sábado, 21 de janeiro de 2017

Breve resposta a Milton Friedman a respeito do capitalismo e da liberdade

Impossível escrever um ensaio sobre capitalismo e liberdade, enquanto fenômenos reais, humanos e sociais sem assumir uma perspectiva marcadamente história.

Do contrário teremos um ensaio metafísico. Favorável ou contrário ao capitalismo mas sempre metafísico.

Tanto mais abstrações e especulações neste âmbito menos valor.

História se faz com fatos e não com convicções ainda que honestas.

Eis porque nos permitimos a classificar a obra de Milton Friedman 'Capitalismo e liberdade' sob todos os aspectos como 'metafísica' ou escolástica, tal a pobreza dos fatos destinados a ampara-la.

Aqui selecionar e excluir partindo de pressupostos ideológicos será sempre desonesto. Implica manipular e não construir a História. História se constrói levando em conta todos os fatos ou os fatos em sua globalidade.

É somente a partir da integralidade dos fatos que podemos formular juízos históricos.

Não foi o que fez Friedman o qual partiu de uma ideia fixa e pré estabelecida segundo a qual o liberalismo econômico promove necessariamente o liberalismo político enquanto que o Socialismo ou controle econômico estaria relacionado com o totalitarismo.

E partindo desta ideia equivocada e tosca selecionou material e compôs mais uma Apologia furada do capitalismo. Falseou descaradamente a História e ainda assim fez seguidores, especialmente, é claro, no Brasil.

Hannah Arendt tomou o caminho contrário, examinou atentamente a História, partindo de nossa herança grega até a afirmação do Capitalismo e concluiu que o liberalismo econômico tem restringido mais e mais o espaço da reflexão política.

Apresentemos portanto os fatos que Friedmann ardilosamente ocultou:

  • Apesar do governo F D Roosevelt, após a falência do modelo liberal, em 1929, ter assumido um caráter marcadamente intervencionista (Implementou o New Deal formulado por J M Keynes) e de apoio a sindicatos e trabalhadores inclusive não houve praticamente qualquer alteração na estrutura de governo dos EUA
  • A construção do modelo trabalhista inglês de bem estar social ao decorrer da última quadra do século XIX foi igualmente norteada pelos princípios políticos liberais ou democráticos, sem que houvesse qualquer alteração neste sentido. Na Inglaterra liberalismo político e trabalhismo caminharam de mãos dadas até o advento da sra Tatcher e isto ao cabo de quase um século.
  • A implementação do modelo de bem estar social nos países escandinavos transcorreu da mesma maneira ou seja nos termos do liberalismo político vigente.


Portanto a relação apontada pelo sr Friedman segundo a qual o capitalismo esta para o liberalismo político como o socialismo esta para o despotismo, é coisa que não se verifica. Pois tanto os EUA, quanto Inglaterra e Escandinávia acabaram por romper com o modelo liberal clássica e por adotar certa medida de intervencionismo - e portanto de socialismo - sem que houvesse qualquer alteração ou ruptura significativa nos domínios da política.

É o quanto nos bastaria para contestar a generalização feita por ele e apresenta-la como superficial e infundada.

E no entanto contamos com outro gênero de argumentos.

Que dizem respeito a imposição do modelo econômico liberal por um poder político autocrático.

Assim o próprio Friedman não hesitou em aconselhar e apoiar o ditador chileno Pinochet em sua cruzada anti socialista destinada a implementar o liberalismo econômico no Chile. E ele mesmo, o autor de Capitalismo e liberdade serviu como padrinho a união entre despotismo e liberalismo econômico. Demonstrando com fatos e exemplos que sua teoria era pífia...
Outro aspecto demasiado marcante da política latino americana recente foi a supressão violenta do modelo político liberal ou da ordem democrática em beneficio do liberalismo econômico, no caso ameaçado por reformas de caráter intervencionista. Sempre que o liberalismo político inclinou-se a adoção - A exemplo da Inglaterra - de um modelo político trabalhista ou socialista de bem estar o curso de qualquer uma dessas Repúblicas foi atalhado por uma ditadura destinada a manter a 'ordem' vigente ou seja capitalista. E o capitalismo soube servir-se muito bem da tirania com objetivo de conservar-se ou afirmar-se, fazendo muito pouco caso tanto dos valores democráticos quanto os direitos da pessoa humana.

Tal os casos do Brasil, Uruguai, Paraguai, Argentina, etc no curso dos anos 50, 60 e 70.

Conjuntura em que assistimos o florescimento de diversos regimes autocráticos, nenhum deles de caráter socialista, mas todos, sem exceção, de caráter marcadamente liberal economicista ou capitalista. E dessas interrupções indecorosas resultaram exílios, torturas, assassinatos e outros tantos crimes abomináveis na mais larga medida. Tudo com o objetivo de salvaguardar os interesses do Mercado, embora não correspondessem ao interesse dos povos em questão, que era, evidentemente, bem estar e qualidade de vida. 

Ainda aqui a relação estabelecida por Friedman apresenta-se como forçada ou falaciosa. A bem da verdade o capitalismo não tem escrúpulos e jamais conheceu outra lei que a obtenção do lucro máximo.

Só nos resta esclarecer que o exemplo escolhido por Friedman em oposição ao Inglês ou ao Yankee foram os modelos continentais europeus do período entre guerras ou fascistas, bem como os modelos comunistas do Leste europeu nos quais o socialismo - em termos de garantias e leis trabalhistas - foi implementado por ditadores.

Resta esclarecer que o prestígio obtido por tais lideres só pode ser compreendido a partir de uma situação preexistente produzida pelo liberalismo econômico. Pois ao contrário do que acontecerá na Inglaterra, nos países continentais as democracias jamais conseguiram desprender-se do liberalismo economicista tornando-se populares. E ficando o poder político subordinado ao poder econômico não foi possível abrir caminho até as reformas sociais revindicadas pelas massas ou seja a implementação dos direitos trabalhistas. Mantendo-se o liberalismo econômico em estado mais ou menos puro como na Inglaterra entre 1840 e 1880. 

Foi justamente a negação de tais direitos ao cabo de meio século ou mais que serviu para desacreditar o liberalismo político ou as formas democráticas entre as massas trabalhadoras, as que dominadas pela angústia lançaram-se aos braços dos demagogos. Mas por que se lançaram aos braços de homens tão odiosos como um Hitler e Mussolini? Porque estes homens espertos acenaram-lhes com as tão sonhadas garantias de trabalho denegadas pelos liberais...

Então quem é que empurrou a massa sofrida do proletariado europeu para os braços abertos dos ditadores? A política precedente inspirada pelo modelo liberal economicista é que acalentou e alimentou o ódio a democracia puramente formal. Foi a democracia burguesa, enquanto mero apêndice do sistema que preparou o ambiente para as principais ditaduras européia do entre guerras. O que bem poderia ter sido evitado caso esses liberais tivessem assimilado o exemplo da política inglesa em termos de negociação e de concessões ao programa trabalhista.

No entanto o programa adotado na maior parte desses países foi de resistência as aspirações dos trabalhadores e, após ao término da primeira guerra, de sangria... E o escolhido para ser sangrado foi o trabalhado, pelo simples fato de não se protegido pelas leis. Sentindo-se socialmente vulnerável e completamente desamparado pelo poder político 'miniarquista' o homem do povo foi facilmente seduzido pelo canto da sereia fascista com sua temática do Estado forte, interventor e mediador.

A ascensão dos tiranos e ditadores fascistas só pode ser compreendida a partir do messianismo e este messianismo a partir de uma situação de angústia extrema experimentada pelos povos. Se os ditadores puderam explorar o tema da emancipação ou libertação é porque já antes da servidão política aqueles povos conheceram outro tipo de servidão não menos cruel, a servidão econômica em termos de privação de direitos e vulnerabilidade social. Noutras palavras, foi a política inspirada pelo modelo liberal economicista, com seu lastro de desigualdade e miséria, que preparou o terreno para a afirmação da estatolatria seja ela comunista, nazista ou fascista.

Foi a ideia de um estado frágil e omisso em termos de econômica que desgastou o modelo democrático e a ideia de um estado forte e mediador em termos de economia que tornou o despotismo atraente. No fim das contas as massas sofridas preferiram a servidão política a econômica por acreditarem que aquela era bem menos dura...

Donde se infere que o fascismo e o comunismo alimentaram-se de situações contraditórias ou de patologias sociais produzidas pelo sistema liberal economicista e pela democracia meramente formal. 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Intelectualidade e ateísmo, uma resposta definitiva






Certos professores há que em seus cursos asseveram ensinam a repetem, entusiasticamente, que a maior parte da intelectualidade - em termos de cientistas e filósofos - teria professado o ateísmo ou sido ateia. É coisa que se ouve sair dos lábios de qualquer sectário ateísta... E que as custas de ser repetida pelos prosélitos - mal informados ou intencionados - acabo se convertendo numa das tão decantadas 'verdades do tempo'. Particularmente os pensadores mais eminentes e brilhantes teriam sido ateus em sua quase que totalidade.

É o que se ouve, o que se repete, o que se crê...

Tal a fé.

Como já tivemos ocasião de abordar o tema em nosso pequeno cenáculo, aqui em casa, limitar-nos-emos a publicar o que já foi exaustivamente estudado e discutido por nós e pelos comensais.

E para tanto principiamos pela Bibliografia: Manual biográfico literários sobre as ciências exatas e naturais. Johann Christian Poggendorff 1863

A respeito desta obra faz-se mister declarar que constitui uma verdadeira Enciclopédia destinada imortalizar tantos quantos dedicaram-se a pesquisa científica (com exclusão das ciências humanas) até meados de 1860, transcrevendo suas biografias e abordando diversos aspectos de sua vidas, inclusive os pensamentos religiosos. Daí sua relevância neste campo. E já adianto que seu trabalho foi continuado - por outros uma vez que J C P faleceu em 1877 - até cerca de 1900 (volume quarto). Enfim não há como abordar científica e honestamente o tema da religiosidade ou do suposto ateísmo dos cientistas sem se recorrer a esta fonte que é sob diversos aspectos primária e essencial.

Quanto aos filósofos e suas crenças há o livrinho de Huberto Rohden 'Tu és o Cristo filho do Deus vivo" Vozes 1918

Dito isto passemos ao 'problema'


Buscando uma definição para ateísmo


Cujo primeiro aspecto é a irredutibilidade em termos de definição.

Sócrates dissera certa vez: Se aspiras dialogar comigo define os teus conceitos.

Assim se vamos debater em torno do ateísmo a primeira exigência a ser feita é que haja acordo a respeito do que seja ateísmo. Do contrário estaremos a dialogar inutilmente a respeito de 'fenômenos' diferentes...

E no entanto quanto a este aspecto ateísmo e judaísmo caminham de mãos dadas uma vez quer também o judaísmo recusa-se a um definição clara e objetiva.

Perguntas a um judeu? Que é judaísmo? E ele te responde: Crença, fé, religião; excluindo os ateus, incrédulos, budistas, etc

Perguntas a outro judeu: Que é judaísmo? E ele te responde: Judaísmo é povo, é a nação composta pelos descendentes do patriarca Abraão, e arrola em seu número: Ateus, materialistas, irreligiosos, budistas, etc

Segundo a primeira definição Nordau, Marx, Einstein, Asimov, Sagan, etc não são judeus. Já segundo a outra definição continuam sendo contados como judeus. De modo que no fim das contas serão milhões de judeus a menos ou a mais...

E qualquer trânsfuga religioso, relativista e mal intencionado sempre poderá alegar que a religião ou a fé judaica produziu uma 'elite' de intelectuais!

Outra não é a postura - sinuosa - do protestantismo. Quando o protestantismo recebe críticas por parte da Ortodoxia, do papismo, do espiritismo e de quaisquer outras religiões no sentido de ter promovido a incredulidade na Europa contemporânea, seus defensores negam veementemente que os protestantes 'liberais' - inda que pastores como Collani - sejam protestantes. Como negam veementemente que os unitários ou arianos (Testemunhas de Jeová) sejam protestantes... No entanto quando os mesmos críticos ou os incrédulos alegam que o protestantismo (claro que estamos nos referindo ao protestantismo 'ortodoxo' seja batista ou calvinista, e essencialmente 'biblicista') foi bastante pobre em termos de ciência, os apologistas protestantes não exitam arrolar Sir Isaac Newton, - que era unitário ou ariano - ou Sabatier que era liberal, isto quando não têm o desplante de arrolar os Bispos (sic) da Igreja Episcopal.

Na ora de defender a fé os paladinos da reforma lançam tudo que é liberal ou incrédulo (ao menos com relação a totalidade da Bíblia) ou episcopal para fora da arca, o que por sinal é razoável. No entanto quanto se trata de compor 'Apologias' em defesa do protestantismo são quase sempre incluídos. É quando Hanack vira 'cristão piedoso'...

Tal o judaísmo, tal o protestantismo com suas divagações em torno de definição.

Tal o ateísmo.

Pois de modo geral na ora de cooptar prosélitos ou de fazer propaganda os ateus fogem a definição formal e objetiva de ateísmo enquanto 'Convicção a respeito da inexistência de Deus' ou ainda capacidade de demonstrar que Deus não existe, ou ainda como pura e simples negação de Deus, e põem-se a enfiar na 'igrejola' aqueles que apenas duvidam (tanto do ateísmo quanto do teísmo) ou consideram a questão inacessível ao conhecimento humano, assim os céticos, abstencionistas ou agnósticos de Comte. E como não param por ai, incluem ainda os agnósticos ingleses de Huxley os quais sequer - como Spencer e Stuart Mill cujas obras contém diversas alusões a um ser 'INCOGNOSCÍVEL' - ousam por em dúvida a existência de um Supremo Ser mas apenas sua definição ou cognoscibilidade a exemplo dos antigos gregos, e seguindo por este caminho 'largo e fácil' tantos quantos nas Sociedades mais avançadas do Planeta, como a Escandinávia, a Holanda, a Bélgica, a Suíça, os antigos países comunistas, etc simplesmente não têm qualquer vínculo religioso ou fé. Ficando os incrédulos ou indiferentes e matéria de religião alistados como 'ateus' mesmo quando as mesmas pesquisas explicitam, logo na linha abaixo, que essas pessoas admitem a existência de uma energia ou forma de consciência supranatural ou mesmo a existência de um Deus (!!!)

Diante desta manobra ou melhor farra, assiste-nos o pleno direito de perguntar onde é que está a honestidade ou melhor ainda, onde esta a maravilhosa Ética ateística que os leva inclusive a denunciar tudo quando seja religioso como desonesto ou falsificador???

Cade a seriedade, o espírito científico, a probidade, a moral, a Ética dos nossos apóstolos ateísticos???

Sim porque nesta mistura heteróclita e esdrúxula de conceitos que se opõem e excluem mutuamente como:
  • Deísmo
  • Agnosticismo
  • Indiferentismo religioso
  • Espiritualidade não institucional

Tudo quanto posso ver é safadeza mesmo.

No entanto como alguns ateus são mesmo tão fanáticos e obstinados quanto seus desafetos religiosos vou soletrar:

Os agnósticos ingleses - ou ao menos parte deles - que admitem a existência do Incognoscível, bem como aquelas populações das 'repúblicas' ateísticas que admitem a existência de um Deus não revelado ou de uma energia ou ainda de algo sagrado, merecem, ser classificados como deístas.

Como os deístas afirmam a existência de algo que transcende a vida e a matéria, é evidente que estão em oposição aos ateus que negam terminantemente a existência de qualquer coisa nesse sentido. Aqui a exclusão é manifesta uma vez que a afirmação e a negação incidem sobre o mesmo objeto - qualquer tipo de concepção que remeta a Deus.

Os agnósticos franceses ou positivistas da Escola de Comte e Litreé repetiram a exaustão que não eram ateus pelo simples fato de que o ateu - como o teísta - cuida saber a respeito de algo que ele agnóstico afirma nada saber. O agnóstico ao contrário do ateu e do teísta não assume posição a respeito do assunto, não afirma nem nega, abstém-se de formular qualquer juízo metafísico pois como I kant e D Hume não admite a validade desde tipo de conhecimento. Tanto que os agnósticos (aquele que não conhece) partindo de seu ceticismo inveterado classifica o ateísta como metafísico.

Filosoficamente, do ponto de vista da episteme, são posicionamentos inconciliáveis ou paradoxais e podemos asseverar que quando um Filósofo ou pensador define-se como agnóstico, esta querendo dizer em alto e bom som que não esta convencido a respeito da validade do ateísmo e que dele dúvida tanto quanto dúvida do teísmo.

Aos ateus, ainda aqui acompanhando as diatribes dos pastores - quando tentam explicar porque o pagador de dízimos não obteve o milagres alegando que não tinha fé, que é um pecador, etc - resta o péssimo recurso de apresentar os agnósticos como 'ateus fracos', 'ateus medrosos', 'ateus tímidos', 'ateus enrustidos', pois ignorando, como toscos que são, o problema das origens do conhecimento, da gnoseologia, da episteme, da metafisica, etc não podem mesmo admitir que hajam agnósticos sinceros. Daí embrenharem-se pela via do subjetivismo crasso elaborando juízos de valor tão miseráveis em torno da intencionalidade e da sinceridade alheia. Porque recusam-se a assinar a fórmula de fé ateística todo agnóstico fica sendo fracote, tímido, covarde, medroso, etc

Alias nestes tristes tempos em que ateísmo virou moda entre as cabecinhas sem conteúdo que sem contentam em repetir as abobrinhas cozidas ou fritadas pelo Bernacchi e temperadas pelo Oiced Mocam, o fato de boa parte dos intelectuais recusarem-se a referendar o novo credo parece-nos sintomático. Afinal vivemos em tempos de liberdade não é mesmo??? E não há duzentos anos, sob o jugo infame das Inquisições... Ou sob o controle dos déspotas e tiranos.

Medo do que? Receio do que? Que tipo de temor respirariam os intelectuais agnósticos ou 'ateus enrustidos' numa sociedade democrática ou liberal?

Acaso os comunistas não alardeavam seu ateísmo e seu materialismo há cem ou cinquenta anos passados sem que qualquer um deles fosse acusado de 'ateísmo', mas de sedição, pelo simples fato de aspirarem alterar a ordem política e econômica vigente???

Quantos processos ou autor de fé anti ateístas foram realizados no Ocidente ao cabo do século XX???

Pelo modo com que os ateus expressam-se diríamos estar em Meca, Medina, Riad, ou em qualquer uma dessas maravilhosas sociedades muçulmanas em que os ateus são pura e simplesmente executados ou decapitados em obediências as leis do Corão ou melhor aos ditames da Sharia. E eu nem observo qualquer esforço por parte do apostolado ateístico de enviar missionários aos países muçulmanos com o objetivo de conquista-los a esta fé machista, adultista, homofóbica, escravista, etc que tantos males tem causado a pobre humanidade!

Por que raios precisam os ateus esconder-se ou ocultarem-se - com a máscara do agnosticismo - numa Sociedade livre? Será que lhes falta coragem (a essa imensa multidão que os ateus classificam como medrosa ou fingida) para afrontar uma simples crítica ou cara feia??? Admitindo que todos os agnósticos seja mesmo ateus ocultos ou disfarçados seríamos obrigados a concluir pela incapacidade crônica do ateísmo em comunicar coragem ou em despertar compromisso entre seus profitentes... Imagina então se como os antigos Cristãos ou as minorias Cristãs nas sociedades islâmicas essa manada de ateus fracos corre-se perigo de vida??? Haveriam de enfrentar a morte e de morrer por sua fé uma vez que não são capazes de enfrentar as críticas de uma Sociedade liberal?

Ao que parece não é o ateísmo apto para despertar aquela mesma firmeza com que os mártires cristãos souberam enfrentar o jugo do império romano.

Portanto como esperam pode enfrentar e resistir heroicamente a jihad islâmica que já se alevanta nos confins da Europa e ameaça submergir e destruir o berço de nossa civilização (Grécia e Roma, não Inglaterra!)?

Diante da facilidade e rapidez com que os ateus mais atilados classificam seus 'irmãos' e correligionários como 'medrosos' em tempos de democracia só nos resta concluir com o Papa ateísta Richard Dawkins que apenas o Cristianismo ou um retorno decidido a fé ancestral poderá fazer frente a ameaça do islã e salvar a Europa. Não fui em quem o disse querido leitor mas o autor de "Deus, um delírio', os créditos são dele, e a reflexão fica por sua conta...

Continua 

Nossas fontes - Autores e livros que recomendamos IV Fontes da História clássica

Tucidides



Heródoto de Halicarnasso - Histórias
Tucidides - História da guerra do Peloponeso
Ctsias de Gnido - Pérsica e Indica (frag)
Teopompo - Helênica (frag)
Éforos - Historias (frag)
Maneton -  A egipciaca (frag)
Beroso - A caldaica (frag)
Polibios - Histórias
Plutarco - Vidas paralelas
Quinto Ennio - Annales (frag)
Salústio - A guerra jugurtina e A conspiração de Catilina
Cornelio Nepos - Os homens ilustres
Diodoro Sículo - Biblioteca histórica
Trogo Pompeu - Histórias Filipicas (in Epitome Marco Juniano Justino)
Estrabão - A geográfica
Florus - Compêndio de História romana
Valério Maximo - Nove livros de feitos e dizeres memoráveis
Tito Lívio - Desde a fundação da cidade
Marco Veleio Patérculo - Compêndio de História romana
Tácito - Histórias, Annales e Germania
Sílio Itálico - A púnica
Dionisio de Halicarnasso - Antiguidades romanas
Suetônio - Vida dos doze Césares
Dion Cassio - História de Roma
Herodiano - História do Império após a morte de Marcos
Lampridio e Vopisco - História augusta
Herodiano - História do Império após a morte de Marcos
Sextus Aurelius Victor - Os homens ilustres, Os Césares e A origem do povo romano
Eutrópio - Breviário da História romana
Jordanes - A Romana e a Gética

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Os que não quiseram ser salvos... A História de uma mulher anônima e de um professor judeu que souberam ser imitadores perfeitos de Jesus Cristo





Ontem a noite estava refletindo sobre uma conversa que tive com o estimado professor Absolon, o qual dignou-se vir até a casa para trocarmos algumas ideias.

Centralizei o pensamento no sermão do monte, mais especialmente neste trecho:

"Bem aventurados os misericordiosos, porque obterão a misericórdia."

E refiz a pergunta como foi relatada pelo nobre amigo:

"Quem é o bem aventurado?"

O que tem fé? O religioso? O devoto? O remido? O igrejeiro?...

Não. De modo algum. A bem aventurança aqui é reservada ao misericordioso.

Agora - Quem é o misericordioso?

O ateu? O budista? O protestante? O espírita? O papista? O judeu? O Ortodoxo? O agnóstico?

Misericordioso é aquele que exerce a misericórdia...

Simples assim.

De fato qualquer um pode ser misericordioso: O branco, o negro, o vermelho, o amarelo, o rico, o pobre, o cristão, o judeu, o budista, o irreligioso, o velho, o novo, a mulher, a criança...

E aquele que é misericordioso é bem aventurado.

Mas e a fé? Como pode ser isto? Como alguém pode ser bem aventurado sem a fé?

Vai perguntar pra Jesus?

Então a fé já não é tudo?

Caso a fé fosse tudo não haveriam oito bem aventuranças, mas uma apenas: Bem aventurado quem tem fé...

A fé até pode ser alguma coisa, mas também existem outras realidades.

Daí o oráculo divino: "Na paciência salvareis as vossas almas!"

Como se vê a fé nem é a única realidade religiosa em termos de Cristianismo e tampouco basta ou salva sozinha...



Alguns se aproximam do Senhor de modo mais íntino por uma fé viva ou a adesão a verdade doutrinal associada a Caridade. Outros se aproximam doutros modos... mas também se aproximam.

Por outro lado só podemos comparar um Ortodoxo ou um Católico sem caridade, misericórdia, senso se justiça, etc aos mestres judaicos que passaram a largo do homem ferido...

Pois eles - apesar da fé - não foram designados como bons pelo divino Mestre. Bom mesmo foi o samaritano, isto é, o cismático ou herético sensível e compassível.

Aqueles, o sacerdote, o levita e o fariseu eram portadores da religião teórica ou superficial. Porque não é a verdade que atinge e toca o que há de mais profundo e nobre no ser humano... O samaritano apenas, inda que na ignorância da verdade, era representante da religião pura e sem mancha diante do Pai celestial: "Socorrer o órfão, o estrangeiro e a viúva em suas necessidades."

Claro que uma coisa não exclui a outra. Pouco no entanto são aqueles que logram concilia-las... Sendo assim, melhor ficar com o essencial que é a caridade, a benignidade, o amor a justiça, a sensibilidade, a humanidade...



Destarte quando penso em um padrão elevado de religião só posso pensar no Pe Maximiniano Kolbe, em Oscar Schindler, em Alexander Schmorell, em Madre Maria Skobtosova... a respeito dos quais escrevi já diversas vezes.

Hoje quero adicionar mais dois heróis a esta gloriosa galeria, dos quais sobre um nada sabemos em termos de fé, já o outro era judeu.

Penso se necessário registrar isto pelo simples fato de que todos estão perfeitamente cônscios a respeito de minha opinião a respeito do judaísmo enquanto cultura ou melhor da cultura semita como um todo pois minhas críticas tocam igualmente a cultura árabe e até com maior intensidade. Jamais ocultei - e não tenho porque oculta-lo - minha posição a respeito da notação e valor da cultura, meu repúdio marcado ao relativismo cultural, meu apresso e apego a cultura greco, romano, cristã, etc

Sempre tenho afirmado a inferioridade e miséria das culturas semitas em comparação com a cultura européia> greco, romana, católica, francesa...  Sempre tenho defendido a superioridade de nossos valores ancestrais como a democracia, a ética justicionista, o humanismo, a noção de bem comum, a liberdade sexual, a liberdade pessoal (esta afirmada pelos catolicismos), o conceito de alteridade, o jusnaturalismo, etc Os quais para mim correspondem a valores essenciais, imperecíveis e perenes. Neste sentido a contribuição das culturas semitas, religiosamente obcecadas em termos de formalismos religiosos, parece-me nula.

O próprio construto sincrético da religião judaica não me parece majestoso, embora não deixe de ser interessante. Ao menos até o advento daquela espiritualidade farisaica que tudo envenenou e que posteriormente veio a instalar-se nos domínios do Cristianismo... A exceção de certos elementos de ética contidos nos profetas e no Pirké abbot não nutrimos qualquer simpatia para com a fé dita abraâmica.

Todavia o foco de nossa crítica são os cristãos - em especial Católicos - que aderem a fé judaica e sobretudo aqueles que sem romper com a fé judaizam adotando os costumes do antigo testamento.

Ademais concordamos com o pronunciamento dos rabinos Ortodoxos segundo o qual ambas as fé não precisam misturar-se para tolerarem uma a outra.

Para além disto nossa opinião, ditada pelo liberalismo religioso, é suficientemente conhecida: Os judeus tem todo direito de professar sua fé ancestral e de manter seus costumes. Já Alexandre e Augusto haviam deixado isto bem claro e não somos doutro parecer. Como todos os homens - a exceção dos que santificam e abençoam a violência do como os muçulmanos sunitas - são credores de nossa tolerância e respeito, ponto e basta.

Por mais que detestemos as fés judaica, protestante e xiita reconhecemos que seus profitentes são seres humanos e que os seres humanos devem ser sempre acolhidos, compreendidos, amados e servidos; não odiados, nem oprimidos, nem perseguidos. Odiar as doutrinas e amar os homens deve ser nossa diretriz.

Ouso declarar enfim se um judeu entrega sua vida por amor de seu próximo também ele é imitador do Verbo Jesus Cristo e certamente herdeiro da bem aventurança e da paz espiritual, pois Jesus Cristo não é Senhor mesquinho e acanhado mas generoso e benevolente. Todo aquele que ama seu semelhante seja judeu, grego, chinês ou indiano esta na comunhão de Jesus Cristo, inda que jamais tenha ouvido falar dele, pois Jesus Cristo já o atingiu e incorporou a si ao assumir a natureza comum.

Ou não sabes que muitos daqueles que ouviram falar a respeito dele e fingem professar a fé desonram seu nome ensinando doutrinas de ódio, julgando, condenando, oprimindo, excluindo... Então se trata de um conhecimento inútil e duma fé para o juízo.

Feitas estas ressalvas passo a narrativa:




Não sei em que livro li esta narrativa, mas não poucas vezes, nas noites sem lua, tenho pensado sobre ela.

É uma historinha na plena acepção da palavra e no entanto uma das mais impactantes que já li ou ouvi.

Diz respeito ao famoso Transatlântico Titanic afundado a pouco mais de um século no fatídico ano de 1914.

Há tantas narrativas insipidas toscas a respeito dele, como aquela segundo a qual deus exercerá vingança sobre o navio devido a uma tirada feita por um dos proprietários ou pelo comandante, Esta predileta dos fanáticos...

Há algumas narrativas comoventes como a dá orquestra que não cessou de tocar até o instante final...

E há esta que segue e que para mim é a mais impactante de todas:

"Enquanto aquele navio imenso ia mergulhando nas gélidas águas do Oceano os botes iam se enchendo de gente.

Claro que as mulheres e crianças tinham a preferência e eu, que pertencia a esta última categoria, acabei testemunhando um evento a respeito do qual jamais haverei de esquecer enquanto viver.

Como alguns botes haviam sido lançados com poucas pessoas os que restavam estavam apinhados, inclusive o nosso.

O limite de ocupantes havia sido atingido e já não havia lugar para uma alma sequer.

Foi quando os homens aproximaram-se trazendo uma mulher cujos filhos haviam sido embarcados noutro bote e cujo esposo encontrava-se nos Estados Unidos, e já não restava lugar para ela.

E como a mulher chorasse e suspirasse eu vi uma jovem, uma mocinha levantar-se e dizer: Sou jovem solteira e sem filhos, ela é esposa e mãe, cedo meu lugar. E dizendo isto levantou-se e tornou ao navio prestes a adernar. O que quero dizer é que aquela jovem menina caminho para a morte certa e que entregou sua vida por uma desconhecida.

Por um bom tempo a voz daquela jovem soou nos meus ouvidos como um sino de ferro enquanto nosso bote se afastava e aquela mocinha tornava ao convés do navio.

Ela certamente morreu e eu jamais vim a saber quem fosse, qual era seu nome, sua origem, sua idade... "

Não meus senhores, não amigo leitor que me ouve, não se tratava duma pessoa idosa, vivida, enferma, frustrada, desgostosa mas duma menina, duma jovem, duma adolescente que mal começara a viver. E que mesmo assim num gesto de amor e nobreza aceitou morrer no lugar de uma mãe de família, de alguém que sequer conhecia...

Que significado imenso contido num evento tão breve.

De modo que eu, a semelhança daquela que presenciou este evento tão singular, pego-me não poucas vezes a imaginar qual fosse seu rosto, seu nome, sua origem, sua idade, suas ideias, esperanças, crenças, temores... E sobretudo em que pensava ela no instante crucial da decisão! E sobre qual teria sido o motivo que levou-a a abdicar da salvação em benefício de outra pessoa...

São justamente eventos como estes que me fazem questionar a crença ou fé materialista e a exemplo do grande Pascal apostar decididamente num Deus bondadoso em cujo Ser tais eventos são perpetuados e se tornam eternos, ao invés de tombarem no mais frio esquecimento.

E não tripudio afirmar que após os elementos deste planeta terem sido consumidos, que após todas as partículas deste sistema terem se dispersado, que após as galáxias e o próprio universo terem se dissolvido a memória desta ação permanecerá incólume a nível de consciência, duma consciência universal.

Certamente nem toda a imensidão deste universo material é digna de sentimentos tão elevados.



"Nós não estamos aqui para refletir teoricamente sobre os problemas sociais no espírito da ortodoxia mas para unir nosso pensamento social inspirado pela ortodoxia a vida do trabalho."

"Para muitos daqueles que frequentam a igreja nós estamos demasiado a esquerda, mas para os esquerdistas somos demasiado religiosos..."

"Guerra eterna e esse novo paganismo chefiado por um louco (Hitler) que precisa ser enfiado numa camisa de força e lançado numa sala forrada com cortiça de modo que seus uivos bestiais não destruam a paz do mundo."

"Erro essencial, não existe questão judaica mas questão Cristã porque toda questão de vida e morte é Cristã.... no fundo toda batalha que questiona o dom da vida é travada contra o Cristianismo? Se nosso Cristianismo fosse autêntico todos portaríamos uma estrela. A Idade dos mártires chegou."



"Se alguém aparecer por aqui buscando por judeus eu os levarei até o ícone da Mãe de Deus." Madre Maria Skobotzova, mártir imolada pelos nazistas

O segundo exemplo diz respeito a um professor e educador Janusz Korckzac judeu polonês de Varsow. Não vou falar agora sobre suas ideias acuradas e iniciativas geniais como a Escola ou pedagogia democrática suficientemente avaliada por Piaget... Afinal as ideias por geniais que sejam passam. Limitar-me-ei a narra sumariamente como também ele recusou-se a ser salvo. De fato enquanto cuidava dos órfãos do Dom Sierot no gueto foram-lhe oferecidas no mínimo duas oportunidades de fuga, uma por Newerly e outra por Maria Falska. Optou no entanto por não abandonar seus educandos e companheiros. E com eles em Agosto de 1942 foi conduzido ao matadouro de Treblinka onde veio a perder a vida. Segue-se o melhor comentário possível: Ninguém tem amor maior senão aquele que entrega a vida por seus irmãos!

Quando crianças, mulheres, velhos, enfermos e deficientes são assassinados não é questão de ideologia mas de psicopatia ou crueldade!

As três categorias de liberalismo econômico

Três são os tipos ou categorias de liberalismo econômico e todas envolvem uma apreciação do político:


1 - LIBERALISMO CLÁSSICO - Reporta as doutrinas de Adam Smith e David Ricardo

Segundo a teoria clássica não cabe ao setor político interferir com o objetivo de regular a economia. Pois a economia tem sua própria dinâmica e regula-se por si mesma.

O que nos leva a doutrina política do Estado mínimo ou da miniarquia, segundo a qual cabe ao político manter as condições mínimas para que a economia possa seguir seu curso livremente.

Implica valer-se da força e portanto dos mecanismos de repressão como política e exército com o objetivo de manter a ordem social.

Segundo a perspectiva liberal tudo quanto cabe ao Estado é proteger o modelo econômico estabelecido contra possíveis tumultos causados por parte da população, ou melhor dizendo, pela parte miserável e excluída da população.

Trata-se evidentemente de um estado inerte ou negativo quando as atividades econômicas, mas ativo no sentido de impedir a estrutura capitalista venha a ser questionada e, consequetemente atacada. É um modelo de Estado que atua apenas e tão somente nos planos político e social, em beneficio do setor financeiro. Portanto sua atuação em termos econômicos é sempre indireta, jamais direta.

Ele não participa das decisões econômicas, limita-se a referenda-las.


2 - ANARCO CAPITALISMO - A teoria Anacap tem por principais articuladores Murray Rothbard e David Friedman. A fonte mais remota no entanto parece ser Max Stirner.  

Segundo o Anacap toda organização política deveria ser desarticulada, dissolvida, extinta e substituídas por relações meramente econômicas reguladas evidentemente pelo Mercado.

Aqui o Estado ou a organização social deixa de existir em benefício da 'ordem' econômica.

Se levarmos em consideração as alegações de Hannah Arendt no sentido de que o Liberalismo econômico buscou reduzir o espaço da atividade política desde o princípio forjando uma Sociedade economicista e a própria formulação do conceito de miniarquia pelos austríacos não podemos deixar de encarar o Anarco capitalismo como um desdobramento natural do liberalismo clássico. No sentido de que primeiro o político é reduzido, posteriormente mais reduzido ainda e por fim negado.

Trata-se duma negação do político em benefício do econômico. Punto e basta.


3 - NEO LIBERALISMO - A tenderíamos a relacionar Neo liberalismo com uma retomada da teoria clássico liberal em meados do século XX, especialmente após o triunfo a afirmação do Keynesianismo nos anos 30, 40 e 50.

A darmos por certa esta definição ele bem poderia ser compreendido em termos de laissez laire mais estado fraco ou não interferente.

Para quem engole esta definição capciosa a verdadeiro significado de neo capitalismo não pode deixar de ser impactante na medida em que esta doutrina opõem-se decididamente aos princípios fundamentais do liberalismo clássico e corresponde por assim dizer no mínimo a um socialismo invertido ou mesmo a uma inversão do modelo comunista.

Pois trata-se dum modelo que tendo incorporado a crítica keynesiana reconhece o papel interventor do estado, todavia não em favor do trabalhador ou do povo (conforme o sentir dos socialistas) mas a favor dos investidores ou do Mercado. Daí Socialismo invertido pois encara o estado como apoiante e de certo modo até como parceiro.

Alias desde que esse Estado favorece o capital e a busca pelo lucro pouco importa sua forma. Daí a total falta de compromisso entre o neo liberalismo e o liberalismo político ou as formas democráticas e sua quedinha em relação aos estados 'fortes' ou totalitários, a exemplo do Chile de Pinochet. Mesmo porque Von Mises (que no ocaso da vida aprovou a atuação dos ordoliberais - era miniarquista mas é adorado pelos Anacaps - havia sido conselheiro do ditador austríaco Dolfus e Friedman pai deplorado o fenômeno da liberdade humana em diversas ocasiões.

Trata-se portanto de um regime de mercado fortemente apoiado pelo Estado ou pelo poder político, já no sentido de que o político privatize tudo quanto se encontre em suas mãos, aumentando mais e mais a participação econômica do investidor privado, já no sentido de implementar uma austeridade fiscal traduzida em termos de cortes de programas sociais voltados para a promoção humana e afirmação das minorias, já no sentido de acabar com o protecionismo e as taxas alfandegárias, já no sentido de desregulamentar o trabalho ou desmontar a legislação trabalhista...

O que nos leva a um reformismo econômico promovido pelo poder político com o objetivo de desconstruir o estado de bem estar social preconizado por Keynes e implementado pela social democracia ou pelo trabalhismo desde 1880 (Trabalhismo inglês).

Mesmo na Alemanha Ocidental, cujo gerenciamento tinha por escopo criar um 'paraíso capitalista' sobre a face a terra e ganhar a batalha ideológica contra o socialismo, e onde muito se discursava - demagogicamente é claro - sobre um 'capitalismo humanista' (sic !!!! ????) Erhard não pode abandonar o velho discurso (que remonta a Adam Smith) segundo o qual 'O mercado era essencialmente social e que NÃO PRECISAVA SER FEITO ASSIM' . Rustow diante das restrições feitas ao programa de bem estar social, clamou por um programa de bem estar social mais limitado ainda e portanto nada social e nada bom..

No entanto com dizer tudo isto não esgotamos o sentido do termo, não colocamos o dedo no fundo da ferida e não tocamos ao fundo do abismo...

Pois uma prática comum aos regimes neo liberais é a da garantia ou do auxílio financeiro disponibilizado pelo Estado a bancos e empresas em perigo. Nem preciso dizer que este fundo é constituído ao menos em parte por recursos auferidos por meio dos impostos e que consequentemente deveriam reverter em benefício do trabalhador por meio de programas sociais.

Implica isto tomar de quem tem menos para dar a quem tem mais ou tirar dos pobres e trabalhadores para dar aos milionários, como Cacciola, Calmon de Sá, Canhedo e tantos outros burgueses endinheirados que mamaram amplamente nas tetas do governo FHC apropriando-se de centenas de milhões de reais. Sempre sob a alegação de que o socorro as tais empresas e bancos reverteria em empregos... Quando reverte sempre em champanhe, caviar, presunto de parma, trufas, etc e subsequente falência...

Aqui também Robin Wood sai virado aos avessos. Pois o governo passa a tirar dos miseráveis para dar aos parasitas... E a ideologia tudo desculpa e encoberta - Bolsa general, Bolsa político, Bolsa juiz, bolsa filha solteirona encalhada, bolsa viúva, BOLSA EMPRESÁRIO, tudo, tudo, tudo... Menos bolsa família. Pois no Brasil quem trabalha como escravo, quem tudo produz e pouco ganha, quem é explorado ou recusa-se a se-lo é que recebe o nome de vagabundo... Enquanto quem amealha imensas fortunas sem pegar no batente ou trabalhar duro é encarado como herói...



Estão ai descritas as três formas de liberalismo: A que pretender manietar e amordaçar o Estado, limitando-o a elemento gerenciado da polícia e do exército com o objetivo de intimidar as massas exploradas e miseráveis, contendo-as no respeito e mantendo longe qualquer possibilidade de rebelião.

A que pretende demolir o estado e substituir as relações éticas e políticas por relações meramente econômicas

E a que pretende escorar-se no estado ou dele fazer uso inescrupuloso, em contradição com os princípios fundamentais do liberalismo clássico.

Por qual deles você prefere ser escravizado???








segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

LiberalismoS, ConservadorismoS e Reacionarismo - Desfazendo as confusões

Falar em Liberalismo faz tanto sentido quanto falar em Renascimento, Reforma ou Revolução francesa quando temos RenascimentoS, ReformaS e RevoluçõeS francesaS.

No frigir dos ovos o que temos são diversas formas de Liberalismo ou liberalismoS segundo o problema da liberdade é localizado neste ou naquele setor da existência, e são vários.

Assim repudiar os liberalismoS (sob o termo de liberalismo) ou aceita-los 'in totum' ou em bloco denota muita falta de senso crítico.

Cada um deles pede atento exame e posicionamento diferenciado.

Passo a alistar as principais formas de liberalismo:

  • Liberalismo moral ou pessoal - Significa a possibilidade de optar em termos de costumes: Traje, preferência musical, opção sexual, modelo familiar, amizades, carreira profissional, etc 
  • Liberalismo religioso - Significa poder escolher o credo religioso a ser seguido ou escolher credo algum, na perspectiva da irreligiosidade.
  • Liberalismo político - Significa tomar parte nas decisões políticas i é na formulação das leis e na administração da cidade.
  • Liberalismo econômico - Significa reconhecer a livre iniciativa, a autonomia e a auto regulação do mercado i é do setor econômico, condenando toda e qualquer forma de intervenção externa ou não econômica.


O modelo (liberal) inglês de modo geral vincula o liberalismo Político ao liberalismo econômico e v v sem, é claro, excluir os outros dois, salvo numa perspectiva puritana ou moralista, pois existem moralistas liberais (liberais exceto quando a moral).

De modo geral o 'liberalismo' inglês deve ser compreendido em termos de República (democracia?) representativa e capitalismo, segundo o clássico arranjo do teórico burguês John Locke.

Outro era o entendimento dos trabalhistas ingleses do século XIX. Para os quais o liberalismo político era encarado como um instrumento com que afrontar o liberalismo econômico. Temos assim um entendimento de oposição ou conflito a respeito dos liberalismos.

Este tipo de entendimento ou visão também esta de acordo com o entendimento dos Católicos 'liberais' franceses da 'Escola' de Lammenais, os quais eram liberais apenas em termos de política ou de democracia, MAS NÃO EM TERMOS DE ECONOMIA OU CAPITALISMO. Daí uma busca pelo socialismo em maior ou menor grau por parte de todos eles.

Da mesma maneira a tradição reacionária (face aquela época 1800 - 1840) - na Inglaterra monárquica, conservadora! - concentrava seus ataques (isto até De Bonald, De Maistre, Stahl, A De Mun, Maurras, Sardá y Salvay, etc) ou o fogo de suas baterias sobre o Liberalismo Político, ignorando, minimizando ou simplesmente não fazendo caso do liberalismo econômico. A abordagem reacionária continental foi marcadamente política e monárquica portanto limitada. Dir-se-ia que as baterias não atingiram o liberalismo 'inglês' ou o liberalismo como um todo em seu elemento econômico.

Talvez porque parte dos reacionários nutrissem ou acalentassem certos interesses econômicos, não o sei. Ou porque o liberalismo econômico não se instaurasse em suas sociedades por meio de golpes e sedições, e não tivessem consciência a respeito de sua presença. Ou porque ignorassem a realidade da Inglaterra em sua totalidade. Seja como for o aspecto da economia não foi considerado e disto resultaram terríveis males entendidos, ao menos para a parte Católica.

Digo isto porque aqui no Brasil. E tinha que ser no Brasil!!! rsrsrsrsrsrs Alguns católicos transloucados tiveram a infeliz inspiração e inverter o quadro francês do liberalismo e social Catolicismo, associando aspirações monárquicas e veleidades integristas ao liberalismo econômico. Traduzindo repudiaram dogmaticamente o Liberalismo Político - 'legalizado' por Leão XIII apud Carta aos Católicos franceses e Carta a Alberto De Mun - e aderiram a um liberalismo de inspiração e matriz marcadamente protestante (cf Max Weber 'Ética protestante e espírito do Capitalismo'/ Tawney 'A religião e o nascimento do Capitalismo'/ O brien 'Consequências econômicas da reforma protestante e Fanfani 'Catolicismo, protestantismo e Capitalismo) o liberalismo econômico. É como costumamos dizer: Forcejaram por manter a fé, sacrificando o sentido de vida ou a visão de mundo propriamente Católica em termos de primado do SER face ao Ter. 

Referi-mo-mos a mixórdia ou ao sincretismo monstruoso arquitetado pela assim chamada TFP e pelo despudorado Plínio Correa de Oliveira. Todavia a igreja romana, em inúmeros documentos sociais pré Vaticano II - desde Leão XIII - reconheceu que em diversas situações sociais a intervenção do político no econômico (enquanto agente regulador externo) não é apenas lícita ou necessária mas sumamente desejável tendo em vista a afirmação do bem comum. De modo que a doutrina de Aristóteles, do Aquino e dos escolásticos é incompatível com as pretensões da escola clássica e seu repúdio a qualquer interferência não econômica no plano da economia. Como o sr Plínio conseguiu realizar a façanha de conciliar os excludentes não o sabemos...

Podem pois os tradicionalecos de fancaria da TFP bater os pés e berrar a uma só voz asseverando que a Igreja não é socialista. Muito bem, admitindo a necessidade da intervenção, ela pode ser qualquer outra coisa que se queira menos liberal economicista ou capitalista. No plano da justiça social Católica o dogma da auto regulação do Mercado é coisa que não se sustenta. Porque na perspetiva ética da Igreja o Mercado é que existe para o homem e não o homem para o Mercado. A igreja condena inexoravelmente toda e qualquer forma de materialismo economicista a começar pelo primeiro de todos, o liberalismo econômico. Não condena apenas o rebento comunista, como querem os hipócritas, mas 'pai capitalismo' também.

Tampouco existe conservadorismo ou mesmo progressismo.

Mas de conservadorismos e progressismos.

Pois numa sociedade sempre há coisas que se quer conservar, na perspectiva da permanência e coisas que se quer alterar ou substituir, nas perspectiva da ruptura.

Também aqui fica dificil ser totalmente conservador ou totalmente progressista. Seremos conservadores caso desejamos mais conservar do que mudar ou progressistas caso desejemos mais mudar do que conservar. De modo que o olhar do conservador é otimista face a Sociedade do tempo presente, enquanto que o olhar do progressista parece ser pessimista ou talvez realista... Seja como for o foco do conservadorismo é sempre o tempo presente ou o modelo atual e não o passado. O reacionário é por definição adversário do conservador, porque encarando a situação do tempo presente tal e qual o progressista, tem seu olhar posto nos valores e instituições do passado. Assim o progressista aspira criar algo totalmente novo e desconhecido, enquanto que o reacionário pretende recorrer a elementos presentes no passado, numa perspectiva histórica. Ambos no entanto posicionam-se negativamente face ao tempo presente quanto a diversos aspectos.

Exemplo: No campo da política o conservador brasileiro tem seu pensamento fixado e cristalizado em torno da estrutura democrática vigente i é da democracia representativa. Já o reacionário identificar-se-ia com a monarquia ou (numa perspectiva mais ampla e européia - que é a minha) com o modelo democrático direito ou não representativo da Grécia antiga enquanto o progressista absoluto imaginaria uma total ausência de governo, nos termos do anarquismo crasso.

Face as mudanças religiosas experimentadas pelo Brasil contemporâneo e sua passagem do papismo para o protestantismo pentecostal, minha postura é marcadamente conservadora pelo simples fato de preferir uma população papista a uma população pentecostal...

De um modo ou de outro o conservadorismo, a exemplo do liberalismo, situa-se em diversos nichos existenciais. O que nos obriga a falar em conservadorismos:

  • Conservadorismo político - Comprometido, de modo geral com a democracia formal ou representativa.
  • Conservadorismo econômico - Nos países ocidentais, relacionado com o liberalismo econômico
  • Conservadorismo religioso - Identifica-se com a situação vigente no momento avaliando as alterações religiosas como negativas
  • Conservadorismo moral ou moralismo - Opõem-se as mudanças em termos de costumes, é um dos mais virulentos e perigosos pois pretende estandartizar os seres humanos.

Um observação curiosa é que no Brasil os paladinos do Cs Político e Econômico - nos termos da sociedade Norte Americana - são necessariamente progressistas em matéria de religião pelo simples fato de não serem papistas ou Católicos mas via de regra protestantes pentecostais, os quais constituem uma minoria em ascensão. E embora esta minoria tenha de ser necessariamente 'progressista' por descolar o papismo, substitui-lo e promover uma mudança em termos sociais, não é nem um pouco 'progressista' em sentido comum, mas radicalmente REACIONÁRIA em termos de moral ou conduta pessoal uma vez que seu ideal encontra-se nos escritos hebraicos do antigo testamento. Assim sendo esta minoria é progressista em matéria de religião, conservadora nos termos ingleses (economia e política) e reacionária em termos de moral na medida em que propõem a adoção de uma moral 'bíblica'. Vejam pois que o posicionamento não é uniforme.

Da mesma maneira poderíamos definir os Católicos vinculados a Teologia da Libertação ou comprometidos com a doutrina social da igreja como conservadores no plano da religião (pelo simples fato de aspirarem pela conservação de sua fé), liberais em moral e política e reacionários em termos de economia, pois o socialismo enquanto modelo vigente no passado da Sociedade européia, pode ser avaliado como uma solução reacionária (embora a maior parte dos estudiosos encarem-no como forma progressista).

Eis porque não posso encarar o liberalismo sexual como algo progressista mas como um retorno a nossa herança greco romana. Se não existia há bem pouco tempo é certo que existiu num passado remoto... Por isso encaro o liberalismo moral/sexual, o ideal do justicionismo (já presente em Sócrates) e o ideal socialista, dentre outras coisas, não como parte da pauta progressista, mas como parte de uma pauta reacionária, em termos de um resgate histórico ou de um retorno a nossas fontes sociais mais remotas. 

É por isso que não consigo compreender o sentido dessa aliança entre conservadores e reacionários (monarquistas) em termos políticos, pois os ideais, de democracia formal ou representativa e de monarquia são excludentes. E expresso-me aqui como ex monarquista. Não há como detectar convergência ou unidade nas manifestações da consciência política brasileira, sempre confusa ou simplesmente oportunista. É justamente este latitudinarismo político ou esta composição entre inimigos históricos que nos faz pensar que o único propósito de todas estas mobilizações é suster aquele tipo de liberalismo que tudo sabe manipular em benefício próprio: O liberalismo econômico.

Ainda aqui julgo perceber, pela enésima vez, a oposição entre L Político e L econômico. Pois na medida em que o primeiro, afirmando-se e ampliando-se cada vez mais, vai se transformando (como aconteceu na Inglaterra no século XIX), assumindo as aspirações populares e trabalhistas tem se curso interrompido pelo segundo ordinariamente por meio de um golpe e não poucas vezes pela implementação de uma nova ordem 'ditatorial', isto pelo simples fato do mercado ter suas necessidades e pretensões democraticamente questionadas. No momento em que a Democracia enquanto expressão mais lapidada do L Político choca-se com o L econômico e seus interesses, este não hesita em recorrer a soluções políticas não democráticas ou totalitárias com que evitar - a todo custo - a catástrofe 'socialista'. Quando as coisas chegam a este ponto, o discurso é bruscamente mudado, cessando todo poder de emanar do povo para emanar de generais, pastores, banqueiros, tiranos, etc

Segundo os pressupostos do L econômico o povo até pode guiar-se por si mesmo, mas só até certos limites ou até certo ponto ou seja até quando ouse questionar a autonomia ou a auto regulação do mercado. Aqui um dogma sacratíssimo que jamais pode ser posto em dúvida. No momento em que os olhos do povo caem sobre a 'ordem' capitalista e os cidadãos passam a clamar por uma igualdade econômica a fé democrática passa a ser questionada por seus mais atilados defensores...

E as sórdidas traições convertem-se em regras. 

A formação da política inglesa, a ascensão e queda do socialismo/trabalhismo

Este artigo esta fundamentado nas obras dos seguintes autores:

  • Harold J Laski
  • Christopher Hill 
  • Eric Hobsbawm
Dentre outros


Como quase todos os países europeus (Portugal, Espanha...) também a Inglaterra possui uma tradição aristocrática ou democrática - como queiram - que remonta a idade Média, as cortes, aos barões, aos municípios, etc No caso específico da Inglaterra esta tradição cristalizou-se na carta magna de 1215 assinada por João sem terra.

No entanto não é menos certo e exato que esta tradição ou espírito foi completamente obscurecido pela ascensão do absolutismo tudoriano em meados do século XVI. Mais do que em qualquer outro pais talvez, a presença da igreja romana na Inglaterra constituia uma espécie de 'poder moderador' situado entre a alta nobreza e o 'povo' ou entre a coroa e os nobres, buscando sempre conciliar as partes em conflito e evitar a concentração unilateral de poderes.

Assim sendo, quando Henrique VIII, estabelece uma igreja nacional ou independente (e este não é o problema) e submete-a a si (o problema é este) convertendo a fé em departamento de Estado e arvorando-se - como sustenta Hobbes - em chefe da igreja ou em 'Bispo secular' este equilíbrio é subitamente rompido em benefício da coroa e desta acumulação de poderes espirituais e temporais origina-se uma autocracia bastante forte.

Todavia essa mesma revolução que conferiu poderes absolutos da monarquia alimentou também seus inimigos que são esses burgueses enobrecidos pela posse das terras até então pertencentes a Igreja. Isto porque a coroa não tomou posse da totalidade delas mas partiu-as entre seus apoiantes e esses apoiantes, ao menos em parte, transformaram tais riquezas em capital primitivo, investiram e consequentemente aumentaram seus lucros, sua riqueza e seus poderes. A ponto de em cem anos poderem quebrar o absolutismo real, desafiar a coroa e a igreja, decapitar o rei e criar a primeira república em moldes burgueses de que temos notícia, isto pelos idos de 1649.

Evidentemente que ao tempo de Henrique, suas filhas e mesmo de Tiago I ninguém cogitava a respeito de um futuro tão insólito. No entanto ao mesmo tempo que aumentavam seu poder econômico os senhores burgueses afastavam-se da poderosa igreja nacional, pelo que a oposição política como sói em tais ocasiões converteu-se também em oposição e controvérsia religiosa entre os Bispos da coroa e os puritanos. Aqui misturaram-se os elementos econômicos e religiosos numa amalgama que em certo sentido esboça nossa visão culturalista da História.

A burguesia puritana, que há cem anos apropriara-se - com as graças de sua majestade - do espólio papista, aspirava agora apropriar-se das 'terras comunais' pertencentes aos campônios e desaloja-los de suas pequenas propriedades aumentando inclusive a oferta de mão de obra servil. Aqui no entanto suas pretensões chocaram-se com a opinião dos Bispos chefiados pelo grande Dr W Laud. Além de ter percebido a relação existente entre o poder econômico e o puritanismo, o velho Bispo anglicano percebeu igualmente que o controle de mais terras aumentaria ainda mais a riqueza e o poder dos puritanos a ponto de ameaçarem a um só tempo a Igreja episcopal e a coroa. Em que pese a tardança Laud convenceu o rei a atalhar e dificultar o acesso dos Lordes a tais terras...

Segundo a mentalidade episcopal e inglesa o argumento contrário as aspirações monopolistas dos puritanos foi retirado da 'tradição' atraindo de imediato a simpatia do povo, especialmente dos camponeses. Mais uma vez formou-se a conhecida aliança Coroa + povo contra a nobreza ou Monarquia + 'democracia' (permitam-nos esta liberdade) X aristocracia (de sangue e grana). O elemento de 'contato' entre a coroa e o povo foram os bispos do Estado chefiados por Laud e o veículo deles as igrejas, missas e sermões.

Desde então a Sociedade inglesa ficou completamente cindida em dois campos, os realistas, de modo geral papistas e anglicanos e campônios, e os rebeldes, de modo geral puritanos, sectários, burgueses e pessoas de ambiente urbano. Também estou disposto a crer que a maior parte dos cidadãos estivessem com a coroa. No entanto desde que a pólvora e as armas de fogo principiaram a ser utilizados, quantidade jamais foi problema em situações de guerra. Após cem anos a coroa havia dissipado parte de sua grana tomada a Igreja romana, e já não havia ameaça iminente de invasão espanhola que justificasse tributações. Esgotados os fundos e normalizada a política internacional a coroa inglesa passou a ter dificuldades para obter fundos. Pois segundo a tradição constitucional os impostos sempre deviam ser referendados pelo Parlamento... Ora formado majoritariamente pelos puritanos ou burgueses enobrecidos... Destarte como a coroa optara por dificultar o acesso deles as terras comunais e a fazer estardalhaço em torno das velhas regalias medievais de caráter popular, o parlamento optou por fechar as torneiras da coroa.

Desde então e por algum tempo a coroa passou a ter dificuldades para manter seu 'fausto'. O único caminho aqui era dividir o poder com a burguesia, recuando, satisfazendo suas aspirações e autorizando a grilagem das terras. Evidentemente que se tratava de um caminho sem volta! Pois os burgueses jamais abririam mão do poderio facultado e a coroa ficaria cada vez mais fraca até converter-se numa marionete em suas mãos ou num departamento da 'mão invisível'. O monarca britânico, confiado no apoio dos Bispos e da igreja anglicana optou por resistir e por recorrer a uma solução que lhe era facultada no sentido de obter recursos e decretar impostos a revelia de seus súditos: 'Paramentar-se', subir ao trono e como diríamos hoje baixar uma 'medida provisória' que dispensasse a aprovação do parlamento...

Os puritanos bem sabiam que caso a coroa pudesse obter recursos suplementares e 'armar-se' contra eles, seria muito mais difícil curva-la e tomar posse do poder. Portanto o empenho da coroa em obter recursos e baixar impostos de maneira 'arbitrária' deu lugar a guerra aberta, a guerra civil inglesa, ao cabo da qual os puritanos muito mais ricos e portanto bem armados esmagaram seus oponentes e derrubaram a monarquia. Desde então medidas econômicas de caráter impopular foram adotadas e os pobres camponeses esbulhados de suas terras comunais, pois Laud havia sido enviado ao cadafalso juntamente com o rei e os Bispos anglicanos postos fora da lei e substituídos por pregadores calvinistas.

Acontece que desde algumas décadas havia já em Londres e algumas outras grandes cidades uma espécie de proletariado, cuja situação era bastante precária. De acordo com uma tradição revolucionária e socialista legada pelo anabatismo (pois remonta a Thomaz Muntzer) alguns deles - eram chamados True Levellers (niveladores) ou Diggers (cavadores) - como Gerrard Winstanley principiaram a espalhar teorias e doutrinas comunistas, anarquistas e revolucionárias. O número destes panfletários anônimos não foi pequeno e o impacto de suas obras tampouco uma vez que aqueles que sabiam ler começaram a le-las em seus conventículos de modo que seu ideário tornava-se cada vez mais popular apesar da vigilância exercida por Cromwell e seus partidários. Ademais era Cromwell um lider carismático...

Seja como for o florescimento das teorias radicais não deixava de exasperar tanto aos puritanos quanto a seus adversários realistas ou anglicanos. Naquele momento não poucos foram capazes de extrair a medula do pensamento economicista liberal ou conservador segundo o qual a deposição ou a execução dos monarcas e a alteração brusca das formas políticas abria caminho para a contestação da ordem social facilitando a emergência de um pensamento econômico igualitário ou socialista. A própria implementação da igualdade política sugeria a implementação de uma igualdade econômica e apenas esta aterrorizava os donos do poder. Pois no frigir dos ovos quem controla a econômica acaba sempre interferindo na dinâmica democrática e viciando-a. Democracia associada ao liberalismo econômico é coisa que não se temia pelo simples fato de converter-se em plutocracia, apesar do nome. O que se temia na verdade é que a partir da igualdade política o povo além de deduzir uma igualdade econômica e, habituado a mudanças, passasse a lutar por esse ideal.

Noutras palavras o povão sempre poderia imitar a atitude dos burgueses e nobres e ataca-los da mesma maneira como eles haviam atacado a monarquia e deposto o rei.

Tudo levava os senhores ingleses a crer que as coisas tomariam este caminho, portanto cumpria atuar rapidamente e - pasme o leitor - dividir o poder, reconciliar-se com a monarquia e empossar um rei. Importava apenas que o poder daquele rei não fosse mais absoluto mas regulado pelo parlamento. Tratava-se de uma tentativa de composição entre a monarquia e a aristocracia ou de um modelo misto, germe das monarquias constitucionais e do parlamentarismo, cujas formas foram sendo delineadas após a restauração no decorrer do século seguinte (XVIII). Tudo quando podemos adiantar é que se trata da retomada da forma mista preconizada por Políbio segundo o modelo romana e que o primeiro delineamento teórico foi esboçado por John Locke. A esta composição entre monarquia e aristocracia (de sangue e grana) batizaram como democracia, trava-se no entanto de um 'liberalismo político' não democrático pelo simples fato de que o povão ainda não tinha como inserir-se.

Claro que a atitude dos puritanos foi acolhida de braços abertos pelos realistas. Afinal após a derrota e a execução do monarca eles haviam perdido o poder e não estavam em condições de negociar ou de exigir qualquer coisa. Sendo assim a monarquia consentiu em representar a velha farsa e em transformar-se em espantalho da democracia popular e do socialismo contendo as massas supersticiosas, ao menos por algum tempo, no respeito. A monarquia foi oficialmente restabelecida e todos acharam por bem fingir e afetar respeito para com a pessoa 'sagrada' do monarca. Todavia deste então as decisões políticas passaram a ser cada vez mais tomadas pelos líderes burgueses ou seja pelos membros do parlamentos e primeiros ministros após terem consultado e ouvido os banqueiros e industriais.

Graças a esta estratégia, que é uma pérola do primitivo pensamento conservador, o espectro de uma Revolução nos moldes populares de uma Revolução francesa pode ser conjurado por mais de século e no caso de Albion até os dias de hoje.

Todavia ainda faltava um elemento e o mais delicado e perigoso.

Afinal o próprio progresso técnico e necessidade de lidar com máquinas cada vez mais complexas, com o fluxo de compra e venda, com pagamentos de salários, etc determinou que ao menos parte dos proletários tivessem de receber uma instrução básica em termos de escrita a cálculo. A própria demanda administrativa gerada pelo capitalismo impedia que todos fossem mantidos na ignorância crassa tal como no século precedente e segundo as aspirações de Voltaire. Ao menos alguns precisavam receber uma formação sumária. O problema foram as novas perspectivas franqueadas pelo letramento de parte das massas. Afinal quem é que garantia que tais homens limitar-se-iam a ler apenas as planilhas, os livros e firma e a Bíblia?

No caso da França um letramento insipiente foi o quanto bastou para que as ideias revolucionárias suscitadas pela teoria democrática se alastrassem muito rapidamente entre as massas, já porque havia o recurso da leitura comum realizada em conventículos. Em que pesem as fiscalizações, restrições e intervenções punitivas da coroa. Solapada pelos ideais democráticos a monarquia francesa também veio a cair em 1789 e embora os girondinos, que representavam a alta burguesia nacional, forcejassem por conter a revolução nos limites do constitucionalismo e dos moldes ingleses tradicionais seus titulares foram encarcerados na torre e decapitados. Tal e qual os espertos girondinos temiam após a morte do monarca e a adoção de um republicanismo radical principiaram mais uma vez, como cem anos antes, a fermentar ideias de caráter socialista e anárquico (no sentido de uma democracia mais popular ou direta). E eis que surgem os Herbetistas e enfim os babovistas, herdeiros de Robespierre. O qual por sinal acabou decapitado...

Desde então a burguesia reassumiu o controle e guilhotinação no sentido de conduzir a república a seus limites normais i é políticos e evitar quaisquer transformações de caráter econômico.

Mais uma vez os argutos ingleses, herdeiros de um pensamento conservador atilado, perceberam os 'sinais dos tempos' deduzindo que era necessário adiantar-se e fazer uma nova composição (recomposição) de poderes ou assistir o desabrochar de uma catástrofe sem precedentes. Ademais a Sociedade inglesa estava bastante vulnerável ainda em razão da Guerra da Independência Norte Americana. Sob o impacto deste trauma e a ameça de algumas pequenas rebeliões e levantes isolados os lordes ingleses puderam compreender perfeitamente o sentido da 'fumaça' o que havia na base. O fogo deveria ser apagado a qualquer custo. Urgia implementar o pão e circo (afinal inglês algum toleraria ser enviado aos 'brioches' pelo monarca!) e incorporar certo elemento verdadeiramente democrático a estrutura do poder.

Para os lordes ingleses esta constatação deve ter causado profundo impacto e produziu verdadeiro trauma porque exatamente naquele momento cogitavam revogar por completo todas as poucas leis sociais remanescentes do período medieval e estabelecer o regime da concorrência ou livre mercado segundo os cânones clássicos de Smith e Ricardo. Logo dar poder ao povo naquele momento bem podia significar um entrave a este projeto. Felizmente o pão e circo das leis assistenciais pareceu surtir efeito, ficando as reformulações proteladas... Até que surgisse algum perigo. Mesmo porque os guardiães ingleses eram hábeis em identificar os perigos.

Curiosamente uma nova reação popular, alias bastante compósita e intensa, só veio a ocorrer após os lordes terem revogado as leis assistenciais e introduzido a dinâmica capitalista nos já citados moldes clássicos. Desde então a lutra revestiu-se de dois aspectos: a revindicação da ampliação do liberalismo político num sentido cada vez  mais democráticos e a partir da ampliação do poder político das massas a revindicação de mudanças econômicas opostas as aspirações do capital. Assim a luta inglesa foi a um tempo politica e institucional e a outro econômica. E eles usavam do poder politico adquirido para golpear o liberalismo econômico ou restringi-lo. Esta política contou com o apoio de um grupo ideologicamente bastante heteróclito formado por Anglicanos da alta igreja, metodistas, 'Católicos' sociais, espíritas, deístas, ateus, alguns quackeres e anabatistas, etc Religiosamente a resistência capitalista teve por janízaros os calvinistas (antigos puritanos) e sectários.

Como naquela dinâmica havia uma compreensão mútua entre as partes o processo encaminhou-se justamente naquela direção já prevista pelos ancestrais do conservadorismo e consistiu em abrir mais e mais a brecha feita pela democracia até conter as pretensões do liberalismo econômico e - algumas décadas antes de J M keynes - implementar um estado de bem estar social representando por um aparelho de inclusão e promoção humanas. Queremos dizer com isto que os liberais não estavam dispostos a questionar a viabilidade da democracia até a exasperação de seus contrários e o estourar de uma Revolução nos moldes da temida Revolução Francesa cujo fantasma sempre perseguia-os. Então eles conheciam os limites da resistência e até onde podiam ir sem maiores perigos. Grosso modo toda política inglesa ulterior, pautada na negociação e na conciliação a partir de uma estrutura eclética teve como parâmetro a Revolução Francesa. E quando a Revolução Francesa sai de cena pelos idos de 1900 estoura outra revolução não menos virulenta, a Russa.

A bem da verdade quando a Revolução Russa estoura em 17 o modelo trabalhista inglês ou modelo anglo saxão de bem estar social já estava completamente acabado. No entanto o fato de ter sido mantido por quase um século, até a era Tatcher que corresponde a sua demolição só pode ser compreendido a luz da Guerra fria e do receio instintivo dos ingleses face a simples possibilidade de uma nova Revolução. Os ingleses sempre foram bastante práticos, jamais perderam a cabeça e sempre souberam que eram melhor negociar e perder parte de seus privilégios ou compartilha-los do que perde-los por completo. Neste sentido souberam ser inteligentes.

Por isso que desde 1880 e ao cabo de um século adotaram um modelo socialista de bem estar e o mantiveram premidos como encontravam-se por duas Revoluções, a francesa e a russa. Eles sabiam que após ambas as revoluções o mundo não seria mais o mesmo e que a totalidade das antigas organizações não podia ser mantida. Como os passageiros de um avião que esta a cair lançam fora as bagagens eles sabiam que precisavam sacrificar algo e alterar e recompor seu modelo econômico. Dai esta associação eclética entre monarquia (elemento tradicional e simbólico), aristocracia (elemento financeiro) e democracia (elemento popular), que muitos tem em conta de genial. Que semelhante estrutura política propiciou a restrição das ambições capitalistas e consequentemente a implementação de um modelo socialista nos domínios da institucionalidade e portanto sem efusão de sangue e destruição de patrimônio cultural ninguém pode negar.

Dirá o amigo leitor que estou enganado pois o modelo trabalhista inglês acabou sendo demolido e a tal 'Revolução pacífica' ou institucional revertendo mais uma vez ao capitalismo. Neste caso eu lhe pergunto a respeito da Revoluções agressivas ou violentas. Qual delas não acabou revertendo?

A francesa reverteu em questão de alguns poucos anos após a morte do 'incorruptível'... A Russa manteve-se por cerca de setenta anos... A mexicana perdurou por trinta e seis anos (até 1946) apesar do saldo de dois milhões de mortos. Assim se a situação política e econômica da Grã Bretanha acabou revertendo ao menos a implementação do novo modelo (trabalhista) fora feito pacificamente, sem que um único cidadão tivesse de perder a vida.