções pedem contra revoluções antecipadas, ou profilaxia. Podem ser evitadas por meios de sábias reformas, jamais debeladas a posteriori e as contra revoluções caturras, suscitadas por tradicionalistas ou conservadores impenitentes sempre estarão fadadas ao fracasso e a ruína. Há coisas que merecem ser conservadas indefinidamente. Não tudo...

Vejam Burke, fala, fala e fala... escreve, escreve e escreve contra a malsinada Revolução francesa. A qual deseja bloquear ou paralisar utopicamente. Ora nós que ainda respiramos os ares sãos da contra reforma e da medievalidade pura e sem mistura, incontaminada... sabemos que o buraco é bem mais embaixo que a Rev francesa já havia sido posta em marcha pelo liberalismo econômico ou fisiocraticismo, bem como pela o nova ordem absolutista, a qual em comunhão com a burguesia, havia iniciado a dissolução da ordem precedente. Que dizer então da reforma?

Mesmo sem endossar as teses radicais de Gaxotte e do Pe Delassus temos de declarar que ao menos quanto os métodos jacobinos ou violentos, todas as Revs ulteriores reportam a Reforma protestante. Nem é menos verdade que da subversão da ordem espiritual vigente, os campônios anabatistas do Sul da Alemanha deduziram certas reformas ou transformações sociais, incoerentemente descartadas por Martinho Lutero. A petição no entanto ali ficou... Enquanto a curiosa reforma cai nos braços do estado vindo, em todas as partes a fomentar o absolutismo e o capitalismo. Desde então, ficou a antiga Sociedade - das comunidades - inexoravelmente condenada a uma morte lenta. Desgastaram-na-a, tanto na França quanto na Inglaterra o absolutismo centralizador e o mercado em ascenção. Destarte, quando desabou a rev francesa havia apenas uma espécie de casca ou de aparência do passado, envolvendo entidades mortas ou moribundas. A Rev francesa limitou-se a empurrar um cadáver a sepultura ou a derrubar uma palhoça  desprovida de fundamentos. O trabalho de demolição já havia sido feito por três fatores organicamente relacionados e conjugados: A reforma, o absolutismo/nacionalismo e o capitalismo emergente.

Sendo assim, se nos devemos situar antes dessa Reforma, conservar o que? O protestantismo? Os nacionalismos? O Capitalismo? Este caos de culturas de morte? A troco de que?

Observe-se então, quanto ao conservadorismo, o mesmo que Kirk aplica a Ideologia. É um vocábulo ambiguo, relativo e insuficiente... Pois o objeto da conservação deve ser sempre situado no tempo e no espaço? Que modelo social você deseja conservar? O atual ou o de hoje? Então esta vinculado aqueles fenômenos que levaram a Rev Francesa que você condena: Protestantismo, Absolutismo/nacionalismo e Capitalismo... Se é isto que quer conservar como deplorar a Rev francesa e fugir a uma Rev comunista ou anarquista? Acha que pode brincar com tais forças ou parar levianamente o fluxo? Os girondinos tentaram e falharam...

Na atual sociedade degenerada, fruto do protestantismo, do nacionalismo e do capitalismo em comunhão com o ateísmo, o fanatismo, o ceticismo, o relativismo, o subjetivismo, etc não vejo nada muito digno de ser conservado e legado a posteridade. Somos decadência ou fim, como suspeitavam Spengler, Huizinga, Toynbee, etc mas temos em nossa experiencialidade história, anti corpos e vacinas.

Temos de varrer este mundo pela base e retroceder a Reforma com seu veneno individualista. Temos de retroceder o nacionalismo totalitário e o capitalismo acima de tudo. E não nos podemos enganar. Então temos de ser anti conservadores, temos de ser reacionários. Mesmo quando afirmamos o liberalismo político ou o progressismo em matéria de costumes e sexualidade, reporta-mo-nos a Grécia ou ao Evangelho e nossas fontes do futuro estão lá no passado.

Por isso não podemos caminha com Kirk e com suas ideologias subjacentes.

Antes de tudo a primeira delas - O prudencialismo, enquanto simples pragmatismo derivado da tradição ou do que chamamos senso comum. Em oposição a uma reflexão ou planejamento racional... Kirk ao escudar-se no pragmatismo de James, toma por protetor um filho do ceticismo, assim duas ideologias nada saudáveis. Como Gray e todos os outros ele desconfia do aparato racional... Como Hayek aproxima-se de Kant ou mesmo de Hume... Atira-se a corrente do irracionalismo e só enxerga um concorrente digno: A religião... Não o Catolicismo, encarnado e na posse de um certo sentido imanente. Por via de Agostinho talvez nosso homem encontra o luteranismo, relacionando a salvação com a graça, mas omitindo as obras, conforme já assinalado com propriedade por Maritain e Mellawace numa perspectiva social. Chega assim a Plotino e a um falso Cristianismo, desvinculado do mundo material e sensível e que só se realiza no céu ou no além. Como o espírito descarnado do protestantismo, Kirk e seus guias, seguem na contra mão da encarnação ou de uma fé ética, que inspira as relações sociais e penetra a atividade política.

Kirk não deseja transformações, que correspondam a uma categoria ideal, que nos possibilite a criticar o real ou o existente e buscar transforma-lo. Conforma-se com o mundo real ou existente e destarte retoma a postura dos céticos como Pirro ou dos positivistas pós Litreé... O mundo deve ser aceito tal qual nos foi dado, conservado e não eticamente aprimorado. Do ponto de vista Católico temos um supremo absurdo. Pois. Em certo sentido, não draconiano ou jacobino, foi o Cristianismo primitivo uma colossal revolução face a uma cultura antiga e tradicional, escravista acima de tudo, mas também machista, infanticida e desumana. O humanismo divino com que o Catolicismo reforçara o socratismo fora para muitos uma novidade preocupante e os pensadores neo platônicos dos primeiros séculos não cessavam de denunciar essa preocupação 'patológica' com o próximo, este sentido social, este culto concreto ao amor e a justiça.

No entanto os vícios do paganismo reverteram. De modo que o Catolicismo Ortodoxo jamais encerrou sua missão a um tempo ética e social em torno de ideias ou conceitos essenciais como a fraternidade, a justiça e a liberdade, os quais encara como princípios éticos inegociáveis.

Digo mais e digo honestamente a Kirk e seus seguidores - Se o Catolicismo a um tempo conformou-se com as mazelas deste mundo, traiu a si mesmo e deixou de consumar sua missão social é absolutamente natural que outros a tenham assumido, inda que não fosse com a mesma pureza. Quem abrir os Evangelhos e le-lo tornar-se-a reformador do mundo, seja aos modos de um Marx ou de um Bakhunin, aos modos de um Kropotkin ou de um Tolstoi. Podemos e devemos criticar certos métodos apenas se buscamos fazer algo.
Por isso não posso compreender o derrotismo ou comodismo de um T S Elliot. A da-lo por epifenômeno psicológico não posso de modo algum da-lo por Católico. O Católico tem sim esperança para este mundo, posto que foi materialmente assumido pelo Verbo através do mistério da Encarnação. E tem sobretudo tem firme esperança neste homem corrigido, santificado e aperfeiçoado por uma graça capacitante.Nossa noção de graça não é a de Lutero, graça formal, exterior e frágil, mas de uma graça que vivifica o coração e torna poderosa a boa vontade. Sequer nos é dado sofrer e chorar com Bernanos, mas lutar e combater com S Basílio, Camilo, João de Deus, Cotolengo, Ozanam, Meignam, De Munn, Keteller, S Weil, Mother Jones, etc com toda esta constelação de heróis ignorada por T S Elliot ou Kirk, os quais não se conformaram com a realidade dada ou pré fabricada.

Onde há opressão, crueldade, injustiça, maldade, intolerância, etc há algo a ser feito. Há trabalho para o Cristão engajado, filho da Ética ou do Evangelho. Dado que o agostinianismo triunfante ou o protestantismo por muito tempo aluiu este ideal Cristão de combate, desviando o Catolicismo defensivo para os domínios da verdade puramente intelectual ou do além, produziu as condições necessárias para que a realidade social se tornasse ainda mais distante dos ideais sagrados. O que suscitou, a falta ou insuficiência de uma reação autenticamente Cristã, uma reação Naturalista, resíduo de uma Ética Crista desfigurada ou naturalizada e
associada a métodos violentos e virulentos. Kirk parece admirar-se ou melindrar-se desta reação secularizada, mas inspirada numa ética Cristã. E em tempo algum se pergunta a respeito de ideais e princípios éticos, no acesso da via racional ou metafísica.

Social ou culturalmente a fé foi sucedida pela razão ou pela metafísica e esta enfim - após Kant - foi sucedida pelo empirismo cientificista pela percepção enfim, até chegarmos ao nihilismo i é a fase em que fé, razão e ciência foram simultaneamente descartadas, devendo o homem, mais do que nunca conformar-se com o dado ou o prosaico. Durante todo este curso os homens situara a fonte da ética no que tinham por estável e os que admitiam, com Sócrates, Platão e Aristóteles, o poder da razão, fizeram dela um padrão de Ética, a um tempo naturalista e a outro essencialista. Gray teve de admitir que o 'erro' ou a busca pela unidade principiará não com a Revelação Cristã ou com a fé, mas com a racionalidade helênica, o que já havia sido enunciado por Alfred Weber. Não se trata apenas de uma secularização do Cristianismo - claro que esta se faz presente em grande número de casos - mas também de nossa herança grega ou clássica. Nietzsche não estava errado ao relacionar Jesus com Sócrates, tampouco Ayn Rand.

Diante disto é perfeitamente compreensível que após a crise da fé e decadência do padrão revelado, tenha a Ética ocidental mergulhado em suas raízes mais remotas i é racionais. Daqui, procede Kirk, procede um sectarismo de fundo místico ou religioso. Também, diremos nós, da Filosofia ou da Ética gregas surgiram diversas escolas rivais, e polêmicas, e debates e discussões sem fim. Mas alguns, a partir de Sorel, tem apelado conscientemente a violência, mesmo a virulência e a crueldade. No entanto existem diversas formas de violência e de crueldade que não fazem verter sangue e estão presentes em todos os tipos de sociedade. A Revolução deles sofre abusos? Que instituição divina ou humana não os sofre. Aspiram transforma a História por outros meios que a educação/formação... Bem isto remonta a Reforma que quase todos aplaudem, bem como a Revolução inglesa, que não foi feita com flores. Ademais por que raios  teria o bom Burke aplaudido a Rev Inglesa, levada a cabo por Burgueses contra o episcopado anglicano - denodado defensor das tradições - e vaiado a francesa??? Teria aquela sido feita com flores?

Enfim Kirk parece não perceber que apelar a tradição é ideologia, como o pragmatismo, o ceticismo, o o conformismo, o positivismo... Quer conciliações fáceis, porque lhe faltam princípios sólidos fornecidos pela razão ou mesmo pela fé. Parece confundir propositadamente convicções e discordância com sectarismo. Afeta-o que alguns tentem reformar ou aprimorar as formas sociais através do político??? Terão de ser alteradas por remota inspiração religiosa ou pela educação... Mas se fogem a reformações episódicas como haverão de conjurar os movimentos radicais? O ocultando os problemas ou fingindo que não existem? Feliz o doente que reconhece seu estado e corre ao médico... A pior farsa é a de uma sociedade imutável e fixa. Nem mesmo o antigo Egito ou a antiga China vivenciaram semelhante estado de coisas. Há coisas que devam ser conservadas? Certamente há, ao menos na esfera dos princípios e valores de que emanam os direitos essenciais da pessoa, assim a liberdade, a dignidade e a justiça... Há um progressivismo iconoclasta e indesejável, filho do mesmo relativismo oco? Como nega-lo?

Adotemos portanto, em todos estes nichos, uma via média inspirada numa Ética religiosa ou na Ética essencial da pessoa - inda que naturalmente deduzida - e busquemos aplica-la recorrendo ao elemento comum da razão. Este posicionamento nos conduzirá a um são liberalismo político, a afirmação dos direitos fundamentais da pessoa e a busca pela justiça nos domínios sociais. Ora, nenhuma destas perspectivas: liberdade, policracia, afirmação de direitos, o culto da justiça, a busca por uma paz digna nos afastará de nosso passado mas nos reconciliará em parte com a Idade Média mas sobretudo com a tradição divina i é com a antiguidade Cristã. Destarte não nos alinharemos com Comunistas ou Capitalistas, nem mesmos com os Conservadores ou Anarquistas, mas daremos com soluções próprias, com soluções Católicas, o que Kirk jamais encontrou ou foi capaz de formular, beliscando em prato protestante e devorando migalhas.

Os católicos, inspirados, não determinados ou dominados, por elementos de uma fé revelada e fecundada pelo elemento natural da razão, construirão suas soluções, não se alinharão e nem sempre serão instrumentos manipulados pelo liberalismo econômico, pelo conservadorismo acrítico ou pelo comunismo. Temos de ter visão própria. E de criar cultura própria ou de resgata-la, encarando nosso passado multi secular.

Eis o que tenho a dizer sobre Russel Kirk - Não lhe faltam ideologias subjacentes, as quais nada teem de Católicas, e ele, como tantos outros parece flertar com elementos de origem protestante e assimilar certa dose de veneno americanista.


sábado, 16 de fevereiro de 2019

Dinâmicas da História ocidental - Protestantismo, Absolutismo, Estatismo e Capitalismo...

É do ser humano buscar a paz e evitar o conflito ou a desordem, e, durante muito tempo, foi a pluralidade sinônimo de desordem ou conflito. Tolerância era algo que não se pensava e que não fazia mínimo sentido.

Apenas podemos imaginar aqueles tempos primitivos em que os deuses 'masculinos' e ferozes combatiam uns contra os outros, tal e qual seus devotos ou suas criaturas - Clã contra clã, aldeia contra aldeia, tribo contra tribo...

Hobbes explorou exaustivamente o estado feroz do homem primitivo e a condição belicosa das primitivas sociedades, instigadas pela fúria religiosa e a descoberta da América, ao menos quanto ao México e circuncaribe sugere semelhante configuração.

Caso Gimbutas esteja certa - e em parte ao menos parece estar - foi apenas após o advento da agricultura que certas culturas matriarcais, vinculadas ao culto da deusa mãe i é da mãe terra, idealizaram o que se poderia talvez chamar de primitiva cultura da paz. Ademais não lhes faltavam subsídios alimentares ou reservas... saliento aqui a presença de dois elementos relacionados com a cultura da paz, um ideal e um material: O configuração do culto em torno de uma figura maternal e a suficiência alimentar.

Nem por isto a paz consolidou-se. Posto que os povos nômades das estepes e desertos, machistas e adoradores de deuses belicosos, não tardaram a assaltar as culturas agrícolas e assim os primeiros centros urbanos. Em pouco tempo o conflito entre citadinos e nômades assumiu enormes proporções e em quase todos os lugares, declara Khaldun, os nômades belicosos venceram os povos das cidades, destruiram-nas ou instaram-se nelas. E instalados nelas lançaram cidades contra cidades...

Poucas sociedades, alias afortunadas, conheceram o que ora chamamos paz ou estabilidade, achando-se como que a salvo dos conflitos que assolavam o mundo. Uma delas foi o antigo Egito. Herdeiro de uma remota tradição matriarcal e beneficiado por suas fronteiras naturais, mal fora unificado por Menés, pacificou-se o Egito, conformando-se com as ditas fronteiras, disto resultando um multi secular estado de paz associado ao progresso material e espiritual. cf Kurt Lange

Foi na Mesopotâmia que Sargão I de Acad, após ter conquistado as cidades estado do Sul - Shumer - e unificado o pais, idealizou, por vez primeira um Império multi nacional associado a pirataria. Ele mesmo declarou ter conquistado todas as terras existentes desde o Mar inferior ao Mar superior e é certo que seus exércitos ou hordas chegaram as praias do Mediterrâneo. Tampouco o Egito ignorava a existência de tais terras enquanto edificava suas monumentais pirâmides. Sargão, como disse, não era asiânico ou sumério, vindo do Sul, mas sêmita, vindo do Norte, filho de uma cultura oriunda dos desertos, preponderantemente machista e adoradora de deuses guerreiros. Foi esta cultura que predominou ao Norte, na montanhosa Assíria e que a tornou tão diversa da Babilônia situada mais ao Sul.

Sargão jamais disfarçou sua ideologia - se é que assim podemos chama-la - oportunista ou prática (da pilhagem) e tampouco, creio eu, seu neto Naram Sin, o qual considerava-se deus vivente sobre a terra. Em algum tempo posterior no entanto, o primitivo imperialismo refinou-se, convertendo-se em veículo de uma sonhada unidade, que seria vínculo de uma paz eterna. No entanto para que a dita paz se concretizasse era necessário suportar as guerras de conquista, e sofre-las, o que nos faz lembrar a ditadura do proletariado na teoria marxista, i é o inferno que deve preceder o paraíso... Paradoxalmente o ideal da Unidade ou do Império foi que acendrou os conflitos e alimentou as guerras.

A partir desta perspectiva nacional ou imperialista as cidades estados sempre foram encaradas como um estádio ou fase, jamais como algo definitivo ou perfeito. Para os imperialistas de todas as épocas o sistema das cidades estado sempre foi visto como algo confuso ou caótico tendo em vista seus pequenos conflitos, que de fato eram contínuos. Já nos tempos do citado Sargão não só alguns acadianos, mas até mesmo alguns sumérios, devem ter visto as coisas por este ângulo e acreditado que a unificação imperialista extinguiria as guerras e consolidaria a paz.

Tanto as cidades estado gregas, quanto as da antiga Etrúria e as da Itália medieval, não deixaram de produzir a mesma impressão, não apenas quanto a seus inimigos externos, inseridos noutras culturas, mas certamente entre alguns de seus próprios habitantes. Em todas cidades estado da antiga Grécia e da Itália medieval houve um grupo maior ou menor de Imperialistas, seduzidos pelo ideal de uma unidade política universal, cujo fim último seria a extinção de todas as guerras e a instauração de uma paz perpétua.

Sem que os feudos equivalessem a cidades, não deixavam por isso de - ao menos segundo o costume - de constituírem uma instância social autônoma. Já em Portugal e Espanha damos com os municípios, cujas origens, romanas ou árabes, ainda são exaustivamente discutidas, e que gozavam de larga autonomia. Havia ainda a Igreja representada pelo poder episcopal, fundamento da economia religiosa; as universidades, as corporações, as guildas, as ordens religiosas, etc Uma constelação de coletivos ou comunidades que subsistiam a par do poder político, considerado por muitos como insipiente.

A partir do protestantismo - incapaz de afirmar-se como autoridade religiosa supra pessoal e objetiva - de um capitalismo tolhido em suas ambições e de um unitarismo político centralizador, o quadro acima descrito era, como já dissemos caótico, confuso e até alarmante. Posto que entre tantas comunidades ou grupos sociais era o conflito uma constante e pequenos conflitos estouravam a todo instante entre feudo e feudo, cidade e cidade, diocese e diocese, etc Nem era o ideal da 'comunitas comonitorum' perfeito, nem a todos agradava...

Durante a alta idade Média, quando o militarismo dos senhores e cavaleiros constituía o único ou principal objeto daquelas comunidades, constituiu-se um quadro realmente pavoroso, que resolveu-se apenas por meio das Cruzadas. As Cruzadas no entanto, por diversos fatores, propiciaram outras formas de ser e de existir, através de sucessivos Renascimentos, no quadro da própria Idade Média, deles resultando o que chamamos de baixa Idade Média, momento em que floresceu a constelação acima descrita e em que os conflitos conheceram significativa atenuação. Em que pese os ensaios, incipientes, de unificação e centralização nacional, a partir daqui promotores de outras tantas guerras. Estas no entanto eram justificadas com apelar-se a unidade nacional ou imperial enquanto vínculo da paz.

Enquanto frutos de uma conjuntura específica - a luta entre o Império e o Papado - Maquiavel acreditava que as cidades estado italianas não teriam como manter-se a partir do momento em que uma das partes saísse vitoriosa. E por isso, voltando-se contra a autonomia daquelas repúblicas, endossava uma unificação política em termos de Itália, a qual servisse de contra peso ao Império e ao Papado... Político sagaz, ele não podia crer que meras cidades estados, rivais umas das outras, fossem capaz de resistir as pressões exercidas por um inimigo externo unificado. A partir deste princípio realista, a ser considerado ainda hoje, ele recomendou uma unificação a qualquer preço, sem considerações de postulados éticos.

Quanto ao resto da Europa outro era o fator em fermentação, e estava inserido em cada estado após o Renascimento econômico. Pois as comunidades medievais amparadas pela cultura ou pelo costume não correspondia as expectativas em torno das mudanças a serem implementadas no que concerne a produção. Tampouco facilitavam as operações financeiras... Além disto havia a instância eclesiástica, 'proprietária' da moral ou da ética. Sejamos claros - A coesão comunitária presente na I média e paradoxalmente associada a multiplicidade das formas sociais não facilitava as coisas para o capitalismo emergente... Tinha de ser debelada e não apenas debelada mas satanizada para sempre. Para os que sonhavam com transações econômicas lucrativas, unidade e centralização política e um controle ético fragilizado a Idade Média só podia ser trevas.

Tinha a Idade Média Cristã dois grandes adversários, os quais estão na gênese da modernidade: O ethos econômico ou economicista e a centralização política em torno do estado nação. Mas eles, por si sós, enquanto simples interesses prosaicos, não tinham como legitimar-se. Face ao poder da Igreja e do universo cultural por ela surtido não tinham o economicismo e o estatismo emergentes como abrir quaisquer brechas naquela constelação. Precisavam aquele tempo de uma instância ou poder espiritual que desse início a grande revolução e justificasse suas aspirações. Por isso se diz e afirma, com absoluta exatidão, que ao fim da Idade Média e nos primórdios da Idade moderna a revolução tinha de ser religioso. E foi.

A religião ou um setor adaptado da religião tinha de facilitar as coisas para o estado e o mercado emergentes e por isto, ainda hoje, em 2019, deve o estado centralizado e economicista ser grato a esta forma religiosa e beijar-lhe os pés. Salvo devido a atuação de algumas almas sinceras e honestas o Estado totalitário e a ditadura do Mercado nada temem por parte do protestantismo, justamente por ser ele, uma de suas fontes.

A partir da primeira grande Revolução moderna, inclusive com marcado recurso a força, as coisas deslancharam bastante rapidamente. Pois dirão os dois Weber, o romanismo - em parte continuação do Catolicismo Ortodoxo - sendo tradicional, conferia aquela sociedade um ritmo de transformação bastante lento, o qual jamais viria a ultrapassar o ritmo interno da Grécia, de Roma ou de Bizâncio, a menos que, por intermédio de uma nova religião ou de um novo padrão de Cristianismo - não tradicional - algum princípio dinâmico, fosse injetado naquele corpo social. O protestantismo foi que injetou, primeiramente no organismo religioso - alma daquela sociedade - este elemento dinâmico, caracterizado pelo subjetivismo e pelo individualismo.

Onde quer que o protestantismo tenha sido introduzido a eliminação do poder religioso - representado pela hierarquia papista - culminou numa transferência de poder para o estado secular, o qual, assumindo a esfera daquele, torna-se total, centralizado e absoluto. Na medida em que os Bispos cedem espaço a pastores protestantes, que são funcionários públicos remunerados, a unificação nacional ou regional converte-se num caminho sem volta. Desde que a Igreja Católica fragmentou-se e que - no cenário protestante - as pessoas foram, muito rapidamente, perdendo a fé na religião, o vínculo da unidade - acompanhado por certo misticismo que virá a converter-se numa religiosidade nacionalista - vai sendo mais e mais transferido para o estado político centralizado, e consolidando a centralização.

Este processo de acumulo de poder por parte do Estado foi tão rápido que Henrique VIII - de carona na Reforma - e seu filho Eduardo governaram como senhores absolutos, não menos que Maria, Isabel e Tiago. Mesmo num pais papista quanto a França, onde a oposição feudal, por oportunismo político, congraçou-se com o calvinismo, ao cabo de um século teremos um Luis XIV, o qual segundo a expressão cunhada por De Figgis 'Jamais teria existido sem Lutero.'. Desde que manifestaram-se os estragos sociais advindos da Reforma protestante, os católicos perplexos, metendo os pés pelas mãos, passaram a desconfiar de todos os tipos ou formas de variações, mesmo profanas ou seculares, precipitando-se, da multiplicidade de formas sociais para precipitarem-se no abismo monolítico da unidade. Fortaleceram assim o movimento iniciado pelo protestantismo, como endossam ainda hoje o capitalismo... Sempre buscando contrapesos face ao protestantismo...

Importa saber que esta consolidação de um estado unitário, centralizado e absoluto não foi o fim de tudo. Ora, esta unificação, justificada pelo protestantismo ou desencadeada por ele, foi financiada as expensas da burguesia. Foi ela - apud Huberman 'História da riqueza do homem' - que emprestou ou doou consideráveis somas aos príncipes ou senhores mais poderosos de modo a que unificassem seus domínios suprimindo as aduanas feudais, municipais ou citadinas. Além disto, o poder político central unificava pesos e medidas, estabelecia um padrão monetário e simplesmente declarava nulas as tradições que porventura limitassem a atividade econômica. Por isso, durante algum tempo, o interesse do monarca e da burguesia foi o mesmo, e caminharam juntos.

Durante todo este tempo, em que o capitalismo apenas afirmava-se e ensaiava seus primeiros passos, buscavam os monarcas subordina-lo ou controla-lo por meio do monopólio régios e dos impostos, quiçá imaginando que sempre seria assim. No entanto, já em 1628, a burguesia inglesa, senhora do parlamento, ousou dizer não a seu monarca, disto resultando grave conflito e o envio do soberano ao cadafalso. No momento em que a burguesia em franca expansão prescindiu do apoio do Estado absoluto, passando a encara-lo como um prejuízo, os fisiocratas e seus sucessores, partindo do modelo científico, físico newtoniano, elaboraram uma teoria que dispensava o adjutório do poder político, lançando os fundamentos do liberalismo clássico. Um dos sinceros fautores desta fé ingênua foi Adam Smith... Em momento algum o elemento humano, que envolve as relações econômicas, foi considerado. Tanto o irracionalismo, quanto o voluntarismo e o erro, sempre presentes na ação humana, foram desconsiderados pelos adeptos desta teoria. Sendo aprioristicamente eliminado o tema da indeterminação, posteriormente retomado - numa falsa perspectiva - pelo kantiano Hayek.

Concomitantemente a este movimento rumo ao economicismo liberal - que afirmasse concretamente a partir de 1830 - houve, desde a rebelião dos camponeses em 1528, um clamor por liberdade da parte do povo ou da gente comum... O qual não podia deixar de crescer na mesma proporção desde que os burgueses principiaram a acometer o estado absoluto. Já na Revolução inglesa estes elementos populares constituem uma poderosa facção, assim chamada niveladora. Na Revolução francesa, por vez primeira, uma facção moderadamente popular chega ao poder com Robespierre e, após sua queda,. torna a conspirara com Gracco Babeuff. Até 1800 puderam os revolucionários de segunda classe ou das classes baixas, ser manipulados e burlados pelos burgueses, aos quais se haviam unido com o objetivo de eliminar os senhores absolutos, da mesma forma como estes haviam debelado as comunidades ancestrais. Após 1800 e ao cabo de todo século XIX os deserdados - ao menos quanto ao método filhos da reforma - se esforçarão para levar a Revolução - seja a de 1528, a de 1628 ou a de 1789 - a seus termos finais...

Importa saber que a cabo deste projeto, que era eliminar as comunidades tradicionais postas entre o individuo isolado e o poder político central e todo poderoso, e eliminando-as reduzir as situações de conflito jamais veio a concretizar-se. Eliminou-se a mediação da igreja antiga, eliminaram-se os privilégios das universidades, mosteiros, municípios, corporações, etc mas não os conflitos ou as guerras, as quais de limitadas e concomitantes - como na velha ordem - passaram a ser colossais, duradouras e totais, inda que periódicas. A ponto de abalarem o continente como um todo, como a guerra dos trinta anos, a própria revolução francesa ou as duas grandes guerras mundiais. Jamais os pequenos conflitos, generalizados durante a alta Idade Média, haviam posto em risco a existência da civilização ou mesmo da espécie a exemplo das conflagrações totais dos últimos séculos e se Pinker tem razão quando declara que a modernidade alcançou a redução do número de conflitos, na medida em que os pequenos domínios de outrora converteram-se em macro estados, ignora ou finge ignorar que os conflitos da modernidade foram muito mais amplos desastrosos ou avassaladores.

O fato de que - a partir dos 1700 - as nações europeias passaram a temer umas as outras ou de que a fórmula da Inglaterra como fiel da balança funcionou durante longo tempo não bastou para evitar a guerra Anglo francesa ou as guerras napoleônicas, juntamente com a Revolução francesa, prenuncio de algo muito pior - 1914 e 1939! Por outro lado, desde 1945 não cessaram os EUA de produzir ou de gerenciar outros tantos terríveis conflitos em torno do globo. Por fim nem o Estado absoluto ou o Império e tampouco o deus Mercado bridaram-nos com aquela Era de ouro com que sonhavam já os antigos sumérios... Vangloriam-se capciosamente de terem reduzido o número das guerras - que a religião e as pequenas comunidades conflitantes multiplicavam... Para brindarem-nos com guerras ainda mais desastrosas. Posso dizer enfim que o macro estado e o mercado engaram-nos sordidamente. Temos assim de retornar - criticamente - a nossas tradições sociais, anteriores a grande revolução protestante.

A suprema vergonha é que parte dos intelectuais 'católicos' ainda não tenha feito isto e buscado soluções Católicas na Tradição social da Igreja, mas ido beber nos poços salobros não somente de Marx mas acima de tudo dos liberais economicistas, poluindo-se com suas teorias materialistas e naturalistas. E pouco vale atirar pedras aos marxizantes da parte do erro capitalista. Esta mais do que na hora dos Cristãos Católicos desvincularem-se não apenas do Marxismo mas antes de tudo do Capitalismo, que é uma ideologia alimentada pelo protestantismo a partir de sus rebelião.

Fontes - Robert Nisbet 'Os filósofos sociais' e
              Alfred Weber 'História social da cultura'

domingo, 18 de novembro de 2018

O equívoco de Erasmo...

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/6/67/Holbein-erasmus3.jpg/200px-Holbein-erasmus3.jpg




Foi o Renascimento - a bem da verdade tivemos uma sucessão de RenascimentoS - um período de descobertas.

Uma delas dizia respeito ao paganismo antigo, ao paganismo greco romano, cujo conteúdo intelectual/doutrinal era mínimo e que por isso mesmo ignorava as controvérsias religiosas e suas consequências, muitas vezes amargas.

Outra a realidade do Cristianismo antigo, mormente após a associação entre a Igreja e o Estado. Fazendo sua aparição - alias necessária - em tão deplorável contesto, controvérsias Cristológicas, não poucas vezes, convulsionaram o Império.

Na medida em que os Imperadores e reis, motivados por razões de ordem política, aspiravam a uma Unidade religiosa forçada, controvérsias, que a princípio eram benéficas a fé degeneraram em conflitos civis, motins ou mesmo guerras.

Foi um triste espetáculo... o das guerras ou embates religiosos.

No entanto Jesus dissera - Amai-vos e não armai-vos... Como buscara promover a tolerância e a paz.

Os humanistas, que eram antes de tudo Cristãos devotos, buscando por esta paz, por esta harmônia e por esta concórdia, deram com elas no paganismo. Pelo simples fato de que o paganismo a um tempo não era revelado e a outro não falava ao intelecto por meio de formulações doutrinárias.

De tal constatação brotou a percepção segundo a qual a preocupação com a Verdade ou a própria formulação doutrinária seria já nociva, já ociosa, e que Jesus preocupara-se exclusivamente com a Ética ou seja com o comportamento humano. Destarte foi a ortodoxia doutrinal substituída pela ortopraxia...

E devemos compreender inclusive que até então a Ortopraxia havia sido sacrificada a Ortodoxia doutrinal e o aspecto marcadamente Ético do Cristianismo obscurecido por questões de ordem teológica. E como os homens amam os extremos, ao tempo da Renascença, o ponteiro virou para o lado oposto... supervalorizando a prática e depreciando o caráter teórico ou credal da instituição Cristã.



Erasmo e seus pares concluíram que ao invés de disputar a respeito de minúcias ociosas, como a cor das asas dos anjos, deviam os Cristãos concentrar-se no que é essencial, assim no amor ao próximo, no cultivo da virtude e na prática das boas obras. Quem ignora por sinal que os Cristãos mais ignorantes, parvos e tontos acusam-se uns aos outros de heresia a pretexto de qualquer discordância tolerável ou opinião inocente - Assim se você não se pronúncia a respeito da querela entre Constantinopla e Moscou, se há ou não anjos da guarda, se as canonizações são ou não infalíveis, etc E estão sempre prontos a berrar: Herege e a intimidar os outros...

Imaginem então os séculos XIV ou XV???

Disto resultou uma espécie de desprezo face aos elementos da fé e seu significado assim a formulações credais ou teológicas.

Erasmo foi um dos que avaliou enfaticamente tais assuntos como ociosos ou perniciosos, insistindo marcadamente na necessidade de buscarmos viver a mensagem do Evangelho com simplicidade e não podemos duvidar de que fosse sincero. Assim as discussões ou polêmicas doutrinais exasperavam-no... Isto a ponto dele desestimular qualquer preocupação mais séria em torno dos elementos da fé, para insistir na vivência.

Assim quando apareceu Martinho Lutero, enunciando doutrinariamente a inutilidade das obras e levantando uma controvérsia doutrinal de importância crucial para a vida Ética; ele, Erasmo, não foi capaz de aquilatar-lhe o valor e de atalhar no momento oportuno, quando ainda era quiçá possível atalhar o movimento protestante. E quando percebeu a importância do momento, cinco anos depois, e optou por interferir já a Reforma estava firmemente consolidada, a ponto dele, Erasmo, ter de abandonar sua querida Basileia (1529).





O aspecto mais interessante desta 'cena' é que Lutero, tendo-se exercitado na doutrina - de Agostinho - tornou-se hábil no sentido de atacar os fundamentos da Ética Cristã, declarando a prática das boas obras ociosa ou desnecessária. E por meio desta falso doutrina influenciou negativamente não milhares mas milhões de pessoas, iniciando-as numa fé puramente teórica, acomodada e descomprometida com o mundo.








O que quero dizer com isto é bastante simples. Pessoas são influenciadas pelas doutrinas ou teorias em que acreditam. Assim uma doutrina que promova as obras ou a ação poderá servir de fundamento a uma vida excelente, enquanto uma crença ou teoria que deprecie a prática poderá produzir as mais funestas consequências no âmbito da vida vivida, tornando as pessoas acomodadas e insensíveis.

Afirmando a doutrina forense da redenção vicária ou da dupla justiça, obtida pela fé somente Lutero excluiu a necessidade de praticar boas obras tanto a priori ou seja antes da justificação, como a posteriori ou seja como fruto da justificação, pois ele sequer acreditava que fomos justificados pela fé para as boas obras, mas que jamais triunfamos do pecado ou podemos cessar de pecar. Com isso desvinculou as obras ou as ações humanas da esfera religiosa e a fé religiosa do mundo material...

Desde então os que nele acreditaram perderam por completo noção de Lei Cristã, enfim de uma Lei promulgada pelo próprio Jesus Cristo, da qual temos exemplo no Sermão do Monte, particularmente nas Bem aventuranças ou no capítulo vigésimo quinto de S João, ou mesmo na narrativa do Jovem rico. Convencido de que não poderia Deus exigir de nós o que não podemos cumprir negou Lutero, resolutamente que Cristo Jesus fosse Legislador e que seu Evangelho corresponde-se a uma Lei. E em que pese nosso homem ter negado o óbvio ou algo que salta a vista, no momento em que ele levantou a controvérsia os poucos homens geniais que poderiam te-lo atalhado, avaliaram também aquela controvérsia - como todas as outras - como frívola.

E o resultado paradoxal foi que fugindo a controvérsia por priorizar a 'vida ética' ou a praxis, Erasmo e seus pares, ao menos a longo prazo acabaram na verdade, desamparando a doutrina sinergista da Ética e em última análise favorecendo a afirmação da doutrina soli fideísta. Por outro lado, caso tivessem entrado de imediato na controvérsia teórica e impugnado Lutero com base na palavra de Cristo, teriam a longo prazo favorecido a prática das obras.

Conclusão: O supremo equívoco de Erasmo foi subestimar o quanto as doutrinas, teorias e crenças são capazes de influenciar as vidas das pessoas.

Devemos assim valorizar tanto a doutrina ou a teoria quanto as obras ou a prática, sabendo que ambas são igualmente impontes. Destarte a teoria sem a prática mostra-se vã. As obras sem a fé vulneráveis. A aliança entre a teoria e as obras absolutamente perfeita.

sábado, 17 de novembro de 2018

A passagem do estado social para o político

Desde que os dominicanos e jesuítas levantaram a questão sobre qual fosse a condição natural dos seres humanos, antes que fossem levados a criar a vida política inúmeras respostas tem sido fornecidas sendo a mais conhecida ou clássica a do contratualismo divulgada pelo pensador suíço J J Rousseau em meados do século décimo oitavo.

A bem da verdade Rousseau, ao contrário dos estoicos e de parte dos humanistas jamais chegou a conceber o homem como uma criatura isolada ou como um ser vagante que em determinado dia optou por associar-se a outros homens formulando um contrato social. O termo é inexato ou enganoso. Rousseau admite que o homem surge já como animal social e portanto que não cria a sociedade por meio de um contrato. Sabe ele no entanto que a convivência produz conflitos, o que o faz avaliar negativamente este convívio social. Socialmente o homem não tem paz e sossego, por isso estabelece um contrato que limita as liberdades individuais e estabelece uma Sociedade Política com senhores, súditos e leis positivas.

É a formulação que ele dá ao contratualismo em 1762 posto que Grotius, Hobbes e Locke já haviam divulgado a tese.

Antes deles os jesuítas empregavam terminologia distinta com que exprimir um conceito similar pois postulavam um 'assentimento geral'.

O problema diz respeito justamente ao que existia antes ou sobre como os homens viviam em estado de sociedade natural.

E não é difícil imaginar que viviam em pequenas comunidades familiares as quais chamamos clãs. A autoridade aqui era biológica ou exercida pelo Pai e/ou pelos familiares mais velhos num contesto familiar, quiçá recorrendo a costumes e tradições. Também não podemos excluir, a priori, algum tipo de autoridade procedente da religião... a qual era certamente arbitrária ou oportunista. Certo é que não havia qualquer instância política em termos de uma autoridade natural que não fosse biológico/paterna ou episodicamente religiosa.

Via de regra eram tais comunidades pequenas porquanto nômades, ao menos até o advento da agricultura. Não tinham a preocupação de transformar o ambiente ou sequer meios para tanto e por isso acompanhavam o movimento da comida ou melhor da caça. E conforme a seca, as chuvas ou as estações se iam transferindo de um lugar para outro.

Desde que a agricultura é inventada tais comunidades estabelecem-se e certamente aumentam de tamanho. Surgem o que poderíamos chamar de aldeias, mas se mantém a estrutura biológico/familiar, a qual inclusive torna-se matriarcal e assume formas sui generis.

Agora qual a condição destes homens?

Desde Suarez, passando por Grotius, Locke, etc muito se tem falado na fruição da liberdade ou da autonomia deste homem primitivo e portanto de sua satisfação. Se bem que Hobbes e Rousseau tenha mencionado o atrito, o conflito, o choque, etc quiçá exagerando um pouco, no caso de Hobbes. Pois já estas sociedades matriarcais e agrícolas não eram caçadoras e guerreiras como as do passado distante. Claro que ainda haviam sociedades nômades, caçadoras, guerreiras e patriarcais espalhadas pelo mundo afora, 'causando' como se diz atualmente...

No entanto a vida política num contesto urbano mais largo, surgirá, é claro em culturas de larga tradição agrícola, sedentária e quiçá matriarcal e nem poderia ter sido diferente.

Então é sobre este homem inserido nas pequenas comunidades agrícolas tradicionais que nos perguntamos. E sobre sua vida, suas condições...

Obtendo quase sempre uma resposta em torno de liberdade.

Esta visão das culturas primitivas ou de tradição familiar é totalmente equivocada. Duas coisas atormentavam aqueles homens - Primeiramente um universo religioso caótico e arbitrário dominado pelo Tabu. O qual é magnificamente descrito por S Freud em Totem e tabu. Outra questão a ser considerada é posta por Nisbet quando declara que as comunidades familiares eram sufocantes, ao menos para os membros mais jovens, devido ao controle das tradições. Havia tabus religiosos e tradições familiares a serem observados. Não era um clima de idílico de liberdade.

Que teria alterado tais condições?

Natural que a fertilidade de certas regiões próximas as margens e deltas dos grandes rios tenham passado a concentrar uma população cada vez maior, somando clãs, aldeias, vilas e criado as primeiras unidades urbanas.

Suponho, e é apenas para dar uma pincelada de romantismo... Que não poucos jovens tenham deixado suas comunidades de origem ou fugido e buscado instalar-se em tais sítios.

Num determinado momento alguém ou alguns tiveram uma percepção altamente revolucionária, isto a nível de ideia e de técnica.

Caso as pessoas se aproximassem umas das outras e trabalhassem juntas podiam transformar o meio numa escala bem maior e assim de aumentar a produção agrícola, alcançando algo além da mera subsistência i é juntando excedentes. Claro que excedentes de alimento, aquele tempo, significava o que para nós dignificam petro dólares ou coisa parecida.

A simples ideia de transformar o meio numa tal escala e de obter suprimentos em abundância foi o que serviu para aglutinar aquela gente toda.

E é exatamente aqui que entram Hobbes, Rousseau e a Política ou o surgimento das primeiras sociedades políticas num ambiente urbano.

Pois esta ampliação do convívio não podia deixar de produzir ou de potencializar o que chamamos de conflito. Assim, o sentido das primeiras sociedades políticas foi gerenciar situações de conflito, agressão, violência... impedindo que se generalizassem e assumissem as proporções pintadas por Hobbes. Provavelmente jamais atingiram, justamente porque nossos ancestrais, prevendo o que poderia acontecer constituíram a Sociedade política, mais para evitar o conflito generalizado do que para soluciona-lo.

Foi apenas neste momento que HOMENS QUE SEMPRE VIVERAM EM SOCIEDADE - e jamais isoladamente - por meio do mútuo assentimento estabeleceram um contrato, a partir do qual abriam mão da autonomia individual para passar a viver sob a tutela da Lei ou seja de um regulamento comum. Já se congregavam em assembleias familiares ou tribais há centenas de milhares de anos... pelo que foram capazes de estabelecer uma assembleia urbana e de acordar.

Assumiu este primeiro Estado político uma forma monárquica constituindo um soberano ao qual delegaram poder?

Difícil responder a esta pergunta.

A antiga figura do decano familiar, o prestígio do sacerdote e a necessidade de especialistas que coordenassem os trabalhos de drenagem e irrigação... Tudo faz supor a quase que imediata afirmação do rei. O qual no entanto - A menos que sua origem tenha sido e onde tenha sido, religiosa - deve ter exercido suas funções juntamente com a sucessora da assembleia tribal e predecessora das cortes e parlamentos. Ademais nem poderia este poder político emergente, deslocar por completo a velha sociedade biológico/familiar, a qual veio apenas a sobrepor-se.

Enfim, dado que nossos ancestrais tenham delegado poder a reis, é extremamente duvidoso que estes - salvo num contexto religioso determinado - tenham açambarcado o poder todo, por completo, fazendo-se absolutos. A menos que afirmado a partir da religião e escorado no poder das divindades, o processo porque surgiram as primeiras monarquias absolutas deve ter sido bastante lento. Assim quando o Egito é unificado por Narmer as cidades existiam já há dois ou três mil anos e o mesmo se pode dizer da Suméria, onde até Sargão e Naram Sin, não gozaram os reis de um poder divino ou mesmo absoluto.

Quanto ao mais, lamentavelmente, nada podemos saber a respeito desses reis, líderes ou chefes primitivos. Mas eu adoraria saber se podiam ou não ser depostos pela comunidade, ao menos em alguns casos... No Egito antigo, mesmo depois de se terem convertidos em deuses vivos ou em filhos do Sol podiam os faraós serem depostos desde que não cumprissem com sua parte no 'contrato' ou seja mantendo a ordem do mundo, assim as cheias e as estações... Desde que este controle não funcionasse bem, sucedendo-se cheias, secas ou calamidades ao menos os senhores feudais - Senão elementos do próprio povo - chegavam a rebelar-se (Nos três períodos intermediários) questionando o poder e a legitimidade do Faraó reinante... E isto pode apontar para tradições mais antigas e consistentes em termos de questionamento da autoridade.

Eis o quanto temos a registrar sobre tão interessante tema.

Lei natural, inatismo, racionalidade, evolucionismo... Buscando decifrar o enigma da Lei Natural

Distinguiam os escolásticos quatro tipos distintos de Lei:


  • Lei eterna - A própria divindade enquanto Lei para si mesma e para o universo, o que engloba a lei natural extra humana.
  • Lei divina - A vontade Ética de Deus revelada através de sua humanidade assumida em Jesus Cristo ou do Santo Evangelho.
  • Lei natural - A instância da consciência que por via da razão informa-nos sobre os fundamentos do bem e do mal.
  • Lei positiva - As leis promulgadas pela autoridade externa ou política.


A lei eterna, no que diz respeito a ordenação do universo conhecemos através da ciência, no que diz respeito a vontade de Deus, conhece-mo-la por meio da Revelação do Evangelho, de modo que a lei divina, no que concerne a vontade de Deus para nós, corresponde a mesma lei eterna.

A respeito da Lei positiva somos informados por meio das Constituições e decretos do poder público.

Agora como conhecemos a lei natural?

A pergunta é de suma importância caso tenhamos em mira ou significado propriamente político da Lei natural.

Pela qual a esfera do político desprende-se da esfera religiosa e ganha autonomia própria além de um estatuto secular e pluralista que serve de base ao liberalismo pessoal.

Para tanto devemos considerar que por si só o judaísmo,, o islã, o xintô e outras tantas formas religiosas jamais levantaram o problema, jamais afastando-se do pensamento teocrático. É verdade que o atual Estado de Israel, assimilou até certo ponto este ideário produzido no 'Ocidente', o qual, sem embargo não foi produzido num contesto judaico ou mesmo muçulmano, mesmo se considerarmos a mutazila. Por isso acho fundamental perquirir a respeito de como tal ideário veio a formar-se e em que contexto religioso.

Onde e como pela primeira vez surgiu a noção de duas esferas distintas: Religiosa e Política? Pois mesmo na antiga Grécia a distinção fez-se problemática.

Quero ressaltar ainda um sério problema que só encontra solução em termos de uma Lei natural.

Para ela convergem a um tempo a opinião, paulinista, de Lutero e a de Maquiavel, para o qual a posse do poder político é um fim em si mesmo.

E já começo dizendo que a Sociedade Política, além de ter seu fim imediato que é o convívio harmonioso ou a solvência do conflito possui fins mediatos e conexos quais sejam a fruição da vida virtuosa neste mundo e o acesso ao Sumo Bem após esta vida.

Seja como for, que tem Lutero e a ver com Maquiavel?

Já o veremos e quando compreendermos saberemos, que as soluções 'políticas' do biblismo - protestante/calvinista/pentecostal/carismático - e do ateísmo/materialismo conduzem ao mesmíssimo lugar comum, ao qual não podemos chegar.

Temos de ser enfáticos - O protestantismo foi em todos os sentidos um retrocesso político. Pelo simples fato de atrelar a política a Bíblia e destarte, favorecer uma noção ou teocrática ou cesaropapista e assim absolutista. E se Maquiavel constrói seu modelo absolutista independente, a partir do relativismo, do subjetivismo e do ceticismo, Lutero constrói o seu a partir de Paulo ou do texto clássico de Romanos 13 ( Cf Skinner 297 e 348) o qual será retomado por todos os reformadores protestantes, a exaustão.

O retorno a uma política Bíblia cujas raízes chegam ao rabinismo e cuja consequência é a mais deletéria das servidões, deu-se e só podería ter-se dado através do protestantismo e por isto Figgis - cf História do absolutismo - poderá declarar que sem Lutero não teria existido um Luis XIV... E se tal afirmação lhe parece abusiva, continue acompanhando-nos amigo leitor.

E compreenda que embora, para qualquer pessoa inteligente e bem formada, Paulo seja Paulo e não Jesus, para a maior parte dos protestantes - (e a parte mais ignorante dos papistas) - que endossam a doutrina da inspiração plenária e linear - tudo quanto Paulo escreveu é Palavra de Deus. Assim as opiniões que ele Paulo emitiu e que tomou aos rabinos, como Gamaliel, são encaradas por eles como sagradas e inquestionáveis e assim o texto de Romanos treze, onde Paulo declara que o governante, seja ele que for, foi designado pelo próprio deus, sendo uma espécie de ministro seu.

Temos aqui não apenas ensaiada, mas claramente expressa a bizarra doutrina do direito divino dos reis. Os reis e governantes, sejam bons ou maus, são lugar tenentes do próprio deus, quiçá não menos que os Bispos sucessores dos apóstolos. Assim o mesmo deus que comissiona Pedro para impugnar as crenças e vícios de Nero, comissiona Nero para crucifica-lo de cabela para baixo. O mesmo deus que convoca os mártires a servi-lo constitui Diocleciano para massacra-los...

E se você perguntar ao querido Lutero porque o 'bom' deus constitui Neros, Domicianos, Dioclecianos e Maomés inclusive - para destruir a Cristandade... Ele te dirá - recorrendo ao 'mimoso' Agostinho é claro - que o bom deus assim procede com o objetivo de punir os pecados do povo ou de castiga-lo e que o mau governante é como uma punição ou penitência imposta por deus...

E ficamos a nos perguntar sobre que terrível pecado teriam cometido os apóstolos e a santa Igreja de Jerusalém para terem sido brindados com um Nero ou o que os piedosos Cristão de Roma, presididos pelo piedoso Clemente, teriam cometido para fazerem jus a um Domiciano... Ou o que fizeram aqueles que eram já mártires há gerações para terem merecido um Diocleciano. Enfim que fizeram os grandes Padres e os Cristãos do século IV para terem merecido a benção de um Maomé??? Nem perguntarei sobre que pecados teriam produzido um Gêngis, um Temerlão, um Hitler ou um Staline...

Uma coisa é absolutamente certa e notória (Releia Figgis) das injunções e opiniões nada evangélicas e tampouco Cristãs de Paulo, conclui Lutero, que o Cristão deve ser antes de tudo um súdito conformado ou um capacho do governante e que jamais lhe é permitido resistir ativamente a um governante, lutar contra ele ou depo-lo sem pecar e merecer o inferno. Todo homem sedicioso ao levantar-se contra o mau governante, revolta-se contra deus que o enviou como penitência ou castigo dos pecados.

O tirano, o déspota, o ditador, o monstro coroado, sempre deve ser obedecido, salvo se determine algo mau. Neste caso é lícito apenas desobedece-lo e consequentemente fugir, ou aceitar pacientemente o castigo imposto, sem jamais rebelar-se. É a doutrina da desobediência passiva mas tarde apresentada por Thoureau como desobediência civil.

Claro que apenas um povo indigno e vil acataria semelhante doutrina. Mas foi acatada, ao mesmos por algum tempo, em nome da Bíblia. E foi a partir dela que Bodin, Erasto, Tiago, Filmer, Hobbes, Maxwell, Bossuet e outros construíram suas doutrinas absolutistas.

Maquiavel chegou as mesmas conclusões por via totalmente distinta. Como não acreditava nem na Revelação nem na Lei natural ele não pode conectar a instituições política a uma finalidade ética que é a promoção da vida virtuosa. Jamais cogitando em qualquer coisa para além da vida política ele encarou a vida política como fim que se esgota por si mesma. Podendo defini-la como a arte de manter-se no poder e de conserva-lo a todo custo.

Chegou assim ao formalismo ou estruturalismo político crasso. Sancionando o comando de um sobre todos ou a tirania.

Maquiavel tomou esta via por descartar a noção de Lei natural enquanto fundamento da vida Ética, sentido destinado a comandar e a articular todos os setores da atividade humana - assim a religião, a política, a economia... Não havendo qualquer tipo de lei natural destinada a regular a vida virtuosa, Maquiavel tomou a Ética - e com mais razão as moralidadezinhas - por pura convenção, atendo-se ao quanto restava de concreto: As estruturas de poder e seus mecanismos.

Os luteranos jamais foram acessíveis a qualquer tipo de argumentação racional nos termos de uma lei natural, a qual sabiam estar - ao menos em parte - na dependência de Aristóteles e do paganismo antigo. Afinal Lutero, como agostiniano, retomou o dogma maniqueu da corrupção total da natureza humana, dando por certo que havia alterado nossas capacidades racionais ou perceptivas - o que nos levará a Kant, que era luterano... Houvesse ou não uma lei natural, seu funcionamento não estava no acesso das criaturas decaídas, as quais só podiam esperar socorro da divina Revelação e da graça.

A bem da verdade esta desconfiança face a capacidade racional ou natural do homem representa uma tradição agostiniana jamais perdida de vista no Ocidente e decididamente retomada e mantida pelos Franciscanos - em oposição aos dominicanos (Aquino fora pioneiro em incorporar o aristotelismo a teologia dando origem ao que chamamos 'via antiqua') - até desembocar na 'Via moderna' com Occan e enfim com Biel. Lutero, como agostiniano, bebeu nestas fontes irracionalistas e tornou-se inimigo implacável da escolástica dominicana.

Excluídas, a razão, a Lei natural e enfim, a tradição apostólica, tudo quanto lhe restou foram as sagradas escrituras as quais ele apelou decididamente, não nos termos calvinistas de um Corão ou com ênfase no Antigo testamento, mas, desastrosamente, com ênfase em Paulo e não no Evangelho. Por meio de Paulo ou do Paulinismo os elementos judaicos ou rabínicos opostos ao Evangelho obtiveram situação de destaque - assim a doutrina fetichista de governo exposta em Romanos treze - e o segundo passo, dado em Genebra, foi mergulhar de cabela no antigo testamento, o que por sinal representaria uma mudança significativa em termos políticos, mesmo quando não fora saudável.

O que quis dizer aqui, e seguindo Ribadaneyra e Possevinus é que Lutero e Maquiavel se bem que partam de princípios ou valores não apenas distintos mas francamente opostos tem seu ponto de encontro na negação ou no desprezo pelo que conceituamos como Lei natural enquanto critério Ético racionalmente deduzível.

Não saímos disto no momento presente. Pois temos a um lado a multidão dos biblistas irracionalistas e fanáticos com seu apelo insistente a uma política Bíblia ou a leis bíblicas ao menos em torno da moralidade senão da fé e a outro os ateus e materialistas afirmando já o conceito problemático de liberdade positiva - como se a liberdade fosse um fim em si mesma - já uma democracia meramente formal ou estrutural, infensa aos princípios e valores essenciais sobre os quais assentam-se os direitos da pessoa humana, e o corolário desta negação face a ética humanista, é um comprometimento servil face as exigências do mercado ou da ordem capitalista.

Colocando as coisas noutros termos, mas claros talvez: Pelo moralismo ou puritanismo de matiz bíblico, insuflado pelos fanáticos podemos chegar a algo pior do que o absolutismo assumido por Lutero. Pois a via calvinista - fundamentada no antigo testamento - do mesmo modo que o islã sempre pode descambar em teocracia, ideal que os calvinistas irredutíveis transportaram de Genebra, a Londres, de Londres aos EUA e enfim ao Brasil, espaço cujas deficiências em matéria de educação são bastante conhecidas... Já o oportunismo da via formalista, representativa ou sem espírito, sempre poderá resultar numa infidelidade que reverta em tirania ou numa opção preferencial pelo liberalismo econômico, sempre que este se veja ameaçado por um liberalismo político nos termos de uma democracia mais popular ou social.

Sem dúvida devemos compreender que não podemos esperar um verdadeiro compromisso com a 'sacralidade' da ordem democrática por parte de pessoas que não assumem os princípios e valores democráticos como essenciais nos termos de uma Lei natural ou de uma ordenação divina. Destarte a única forma capaz de conter já a avalanche teocrática que se avoluma e ao mesmo tempo de insuflar autêntica vida nessa cadáver que é a democracia formal é resgatar o velho porém sadio conceito de Lei natural. Todavia, para tanto, faz-se mister reformula-lo, desvinculando-o de qualquer solução inatista. É o quanto pretendemos fazer na segunda parte deste ensaio - Oferecer uma teoria de Lei Natural não inatista, ao menos em termos de conceito.








Domenico theotokopuli; El greco... Era homossexual? Art coletado, original Espanhol




Créditos: Mariano Serrano Pintado




"El Greco, por su abundante obra y peculiar naturaleza, es el pintor que mayor bibliografía ha producido, y del cual se han escrito más hipótesis y teorías, tanto sobre su pintura como de su vida y personalidad. Sin duda una de las más peregrinas y excepcionalmente recurrente es la que especula sobre su masculinidad. Es decir, se pregunta si el Greco era homosexual.

Sabemos que nació en el año 1541 en Candía, capital de Creta, la mayor isla del archipiélago griego. En Creta aprendería a pintar y, cuando se le considera maestro, a los 25 años, se trasladada a Venecia donde, probablemente, trabajó en el taller de Tiziano. Luego, tras su hipotético paso por algunas ciudades italianas, se establece en Roma con 30 años, inscribiéndose en la Academia de San Lucas como «maestro del arte de la pintura de imaginería», para poder ejercer y contratar. En 1577 llega a España atraído por la decoración del Escorial de Felipe II, para quien trabajaban artistas italianos. Cuando viene a Toledo con el encargo de trazar y pintar el retablo de la iglesia de Santo Domingo el Antiguo, tiene 36 años. Está soltero, pues no se conoce documento alguno que acredite el haberse casado, y le acompaña un joven llamado Francisco Preboste, apellido italiano, nacido según Camón Aznar en 1555, por tanto de 22 años. En el pleito del Greco con el Hospital de Illescas en 1606, sobre el cuadro de la Caridad, éste, nombra a un procurador y a Francisco Preboste «de nación italiano» como su representante. Por tanto, Preboste se uniría al Greco en Venecia o Roma, como aprendiz, criado o amigo, y se mantuvo a su lado hasta su muerte que debió producirse alrededor de año 1607, pues a partir de dicha fecha deja de figurar en los documentos del pintor. Preboste, a su muerte, tendría 52 años y El Greco 66. Este inseparable compañero habría estado junto al Greco más de 30 años compartiendo su vida y trabajos como criado, ayudante, representante, colaborador íntimo, hombre de confianza y, sobre todo, amigo. A lo largo de todo este tiempo, no deja de figurar en los distintos documentos de la época. Ente otros: como testigo en 1585 para el contrato de arrendamiento de las casas del Marqués de Villena; en 1597 otorgando un poder, junto con el Greco, para el cobro en Sevilla de «todas las imágenes de pintura y lienzos que ha dicha ciudad habían enviado»; en 1599, de nuevo como testigo, en el contrato del retablo de la Capilla de San José; en 1600, con poderes para cobrar el retablo Dª María de Aragón en Madrid.

Jesús Sánchez Luengo en su libro «Los enigmas de Dominico Theotocopoulos El Greco», nos narra como el Greco, recién llegado a España, presencia en el Escorial la ejecución de la sentencia a un joven de 24 años, hijo de un panadero, acusado de sodomización a dos niños de diez años. Seguramente no habría tal sodomización, sino juegos homosexuales del muchacho con los niños.

Sabiéndolo el Rey, mandó prenderlo y juzgarlo. Confeso y reo, a pesar de pedir clemencia, fue sentenciado a morir en la hoguera. Este veredicto y su ejecución pudieron condicionar al Greco a su llegada a España y hacerle adoptar el resto de su vida cierta discreción en sus exteriorizaciones, como exigía el puritanismo de Toledo, ciudad famosa por los autos de fe celebrados por el Santo Tribunal de la Inquisición a judíos, moros y sodomitas.


Cumpliendo un año de su estancia en Toledo, tiene un hijo con Dª Gerónima de las Cuevas,mujer misteriosa de la que se han escrito infinidad de teorías sobre su muerte y condición. En un estudio que publica Julio Porres, basado en el censo por Parroquias en el Toledo de 1561, descubre entre los habitantes de la calle de Azacanes a una «Jirónima cuebas», único vecino llamado así entre los once mil y pico que censaron. Aventurando este autor la siguiente e interesante relación: «El barrio de la Antequeruela no tenía muy buena fama entonces, pues muy cerca de la calle Empedrada, próxima esta a la de Azacanes, registra el censo a «Polonia cortesana» y a «dos vecinas cortesanas», y en el mismo barrio estableció la mancebía pública, junto a la muralla, el corregidor Gutiérrez Tello, antes de 1576, quienes sus razones tendría para ello». Cuando nace su hijo, el Greco tiene 37 años y permanece soltero, no conociéndosele otra relación amorosa que la mantenida con una mujer de origen incierto (ya hemos visto como el barrio donde residía no tenía muy buena reputación). Su familia, los Cuevas, eran de origen moriscos, afirma José Gómez Menor, o judíos conversos según otros autores y, en cualquier caso, con la cual, de no haber fallecido, posiblemente nunca se hubiera casado. Diversos estudiosos del personaje, justifican su muerte tras el parto o en fechas muy cercanas a él. Muy bien pudo este hijo conciliar al Greco con la estricta e intransigente sociedad católica de aquella época.

Gregorio Marañón en su obra «El Greco y Toledo», resalta el aspecto intersexual de los desnudos pintados por el Greco. Desnudos oníricos en los que es difícil diferenciar si son de mujer o de hombre, casi siempre masculinos, de no caracterizarles el gesto más que la forma. «…y que subsisten a lo largo de su obra, con sospechosa obsesión». Se detiene a considerar, este autor, el «sentido intersexual» de los diferentes desnudos y continúa: «Hay que consignar que estos desnudos intersexuales, que aparecen en los sueños de muchos hombres jóvenes o maduros, corresponden a una persistencia de vivencias prepuberales en las que el sexo está aún indeterminado». Con una llamada fuera de texto, explica Marañón: «Me apresuro a aclarar que estos desnudos intersexuales nada presuponen respecto a la normalidad sexual de El Greco; y lo digo porque Somerset Maugham, un tanto ligeramente, sugiere que el gran pintor fuera lo que en su tiempo llamaba el mujeriego Lope de Vega «un traidor a la Naturaleza», es decir, un sodomita.» Efectivamente, los ángeles del Greco, según su definición, son bellos jóvenes a los que se les puede asignar ambos sexos.

Somerset Maugham en su libro Don Fernando, dedica un extenso capítulo al Greco y su época, en el que dice: «No hace mucho tiempo leí la sugestión, hecha con espíritu mezquino, de que el Greco era homosexual. He considerado que valía la pena meditar este punto. Por lo que respecta a la obra de un artista, carece en absoluto de importancia enterarse de su vida sexual.» Para continuar más adelante: «Ahora bien, no puedo dejar de preguntarme si lo que veo de fantasía torturada y de siniestra extravagancia en la obra del Greco, no puede ser debido a una anormalidad sexual como ésta.»

Hemingway, en una personal apreciación de que el Greco pintaba figuras con rasgos y formas andróginas, en su libro «Death in de aftenoon», con su acostumbrada insolencia le tacha, groseramente, de homosexual.

Jean Cocteau, desde su manifiesta condición de invertido, habla de las implicaciones homoeróticas de los retablos del Greco, resaltando lo que hoy entenderíamos de tipo homosexual.

Decía Freud: «Una posible dualidad de sexo enriquece a los artistas capacitándoles, en mayor medida, de sensibilidad para captar y expresar la belleza». Nadie como el Greco ha sabido utilizar las manos de sus figuras, haciéndolas protagonistas de la elocuencia, unas veces, o convirtiéndolas en motivos ornamentales, otras, como poéticas metáforas.

Y para terminar, lo que es incuestionable y todos los autores coinciden, es en el gran cariño que el Greco profesó a su hijo Jorge Manuel, de quien no se separó durante toda su vida, cuidándole y protegiéndole con la mayor ternura y cuidados, para suplir a la madre que nunca tuvo. Casado Jorge Manuel, siguió viviendo en la casa de su padre. Le dieron un nieto, Gabriel, que proporcionó al Greco una gran felicidad y consuelo en su vejez, y al final de su vida murió en los brazos de su hijo. Solamente un espíritu tan singular, único y sublime, pudo pintar esa obra maravillosa e imperecedera que Dominico Teotocópuli Greco, nos dejó."

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Estabilidade civilizacional, tendências predominantes, ritmo histórico e conflito

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Não conhece nem busca a História leis gerais, pois sua tarefa consiste em identificar as causas imediatas de cada fenômeno ou evento particular. O sentido, a direção, o ritmo, as tendências, as 'leis', o processo Histórico enfim é perseguido pela Sociologia. O que os antigos chamavam providência podemos chamar de leis sócio/históricas ou melhor dizendo de tendências predominantes. Afinal tais leis não atuam de maneira estritamente mecânica ou absoluta como as leis físicas ou naturais, são flexíveis até certo ponto, conhecendo certo grau de indeterminação tendo em vista a ação livre do elemento humano ou melhor as modalidades de ação e interação que são 'infinitas'. A História ou melhor a sociedade humana, a cultura... possuem certamente um ritmo, uma dinâmica, uma frequência; mas não exata ou inelutável. Tinha plena razão W Dilthey ao substituir o paradigma da previsibilidade pelo paradigma da compreensão.

Justificar pertence a ideologia ou a moralidade. Prever a física ou a química. A História buscamos descrever e compreender. E através dela compreender o caminho percorrido pelas diversas Sociedades e pela cultura, em busca de alguns elementos comuns. Não se faz Sociologia geral sem História embora a Sociologia busque certo nexo genérico entre fenômenos que estão dispersos. Abstrai assim do tempo e do espaço, mas, para tanto, deve utilizar-se da História e da Geografia e alimentar-se delas.

Possui a dinâmica Social certas leis gerais desde que compreendamos o termo Lei de maneira 'lata'. Por isso recomendo o emprego do termo tendências predominantes. Claro que a natureza da cultura tem direções bem definidas, as quais podemos, com o devido cuidado esboçar.

Antes de tudo quero abordar o tema da Estabilidade civilizacional e das Crises, o qual faz-se tão premente em nossos dias. Para tanto vou socorrer-me de um Filósofo da História e de um Sociólogo aos quais atribuo o mérito de terem desvendado o segredo da Esfinge; assim Toynbee e P Sorokin, os quais juntamente com F de Coulanges, M Weber e R Nisbet, tenho em conta de geniais.

Constatou Sorokin a generalidade do conflito - quem disse que o conflito não existe ou que nada move? - envolve quase sempre culturas cujos valores antitéticos podem ser definidos como Materialista ou Idealista. Uma cultura em crise é basicamente uma cultura cindida entre valores materiais e ideais ou indefinida; bem como uma cultura fechada, seja materialista ou idealista. A Estabilidade civilizacional ou o 'brilho' corresponderia a uma síntese entre os dois 'sentidos' ou a uma equilibração. Em torno do que poderíamos chamar Realismo. O Realismo tenderia a conciliar a razão e a experiência, o psíquico e o biológico, o mental e o corporal ou físico, a religiosidade ou a fé na vida futura e a ação na vida presente, a Transcendência e a Imanência... Assim a prática da ginástica e dos esportes com o ideal da Kalokagathia, a Ciência e a Filosofia, a técnica e a ética, formando um todo harmonioso, e bem se vê o quanto este ponto de equilíbrio deva ser difícil de ser obtido. Via de regra move-se a Sociedade de um extremo a outro, tal o 'sentido' das crises.

E se o conflito de valores existe dentro da maior parte das Sociedades mais desenvolvidas, devemos considerar um outro tipo de conflito, existente entre diversos padrões de civilizações estáveis e mais ou menos estáveis ou mesmo não estáveis. Segundo Spengler o atual conflito entre o Islã e o Ocidente, remontaria a situações de conflito de conflito anteriores travadas entre a cultura persa e a cultura greco/helenística, a cultura romana e a cultura judaica, a civilização Cristã bizantina e o islã, a civilização Cristã Ocidental e o islã, enfim a civilização Ocidental contemporânea e o islã... Teríamos aqui o prolongamento de um choque milenar de culturas. Noutras palavras seria o islã herdeiro ou legatário do judaísmo antigo ou mesmo do zoroastrismo (o que é discutível - esta última assertativa) enquanto que os Catolicismos - devido ao conceito de Encarnação - seriam em parte legatários do paganismo antigo. Daí o conflito entre as duas tradições: Da transcendência pura e da Transcendência/Imanência.

Sucede no entanto que nossas construções sociais, raramente atingiram o necessário equilíbrio. A exceção do século IV, do século IX, do século XIII e do século XVII, em que conheceram-se aproximações, o ideal de civilização Católica jamais concretizou-se, frustrando-o - A queda do Império romano no século V, o advento do Islã no século VII, o advento do neo paganismo no século XIV, o advento da pseudo reforma, do capitalismo e das culturas de morte a partir do século XVI. Tais eventos tornaram o ideal de civilização Transcendente/imanente inexequível. Para além disto o próprio Catolicismo - seja Ortodoxo ou latino - deixou-se contaminar, poluir e obscurecer sucessivas vezes pelo neo platonismo sob as mais diversas formas, assim do agostinianismo, do palamismo, do zwinglianismo, etc E afastando-se do Eixo da Encarnação, perdeu sua consciência, tornando-se descarnado e confluindo para o judaísmo e o islamismo, facilitando inclusive a dispersão ou a conversão...

Hoje acima de tudo acha-se o padrão de civilização Ocidental cindido entre opostos, em luta e portanto em crise. O que se sucede desde que o protestantismo e seu 'filho' adotivo, o capitalismo, assumiram a direção de nossas sociedades. No protestantismo ortodoxo ou luterano temos uma fé ou religiosidade desvinculada do mundo material e totalmente idealista. No Capitalismo uma praxis naturalista, materialista, anti ética e anti Católica. No americanismo uma síntese monstruosa entre a religiosidade descarnada ou maniqueísta e a praxis capitalista, em oposição a valores humanistas e autenticamente Cristãos ainda presentes nas antigas sociedades europeias, assim como o sentido comunitário, o ideal de bem comum e uma doutrina social normativa.

Entre os vestígios da civilização Católica ainda presentes numa Europa colapsada e os ideais da pseudo civilização Norte americana ou americanista de origem protestante ou calvinista pautada no que chamam 'bíblia' ou antigo testamento, com sua moralidade individualista, grosseira e vulgar, vai um abismo imenso. E este conflito se torna ainda mais agudo nas sociedades latino americanas, onde entram ainda outros conteúdos culturais,  que o americanismo não pode aceitar ou compreender. Pois devemos ter em conta que para os puritanos recém chegados da Inglaterra, faziam os naturais deste continente as vezes de perversos cananeus votados ao extermínio.

Se os portugueses e sobretudo os espanhóis trazem a este continente recém descoberto um ideal de Cruzadas ocidentais, desconstruído pelo clero em Valadollid 1551, os puritanos do Mayflower, em 1648, trazem para este continente um ideal sectarista construído face as permanências do Catolicismo europeu, num clima de fanatismo e ódio contra Bispos, cruzes, torres e sinos... Tal e qual os Padres do século quarto tomaram por meta ou modelo social o Evangelho ou a lei de Jesus Cristo e os teólogos medievais do Ocidente a 'Cidade de Deus' de Agostinho - e já se percebe a queda do ideal... os calvinistas tomaram a peito criar uma Sociedade bíblica nos moldes da torá ou do antigo Israel... Daí a necessidade imperativa de satanizar e de aniquilar a cultural anterior ou nativa, segundo os ensaios que já haviam feito nos cantões Católicos da Europa...

Privada de conteúdo Cristão tradicional ou Católico ou de conteúdo nativo, implementaram os puritanos no Norte um ideal de Civilização protestantes que buscam, desde então vender ao mundo como legitimamente Cristão e impor as demais partes da América, conforme a doutrina do destino manifesto. Não apenas a América latina mas agora ao mundo como um todo como forma de legitimar o sistema Capitalista do qual tornou-se colaborador ativo ou servidor, pelo simples fato de que o protestantismo ortodoxo faz muito pouco caso das obras ou da ortopraxia. Mesmo os Catolicismos, posteriormente instalados neste 'solo virgem', tem se deteriorado muito facilmente e perdido sua consciência nesta atmosfera culturalmente tóxica, e tendem inclusive a exportar este Catolicismo negociável, flexível, morno, acomodado... face as necessidades do Mercado ao mundo inteiro, como se fosse produzido por encomenda.

Por isso não temos mais uma civilização Ocidental, unida e coesa, como no século XIII, mas uma sociedade cindida em torno de valores extremistas, como um espiritualismo descarnado e um materialismo insensível e cruel, os quais não se excluem, necessariamente. Em torno de permanências representadas por valores autenticamente Católicos, mesmo quando secularizados, como o socialismo, o ecologismo, etc E em torno de rupturas dramáticas como como a centralização política, os nacionalismos, o odinismo, o capitalismo, etc Vivemos um tempo de desencontro e contradição. A "Era da incoerência."

O que nos torna vulneráveis face a um islã relativamente coeso em torno do velho espírito fetichista e do padrão idealista ou descarnado de pensamento. O islã pode não ter atingido a equilibração civilizacional em termos de cultura, pelo simples fato de afirmar um deus absolutamente transcendente e apartado do universo material, mas fornece a seus adeptos, em termos de cultural, um padrão coeso ou não fragmentado. O ocidente deixou passar diversas oportunidades de equilibração e estabilidade social, até, por meio do protestantismo, do capitalismo e sucessivas culturas de morte, chegar a beira do abismo. Parte de nós zomba da fé ou da divina Revelação e da vida Ética que dela decorrer, embora nossas instituições todas e nossa cultura tenham sido postas sobre tais fundamentos desde tempos imemoriais e ante cristãos, uma vez que os Catolicismos dão continuidade a tudo quanto havia de nobre e excelente no paganismo antigo, fazendo com que remontemos a Platão, Sócrates e Aristóteles.

Ao repudiar preconcebidamente o Catolicismo estamos repudiando os fundamentos mais remotos da nossa identidade e para compreender o que estamos a fazer caberia ler - Coulanges, Dawson e Butterfield... Sociedade alguma subsiste fundamentada no ar, no vácuo ou no espaço. Uma sociedade completamente desarraigada de sua cultura ancestral não se mantém e por isto dizemos que os Catolicismos muito preservaram da cultura pagã ancestral quando o mundo antigo, por vício estrutural, ruiu fragosamente e veio abaixo. Foi um naufrágio e não fosse a presença do Cristianismo Católico experimentaríamos uma regressão tal como jamais fora vista em toda História, podendo quiçá, impugnar as constatações de V G Childe.

Quero dizer ainda que o neo paganismo, o materialismo, o ateísmo e mesmo o ceticismo ou a incredulidade, tal e qual nos tempos antigos nada produziram de relevante em termos de cultura refinada e já se disse que tais ideologias tem se mostrado estéreis nos domínios da Estética, o qual costumam depreciar. E quando se sabe o que esta tal arte moderna, psicologista... temos mais uma esfinge decifrada. Já quanto a ética bem poderíamos dizer que as mesmas causas produzem os mesmos efeitos, não por coincidência. O ateísmo e o materialismo refletidos jamais fogem ao utilitarismo, ao relativismo e ao subjetivismo... e são co relações epistemológicas necessárias. Por esta via jamais se chega a uma noção de Lei natural e assim ao essencialismo Ético em torno a alguns valores universalmente estáveis como o Bem, a Verdade e a Beleza - Digo algo a respeito deles... Para o cientificista ou positivista de nossos tempos Estética e Ética são palavras desprovidas de significados ou vazias, 'flatu vocis' enfim... Isto quando a própria razão e mesmo a própria experiencialidade não nos desamparam e encaminha ao nihilismo.

Nem fé, nem razão e nem mesmo a experiência.Nada fica restando de estável... Como construir ou manter uma civilização neste terreno? Tudo isto é resultado da dissolução, não algo positivo ou construtivo. Civilizações se constroem com afirmações fortes e ousadas em termos de princípios e valores. O protestantismo e suas sucessivas e múltiplas 'evoluções' privou-nos de tudo isto. Tornando-se o indivíduo centro da fé, e em seguida da razão e da experiencialidade, até que vieram a todas a morrer, pelas mãos do individualismo, imoladas!!!

Até aqui o conflito... Vivemos uma época de intenso conflito!

Devo dizer por fim, com Toynbee que a identificação de uma dada Sociedade com essa síntese harmoniosa e rara chamada realismo, não ocorre de qualquer maneira mais através da mimesis. Pois se faz necessário que após ter sido elaborada por uma elite intelectual, pensante ou dirigente, a solução de equilíbrio seja assumida por cada um de seus setores, inclusive pelos mais baixos ou pelas massas correspondendo a um eixo coordenador, capaz de integral todos os cidadãos, qual fossem um só corpo animado por uma só alma. Claro que essa assimilação de valores ou de cultura pressupõem antes de tudo uma organização educacional eficiente. A assimilação da cultura depende sempre da transmissão... Assim sendo uma Sociedade que aspire estabilizar-se deverá disseminar ou fixar determinados princípios e valores comuns por meio da educação, atingido verticalmente cada um de seus estamentos ou mesmo de seus membros.

Caso tais valores empolguem e inspirem os membros mais ativos e  produtivos de cada esfera, este vínculo produzirá a estabilidade e promoverá a civilização, desde que tais valores, como já dissemos, representem um são realismo em torno de necessidades espirituais e materiais ou de demandas psíquicas e biológicas de modo a contemplar o homem por inteiro. Caro que esses momentos de mimesis em torno de uma construção teóricas equilibrada ou realista serão raros e breves na História da pobre humanidade e não uma constante, pelo que conheceremos certamente mais e maiores períodos de crise. Ora também o ser humano em fase de crescimento ou o adolescente conhece períodos de crise e ambivalência... Por isso não nos devemos amedrontar, caso isto aconteça também com as diversas culturas ou com a humanidade de modo geral, apenas, como disse Guicciardini, deplorar o fato de vivermos nós em tais épocas - Como durante a eclosão da reforma protestante, a queda de Constantinopla, a expansão do islã, a queda do Império romano, os cem anos posteriores a morte de Alexandre, a Atenas conquistada pelos espartanos...

Talvez, como Platão, vossa genialidade seja estimulada pelas condições adversas... Assim enquanto prevalece a crise, procedais como os entomólogos buscando compreender e identificar cada faceta do processo histórico ou do ritmo conhecido pelas sociedades. A cada um dos que tiveram a paciência necessária para ler este artigo faço votos de boa sorte! Que possais, vós e vossos filhos, ver dias melhores!