
Como aqui no Brasil todos se sentem muito a vontade para opinar sobre todos os assuntos, mesmo que sem o mais elementar ou comezinho conhecimento de causa, é assaz comum nos deparar-mos com expressões do seguinte talhe:
- Os maiores cientistas e filósofos eram ateus.
- A ciência é materialista.
- Deus não existe porque não o vejo.
- A ciência prova a existência de Deus.
- A afirmação da existência de Deus é criacionismo.
Desde a mais tenra juventude tenho ouvido dizer, quase sempre a meia boca, que a maior parte de nossos cientistas, inventores e filósofos são ou eram ateus.
Seguindo-se de imediato a velha cantilena segundo a qual os ateus são mais inteligentes do que os outros e que ser ateu é sinônimo de ser inteligente.
Geralmente tais pérolas são lançadas pelos mesmos 'intelectuais' que juram de pés juntos ter sido Copernico morto e Galileu torturado pela inquisição, e por aí se já se percebe o quanto são cultos os ateus...
Penso que discutir com gente dessa laia é pura perda de tempo... por sua tacanhice tais afirmações raiam aos confins do criacionismo.
Já o patriarca do ateismo Souvestre Marechal (não o metafísico contemporâneo) teve a audácia de publicar um livro pertinente a História do ateismo no qual alistava Sócrates, Platão, Aristóteles e Santo Agostinho, dentre outros, como ateus...
Do mesmo modo que seus confrades de hoje costumam a citar Darwin, Einstein, Jay Gould, Hawking, etc e uma aluvião de agnósta como adeptos da teoria ateística...
E no entanto sabemos todos muito bem que agnosticismo não é ateismo e que agnóstas não são ateus.
Pois o ateu tanto quanto o teista são metafísicos ou voluntaristas enquanto que o agnósta não o é...
Tanto o ateu quanto o teista pretendem saber com absoluta certeza o que o agnósta pretende ignorar.
A própria etimologia da palavra nos revela seu significado: A = Não + Theos = Deus > Não Deus. É portanto ateu apenas e tão somente aquele que esta perfeitamente convencido de que Deus não existe ou de que não há Deus.
Ateu é pois aquele que nega e não o que dúvida ou o que ignora.
Portanto elencar tudo que é agnósta ou indiferente em matéria de religião, como adepto do ateismo é supina desonestidade.
Não ter religião ou crenças em livros ou mensageiros inspirados não é ser ateus, mas ser indiferente ou irreligioso.
O indiferente supõe que Deus jamais se tenha revelado e não que Deus não exista... da mesma forma que o deista não admite que Deus precise reparar continuamente a estrutura do universo, sem negar todavia a sua existência...
Confundir a noção de Deus com a noção de revelação ou de milagre e tudo embaralhar com o intuito de ludibriar as pessoas não me parece decente.
Eliminadas as religiões, revelações, teologias e milagres, permenece o problema de Deus e com ele o problema do ateismo.
Logo ser agnósta, indiferente ou deista não equivale a ser ateu.
É pois absolutamente certo - e pode ser constatado por quem quer que se dê ao trabalho de examinar as soberbas 'Analectas' de Pogenndorf - que a maioria dos cientistas, inventores e sábios - nobéis inclusive - jamais professou o ateismo, chegando no máximo ao deismo, indiferentismo e agnosticismo, a excessão de Vogth, Buchner, Le Dantec, Moleschoth, Freud e alguns outros...
Quanto os outros milhares e milhares de cientistas e sábios eram religiosos em sua maioria, bem como deistas, indiferentes e agnóstas.
É portanto absolutamente inexato que os ateus sejam mais interesantes que as outras pessoas: se tomarmos por exemplo Aristóteles, Da Vinci, Bacon, Descartes, Newton, Edison, Lamarck, Darwin, Marx, Freud, Einstein e Hawking... temos um único ateu: Freud, dois agnóstas (em sentido moderno): Marx e Hawking; quatro agnóstas (em sentido clássico: sei que Deus existe mas nada possa saber sobre ele): Aristóteles, Darwin, Edison e Einstein e cinco religiosos (os restantes) ou seja seis indiferentes e cinco religiosos contra um único ateu, entre doze de nossas maiores sumidades.
Outra pérola que temos costumado a ouvir é que a ciência é materialista.
Conceitualmente falando tal afirmação é puro sofisma.
Pois o materialismo é uma teoria metafisica segundo a qual só existe matéria e nada mais que a matéria.
Entretanto para sustentar a tése segundo a qual só existe matéria sou obrigado a sustentar a tése segundo a qual nossos sentidos são capazes de perceber tudo quanto existe, o que de modo algum se pode provar... mesmo porque não somos capazes de perceber naturalmente ao infra vermelho, ao ultra violeta e certamente a muitos outros fenômenos que fogem a nossa condição e estrutura.
Para sermos exatos e nos atermos aos fatos tão somente devemos afirmar que a ciência é material, cabendo-lhe estudar apenas e tão somente os fenômenos materiais que nossso aparelho sensorial é capaz de perceber.
Sem afirmar se há ou não algo de real para além de nossos sentidos e percepção, pois se esta para além não podemos saber e devemos nos abster de afirmar ou de negar.
Negando ou afirmando sobre o que não podemos perceber, medir, pesar, contar, observar ou experimentar saimos do terreno da ciência - que é experimental - e adentramos no terreno da metafísica.
Até aqui não há problema algum, o problema surge quando o cientista - afirmando o materialismo - faz metafísica negando que a faça e apresentando suas locubrações especulativas como constatações factuais, pondo-se a pontificar em nome da ciência inclusive, como se fosse seu porta voz...
Querendo ou não os homens continuam a metafisicar, sempre que afirmam poder provar ou demonstrar que não existe nada para além de nossos sentidos, pois o que esta para além de nossos sentidos não poder ser material, factual ou experimentalmente verificado... e se não de baseia na experiência ou na indução, firma-se sobre deduções segundo o método metafísico.
Nada mais esdruxulo do que um materialista ou positivista metafisicando... afinal quanto ao que não é positivo só poderiam florescer dúvidas e incertezas no coração humano, digo no coração humano que se recusa a metafisicar...
Pois se o materialista faz metafisica as avessas o positivista ao metafisicar escamoteia.
Portanto o fato de que em não possa, como de fato não posso, perceber Deus, não quer dizer que suas existência seja impossivel, pois quem me assegura que devo ser capaz de perceber tudo quanto exista.
Crer que sejamos capazes de perceber absolutamente tudo é pura e simples crença e não passa disto...
Por outro lado, mesmo as coisas materiais, que sou capaz de perceber, independem de minha percepção ou consciência para existir, existindo uma multidão delas que jamais haverão de ser sabidas ou conhecidas por qualquer ser humano.
Afinal não somos sequer o centro deste universo material em que vivemos, quanto mais o centro da existência...
Por outro lado não é menos estúpida a afirmação segundo a qual:
-- Os ateus afirmam a inexistência de Deus como se tivessem certeza dela.
Segundo o ônus da prova ou a obrigação de demonstrar a existência de uma coisa cabe sempre aquele que afirma sua existência e não aquele que nega.
Suponhamos que eu afirme: Presquiá existe...
Enquanto eu não demonstro e provo que presquiá existe, é defeso a todos os outros negarem a existência de presquiá.
E negando não afirmam, pois afirmar é atribuir uma qualidade.
Por isso que os ateus quando negam a qualidade da existência a Deus, nada afirmam, sendo seu juizo meramente negativo.
Pois é ao teista que cumpre e cabe demonstrar a existência de Deus.
Ninguém é obrigado a demonstrar e existência de algo que não existe...
Afirmar que os ateus estão obrigados a demonstrar a inexistência de Deus é um clamoroso sofisma, já porque ninguém pode demonstrar que algo não existe.
Eu só posso demonstrar o existente, ou seja o Ente a que atribuo a qualidade da existência.
Portanto se sou teista é a mim que cabe demonstrar e provar a existência do Supremo Ser nos pódromos da metafísica ao invés de partir para a chicana.
Disse nos pódromos da metafísica porque nos pódromos da ciência empírica não é possivel demonstra-la, pois como já dissemos a ciência é material enquando Deus é imaterial. Portanto do ponto de vista da ciência Deus não existe ou é como se não existisse... pois para que Deus exista de fato deve estar para além de toda e qualquer experiência sensorial, ou no plano a que constumamos classificar como espiritual.
Não quiz nem quero dizer com isto que a existência de Deus seja absolutamente indemonstrável ou totalmente impossivel de ser provada - pois não concordo com os diletantes e sofistas da Alemanha - mas que sua demonstração exige outro tipo de prova: dedutiva e não indutiva, experimental ou científica.
Materialmente falando Deus não existe. Pois é espírito.
Alegar por outro lado que todo teista deve ser necessariamente criacionista é outro descalabro inominável, já porque os gregos e Spinoza afirmavam a eternidade da mundo enquanto corpo animado pelo Espírito divino e complemento material em processo evolutivo de divinização.
Já porque a existência de um Legislador sapiíssimo de forma alguma compromete a teoria da evolução, antes a torna tanto mais compreenssivel de ser assimilida enquando expressão perfeitíssima da mente divina.
Pois uma coisa é afirmar a existência de Deus enquanto mente imaterial, que age sobre a matéria bruta organizandi-a em niveis cada vez mais complexos e elevados até atingir a vida, a consciência e a natureza divina, e outra totalmente distinta afirmar o antropomorfismo e o fetichismo pecualiares a determinados credos religiosos.










