segunda-feira, 30 de março de 2020

A crônica do insólito

Ignorando os apelos da OMS o grande rebanho humano sai as ruas, como se nafa estivesse acontecendo.

Não, não estamos nos tempos de minha avó (1918) - minha avó nasceu cerca de 1900 e vivenciou o flagelo da gripe espanhola - Mas em 29 de Março de 2020. Em algum lugar de S Paulo, não nos ínvios sertões do Nordeste ou nas inóspitas florestas do Amazonas, mas, repito, na grande máquina ou locomotiva que ainda conduz o país... No Estado da tecnologia e da 'civilização', aqui mesmo.

E com que nos deparamos em tal cenário?
De quarentena face a sinistra ameaça de uma pandemia... que lá na Europa tem resultado inclusive na falta de caixões...

Aqui na cidade em que moro - A qual não é pequena - tivemos duas festas de aniversário com ampla concentração de pessoas. Digo em meu bairro (Que é bairro de classe média bem mérdia mesmo.), melhor dizendo na rua ou quadra em que resido. Uma dessas comemorações natalícias foi realizada ao lado de minha residência e a outra exatamente atrás dela. Juro que não acreditei... Pois cá tenho mãe, quase nonagenaria, isolada... É cumpro o isolamento com absoluto rigor higiênico. Por esterilizar-me e tudo esterilizar logo ao chegar a cada virei a chacota da rua e sinônimo de doido varrido.

Por aqui as pessoas continuam fazendo piadinhas com quem sai a rua de máscaras ou portando luvas, além de se aglomerarem nas feiras livres e filas dos mercados, como se nada estivesse acontecendo. Todos ou a maior parte de meus vizinhos ignoram supinamente as advertências oferecidas pelos meios de comunicação. Uma crença estúpida e vã faz com que acreditem ser invulneraveis ou imortais. É um desdém só  e parecem crer que os médicos e enfermeiros do mundo inteiro estejam fazendo drama ou brincando.

O nível dessa gente é assustador.

No instante presente considero-me privilegiado por ter convivido com minha avó materna (Falecida em 1989 com quase 90 anos.) e dela ter ouvido as narrativas sobre a assim chamada gripe espanhola, a qual nada teve de espanhola, embora tenha deixado a vida de cinquenta bilhões de seres humanos, um deles meu tio avô - Ceifado com treze anos! Foi algo que abalou minha família e de que minha avó, sua irmã, jamais veio a se recuperar por completo.

Tudo cessará na então dinâmica cidade. As pessoas caiam mortas, extenuadas pelas ruas, faltavam mortalhas, caixões, coveiros... Famílias inteiras pareciam em suas casas... Sobreviventes endoidecidos corriam para os matos... Escolas, Mercados e Quartéis eram transformados em hospitais de campanha, na verdade depósitos de empesteados prestes a morrer... Até seus últimos dias minha avó repetia tais relatos, pintando-os com as mais vivas cores. É não era ela mulher impressionável, mas uma 'matrona' de fibra.

Após minha conversão a igreja romana (Sou de origem protestante) aos dezessete anos, ouvi os mesmos relatos do idoso vigário H. de Moura, cujo avó e tio avô tinham sido intendente e delegado desde os 900 até a 1920. Era um tal de valas públicas, gente enterrada viva, carroças com dúzias de cadáveres, casas abertas com todos os habitantes mortos e já apodrecendo, cheiro de carne podre, cal...

Os idosos viviam relatando isto nos anos 70 e 80.

Vejam então que tragédia social representa a morte dos mais idosos... Pois são eles, já  dizia Platão, no primeiro livro da República, história, tradição e experiência vivas...

Os mais jovens não vivenciaram, jamais vivenciaram uma praga ou peste e por isso não creem, desdenham e se expõem... Por darem ouvidos a demagogos. Não a Ciência. Não a Historia ou mesmo a medicina. Brincam com a moira ou bailam a beira do abismo.

Apesar de Itália, Espanha e EUA terem já tragado os amargos frutos da peste, parte de nossos conterrâneos julgam ser incólumes. Não os ricos e prósperos, que fazem suas procissões - Pedindo para seus empregados e serventuários irem trabalhar de ônibus, trem ou metrô (E contaminarem-se e contaminarem os seus!), quando sao eles que dependem do SUS - isolados em seus carrões e que não terão de misturar-se, além de contar com a melhor assistência médica...

Mas os pobres, por pura e simples ignorância, como em 1918 - E lembre-se, aqui tivemos uma Revolta da vacina, século e meio após Ed. Jenner... Ou o que é mil vezes pior, instigados por pastores charlatães ou curandeiros sem consciência. De modo que se pudessem i é caso não fosse o STF lá estariam, em suas seitas, todos juntos, abraçadinhos, disseminando o vírus entre nós. Por acreditar que são uns imunes ou privilegiados...

Aliás há que ouse, em pleno ano de 2020, dizer que essa peste é um castigo divino... Quando podemos observar tanta gente boa tombar e tantos canalhas e delegados escaparem, inclusive devido a sua condição social privilegiada. Mas os fanáticos, no paroxismo do desrespeito e da leviandade dirão que tantos quantos morreram eram vilões ou que o Bom Deus castiga o inocente junto com o ímpio. Veja então, estimado leitor, de onde parte a blasfêmia...

Caso as pessoas encarem a praga como sobrenatural, tenderão a crer que a solução é da mesma natureza, e recorrerão de modo equivocado a prece, enchendo os templos religiosos. O que só fará aumentar as dimensões da catástrofe... A simples prudência aconselha os que fizeram sua parte a rezar em suas casas, trancados em seus aposentos, como recomenda Jesus, o qual disse: Vem a hora em que não adorareis nem neste monte, nem em Jerusalém, e... Não habita Deus em locais de pau ou pedra feitos pelos homens... Ao menos por amor ao próximo todos deveriam ficar em suas casas. A malícia humana porém...

Quando o próprio governante, partindo de necessidades econômicas, envia o povo as seitas com o objetivo de que sejam sequestrados pelos pastores e incentivados a violar a quarentena, chegamos ao cerne de um problema que é social.

Há toda uma nova e perigosa cultura fetichista seja criacionista, geocentrica, terraplanista ou intensa a vacina, tudo está conectado por um mesmo espírito irracionalista, anti intelectual e anti científico tomado aos EUA, e tal infraestrutura é religiosa.

Quanto à classe média, que é o meio em que vivo e com que estou em permanente contato, parece ter aderido a um cômodo ceticismo ou abraçado aquele mesmo conspiracionismo tosco que nos anos 80 e 90 levavam-na a divagar em torno de extra terrestres, atlantes, gnomos, etc Paradoxalmente imaginam que a imprensa é que esteja a conspirar contra o querido Mercado e a aterrorizar as pessoas, isto em tempos se internet, quando as notícias correm em tempo real...

Parece não haver limite algum para a imaginação e a fantasia...

Em 1918 houve conspiração sim. Aliás promovida pelo governo Norte americano, com o objetivo de manter a produção e assim salvar a economia, a bolsa, as finanças ou o mercado, e o resultado da ocultação urdida pelo governo pareceram, só lá nos EUA, meio milhão de cidadãos.

Eis a razão porque meus vizinhos e conterrâneos juntam -se para divertir -se e comemorar, quando deveriam estar cumprindo uma quarentena responsável em suas casas. Muitas das cenas inacreditáveis que estamos a assistir devem -se ao mau exemplo dado por governantes levianos, irresponsáveis e sem consciência, os quais menosprezam a vida humana.

Qual será o resultado deste delírio coletivo?

Muito provavelmente uma hecatombe maior do que aquelas que já estão em curso na Itália, na Espanha ou nos EUA, sociedade em que os recursos tecnológicos, financeiros e assistenciais são bem maiores do que aqueles dos quais dispomos. Caminhamos para a catástrofe.

A gripezinha... Ensaio de sátira

Não vai ser essa gripezinha que vai me derrubar.

Há anos que não me sinto tão bem e tão leve.

Pandemia não é problema. Claro que alguns terão de morrer... Desde que não seja minha mãe, aquela octogenária que a essas horas está sendo vacinada em casa, lá em... bem lá onde não falta vacina ou onde há vacina suficiente, por mera coincidência.

Como eu ia dizendo alguns terão de morrer. Digo alguns cidadãos anônimos ou trabalhadores sem importância, não gente da minha família, do contrário não seriam alguns. Aliás se fossem meus filhos até teriam nomes e seriam importantes... Lembrem-se daquele clássico caipira sobre o boi de piranha. Alguem há que imolar-se no altar da Pátria ou melhor nos hospitais de campanha que estamos montando para amontoar os doentes não testados...

A questão é que não faltarão UTIs ou respiradores para nós. Afinal não tenho culpa de ser o presidente. O Estado pode bem ser mínimo, eu porém sou grande!

Tudo bem que a Naomi morreu, e o Azulão, digo Azulay, aquele dos óculos redondinhos. Um era desenhista e a outra pianista. Nunca gostei de desenhar e menos ainda de tocar piano... Em que esses artistas vagabundos beneficiam a economia???

'O artista é quem mais se auto promove. Recriminar no homem de negócios a preocupação com o lucro (COISA maravilhosa de Jesuis!), a vantagem metodicamente controlada todas as noites pela caixa que registra o haver e o dever. Esse tipo de avaliação é que por ser mensurável, é mais honesto que o dos artistas em geral, esses cujos valores abstratos e especulativos é impossível medir e inútil classificar.' C H Cony. FOLHA de S Paulo 25/06/1999 Ilustrada p 16. Por isso o desenhista e a pianista se supervalorizam!

Mas eles produzem o que? E dão lucro para quem?

Caracas, não disse que aqui só tem vermelho... olha um ali!

Pelo menos o montador e o pedreiro estão aí dando lucro para o Brasil... E não me venha com essa de que Brasil??? Isso não interessa - Brasil é Brasil,  pátria amada seu comunista. Pátria do pai que não tem um pacote de leite ou pedaço de pão pra dar para o filho recém nascido (Quem manda vagabundo fazer filho?) e do patrão que degusta trufas polvilhadas com ouro em pó... Porque ele trabalhou pra isso seu comunista.

Importante é a economia. E essa cambada de vagabundos sair de casa para trabalhar e fazer o nosso Brasil - Nada de Conta Bancária seu malicioso! - crescer. Se de tabela alguns idosos forem contaminados por esses vetores e vierem a morrer, menos aposentadorias, pensões e despesas... Completamos a maravilhosa reforma da Previdência e o ajuste fiscal fica mais fácil.

Outro vermelho! Aqui tá parecendo a sede do partido Comunista..

Alguns tem que morrer dessa gripezinha, seus boiolas... Maricões. Lembrem-se da gripe portuguesa, digo boiola, não espanhola...

Importante é ir trabalhar no ônibus lotado para por comida na mesa. Ou de achando que é só repetir 'Poem-te mesa' e jogar a toalha pra comidinha quentinha baixar do céu? Tá ai um conto para vagabundos que nem vocês.

Meu Estado é mínimo que nem a minha... Deixa pra lá, é curto, mínimo, pequeno, policial, ausente... numa palavra, de enfeite... Perguntem pro Guedes. Aliás cadê o Guedes que não tô vendo. Ele tava aqui agora mesmo...

Nas tetas dessa vaca comunista algum vai mamar... Só crente mesmo...

O que eu quero dizer é que nossa República minimalista vai deixar vocês morrerem de fome caso não saiam para as ruas ignorando as advertências da OMS... Posso ignorar Psicologia, Sociologia, a querida economia (Mas tenho o Guedes - Uai cadê o Guedes?) Mas creio conhecer muito bem a medicina. O negócio é se prevenir tomando aquele remedinho para malária a Hidroxihiroshima...

Importante salvar a economia. Priorizar as finanças. Vidas temos demais, vejam só a superpopulação!

Acabo de convocar uma reunião urgente com o Funaro, o Malan... Mas eles sequer quiseram me ouvir, permaneceram inacessíveis...

Se eu morrer vai é ser de infarto ou de apoplexia... não dessa gripezinha de bosta que só mau e artistas, atletas e maricas...

Sou forte, saudável , imune... Sou o Rambo, He man, exterminador do futuro, Super man, Capetão  América... Ratatatatata...

Putz, outro vermelho segurando a vassoura do Jânio... Que? Tredente? Aquele chiclete? 

Como que estou morto cara??? Tá de gozação comigo? Já disse que uma gripezinha dessas NÃO iria me atingir.

Olhar no necrológio ou nas manchetes dos jornais???

Eu que sou Fala do em Fakenews???

Não, não acredito...

Só me diz uma coisa.

Quem é aquele cidadão bem aprumado???

O Carlos Lacerda...

E aquele outro???

O Ustra...

Nesse caso, se morri de verdade estou no céus (O Malacheia prometeu!)...

Voz - Acho que não...

Boçal nato: Acho que estamos sendo grampeados...

PIPIPIPIPI....

Nesse momento o médium desperta...

Psicografado...

quarta-feira, 18 de março de 2020

Justificam os fins os meios?

Tema algum mais ético, premente e necessário.

No fim das contas a 'real polilitk' com a aceitação dos fatos e a fuga ao ideal, assim as razões de Estado que com ela se confundem e todo este universo dado remete ao mestre florentino. E no fundo da taça ou do cálice, após sorvida a poção, sobram alguns resíduos da máxima segundo a qual " Os fins justificariam os meios." compreendida sempre no sentido de que péssimos meios são justificam os fins ou o fim mais excelente.

O fim deste artigo é apontar a presença desta mensagem, codificada e defendida já pelo citado Maquiavel, já pelos positivistas advogados seus e toda gente da realidade dada ou da 'real politik'.

E bem poderíamos começar citando o caso de Andrômeda. Afinal nenhum dos súditos de Cepheo, temendo a fúria das ondas do mar, ousou tomar a moça por inocente e assim defende-la face ao decreto iníquo de Juno... Justo seria que a mãe dos deuses resolve se as coisas com Cassiopeia... Para toda aquela gente importava salvar a cidade ou o grupo, não quem fosse sacrificado...

Sempre temos sustentado a primazia da sociedade face aos interesses do indivíduo. O bem comum face ao interesse particular. O direito da cidade face as aspirações privadas. Isto em termos que ações livres, que não se choque com a justiça.

Há aqui um limite preciso no que concerne aos direitos e prerrogativas da Sociedade. Socialistas, trabalhistas, solidaristas, comunitaristas... Chamem-nos do que quiserem. Somos antes de tudo e acima de tudo humanistas e apóstolos da vida ética, jamais estatolatras ou totalitários.

Separados estamos não apenas de Maquiavel com sua 'real polítik' e suas razões de Estado, mas de Rousseau com sua soberania que ignora limites. Mesmo um Estado democrático ou policratico (Democracia direta), ou ainda popular deve conhecer limites e tais são os direitos inerentes a pessoa humana, os quais sequer pertencem aos domínios da política mas da Ética i é da Lei natural.

E podemos definir este posicionamento de um modo bastante simples - Os direitos da Pessoa humana não dependem de qualquer assentimento por parte do poder político, são essenciais e portanto padrões para a própria lei positiva. Nunca é demais repetir que leis iniquas ou anti éticas não são apenas inválidas mas criminosas. Deve a espinha dorsal do legalismo ser partida e quebrada sob impacto da Ética e duma Ética fundamentada no conceito de JUSTIÇA.

Uma abordagem recente do tema foi feita na Série 'The walking dead" naquele episódio em que o personagem Dale protesta contra a execução de Randall por pura e simples suspeita. Aqui a alegação é básica: Jamais se pode condenar um inocente ou fazer qualquer mal a ele sob qualquer pretexto, inclusive o bem estar do grupo.

Antes do assunto ser abordado no Walking dead já havia sido abordado com talento na 'Tempestade do século' de 1999. É este filme baseado na obra do merecidamente famoso Stephen King. A senha do vilão ou da entidade maléfica, o estranho Linoge é: Deem o que quero é irei embora! Mas que quer ele? Uma criança para levar consigo...

Deixará a pequena vila em paz ou seus habitantes com vida (A outra proposta seria morrerem todos.) em troca de uma oferenda inocente. Imaginando que em caso de sorteio um apenas dentre eles perderá seu estimado rebento e quevo rebento perdido será o do outro, eles encaram a condenação de um só inocente como a salvação de todos os outros e como era de se esperar aprovam este recurso...

Acho esse filme ou ao menos essa parte épica... Pois quase ninguém pensa ou quer pensar no inocente que será sorteado...

Todos inclusive o pastor, reunidos num templo, concluem que é justo causar dano a um inocente com o objetivo de beneficiar o grupo... Declaram e certificam ser justa uma injustiça caso favoreça a maioria e assim definem a justiça como algo relativo ao bem estar da maioria, mesmo quando implica prejudicar um ou mesmo alguns inocentes.

Que é isto senão assentir que os tais fins justificam os meios.

AGORA A PERGUNTA - ADMITIDA TAL PREMISSA ONDE CHEGARÁ A HUMANIDADE?

Passando da arte a vida ou a História temos a aplicação deste princípio em 1945 ou seja em Hiroshima e Nagazaki, cujo cenário todos conhecem.

Tratavasse da segunda grande guerra e apenas o Japão, graças ao xintoismo e ao culto tributado ao Imperador, seguia lutando contra o mundo. Sim, por falta de bombas haviam kamikazes ou pilotos fanáticos, que a semelhança dos Jihadistas islâmicos, estatelavam-se contra potenciais alvos...

Como os soviéticos de Stálin haviam chegado a Berlim primeiro e derrotado, e exterminado Adolph Hitler, os EUA, antecipando décadas de Guerra fria, aspiravam dar ao mundo uma lição de poder. O Japão era a vitrine perfeita e por isso o Enola Gay teve de lançar os tais artefatos, criados por Einstein e Heisenberg. Claro que se tratava duma missão secreta, a qual não deixou de produzir alguns interessantes casos de consciência.

Lançadas as bombas, devem ter morrido de imediato, em ambas as cidades, cerca de cem mil pessoas, algumas pulverizadas ou cremadas num instante... Nos próximos quatro meses o número de óbitos chegou a duzentos mil, aproximadamente. Estes foram vitimados pelas queimaduras, pelos esmagamentos, pelas fraturas e pela contaminação radioativa.

DIANTE DISTO, QUE PENSAR???

Primeiro que a maior parte das vítimas é constituída por civis inocentes ou seja por cidadãos que não estavam diretamente envolvidos nas operações militares. Mesmo em Hiroshima, onde haviam quartéis e soldados, o número de civis era consideravelmente maior. Já em Nagasaki eram praticamente todos civis, inclusive a histórica comunidade Cristã, estabelecida pelos jesuítas quatro séculos antes.

Desde o tempo dos gregos e dos romanos, ocorriam as guerras ou operações militares em campo aberto, sendo coisa de soldados. Muito raramente, como em Cartago e Corinto (146 a C), eram os civis em sua maioria exterminados. O castigo mais severo que os citadinos podiam esperar era a perda da liberdade ou a escravização, as vezes convertida em multa ou mesmo suprimida a pedido de algum artista ou intelectual.

Claro que haviam excessos e abusos. A realidade porém, de modo geral, foi como descrevemos.

Pouco ou nada mudou quanto a tão criticada Idade Media, na qual os conflitos se davam entre nobres e barões, não entre a gente simples dos feudos. Era coisa de técnica, executada entre elites guerreiras. É bem podiam os civis refugiar se por detrás dos muros dos castelos. Perdiam os bens, podiam sofrer fome, mas retinham suas vidas, ao menos pelos rogos do Bispo ou dos monges.

Claro que haviam abusos, violações e crueldades esparsas, não extermínio completo de civis inocentes e quanto a isto só me ocorre o saque de Beziers durante a Cruzada de Simão de Monfort contra os albigenses.

Tal a trajetória da guerra até a Idade Moderna, quando Hugh V Grotius, erigiu a imunidade dos civis em princípio Ético derivado do direito natural e converteu as guerras anteriores a Revolução Francesa e ao século XIX em tabuleiro de xadrez, i é, em coisa de soldados, alheia as cidades.

Quanto a possíveis exceções ocorre-me apenas o cerco de Drogueda pelo fanático Oliver Cromwell. Mesmo Richelieau permitiu que os calvinistas de La Rochella se expatriassem após a conquista da heróica cidadela.

Observem então o retrocesso secular... Representado pelo extermínio de civis ou de pessoas não envolvidas diretamente no conflito, enfim de inocentes e sem consideração de idade, sexo ou condição. Pois entre os aniquilados abundavam idosos, crianças, mulheres e mesmo deficientes; além de pessoas que se opunham a guerra e sofriam com ela... Toda essa multidão de gente alienada, inocente ou honesta foi antecipadamente condenada e sumariamente executada.

Observem e reflitam: Durante a primeira guerra mundial a cifra de civis mortos foi de 5% enquanto que durante a guerra da Sérvia, a cifra de civis mortos chegou a 95%, pelo simples fato da guerra sair de seu espaço, que é ou seria o campo de batalha e transformar-se em bombardeio a cidades ou grandes centros populacionais. Naquela ocasião - Da citada guerra - chegamos a ler num jornal reportagem em que um dos coordenadores da OTAN declarou que bombardearia as cidades mesmo que tal atitude acarretasse a morte de civis. E a tônica daquela guerra classificada como épica e humanista pelo Sr Vlac Havel foi levar o terror aos civis, embora se argumentasse que o caso era de se proteger o soldado 'externo' ou invasor. Linda causa - mesmo quando civis inocentes do 'outro lado' são despedaçados em quantidade.

Desde então um número cada vez maior de instituições civis de assistência têm sido bombardeadas em tais guerras, assim hospitais, orfanatos, asilos, etc Os senhores da guerra falam sempre em acidentes embora os riscos tenham sido assumidos premeditadamente... Encostados à parede falam em mal ou males necessários, civis devem morrer despedaçados porque as bombas lançadas sobre as cidades preservam o pessoal i é os soldados e garantem lucro as empresas que as fabricam.

Ainda que houvesse ali um único homem inocente e de boa vontade nossas conjecturas já seriam corretas, penso eu. Mas podemos multiplicar este homem por mil ou dez mil... Pois são crianças, idosos, enfermos ou deficientes sacrificados as dúzias a cada uma dessas guerras tecnologicamente sofisticadas da modernidade. É a questão sequer diz respeito à Vitória mas a economia.

O segundo aspecto aberrante é a forma como tal multidão foi executada -

Nas guerras e mesmo extermínios do passado o uso de armas brancas ou mesmo de tiro dava alguma mínima chance de defesa ou sobrevivência as vítimas. O que não mais ocorre desde meados do século XIX com a invenção da metralhadora e de modo cabal após a criação das armas de destruição maciça, como as bombas do século XX.

Tal e qual os Samurais é bastante provável que os soldados grego romanos e os cavaleiros medievais avaliada em negativamente esse tipo de armamento contemporâneo, pelo simples fato de impossibilitar a defesa, tornando-se cruel pela impessoalidade... Mesmo quando suas guerras fossem injustas eles não perdiam de todo o sentido da justiça.

O que quero dizer com isto é que toda aquela gente foi incapaz de lutar por suas vidas ou de defender -se. Foi tudo questão de botões ou de alavancas, com que se decide a aniquilação de centenas de milhares de vidas, obscuras e sem nomes... Elas sequer podiam fugir...

Mas houve ainda o aspecto da crueldade. Como no caso daquelas crianças que ficando presas aos escombros foram queimadas vivas.

Coisa bela como este homem contemporâneo é capaz de compadecer-se de Miguel Servet ou de Bruno enquanto permite que centenas ou milhares de criancinhas japonesas sejam queimadas vivas a fogo lento em 1945... Quiçá Torquemada e Calvino não fossem tão sádicos. Pelo que sabemos da inquisição papistas crianças jamais foram julgadas ou condenadas, o que era formalmente proibido...

No entanto aqueles irmãozinhos, cuja morte dolorosa foi descrita pela mãe semi doida eram japoneses ou xintoistas ou sei lá o que. E isto me faz lembrar a "TEORIA DOS SENTIMENTOS MORAIS" de Adam Smith, digo a passagem clássica em que discorre sobre os milhões se chineses mortos pelo terremoto e os sentimentos dos europeus...

Os Norte americanos, os maquiavélicos e toda gente boa das Razões de Estado, os positivistas não Éticos da 'Real polítik', os do direito positivo e puro - Toda cria de N Maquiavel busca ainda hoje justificar o extermínio de 45... Ah aqueles habitantes de Nagasaki já não eram homens como nós mas monstros... E cria -se todo um aparato mitológico, para que também possamos ser monstros e dormir tranquilos.

Mas eles enterraram chineses vivos?

Quem?

A lavadeira de Hiroshima? O velho primeiro de Nagasaki? Os gêmeos de quatro anos? A menina cega?

Não me oponham o japonês abstrato, fruto de generalizações falaciosas aos japoneses concretos. Alguns dos quais eram inocentes. É se houvesse um justo sequer??? Isso é Maquiavel e maquiavélico... Padronizar e rotular inimigo, arte da propaganda - E já se disse que a primeira vítima de qualquer guerra é a verdade.

Nada porém como Hiroshima e Nagasaki, e a piada segundo a qual os japoneses jamais se renderiam ou estariam lutando contra o mundo inteiro até hoje.

O máximo que se pode alegar em favor dessa atitude é que conduziria ao fim da guerra, poupando vidas... ou apenas dinheiro.

Não sei se de fato vidas seriam poupadas ou quantas seriam.

O que sei é uma coisa apenas: Sei que civis inocentes foram executados sem chance alguma de defesa.

Tem você aqui um fim sumamente louvável: O encurtamento de uma guerra. AGORA vamos ao meio: A execução de dez ou vinte ou cem mil inocentes sem chance de defesa.

É esse meio bom ou essa permuta justa?

Posso eu imolar um único inocente para salvar uma cidade ou país?

Sempre que contemplo minha sala de aula, com seus trinta alunos, costumo pousar minhas costas sobre qualquer um deles e me perguntar: Poderia eu, em dada situação, destruir a vida de um deles para salvar a sala inteira? E respondo quase que de pronto - Não, não, não... Afinal é questão de justiça. Um inocente jamais pode ser culpabilizado.

Mas todos somos imperfeitos e cometemos maldades...

Neste caso pode você matar qualquer pessoa???

A vida tanto é sagrada num quanto em cem.

Torna  -a digna a justiça, mesmo face a morte certa, por isso Sócrates disse que era melhor ser condenado injustamente do que justamente ou por ter cometido um crime qualquer.

O que devemos ensinar as gerações futuras é  Sócrates i é que a existência só vale a pena se digna ou justa, e que melhor é cessar de existir do que cometer um crime ou uma injustiça qualquer.

ENCERRO este artigo com as palavras do insuspeito J F Revel, pronunciadas na Academia, em 1999:

"Fins bons pedem meios excelentes. Acreditar que os objetivos mais nobres serão executados através de péssimos meios não passa de engano e ficção. Os meios sempre devem estar de acordo com os fins." Sobre a Virtude, citado de memória.


sexta-feira, 13 de março de 2020

Por que pego no pé do protestantismo???

Em primeiro lugar porque sou um ex protestante.

Em segundo lugar porque também sou ex romano.

Tendo sido um protestante convertido ao papismo bem posso comparar os dois sistemas religiosos, como fiz após acurado estudo.

Comte dizia - Para poder julgar qualquer sistema é necessário ter passado por ele e dele saído.

Foi o que fiz. Ao menos quanto ao protestantismo e o romanismo, e bem posso dizer:

"A natureza e a educação fizeram-me protestante, a o estudo da História me fez romanista e uma reflexão mais cuidadosa me fez Católico Ortodoxo."

No entanto minha grande fonte de inspiração tem sido naturalista e racional assim a cultura greco romana, numa perspectiva socrático aristotélica que me foi descortinada pela igreja romana, a qual muito grato sou.

O protestantismo ofereceu-me o antigo testamento... em péssimas traduções sem notas. Fez-me a mim um des serviço. Alias foi educado nessa lei repressora e insidiosa tomada ao antigo testamento. Educação que sequer os judeus atuais podem suportar. Permitam-me dizer: Nada mais pernicioso do que essa vida bíblica, cujo objetivo é tornar as pessoas amargas e infelizes.

Não vejo nada de belo numa pobre criança de sete ou oito anos andar de terno e gravata pelas ruas num calor de quarenta graus. Acho isto doentio. Já Rousseau dizia: No calor vistamos nossas crianças com roupas leves e curtas. Mas... A bela religião da bíblia não aceita o corpo ou a nudez, cuidando que tudo isto seja mau, e que cobrir ao máximo o corpo seja um ato religioso. Pelo jeito os antigos fariseus e saduceus que pregaram Jesus na Cruz muito têm a nos ensinar em matéria de traje...

Bem, a igreja romana apontou-se para o Evangelho, palavra e Lei de Jesus Cristo Verbo encarnado, e indicou-me a Filosofia greco romana, melhor dizendo a Aristotélica. Ofereceu-me o que há de melhor: Parmênides, Anaxágoras, Zenon, Cícero, Sêneca, Horácio, Virgílio...

Seja como for bem poderia eu lá deixar o protestantismo em sua paz e ignora-lo. Não fosse um aspecto seu que bem conheço: Sua politicagem e aspirações pelo poder político, noutras palavras sua disposição para controlar os seres humanos, como se não basta-se seu puritanismo ou moralismo insípido, que o protestantismo a bem da verdade a todos deseja impor, servindo-se do Estado e é claro de meios inquisitoriais. É apenas este projeto ambicioso, transplantado da horrenda Genebra para Londres, de Londres para os EUA e enfim dos EUA para o Brasil, em meados dos 900, que me faz combate-lo. Combato-o por cre-lo anti democrático ou melhor dizendo teocrático.

Mesmo antes da estrutura totalitária de Genebra calvinista se ter desfeito no décimo oitavo século já haviam eles enviado mestres a Inglaterra e por meio de Oliver Cromwell criado algo similar na Inglaterra. Tendo-se desfeito o modelo inglês, antes do original, lá foram os puritanos - incomodados pelas cruzes, bispos, torres e sinos - para o outro lado do Oceano caçar índios 'pagãos' (Cananeus!) e queimar bruxas ou mocinhas histéricas em nome do 'belo' livro chamado bíblica. O próprio Blackstone teve de dizer que existiam bruxas porque estava na bíblia i é no A T - Daí as fogueiras e atos de fé nos quais os protestantes - Apud Heredia 'Fraudes espíritas e fenômenos parapsicológicos'

No entanto tal e qual na Genebra, na Inglaterra ou em qualquer lugar que o homem pense e tenha dignidade, foi esse sistema, mais tacanho e mesquinho que o papal/medieval, vítima do tempo, desfazendo-se por assim dizer... Desde 1789 foram os sectários protestantes alijados do poder nos EUA, em nome de uma República secularizada ou laicista e pluralista. Afinal qual das centenas ou mesmo milhares de seitas haveria de controlar o poder?

Apesar disto os bíblicos, em sua grande parte calvinistas, mas também batistas, jamais aceitaram o novo regime, tendo-o em conta de ateu, sacrílego, blasfemo, etc mesmo porque a democracia é coisa que não faz parte do AT, documento essencialmente teocrático. Desde então apenas foram controlados pelo exército, lá pelos cantos do Belt Bible, espaço tão arisco e infenso a civilização quanto o Afeganistão ou o Sudão... O nome ali só muda de maometano para 'cristão' ou melhor protestante. Para os fanáticos vindos remotamente da santa Genebra foi uma grande frustração a perda dos EUA, sua última esperança em termos de uma sociedade controladora nos moldes da Torá ou do AT, em que bruxas, romanistas e pagãos pudessem sere queimados no jardim com as bençãos do velho jeová...

A esperança de todo é que não perderam. Cerca de 1890/1900 divisaram os sulistas fanáticos e alguns pastores fundamentalistas do Norte uma vasta porção de terra povoada por massas analfabéticas, o Brasil. E para cá enviaram logo as 'devotas' Márcia Brown e Charlotte Kemper, as quais conceberam as esperanças da colheita, no sentido de que algum dia no futuro seria este Brasil um país protestante e fiel as leis bíblicas, i é, a ressurreição do velho sonho ou pesadelo calvinistas com seus centos de: Calebs, Jededias, Naftalis, etc jamais Antonios, Josés, Marcos, Lucas, etc O espírito do calvinismo se revela até nos nomes e pequenos detalhes...

Talvez por ausência nada disto foi produzido no Brasil pela velha igreja romana. Mesmo com sua presença nada semelhante na Hispano América. Por isso Schwatz pode escrever "Cada uma na sua lei" descrevendo as atitudes liberais dos papistas daqui, fazendo-as reportar a velha península ibérica. Como registrou um cronista do Estado pouco antes do último jubileu "O papa clama contra o divórcio e os 'católicos' divorciam."... Por isso os 'Católicos' ousaram discutir o divórcio e aprova-lo, em que pese o Papa... Quanto aos clamores do hipócrita Paulo VI (O mesmo que deu fim a Missa antiga assumindo uma adoração protestante - Apesar de todo seu moralismo ridículo.) sequer foram considerados pela gente sã. Não estou dizendo aqui que o divórcio corresponda a um tipo ideal. Na maioria dos casos porém, mostra-se a melhor solução e a mais realista - Ruim com ele pior sem ele!

O problema do protestantismo é que se alguém disse "Está na bíblia!" o divórcio jamais será sequer proposto, debatido ou discutido. Não será, pois no protestantismo ortodoxo tudo se resolve ao "Maktub" ou "Está escrito!" - E todos dizem amém ou obedecem. Por isso prefiro o papismo, onde os súditos do papa mandam toda esta moralidade tacanha, tomada ao judaísmo, ao inferno!

É verdade que um ou outro papólico fanático tem cogitado controlar a sociedade ou dar conselhos ao Estado. Mas - oh coitado, basta dizer que seu belo papa, tão moralista, reformou o irreformável: A Tradição, a missa... E que eles papistas não tem idoneidade para qualquer coisa, posto que violaram seu próprio princípio> A tradição... Todo esse moralismo é sinal claro de decadência e crise. Não o imoralismo, mas o moralismo ou puritanismo, tomado a cultura protestante a menos de quatro século. A Idade Média, tão apedrejada, foi época de imoralismo ou 'indecência' e por isso tão odiada pelos protestantes ou bíblicos. E ela era mais ética, mais evangélica, mais fiel a tradição e mais Cristã! A reforma com sua moralidade puritana avançou no sentido do judaismo antigo ou do AT e assim foi um retrocesso, assimilado pelo neo catolicismo... Por isso Paulo VI e J P II fixaram-se na moral judaica, aproximaram-se do protestantismo e abandonaram o Dogma isso é a integralidade da divina Revelação... Perderam de vista a Trindade, a Encarnação, A sinergia, os Sacramentos, etc para se fixarem em posições sexuais, masturbação, procriação, etc ou em mitos judaicos como o dilúvio... Quanta miséria! Que patético!!!

Com líderes tão ridículos a humanidade não tem porque assustar-se, mas, o clamor bíblico protestante continua amedrontador, como evidenciam o criacionismo e o terraplanismo.

A Igreja romana tem coisas melhores para oferecer a seu público do que mitos judaicos e moralidade tosca. O protestantismo além de ter apenas a Bíblia e 'Ó tragédia' priorizar o que nela há de menos nobre: As páginas fetichistas e agressivas do Antigo testamento, fixou-se morbidamente nelas. Tornando-se irredutível.

Um amigo meu, após chegar a conclusão de que as sinistras Brown e Kemper parecem estar ganhando - Na medida em que o Brasil se vai convertendo em outro Estados Unidos ou em algo ainda pior (Sem o Norte irreligioso para contrapor!) - assim expressou-se "Enquanto nossas igrejas (Católicas ou Episcopais) fizeram opção preferencial pelos mais pobres os mais pobres parecem ter feito opção preferencial pela assembleia de deus."

Num pais em que se produzem massas mesmo este papolicismo degenerado não se sustenta. Nina Rodrigues já o dissera "O 'catolicismo' é Teológico" exigindo aparato filosófico e certo nível de conhecimento, o que demanda uma sólida estrutura educacional. O protestantismo, sendo fetichista, alimenta-se de esperanças mal direcionadas ou de utopias movidas pela ignorância. A associação entre miséria e ignorância, criada pelo liberalismo econômico, beneficia-o... Eis porque é o liberalismo econômico endossado por eles... Angustiadas e sem esperança as pessoas se lançarão nos braços do fanatismo!

O Brasil tem tudo para converter-se numa república confessional e fundamentalista nos moldes do Antigo Testamento ou de Genebra, o que por si só é tremendamente ameaçador. Em tais circunstâncias que seria dos incrédulos e dos dissidentes, digo, dos cidadãos ou contribuintes livres? Que seria nas minorias culturais e religiosas??? Que seria dos jovens e crianças??? É todo um mundo de gente ameaçado pela espada de Damoclés do sectarismo...

O papismo como o hinduísmo ou o budismo não têm pretensões. O pentecostalismo insolente tem-nas em demasia, qual o islamismo... E não podemos ignora-las ou permanecer de braços cruzados enquanto atacam casas de candomblé/umbanda, restringem nossas liberdades ou tomam posse de nossas escolas, quando não dizem ser "Feliz a nação" cujo deus é o senhor deles ou que a bíblia esta acima de nossa Constituição ou da Lei. Só falta mesmo partirem para cima das wiccanistas para queima-las porque até mesmo santuários papistas invadem com o intuito de profanar as estátuas... Para nós nada disso é estranho, por isso, conhecendo o espírito teocrático, combatemos o protestantismo. E não toleraremos qualquer fé que queira controlar e uniformizar o corpo social as custas de nossas liberdades e direitos, pelos quais bem vale morrer, lutando e de pé.

quinta-feira, 12 de março de 2020

O sentido político do proselitismo protestante nas escolas públicas do Estado de São Paulo

No artigo interior fizemos uma denúncia bizarra... Se não há, certamente houve, há alguns anos, exercício de proselitismo religioso em certas escolas públicas do Estado de São Paulo. Estou averiguando para saber se tal situação ainda ocorre... Assim se determinados projetos 'laicos' ou 'éticos' realizados nas Escolas por voluntários religiosos exercem qualquer tipo de propaganda, direta ou indireta visando converter os alunos ou levar-lhes sua fé. O exercício de proselitismo na Escola pública, com o apoio de aparelho estatal, é crime líquido e certo, alias, julgo eu, sem atenuantes.

Incluo aqui as orações. Orações em alta voz, instrumentalizadas por líderes, bem pode ser ser utilizadas como forma de proselitismo, pelo simples fato de produzirem certo clima psicológico, tipicamente eclesiástico, na escola pública. O que é inadmissível numa cultura democrática.

Importante, acima de tudo, saber que este assalto religioso tem um significado político. É um proselitismo em favor de certa política e uma política favorável ao proselitismo, uma mancebia Estado/Religião, uma troca de favores, uma máfia espiritual e um ataque ao estado Laico, assim a Constituição, Lei maior deste país.

Que querem os políticos ou demagogos???

Votos - De preferência a toneladas... toneladas de votos...

Mas como obter toneladas de votos empacotados???

Tudo isto tem uma História. Perpasse-mo-la!

Como todos sabem foi a Proclamação da República uma espécie de golpe ou motim, não algo espiritual ou ideal, que tenha partido do povo. Sequer povo havia naqueles tempos, mas massas analfabéticas, quiçá não tão estúpidas e degradadas como as nossas, mas, em todo caso massas, não povo, em termos de cidadania consciente. O povão só soube da República, em alguns casos, meses ou mesmo anos após sua proclamação (Como diz o conto do Chernovicz), só lhe restando aceitar e aplaudir. O senso comum era sinceramente monarquia e quem representava o pensamento 'popular' (Se assim posso escrever) era o Antonio Conselheiro.

O povo devia permanecer, como sempre ou até mais, sob controle. E já se disse que o Pedro barbudo (O filho - segundo II) fora mais democrático que os primeiros presidentes, como o ditador Floriano. Bem, era necessário criar uma ficção democrática ou dar ao povo a ilusão de que a si governava quando era governado, mais até do que sob o antigo regime... Para tanto prestaram-se os coronéis. Os coronéis foram o creme de chantilly daquele 'Café com leite'. Era eles que arregimentavam os sufrágios para seus compadres ou apadrinhados políticos e moviam toda estrutura da primeira República. Ocupavam a base e mantinham o sistema, amedrontando ou coagindo fisicamente os eleitores. Esse voto dirigido pelos coronéis foi chamado voto de cabresto e vencia o pleito quem tinha o apoio e as bençãos deles.

Essa festa ou orgia coronelesca durou até 1930 quando o gaúcho valente desarticulou a máfia. Desde então apenas a valsinha ficou com saúde desses coronéis babões e pedófilos tão bem pintados por Jorge Amado...

O Estado de S Paulo, no entanto, tendo sido alijado do poder e posto a margem dele, insistiu que o coronelismo era sinônimo de democracia e que tudo iria muito bem 'obrigado', não fosse o 'odioso' ditador Vargas... E levantou-se contra ele com o objetivo de defender a velha ordem do pão, pão; queijo, queijo... Getúlio no entanto não abalou-se... E paradoxalmente uma ditadura foi que criou o primeiro impulso democrático neste estranho país. Trazendo a tona temas como 'bem como', 'justiça social', 'direito do trabalho', etc A educação conheceu seu primeiro salto qualitativo sob Gustavo Capanema... E por isso aquele ditador 'odioso' era amado pelos trabalhadores, camponeses e por toda gente simples.

Para os liberais economicistas - Liderados pelo Lacerda - comunistas e anarquistas no entanto era Vargas um déspota, por isso fizeram um pacto - a Oposição - com o objetivo de derruba-lo, mas ele, mostrando brios: Saiu da vida para entrar na História... E sua política, para desespero dos sediciosos e da 'nova' elite militar, continuou. Carlos Lacerda bem que tentou realizar seu eterno sonho de tornar-se presidente (Foi o modelo do Aécio Neves!) mas não conseguiu enganar o povo e ser aceito.

Quando o Jango ganhou foi um 'disparate' e de pronto as forças e poderes sinistros tentaram remove-lo. E até teriam conseguido não fosse o herói Leonel Brizola.

Herdeiro da política e do ideário getulistas Jango jamais flertará com o Comunismo, aqui representado por meia dúzia de gatos pingados, inda que sediciosos. Era Jango no máximo Social democrata ou adepto do bem estar social, noutras palavras, trabalhista, reformista ou algo assim. Otimista, imaginou ele que dava para avançar e saiu-se com a tal Reforma agrária, reforma implementada em quase todos os países civilizados - Na França por exemplo desde 1789, pela grande Revolução... Foi quando alguém berrou comunista e o povo ficou atemorizado, por lembrar-se das cagadas feitas por Lênin e Stalin... Foi como recorrer ao 'mito' de Sorel. O grito 'bolchevista' eletrizou gregos e troianos, numa nação em que os Católicos alienados nada sabiam sobre a doutrina social de sua própria igreja... Com um empurrãozinho dos EUA o pobre jango foi derrubado e substituído pelos militares, digo pelos novos militares, não pelos companheiros de Getúlio, os quais a exceção de Teixeira Lott estavam já quase todos mortos e enterrados.

Rachel de Queiroz (F S P 1999) anti getulista confessa, declarou: Agora nós eramos o poder ou a ditadura! Nós, os adversários de Getúlio e os novos militares.

Esclareço - Os militares do tempo de Getúlio i é seus companheiros, eram pelas tradições nacionais e cultura brasileira. Os novos militares, desde 1945 - i é da segunda grande guerra - morriam de amores pelos EUA e derretiam-se todos por aquela potência estrangeira e sua cultura. Era decididamente pró capitalistas e tecnicistas. Para eles os EUA representavam o progresso e o Brasil, o atraso... Era quase todos americanistas e nada tinham de nacionalistas, exceto por um culto de símbolos e aparências. Nossas tradições, costumes e cultura era para eles dignos de riso. E tínhamos de assimilar ou afetar os costumes Norte americanos caso quiséssemos avançar. O programa era transformar isto aqui em província cultural dos EUA ou num país vassalo (Colônia).

A bem da verdade tais ideias não eram novas ou recentes, remontando ao antigo regime. Já pelos idos do segundo império principiou Tobias Barreto a endeusar antes de tudo a cultura alemã e em seguida a cultura inglesa (Apesar do 'deus' Comte ser francês e admirador do Catolicismo!). Foi seguido por Sílvio Romero (E na Argentina houve um Domingo Faustino Sarmiento)... Os quais opinavam que a suprema desgraça de nossos países era terem sido colonizados por latinos, i é portugueses e espanhóis e não por alemães ou ingleses como os EUA, o país que dera certo... Graças as virtudes inglesas. Era o que diziam eles, proclamando a superioridade da cultura anglo saxã, em cuja base estava o protestantismo, 'cornucópia donde manavam todas as joias da civilização'...

Em última análise todas as nossas desgraças - Como a 'Idade das trevas' (Outro mito construído pelos protestantes!) - deviam-se a velha igreja romana i é da religião vigente nos países latinos como Portugal e Espanha... Todos os progressos vinham do protestantismo, como postulará apressadamente o Belga E Lavellaye e ainda era repetido pelo gramático e pastor Eduardo Carlos Pereira em "O problema religioso na América Latina" (1920), ensaio em que repetia as pérolas do Lavellaye e dos nossos germanófilos. Afinal se assim o era a solução era protestantizar a América Latina, o que alias era intensamente desejado pelos EUA. Quanto a E C Pereira foi completamente pulverizado pelo jesuíta Leonel Franco em sua obra "Igreja, Reforma e Civilização" umas das melhores obras religiosas já escritas no Brasil. Lamentavelmente o erudito jesuíta abordou prioritariamente o tema religioso ou espiritual, deixando de desenvolver mais o tema político e social.

Tal e qual no vizinho Chile, o protestantismo avançou bastante no Brasil durante o período militar, e Décio Monteiro de Lima nos explica porque. Claro que o Vaticano II tem grande parte de culpa... E todavia o discurso americanista dos novos militares não era nada inocente. Se assimilar a cultura N Americana significava progredir esta assimilação tinha de passar pela adesão ao protestantismo cujas seitas aqui introduzidas produziam grande clamor.

Seja como for durante este período não se precisava preocupar com votos, uma vez que a ditadura havia dado cabo da democracia. Por outro lado, nem mesmo a igreja romana seria capaz de produzir algo semelhante ao velho coronelismo, intimidando e manipulando as massas.

Os resultados da Ditadura são bastante conhecidos por todos: Investimento considerável numa alfabetização sumária ou elementar (De encontro ao protestantismo e o soletramento da bíblia), empobrecimento quanto a educação superior ou crítica, renúncia a justiça social e sistemática violação de direitos, com certo saldo de mortes e tortura; enfim a destruição do espírito ou da consciência democrática.

Mas havia algo ainda pior por vir! E no final dos anos 80 - A retomada de uma forma democrática sem espírito, consciência ou cultura, e com matizes de liberalismo econômico é claro. Nos anos 90 foi restaurada a estrutura democrática, e posta a serviço do economicismo neo liberal. Aquele tempo nem as pessoas sabiam votar nem havia qualquer cabresto... havia um despreparo geral, agravado ainda mais pelo voto dos analfabetos. Disto resultou tremendo Caos e o funesto período FHC... Uma vez expulsos os trabalhistas juntamente com os sectários comunistas, foi a retomada das formas democráticas intencionalmente posta nas mãos dos liberais e neo liberais, os quais assumiram o status de heróis, bem como suas agências partidárias como PMDB, PDS, PSDB...  FHC aspirava fazer nos anos 90 tudo quanto Boi Sonoro agora faz, i é as ditas reformas, mas foi sucessivamente barrado pelos getulistas e petistas. Hoje os getulistas estão mortos...

Até que chegou o Lula e com ele e o PT, o dilúvio... Uma vez que as tais reformas foram dadas por enterradas ou engavetadas. No mínimo o ritmo delas se tornaria bem mais lento. Diante disto o Mercado ficou enfurecido...

Os liberais precisavam retornar ao poder e impor seu programa aos brasileiros, prestando com isto imenso serviço ao mercado... Mas não podiam voltar ou consolidar-se sem as toneladas de votos fáceis ou empacotados, como no tempo dos coronéis. Tampouco podiam eles ressuscitar os coronéis ou contar com eles. O cabresto da chibata ou do revólver estava findo, definitivamente.

Haviam no entanto os pastores... Os quais também sonhavam com o poder político, uma vez que já tinham o poder de guiar as consciências e orientar votos. Bastava então saber usa-los, como material de troca. Os pastores criariam - como criaram de fato - um novo cabresto, espiritual, e forneceriam toneladas de votos aos políticos sem consciência, em troca estes lhes abririam as portas das Escolas públicas, de modo a controlarem a Educação, cooptando mais e mais consciências e controlando mais e mais eleitores...

Foi exatamente assim, com o apoio das mafias religiosas e dos fanáticos, que o PSC, PSL, PSDB, PMDB, DEM e outros partidos removeram o PT e chegaram ao poder, fazendo acordos, traindo o laicismo e oferecendo a educação pública de mãos beijadas aos pastores ou as pessoas por eles instrumentalizadas. O que é absolutamente necessário, se se quer que a dita máfia aumente e o esquema continue vigorando... Numa palavra cidadão brasileiro: Fomos todos vendidos aos pastores e fundamentalistas... Aos quais o Boi Sonoro distribui os cargos que pode, assim o Dória e outros governadores. Em posse do poder eles forçam a Constituição, interpretam, burlam e se esforçam por introduzir mais e mais grupos religiosos na Escola pública, com o objetivo de exercer um sutil proselitismo.

Na medida em que crescem e obtêm mais fieis as seitas convertem-nos em eleitores do Dória, do Boi sonoro ou do PSC, ou votam nos candidatos indicados ou irão para o inferno declaram os pastores. Votam nos candidatos de Jesus ou não obterão graça alguma. Com esse tido de cabresto, digo, de voto, que fica sendo da democracia??? Nada... Pois o pastor manipula o pobre do eleitor como o vidraceiro manipula a cera quente...

Neste momento as seitas protestantes são imensos celeiros de votos com que contam os liberais e neo liberais... E podem fazer cálculos e contar antecipadamente com eles, posto que não são menos controlados do que os votos de nossos ancestrais sob o jugo da primeira república. Apenas o cabresto de hoje é mais apertado porquanto interno, mental ou invisível; o que mantém as aparências, sem torna-lo menos eficaz. É cabresto porque há imposição por parte de um lider religioso.

Resta declarar que os fanáticos religiosos negociam apenas porque ainda não constituíam ampla maioria no exercício do poder. Fossem eles maioria e já teriam legislado em favor próprio, obtendo privilégios e vantagens. Daí a dissimulação e o ocultamento ou mesmo prudência com que dirigem-se as escolas públicas alegando oferecer projetos que não violam a laicidade - Ainda que hajam orações em sala, e orações tipicamente protestantes. Julgo que o STF ou qualquer órgão da justiça devesse estar investigando isto há muito tempo, pois não é novidade para quase ninguém. Caso as autoridades sejam coniventes ou se omitam que cada um faça sua parte e cada cidadão promova a resistência.

Caso você retruque e me diga que a Escola pública jamais foi laica - Nos anos 70/80 e 90 eu conheci uma escola pública 100% laica! - ou que a igreja romana sempre desejou exercer certa influência sobre ela, devo dizer, a guiza de resposta, que a Igreja romana, em que pese seus vícios e defeitos, jamais foi moralmente tão invasiva, pretensiosa e arrogante quanto o protestantismo bíblico vindo dos EUA, o qual tudo pretende dominar e pautar pelo antigo testamento com seus milhares de tabus e preconceitos. O sectarismo protestante me parece mais estreito e sufocante, digo-o como ex protestante. Por isso o crítico, não enquanto fé ou crença religiosa mas enquanto fonte de poder e dominação.

quarta-feira, 11 de março de 2020

A escola pública e o proselitismo 'oculto'

NÃO versa este artigo sobre as aulas de religião na Escola pública, as quais me oponho decididamente, seja qual for sua forma. E caso me fossem atribuídas tais aulas delas declinaria... Aqui dou razões aos anarquistas e comunistas (O que aliás raramente faço!) - Neste caso por que não aulas de economia ou de política? POR QUE priorizar a religião ou a fé se temos imenso déficit de conhecimento político básico, em termos de formas e estrutura, como sistemas, regimes, Constituição, etc???

Aulas de teoria Política e de Psicologia seriam bem mais úteis aos adolescentes, aos pequeninos elementos se Sociologia e Filosofia seriam infinitamente mais proveitosos. Com Fustel de Coulanges compreendo o poder e a força social das Religiões, mas como economia e política factual é coisa que já se aprende nas aulas de HISTÓRIA ou GEOGRAFIA HUMANA.

Não examinei teor da decisão do STF (Não repeito DOGMAS 'seculares' pois dogmas só  vão bem com a religiosidade ou a fé!) a qual como disse oponho-me com base nas alegações acima. Creio todavia que não deve autorizar ensino confessional nas escolas públicas, assim o proselitismo. Penso que a educação pública ainda não tenha sido assaltada pelos pastores protestantes...  Ao menos com o apoio do poder público ou do STF. Em que pese os esforços malignos deste governo norte americanizantes e vendido aos charlatães bíblicos.

O proselitismo oculto a que me refiro, enquanto elemento sutil porém perigoso, outra coisa é.

Por isto narrarei genericamente um fato do qual tomei parte, já há algum tempo, na Escola estadual Paulista de que faço parte, como professor concursado ou efetivo já há quase quinze anos.

A narração será genérica já por respeito as atuais diretora e coordenadora, as quais em parte deram-me razão e compreenderam meu ponto de vista, além de terem feito um legítimo contraponto e me convidado, elas mesmas, para que eu examinasse o dito projeto sendo posto em prática.

Por isso não posso denunciar qualquer coisa ou trazer tais fatos a público, o que de outro modo já teria feito. Porém, por questão de justiça, tenho de examinar os fatos mais de perto e assim as alegações da outra parte.

Servirá no entanto, quanto aos traços gerais, para suscitar uma reflexão e orientar todos os professores numa grave questão de cidadania, da qual depende a sobrevivência ou não da própria democracia.

Há tempos algumas alunas 'Caxias' - Cujas identidades preservarei até o fim e jamais divulgarei - vieram até mim e disseram estar incomodadas porque sendo de cultos africanos tinham, ao fim de certo projeto, ouvir umas preces em nome de Jesus (Devo dizer que sou Cristão e adoro Jesus.) e parece alguns versos bíblicos. Estavam elas, como é natural constrangidas e isto me alarmou.

Imaginei se eu ou filho meu lá estivessemos, numa classe pública lotada e alguém lá fosse falar sobre Maomé e depois convidar-nos a recitar a fatiha...

Passou algum tempo. Eis senão quando vou entrar em minha aula é imediatamente antes de mim entra este grupo de projeto que fora acusado... Pelo sim pelo não, tendo em vista certos precedentes relacionados com outra equipe gestora, solicitei a inspetora que os fizesse sair para que pudesse entrar e ministrar minha aula - Direito meu. Adicionando que em caso de necessidade faria um BO.

Até aqui tudo bem. Sucede que perto da inspetora se achava um aluno do tipo 'crente fanático' o qual dirigiu-me a palavra apenas pata declarar que os religiosos tinham pleno direito de orar e pregar nas escolas públicas caso os alunos quizessem. QUAIS ALUNOS? TODOS??? Mencionei as leis, a CONSTITUIÇÃO, etc com o objetivo de esclarecer o dito jovem sobre a coisa pública, o laicismo, etc Ele no entanto mostrou-se irredutível e inclusive ergueu a voz, como típico é dos sectários... Respondendo eu no mesmo tom. ATÉ QUE os voluntários religiosos deixaram minha sala e lá pude entrar..


E nem havia iniciado minha aula quando me vem a Sra coordenadora querendo falar comigo. De fato pouco receptivo fui e até aspero tendo em vista o histórico da Unidade e os fatos imediatamente ocorridos, alias supondo que ela, a coordenadora, tentaria enfiar o tal grupo em minha sala. Iniciou-se uma discussão que lá foi parar na sala da Direção.

A diretora, aliás educada e paciente, tentou entender e esclarecer a situação. Relatei a denúncia feita pelas alunas sobre orações confessionais, aliás protestantes e possível citações de sei lá que versos bíblicos e declarei irredutível que tal era violação de consciência e crime contra nossa lei maior, a Constituição.

A coordenadora, aliás espírita, disse que a dinâmica em si nada tinha de religiosa ou credal mas que no entanto após o término havia uma espécie não de 'oração', com esse nome, mas uma reflexão em que cada aluno se dirigiria ao Sagrado nos termos da sua própria religiosidade... A qual insistia ela tinha outro nome...

Repliquei declarando que o nome era indiferente se a prática era a mesma e havia uma oração confessional, mencionando bíblia, Jesus e com mínimo conteúdo protestante ou exemplo de formas tipicamente protestantes fornecido pelos organizadores.

Como de praxe declararam que na sala ninguém era obrigado a aderir a reflexão e que sendo ela livre não violava a consciência de quem quer que fosse.

Respondi que está atitude era discriminatória e que certamente constrangida os possíveis irreligiosos, ateus, etc Politeísta - pois certamente ali não se falava em deuses... muçulmanos, etc mesmo aqueles que se sentem incomodados pelos gritos e berros dos pentecostais...

Claro que chegando aqui - FUI irredutível por questão de justiça - foi me assegurada a liberdade de cátedra dada por lei e nem me preocupo com Conselho, Equipe gestora, etc caso destoem da Lei maior da Constituição, garantia da liberdade de Consciência e da igualdade entre todos os cidadãos.

Por fim indagaram a respeito de meu manifesto nervosismo. Foi quando me referi ao jovem fanático, a respeito do qual elas certamente já sabiam porque - Pasmem! - ele, muito provavelmente, já se antecipara a mim, indo a diretoria denunciar-me por defender o laicismo e a Constituição e os direitos da Consciência livre. AGORA PAREM E ANALISEM ESTA POSSIBILIDADE MONSTRUOSA... Aquele jovem certamente cria que aquele espaço público, mantido com nossos impostos, fosse propriedade, líquida e certa, da seita ou grupo a que pertence!!! ONDE CHEGAMOS...

Terminei minha entrevista com a equipe gestora declarando em alto e bom som que quando ingressei naquela unidade há doze anos, pouco mais pouco menos, a equipe gestora (DIRETOR E VICE) não apenas cediam o espaço escolar para diversas organizações religiosas protestantes - A ponto de converte-se numa seita de células aos sábados e Domingos - como promoviam shows gospeis, palestras confessionais e mesmo cultos em pleno periodo letivo e com ampla atividade proselitista, com grave dano a CONSTITUIÇÃO, digo a lei. ISTO ocorreu numa Escola pública do Estado de São Paulo a partir de 2007 e há sobejos testemunhos ja de alunos que se sentiram incomodados, ja de professores que la trabalharam, nessa Escola dirigida por um fanático truculento...

Ora, alguns colegas até gostavam de ceder suas aulas a esses doutrinadores religiosos. Nem todos e menos ainda eu. Porém por fragilidade, estando no probatório e temendo retaliações, não pude denunciar - Ademais temia pelos demais, fossem alunos ou funcionários e havia ali um espirito SECTÁRIO e inquisitorial, bastante conhecido por mim...

Dai minha prevenção contra este novo projeto, do qual se haviam queixado duas meninas.

Até aqui os fatos. SEGUEM AS REFLEXÕES -

Sendo a prece ato pessoal dos que creem não há como os indiferentes ou incrédulos não se sentirem constrangidos. Assim como cristão devo fazer justiça aos ateus e incrédulos e reconhecer-lhes o direito de não querer participar de preces ou sequer presencia-las em espaço público. Posto que tal viola o santuário divino da Consciência.

Um ateu ou incrédulo tem pleno direito de sentir-se incomodado por uma prática cujo sentido desconhece ou ignora.

Mas há ainda os religiosos que não desejam fazer preces inter confessionais - Testemunhas de Jeová, 'Católicos' tradicionais, Adventistas, Mórmons, muçulmanos, hindus, etc decididamente tais grupos não desejam rezar na companhia de pentecostais fanáticos ou a moda deles porquanto as concepções de prece são diferentes.

Consideremos ainda que em tais classes ou salas os pentecostais costumam a sentir-se mais a vontade para rezar em público, como se estivessem em suas seitas e podem se por a berrar e gritar em alta voz como já presenciei. Para outros a prece é mais sóbria, interior, recatada... E as vozes e pensamentos deles ficam abafados pela gritaria pentecostal... QUE FAZEM DAS PRECES UM MEIO DE PROSELITISMO, por berra-las.

Ademais eles bem podem ser instrumentalizados pelos pastores neste sentido (Ex protestante fui criado nesse meio inescrupuloso.), a ponto de nessas preces ingênuas ou comuns produzirem um clone tipicamente pentecostal ou sectário.
Manipulam assim uma 'reflexão' a princípio voltada apenas para o Sagrado e inter confessional. Colocam isso no papel mas na prática podem distorcer, e exercer um proselitismo oculto ou sutil.

Daí surge fatalmente a revolta, por parte dos não crentes, conflitos, problemas, discriminações e preconceitos como já testemunhei. O que é deseducativo e choca-se com a harmonia que deve reinar no ambiente escolar. Para além disto disseminam ideias anti científicas e anti filosóficas como criacionismo, terraplanismo, etc Além de conteúdos moralistas e puritanos ou mesmo teocráticos e anti democráticos; o que dificulta imenso o trabalho escolar.

Por isso sou decididamente contra as preces em ambiente escolar, mormente quando promovidas por algum grupo religiosos, e, particularmente contra preces feitas e classe ou salas de aula.

Seria menos agressivo ou invasivo caso algum membro da equipe gestora apenas convidasse, a hora da entrada, quem quisesse - Sem convocação ou fila - para parar e recitar o Pai Nosso ou fazer uma prece silenciosa no pátio, enquanto os demais iam diretamente para suas salas... Aqui se poderia apelar a cultura ou ao costume e não haveria constrangimento. Mas poderia abrir precedente para justificar outras coisas, como a oração em sala...

Nós no entanto preferimos que a letra da Constituição ou da Lei seja observada, e que evento religioso ou prece alguma seja realizada em espaços institucionais, especialmente quando existem elementos proselitistas. Assim dentro da convivência vai bem o respeito.

Concluo dizendo que vivemos um momento arriscado ou delicado em que os pastores e suas ovelhas apoiaram este governo com o objetivo de obter vantagens e benefícios, como poder político ou a possibilidade de invadir e tomar nossas escolas públicas, consolidado seu poderio. Eles parecem querer usar a educação pública com o objetivo de converter nossos jovens e crianças e estabelecer uma teocracia moralista.

Há cento e trinta anos tiramos a educação das garras da Igreja Romana para torná-la laica e democrática ou para coloca-la nas unhas desses pastores enviados pelos EUA??? Caso nossos ancestrais tenham lutado para que a educação fosse, ao fim do processo, entregue a uma agremiação ainda mais insidiosa e mesquinha do que a Igreja Romana foram perfeitos idiotas, pois ao menos a Igreja Romana, com seus Pai Nossos e Ave Marias, fazia parte de nossa cultura... Que se deixasse tudo como estava. O que nossos ancestrais conquistaram em 1891 - A Escola laica, fundamento do Estado democrática - religosamente mantenhamos.




terça-feira, 10 de março de 2020

Em torno do caso Suzy - Reflexões

Os perus andam em bando enquanto as águias voam solitárias.

O que ora observo são dois bandos de extremistas buscando polarizar a opinião pública.

Não rasteja com bandos de peru seja pela direita ou pela esquerda, mesmo admitindo ter alguma afinidade com esta.

Seja como for não pertenço nem a esquerda radical nem a esquerda cirandeira ou pós moderna, a qual apartou-se da ética essencial com seus valores imutáveis.

Concedo que tendo a Suzy cometido um crime deva ser punida com todo rigor da lei, após ter sido psicologicamente avaliada e considerando-se possíveis atenuantes. Por isso chamasse justiça e não vingança.

Aliás, certificada a normalidade do criminoso e consequentemente sua racionalidade e livre vontade, é aplicada uma determinada pena não com o objetivo de vingar -se, mas, com o objetivo de recupera-lo. Desde os tempos de César Beccaria são as punições medicinais, destinadas a recuperar não a aviltar.

Não queremos dizer com isto que a prisão deva corresponder a uma colônia de férias. Resguardada a dignidade essencial do preso deveria ele custear sua estadia na prisão trabalhando. E é claro levar vida sóbria e simples, sem comodidades e luxos... Poderiam assim trabalhar em obras públicas, consertando pontes, estradas e edifícios.

No mínimo o isolamento produzirá neles um sofrimento interior, o qual poderá conduzi-los a reflexão, a virtude, a emenda e a mudança de vida.

Será um sofrimento benéfico porquanto derivado da própria culpa. Caso o reconheça como justo e o aceite, e o cumpra, o criminoso poderá mudar de mentalidade e retornar ao convívio social, recuperando sua dignidade. Outro não pode ser o escopo da punição - Ou ainda estaríamos variando ou cortando gente em praça pública, apenas para satisfazer um instinto tão baixo quanto a vingança.

Ao mesmo tempo que compreendemos a dor de quem teve um parente assassinado ou torturado cremos que cumprida a tarefa da humana justiça sejam tais casos entregues nas mãos daquele Espírito Supremo e infalível que ainda os corações e tudo conhece, não nas mãos de carrascos e carniceiro a mando de juízes falíveis.

Acabamos o veredito da justiça humana apenas para um castigo que regenere. E aqueles que não possam ser regenerador vivam perpetuamente isolados nos manicômios judiciais.

Quanto aos que foram condenados por crimes que não possuem atenuantes, como a tortura, que cumpram seu fadario até o fim e sofram as cominações da pena. Mesmo condiderando-se que a justiça não se estende a todos como deveria e que conhece privilégios não os podemos converter em santos ou vítimas. Uma vez que o requinte da crueldade jamais é necessário.

Devemos deplorar as possíveis exceções, sem contudo inocentar os condenados.

Exploramos assim a atitude tosca da esquerda cirandeira, a qual deseja relativizar a crueldade humana apelando à critérios de raça, posse ou gênero. Concedo que tais critérios possam - dentro de um quadro psico/social - servir como atenuantes em situações como tráfico, roubo ou mesmo assassinato. Não porém quanto a crueldade e a tortura.

Em casos de estupro, tortura e crueldade as penalidades devem ser irredutíveis e rigorosas, sem que se possa relativizar ou atenuar o mal produzido.

Apesar disto o objetivo deverá ser a recuperação do criminoso. Portanto há tal pena de ter fim e tal pessoa de ser reintegrada ao convívio humano. E aqui chegamos ao extremo oposto ou a essa ralé, não menos grosseira, baixa é vulgar, que sonha com a pena de morte i é com poças de sangue e vísceras quentes...

 Dirão eles que estou deturpando suas propostas. Pois bem se pode matar civilizadamente, por meio da injeção letal. De fato vivemos numa época avançada e admirável pela higiene... Assim nada de sangue ou vísceras cujo aspecto e odores tanto impressionam os mais frágeis. Adoramos portanto a injeção... Triste o tempo em que o sangue e os odores incomodam mais do que a supressão da vida. DESDE que Sócrates beba cicuta ou seja enforcado não nos importamos... Desde que não seja queimado vivo ou esfolado.

Queremos assim um Estado que mate com graça ou delicadamente.... Tal nossa leviandade.

Claro que não vou discutir ou trocar palavras com os que defendem a tortura, tipo que os estupradores sejam empalados , etc Pois são objeto da psiquiatria...

Dirijo me apenas aqueles que acham belo nivelar se com um criminoso. Alegando que devemos violar os direitos deles criminosos, pelo simples fato de que não souberam respeitar o direito alheio. MAS santo Deus não é exatamente isto, a violação do direito, que os converte no que são i é em criminosos??? Como portanto imita-los e nivelar se com eles sem tornar -se criminoso???

Tanto o Estado quanto os homens virtuosos que o compõe devem estar acima dos criminosos e portanto empregar outros meios com que puni-los. Não pode o Estado matar ou assassinar um criminoso sem tornar-se ele mesmo um criminoso ou assassino, quando deve atuar como um médico e recuperar. Não é este Estado ou esta Sociedade 'Legibus solutus' como não o é Deus e jamais foram os soberanos humanos. A ninguém é dado matar a criatura racional e livre sem fazer se criminoso. Ora nós não podemos criar um Estado carniceiro ou assassino!

Ateus, materialistas, positivistas e cientificistas, partindo de seus princípios, bem podem discordar de mim... Afinal sou daqueles que admitem a 'fábula' do livre arbítrio, da qual retiro o 'veneno' (Freud) da esperança. Sim eu concedo que os homens sejam livres e não mecanicamente determinados por qualquer poder externo que os coaja. Não creio que qualquer força externa tenha a capacidade de suprimir a vontade livre do homem. Por isso penso neste homem como mutável, educavel e recuperável.

Daí com Beccaria pensar numa JUSTIÇA medicinal e numa estrutura presidiaria rigorosa a um tempo e a outro capaz de resocializar o criminoso. A morte é atitude de quem, desesperado, nega a possibilidade do criminoso mudar de mentalidade e não vejo em que tal espírito, determinista e sem esperança, possa estar de acordo com o espírito de Cristo ou do Evangelho, ou mesmo com o espírito de um Sócrates ou de um Platão.

Que ateus, materialistas, cientificistas, positivistas e alguns neo pagãos o defendam, posso bem compreende-lo. Que um simples teísta qualquer o abrace, deploro; que um Cristão qualquer ou pior Católico, ouse faze-lo, eis a suprema miséria. Isto porém será tema do próximo artigo.

Quanto a Suzy acho tão errado apresenta-la como pobre vítima ou como coitadinha  quanto apresenta-la como um monstro a parte da humanidade e irrecuperável. Já um sábio do passado dizia: Que não faria eu com o histórico dos outros no lugar dos outros? Mas nós nos consideramos super homens mesmo quando queremos tratar os criminosos tal qual eles trataram suas vítimas...

Ainda aqui os extremos se tocam.

No fim das contas é a Suzy uma mulher ou um homem mau que cometeu um grave crime e por ele deve pagar, expiando suas penas. Talvez ao fim deste processo, purificada pelo sofrimento e pela reflexão, surja uma nova criatura ou uma pessoa boa, arrependida, contrata e recuperada. Por ter esta esperança, para muitos utópica, oponho-me a pena de morte ou ao assassinato cometido pelo Estado. E é claro acima de tudo ao pecado inexpiavel da tortura... 

Devo acrescentar por fim que minha reflexão de modo algum justifica o trato especial que essa pessoa recebe pelo simples fato de ser ou apresentar-se como trans, o que não basta para inocenta-la mas parece aumentar sua culpabilização. É percepção subjetiva que se tem ou intuição: Que alguns ao menos estejam a sataniza-la por ser trans (Enquanto outros querem não apenas aliviá-lo mas absolve-la de seu crime ou mesmo endeusa-la). Ora o crime desta pessoa é aquele porque foi julgada, não o fato de ser trans ou qualquer outra conotação sexual... A malignidade aqui consiste em dar uma direção sexual para o assunto, como se todo trans fosse estuprador ou coisa assim... Então o que não se justifica são os preconceitos de natureza sexual de que essa pessoa possa estar sendo vítima, o qual é tão nefasto e abjeto dentro do presídio quanto fora dele... Então caso você esteja a solicitar punições draconianas para o criminoso apenas por ser ele trans, também perdeu a noção de justiça.