quarta-feira, 19 de abril de 2017

Tal a crise do Império romano, tal nossa crise...

Resultado de imagem para eua x isis


Tempos de crise, forja de pseudos salvadores.

"Oh quem poderá salvar-nos?" é pergunta que se ouve pelas esquinas.

Movida por falsos dilemas a mente binária ou dualista vacila entre soluções extremistas.

Foi exatamente assim as vésperas da queda do Império romano. Quando alguns cortesões, nobres e intelectuais colocavam a redenção comum nas mãos do despotismo imperial, quanto parte das massas depositavam suas esperanças de salvação nos bárbaros germânicos...

Assim havia quem pretendia salvar-se lambendo as botas do déspota imperial e quem estava prestes a abrir as portas de Roma a Alarico.

Lamentavelmente, para os desaventurados romanos, atidos a um padrão de pensamento pré científico, parece que inexistiam outras opções ou possibilidades. E que de fato se achavam entre a cruz e a caldeirinha.

Não tinham a mínima ideia a respeito dos fatores que haveriam de conduzir o Império a morte.

Não estavam aptos para diagnosticar as enfermidades que achacavam a administração pública.

Ignoravam supinamente a gênese ou causalidade dos males que afligiam a Sociedade.

Destarte, pouco ou nada podiam fazer para salva-la.

Os romanos, haviam chegado ao fim do túnel da história. Uma vez que o exercício da reflexão intelectual não lhes podia oferecer quaisquer respostas ou alternativas.

Viviam numa época pré sociológica. Na qual a investigação e a reflexão não haviam tocado ainda a constituição da Sociedade, e em que, mesmo as reflexões políticas de um Aristóteles ou de Dicearco de Messina, era conhecidas por um público bastante restrito.

Ciência política, sociologia, economia e filosofia da História, aquele tampo ou inexistiam ou não estavam no acesso da maior parte da população.

A precariedade os meios de comunicação e da própria estrutura educativa, era dramática. De modo que a crise não deixou de atuar sobre elas desde o começo.

Nem o imperador e seus auxiliares estavam a altura do desafio de salvar o Império romano, pelo simples fato de jamais terem assumido o tipo de governante filósofo ou de governante cientista, preconizado pelo sábio Platão. Via de regra jamais colocaram-se acima do tipo 'bon vivant' comum a tantos e tantos governante e por assim dizer bailavam a beira do abismo que devia engoli-los.

Os gregos ainda tentaram, por meio de um imenso esforço educativo - Inda que posterior a invenção democrática - formar um povo cidadão ou ao menos uma elite cidadã. A estrutura política concebida por eles, ainda que genial, acabou, por questão de funcionalidade administrativa, sendo absorvida pelo Império de Alexandre. Sua cultura jamais. Jamais a cultura grega desamparou os gregos, mesmo quando foram conquistados e dominados pelo turco. Jamais...

A romana no entanto, perdeu-se em certa medida juntamente com o Império. E quando Renasceu posteriormente não pode ser plenamente assumida. Por ter sido atalhada pela reforma protestante. A qual levou nosso mundo para outra dimensão e para uma dimensão absolutamente oposta aos ideais não só romanos, mas gregos e tradicionais de civilização.

A negação de nossa herança romana e grega parto do Ocidente para a Europa e da Europa para a Grécia contemporânea. Tal o roteiro de nossa apostasia cultural. Da Inglaterra, transpondo o Oceano, para a América do norte, e especialmente após o fim da primeira Grand Guerra, da América do Norte - Transpondo novamente o Oceano - a Europa, em seguida a Grécia e Rússia contemporâneas.

Sem querer, chegamos naturalmente ao nosso tempo. Tempo de crise, e como já foi dito de extremos.

Havendo quem encare o Trump, os EUA, a cultura Yankee - E pasme leitor benevolente, o liberalismo econômico (Capitalismo) - como salvadores e quem encare como o islamismo - Isto mesmo amigo leitor, o Islamismo! - como salvador.

É para ser desesperar!

O Trump ou os EUA nos salva dos muçulmanos, ou os muçulmanos nos salvam do Trump ou dos EUA. Eis o ouvimos da parte das massas...

Melhor desesperar de toda salvação!

Tudo quanto nos é posto aqui consiste em escolher alguém a quem servir ou em optar por um senhor: O Yankee ou o Turco.

Maldita servidão!

A coisa toda se restringe em escolher por quem deixar-se escravizar...

Americanizar-se ou arabizar-se por completo, eis as belas opções que nos são oferecidas.

Jamais dei com tanta e tão miserável miséria.

É escolher entre merda ou bosta! Nem mais nem menos.

Pois se o capital reinar sobre nós trará a miséria, a ignorância e o enxame de seitas pentecostais e criacionistas vindas do Norte.

Agora se o turbante ganhar teremos a mais repugnante e vil das opressões representada pela Sharia com sua murtad, djzia e outras impurezas.

Aqui ou se abdica da liberdade de consciência, abraçando um sistema tão absurdo e estúpido quanto o islã, para ter acesso a alguns direitos muito sumários e a cidadania, ou o homem fica sendo sempre cidadão de segunda classe, ou como dizem Dimy.

Não haveria quadro pior, mesmo a título de imaginação, e estaríamos nós também no barco furado de nossos excelentes ancestrais não fosse por um ponto apenas!

Estamos ou melhor nos encontramos numa Época científica e portanto pós sociológica! Existe já ciências políticas como existe ciências econômicas e até Filosofia da História. Século V d C é página virada e até contamos com a Internet para trocar ideias, reflexões, informações, experiências, etc Elevando nossas vistas e horizontes muito acima do pensamento dualista, binário ou extremista que ainda teima em gritar: TRUMP ou ZARQAWY, EUA ou EIIS, MERCADO ou CALIFADO, CAPITALISMO ou CORÃO.

Capital ou turbante é uma ova companheiro.

Pois hoje o cenário científico e intelectual é mais amplo, vasto e profundo do que sua vã filosofia de botequim pode imaginar.

E para além dos extremos da imbecilidade contamos com uma imensa gama de possibilidades sociais.

Sem precisar mencionar anarquismo, comunismo ou fascismo; que são sistemas viciados, mencionarei apenas a riqueza contida nas diversas propostas socialistas.

Jamais o cenário intelectual contou com tantas elaborações humanistas, destinadas a promover o fenômeno humano.

Mais do que no passado longevo, temos hoje, graças aos meios de comunicação virtuais ou a Internet, a possibilidade de realizar o sonho de nossos ancestrais ou seja da democracia direta ou não representativa e de criar uma Sociedade policrática e cidadã numa escala até então impossível. Atualmente a Democracia direta já não precisa conformar-se com os limites da cidade estado, pode transcende-los e ultrapassa-los. Eis uma visão grandiosa face a teocracia dos asiáticos e a democracia arranjada, aparente, venal e burguesa dos Yankes, a qual jamais passou de plutocracia disfarçada.

De minha parte encaro a policracia como o melhor caminho para a realização do ideal socialista. Na medida em que permite ao povo tornar-se agente de sua própria História.

O que quero dizer é que o mundo ou panorama da cultura é imensamente maior e mais amplo do que Islã ou EUA.

Tudo quando temos ai são culturas problemáticas e estruturalmente defeituosas que jamais deram ou darão certo. Pelo simples fato de serem anti humanistas. Uma por inspiração religiosa e vício econômico, sobrepor o Ter ao Ser ou o Capital ao homem e outra por vício religioso, a intolerância.

Felizmente a História nos oferece outras lições e possibilidades.

Certamente que ela não se repete nos mínimos detalhes ou não vota 'in totum' atrás.

O que não nos impede, enquanto sociedade, de retomar certos princípios e valores presentes em nosso passado e assumir outra direção.

Se a História não pode ser reeditada a cultura certamente pode renascer.

Prova disto são os diversos renascimentos culturais experimentados por diversos povos e sociedades do curso da História. Assim no antigo Egito a Renascença Saíta, cujo objetivo foi retomar os princípios e valores presentes no dealbar daquele pais. Assim a sucessão de Renascimentos ocorrida na Europa durante a baixa Idade Média e começo da Idade Moderna.

Seria possível a afirmação de outros Renascimentos no futuro?

Por que não se já ocorreram no passado?

Por que não aproveitar-se duma cultura que no passado já deu certo ao invés de permanecer atrelado a padrões de cultura que sempre deram errado?

Por que ir em direção da KKK ou do Belt Bible... por que ir em direção do machismo, do adultismo, do odinismo, da homofobia, etc? Se podemos recuperar e resgatar nossas raízes gregas, na direção da liberdade e da vida Ética; numa perspectiva Humanista?

Por que não resgatar nossas raízes autenticamente Cristãs e Católicas em termos de amor ao próximo, de amor a justiça, de amor a paz, de solidariedade, de fraternidade, de igualdade???

Por que ter vergonha de reconhecer que erramos, que nos desvíamos do bem, que temos feito um percurso errado... e de reconciliar-nos com nossas raízes?

As vezes, as vezes é necessário voltar atrás e retroceder para avançar. Pois partindo de um caminho errado ou de um desvio jamais atingiremos a meta ou o objetivo certos.

É as fontes de nossa cultura humanista que temos de tornar.

É a Atenas, Roma, Jerusalém, não Wittemberga ou Mecca, não Genebra ou Medina, não Washington ou Riad... Nossas referências são outras.

Temos de resgatar, de recuperar, de reafirmar o quando houve de positivo na cultura européia antes do advento dos tempos modernos.

Trata-se de uma reapropriação necessária face aos arroubos do islã e do americanismo com suas propostas viciadas. Não encontraremos paz ou redenção aderindo a modelos sociais incompatíveis com nossas raízes. Não encontraremos estabilidade adicionando outros tantos elementos díspares e aumentando a tensão em termos de cultura. Não encontraremos ou acharemos qualquer resposta num hibridismo amorfo e polimorfo.

Nossa cultura carece de homogeneidade e sentido, os quais só lhe podem ser introduzidos pela Filosofia e pela Religião, cujos elementos, em parte, ainda se acham presentes em seu universo. É por isso que temos de retornar a Filosofia clássica, a Sócrates, a Platão e sobretudo a Aristóteles; mestres de nossos ancestrais; e a Jesus Cristo, a seus apóstolos, a seu Evangelho, a sua tradição e a Igreja Antiga, Ortodoxa e Católica. Tais os elementos sobre os quais nossa Sociedade foi edificada há dois ou dois mil anos e meio. E cuja remoção impiedosa tem produzido tantos e tão clamorosos tumultos.

Pois uma casa ou construção não pode subsistir sem seus fundamentos e o fundamento de nossa vida social foi a um tempo Clássico e a outro Cristão. Nossa consciência foi alimentada por tais elementos, e agora mingua e morre a falta deles. Enquanto o ceticismo que se lhes sucede não constrói nada de absoluto e duradouro.

Se queremos recuperar nossa civilização cambiante, temos de começar recuperando nossa identidade e repondo as coisas em seus lugares.

Nem o ateísmo e nem o teísmo transcendente serão capazes de substituir o ideal de um Deus Encarnando e presente, como este que foi introjetado em nossas mentes pelo Catolicismo antigo e que nossos ancestrais encararam como ponto de partida para uma ação e transformação social e termos radicais. A maioria dos analistas superficiais parecerá um elemento supérfluo ou mesmo estúpido. Quando nos primeiros séculos e mesmo na Idade média correspondeu a um princípio catalizador das energias humanas e a luz do qual as estruturas legadas pela antiguidade começaram a ser poderosamente transformadas, concretizando, ao menos em parte o ideal preconizado por Sócrates.

Multiplicar palavras a respeito de tais transformações sociais, seria chover no molhado...

Quem quiser torne atrás e leia o quanto já foi escrito por nós a respeito da sociedade bizantina ou da idade média Ocidental...

Tudo quanto pretendemos expressar por meio deste artigo foi nossa recusa em compactuar com os extremistas. Para os quais nós nos deveríamos alinhar ou com os Americanizantes ou com os arabizantes; aderindo ao Trump ou ao Califa... E renunciando por completo a nossa orientação cultural e cortando pela base nossas raízes.

Quando este falso dilema já presente nas mentalidades as vésperas da queda do Império romano certamente não faz sentido algum num mundo já iluminado pelos clarões da Sociologia e das Ciências políticas, especialmente quando temos acesso ao mundo virtual da Internet, que é o meio de comunicação por excelência, e que nos permite elaborar uma discussão sobre a cultura a nível global ou universal.

Podemos, portanto e devemos buscar soluções mais ricas, inteligentes e interessantes fora deste miserável esquema binário. E não nos precisamos alinhar com quem quer que seja ou apoiar a quem quer que seja.

Por mim quero mais que os radicais islâmicos e Yankes exterminem-se una aos outros. Do que resultará um bem enorme para o resto da humanidade. Nem alla nem Mercado ou capital mas liberdade e justiça. Tal meu ponto de vista!

terça-feira, 18 de abril de 2017

Henry Thomas Buckle e a Civilização espanhola III

As causas do declínio do Império Espanhol


Se há alguma verdade por si mesmo manifesta é a ruína dos Impérios, tema por sinal de uma obra, ainda interessante escrita por Volney em 1791.

Impérios há, que a contar de sua fundação, teriam durado cerca de vinte e sete ou trina séculos. Assim o Egípcio. Outros há que, como o Império Chines, revindicaram uma duração de quase quatro mil anos. Do Persa sabemos ter durado dois séculos e do Macedônico não mais de duas décadas. Assim há Impérios duradouros e efêmeros.

Seja como for, da mesma maneira como os seres humanos, os Impérios e culturas parecem nascer, crescer, declinar a morrer. Tal a tese, alias plausível de Oswald Spengler.

Quanto ao Império Espanhol, partindo de sua fundação em 1492, a seu ocaso, em 1643, chegou a durar século e meio. O Império britânico, contado de 1820 a 1945 não chegou a isto. Se contado de 1760, ultrapassou-o em apenas trinta anos.

Cumpre agora esclarecer porque motivo tão grande Império veio a desmantelar-se fragosamente pelos idos de 1650.

Tanto os espanhóis quando os portugueses, acreditavam que a prosperidade de uma nação estava relacionada com a obtenção e posse de metais raros e pedras preciosas. Visão posteriormente denominada metalismo. Enquanto que os franceses, fisiocratas, acreditavam que toda riqueza provinha do solo em termos de trato ou agricultura, os ibéricos estavam convencidos a respeito da superioridade dos metais. Errando feio tanto uns quanto outros.

A Espanha no caso já por meio da força, já por meio de impostos, já por meio das minas de Prata de Potosi, cuidava amealhar a maior quantidade possível de ouro e prata.

Descuidando não só da agricultura, como da própria indústria.

Julgava-se poderosa mas tinha de adquirir alimentos e produtos - tecidos, vidro, papel, etc - de outros países. Inclusive de rivais seus.

De modo que quanto mais metais adquiria, mais gastava. As riquezas passavam por ela mas não ficavam com ela. Acabando nos bolsos dos produtores ou seja nos territórios em que a terra era cultivada ou a indústria estimulada.

Era como o tonel das Danaides com a água entrado pela boca e saindo pelos furos...

E como as reservas naturais de metal fossem se esgotando devido a exploração intensiva e os produtos costumeiramente adquiridos aumentando de valor, a balança foi inclinando-se cada vez mais para os produtores... A Espanha tinha de obter cada vez mais metais para comprar menos alimentos e manufaturas. Do que resultaram o deficit e a inflação.

Ao fim deste percurso achava-se o velho Império endividado, e portanto, sem recursos para manter um exército com as proporções necessárias tendo em vista o controle de tantas e tantas terras. Sequer havia dinheiro suficiente para adquirir armas e munições. De modo que o colosso espanhol principiou a desmoronar. Perdendo cada vez mais domínios e terras; e encolhendo.

A grande tragédia de Portugal e Espanha foi a tragédia do tempo, confundir o poder, a prosperidade e a riqueza, a estabilidade monetária enfim, com a posse de metais preciosos, ao invés de identifica-la com a indústria humana, já em termos de agricultura ou de manufaturas, de alimentos ou bens de consumo.

Por fim toda riqueza obtida no Novo mundo acabou acumulando-se nos bolsos de seus inimigos franceses, holandeses e ingleses e favorecendo, indiretamente o primitivo acumulo de capital.

Henry Thomas Buckle e a Civilização espanhola II



Resultado de imagem para origens da ciencia moderna




Após tecer tão eloquentes discursos sobre a influência determinante dos desertos e montanhas sobre o comportamento dos povos ibéricos, tudo explicando a partir daí, o teórico inglês continua, e refere que da religiosidade ou do misticismo espanhol resultou que este povo jamais deixou-se contagiar ou dominar pelo espírito científico.

Aqui a questão assume outro caráter, bem diverso do anterior. Pois toca a relação religião e espírito científico, que é, ao menos em parte, bastante complexa.

Para não baralhar ainda mais as coisas tentarei ser sucinto.

Alargarei a polêmica e me desviarei um pouco de Buckle pelo simples fato de que os protestantes costumam servir-se desonestamente dele com o intuito de declarar que sua religião é que deu origem ao espírito científico - Rematado absurdo - ou que esta mais próxima dele (Outro rematado absurdo).

Grosso modo podemos dizer que a relação aqui se põem em termos de:


  • Fanatismo/fundamentalismo/misticismo ou religiosidade mágico/fetichista - Religiosidade e espírito científico
  • Irreligiosidade e espírito científico
Das já citadas obras de Pogendorff resulta ser pífia a tese de uma antinomia essencial entre religiosidade e ciência.

Grande número de homens sábios conciliaram a pesquisa científica com a religiosidade sem maiores problemas fossem Ortodoxos como Medeleiev, Tesla ou Dobzhansky; romanos como Galileu, Mendel ou Lemaitre ou mesmo protestantes como Newton ou Faraday. 

Por outro lado, é perfeitamente compreensível que um homem integral ou genial divida suas atenções e ações. Vivenciando além da pesquisa científica, as dimensões religiosa, ético/reflexiva, política, social, artística, etc da existência. Aparentando até mesmo dispersar-se.

Uma personalidade integral não será cientificista, não substituíra a religião pela ciência, não permitira que a pesquisa absorva toda sua vida, sendo normal até que produza menos do que um cientificista obcecado que vive apenas e exclusivamente para a ciência. As custas de além de ser irreligioso ou ateu, se estúpido em matéria de Filosofia, alienado em política, insensível em termos de ética, impermeável a sensação estética, etc Este cientificista que tanto produz, é um ser mutilado e infeliz; e não poucas vezes um neurótico. E o culto a ciência um narcótico face a complexidade da vida e do ser...

Pode até produzir mais, porém jamais questionará por exemplo o uso ou o fim de sua produção científica. E fica sendo um tipo desprezível.

Uma coisa no entanto é certa: Cientificismo é uma coisa e espírito científico ou pesquisa outra. Valor reconhecemos apenas no espírito científico, enquanto parcela da atividade humana, esta muito mais abrangente,

O cultivo da ciência é possível tanto ao irreligioso e ateu quanto ao religioso.

Assim o verdadeiro problema no que toda a religião e a ciência toca ao modelo religioso assumido pelo crente.

Se a religiosidade é Ética ou semi - deísta (Assim aqueles que acreditam apenas nos milagres de Cristo e em nenhum outro milagre posterior, questionando a ideia de intervenção divina em seu sentido ontológico, admitindo que esgotaram sua FUNCIONALIDADE e foram 'cancelados'.) ou se é mágico fetichista (logo mistica e fundamentalista). A questão aqui é sobre o objeto ou fim da religiosidade: Se é educar e promover o homem ou obter milagres, graças, intervenções sobrenaturais, etc

Claro que a forma de religiosidade que melhor condiz com o espírito científico é a que negando a intervenção de forças sobrenaturais - de caráter arbitrário ou caprichoso - assume o mundo material em sua naturalidade.

Apenas a mente naturalista esta apta para captar a realidade do mundo. A mentalidade mágico fetichista, encarando cada evento 'inexplicável' como uma quebra das leis naturais ou intervenção divina e sobrenatural, só sabe distorce-la. Por isso uma religiosidade focada antes de tudo e acima de tudo em milagres ou no conceito de um deus interventor, que não cessa de consertar a natureza é de fato incompatível com o espírito científico.

Portanto a questão aqui não toca a Deus ou a imortalidade da alma e sequer ao conceito de uma revelação divina destinada a comunicar certas verdades, inacessíveis a percepção e a razão, aos seres humanos. O cerne da questão entre fé ou religiosidade e o espirito científico diz respeito ao sentido dos milagres e a sua perpetuação indefinida.

No Catolicismo a ideia de milagres relaciona-se antes de tudo com as figuras de Jesus Cristo e seus apóstolos, a promoção de sua pessoa e a afirmação de seus ensinamentos; sempre numa perspectiva externa e funcional, jamais numa perspectiva ontológica, de um deus consertador da natureza. Donde decorre a ideia, muito presente em certos autores patrísticos e canonizada pela teologia, segundo a qual os milagres perdendo sua razão de ser após a afirmação do Catolicismo, deixaram de existir para sempre.

Não poucos dentre os Católicos mais instruídos e mesmo dentre os protestantes considerados heterodoxos por seus colegas, abraçaram esta opinião e, consequentemente; acolheram sem maiores dificuldades o espírito cientifico.

Outra porém é a questão do Catolicismo vulgar, popular ou folclórico da gente rude e do misticismo. E outra a questão do protestantismo Ortodoxo ou bíblico - este que pretende fazer-se desonestamente em cima de Buckle - visceralmente anti científico.

Nem preciso insistir que esse padrão de fé é valhacouto de inúmeros mitos judaicos - Que arvora impudentemente em dogmas 'cristãos' ???!!! - que conflitam com diversas áreas da ciência, a exemplo do mais clamoroso que é o criacionismo, matriz e fonte do pensamento fetichista.

Nada mais oposto ao pensamento científico do que a fé Bíblica 'ortodoxa', para a cujos adeptos não só a perpetuação dos milagres, como sua banalização constitui o cerne da espiritualidade.

Nada mais oposto a ciência do que um padrão agostianiano/luterano/calvinista cujo dogma da corrupção total da natureza supõem que as capacidades perceptivas e racionais do ser humano, foram completamente distorcidas.

É perfeita e absolutamente normal que o sectário protestante ou bíblico, por uma inversão monstruosa, atribua - como Montaigne (Que apesar de papista era agostiniano) a fé ou a Bíblia a única fonte confiável de conhecimento, sendo absolutamente cético quanto ao mais.

Desconfiando da ciência o fanático não terá porque cultiva-la.

O protestantismo ortodoxo tal e qual o islã incute nos homens aquele tipo de fé cega no livro - no caso antigo testamento ou a Bíblia de capa a capa - que torna os homens imprestáveis a ciência.

Já o Catolicismo tende, se bem compreendido, a concentrar a religiosidade ou a fé no Evangelho ou nas palavras de Jesus e sabido é que o Divino Mestre jamais pretendeu ministrar aulas de ciência ou fornecer explicações sobre o mundo natural.

Absolutamente compreensível que o espírito científico tenha surgido e florescido entre as cidades e comunas e pequenos principados da Itália, onde havia muito mais liberdade em todos os sentidos. Podendo se dizer o mesmo sobre a França dos séculos XVI e XVII, devido a força e rivalidade do elemento feudal.

O elemento contensor do espirito científico foi em todo lugar, seja na Inglaterra Henriquina, na Espanha ou na França do 'rei sol', a tirania, o despotismo ou o absolutismo monárquico. Na Espanha como já foi dito vinculado ao tribunal da Inquisição e portanto sumamente eficaz.

Surgiu igualmente nos países protestantes quando após o fim das grandes convulsões sociais - Que terminaram pelos idos de 1648/1650 - as seitas tiveram de tolerar umas as outras e inclusive os incrédulos. Não foi a fé protestante ortodoxa ou bíblica que fomentou ou estimulou o espírito científico mas a divisão entre as seitas, a multiplicidade de interpretações bíblicas e a confusão doutrinal vigente, das quais resultaram a primeira crise da fé e repudio a religião. 

O protestantismo, por defeito de fabricação, produziu e ainda produz as condições necessárias a afirmação e triunfo da incredulidade e simultaneamente a necessidade de um acordo tácito entre os beligerantes e dissidentes bíblicos. Assim temos a um lado os indiferentes em matéria de religião, deístas, etc e a outro, no decorrer do século XVIII, uma situação de relativa tolerância, a qual evidentemente não deixou de beneficiar a ciência, FEITA VIA DE REGRA, pelos incrédulos ou irreligiosos, e não pelos protestantes ortodoxos ou bíblicos, os quais, vez por outra, acusavam-nos de impiedade. Do que resultou ter Nils Celsius abraçado o papista e ido para Roma e o laboratório de Priestley ter sido quebrado por uma multidão de fanáticos enfurecidos.

Agora o fato mais curioso é que vinte de dois anos após Buckle ter editado seu livro (1879) o materialista Jakob Moleschott não apenas instalava-se em Roma - coração do romanismo - como declarava, para a eterna vergonha dos protestantes, que se sentia muito mais livre entre os italianos papistas do que entre seus confrades protestantes ortodoxos. O que viria a ser repetido ainda pelos incrédulos Ingersol e Mencken nos EUA e pelos holandeses Van Paasen e Van Loon pelos idos de 1940!!!

Pois quem fez ciência nos países protestantes a partir de 1700 foram, em geral, os irreligiosos ou indiferentes, deístas, materialistas ou ateus, prevalecendo-se da liberdade. Liberdade que as diversas seitas beligerantes, tiveram, a contragosto de manter - Uma vez que não mais podiam viver guerreando e mantando-se como no século XVI - sem conseguir monopolizar.

Os países Católicos mostraram-se duplamente infensos ao espírito da liberdade, já pelo absolutismo monárquico, já devido a presença da Inquisição. Além de si o Catolicismo deixou-se levar pela alta confiança em sua unidade ou coesão interna, mostrando-se por vezes intransigente quando não deveria te-lo sido. Do que resultou um clima não muito propício para a ciência no decorrer do século XVIII. Foi um descompasso ou desencontro bastante pernicioso para a Igreja de modo geral.

Já no que diz respeito a especificidade da cultura ibérica podemos adicionar outro fator nada desprezível.

Os Jesuítas, dando continuidade a algumas tradições medievais difusas por toda Europa, e que remontavam a antiguidade - Refiro-me ao Trivium e Quadrivium - face a cultura científica, natural ou material, atribuíram mais valor ou deram mais atenção ao cultivo da Filosofia e da poesia ou seja das letras clássicas. O que por um lado foi bom, pois se não produziram ciência em larga escala como as repúblicas vizinhas e não poucas vezes uma ciência sem consciência - Questionada desde os tempos de Sócrates - acabaram por produzir o humanismo ou uma reflexão bastante ampla e vasta a respeito do homem que ainda não foi devidamente apreciada.

Muitos tem classificado essa cultura como superficial, aparente ou livresca; no entanto esta avaliação, que peca pelo materialismo e cientificismo, não é nem um pouco justa. De modo geral, esta reflexão, que remonta a neo escolástica, mas toca até o século XX, atingido um Julian Marias e um Garcia Morente, não deixou de beneficiar amplamente a Filosofia, o Direito, as Ciências políticas e mesmo as Ciências sociais, enfim as humanidades de modo geral. É uma face da moeda que costuma ser ignorada por muitos.

Seja como fora, apesar de sua deficiência em termos de empirismo, temos de admitir que esta Espanha não só pensou o homem, como tem problematizado com ousadia e coragem e torno dos Dogmas Kantianos, canonizados e santificados pelos pós modernos.

Por outro lado não podemos negar que houve, igualmente um gigantesco empenho dedicado as letras. O qual para nós tem também seu valor. Cabendo no entanto ao leitor amigo, julgar se foi ou não excessivo. E se Portugal e Espanha fazem jus as acusações que lhe são feitas no sentido de terem alimentado uma cultura aparente ou meramente literária.

Resta-nos dar resposta a segunda questão, sobre o declínio do Império espanhol.



Henry Thomas Buckle e a Civilização espanhola I

 Resultado de imagem para Mozarabes


Em termos de concepção ou doutrina Histórica há basicamente dois tipos de determinismos materialistas:


  •  O determinismo geográfico ou espacial formulado por Friedrich Ratzel, o qual incidindo sobre o caráter humano produz tipos psicológicos específicos.
  • O determinismo economicista formulado por K Marx, na dependência do citado Ratzel e que acentua a produção e circulação de bens e valores enquanto fator produtor de cultura e a cultura como fator determinante das ações humanas.
H Taine, L Metchnnicoff T H Buckle e Huntington, dentre outros, foram partidários da primeira forma, a qual acrescentaram suas contribuições específicas. H Taine, A Comte, E Durkheim insistiram especialmente sobre a determinação exercida sobre o meio social, através da cultura, sobre os indivíduos. Plasmando seus tipos e determinando suas ações.

Ratzel, Metchinnicoff, Buckle, Huntington insistiram mais sobre a dependência da estrutura social e da formação da cultura quanto aos elementos geográficos da hidrografia, vegetação, relevo e clima. Os quais inegavelmente podem servir como obstáculos intransponíveis não só quando a formação e evolução das Sociedades, mas inclusive a manutenção da própria vida. Enquanto fatores precipuamente negativos, os elementos geográficos não deixam de ser considerados pelo possibilismo ( Vidal de La Blache) o qual no entanto, aos fatores e condições positivas, adicionam o fenômeno ou fator humano como elemento a parte, produzindo um esquema de sinergia ou parceria.

A tese de Buckle faz é monocausal, fazendo o fenômeno ou fator humano depender do espacial ou geográfica.

Por considerar, no mínimo interessante, a análise deste teórico, sobre a gênese e a decadência do Império espanhola, resolvi expô-la criticamente, como que dialogando com o autor e dizendo porque não concordo com ele a respeito deste ou daquele aspecto.

A fonte de Buckle a respeito da formação da Sociedade espanhola - Numa dimensão nacional a partir do século XV - encontra-se na História da civilização na Inglaterra, que é sua obra prima, e um clássico da historiografia de par com as obras de Gibbon, Hallam, Thierry, Jubainville, Coulanges, Breasted, Glotz, Spengler, V G Childe, Huizinga, Toynbee, Pirenne, Bloch, Ganschoff, Jarreth, Hanotaux, Febvre, Le Goff, Braudel, Duby, Delumeau, Chaunu, Todorov, etc

Principia Buckle sua abordagem salientando a pobreza do solo espanhol, em parte semi árido. E relacionando a precariedade e as incertezas com cultivo com um padrão de pensamento mágico fetichista. Segundo este autor a instabilidade do meio é que determina a mentalidade mágico fetichista de um povo. Logo em seguida relaciona o estado de miserabilidade intelectual dos visigóticos refugiados nas Astúrias e na Cantábria com o estado montanhoso do pais.

A tese nada tem de nova.

Cerca de século e meio antes dele, Montesquieu emitiu a hipótese segundo a qual os povos agrícolas das regiões baixas e férteis seriam pacíficos enquanto que os povos pastoris das montanhas seriam belicosos e cruéis. O exemplo mais citado nos livros de História é o dos sumérios/babilônicos, da baixa Mesopotâmia; e os assírios, do Norte, região montanhosa.

A explicação parece remontar a Ibn Khaldum que na Mukadima relacionou os povos das planícies aluvionais, a própria vida urbana e a civilização com a moleza e as regiões desertas com a coragem, a valentia e belicosidade. O que nos faria compreender porque o árabe é o que é...

Semelhante ponto de vista me parece discutível pelo simples fato de que a relação nem sempre produz os mesmos resultados.

Assim:

# Os povos germânicos procedendo de uma região tão fértil quanto a 'Alemanha' e dados ao cultivo da terra nada tinham de dóceis ou mansos.

# Os belicosos romanos procedem do lácio, região relativamente plana, situada entre a Emília romana, a Toscana (ao Norte) e a Campânia (ao Sul) ou seja entre as regiões mais férteis da Itália e as quais nada fica a dever. E mesmo apesar do relevo plano e da fertilidade os romanos conquistaram não apenas toda planície mas toda Europa Ocidental por meio da espada.

# Os helvécios ou Suíços acantonados em seus alpes, converteram-se no decorrer da Idade Média, numa das Sociedades mais pacíficas e brandas da Europa.

# Sabinos, Marsos, Volscos, Samnitas e Equos apesar de constituírem populações montanhosas (habitavam nos Apeninos) foram submetidos pelos latinos da planície.

# Ilírios e Dácios, habitantes dos Cárpatos eram povos relativamente pacíficos, a ponto de terem sido incorporados pelo Império romano.

Por outro lado se nos parece evidente que povos insubmissos tendam a buscar refúgio nas montanhas. A relação neste caso seria inversa.

Não se trata aqui de negar a influência exercida pelo meio sobre determinado povo e mas de contestar que o único fator a ser considerado sela ele, atribuindo-lhe um caráter mágico. Em que pese a influência do meio, os povos tem algo seu como queria o já citado Vidal de La Blache. Assim faltando gênio ou iniciativa a determinado povo, o meio por si só nada produz. A civilização consiste numa interação entre o meio e seus ocupantes.

Por si só as montanhas ou o solo árido da Península ibérica nada explicam.

Alguém dúvida?

Considere então o mapa da Península Itálica, que é tão ou mais montanhosa do que a Espanha - Assim a Península balcânica - e a região da Europa que comporta o maior número de vulcões além de ser a mais susceptível de ser flagelada por terremotos.

Ponto pacífico.

Por outro lado fenômeno algum impressionou e impressiona mais a mentalidade do homem primitivo do que o vulcanismo (Erupções) seguindo pelos terremotos e consequentemente, maremotos. A ponto de tais populações recorrerem amiúde a sacrifícios humanos com o objetivo de aplacar ou conter as forças da natureza, sempre associadas aos deuses ou espíritos.

E no entanto esta Itália não só jamais viu florescer em suas sociedades algo semelhante a Inquisição espanhola, como durante os séculos XIV, XV, XVI e XVII esteve a frente do movimento Renascentista. E contando com cidadãos da envergadura de um Petrarca, de um Boccacio, de um Ficcino, de um Maquiavel, de um Da Vinci, de um Acquapendente, de um Galileu, de um Torricelli, de um Malpighi, etc, etc, etc

Querer explicar o misticismo, a religiosidade ou mesmo o fanatismo dos espanhóis por meio das montanhas ou da orologia, é deixa-lo sem qualquer explicação, uma vez que tais fenômenos deveriam ter prevalecido com muito mais razão na Itália, região em que as erupções e terremotos levavam as populações ao paroxismo...

Precisamos portanto buscar outros elementos para explicar o misticismo ou o fanatismo espanhol no plano da cultura.

Entrou aqui a engenho dos reis ou o oportunismo político?

É coisa que não se pode negar, pois já se disse várias vezes e insistentemente, que na Espanha, a Inquisição converteu-se muito rapidamente em repartição de estado com propósitos discricionários. Enfim como modo de tirar proveito político da religiosidade de um povo. Não se trata aqui de produzir fanatismo ou fundamentalismo mas de explora-lo.

Agora que teria produzido tais arroubos de misticismo?

As montanhas? De modo algum pois também estão presentes nas Penínsulas Itálica e Balcânica.

O engenho dos reis e governantes?

Não porque haviam reis e governantes por toda Europa; assim na França e na Inglaterra.

O Catolicismo?

Não, pois este também se achava presente em todos os recantos da Europa, assim na Itália e na França.

Catolicismo e monarquia eram elementos comuns a toda Europa e nem por isto a Europa como um todo percorreu o mesmo rumo sócio cultural que a Espanha.

A depender do Catolicismo e da monarquia a História da Europa seria igual.

A depender da orologia ou das montanhas, P Ibérica, P Itálica e P Balcânica teriam seguido os mesmos rumos.

Qual fator diferenciado deveríamos buscar na Espanha os arroubos de misticismo ou os acessos de fanatismo característicos daquele povo?

Se a simples leitura do antigo testamento ou o simples contato com a literatura dos antigos judeus foi capaz de transtornar as mentes dos 'civilizados' ingleses de Buckle, para não falarmos nos escoceses, nos franceses e nos suíços; os quais enquanto foram dominados ou inspirados pelo calvinismo, mostraram-se tão bárbaros e grosseiros quanto os espanhóis (Afinal não fizeram queimar Servet a lenha verde na Praça Champel pelo simples fato de ter insinuado que o sangue circulava nas veias?).

Em que os fanáticos calvinistas iconoclastas, depredadores de igreja e queimadores de bibliotecas foram mais dóceis ou civilizados do que os espanhóis não o sei?

Alias o número de igrejas e obras de arte demolidas na Escócia, da Holanda e em certas regiões da França, é coisa impressionante. Poucas delas restaram em tais paragens, apesar de sabermos quão religiosas haviam sido as gentes medievais. Tal o furor vesano desta reforma alimentada pela leitura da Torá ou da Tanak.

Que dizer então dos espanhóis em cujo território conviveram por séculos a fio não apenas Cristãos e Judeus, mas Cristãos e muçulmanos? E em cujo território os Cristãos - Mustaribes ou mozárabes - adotaram costumes árabes, arabizando-se...

Imagem relacionada


Não poucos analistas tem sugerido que a Inquisição espanhola, posteriormente cooptada pela monarquia com objetivos de natureza política, foi produto da dupla influência exercida por instituições judaicas - Como os tribunais das Sinagogas, responsáveis por disciplinar nos heréticos - e muçulmanas, neste caso evidentemente a Murtad; associada a uma compreensão equivocada das Cruzadas, a partir de determinado momento encarada como uma jihad Cristã.

De fato o Catolicismo espanhol (Teologicamente muito pouco profundo ou consistente após seu exílio forçado nas montanhas asturianas.) parece ter absorvido tanto elementos judaicos - Como a ideia de um tribunal religioso apto para punir os profitentes e impedir a apostasia - quanto elementos muçulmanos, como a ideia análoga de Murtad. Já a Cruzada multisecular exercida contra os muçulmanos fez com que assimilassem o espírito do jihadismo ou que concebessem um jihadismo 'cristão'.

Foi tudo fruto da ignorância e vulgaridade do elemento Cristão acantonado nas montanhas bem como da convivência com tradições religiosas aquele tempo (Como é o caso do judaísmo, hora progressista em sua maior parte) marcadamente fundamentalistas, controladoras e fanáticas. O que aconteceu na Espanha medieval foi assimilação cultural.

Por outro lado não podemos negar que este caráter inquisitorial tenha sido reforçado - e é justamente aqui que a mentalidade espanhola nos parece tanto mais digna de compreensão ou mesmo de simpatia - pela irrupção da 'maravilhosa' reforma protestante, com o decorrente estado de anomia religiosa e guerra aberta. Negar que a reforma protestante trouxe o caos as sociedade que a abraçaram é falsear a História. Aquilo, permitam-me dizer foi uma orgia de duendes ou delírio de fanatismo.

Que dizer a respeito das guerras religiosas que assolaram a França, Alemanha e Inglaterra por mais de século ou seja de meados de 1525 a 1648. Das revoltas dos nobres e dos camponeses na Alemanha luterana ao fim da Guerra dos Trinta anos e da Revolução Inglesa, o saldo de mortes foi pavoroso.

Somente a Guerra dos trinta anos deve ter feito 7.000.000 de mortos. Adicionemos outros tantos 3.000.000 por conta de todos os distúrbios anteriores a contar da Rebelião dos nobres adiante e chegamos a cifra, possível de 10.000.000 de almas removidas da face da terra após o advento da 'divina' reformação. Estou falando em um décimo em comparação com o total de mortos durante as duas grandes guerras mundiais.

Isto sem falarmos nos aleijados, nos órfãos, nas situações de miséria, na destruição de patrimônio e no caos social generalizado.

Diante de tudo quanto sucedia no centro e Norte da Europa o amigo leitor acha mesmo que as populações do Sul da Europa, especialmente as da P Ibérica, não se sentiam mais seguras sob a tutela da execranda inquisição. Diante dos que estava sucedendo no resto da Europa parte considerável dos cidadãos portugueses e espanhóis dos séculos XVI e XVII eram gratos a Inquisição.

Caso aceitemos o número - Comprovadamente absurdo - de mortos proposto por Llorente; 32.000 e adicionemos o total de bruxos sacrificados pela inquisição Alemã; 25.000 e o saldo das demais inquisições europeias como a Portuguesa e a Italiana 5.000 chegamos a cifra de 60.000 mortos. CIFRA DUZENTAS VEZES MENOR DO QUE O SALDO DE MORTES PROVOCADAS PELO ADVENTO DA REFORMA PROTESTANTE!
Sabemos no entanto, por fontes mais sérias e confiáveis - porque acatólicas e insuspeitas - que a inquisição espanhola, durante toda sua duração, não chegou a supliciar mais do que 5.000 pessoas, enquanto que as demais todas juntas sequer atingiram estas cifra; ficando o saldo de mortes da inquisição papista em cerca de 10.000 pessoas. Apenas se acrescentamos os processos por bruxaria - E para tanto devemos acrescentar e fazer notar que os protestantes alemães e ingleses foram campeões em queima de bruxos deixando os papistas no chinelo - que culminaram em pena capital, atingimos a cifra total de 30 mil mortos. UMA CIFRA QUASE QUATROCENTAS VEZES MENOR DO QUE O SALDO DE MORTES PROVOCADAS PELA 'MARAVILHOSA' REFORMA PROTESTANTE. Sem contarmos as bruxas e bruxos queimados por eles...
Os 'estúpidos' ibéricos estavam perfeitamente cônscios de que para eles a Inquisição representava um mal muito menor e não estavam nem um pouco interessados numa 'liberdade' responsável por tão imensa hecatombe.

Foi apenas após o fim das guerras religiosas i é a partir da segunda metade do século XVII e particularmente a partir do século XVIII e do iluminismo, que a opinião pública começou a oscilar e a clamar contra os abusos da Inquisição. Aqui o erro funesto da monarquia espanhola foi mante-lo - já noutro contesto, de liberdade - até meados do século XIX. Ocasião em que as condições do velho continente haviam mudado por completo e que as massas já não faziam a menos ideia do que tinha sido o Centro Norte da Europa século e meio antes. A memória dos efeitos da grande rebelião protestante havia desparecido, de modo que a Inquisição converteu-se em prato predileto da crítico, ou seja, em vilã. O que não reflete nem de longe a opinião dos insulares nos séculos XVI e XVII.

É importante que isto fique bem claro, assim o caráter revolucionário, violento e agressivo da reforma protestante, a qual nada teve de democrática ou de pacífica, sendo imposta a ferro e fogo pelos governantes - Fossem reis ou senados municipais - no mais das vezes a contra gosto do bom povo. Devo lembrar a guerra santa proclama por Zwinglio contra os cantões Católicos da Suíça, que se recusaram a abraçar sua reforma ou submeter-se a suas opiniões religiosas ou de como 'Novo Maomé' pereceu com a espada em punho atacando os Cristãos em Cappel???

Que dizer então sobre Genebra, Leyde ou Drogueda? Tais as calamidades produzidas pela nova religião bíblica.

Por isso os líderes protestantes fazendo galas do santo Evangelho folgavam dizer terem trazido não a paz mas a espada a infeliz Europa.

Em questão de saldo de mortos ou custo benefício a odiada inquisição espanhola foi mais vantajosa, a P Ibéria, do que a amada reformação ao resto da Europa.

Isto é tão certo que atualmente os pastores são obrigados a se sair com desculpas como estas:

"NÃO IMPORTA SE FORAM MUITOS OU POUCOS CASOS, importa que você não pode dizer, estou certo e você errado, por isso vou te queimar."

De plano acordo, não podemos fazer isto, é um crime, já dizia nosso S João Crisóstomo.

Por outro lado também não podemos admitir que um homem ou um grupo de homens ordenem a toda uma população que abandonem a fé ancestral em benefício duma outra ou que aceitem essa mudança passivamente permitindo que seus locais de culto sejam destruídos...
A diversos títulos e em diversas ocasiões os reformados tentaram fazer isto com o apoio de Lutero, Calvino, Knox, etc

Em que a mudança religiosa na Inglaterra, proclamada ou decretada por Eduardo VI foi liberal não o sei? Em que a população Católica de Genebra e das outras cidades da Suíça foi teve sua escolha respeitada também não sei...

Evidentemente que tudo isto tinha mesmo de degenerar em guerra ou conflito aberto, fazendo reverter o renascentismo, aniquilando o humanismo e fazendo a Europa ficar paralisada por séculos, se é que não a fez recuar.

Diante de tal situação - Calamitosa e angustiante para os próprios protestantes alemães do final do século XVI - é perfeitamente natural e compreensível que o número de mortos tenha sido objeto de consideração por nossos ancestrais ibéricos do século XVI, ora tidos em conta de molengas ou estúpidos.

É que levaram em consideração as condições porque passava a maior parte da Europa naquele momento e qual fora o fator causal que a precipitará naquele 'forno'; considerações que nós cidadãos do século XXI desconsideramos ou ignoramos.

Enfim, tal condição, só fez por confirmar o povo espanhol na velha direção assumida durante o auge das Cruzadas Ocidentais. Pelo simples fato de saberem que a introdução de qualquer religiosidade judaizante num contesto Cristão e Católico resultaria sempre em conflito. O que nos leva a constatar que o recrudescimento da intolerância religiosa no Brasil contemporâneo associada ao crescimento das formas pentecostais, bíblicas ou judaizantes - Em que pese nossa tradição de tolerância e o secularismo - é bem mais do que mera ou simples coincidência.

Como poderia ter sido diferente na Europa do século XVI?

E como os cidadãos europeus poderiam suportar paciente ou alegremente um tal estado de coisas?

Por isso digo que a irrupção da Reforma protestante e especialmente de suas consequências a nível social, fortaleceram ainda mais o espírito inquisitorial dos espanhóis.

Resta-nos delucidar porque o espírito científico não floresceu na Península.



Imagem relacionada


Sobre o caráter e missão dos povos germânicos no contesto Ocidental II

Resultado de imagem para battle of tours ou poitiers



Na perspectiva de um helenizante ou 'grecizante' Cristão (Católico evidentemente - alias tome-se Católico por seu autêntico sentido Ortodoxo!)



Embora são sejamos germanófilos ou germanizantes, cumpre-nos tentar ser justos em nossas apreciações a respeito do valor dos fatos históricos e assim das invasões teutônicas do século V. Averiguando que nos trouxeram de ruim e que nos trouxeram de útil, bom ou proveitoso.

A respeito do aspecto negativo de tais invasões, relacionado com o eclipsar da cultura grego romana e portanto tanto do espírito filosófico quanto do espírito científico e ainda das letras e das artes, já nos pronunciamos no artigo precedente.

Quanto a perda inútil de vidas e efusão de sangue, como Cristãos deploramos sinceramente, mas reconhecemos que desgraçadamente assim tem sido século após século e - aqui o pior - que assim o é no tempo presente, em que um psicopata como D Trump, posando como dono do mundo, propõem-se a atacar a Coréia do Norte, com grave risco para toda humanidade e bilhões de vidas humanas. Tudo em nome do oportunismo, da vaidade, da arrogância, etc E tais sociedade ousam declarar-se Cristãs!

Ao menos a maior parte senão a quase que totalidade dos invasores germânicos eram pagãos ou arianos, e portanto infensos ao Dogma da Encarnação ou da divindade de Cristo, que é o padrão niceno ou atanasiano de fé. Hoje afetam adorar o Cristo, e matam e torturam, e roubam - pilhando nações inteiras - em seu nome! Onde chegamos!

Mas passemos sem delongas a ulterior missão dos povos germânicos na Europa.

Pois preservar o Europa era preservar o Catolicismo - Ao menos até a irrupção da falsa Reforma no século XVI - preservar o Catolicismo, preservar a parcela que este tomou a cultura antiga, grego romana, e preservar esta, preservar os fundamentos mais remotos de nossa Civilização. Os quais como já vimos deitam suas raízes mais remotas no antigo Egito e na antiga Suméria. Trata-se portanto de lutar por nossas raízes e por nossa identidade.

Sucede no entanto que por volta do século IV, após três séculos de ostensiva perseguição por parte do Império dos Césares, haviam os Cristãos desenvolvido um culto destemperado, uma mística ou mesmo um delírio, em torno do martírio.

Longe de nós negar a importância deste fenômeno da esfera pessoal da vida Cristã, quando organicamente relacionado com a confissão de fé, no seio de uma Sociedade não Cristã.

Equivoco no entanto, e dos graves, é transplantar a mesma dinâmica para uma Sociedade já Cristianizada ou para uma Sociedade pluralista e tolerante em que os Cristãos gozem de plena liberdade. Nem Jesus jamais pretendeu dar lições de política ou sociologia nos Santos Evangelhos, nem devemos nós transplantar o ideal do martírio para tais setores da existência. Permitindo ou assistindo passivamente a destruição de uma sociedade livre ou cristianizada por hordas de bárbaros sem educação. Isto não é Cristianismo e nada tem de Cristianismo, é moleza ou covardia.

O mesmo Cristão que em sua vida e em suas relações pessoais, tem o dever de dar a outra face quando agredido por outrem - E jamais negamos isto - no contesto de uma Sociedade Cristã ou tolerante ameaçada ou invadida por pessoas de mentalidade fanática, tem o grave dever, de como cidadão, empunhar armas e colaborar ativamente tendo em vista a defesa desta Sociedade. Pensando mormente nos idosos, nas crianças e nas mulheres e nos agravos que tais categorias de pessoas teriam de sofrer as mãos de um conquistador cruel.

A Solidariedade social constrange o Cristão a lutar por sua liberdade e pela liberdade de todos no contexto político ou imanente.

Tal a luminosa doutrina da guerra justa ou da legítima defesa na esfera social da existência. O Cristão não só pode como deve abdicar da livre resistência, e antes morrer do que matar, quanto a confissão de sua fé ou suas relações pessoais; jamais quando a sociedade se encontra em perigo. Aqui o outro é prioridade, especialmente os mais vulneráveis, e é necessário lutar e morrer por eles. O que demanda força, não apenas de corpo ou física, mas sobretudo de alma, em termos de valentia, coragem ou ousadia. Pois em certar situações é a coragem grande virtude.

É exatamente aqui que tocamos aos povos germânicos.

Pois representavam exatamente isto: Força física e valentia ou coragem. Predicados indispensáveis tendo em vista a contensão do flagelo muçulmano.

Como já dissemos devido a uma compreensão equivocada de martírio, a uma noção errônea de paz, a uma passividade estúpida que conduzia a inação e ao servilismo os antigos Cristãos 'romanos' não pareciam estar a altura de resistir a um inimigo tão formidável quanto o islã com sua jihad alimentada pelo fanatismo. Fazia-se mister injetar sangue novo nas veias do império para torna-lo forte e resistente.

A Cristandade e Civilização salvaram-se porque em 732, em Poitiers nas Gálias, os sectários de Maomé depararam-se não com uma multidão de Cristãos narcotizados por um entendimento errado a respeito do martírio, mas com os francos, fortes e corajosos capitaneados pelo Prefeito do Palácio, Carlos Martel. Do contrário teriam sido os cristãos ineptos ou covardes, esmagados e a Europa ocupada de ponta a ponta, até os confins da Alemanha ou da Bulgária pelo islã, fechando o roteiro do Mediterrâneo, erradicando por completo o Catolicismo e com ele as fontes clássicas ou pagãs de nossa ancestralidade e cultura.

Teríamos um Ocidente aniquilado. E decerto não estaria escrevendo estas linhas ou sendo lido por vós, uma vez que não existiriam computadores ou Internet. Descoberta da América ou Colombo. Aviões, automóveis, trens ou tecnologia... Pois tudo isto é fruto ou resultado de outros caminhos, decisões e desdobramentos culturais; os quais não partiram do islã nem poderiam ter partido dele. Uma vez que a própria Mutazzila - um apropriar da Filosofia grega pelo primitivo islã - foi completamente exterminada pela Ortodoxia corânica ou sunita, firmada pelos imames Achari e Gazali.

Não passaríamos de uma sucessão de minaretes e muezzins enfileirados de Múrcia a Upsala ou Atenas! Com suas multidões de fanáticos curvados em direção da Meca recitando a shahada. Seria o fim inglório, trágico e patético duma saga iniciada 4000 anos antes no Egito e na Suméria. E o Epílogo teria sido em Tuors ou Poitiers em 732, onde poderíamos lavrar uma placa a guiza de epitáfio e marcar: Aqui jaz a Civilização Clássica * 3500 a C a + 732 a C.

No entanto fomos salvos da catástrofe total pelos germânicos ou francos em 732 e novamente no século XII graças as Cruzadas. As quais, ao contrário do que se ensina vulgarmente, jamais consistiram num ataque ou numa agressão, mas numa resposta necessária a jihad iniciada pelos fanáticos muçulmanos em 634 desta Era e jamais encerrada ao cabo de meio milênio. Tratou-se portanto de um mecanismo de defesa social ou duma iniciativa legítima. Duma resistência absolutamente necessária face a um inimigo insidioso.

O qual já havia arrebatado parte do antigo Império a ponta da espada e imposto violentamente suas crenças aos vencidos. Segundo a norma e regra assaz conhecida do: Converte ou morre! Práticada por eles ainda hoje, em pleno século XXI. Os Yazeds e Mandeus que o digam...

Lamentavelmente, temos de admitir, a antiga Cristandade latina não estava a altura do desafio lançado pela fúria dos maometanos. Não reconheciam que em certas situações extremas pode a força ser administrada para o bem na perspectiva da liberdade e da justiça. Chegando a ter a passividade e a inércia em conta de virtudes. O que veio a degenerar num pacifismo crasso e acrítico, o qual de modo algum é Cristão.

De fato o Cristão ama a paz e justamente por isto abastem-se de atacar a quem quer que seja. Mais: Se atacado, responde com nobreza, voltando a outra face ao agressor. E se sua fé é ameaçada, morre alegremente por ela. E afirma e divulga sua crença pura morrendo, jamais matando ou supliciando em nome de Cristo. Todavia se a Sociedade Cristã ou civilizada e tolerante é atacada, dispõem-se a resistir heroicamente, e a dar combate aos fanáticos e fundamentalistas, de modo a que não venham oprimir os mais fracos. Quando o que esta em jogo o grupo social e o regime da liberdade, postos sob o fogo da teocracia abjeta, então o Cristão, amante da paz, devera combater e lutar valorosamente.

A sociedade romana ou ante germânica não tinha esta compreensão.

Tiveram-na os povos germânicos ou construíram-na a partir de sua experiencialidade e devemos compreender esta elaboração como um contributo precioso sem o qual a Civilização iniciada junto aos grandes rios do Oriente jamais teria chegado em linha reta aos dias da ONU ou da Internet, sendo desviada do caminho ou ficando paralisada devido a adoção de um modelo de fé fetichista, teocrático e despótico, incompatível com o espírito de liberdade que conduziu-a até aqui.

Cabendo a nós o grave dever de ser gratos face a contribuição destes povos tendo em vista os ulteriores progressos da Sociedade Ocidental. Nela temos um problema a ser resolvido, que é o Capitalismo. O que não significa que ela mesma seja um problema em seu conjunto. Nós é que temos de distinguir uma coisa da outra, separando os elementos positivos e anteriores ao advento do Capitalismo, dos negativos afirmados a partir dele, ao invés de condena-la como um todo.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Sobre o caráter e missão dos povos germânicos no contesto Ocidental I

Resultado de imagem para tomada de roma por alarico 410



Para muitos dos homens e mulheres nascidos em meados do século IV, especialmente para os mais cultos e instruídos, aos quais não faltava pão e carne, o ano de 410 assinalou um evento dramático.

A ponto, diz Aurélius Augustinus Bispo de Hipona de por a prova a fé de muitos Cristãos. Já para o monge Jerônimo de Stridon, que era um poliglota e erudito, tratava-se de um evento cósmico que assinalava o curso dos tempos...

Parece ser verdade que as massas famintas e desesperadas, que já não obtinham pão e circo dos governantes, não sentiram muito e até aplaudiram a queda de um Império decadente, que se limitava a extorquir impostos aos poucos elementos úteis que ainda produziam. Ao invés de refletir sobre os problemas que punham em jogo a existência do secular Império, o degenerado Honório, filho de Teodósio preferia passar o tempo todo em seu palácio de verão em Ravena, acreditem! Brincando com uma galinha!

E um homem vulgar como estes ousou zombar face ao gênio Militar de um Alarico. Levando-o a fazer o que Hanibal não ousara ou seja, a invadir a cidade e eterna e pilha-la.

A população, as grande famílias senatoriais, os generais, os grandes proprietários de terra, o que ainda restava da pequena burguesia, os pequenos comerciantes, a grande massa de povo sustentada - até bem pouco tempo pela rações públicas - soldados, servos, mendigos, religiosos, etc achavam-se todos acotovelados dentro das muralha da grande metrópole do Ocidente.

Compunham, talvez, cerca de 100.000 pessoas.

Alarico referiu-se a elas como erva grossa e boa para ser cortada, embora tenha concordado em proclamar a Basílicas de S Pedro e S Paulo como refúgios invioláveis e pedido a seus soldados para que respeitassem a vida dos homens e a honra das mulheres. Apesar disto parte daqueles que não haviam conseguido chegar as Basílicas acabaram sendo massacrados pelo invasor. Proliferando do mesmo modo os estupros, inclusive de religiosas, as quais Agostinho dirige algumas de suas reflexões.

Os pagãos alegaram que a adoção da fé Cristã havia sido responsável pela queda da cidade, mas numa perspectiva magico fetichista, relacionada com a ira dos deuses antigos e não com a oposição dos Cristãos a guerra e ao escravismo, como seria ventilado por Ed Gibbons. Respondeu-lhe Paulo Orósio na História contra os pagãos alegando, numa perspectiva socrática, que os costumes da velha cidade haviam sido corrompido pelas riquezas e pelo luxo, sem no entanto referi-se explicitamente ao 'pão e circo'.

Tal o marco inicial da nova Idade.

Pois a partir de então os 'Imperadores' até Romulo Augustolo (476) não passarão de fantoches. Mantendo-se um Império de aparências, devido a força das tradições.

A partir do século V, na esteira dos vencedores Godos, diversos outros povos teutônicos fazem-se em marcha instando-se em alguma região ou província do Império romano, do que resultará a formação dos reinos bárbaros num primeiro momento, e, posteriormente a afirmação de uma ordem feudal, característica da Idade média.

Faz-se forçoso reconhecer que nem todos os povos germânicos eram iguais ou achavam-se no mesmo nível em termos de cultura. De fato alguns eram bastante civilizados ou afeitos aos costumes romanos. Assim os que se achavam mais próximos da fronteira, acompanhando o curso do Danúbio, como os Godos. Já outros eram bastante rudes e aguerridos, a exemplo dos Suevos, Saxões, Alanos, Hunos (estes mistos), Vândalos, etc 

Em alguns casos e em alguns momentos os teutônicos, a semelhança dos celtas, parecem ter se instalado pacificamente junto as antigas populações ou simplesmente ocupado o espaço existente sem maiores agravos. Tal o caso dos Godos e Francos em algumas regiões da Gália. Noutras circunstância parecem ter lavado tudo a ferro e fogo. Ao fim de diversas e sucessivas ondas humanas, a parte ocidental do Império romano achava-se quase que totalmente arruinada. E não deixa de ser esclarecedor a inexistência de estátuas clássicas que tenham chegado intactas até nós.

Cumpre reconhecer que todo povo tem suas qualidades, capacidades ou virtudes.

O baixo Império romano havia feito refluir a vida urbana e massacrados os municípios, fazendo a vida refluir para os campos e assumir novamente como dissemos no artg anterior, a forma rural. Melhor agricultor não havia que o germano, apegado ao trato da terra.

Não é que a vida rural seja essencialmente má.

O problema aqui é que perdeu-se o espírito. A cultura mais refinada caracterizada pela existência de diversas agremiações educativas como escolas, museus, bibliotecas, pinacotecas, etc desaparece por completo. Mesmo o simples letramento entra em colapso. Até as termas, hospitais, aquedutos, estradas e portos são por assim dizer arruinados. Que diremos então do espírito científico ou da pesquisa e das conquistas tecnológicas? Enfim do progresso humano e civilizacional?

É toda uma civilização que reverte ou recua; em que pese a habilidade agrícola dos germanos, ou, como decantam alguns, seu espírito disciplinado e honesto no que tange aos costumes pessoais e até comunitários (intra feudal).

Longe de nós classificar os povos germânicos recém instalados e organizados nos antigos territórios do Império como ladrões ou assassinos vulgares.

Sucede no entanto, e não há como disfarça-lo, que aquilo que tornara-se proibido pela religião Católica e pelo influxo da lei romana no seio familiar ou comunitário (feudal) jamais se tornara proibido 'extra' feudo ou 'intra' feudoS. Assim em caso de conflito ou guerra, a população do feudo vizinho poderia - e de fato era - ser assaltada e morta sem que tal fosse considerado ilegal. (Não é o que vemos hoje: assassinato proibido e guerra - ou AssassinatoS - permitida?)

Mesmo quando tal não se sucede por intervenção da igreja, congregam-se os homens, nobres ou guerreiros em miliciais e atacam a milícia do feudo vizinho. Dando largas as carnificina.

E como os feudos associam-se uns aos outros por meio de pactos juramentados, tanto de suserania quando de vassalagem, já se alastram tais conflitos por inúmeros feudos (Não foi exatamente assim que a Europa mergulho nas guerras de 1914 e 1939?) e o estado de violência se torna generalizado, dando lugar ao desordem ou ao caos.

Não bastasse tal situação, os mais ferozes dentre todos os povos germânicos, os Normandos, infernizaram as vidas de seus companheiros cristianizados e sedentarizados, por séculos a fio, entrando pelos rios e massacrando as populações a golpes de machado. O que travou o progresso do Continente ou sua recuperação, por séculos...

Esta condição relacional prevalecente entre os milhares de feudos europeus - Situados principalmente na França, na Alemanha e na Inglaterra -  existentes por exemplo nos séculos XI e XII, resultou numa orgia de duendes não menos pavorosa do que aquela que os germanófilos atribuem ao bérberes habitantes nas montanhas do Norte da África (Em especial Marrocos - século XIX) com seus razzu ou razzias. Tanto um quadro quanto outro faz vertigem, tanto o pintado pelos arabizantes quanto o pintado pelos germanófilos. O pior é que ambos são verdadeiros!

Diante disto não podemos deixar de encarar o invasor germânico do século V como um destruidor em termos de cultura greco romana e mais do que isto como um fator de discórdia, instabilidade social e atraso para a Europa medieval. Foi ele, não o Cristianismo, não a Igreja Católica e depois a romana, que tentaram civiliza-lo, que trouxe as sombras para esta sociedade.

A Igreja, em que pesem seus defeitos, que os teve - me refiro especialmente a romana emancipada no século XI - não nego, demandou não é menos verdade, ingentes esforços com o objetivo, muitas vezes estéril, de educar tais povos e de apaziguar esta sociedade por meio dos decretos baixados pelos sínodos desde o século V e mais especialmente ainda por meio da Trégua de Deus, instituição das mais louváveis que se tem notícia no Ocidente.

Por fim, quando semelhante espírito estava já reduzido ao tolerável, o papado - Já existente desde o século XI - com tato, cálculo e sabedoria invulgares, soube lançar tais hostes, de guerreiros intrépidos, contra os agressores muçulmanos, os quais jamais haviam abdicado de sua jihad iniciada cinco séculos antes. Do que resultou um imenso poder e incrível força, movidos na direção certa. Tal a organização a que chamamos 'Cruzadas' que a seu tempo contiveram a expansão muçulmana e salvaram a sociedade Ocidental e a Civilização, permitindo que assumisse formas ulteriores. As quais jamais teria chegado caso tivesse sido envolvida pelos tentáculos da teocracia corânica.

Sobre esta missão reservada aos povos germânicos, nos estenderemos no próximo artigo.

Sobre a eclipse do municipalismo as vésperas da queda do Império romano


Resultado de imagem para tomada de roma pelos barbaros


Texto base para reflexão: M Guizot 'Sobre o regime municipal no Império romano durante o século V..."


Foi duplo o gênero de fatores responsáveis pela queda do Império romano e com ele da expansão civilizacional antiga. Cuja fonte, deita raiz tanto no Egito quanto na Suméria, tocando a 3.500 a C.

O primeiro tipo foi suficientemente expostos por diversos autores materialistas ou marxistas e devemos busca-lo na estrutura econômica.

Pautada no escravismo, na pilhagem e consequentemente, nas guerras de conquistas.

Tendo atingido os extremos ocupáveis do mundo antigo, não pode mais este império expandir-se. O Norte da Europa, o Sul da África, As estepes russas e os desertos da arábia eram inviáveis. A única saída possível, para o extremo Oriente - Índia e China - achava-se bloqueada pelo novo Império persa. O acesso ao comércio tornou-se precário e além disto as distâncias eram consideráveis.

Diante disto apresentavam-se diversos problemas:


  • Como escoar a produção se as vias comerciais eram limitadas?
  • Como manter o preço estável quando o elemento escravo, principiando a minguar por falta de guerras, tornava-se cada vez mais caro? E -
  • Como administrar ou gerenciar de modo orgânico a produção de bens - criando demandas e mercados internos - se, aquele tempo os meios de comunicação e mesmo de transporte, eram demasiado limitados?

Devido a cultura escravista os cidadãos mais humildes achavam vergonhoso trabalhar preferindo viver de esmolas a custa do Estado. Do que resultou um entorpecimento irreversível. Para não poucos romanos, o ideal de vida era justamente ser sustentado pelo governo através de 'rações'. Não cogitavam em produzir e menos ainda em defender as fronteiras do Império ou combater.

Ademais por que raios expor-se a tantos e tão graves perigos nas fronteiras em torca de soldo, se rações gratuitas - O pão e circo - estava no acesso de qualquer um?

Considere-se agora que a míngua do elemento militar encarecia o soldo e consequentemente as despesas. Ficando sempre mais barato contratar bárbaros romanizados - os godos - para defender o Império (!!!). Convertendo-se o exército, majoritariamente germânico, num estado dentro do estado.

Para agravar ainda mais a situação, o abolicionismo Cristão, avançava a passos largos. De modo que o triunfo da ética e da justiça, pressupunha e de fato acentuava ainda mais a crise econômica, produzindo a redução do elemento servil e, evidentemente o aumento da inflação.

As despesas com importação de trigo para as rações e com o exército vão se tornando cada vez maiores. Ao poder central a única saída viável - para manter a ordem interna e a paz nas fronteiras - foi aumentar os impostos. Como nem os Senadores multimilionários e tampouco os cidadãos comuns e escravos pagavam impostos, incidiram eles mormente sobre a até então fecunda classe média citadina (Ou se querem pequena burguesia urbana) compostas por pequenos e médios comerciantes e funcionários públicos.

Também o pequeno e médio proprietário rural sentiu-se onerado.

Por todas as partes do Império foi este cidadão médio, na cidade ou no campo, taxado e responsabilizado pela crise.

Até que ao cabo de cem ou cento e cinquenta anos, esta categoria de cidadãos estava virtualmente morta! E com ela o municipalismo e a vida urbana ou citadina no Ocidente, com raras exceções (Algumas cidades litorâneas mantiveram-se devido a suas condições específicas de portos e ao comércio marítimo com a parte Oriental e viva do Império). Tombaram os até então fecundos municípios das Hispanias e das Gálias, sucedendo a ruralização a passos largos...

Quanto aos pequenos proprietários ou abandonavam suas terras e fugiam em demanda das grandes metrópoles - como Roma - na esperança de obterem 'rações' ou alienavam suas propriedades aos grande senhores e com elas suas liberdades. Segundo a antiga tradição do clientelismo... E punham-se a trabalhar no lugar dos antigos escravos tendo em vista a suficiência da 'Vila'.

Tudo isto supõem um cenário dramático de transformações sociais.

Consideremos que aquelas multidões esperavam ser alimentadas pela máquina imperial até o fim de suas vidas. Dela dependendo para obterem rações e sobreviver. E sequer imaginassem que aquele Império miserável e desguarnecido pudesse vir a cair! A queda do império e o desamparo era algo que se não lhes passava pela cabeça. Imaginavam que o trigo caia dos céus e que semelhante estado de coisas se manteria 'ad infinitum'.

Engano fatal.

E no entanto quanto menos braços nos campos menos suprimentos e quanto menos suprimentos havia, mais caros ficavam... Resultando disto um círculo vicioso.

Diante disto aprouve ao governo central, ao tempo de Diocleciano, impedir que as pessoas continuassem a fugir, demandando as grandes cidades. Fazia-se mister reduzir as liberdades, com grande agravo da cultura ancestral. Desde então os pequenos camponeses foram legalmente fixados a terra. Enquanto os habitantes das cidades foram obrigados por lei a perpetuar os ofícios exercidos por seus pais e antepassados.

Em situações de crise, as liberdades tendem a ser reduzidas ou eliminadas. Foi exatamente o que se sucedeu no Império a partir do ano 300 desta Era.

Todavia, apesar de tantos e imensos sacrifícios a condição do Império não melhorava e ele não dava mostras de recuperação.

Do que resultou, por fim, a perda de sentido.

Nas últimas décadas do século IV, quando até mesmo a distribuição das rações principio a falhar, - Dando espaço as primeiras fomes que caracterizarão todo período subsequente - veio a desilusão. Não poucos compreenderam que a situação havia se invertido e que agora o Império é que se mantinha e sustentava as custas do povo. A maior parte da população começou a encarar o até então 'divino' gênio de roma como uma espécie de diabo ou gênio do mal. Tomaram consciência sobre sua condição de oprimidos, sentiram na pela o despotismo dos césares, perceberam que já não passavam de ovelhas famintas, esqueléticas e vulneráveis.

Foi quando desejaram a destruição do Império.

Pois como se lhes faltasse pão, encaravam todo patrimônio cultural até então acumulado como coisa supérflua ou como luxo.

Onde falta pão a cultura não faz sentido! E perde-se.

Num determinado momento do século IV o Império passou de mocinho a vilão no imaginário popular.

Os próprios mandatários, pressionados pelos godos que se achavam nas fronteiras, perguntaram a si mesmos se não estava na hora de injetar sangue novo nas veias do antigo império com o intuito de salva-lo. Quem sabe os godos ocupando postos de trabalho produzissem renda? Foi o que pensaram os conselheiros do Imperador Valente, pelos idos de 376.

Situação em que parte do povo, certamente, já encarava os bárbaros - compreenda-se o godo ou bárbaro civilizado/romanizado - como libertadores!

É clássica a passagem de Amiano Marcelino descrevendo como o Imperador Valente não apenas abriu as fronteiras a tal povo, como dispôs que a máquina imperial - Com seus barcos e carros - auxiliasse os godos na travessia do Danúbio. O que ele esta introduzindo nas veias do império é veneno mortal conjecturou no velho cortesão. Um ano depois Valente era batido pelos Godos em Andrinopla e queimado vivo por eles.

Após o desastre de Andrinopla, Teodósio - o 'Último dos romanos' - sempre intimidado por Alarico, representou apenas um 'interegno' antes do 'Fim do mundo', em 410, quando os Godos conquistaram a antiga capital do Império roma.

A situação descrita por Guizot e ao que parece jamais desmentida pela arqueologia ou a paleografia, diz respeito principalmente a apatia com que os cidadãos 'romanos' da parte ocidental do Império, assistiram sua queda sem sequer dar mostras de revolta ou registrar as consequentes lamentações pela ordem ou regime que chegava ao fim. A passividade face a queda do quadrisecular foi patética. É como se ninguém mais aspirasse por sua sobrevivência. Mais - é como se os antigos cidadãos romanos encarrassem os bárbaros germânicos como libertadores. Situação que tornou a repetir-se em diversas partes do Império Bizantino por ocasião da primeira Jihad Maometana no século VII.

Segundo o citado autor francês, o fim inglório do municipalismo e a adoção, por parte do Império, de um regime cada vez mais despótico e autocrático é que acarretou semelhante situação de revolta. Era um governo cujos custos estavam sendo maiores do que os benefícios. A um lado impostos e taxas cada vez maiores e a outro, decretos arbitrários, extinção das antigas liberdades e situação de extrema penúria. Os pais havia comido a carne mas os filhos do século IV estavam roendo osso. O governo romano ou melhor a existência do Império se tornará insuportável. Era uma máquina que já não funcionava mais, e onerava, e oprimia os próprios cidadãos...

Foram as situações de tirania ou despotismo que levaram primeiramente os latinos e posteriormente paste dos orientais a encarar os invasores: Aqui teutônicos e ali islâmicos, como libertadores. Em que pese a destruição da cultura. Pois como já dissemos a cultura só faz sentido para quem tem a barriga cheia, assim, faltando pão...

Em semelhante conjuntura um único elemento deu mostras de preocupação, por compreender a dinâmica da cultura. O alto clero Católico, assim os Bispos Sinézio de Cirene e Agostinho de Hipona, o anacoreta Jerônimo de Stridon, o estudioso Sidônio Apolinário. Estes sabiam que a antiga cultura estava ameaçada, que o arcabouço da civilização clássica, em parte incorporado pela Igreja, estava prestes a desabar e que um novo mundo estava prestes a surgir.

Lição de História a ser aprendida pelos governantes: Situações de angústia extrema convertem os críticos do regime, por piores que sejam em heróis.

Seja como for não é muito difícil compreender porque os latinos ou ocidentais equivocaram-se em sua apreciação.

O equivoco se deve ao fato de que os godos ou bárbaros da fronteira estavam já civilizados ou familiarizados com os costumes e as tradições romanas. O que eles não podiam ver ou perceber é o que estava por trás do movimento daqueles povos. O que não conheciam é o caráter das tribos mais afastadas como  Vândalos, Alanos, Suevos, Ostrogodos, Hunos, etc O que não imaginavam é que os Godos estavam sendo empurrados por povos tanto mais rudes e grosseiros.

A entrada dos Godos no Império certamente não causou maiores desastres. Não foram eles certamente que como os Hicsos do antigo Egito, vieram pilhando, incendiando ou demolindo tudo pelo caminho e deixando apenas ruínas após si. Em determinadas situações, como foi exposto por Dubos e Coulanges, o que houve foi apenas instalação pacífica ou acomodação. Assim nas Gálias onde estabeleceram-se os Francos, assim nas regiões ocupadas pelo Godo.

No entanto a entrada dos primeiros foi como a ruptura de um dique, cujas forças não podiam mais ser contidas. No encalço dos Godos e Francos vieram os Suevos, Alanos, Hunos, Ostrogodos, Vândalos; e não foi por acaso que o nome destes últimos foi identificado com a destruição e a selvageria. Após os Godos romanizados, o Caos. Após o Godo ter estendido a mão a seus parentes mais distantes a situação tornou-se insustentável e o Império romano do Ocidente foi varrido da face da terra como por um tufão.

E lá estão as ruínas do Capitólio e do Fórum para testemunhar este trágico evento.

A longo prazo aconteceu o que os Bispos e Filósofos temiam: Não apenas as escolas, bibliotecas, museus, pinacotecas, galerias de arte, templos, etc foram destruídos mas até mesmo as pontes, portos, estradas, fábricas, hospitais, etc Enfim toda estrutura urbana de uma realidade extinta. Retornando a maior parte da porção Ocidental do Império a antiga condição rural. A subsistência. Ao status de pequena comunidade auto suficiente. Em prejuízo do letramento, da Filosofia, das Ciências e artes. Do que resultou sensível rebaixamento em termos de qualidade de vida.

Se houveram sombras na Idade Média, foram estas trazidas pela migração e instalação do elemento teutônico e das revoluções por ele provocadas.

Evidentemente que nem topo equipamento cultural produzido pelos romanos e introduzido no Oeste da Europa se perdeu. Apenas parte dele e por algum tempo. Reduzindo a marcha da civilização e recompondo as coisas.

De modo geral o que podemos declarar sobre o sentir dos diversos grupos sociais as vésperas da queda do Império romano do Ocidente é isto:

  • Os Cristãos ao menos em parte haviam se deixado dominar por uma falsa ideia de martírio ou por um delírio místico em torno dele, ignorando supinamente as situações sociais e políticos que não apenas justificam mas exigem uma resistência em termos essencialmente Cristãos. Outra parte deles acalentava, ainda que inconscientemente, certo desejo de vingança face a estrutura política que havia massacrado os antigos mártires seus confrades. Eles desconfiavam da cidade do César, se é que não aspiravam por sua destruição.
  • A classe média fora praticamente extinta assim como as liberdades populares. 
  • O povo simples, que era o grosso da nação, amolecido pela distribuição de trigo, vinho, azeite e carne; além de ingressos para os espetáculos e roupa, sequer pensavam em trabalhar, quanto mais em lutar e combater. Eis porque Alarico as portas de Roma classificou-os como erva grossa prestes a ser ceifada ou como um rebanho de ovelhas gordas, tal sua inércia e passividade.
Como já dissemos não haviam mais escravos e o exército era ocupado e controlado pelos Godos.

Diante de tal situação como admirar-se de que este Império tenha desabado fragosamente ao mais leve toque?

Pois não se tratava mais daquele corpo saudável e pujante dos séculos I e II ou do tempo de Augusto com suas hostes de escravos, regime marcial, fartura de bens, estabilidade monetária, acesso aos Mercados mais distantes do Oriente, liberdades civis, municipalismo florescente, etc

Deste império já não havia nem sombra em meados do século III. Que dizer então dos anos 300 ou 400?

O que temos aqui é um corpo disforme, enfermo e achacado, pela falta de mão de obra, pela inflação, pelo valor excessivo dos impostos, pela extinção das liberdades, pela eliminação da classe média urbana, pela fixação do pequeno proprietário a terra, pelo deficit nos cofres públicos, pelo amolecimento das massas, pela morte da consciência cultural, pela angústia e insatisfação dos cidadãos, etc

Tudo quanto faltava ali era, tal e qual o antigo Império Persa, o aparecimento de um elemento forte o bastante para tirar proveito da situação. O fruto estava já maduro e só faltava quem o colhesse quando apareceram os bárbaros nas fronteiras. Em certo sentido o império romano já estava morto. Tudo quanto podemos dizer é que o Império romano derrubou a si mesmo pelo simples fato de nãos ser capaz de vencer a crise que nele se instalará desde o século III. Como um organismo vivo seu estado de saúde foi se agravando mais e mais até o óbito. Os bárbaros foram os coveiros deste grande império. Mas não daquela vida municipal intensa, que já havia deixado de existir, século e meio antes.