terça-feira, 5 de dezembro de 2017

O rastro - Terror brasileiro que surpreende


Assista o trailer de "O Rastro", filme de terror nacional com Leandra Leal e Rafael Cardoso 

Não havia conseguido assistir ao filme Rastro no comecinho deste ano. Circunstância esta que deixou-me bastante chateado. Afinal ao menos para mim tratava-se dum evento bastante promissor.

Curiosamente não consigo me lembrar do que aconteceu...

A bem da verdade a decepção foi tão grande que acabei ficando sem assisti-lo. Ao menos até ontem, quando por absoluta falsa de opção lembrei-me dele.

A crítica já havia lido no começo do ano.

Que o brasileiro tenha preconceito contra o cinema brasileiro é público e notório.

A bem da verdade semelhante tipo de atitude até era compreensível, ao menos até os anos 90.

Glauber Rocha e Zé do Caixão era o quanto tínhamos e nenhum deles me entusiasma...

Nem sou um Policarpo quaresma para babar nos ovos de nossos empreendedores cinematográficos...

Vez por outra aparecia alguma coisa de relevante. Dercy Gonçalves e Marieta Severo foram exceções a regra, ignoro no entanto quem tenha dirigido tanto uma quanto outra.

Terror propriamente dito não tinhamos, mas nosso cinema era um terror.

Desde Central do Brasil(1998) temos progredido bastante, os preconceitos no entanto permanecem de pé.

Especialmente nos domínios da comédia o cinema brasileiro foi muito bem sucedido e feliz. O Palhaço (Shelton Mello), Não se preocupe, nada vai dar certo (Gregorio Duvivier), De pernas pro ar (Ingrid Guimarães), Podia ser pior (Fábio Porchat), Minha mãe é uma peça (Paulo Gustavo), A cilada.com (Bruno Mazzeo), E ai... comeu? são produções que nada ficam devendo as internacionais.

O terror no entanto não deslanchou, até que foi lançado "O Rastro", de modo geral, muito mal acolhido pela crítica 'rancorosa'.

A propósito do 'rancorosa' em nossas plagas já foi o crítico literário descrito como uma galinha que sendo incapaz de por ovos, só sabe ver defeitos nos ovos postos pelas companheiras.

Sejamos justos, de modo geral nossos críticos fazem jus a esta crítica.

E isto a ponto de, entre nós, a crítica ser encarada muito negativamente. O sujeito comeu algo que não lhe assentou bem no estomago ou brigou com a mulher, pronto,destila todo seu azedume num determinado artigo de crítica, bombardeando certo livro, filme ou composição musical. Erros e defeitos é tudo quanto vê este cidadão amargurado, enfezado mesmo...

Crítico tem medo de ser benfazejo.

E no entanto criticar não é apontar apenas equívocos, falhas e senões, mas... sobretudo e antes de tudo  identificar o quanto haja de bom , de belo e de verídico numa determinada obra e, consequentemente elogia, louvar e aplaudir aquele que a produziu. Não sendo assim temos uma crítica tão mutilada e incompleta quanto nosso modelo educacional, caracterizado mais por punições do que por recompensas, mais por censuras e reprimendas do que por elogios.

Penso que a crítica da arte deva ser mais positiva do que negativa e julgo que não tenha sido justa com Rafael Cardoso (excelente ator), Leandra Leal e grande elenco, em que mesmo o sensaborão Filipe Camargo soube representar seu papel com dignidade.

Quem disse que o Rastro não assusta só pode mesmo ser fã de O massacre da serra elétrica, Sexta feira treze, Premonição ou Jogos mortais com a decorrente efusão de sangue, e corpos despedaçados, o que qualquer um de nossos ancestrais anterior a 1789 encararia como banal. O Cel Carlos Brilhante Ustra, soube ser bem mais sádico e violento do que Hannibal Lecter, Jason ou Freddy Krueger, sem ser personagem de ficção... Houve e dá um terror real no Brasil mas não nos assusta. Apenas lobisomens, vampiros, diabos, demônios e possessos, assustam-nos. É cultural...

Claro que há, no Rastro, algo de sobrenatural ou que beira a sobrenaturalidade, mas é, como deve ser, discreto. Talvez mediunidade e certamente assombração, mas sem muita apelação. Quer encontrar o Sétimo passageiro, seu filme é alien, não 'O rastro'.

A par do sobrenatural discreto a temática de 'O rastro' engloba corrupção, repressão policial, mafia e muito mais. Conectado com a vida vivida ou com a realidade 'O rastro' torna-se verdadeiramente aterrorizante.

Terror precisa ser inteligente como o italiano, o espanhol, o francês, o inglês... sem jamais perder seu vínculo com a realidade. E assim fugir a banalidade de um 'Silent Hill' ou de 'O grito'. Parte da produção terrorífica Norte americana e japonesa, feita para o consumo das massas superficiais e impressionáveis. Com o rastro o terror brasileiro adquire a maturidade do terror europeu, façanha alcançada apenas pelo terror mexicano no final dos anos 60. (1968 "O livro de pedra" Marga Lopez)


sábado, 2 de dezembro de 2017

O humanismo de 'Assassinato no expresso do Oriente'

 Resultado de imagem para filme assassinato no expresso do oriente


Confesso que não sou fã de romances policiais.

De uma tia, já falecida, ouvi dizer que sua mãe obrigara-a a ler todas as obras de Aghata Christie para que se tornasse mais esperta, uma vez que era uma mocinha bastante ingênua.

Apesar disto, jamais lí qualquer livro de Doyle, Aghata ou Simenon; Sherlock Holmes, Poirot e Maigret não fazem parte de meu círculo de Amizades, sou mais um Dostoevsky, um Mika Watari, um Robert Graves ou um Gore Vidal e minha predileção é pelo romance histórico.

No entanto quanto os poucos romances policiais que li - li alguns de 'segunda classe' - consegui desvendar o mistério antes do final...

Neste fim de semana todavia fui convidado a assistir a mais recente obra de Branagh 'O assassinato no expresso do Oriente' e como nada me parece melhor, aproveitei a oportunidade e fui. Afinal, tendo nascido no ano seguinte, não poderia ter assistido a gravação homônima de Lumet (1974).

Nada direi sobre a trama em si, afinal não seria de bom tom, estragar o prazer de quem ainda não leu o livro ou assistiu o filme.

Limitar-me-ei a declarar que Branagh é daqueles bons e raros diretores que se mantém fiéis ao livro fonte, abstendo-se de deturpa-lo. Haja visto 'E o vento levou' de Mitchel alterado em 1939, 'O egípcio' de Mika alterado em 1954... Isto quanto aos filmes que assisti após ter lido as obras nas quais os diretores declaram terem se inspirado.

Branagh como disse prima pelo respeito as obras que declara gravar.

Neste caso por que assistir ao filme se já lemos o livro?

Porque ao ler o livro imaginamos enquanto que ao assistir a um filme qualquer, vemos e ouvimos, experimentando outros tipos de sensações.

Assim todo filme fiel é como que um livro 'encarnado' ou corporificado, o que reporta a uma outra dimensão, a dimensão dos sentidos.

Temos aqui um caso de assassinato, ocorrido no expresso, o qual reporta a um outro assassinato, este último marcadamente sádico e cruel.

Uma curiosidade. Quanto a este último assassinato Agatha Christie tomou por ponto de partida um drama da vida vivida - O sequestro e assassinato do filhinho do aviador Norte americano Ch Lindenbergh, o qual comocionou o mundo inteiro no comecinho dos anos trinta.

Uma vez que a composição de primeira classe achava-se fechada Poirot é levado a concluir que apenas um dos doze ocupantes daquela composição poderia ter cometido o crime em questão. Temos portanto doze suspeitos, um mais peculiar que o outro.

A sempre bela e deslumbrante Michelle Pffeifer como a socialite Norte Americana Caroline Hubbard.

O impecável Derek Jacobi como Ed Masterman, o mordomo.

Willem Dafoe como um professor nazista.

As divas Daisy Ridley e Lucy Boynton.A fantástica Judi Dench encarna com perfeição a princesa Natalia Dragomiroff. Por fim a Johnny Depp coube representar o finado sr Ratchett

Portanto, como se vê, temos aqui uma constelação de astros e estrelas, um elenco tarimbado.

Detalhe curioso é a diversidade de nacionalidades, raças e até mesmo de classes sociais incluída nesta primeira classe cujo destino final é Calais. A tensão nacionalista, racial e classista é marcante durante boa parte do filme.

Afinal temos ali um médico negro de origem norte americana e um hispânico muito bem sucedido em seus negócios...

Temos governantas, nobres, secretários, policiais e até mesmo uma freira...

Cenário ideal para que os conflitos aconteçam e multipliquem-se.

E é claro, cenário em que todos se tornam suspeitos em potencial.

Penso que a maioria dos amigos vão adorar acompanhar Poirot em suas conclusões... passo a passo... até o fim.

Bouc principiara dizendo, logo no começo do filme, que numa viagem de trem pessoas que jamais se viram ou verão novamente tem uma única coisa em comum, seu destino... Tudo nesta trama tenderá a demonstrar o contrário...

Importa saber que no fim e por fim o 'criminoso' (Mas será 'o' criminoso mesmo???) é descoberto...

Nem poderiam as coisas darem-se doutro modo estando ali, no 'Expresso do Oriente' o maior detetive do mundo, Hercule Poirot... Dandi ou janota belga cuja perspicácia jamais falha.

Aqui um dilema - Poirot, em tese ao menos, deve entregar tal pessoa a polícia, ou melhor dizendo, a forca. Conclui no entanto não estar diante de um criminoso vulgar, o qual, por assim dizer, mata por motivos banais ou pueris. Há por trás daquele pequeno drama uma drama bem maior...

Bem, o que se espera de uma senhora inglesa nascida ainda na Era vitoriana é que o sentido das formalidades legais predomine, e que o detetive, entregue o criminoso as autoridades, sem fazer qualquer caso da justiça, afinal, como tantos costumam repetir 'Lei e lei' ou ainda 'Dura lex sed lex'. Surpreendentemente é o que não acontece. Pois Poirot adotando um critério ético de justiça, mostra-se humano. Aqui, sem ser comunista ou anarquista, Agatha Christie mostra-se muito mais revolucionária...

Ao parar na derradeira estação foi a composição invadida por um desconhecido, o qual após ter assassinato, por motivos pecuniários sem dúvida, ao sr Harchett evadiu-se sem deixar pistas... Eis o que Poirot diz a polícia, a qual se dá por satisfeita...

Teria sido este o ocorrido??? Do contrário, que motivos teriam levado nosso homem a dize-lo???

Situações há em que a justiça se faz e é feita em cabines de trem, quartos de hotel ou aposentos de uma residência, não nas cortes judiciárias... Situações há em que devemos compreende-lo - como Hercule Poirot compreendeu-o.

Há nisto excelência, elevação e humanidade.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

O tabu do totem - Uma resposta a S Freud VII > O selvagem, a criança, o neurótico e o voluntarismo

Tendo nos seis artigos precedentes buscado apontar os pontos fracos e portanto discutíveis da obra freudiana 'Totem e tabu' somos levados, por uma questão de justiça, a apontar seus pontos positivos ou melhor seu ponto mais positivo, o qual a nosso ver diz respeito a identidade - Neurótico/primitivo ou selvagem e seu viés idealista/ voluntarista.

"Não nos devemos surpreender ao constatar que o homem primitivo transfere para o mundo exterior a estrutura de sua própria psique." p 122


"Assim a magia revela a intenção de impor aos objetos da realidade exterior as leis da vida psíquica." id ibd
Ao invés de adequar-se a realidade externa e objetiva do mundo, o homem primitivo, sempre que que se acha em conflito com ela, acredita poder altera-la ou controla-la por meio de determinados procedimentos técnicos a que chamamos magia. E, numa fase subsequente através do que chamamos feitiçaria. De um modo ou de outro ele se recusa a adaptar-se, evitando assim a frustração.

Esse homem acredita poder controlar os fenômenos naturais existentes ao redor de si, e nem por isso é considerado demente, louco ou desajustado pelo simples fato de que esta perfeitamente ajustado a cultura de seu grupo, que é uma cultura magico fetichista. Não se torna neurótico este homem, como o homem contemporâneo, pelo simples fato de que seu voluntarismo é coletivamente partilhado. Socialmente integrado ele não põem em dúvida os recursos de que dispõem, e destarte não surta... pois crê, pois tem esperança, pois esta fora da realidade.

É como se a fantasia partilhada ou a neurose partilhada e socialmente sancionada pelo grupo social adquirisse o 'status' de realidade.

Outra não é a condição do nosso neurótico, o qual, apesar do quanto foi constatado por nossa civilização 'científica' em termos de causalidade natural, continua a relacionar suas próprias ações com determinados acontecimentos felizes ou infelizes. Assim há quem chegue a conclusão de que se deixar de lavar as mãos de duas em duas horas fará com que sua mãe morra, como há quem creia que pronunciando determinada palavra ou fazendo tal gesto é capaz de provocar uma acidente e vitimar seu próprio filho... decorrendo de tais crenças a repetição de tal ato ou a iniciativa de evita-lo a qualquer custo e, consequentemente certo grau de desajuste pelo simples fato de que tais crenças não são socialmente partilhadas ou comuns a todos os membros do grupo.

Ao contrário do primitivo, o neurótico - ao menos a nível de consciência - sabe que suas crenças são absurdas, e que esta em oposição face a realidade externa e objetiva do mundo, o que torna sua situação ainda mais desagradável ou aflitiva. Seja como for ele não tem coragem suficiente para desafiar o absurdo... Nosso neurótico sabe estar em oposição ao grupo.

Tanto o selvagem quanto o neurótico estabelecem falsos vínculos entre a realidade externa do mundo e a vontade. Supondo que a realidade externa do mundo deva ceder aos imperativos da vontade.

Aqui a função de gerenciar a vontade ou de administrar sua fruição face aos imperativos da realidade externa não é desempenhada como deveria pelo Ego, de modo que a fantasia cobra elevado tributo...

Passemos agora ao terceiro elemento do triângulo voluntarista.

Por terceiro elemento ou terceira ponta deste triângulo queremos designar a criança. Levi Strauss foi quem chamou atenção para a similaridade existente entre o pensamento selvagem e o pensamento infantil. A dar por exatas as comparações feitas por Freud e Levi Strauss temos de concluir pela similitude entre o comportamento da criança e o comportamento do neurótico. Afinal de contas se A = B e B = C > C = A.

Freud por sinal, levando bastante a sério a 'filosofia ' alemã, tomou o Id por fonte do Ego, o qual desprende-se dele na medida em que ele, percebendo o mundo externo, percebe-se como algo distinto. A vontade ou o querer precede a consciência de si, e consequentemente qualquer tentativa de mediação. A princípio este homem é vontade pura ou melhor trieb - pulsão.

Sem endossar por completo as teses do psicanalista 'vienense' (sic) aqueles que estudaram o fenômeno da cognitividade humana Wallon, Piaget, Winnicot, etc concluíram que a consciência da criança é construída por 'exclusão' na medida em que ela entra em contato com o mundo externo. Por outro lado o padrão de pensamento lógico ou racional, bem como a formação de um construto ético ou moral, só são atingidos pouco depois da puberdade, após um processo tão lento quanto complexo, resultando disto uma situação de 'crise'. Afinal a percepção de uma realidade irredutível a fantasia jamais poderia deixar de ser dolorosa. A criança acalentou sonhos, o adolescente que não seja criado como Buda, conhecerá decepções...

A criança no entanto, segundo sua vontade, da largas a imaginação... Imagina e é levada a imaginar - por via da cultura - uma série de entidades fantasiosas, quais sejam deuses, demônios, heróis, duendes, anjos, fadas, trols, gnomos, monstros, etc aos quais atribui existência real, crendo inclusive que possam atuar neste mundo e produzir os fenômenos que sabemos ser puramente naturais. Para ela nada é mais natural do que o milagre e a realidade uma sucessão de maravilhas. Apenas graças a intervenção dos adultos mais esclarecidos e sobretudo da educação científica e a reflexão filosófica é que ela vai superando este padrão infantil e compreendendo a realidade tal e qual é, ou seja, como algo fora do alcance da imaginação i é como algo incontrolável.

É a fase do papai Noel, do coelhinho da páscoa, da cegonha e de tantas outras quimeras alimentadas pelos adultos inconsequentes. Afinal se a fantasia não deve ser reprimida, tampouco deveria ser alimentada. Apenas encarada com naturalidade e segundo as oportunidades problematizada... Afinal a criança continuara a imaginar outros tantos seres e a relacionar-se com eles, até atingir a fase racional... Assim imaginar faz parte do curso da vida e a criança imaginará, e imaginando reformulará o mundo e criará seu mundo. Não, não podemos adiantar as coisas ou queimar uma fase... seria danoso, quiçá em termos de afetividade. Daí a importância das fábulas com a dimensão ética do 'moral da estória'.

A passagem do padrão voluntarista para o padrão racional deve processar-se da maneira mais simples possível, afinal, como já foi dito implicará sempre numa crise. Aqui reprimir, e adiantar equivaleria exasperar, magoar, frustrar. Concedamos que nossas crianças atinjam a maturidade natural e suavemente, limitando-nos a orienta-las com carinho e compreendendo seu tempo e seu mundo. Assim a fantasia se esgotará... Já quem não pode ser criança a seu tempo tenderá a se-lo por toda vida...

Temos aqui que o neurótico, a criança e o selvagem são infensos a realidade externa e objetiva do mundo, a qual buscam controlar, fazendo com que prevaleça a vontade. Filosoficamente o selvagem, a criança e o neurótico são voluntaristas/idealistas. Sem que no entanto ousem revindicar o título de 'filósofos'. Já a Filosofia alemã é por assim dizer 'filosofia' de neuróticos, selvagens e crianças na medida em que questiona a existência deste mundo externo e objetivo que se opõem tão dramaticamente a nossa vontade e, mais ainda, na medida em que apresenta este mundo externo e objetivo como epifenômeno ou produto de nossa vontade (Fichte, Schelling, Schopenhauer, Nietzsche, Hartmann, etc)...Do mesmo modo como o racionalismo moderno, ignorando por completo a instância da vontade humana e dos sentimentos, tornou-se artificioso até o intelectualismo, o idealismo alemão - irmão gêmeo do romantismo - fez o caminho oposto. Resgatou assim a vontade, negando não apenas a capacidade do intelecto para deslindar o mundo externo, mas - como já assinalamos - a existência do próprio mundo externo, ora concebido como algo que 'é percebido' pelo homem ou como algo que esta em sua mente. Chegamos assim ao extremo do psicologismo e as fronteiras do relativismo, do subjetivismo e do solipsismo crasso; do idealismo enfim.

Resta-nos declarar, a contragosto até, que o pensamento contemporâneo, ou da moda - marcadamente irracionalista, senão emocionalista - acabou por nivelar-se a magia, a feitiçaria, a superstição, a fantasia, a imaginação, a selvageria, ao infantilismo... até precipitar-se nos abismos da neurose. É uma pseudo 'filosofia' neurótica e de neuróticos que recusam-se a reconhecer a realidade do mundo externo - com todas as suas mazelas - e a afronta-lo. Neste sentido é uma 'filosofia' tão cômoda, oportunista, frouxa e leviana quanto o ceticismo antigo; o qual por falta de padrão crítico, assumia o mundo como ele era, ficando com a realidade dada e negando o ideal... Como bem se vê, os extremos se tocam.

Importa assumir a realidade de um mundo 'ingrato' e buscar conhece-lo para poder tentar, em alguma medida, transforma-lo. É somente entrando na realidade do mundo que seremos capazes de muda-lo.

Cessemos pois de 'pensar' como selvagens, neuróticos ou crianças, crendo que a vontade 'por si só' alterará qualquer coisa e passemos a pensar como adultos ou como criaturas emotivas e racionais, as quais esperam - com esforço e dificuldade - conhecer um pouquinho e transformar algo, ou morrer tentando...






sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Revisionismo protestante - Seitas para Católicas, que troço é esse???

Em tempos que prolifera o fundamentalismo bíblico com suas monstruosidades e bizarrices é sempre bom mostrar o outro lado da moeda...

Afinal como dizia Mencken, lá nos EUA dos 1900, a evolução ou progresso intelectual dos cidadãos podia sem mensurado em termos de hierarquia confessional. Achando-se, é claro, os batistas - com o dogma imbecil da inerrância bíblica - na base da pirâmide seguidos de perto pelos calvinistas... Já no alto da pirâmide achavam-se os anglicanos e papistas com seus refinados construtos teológicos.

Operava já o pentecostalismo ou a pajelança de Pharran entre as massas mais embrutecidas... Mas não proliferava como hoje.

Há cem anos atrás ou mais eram os protestantes históricos, especialmente metodistas e luteranos, que abandonavam os preconceitos ancestrais e catolicizavam... Restabelecendo os Sacramentos, o ritual e mesmo alguns artigos do Dogma entre suas membresias. Os luteranos da Rússia por sinal, tendo Fesller a sua testa, chegaram a ultrapassar os próprios papistas e a rivalizar com nossos Ortodoxos quanto ao esplendor litúrgico de seus ofícios. De modo que ao entrar em qualquer templo luterano de Moscow tinha-se a nítida sensação de estar num templo papista ou anglicano.

Outra não era a direção dos metodistas e mesmo de alguns presbiterianos dos Estados Unidos, os quais na mesma medida em que iam descobrindo os tesouros da literatura e da tradição patrísticas iam forjando seus próprios movimentos de 'Oxford'. E restabelecendo a Confirmação, a Penitência, a Ordenação, o incenso, as representações, as cruzes, enfim tudo quanto caracteriza o nosso Cristianismo em oposição ao judaísmo e ao islan, cuja pobreza estética ou formal é notória.

Seja como for não podemos classificar tais organizações como para Católicas. Na medida em que ao menos formalmente, permaneceram apegadas aos princípios errôneos divulgados pela falsa reforma, assim a doutrina da salvação imoral, vicária e fetichista pela fé somente ou nos pecados, assim a doutrina da predestinação, assim a doutrina do livre examinismo... Claro que tais agremiações não cogitavam, nem de longe, por tais princípios em prática, mantinham-nos todavia em seus 'credos' como letra morta.

As seitas para Católicas de modo geral constituem elementos bastante curiosos devido a seu caráter, digamos assim, paradoxal ou antagônico; pois se quanto ao conteúdo ou a matéria caracterizam por levar ainda mais adiante a revolução iniciada pelo demagogo Martinho Lutero, quanto a forma tem renunciado ao modelo protestante 'tradicional' e reproduzido o modelo Católico, da autoridade hierárquica, assim quando a Ética, o que tem bastado para exasperar os demais intérpretes da Bíblia, seus companheiros.

De fato os protestantes formalmente 'ortodoxos' - compreenda-se coerentes e fiéis aos princípios enunciados pelos reformadores - costumam nutrir mais ódio, rancor e má vontade quanto a estes seus irmãos revisionistas ou traidores, do que pelos odiados filhos das igrejas Católicas, comumente classificados como idólatras, politeístas ou pagãos, uma vez que o sectarismo protestante permanece preso ao dogma judaico da transcendência absoluta, jamais tendo assimilado por completo ou até as últimas consequências o mistério central de nossa fé que é a Encarnação de Deus ou a manifestação do Verbo na carne.

Há meio milênio já estão os sectários judaizantes do protestantismo em guerra contra a imanência, já sob a égide do antigo testamento e do rabinismo com Calvino, já sob a égide do neo platonismo com Zwinglio. Pugnam assim por um deus puramente espiritual e descarnado como o jao dos hebreus ou o alla dos maometanos, por um culto puramente espiritual e expurgado de quaisquer representações, por um redenção meramente espiritual e descarnada que desconsidere os problemas ou mesmo a sorte deste mundo, por uma salvação individualista e mágica que excluí as obras e consequentemente a mediação de nosso semelhante, por uma igreja invisível ou fantasmagórica composta por eleitos e predestinados, por uma espiritualidade invisível que exclua os Sacramentos até a presença do Senhor da ceia... E por ai seguem eles, na contra mão da encarnação de Cristo, 'espiritualizando' tudo - e enquanto Deus insere-se por assim dizer na matéria e no mundo físico eles desertam dele...

Aqui as seitas para católicas rompem decididamente com a tradição ancestral inaugurada pelos três reformadores ( Lutero, Zwinglio e Calvino) e vão por outro caminho, pelo caminho inverso.

Por seitas para Católicas, queremos designar as congregações dos Adventistas, dos jeovistas, dos mórmons e numa medida menor da CCB, a 'Obra de respeito' como é designada pelo nosso Délcio Monteiro de Lima. E de respeito mesmo uma vez que não canonizou a instituição judaica do dízimo e que consequentemente não vive de prebendas estabelecendo vínculos e laços - de dependência e servidão - com as instituições financeiras deste mundo. Alias os jeovistas também não cobram dízimos...

O fato é que nenhuma dessas seitas quer ou cogita ser invisível ou fantasmagórica como queria o Dr Lutero. Querem ser visíveis e bem visíveis a ponto de alastrarem-se pelo mundo afora e substituir a igreja dos Bispos ou a ordem divina. Aspiram concretamente pela dominação e por isso são e querem ser muito bem visíveis, em todos os sentidos.

Outro aspecto comum entre a Ortodoxia e tais seitas é que ao contrário das demais seitas protestantes - que vivem conflitando sobre interpretações e doutrinas se bem que, admitam uma salvação 'comum' para seus adeptos - é que as seitas para Católicas, resgatando e levando adiante o conceito tradicional de Revelação divina, ousam afirmar-se como depositárias da verdade divina, ou mesmo como necessárias a salvação e, pasme, como únicas, encarando as seitas rivais como falsas ou diabólicas. Comum o adventista, o jeovista ou o congregado afirmarem em alto e bom som, como a verdadeira Igreja, que fora de suas seitas não há redenção.

Assim as seitas para Católicas não temem apresentar-se como visíveis e salvíficas.

A grande ruptura no entanto deu-se a nível do princípio operacional do Biblismo, que é o livre exame, doutrina segundo a qual cada indivíduo deve extrair os elementos ou o conteúdo intelectual da divina Revelação (Dogmas) por meio da leitura da Bíblia i é por meio da técnica exegética, da especulação racional ou duma suposta inspiração mágica. Claro que se trata do princípio responsável pelo estado de fragmentação e confusão doutrinal característico do protestantismo 'ortodoxo'. Afinal cada qual lê a mesma Bíblia a sua maneira e compreende-a de modo diverso jamais tocando ao terreno comum e uniforma da verdade... Tudo quanto há no protestantismo ortodoxo são interpretações contraditórias, alias centos ou milhares delas, ou opiniões, conjecturas, hipóteses, suspeitas, etc o que de modo algum pode servir de fundamento a verdadeira religião. No passado cada protestante 'ortodoxo' sustentava a divindade de sua própria seita e denunciava todas as outras como falsas, hoje continuam a divergir a respeito de pontos importantíssimos - como a presença real e o batismo infantil - alegando no entanto que tais divisões são irrelevantes e levando seus clientes mais atilados a darem por irrelevante o ensinamento de Cristo ou a porém em dúvida o conceito de Revelação... Esta acomodação foi necessária para serenar a guerra doutrinária que lavrou entre eles desde 1800... Hoje, via de regra, a doutrina é irrelevante ou de somenos importância, desde que não seja a Católica...

Os fundadores das seitas Católicas, nascidos como nós, neste ambiente de rivalidade e confusão, ressentiram muito cedo quanto a falta de unidade entre as seitas bíblicas e consequentemente quanto ao desamparo em que se achava o protestantismo ancestral face a verdade divina... Sentindo-se levados a restabelecer sobrenaturalmente tanto uma quanto outra coisa.

Como no entanto conheciam muito bem o defeito de fabricação da reforma procuraram estabelecer 'corpos governantes' a semelhança do colégio apostólico, aos quais atribuíram o direito de fornecer a interpretação exata da Bíblia aos indivíduos i é a membresia. Grosso modo eles costumam afirmar que limitam-se a ensinar as pessoas a lerem a Bíblia corretamente ou a fornecerem o sentido unívoco e a posse da verdade objetiva divinamente revelada, tal e qual a igreja antiga fazia e faz.

Perceba-se a diferença crucial - Aqui nem o corpo governante, nem o individuo ou fiel buscam ou devem buscar qualquer coisa. Antes que a Bíblia seja examinada o corpo governante ou a autoridade já esta em plena posse da verdade. Assim enquanto nosso protestante ortodoxo, isolado em seu quarto inclusive, demanda pela verdade perdida e pela doutrina o afiliado as seitas para Católicas recebe a doutrina prontinha e já formulada. Logo a Bíblia - manipulada pelo indivíduo - já não constitui fonte única da doutrina, mas meio ou instrumento por meio do qual a verdade é comunicada pelo corpo governante. Há aqui um sistema ou conjunto de doutrinas que precede a leitura do livro e ao qual o catecúmeno deve submeter-se dócil e passivamente. Ao menos teoricamente, no protestantismo ortodoxo, o indivíduo colhe por si só a doutrina sem a necessidade de qualquer orientação humana de caráter externo ou autoritativo. Aqui o indivíduo isolado é a autoridade suprema. Ali ele é ensinado ou instruído por outros homens, dos quais recebe o sentido comum.

Claro que a ideia segundo a qual a leitura da Bíblia deva preceder o credo ou a verdade só funcionou para uns poucos privilegiados ou espertalhões a exemplo de Lutero. Os quais editaram e impuseram suas interpretações ou opiniões individuais aos idiotas. Precedendo desde então a doutrina ou o credo a leitura da Bíblia, fosse luterana, zwingliana, calvinista, congregacionalista, anabatista ou metodista. A doutrina segue sempre antes... Os pastores a princípio colocam a Bíblia nas mãos da vítima, fazendo-a crer que ela mesma é livre para extrair as verdades de fé, PARA NUM SEGUNDO MOMENTO ORIENTA-LA NA DIREÇÃO DE SUA TRADIÇÃO OU CRENÇA. Ao menos a igreja antiga age sem embuste ou honestamente alegando preceder a escritura do Evangelho e ter sido comissionada pelo próprio Jesus segundo o padrão apostólico da sucessão. Assim as seitas para Católicas...

O que Lutero julgou ter demolido e Calvino - por meio de sínodos e credos espúrios - julgou ter restabelecido precária e matreiramente, as seitas para Católicas assumiram de fato, oficialmente e sem pejo. Tal o padrão externo da autoridade ou a normatividade da leitura bíblica, ora furtada aos nuances do subjetivismo crasso. A partir daí as seitas para Católicas adquiriram uma unidade mais ou menos sólida, a ponto de rivalizarem com as grandes igrejas episcopais em sua disputa pela clientela religiosa. Eis porque - nos manuais protestantes - seus nomes costumam vir alistados mesmo antes dos nomes das odiadas igrejas romana, anglicana e Ortodoxa, merecendo seus ensinamentos cuidadosa refutação por parte dos pastores, a qual no entanto redunda quase sempre em benefício das ditas seitas ou dos catolicismos devido a sua inanidade.

E como acentuam a virtude da obediência ou da submissão face aos respectivos corpos governantes, não podiam tais organizações deixar de entrar pelo terreno da soteriologia, da antropologia e da ética, abordando a temática da fé e das obras segundo a doutrina Ortodoxa, ao menos proximamente. O que nos leva a mais uma revisão ou ressignificação em termos de princípios, ou seja, a ruptura com o solifideismo ou com a crença na salvação pela fé somente i é sem obras éticas, sem amor, sem caridade, sem justiça, sem virtude, etc Todas as seitas para Católicas abandonaram decididamente tanto o monergismo quanto seu pressuposto essencial que é a doutrina da depravação total da natureza humana. Alinharam-se mais uma vez com os Catolicismo de que fugiam e tornaram-se ainda mais detestadas pelos protestantes 'ortodoxos'.

É unânime entre jeovistas, mórmons, adventistas e congregados que o fiel é salvo não pecando ou em seus pecados mas de seus pecados por uma graça eficaz ou capaz de secundar a livre vontade em seus anelos pela santidade e pela perfeição. É o homem recuperado ou resgatado por Cristo para a obediência ou melhor dizendo para a vivência do Evangelho e prática da nova lei. Por isso em comunhão com seu Mestre pode e deve abster-se de pecar e não viver desbragadamente como qualquer gentio... A perspectiva aqui é totalmente diversa da luterana ou da anabatista, pois o sangue não sucede ao pecado, ocultando-o vicariamente, mas precede-o tornando-o evitável e desnecessário. Trata-se mais de pedir forças para não pecar do que de pedir perdão para em seguida tornar a pecar. Trata-se de conhecer as exigências do Evangelho e de leva-las a sério, implica compromisso, esforço e heroísmo por parte da vontade de colabora com a graça.

Já segundo a opinião de Lutero é o homem ao mesmo tempo justo, salvo, predestinado, santo e pecador uma vez que a Santa divindade - que tudo pode - recusa-se a liberta-lo integralmente do mal e do pecado, quiçá para mante-lo humilde... Miserável, insensível, canalha, mas humilde... Como se a humildade e não a caridade ou a justiça constituíssem as virtudes mais elevadas. Aqui a santidade, a perfeição, a beleza, a caridade, a justiça, enfim tudo quanto seja Cristão é sacrificado a humildade... Receando Cristo que a santidade e a perfeição tornem este homem orgulhoso e ponham-no a perder... Neste caso por que teria dito ele: Sêde perfeitos como vosso Pai Celestial é perfeito, ao invés de ter antecipado o agostiniano alemão e dito: Sêde pecadores, miseráveis, imperfeitos mas humildes???

Para arrematar este artigo já demasiado longo gostaria de ressaltar outros pontos de vista em que as seitas para católicas acham-se de acordo com a fé da igreja ou em suas proximidades -

Os adventistas do sétimo dia admitem a virgindade perpétua da santa mãe de Cristo, antes e depois do parto.

Os membros da CCB tem autorização para beber com sobriedade, além disto os líderes da seita não podem exercer quaisquer cargos políticos, orientação seguida igualmente pelos jeovistas.

Os jeovistas são cessacionistas e como nós estão persuadidos de que os milagres - realizados por Cristo e pelos apóstolos - tendo cumprido a função a que haviam sido destinados deixaram de existir. Não mais interferindo a divindade, diretamente, na ordem natural do mundo. Evidente que eles merecem ser aplaudidos por isto.

Já quanto aos SUD são inúmeros os pontos de acordo entre a seita a que pertencem e a Ortodoxia, de modo que até seria fastidioso elenca-los.

De um modo ou de outro, a sua maneira, cada uma dessas seitas nos aponta para a verdadeira igreja apostólica que recebeu sua autoridade divina das mãos do próprio Mestre Jesus Cristo. A seu modo, cada uma delas, testemunha em favor de nossa fé Ortodoxa, imaculada, pura e Católica na mesma medida em que souberam superar os preconceitos e paradigmas protestantes afirmados pela pseudo reforma.

reiramente, por meio de sínodos e credos espúrios,






O tabu do totem - Uma resposta a S Freud VI O COMPLEXO DE LAIO

Em nosso último artigo buscamos identificar as fontes sociais do incesto ou do complexo edipiano e, a guiza de fator predisponente, apontamos a separação precoce dos filhos do sexo masculino com relação a mãe nas culturas primitivas. Admitindo que a alienação precoce filho/mãe impede a consolidação do 'apego' definido como laço afetivo estável e duradouro, deixando consequentemente, de impedir a construção de uma tendência erótica ou sexual.

Sem embargo disto, admitimos que este fator por si só não seja suficiente para consolidar tal tipo de construção, qual seja a aspiração pelo incesto ou o complexo edipiano. Nem vemos que parta ele da criança ou do bebê e tampouco da mãe. Sem negar que certas atitudes assumidas por algumas mães possam reforça-lo ou consolida-lo. Seja como for nós não enxergamos nem a mãe, nem o bebê como possíveis fontes deste complexo.

Sendo assim qual o fator predisponente ou a fonte do complexo edipiano?

Para chegarmos a uma resposta satisfatória qualquer consideremos antes de tudo a relação marido mulher antes da gravidez e particularmente após o nascimento do bebê.

Temos aqui uma relação dual de cumplicidade em que a totalidade das atenções da mulher ou da esposa são para o marido.

Até o dia em que a mulher é fecundada e acha-se grávida.

Entrando nesta relação um terceiro elemento, que é o bebê.

Consideremos agora a ação dos hormônios e o estado da mulher grávida.

Desde a fecundação todas as atenções e cuidados da mulher convergem para o bebê. Na medida em que aflora um instinto de maternidade. Instinto que segundo Winnicott faz com que a mãe recapitule psiquicamente sua experiencialidade enquanto bebê e que a partir daí adapte-se as necessidades do novo ser que veio ao mundo e que dela depende.

Consideremos ainda que - e nossa fonte aqui é Montagu 1969 p 63 - que nossa gestação, a gestação dos humanos, é dupla, completando-se apenas cerca de dez meses após o parto - período que leva o nome de Gestação externa - quando a simbiose e a própria identificação do bebê com a mãe, vai cedendo espaço a autonomia. Autonomia que é paulatinamente reforçada na medida em que a mãe vai cometendo 'falhas' e se desadaptando, até que a criança apegue-se a outros objetos pertencentes a realidade externa e construa sua identidade.

Quanto a período de gestação externa ou simbiose a 'mãe suficientemente boa' (Winnicott) é, sem sombra de dúvida, a que melhor de adapte as necessidades do bebê, o que não deixa de ser, até certo ponto, complexo. Implica isto o que chamamos 'dedicação integral', concentração, atenção, fixação... E portanto desprendimento quanto aos demais objetos externos, inclusive o marido. Não deixando a natureza de colaborar neste sentido. Pelo simples fato de que os hormônios responsáveis pela ativação da libido são drasticamente diminuídos. Durante esta fase a mulher cessa de ter interesse pelo sexo.

Agora imagine só, leitor inteligente e atilado, a situação do homem i é do marido.

O qual de uma hora para outra cessa de ser o centro das atenções da esposa. Na mesma medida em que estas desviam-se para o bebê.

A questão aqui não se restringe a sexualidade apenas, mas certamente a afetividade também. A qual não deixa de ser atingida e alterada pelas circunstâncias, por mais que a mulher busque administrar tal situação com sabedoria. Afinal os cuidados, a atenção e o afeto terão de ser divididos.

Diante disto é praticamente natural que a quase totalidade dos homens passe a encarar o recém chegado filho como uma espécie de intruso ou rival, ao menos inconscientemente. Os casos em que esta 'construção' mental atinge a consciência e aflora são vultosos e não poucas vezes dramáticos. Chegando o progenitor a odiar a prole.

Tanto pior caso o bebê pertença ao sexo masculino. Em tais condições a alegria ou satisfação da mãe ao alimentar o filho - Tendo o seio sugado por ele - ou a simples higienização da genitália do bebê levam o pai a misturar as coisas, conferindo a tais atos um sentido sexual ou erótico que inexiste. O pai, privado do exercício sexual, tira conclusões fantasiosas e passa a nutrir ciúmes pelo próprio filho, chegando a encara-lo como amante da esposa. É ele, o pai, que constrói em sua mente, a relação incestuosa ou edipiana.

Construído este tipo de relação fantasiosa nos domínios da mente, impossível que não passe a ser, de um modo ou de outro, expresso pelo comportamento, pelas palavras, pelo gestual, pelas atitudes - alias hostis com relação ao bebê - etc Extrojetado enfim...

Dentre as inúmeras situações possíveis que podem resultar deste tipo de relação temos de considerar novamente o recurso, contraproducente, a ama de leite ou babá. Aparentemente o recurso a babá parece ser perfeito na medida na medida em que alivia a situação da mãe possibilitando que possa, atender, o quanto antes, as solicitações do marido ciumento ou inseguro. A bem da verdade a inserção da babá ou ama de leite entre mãe e filho, reduzindo o contato entre ambos e impedindo a consolidação de laços afetivos estáveis e duradouros tende a alimentar e a reforçar quaisquer tendências incestuosas introjetadas pelo menino, o qual assumirá o caráter que lhe foi atribuído pelo pai, passando a desejar sexualmente sua própria mãe. Temos aqui a tragédia do complexo edipiano.

Já nas famílias pobres temos a situação da mãe que deixa o filho pequeno com a avó, a tia ou irmã mais velha - Com a qual construíra laços de afeto ou apego inibidores - para ir trabalhar. A situação da mãe que deixa o filho no berçário da creche, etc Em todos estes casos em que os laços de afeto são transplantados para outro objeto, abre-se espaço para a expansão ou consolidação do tipo incestuoso introjetado pelo pai ciumento na mente do filho.

Ao contrário do que se pensa e julga, em tais situações, a melhor solução é a manutenção da convivência mãe e filho durante estes primeiros anos - se possível até os seis ou sete anos de idade - e a decorrente construção e consolidação de um laço de afeto inibidor. Vindo o pai, a ser, necessariamente incluído, nessa nova categoria de relações, a partir do décimo mês de nascimento da criança. Na medida em que a criança vai se desprendendo da mãe e desenvolvendo sua personalidade - enquanto ser distinto que é - faz-se mister que o pai recobre seu posto de esposo, passando a receber parte do afeto da esposa, resultando disto, naturalmente, o restabelecimento da vida sexual do casal. Quero dizer que as coisas devem acomodar-se, se preciso for com o auxílio de um bom psicólogo ou terapeuta.

Importa que o vínculo mãe e filho não seja bruscamente quebrado sucedendo a alienação e indiferença por imposição do pai ciumento. Por outro lado a recusa da mãe em desapegar-se gradativamente do filho não seria menos danosa, na medida em que sua atitude possessiva e dominadora, sempre poderia ser interpretara equivocadamente pelo esposo e consequentemente pelo filho, reforçando a longo prazo todas estas fantasias. Aqui, o desenrolar subsequente da personalidade do filho poderia ser afetado seriamente. Afinal a mãe suficientemente boa deve criar o filho para a liberdade e a autonomia, orientando-o para elas. Aqui o desapego, sabiamente administrado nas fases ulteriores, é tão importante quanto ao apego afirmando e mantido durante a fase da gestação externa. Afinal não é nem pode ser o filho uma eterna simbiose de sua mãe.

Nem deve a mãe suficientemente boa, deixar-se impregnar pelas fantasias do marido a ponto de efetivamente substituí-lo pelo filho. O filho precisa de afeto, atenção, cuidado, dedicação... precisa ser acolhido, protegido, amado, etc Mas nem por isso é o marido. Ainda aqui é melhor saída é tentar administrar atenções e afetos com sabedoria e permanecer aberta a 'restauração' do marido em seu posto ou lugar.

Penso que nossa opinião tenha sido expressa com suficiente clareza. A confusão entre amor filial e amor conjugal tem seu princípio mais remoto na personalidade fragilizada do marido ou pai que se sente abandonado ou enciumado. É Laio que introjeta suas fantasias na mente de Édipo e as vezes ma mente da própria Jocasta. Temos portanto um 'complexo de Laio' na base do complexo edipiano, o qual para afirmar-se dependerá das circunstâncias ulteriores ou de 'como' o casal em questão administrará a situação, se quebrando bruscamente os laços afetivos em construção entre a mãe e o filho - pela introdução de uma ama de leite ou babá - ou consolidando-os. Consolidando os laços de afeto ou o apego teremos por consequência o 'efeito Westermarck' i é a total ausência de aspirações incestuosas. Quebrados os laços de afeto, teremos o terreno amanhado e pronto para o florescimento das fantasias introjetadas pelo pai na mente do filho, enfim o que Freud classificou como complexo de Édipo e ao qual conferiu uma dimensão universal inexistente.

Neste sentido podemos e devemos definir o apego, a presença e os laços de afeto como elemento responsável pelo bloqueio da construção das relações edipianas, as quais certamente, indicam certa ruptura quando a estabilidade afetiva ou mesmo ausência de conteúdo afetivo. Noutras palavras, o afeto é que imunizaria a criança face a aspiração incestuosa.

Resta declarar que numa Sociedade qualquer em que as necessidades econômicas restrinjam arbitrariamente o contato entre mãe e o filho durante seus primeiros anos de vida tende a potencializar a construção de relações nos moldes edipianos e os efeitos decorrentes em termos de neuroses... Uma Sociedade qualquer que sobreponha as necessidades do lucro ou do capital as necessidades afetivas das pessoas jamais poderá deixar de ser essencialmente neurótica.


quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Entendendo o filme Frantz (2016)


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Quem deseja assistir bom filme cuja fotografia e o cenário sejam relativamente perfeitos e acuidade psicológica esmerada tem em Frantz (2016) de François Ozon uma excelente pedida.

A atuação da maior parte dos atores é muito boa, a de Marie Gruber, como Magda é excelente e a de Paula Beer, a Anna, noiva do falecido Frantz, impecável. Se Beer não fez jus ao troféu Matroianni não posso imaginar quem pudesse fazê-lo.

Ocioso dizer que a paisagem de Quedlimburgo é deliciosa. Alias trata-se de uma das mais belas cidades históricas alemãs, a ponto de rivalizar com a paradisíaca Nuremberg. As cruzes de madeira do cemitério são típicas da época a que evocam.

A atmosfera social de ambos os lados, com as exasperações patrióticas, foi bastante bem captada. Os alemães bebendo cerveja por cada jovem francês que tombava do 'outro lado' e os franceses bebendo vinho por cada jovem alemão que tombava do 'outro lado'... as propagandas públicas de cada um dos países pintando os cidadãos do país vizinho como monstros...

Claro que não podemos ignorar a crença alemã, assaz comum em alguns círculos alemães, a respeito do espaço vital e de toda essa cultura de superioridade racial ou nacional cujas raízes remontam a malfadada reforma protestante. Alias outra não foi a origem da doutrina do destino manifesto entre os iankees, igualmente protestantes só que calvinistas...

Sucede no entanto que dificilmente a cultura torna-se absolutamente uniforme... também na Alemanha, em seus piores momentos, haviam dissidentes, pessoas com visão mais ampla e humana, pacifistas, socialistas, artistas, etc Almas nobres que fogem a vulgaridade dominante.

Assim nosso Frantz, jovem cultivado e de tendências pacifistas, que por vontade do velho Dr Hoffmeister, o pai; foi enviado as trincheiras, quiçá para que após a vitória da Alemanha, tornasse a pátria com o peito coalhado de medalhas... Tais as possíveis esperanças do velho clínico.

Frantz no entanto, a exemplo de tantos e tantos outros jovens românticos e idealistas, acabou por ser colhido pela morte, ficando sepultado campos de batalha. Resultando disto apenas um cinotafilo visitado diariamente pela mãe e pela ex noiva e um pai destruído por dentro.

Aqui começam as excursões psicológicas do filme.

Pois se aqueles que perderam um dentre diversos filhos, sejam alemães ou franceses, continuam repousando suas frontes sobre a ilusão dourada do patriotismo, aqueles que como o Dr Hoffmeister conduziram a morte seus únicos rebentos, tiveram todas as esperanças aniquiladas e já não nutriam quaisquer esperanças ou ilusões a respeito da Alemanha, da França ou do patriotismo. Afinal nada lhes restara... E não teriam netos, bisnetos ou descendentes que comemorassem as glórias da França ou da Alemanha.

É pois peculiar a sorte daquele que perdeu seu único filho em tais circunstâncias e ele já não nutre nem ilusões, nem esperanças.

Frantz no entanto é mais profundo e vai além. Tocando a questão, interessantíssima, das neuroses de guerra.

Guerras produzem neuróticos, sabe-mo-lo muito bem desde a Guerra da Secessão nos EUA e mais ainda após a primeira grande guerra quando batalhões de psicólogos e psicanalistas foram mobilizados com o objetivo de diagnosticar, avaliar e tratar milhares de ex soldados psicologicamente afetados pelo conflito. Basta dizer que Freud distorceu o sentido de afirmação - descrito por Adler alguns anos antes da hecatombe - apresentando como sentido de morte ou destruição, influenciado por ele...

Todo um ideal de racionalidade e de experiencialidade sossobraram fragosamente após 1914... Os derradeiros vestígios do iluminismo, as falsas promessas do liberalismo econômico, a mística positivista, etc Foi todo um mundo que entrou em colapso e veio abaixo, desabando e sepultando multidões de homens vivos.

A guerra devastou corações e mentes e assistiu a afirmação do psicologismo, dos sentimentalismos, dos emocionalismos e de todos os arroubos do irracionalismo pós moderno. Da perda total do sentido e do nihilismo. Da angústia, do desespero, do pessimismo - Potencializados ainda mais pela reabilitação do capitalismo apoiado pelos EUA - da quebra da magia, do desencanto, da alienação, da superstição, do recurso desesperado a droga... das culturas de morte e de tudo quanto vivenciamos hoje.

Frantz focaliza os primeiros passos dessa trágica caminhada, posto que situado no ano de 1919. E explora como já dissemos o campo ou domínio, muito pouco explorado das neuroses provocadas pelo contato com a morte, seja a própria ou a alheia. E há esquisitice ou algo de exótico nisto...

É um filme interessante porque ajuda-nos a compreender porque o soldado enviado ao front ou a frente de batalha deve ser sempre um anônimo ou desconhecido.

Ao contrário dos SUD ele não trás consigo uma plaquinha com identificação ou dados pessoais sobre o peito. Tomba sem nome e assim é sepultado.

Conhecer é identificar-se...

Mas...

O soldado deve odiar e não identificar-se. O outro não é humano, deve ser pintado como um monstro, despersonalizado, desumanizado...

Daí não ter direito a um nome, a um endereço ou a quaisquer referências.

Tirar a vida do outro sob um pretexto fútil pode acarretar uma forte carga de culpa e tornar a consciência pesarosa.

Já a consciência pesarosa tende a impor-se uma série de sacrifícios buscando reparar aquilo que fez.

Daí a sugestão comum a quem involuntariamente tirou a vida de um inocente, de assumir o lugar ou a vida daquela pessoa.

Essa possibilidade, insólita de modo geral, se torna real para Adrien pelo simples fato de ter encontrado no bolso de Frantz, uma carta com detalhes sobre sua vida pessoal, e, seu endereço.

Terminada a guerra o jovem ex combatente francês, após surtar, toma caminho de Quedlimburgo com o propósito de chorar sobre a tumba daquele cuja vida ceifará e de pedir perdão os pais e a ex noiva dele.

A partir daí a presença do francês na cidade natal de Frantz deflagará uma série de sentimentos numa trama que envolverá de encenações a uma tentativa de suicídio, culminando com uma longa viagem e encerrando-se de modo realisticamente patético, tal e qual a vida apenas sabe encerras as Histórias grandiosas e as Histórias triviais.

Por isso e muito mais a obra de Ozon merece ser assistida num destes dias frios e chuvosos, de preferência com uma taça de vinho entre os dedos e em boa companhia. O 'inimigo' alemão beba cerveja caso ache melhor rsrsrsrsrs

Uma breve leitura sobre os 'Demônios descem do Norte' de Délcio Monteiro de Lima

 Nenhum texto alternativo automático disponível.



Penso ser absolutamente normal que parte das pessoas direcione
seus bens tendo em vista algo em que acreditam.

E portanto que invistam parte de seus proventos em suas respectivas religiões e seitas.

Natural que as pessoas que acreditam na INSTITUIÇÃO JUDAICA do dízimo, paguem dízimos, o contrário por sinal seria incoerência...


Até aqui nada a objetar.

Embora eu mesmo não veja nada de Cristão ou de evangélico em tal instituição. Pelo simples fato de que Jesus jamais impôs quaisquer taxas aos que abraçaram o Santo Evangelho. Dízimo, insisto eu, é dogma judaizante, pentecostal, protestante, biblicista E DE MODO ALGUM CRISTÃO.

O Cristianismo estabeleceu o sistema de colaboração livre, descrito nas Epístolas do Apóstolo Paulo.

Tal minha visão das coisas.


Seguindo esta linha de raciocínio nada mais degradante do que imaginar a Santa divindade concedendo supostas graças ou favores em troca de contribuições... Acaso não teríamos aqui um deus vendedor ou traficante de indulgências???

Diante disto fica até fácil entender porque temos uma Sociedade que se vende cada vez mais, pessoas que negociam seus próprios valores e uma política essencialmente corrupta ou venal.

Caso a Santa divindade seja pintada como corrupta ou venal que nos restará???

Isto quanto aos dizimistas e o tráfico de coisas sagradas que a tradição ancestral batizou como simonia.

Agora quanto ao simples investimento, por parte dos crentes ou fiéis, em determinada instituição religiosa, já o disse encara-lo como absolutamente natural, pelo simples fato de que as pessoas tendem a valorizar, em todos os sentidos, o quanto seja significativo para elas.

Ficando claro que para algumas destas pessoas gastar com a fé equivale a uma devoção.

O que não posso encarar como normal ou natural é que EMPRESAS MULTI NACIONAIS E MULTI MILIONÁRIAS, INDÚSTRIAS E INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS, QUE LUCRAM EXPLORANDO AO MÁXIMO SEUS FUNCIONÁRIOS, financiem corporações religiosas...

Não o catolicismo, não o espiritismo, não o budismo, não o hinduísmo ou qualquer outra religião mas certamente as missões protestantes - born again ou pentecostais/fundamentalistas - nos países mais pobres...

Francamente falando, acho esse negócio muito estranho...

Instituições que vivem burlando a Ética do Evangelho, semeando a miséria e servindo a Mamon, financiando determinadas facções religiosas...

TEMOS DE REFLETIR E DE NOS PERGUNTAR SOBRE O PÔRQUE DESTE FENÔMENO...

Quais interesses ou objetivos tem levado O CAPITALISMO a patrocinar um tipo ou padrão de religiosidade predominante nos EUA, o centro mundial do capitalismo???

Por que essa aposta decidida do Mercado nas seitas protestantes???

Seria ingênua ou aleatória?

Não o creio...

Então temos de nos perguntar sobre o que tais empresas e instituições esperam deste tipo de religiosidade?

Segundo Délcio Monteiro de Lima em "Os demônios descem do Norte" a única resposta plausível implica admitir a aposta num modelo religioso que até certo ponto justifique o materialismo, o predomínio do Ser sobre o Ter ou a busca do acúmulo irrestrito de bens ou do lucro máximo num contesto 'cristão'; enfim num padrão de espiritualidade que preconize o sucesso financeiro ou o enriquecimento, as custas das exigências ou postulados éticos baixados pelo Cristo em seu Santo Evangelho, o que implica aceitar e abster-se de criticar a ordem capitalista com todas as suas mazelas suficientemente conhecidas por todos nós.

Implica pois uma adaptação ou conformação em termos de Cristianismo ou uma negociação em termos de princípios e valores. Pelo qual o Cristianismo ao invés de inoportuno torna-se conivente ou colaboracionista. 



E esta resposta sugere um segundo questionamento -

Até que ponto as seitas financiadas pelo poder econômico SÃO CONIVENTES OU MESMO FAVORÁVEIS A EXPLORAÇÃO DOS EMPREGADOS PELOS PATRÕES ou até que ponto santificam esta relação iniqua???

Até que ponto silenciam a respeito da injustiça e deixam de denunciar o poder do capital em nome do Evangelho???

Em que medida são elas mesmas compradas ou agenciadas pelo capital com o propósito de porém a favor dele e, contra o povo trabalhador?

A bem da verdade a maior parte das seitas protestantes não obedece a um programa consciente no sentido de favorecer ou beneficiar a ordem econômica vigente. Contentam-se em ser anti comunistas, embora via de regra, identifiquem toda e qualquer forma de socialismo com comunismo, bem a gosto dos EUA, cuja cultura e modelo de organização social folgam reproduzir.

Acontece que lá nos EUA a questão crucial para os Cristãos, que tais seitas costumam baralhar e disfarçar com apelos forçados ao antigo testamento, diz respeito, antes de tudo, ao imperialismo e a guerra de agressão e conquista; bem como a pena capital. A tônica lá gira em torno disto uma vez que a miśeria ainda não assomou aos índices vigentes no terceiro mundo ou nos países subdesenvolvidos, pelo simples fato de que estes não possem colônias como os EUA...

A realidade dos países latino americanos e demais repúblicas do hemisfério Sul tem sido marcada pela miśeria, agravada cada vez mais pela ingerência da política externa N Americana, cujo principal objetivo consiste em dar apoio a iniciativa privada ou a ação predatória das grandes multi nacionais.

Diante de semelhante quadro de miséria em que a malfadada luta de classes é potencializada ainda mais pelo modelo capitalista importado dos EUA e em que as lideranças nacionais inclinam-se por vontade própria ao modelo do estado mínimo enquanto as massas oprimidas clamam por intervenção, tem prevalecido um estado de tensão... Em que as democracias recentemente implantadas e manipuladas pelo poder econômico, tendem a omitir-se e o povo, em certas ocasiões a rebelar-se, e caudilhos a tomar o poder...

Prevaleceu esta situação confusa até o instante em que os panfletários anarquistas e comunistas instaram-se nos grande centros urbanos e principiaram a fazer suas propagandas arregimentando certo número e um número cada vez mais de cidadãos descontentes empenhados em criar algo como a "Comuna de Paris" ou a "URSS". De fato, a partir da segunda metade do século XIX, a maior parte das sedições operacionalizadas em países sub desenvolvidos assumiu uma orientação comunista ou socialista. O que implica um afastamento progressivo dos países da A latina quanto a órbita dos EUA e seu modelo social.

Desde então o lema "América para os (Norte) americanos" tornou-se controvertido do México para baixo...

Consideremos agora que até então, i é até meados de 1960, achava-se a igreja Romana, cindida socialmente em diversas vertentes e que a partir de 1960, todas estas vertentes, sob influxo da Teologia da Libertação, tendem a reforçar o direcionamento social pré existente e em convergir para soluções socialistas, quando não comunistas, mas, de um modo ou de outro, sempre anti imperialistas ou anti americanizantes.

Desde 1960 e a cabo de três décadas a igreja romana, cujo poderio na América Latina era considerável, juntou forças com os elementos descontentes ou dissonantes no sentido de denunciar as mazelas sociais legadas pelo sistema colonial que estavam a ser ampliadas e aprofundadas sob os auspícios o imperialismo Yankee e do capitalismo. Predispondo o cenário político a transformações dramáticas, de que temos exemplo no sandinismo da Nicarágua ou na guerrilha Colombiana.

Claro que os EUA não tardaram para perceber o perigo. Localizado num território que encaravam e ainda encaram como quintal seu. Relatórios foram elaborados por diversos setores da administração yankee e nenhum deles foi lisonjeiro para com a velha igreja romana, ora posta, quase que em sua totalidade, em favor da justiça social e da emancipação dos povos. A igreja romana, comprometida com uma teologia libertadora, foi classificada como não confiável no sentido de que equivalia a uma espécie de brecha feita na muralha da alienação. A cultura da opressão fora desertada culturalmente e corria um grande perigo...

Em tais conjunturas que fazer?

O governo Yankee, que desde 1940 renunciara a financiar ele mesmo as seitas bíblicas a partir o erário, em tese nada fez.

Além de é claro orientar as instituições financeiras... Convencendo-as de que a praxis cultural é via de regra, sancionada pela fé religiosa. Fazia-se mister sabotar a força da igreja romana no contexto da América latina ou de enfraquece-la substituindo-a por um modelo bem menos crítico. A sugestão das seitas protestantes, baluarte da cultura Norte americana, ficou implícita...

Basta dizer que o protestantismo fundamentalista comporta por assim dizer uma fermentação de seitas bíblicas, cada qual imaginando ter dado com a verdade eterna ignorada por todas as outras e portanto ser necessária a salvação de todos os seres humanos, ideal que em tais seitas tornasse obsessivo até a mania... Adotando moldes e assumindo necessidades empresariais - inclusive no plano financeiro - a grande prioridade de cada seita é aumentar seus quadros. Isto pelo simples fato dos protestantes acreditarem que o aumento ou sucesso numérico de determinada seita implica necessariamente no favor divino...

Adicione-se ao contexto acima descrito o elemento do individualismo, peculiar ao protestantismo. Desde Lutero, tem os protestantes negado o aspecto social, gregário ou comunitário da Redenção Cristã e apresentado uma salvação mágica e individualista ou seja sem mediação de obras éticas, que tenham por objeto o outro. Para os protestantes a salvação não passa pelo próximo ou pelo outro (o que conferiria a ela uma dimensão ética), dando-se em termos de comunhão entre o indivíduo e deus... e em termos invisíveis e espirituais de uma comunidade fantasmagórica (a igreja invisível).

Neste sentido podemos até falar numa luta pela salvação e numa vitória do mais 'bíblico', em famílias, clas, cidades, países, etc eternamente divididos por deus em réprobos e salvos... O fato é que o protestantismo jamais toma consciência social, estabelecendo vínculos espirituais e salvíficos entre todos os seres humanos. Tais laços de solidariedade é algo que não existe no contexto luterânico. Aqui seitas lutam com seitas, homens com homens e homens com anjos num combate generalizado...

Portanto o que importa aqui, ao indivíduo é escapar ele mesmo aos fogos ardentes do inferno sem cogitar em parentes, amigos ou companheiros. Importa furtar-se as chamas e torturas infernais inda que nossos filhos, pais ou amigos nelas caiam... Importa estar a salvo ou ser feliz, em que pese a eterna desgraça daqueles que amamos. Tal a exótica noção de paraíso protestante.

Neste sentido a vida só faz sentido quanto perseguimos uma única meta, a da salvação. Jamais compreendida no sentido Cristão, enquanto salvação da pessoa ou do homem todo ou ainda como verdadeira salvação do mal e do pecado. Aqui a salvação além de ser individual é maniqueísta, enquanto salvação da alma ou do espírito invisível e imortal no além túmulo. O corpo aqui jamais conta. Tampouco implica esta salvação em salvação real e efetiva do mal ou do pecado mas em salvação vicária, posto que o salvo continua sendo sempre um pecador derrotado, magicamente salvo das chamas do inferno, mesmo que venha a pecar sucessivamente... Aqui o arrependimento não significa ruptura ou transformação mas mero ato intelectual. Como se vê é um padrão de salvação precário em todos os sentidos  já por ser individual, meramente espiritual e aparente...

Seja como for, as seitas são extremamente hábeis e eficientes no sentido de comunicar este objetivo aos neófitos, i é de concentrar todos os seus esforços na salvação da alma i é no além túmulo, no outro mundo, no além no paraíso, etc em detrimento deste mundo, com o qual é sempre inútil preocupar-se, dizem eles, acrescentando que o Reino de Deus não é deste mundo, sem jamais se darem ao trabalho de perguntar se o Reino foi trazido a este mundo pelo Verbo que se fez carne ou Emanuel... O Reino, e portanto o objetivo do crente, esta sempre no paraíso o no mundo invisível, tendo por adversário o Diabo ou Demônio, um suposto anjo caído, cujo principal passatempo consiste em aliciar os seres humanos...

O fim de tudo isto é abdicar por completo da realidade do mundo material. A qual é supinamente ignorada pelas seitas salvacionistas e maniqueistas, parte das quais chegaram a reeditar o dogma farisaico do catastrofismo, ora batizado como apocalipticismo, o qual via de regra é precedido pelo dogma não menos espúrio e pessimista da apostasia. Aqui também damos com um conflito fictício entre supostos anjos caídos e a divindade e por uma vitória mágico fetichista tão a gosto dos fanáticos. Nada de concreto, nada de real... Nenhuma luta heroica contra a injustiça, o egoísmo, a maldade, a mentira, etc Apenas ideais quiméricos ou ilusórios.

Destarte o sectarismo protestante abandona o mundo real e abdica de sua transformação para alienar-se e refugiar-se nas nuvens. Inútil dar combate as situações de injustiça se deus punirá os injustos e recompensará oprimidos no além túmulo é tudo quanto sabem dizer. Quanto ao mais conformam-se com todas as situações de miséria, angústia, opressão, escravidão e sofrimento esperando por uma libertação espiritual após a morte, nos céus. Aqui na terra produzem escravos e servos conformados com seus grilhões e os quais recusam-se a lutar e a combater pela própria libertação.

Toda esperança é transportada para o além túmulo ou retirada deste mundo, no qual consolidam-se as situações de opressão, segundo a mentalidade do tal capeta, o qual para não poucos sectários é o senhor e deus que controla este mundo. Libertação verdadeira, repetem eles, só a de deus após a morte. 

Devemos portanto esperar que tais pessoas ou seus líderes contestem as situações de miséria ou de opressão aqui existentes?

Tolo seria quem esperasse por isto.

Face a realidade iniqua do mundo é o sectarismo protestante conformista ou situacionista por definição. Não menos do que o positivismo, com seu ideal meramente descritivo face a realidade, o protestantismo jamais se rebela contra aquilo que é, bem podendo conviver em paz com o racismo, com o odinismo, com o capitalismo e com o imperialismo; quando não se presta para alimentar tais ideologias.

Por isso o capitalismo empenha seus cobres nas missões protestantes, porque sabe ser o protestantismo uma fé omissa e covarde, alienada ou conformada que não costuma afrontar uma realidade social iniqua pugnando pela justiça e por um ideário de libertação integral para o homem. O capitalismo investe no protestantismo porque não o teme e porque sabe nada recear da parte dele.