segunda-feira, 5 de março de 2018

Memética que troço é esse? II

Quando um cientista deseja fazer ciência, enfia-se em seu laboratório, mede, pesa, dilui, etc e trás fatos, enuncia leis, etc Quando quer filosofar...

Imita Werner Heisenberg, cujas palavras achamos por bem reproduzir:

"Desde muito cedo tive a oportunidade de ler Platão; já na escola o traduzíamos. A seguir li os seus diálogos; o Timeu, principalmente, exerceu grande influência sobre mim, pois foi na altura em que se me deparou a teoria do átomo. Desde então tenho indagado se se pode compreender a teoria atômica sem se fazer uso da Filosofia, e cheguei a conclusão de que o atomismo esta tão afastado do nosso mundo quotidiano que, sem uma análise pormenorizada da situação epistemológica, linguística e, em geral, dos fundamentos filosóficos, é impossível compreender a teoria do átomo... Precisamente nessa altura deparou-se-me, casualmente, o Timeu e a história do átomo, que me provocaram profunda impressão... Depois voltei a discutir frequentemente com amigos interessados em tema filosóficos sobre os problemas que se expõem no Timeu. Essa leitura desempenhou um papel bastante importante na minha vida." in Horia, Vintila 'Viagem aos centros da terra' Verbo p 283 e sg

Já nos referimos, no artigo anterior, ao conhecimento de Sagan a respeito deste ramo do conhecimento que é a Filosofia. Poderíamos citar ainda Weizsacker, o qual repassou diversos destes temas numa de suas obra. Assim "A parte e o todo" de Heisenberg, o qual se bem me lembro também é autor de 'Física e filosofia'.

O que no entanto nenhum deles fez foi vender suas especulações ou apreciações filosóficas como ciência 'empírica'...

Outro porém e bem outro é o caso do Dr Dawkins, com sua extravagante hipótese sobre 'Genes egoístas' cuja intencionalidade egoística controla os seres humanos como máquinas, privando-os de auto determinação ou livre arbítrio. Genes colonizam-nos para replicarem-se... Somos obras não de um deus, mas de uma luta épica entre genes brigões que lutam pela sobrevivência...

Não foi sem razão que diversos de seus pares, cito de passagem apenas S Jay Gould, apresentaram-no como mistificador. Mas... a obra agradou o grande público leigo, o qual nem deseja ser livre e consequentemente responsável e que deseja ver o próprio individualismo ou egoísmo justificado. O grande público adorou o que leu como adora este Velho testamento que determina a matança de cananeus e o Corão com sua jihad, murtad, Djzia e sharia enfim... A parte mais primitiva, grosseira e vulgar da humanidade aspira derramar sangue, roubar, mentir, permanecer insensível as necessidades do outro, etc E Dawkins justifica 'biologicamente' tudo isto...

Maomé, Lutero, Calvino, Spencer, Hamilton, Wilson, Desmond Morris ( o da 'Fauna humana' e do 'Macaco nu'), Hitler, Staline, Von Mises, Hayeck, Friedman, e Dawkins não podia ter deixado de fazer o imenso sucesso que tem feito uma vez que disseram as massas barbarizadas o que queriam ouvir, sancionando o comportamento delas... Outro e bem outo é o caso dos 'censores' Sócrates, Platão, Jesus, Buda, Confúcio, etc os quais buscaram corrigir a moralidade baixa da plebe e eleva-la... A humanidade finge adorar ou cultuar a estes, mas continua vivendo segundo a norma e regra daqueles...

E no entanto este mesmo Dawkins, parece até piada, não só declara que seu biologismo ateísta produzirá (tempo futuro é claro) uma boa fornada de 'Ética' - Acredita quem quer... como chegou a dizer que 'Devemos tentar ensinar a generosidade e o altruísmo...' Flew 88. Mas como Dr Dawkins? Se somos máquinas comandadas por genes egoístas? Como se segundo a equação de William Hamilton só podemos ser altruístas face a nosso próprio patrimônio genético?

No entanto a escolástica genético darwinista de Dawkins não para por aqui... pois além de genes possessivos temos memes???

HHHHHHaaaaaaannnnnnn???

O que?

Sim temos memes... Segundo Dawkins.

Mas que são memes???

Começarei declarando, pois quero começar do começo, ou melhor dizendo parafraseando Marilynn Robinson ("Além da razão" Nova Fronteira 2011 p 67) e apresentando os memes como algo puramente hipotético ou imaginário, i é, algo cuja existência não pode ser concretamente demonstrado, em contraposição aos genes, cuja existência, é real e para além que qualquer dúvida.

Genes são materiais, são moléculas e como tais foram isolados e 'verificados' pelos cientistas. Memes é coisa que ninguém, jamais viu ou isolou...

Uma bela construção fantasiosa, digo ideal, do biólogo inglês, apenas isto. Os genes estão no meu corpo, no seu corpo, nos nossos corpos... Os memes na cabecinha ou na imaginação de Richard Dawkins, donde passaram a seus 'Best sellers'...

Pior, mais grave... monstruoso. Memes são entidades ideais, imateriais, supra físicas, implantadas por um biólogo materialista no organismo humano.

Dawkins meus bons amigos é materialista professo, e, como tal, deveria enunciar apenas a existência de entidades materiais ou físicas, o que alias se espera de qualquer biólogo... Mas, enuncia, a existência de 'ideias' ou 'conceitos' que criam raízes materiais no cérebro. Não, não são uns genes que portam ideias, aqui teríamos genes pensantes - o que Dawkins explicitamente ao menos não ousa enunciar - mas umas ideias que são comunicadas externamente ou um produto da cultura que internalizando-se, implanta-se materialmente no organismo. Ideias literalmente fixas de que não pode o infectado libertar-se, permanecendo eternamente escravo delas.

Não vou entrar neste 'samba do crioulo doido' mas, ainda aqui, reproduzir as palavras da Sra Robinson:

"Por analogia com o gene, esta entidade ou fenômeno é chamada meme. O meme é um conceito, uma ideia, uma memória pessoal ou cultura EGOÍSTA que coloniza o cérebro e que sobrevive por meio da proliferação, implantando-se noutros cérebros. Dawkins diz: 'Exemplos de memes são melodias, ideias, frases feitas, modas indumentariais, formas de fazer vasos ou construir arcos. Assim como os genes se propagam no pool genético, saltando de um corpo a outro por meio de espermatozoides e óvulos, os memes se propagam no pool de memes, saltando de um cérebro a outro através de um processo que, em sentido amplo pode ser chamado de imitação.'. Ele cita seu colega N K Humphrey 'Memes deve ser considerados ESTRUTURAS VIVAS NÃO APENAS METAFÓRICA, MAS TECNICAMENTE. Ao plantar um meme fértil em minha mente, VOCÊ LITERALMENTE PARASITA MEU CÉREBRO, transformando-o em veículo para a propagação desse meme da mesma maneira como um vírus pode parasitar o mecanismo genético de uma célula hospedeira. E isso NÃO É FORÇA DE EXPRESSÃO - o meme para, digamos 'a crença na vida após a morte' é de fato construído fisicamente, milhões de vezes, COMO UMA ESTRUTURA NO SISTEMA NERVOSO DO HOMEM, individualmente, por todo mundo." Opus cit ps 65 e sg

Peço 'data vênia' para fazer uma citação deste tamanho, mas era necessário, para que depois não digam que estamos torcendo ou falsificando as doutrinas do sr Dawkins, pois é comum ver seus seguidores repetindo esta disputa esfarrapada...

Temos ideias, crenças, modas, conceitos, etc que vagam ou giram por ai, como o vírus da gripe, no mundo da cultura. E ai você nasce num ambiente infectado destes e contrai lá o meme do budismo, ou do espiritismo, ou do Catolicismo, ou do Socratismo, ou do Socialismo... e ele, mesmo sendo puramente conceitual, cria ou desenvolve raízes materiais ou celulares no seu cérebro, formando como que um quisto irremovível. Como se vê, até aqui, nada de livre arbítrio, de racionalidade, de lógica, de reflexão... Nada disto é real, apenas os conceitos 'voadores' que batem a nossa testa e infectam-nos para todo sempre???

Somos quase que levados a crer no meme pela doutrina do meme. Pois só mesmo um palerma para endossar semelhante disparate quando toda gente propriamente instruída e educada é por assim dizer 'Uma metamorfose ambulante' pelo simples fato de rever seus costumes, princípios, valores, ideias e crenças ao cabo de toda vida. Pessoas mudam de ideias, mesmo as mais simples e estupidas mudam de ideias senhor biólogo!

Outro conteúdo implícito na exótica doutrina do sr Dawkins, e pelo qual ela é um tiro no pé, é que pessoas controladas ou colonizadas por memes não pesam evidências ou argumentos, e tampouco os próprios memes... Memes são ideias introjetadas no sujeito sem que ele mesmo tome consciência disto. O que destrói pela base a distinção fundamental entre Verdade e Erro... Pois só podemos falar em verdade e erro quando o sujeito em posse de uma vida racional, pesa os argumentos buscando pela evidência... Quando é colonizado por conceitos voláteis que lhe penetram o crânio, como que por osmose não há mais verdade e erro...

Pelo que temos de nos perguntar sobre os memes do materialismo, do ateísmo, do positivismo, do cientificismo, etc Afinal se há memes como alguns privilegiados poderiam ter acesso a qualquer Verdade que ultrapasse os tais memes??? Tudo é meme, e se tudo é meme, nosso estado comum deve ser de ignorância crassa no que diz respeito a realidade... ou temos um estado de exceção...

Perguntem agora a Humphrey, a Dawkins, a Hamilton ou a Wilson, se suas queridas teorias também são memes... E ouvirão, pasme, que são produto da experiência (mentira porque memes jamais foram experimentados!) ou da ciência! Temos já um templo, igreja ou altar, como sacerdotes e pasme, uma verdade revelada que não procede dos memes... Memes existem apenas para quem não é cientista. Eis aqui uma verdade - Cientistas são imunes a memes. Embora Heisenberg, Fermi, Weizsacker, Schroeder, Einstein, Planck, Lemmaitre, Jeans, Lovell, Eddington, Maxwell, Dirac, Whitehead, Overstreet, Dobzhansky, etc terem sido infectados pelo teísmo... Oh coitados...

Na verdade apenas os cientistas ateístas - e, que pena, ao contrário do que se propaga não são a maioria e sequer muitos - como Dawkins, Wolpert, Stenger e Tryon; por exemplo, são de fato imunes aos memes... enfim privilegiados. Quanto a Freud e Marx, não são reconhecidos como cientistas por eles, e quando ao querido Darwin, apresenta-se claramente como deísta na 'Evolução das espécies' embora, já no fim da vida, influenciado pelo problema da dor ou do mal, tenha se inclinado ao agnosticismo. Sempre bom, dizer que, apesar do que contam os péssimos 'filósofos' (cientistas) ateístas, que o agnosticismo implica uma noção de epistemologia e antropologia absolutamente distintas da epistemologia e antropologia ateísticas, e que apresenta-los como 'ateus' medrosos ou covardes é pura e simples desonestidade, e arrogância é claro. Diga-se isto com mais razão ainda do Panenteísmo, e do deísmo... Nenhum destes conceitos, nenhum deles, equivale mesmo de longe ao ateísmo, mas, estão em franca oposição a ele. O ateísmo é posição tão 'solitária' quanto o agnosticismo e o teísmo (de que Panenteísmo e Deísmo são formas ou variantes).

Portanto ficar elaborando falsas listas de ateus em que constem - Galileu, Newton, Diderot, Voltaire, Darwin, etc implicará sempre, desonestidade, falta de ética e desespero, afinal de houvesse um grande número de sábios e cientistas ateus ou ateus a mancheia, como diziam nossos ancestrais, por que falsear ou fabricar falsos ateus???

Admitida a existência do meme e da paridade entre verdade e erro, tanto o teísmo, quanto o ateísmo, ficam sendo nada ou zero a esquerda... E já estamos nós nas mesmas condições que Pirro ou Hume, i é em estado de ignorância absoluta e invencível, afinal, memes não refletem, não raciocinam, não pensa, não filosofam e não tem acesso a verdade.

Assim há infectados pela crença segundo a qual a alma sobrevive a morte e infectados pela crença, não menos 'inverificável' de que a alma morre com o corpo físico... Um implante aqui, um implante acolá e nada mais...

Outro aspecto insólito a ser considerado é que uma conceito ou entidade cultural se transfigura ou converta em estrutura material, sabe-se lá como... Não se sabe nem se pode saber. Pois se se trata duma ideia como se pode transformar uma molécula ou coisa parecida? Dirá nosso mago que por meio de sinapses neuronais... e no entanto as sinapses neuronais estão na base de todo aprendizado humano, sem que deixe de ser fluídico, flexível, dinâmico e mutável... Pelo simples fato de imigrantes, mesmo já mais velhos ou maduros, mudarem de hábitos quanto instalam-se noutro pais, aderindo a outro tipo de traje, de dieta ou até mesmo de religião... O que mesmo não sendo comum, é empiricamente verificado! Supor a memética é dar o comportamento humano por fixo e imutável, uma aberração!

Torne-mos mais uma vez a sra Robinson:

"Sendo assim como supor uma base genética em qualquer comportamento humano? Se estes memes parecem se ter libertado da dependência direta para com os genes, e aparentemente podem faze-lo ainda onde não o fizeram de fato... Coisa dificil conciliar a sócio biologia, com sua dependência do neo darwinismo gradualista, com esses MEMES INCORPÓREOS QUE FLUTUAM LIVREMENTE, QUE SÃO ALTAMENTE CONTAGIOSOS E QUE, NA TEORIA, de alguma forma, conseguiram fazer com que o nosso cérebro físico se ajustasse a sua própria sobrevivência e propagação." id P 67

Compreenderam???

O cérebro ou a mente não tem qualquer meio para safarem-se a ação colonizadora dos memes... Estamos num mato sem cachorro? Cérebro ou mente não nos garantem nada, não servem para nada... Pois somos presas fáceis de uns memes incorpóreos que flutuam ao sabor da cultura, da mesma forma que a rubeóla ou o sarampo... A conclusão 'ética' é miserável - Você é tão responsável por seu fundamentalismo religioso, por seu racismo, por seu machismo, por seu adultismo, por seu capitalismo, por seu odinismo, enfim por seus preconceitos e superstições, tanto quanto é responsável por contrair crupe, difteria, tifo, rubéola, sarampo, catapora, etc Afinal ainda não foi inventada qualquer vacina contra meme... Estará o grande Richard Dawkins a fabrica-la em seu laboratório???

Resta considerar que toda esta parlenga ou lenga lenga traí, como não poderia deixar de ser o ranço do positivismo, com suma imensa pobreza (a avaliação é de Werner Heisenberg). Um grupinho de cientistas ou de sumos sacerdotes do novo culto, tributado a seleção natural, que enxergam o 'pecado' (no caso da metafísica) em todos, menos neles mesmos, i é nos privilegiados, especiais, superiores ou messias... Lembra K Marx e seu determinismo economicista, segundo o qual a consciência e a cultura eram produto de relações econômicas de produção. E no entanto esse Marx, inserido num modelo de produção capitalista, não era determinado e portanto assimilador daquele modo de pensamento, mas teórico de um novo tipo de pensamento - comunista ou marxista - não determinado por aquele modo de produção majoritário. Marx, como oponente do capitalismo e portador de uma nova consciência, era indeterminado...  Lembra E Durkheim, com seu sociologismo tosco e a respeito de cujas pesquisas e constatações deveríamos perguntar se foram determinadas pelo meio! Lembra Freud, psicologista, que metafisicou a respeito de um fenômeno social, sem quiçá, jamais ter avaliado suas próprias relações afetivas com o pai e a mãe e até que ponto fora influenciado por elas... Dificil para estas homens colocarem-se no plano de suas pŕóprias doutrinas ou situarem-se nelas...

Que dizer então de Dawkins? Teria sido também colonizado por certos memes, portadores das ideologias que tão fanaticamente defende ou seria um privilegiado posto em comunicação com uma verdade oculta a todos os mortais??? Por esta via chegaríamos a mística... E não preciso dizer mais nada! Cada um considere o que seja esta nova 'ciência' da memética e tire suas próprias conclusões!



C Q D

domingo, 4 de março de 2018

Memética, que troço é este??? I

Tal episódio se deu na Era dourada das artes, em Atenas, a Atenas de Fídias, Praxísteles, Polignoto, e é claro Apeles... o qual tinha por costume expor suas telas em praça pública com o objetivo de ouvir os comentários que eram feitos a respeito de seu trabalho.

Numa certa tarde após ter refeito uma de suas obras - Botões, penteado e fivelas dos sapatos - segundo as orientações da costureiro, do cabeleireiro e do sapateiro, aproximou-se novamente o sapateiro arriscando este comentário:

--- Agora estão perfeitos os sapatos, mas esta prega da túnica...

Foi quando Apeles, saindo detrás da tela atalhou:

--- Ne sulor ultra crepidam judicaret, isto é - Sapateiro não passes além dos sapatos!

Outro tanto poderíamos dizer a respeito do sr Richard Dawkins - "Cientista, não passe além dos fatos ou da experiência." ou "Biólogo não passes das provetas e tubos!"

Afinal cuida ele muito teorizar ou metafisicar a respeito de temas que nem de longe dizem respeito a seu campo de investigação... Assim de Deus, do livre arbítrio, da ética, etc apresentando tudo isto como fina flor em termos de ciência. Não, o homem não brinca ou graceja, e proclama em alto e bom som que seu livro sobre os 'genes egoístas', de modo algum é ficção, mas autêntica ciência (cf Flew 'Ediouro' 2008 p 87)... E não chegamos ainda a memética e menos ainda a 'Deus um delírio', pois o homem tudo vende como ciência...

Foge aos fatos em sua rude simplicidade, interpreta, especula, narra, desenvolve, segue pelos domínios da imaginação e da fantasia, como péssimo filósofo que é, e tudo vende como ciência 'positiva' ou factual.

Já dissemos que pela teoria a metafísica renasce, de bem que disfarçada. E já se pode fazer metafísica ateística em nome do positivismo!!! VENDENDO-A COMO FATOS!!! Isto, sejamos justos e honestos, os positivistas não fizeram, ao menos em sua maior parte, permanecendo, muitos deles, no prudente terreno do agnosticismo ou dos fatos. Hoje porém, os homens fazem metafísica com o nome de teoria, e negam que estão a metafisicar, e isto é grave, pelo simples fato de implicar, desonestidade e falsificação.

Ateísmo e materialismo jamais serão dados empíricos ou fatos concretos tomados a natureza por meio da experiência como a lei da conservação da matéria, a incerteza, a relatividade especial, etc Mas construções especulativas ou conclusões que transcendente a experiência pura e simples. São elaborações conceituais ou ideológicas e se os ateístas alegam que tais conclusões dimanam de fatos, os teístas ou deístas não alegam menos...

Alias o problema não é este. Como ser pensantes, Dawkins, Dennett, Harris, Hitchens, Amis, Pullmann, Wolpert, Stenger e demais janízaros do neo ateísmo, sempre poderiam, especular, metafisicar ou filosofar sem precisar oferecer quaisquer justificativas. Afinal nada mais próprio ou característico do Homo sapiens do que refletir ou filosofar. Fazemos isto desde que assumimos um caráter propriamente humano e continuaremos a faze-lo mesmo quando Hume, Kant, Dennett ou outro qualquer declare que não é aconselhável, que não é prudente, que somos incapazes, que não devemos nos preocupar, etc Alias nada mais anti filosófico do que limitar a esfera da reflexão humana, apontando para as 'colunas de Hércules' e declarando jactanciosamente: Não passarás!

O caso é que devemos fazer Filosofia como Filósofos e não vende-la como cientistas... Ser cientista e estar familiarizado com a rotina de um laboratório e suas pesquisas, nada significa em termos de Filosofia. Apresentar-se como filósofo nos domínios da Filosofia só pode significar uma coisa: O desejo consciente ou inconsciente de intimidar o interlocutor colocando-se numa posição de superioridade. É o velho argumento da autoridade que eles mesmos repudiam no âmbito de sua ciência, mas que aspiram inserir nos domínios da Filosofia.

O próprio Sagan, que era suficientemente instruído nos domínios da Filosofia, já havia deixado bem claro que seus pares, caso quisessem teorizar ou metafisicar, deveriam antes de tudo adquirir um aparato conceitual filosófico, e portanto estudar as obras propriamente filosóficas dos Pŕe socráticos a Jaspers ou Maritain, passando por Platão, Aristóteles, Bacon, Descartes, etc. Fato é no entanto que mesmo os Filósofos de fancaria, seguindo certas tradições que remontam a Hume, iniciam suas leituras a partir de Hume e Kant, imaginando que a humanidade começou a pensar com eles e ignorando presunçosamente toda nossa herança grega, romana, medieval e mesmo moderna. Aqui a pressuposição de que tudo quanto fora dito ou escrito antes seria lixo...

Quando aos neo ateístas, parecem não ter estudado seriamente nem mesmo a Hume, cujos argumentos reproduzem cá e acolá, e Kant...

A superficialidade com que Dawkins considera as vias que Aquino tomou a Aristóteles é supinamente vergonhosa, mormente quando foram magistralmente reelaboradas pelo Bispo Fulton Scheen no livro 'Filosofia da religião' (Edição Brasileira da Agir) publicado a mais de meio século. Cito isto apenas de passagem. De modo geral o conhecimento dos conceitos e categorias, da linguagem filosófica propriamente dita, da arqueologia das ideias, dos autores, etc pelos metafísicos ateístas deixa muito a desejar. É como se sequer tivessem estudado Filosofia, Sociologia ou Psicologia no ensino médio ou folheado um livro didático... E são escritores de fama mundial, promovidos pelo mercado editorial, e seguidos por multidões de crentes ou devotos, não menos que o papa romano ou o dalai lama...

Então o que eu esperaria ao abrir uma dessas obras?

Simples - Uma abordagem corajosa, ousada, direta, franca, de cada um dos argumentos ou evidências envolvidos, e sobretudo amplo conhecimento de causa em termos filosóficos, e não afirmações enfáticas - as quais sempre fazem lembrar a 'bíblia' protestante ou o corão - do tipo: Não nos devemos importar com isto! Não nos devemos preocupar com esta questão! Não devemos abordar este problema... Também não me satisfaz a confissão honesta de um Dawkins ou de um Pinker - a respeito da consciência ou da auto percepção - "Nem Steve Pinker nem eu podemos explicar a consciência subjetiva humana, a qual os filósofos chamam 'qualia'... Steve aborda o tema e se pergunta de onde a consciência procede e o que é. E é bastante honesto ao dizer que não sabe. Eu digo o mesmo. Não sabemos. Não compreendemos." Flew 162, de memória.

E no entanto buscamos respostas! Pugnamos, demandamos por respostas! Queremos respostas! Muito bem, o sr Dawkins declara não te-las, então por que raios faz tanta gala de seu ateísmo, jurando QUASE saber que não existe Inteligência ou consciência superior??? Sua ignorância manifesta não devia força-lo a uma posição mais prudente? O homem alega não saber o que é a consciência que temos e já se aventura a negara a hipótese de que uma Mente superior as nossas seja fonte deste fenômeno cuja origem ele supinamente ignora! Ele dirá que apelamos a um Deus de lacunas, podemos bem responder que temos um ateísmo presumidamente cientificista que ignora as lacunas da própria ciência... Seja como for os ateístas não seriam menos prudentes do que nós...

A impressão é aparente. Pois como a matéria bruta não possuí nem de longe qualquer capacidade semelhante a auto percepção, é plenamente justificado, atribuir ao fenômeno supra sensível da consciência, e assim o da racionalidade, a uma causa do mesmo gênero. Se temos fenômenos mentais irredutíveis a materialidade pura e simples - aqui um parentesis: Pavlov, Penfield, Eccles/Popper, Schroeder, Steven Rose... dentre outros tem esclarecido seus leitores a respeito de que a identidade mente cérebro não foi demonstrada, Pavlov por sinal, no fim de sua existência fora pressionado pelo Partido comunista para declarar que a identidade mente cérebro fora cabalmente demonstrada pela ciência, mas, preferindo ser honesto, declinou...

Dizer que o elemento material se auto organizou, acidentalmente ou por golpe de sorte, com o objetivo de produzir o fenômeno da auto percepção parece beirar a insanidade. Afinal como a matéria se poderia ter organizado sem ser racional? Como poderia se ter imposto um fim se não é dotada de vontade própria? Como poderia ter atingido este fim acidentalmente ou por meio da sorte, i é do mero acaso? Por outro lado se a auto percepção é propriedade inerente a matéria estamos dispostos a admitir que as pedras tem consciência de si mesmas ou que os neutrons, protons e eletrons são dotados de vontade própria? Que partículas, átomos, células e pedaços de matéria bruta pensam, desejam, projetam, concebem, etc???

Não me estenderei sobre uma questão a respeito da qual Dawkins confessa sua supina ignorância. Mas não posso deixar passar desapercebidamente aquele trecho famoso em que ele declara, muito seriamente, declara que a primeira célula viva surgiu PARA a seleção natural... Vejam temos aqui uma finalidade ou um propósito para a vida, a seleção natural... Compreende o leitor a dimensão do que diz o Dr Dawkins??? Segundo a teologia natural foi o homem - enquanto se auto percipiente, racional e livre - planejado por uma consciência ou uma mente para realizar tais potencialidade e tornar-se feliz. Agora veja só meu senhor, que este ateísmo caviar ou nutella, repudia a existência da mente mas mantém, oh suprema incoerência, não apenas o desígnio ou o sentido, mas como dirá A C Grayling, resíduos de uma escatologia cristã triunfalista ou positiva.

Agora veja a Santa divindade substituída pelo princípio da Seleção Natural, a qual nosso homem atrela a velha mística positivista do progresso... Pela Seleção natural a ciência, e através dela ao paraíso terrestre... Há uma direção certa que não poderia a haver...

Confesso não saber que pensar sobre isto.

A saber sobre um Biólogo de fama internacional e sucessivamente premiado que falseia a própria teoria da Evolução ignorando a construção da teoria sintética e procedendo como se pertencesse a última quadra do século XIX... Dawkins atua como se Weismann, De Vries e Batenson jamais tivessem existido. Nada de Dobzhansky ou Mayr... Tudo quando o mistagogo inglês deseja é conformar a genética com a 'seleção natural' de Darwin ou criar uma genética darwiniana. Adaptar a genética a um princípio que ja transformou em místico! Claro que tudo isto é construção ideológica. Os criacionistas, mesmo quando alegam estar pesquisando seriamente, jamais deixam de partir do Gênesis, os darwinianos mesmo quando pesquisando não deixam de partir de Darwin, mas não se trata de hipótese testável mas de crenças ou ideias fixas, assim fica fácil torcer e selecionar os fatos produzindo toda uma metafísica, assim o 'Gêne egoísta', porque os genes não podem fugir a seleção natural de Darwin, devem a fina força concordar com ela...

E no entanto a Evolução não se dá, e até um garoto dos bancos escolares devería sabe-lo para estar imunizado, por meio da seleção natural somente, mas por meio das mutações genéticas - Batenson e De Vries. Quando li em Flew queo fator deificado por Dawkins nada produz já o sabia há muito tempo por ter lido Newton Freire Maia. De fato a seleção para atuar depende da 'matéria' produzida, ou da célula alterada, por um evento 'estocástico' a principio, chamado mutação. A mutação é o elemento chave ou positivo da Evolução Biológica, o qual fornece conteúdo a seleção natural e sua dinâmica ou melhor suas leis. Mas Dawkins nada quer saber de mutação, de modo que ela não entre em seu esquema metafísico... Tudo ali é operado ou feito pela seleção, a qual assume o caráter de força maǵica, ou melhor dizendo de um deus...

E face a este deus onipotente que fica sendo o homem???

Nada mesmo que nada, ao menos no que tem de seu ou próprio.

Começando por perder seu livre arbítrio como desejado pelo falecido B F Skinner...

Vejamos então que é o 'Animal racional' ou que fica sendo face a escolástica biológica ou melhor darwiniana do sr Dawkins, o qual bem merece nosso Verbi gratia -

"Somos máquinas de sobrevivência, veículos, robôs cegamente programados para preservar essas moléculas egoístas a que chamamos genes." Flew 87 e foi a propósito disto que ele declarou não estar fazendo ficção mas ciência... id

E no entanto sabemos e muito bem que robôs, máquinas, veículos, marionetes, bonecos, etc não conhecem ética ou moralidade. Falar em moralidade para uma máquina faria tanto sentido quanto falar em moralidade para uma figueira ou um carrapato... Temos aqui, mais um vez o ideal anti ético do positivismo ou melhor de Litreé. Chegamos aos domínios do relativismo e do subjetivismo crassos que justificariam todas as ações de um Ravachol... As partes virtuosas ou oportunistas da humanidade tiveram de berrar... E Dawkins como Wilson antes dele, de dizer que havia sido mal interpretado!

Foi honesto???

Não o sei. Só sei que algum tempo depois voltou a carga - "O argumento de meu livro é que nós, e todos os outros animais, somos máquinas criadas por nossos genes.". Os genes aqui são como deuses ou anjos a serviço da lei ou do legislador supremo que é a Seleção natural...

Outra não é a opinião de seu emissário ou porta voz, o falastrão Pinker, que continuando a obra nociva de Skinner no campo da nossa Psicologia - Leiam todos as respostas que lhe foi dadas por Horgan e Rose - faz guerra ao conceito de livre vontade ou livre arbítrio, o tema por assim dizer, central, da Filosofia segundo I Kant.

Agora qual o significado preciso de tudo isto amigo leitor?

Demos mais uma vez a palavra a Antony Flew:

"Para Dawkins, o principal meio de produzir o comportamento humano é atribuir aos genes características que possam, de modo significativo, SER ATRIBUÍDAS A PESSOAS. Então, depois de insistir que nós somos criaturas de nossos genes, e que por isto não temos escolha, sugere que não podemos fazer outra coisa a não ser aceitar as características pessoais desagradáveis daquelas mônadas que tudo controlam." Flew 87

Bem antes de termos lido Flew, já dizíamos - O homem transforma a seleção numa deusa e os genes em homens! Antropomorfiza nossos genes atribuindo-lhes a intencionalidade que nos pertence, transfere a deliberação do ser racional para partículas moleculares!

E esse mesmo homem que enfia atributos precipuamente humanos em nossas células ou genes, nega tudo quanto nos diferencia dos outros animais... Máquinas são máquinas e todos somos máquinas, aqui um fusca, ali uma Brasília e mais além um Monza... nenhuma diferença essencial.

E esse mesmo cientista 'magnífico' que vê racionalidade e intencionalidade em genes, é incapaz de prestar mais atenção em sua 'deusa' a seleção natural, de de refletir mais detidamente sobre o fato de achar-se diante de um fenômeno regular direcionado para um determinado fim - como o próprio processo evolutivo por sinal. A existência da regularidade, da constância, da direção, do fluxo, significado pelo conceito de lei não lhe diz absolutamente nada, e ele chega a acreditar que as leis constituem ou dão origem a si mesmas... Sem se perguntar sobre o 'pôrque' de continuarem a vigorar indefinidamente ou sobre de onde tiram suas 'forças'...

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Em torno de um vídeo - Catolicismo vs Capitalismo (Youtube) II

Foi quando uma lamentável questão de semântica ou de palavras veio a baralhar a questão e semear a amargura e a discórdia entre os Cristãos.

Para compreende-la em seus devidos termos consideremos antes de tudo que a Igreja iniciou sua trajetória sendo perseguida pelo Império romano, e devido a questões de fundo social como a escravidão. Posteriormente o papado romano envolveu-se noutro conflito, desta vez com o Império. Por fim a reforma protestante, da mesma maneira, serviu-se do poder político ou da espada secular com o objetivo de prostrar a igreja... Isto sem falar-mos da Revolução Francesa. Politiqueira até certo ponto a igreja romana, concorria com o estado e receava dele. Temos aqui uma situação de desconfiança que chega a ser traumática.

Outra no entanto, e certamente nova, era a natureza do liberalismo econômico, sendo até provável que ao menos a princípio este novo adversário do poder estatal gozasse de boa estima, ao menos face a certas parcelas da igreja. Afinal ele pretendia fragilizar o poder político de um estado que no mais das vezes estava disposto a pilhar a igreja. Um modelo de estado tradicional controlado por positivistas não é o que a igreja sonhava e ela sequer podia saber o que se achava por trás do véu... A igreja não soube avaliar devidamente o significado do Capitalismo quando este fez sua aparição nas sociedades ocidentais, e por isso demorou a decidir-se sobre a possibilidade ou necessidade de uma intervenção direta do poder político no plano da economia. Mesmo quando Leão XIII chega a esta conclusão, há todo um tom de melancolia. Afinal os socialistas já o vinham dizendo há mais de meio século e sob a perspectiva naturalista... Foi duro para o papado ter de concordar com os socialistas, e atingir o liberalismo em seu coração pelo simples fato de questionar o dogma não intervencionista da auto regulação. O deus mercado fora afrontado pela igreja antiga se bem que com cinquenta anos de atraso.

Diante disto os socialistas não pouparam críticas a igreja, comparando-a a uma lesma e alegando que perdera o trem da História. Por uma questão de defesa, ainda que irracional, os socialismos naturalistas fizeram-se ainda mais anti religiosos ou anti católicos. Apesar disto alguns Católicos sempre se haviam apresentado como socialistas. Alias a batalha do nome também separava os comunistas dos socialistas ou sociais democratas e Lênin acabará de proscrever o nome que mais tarde seria reabilitado por Stalin. Maurras também havia sido excomungado e seu projeto político condenado. Pio XI por fim condena o emprego do termo socialista por parte dos Católicos.

Fe-lo, julgamos nós, um tanto precipitadamente, e talvez acreditando, sinceramente, como Keynes ou Giddens, numa possível terceira via não alinhada. Claro que existe uma terceira via ou uma outra opção caso consideremos os extremos do Capitalismo e do Comunismo, isto no âmbito da política e esta terceira via é o próprio Socialismo na medida em que repudia o totalitarismo representado pela doutrina da ditadura do proletariado, o que vem a comprometer também o ideal draconiano da Revolução nos termos Sorel/Lênin e a acenar com soluções democráticas, as assim chamadas reformas. A bem da verdade até mesmo os fins aqui são diferenciados uma vez que o comunismo visa a implementação de uma igualdade absoluta enquanto que os socialismos visam a implementação de uma igualdade relativa em termos de oportunidades (M Bakhunin). Os socialismos também se mostram flexíveis quanto a causa formal do Capitalismo que é o regime assalariado decorrente da posse privada dos meios de produção.

Outra coisa porém é querer encontrar um meio termo entre o liberalismo econômico e o socialismo. Aqui julgamos que toda e qualquer tentativa seja um tanto forçada. E que não haja por assim dizer meio termo, isto a luz da definição de capitalismo ou liberalismo fornecida pelos principais teóricos liberais. O quanto podemos dizer aqui é que o socialismo Cristão e Católico, cujos fundamentos são éticos, seja anterior a todos os demais exemplos ainda existentes. Poderíamos sem receio identifica-los com os 'socialismos religiosos' ou sagrados da antiguidade elencados por Ozanam em sua Carta (Carta sobre o socialismo), inda que haja ali um elemento novo, que é a liberdade pessoal. Esta porém jamais se opôs ou poderia opor-se a ação da comunidade sobre a esfera da atividade econômica, a qual também é humana. Não é sem razão que Max Beer na sua História do socialismo, cita a Urukagina como primeiro reformador social. Na medida em que Leão XIII não só reconhece como até estimula a intervenção do político na esfera da economia, temos a negação peremptória do liberalismo econômico e do princípio do livre mercado que auto regula a si mesmo. Do ponto de vista do liberalismo clássico e puro keynesianismo, bem estar social e doutrina social da igreja são formas de intervenção social e portanto formas de socialismo.

Os Católicos conscientes escolheram outras tantas palavras e expressões - cooperativismo, distributivismo, trabalhismo, fraternalismo, personalismo, solidarismo, etc para apresentar basicamente os mesmos princípios, do bem comum e da intervenção social, sem terem de empregar o termo socialista. O resultado desta batalha semântica foi uma dispersão de forças, enfiando-se cada Católico no seu clubinho, ao invés de terem juntado forças contra o inimigo comum. Outros dando a mais absoluta prova de má fé, desonestidade e mal caratismo deduziram, da condenação do Comunismo e do Socialismo, que a igreja, NÃO COGITANDO EM OFERECER ALGO DE PRÓPRIO (Como a doutrina social), aliava-se ao liberalismo econômico e ainda hoje há gente safada que assim pense!

Por mais que a igreja tenha se esforçado por vindicar a liberdade pessoal e seu resultado, que é a propriedade pessoal não é menos verdade que jamais reconheceu o dogma falso e monstruoso da auto regulação ou o ideal economicista de uma economia irredutível a Ética. A Igreja numa perspectiva humanista e anti economicista sempre afirmou o primado da ética face a qualquer atividade humana e esta foi talvez sua marca distintiva face a ideologia rival, o positivismo, cuja renúncia a ética foi catastrófica.

Destarte por que não condenou a igreja o Capitalismo ou o Liberalismo econômico juntamente com o Comunismo e o Socialismos naturalistas?

Eis a pergunta que se impõem. Afinal os Católicos de fancaria a partir daí, concluíram pela veracidade do Capitalismo.

Tentaremos responder a esta pergunta partindo do ponto de vista segundo o qual não é o Capitalismo um fenômeno simples, como queria K Marx, mas um fenômeno bastante complexo, como queria Werner Sombart o primeiro a opôr ou melhor a sobrepor ao conceito de estrutura, o conceito de Geist ou de um espírito do Capitalismo, claro que ele desenvolve um conceito de Weber. O Capitalismo não é apenas uma estrutura ou uma forma de organização material, é algo a mais ou mais além. Tem uma alma, um espírito, uma ideologia... já foi imaterial antes de encarnar-se na Sociedade graças aos préstimos do protestantismo.

Tentemos compreender isto, tomando para tanto o esquema imaginado pelo Pe Julio Menvielle com base nas causas de Aristóteles. Esquema que alteraremos por discordar do douto padre.

Quatro são as causas alistadas pelo Filósofo: Causa eficiente, Causa material, Causa formal e causa final; assim em: 'Fídias, com mármore, fez uma estátua para o rei.', temos -

Fídias = C Eficiente, aquele que executa a ação.
Mármore= C Material
Estátua= C Formal, que dá forma ao ser.
Rei = C Final

Tomemos agora o Capitalismo e submeta-mo-lo a mesma análise -

Qual sua causa material?

Como todo fenômeno econômico propriamente dito a produção e distribuição de bens.

Até aqui nada demais, afinal a igreja não condena a simples atividade econômica ou qualquer outra atividade humana.

Qual sua causa formal?

Aqui concordamos com Marx - A posse privada dos meios de produção associada ao regime assalariado.

Que pensar a respeito?

Marx tem para si que a posse privada dos meios de produção esteja ela mesma na raiz do mal, assim o regime assalariado, os quais devem ser substituídos pela posse comum ou coletiva dos meios de produção.

De fato o pensamento Católico acha-se mais próximo de formas comuns ou coletivas de administração, a exemplo das corporações medievais. Assim da posse comunal da terra a exemplo dos egidos mexicanos... Em todo caso a posse da terra deve sempre estar relacionada com o uso pessoal que dela se faz. O que de imediato põem sob suspeição o modelo assalariado, o qual é no mínimo precário.

Agora devemos compreender que essa forma de relação econômica impos-se a quase meio milênio alastrando-se por todo Ocidente. De modo que não conseguiríamos aboli-la sem dar início a uma catástrofe cósmica, e verter rios de sangue. O que nos leva a indagar em que medida um tal regime possa ser revisto a ponto de satisfazer as exigências básica da justiça.

Temos portanto diante de nós um regime que sem ser intrisecamente mal, quiçá possa tornar-se menos permeável face a injustiça.

Por isso a igreja, ao contrário de Marx, não pode condenar a forma do Capitalismo ou o regime assalariado como absolutamente mal, de modo que não possa ser ajustado segundo as condições da justiça.

Daí a insistência da igreja a respeito do salário família, da participação nos lucros e numa legislação que proteja o trabalhador, condições em que, o regime assalariado, seria tolerável. Ao menos enquanto tentamos viabilizar e implementar outras posses mais elevadas de posse.


Passemos agora a terceira causa que é a causa eficiente imediata do Capitalismo, uma vez que a causa imediata não exclui outras tantas que sejam mais profundas ou mediatas.

Por causa eficiente do Capitalismo temos, segundo o Papa Leão XIII em Rerum Novarum - A ambição desmedida, a cobiça insaciável ou a avareza. O desejo de acumular bens neste mundo por assim dizer, ilimitadamente. A tendência a amealhar e juntar. Tudo quanto a igreja sempre encarou como pecado. Aqui temos o primeiro impulso ou motor do Capitalismo, o geist ou o espírito de Sombart e sabemos muito bem ter sido condenado pela ética Cristã, afinal - NÃO SE PODE SERVIR A DOIS SENHORES, A DEUS E AO DINHEIRO, e... NÃO JUNTEIS BENS NESTE MUNDO ONDE A TRAÇA DEVORA E A FERRUGEM COME, MAS JUNTAI BENS NO MUNDO CELESTIAL!


Tais os pobres em espírito, que não tem apego, e que portanto não buscam acumular ilimitadamente fazendo fortuna sobre a terra!

Assim se a forma do Capitalismo ou sua estrutura, é relativamente suportável ou tolerável na medida em que se submete as exigências da doutrina social da igreja - e em última análise a um controle ético exercido pela Sociedade - assumindo um certo aspecto humanista, o espírito, a ideia ou o éthos que o faz crescer e lutar esta radical e irremissivelmente condenado pela lei de Jesus Cristo, que é o Evangelho e pela tradição eclesiástica. Disto resulta que o dogma ou preceito da auto regulação ou da não intervenção seja inaceitável aos olhos do bom Católico.

Enfim não se pode ser Católico e liberal economicista ou capitalista ao mesmo tempo. Do contrário a simples existência de uma doutrina social bastaria para evidenciar a idiotice da Igreja Católica quando evidencia sua genialidade ímpar. E o protestantismo, que não possuí qualquer doutrina social, estaria na dianteira. Agora, se existe uma doutrina social é evidente que o liberalismo econômico labora em erro e com ele o protestantismo, o qual historicamente concedeu-lhe espaço ao retirar-se do mundo material para as nuvens na medida em que afirmava um ideal mágico de salvação, desvinculado do outro e da Ética.






domingo, 18 de fevereiro de 2018

Em torno de um vídeo - Catolicismo Vs Capitalismo (Youtube)

Esta 'breve' defesa foi elaborada após termos iniciado a leitura da obra 'O século do nada' de Gustado Corção. Obra 'confusionista' em que o polemista atrabiliário busca desmerecer as figuras de grandes Católicos como E Mounnier e J Maritain, tal como já fizera com Tristão de Athayde.

Corção, como Vintila Horia e o Bispo Fulton Sheen, faz parte do seleto grupo dos comunófobos ou dos contra revolucionários do tempo presente, isto é claro numa perspectiva ingênua ou idealista. Afinal também nós, como Católicos, somos contra revolucionários. Não no sentido superficial e tosco de reprimir as revoluções 'a posteriori' ou pelo emprego da força, o que denota falta de inteligência. Mas no sentido realista ou profiláxico que leva a eliminar 'a priori' as potenciais causas que possam ativa-la. Nós somos por evitar as Revolução ou por sofre-las como quem sofre uma penitência (Berdiaeff).

Afinal que são as tais Revoluções senão a morte e dissolução de sociedades que estavam enfermas? Acaso um homem que deseje escapar a morte não procurará o médico, fará dieta, tomará os medicamentos receitados e se submeterá a quaisquer tratamentos, inclusive a uma cirurgia, se necessário for? Assim as Sociedades que aspiram escapar as Revoluções devem reformar-se, necessariamente. Nós somos pelo único caminho viável, a eliminação de todos os abusos que alimentam o espírito revolucionário.

Tornando agora a Corção, Horia e F Sheen, forçoso é declarar que ainda existem Católicos deste talhe no seio da igreja, a qual prestam imenso deserviço, não é claro por serem anti Comunistas, pois é evidente que o Católico não pode ser comunista, já porque não visa os mesmos exatos fins que o comunista, já porque não recorre nem poderia recorrer aos mesmos meios, ao menos de modo geral. Tal não é o caso. Importa declarar em alto e bom som que não basta ser anti comunista. Ser apenas anti comunista é ser parcial, injusto, arbitrário, oportunista e até mesmo canalha. É necessário ser bem mais do que anti comunista, já o veremos!

A bem da verdade a igreja sempre deu combate a todas as formas de naturalismo, exceto, em certa medida - que não vem ao caso agora - ao naturalismo político. Diante disto faz-se mister ser também e igualmente anti Capitalista, opondo-se tanto ao Comunismo quanto ao Liberalismo econômico, mormente quando Sheen, Horia e Corção são obrigados admitir que aquele é fruto ou filho deste. Foram os erros do liberalismo econômico que produziram o Comunismo e as diversas formas, naturalistas, de socialismo. Socialismo não é causa, é efeito, consequência, reação face as mazelas produzidas pelo Capitalismo. Ainda aqui, mais uma vez, faz-se mister ir as causas, as fontes e expor as raízes do mal. Afinal o machado da palavra de Cristo deve ser levado a raiz do mal, para extirpa-la sem maiores contemplações.

Ainda hoje há muito Católico mal orientado ou mesmo mal intencionado que reproduz este tipo de discurso posto em circulação pelo protestantismo. O protestantismo sendo lacaio do capitalismo será necessariamente anti comunista, somente isto e nada mais que isto. Pelo simples fato de que o âmago da questão, como perceberam Maritain e Mellawace, toca a velha questão da fé e das obras, e jamais saí disto. A questão da Doutrina social da Igreja é questão que toca diretamente a questão do homem, da graça, das obras e do mundo material. Não é algo dogmaticamente ocioso ou irrelevante. Daí a necessidade imperiosa do Católico refletir sobre ela numa perspectiva coerente, ao invés de adotar posturas que nada tem de Católicas. Os protestantes negando a regeneração interna do ser humano, renunciaram a possibilidade de transformar a Sociedade dos homens. O Catolicismo não pode renunciar a este ideal ético sem renunciar a si mesmo...

A arenga não é ociosa uma vez que Corção, ao contrário da quase totalidade dos neo Católicos, mergulhados na ignorância e no conformismo, conhecia detalhadamente o que chamamos - e ele também - Catolicismo social. Alias o próprio Corção busca traçar a genealogia deste movimento tão importante para a consciência Católica, e chega a Adolphe Thery, Bourgemont, Villermé, Buchez, Ozanam - Cf 'O século do nada' Record p 146 sgs - Albert de Mun, Le Play, Leon Harmel, La Tuor du Pin, etc quanto a França, e a Ketteler, Manning, Gibbons, Decurtins, Pottier, Verhaegen, etc no exterior. Temos outras narrativas preciosas - A de Luiz Francisco F de Sousa (Socialismo uma utopia Cristã), a de Francisco Nitti (Socialismo Católico), a de Brunetière, a de Guyau, a de Laloup Nelis - e outros tantos nomes como os de Mably, Morelly, Meignam, Lammenais, Bloy... Ireland... Wietling... De Amicis, Nitti... Alias o nome de Bloy é importante pelo simples fato deste personagem, citado por Corção no frontispício da referida obra, estar relacionado com Berdiaeff, Maritain, Mounnier e outros indevidamente incriminados pelo panfletário brasileiro.

Corção tem razão contra os comunistas, e até mesmo Polanyi e Hobsbaw o reconhecem - A igreja não deixou de atuar contra as forças tenebrosas do Capitalismo emergente, no entanto entre suas fileiras haviam dois tipos de mentalidades, as quais encaravam o problema da miséria de forma bem distinta. A primeira linha de pensamento, segundo a tradição de S Vicente de Paulo - o qual vivera no século XVII, num contexto tradicional e não num contexto capitalista -  situava a questão na esfera da caridade, da assistência ou do que chamaríamos hoje 'paternalismo'. Esta corrente, representada por Ozanam, incorporava não poucas vezes um conceito formalista de propriedade, associado a uma abordagem voluntarista (relacionado com o próprio conceito de caridade) e a um certo receio face a um estado interventor.

Crucial declarar que o ponto de vista acalentado por este grupo não está de acordo com a doutrina comum aos padres da igreja e menos ainda com o ensino corrente da escolástica, uma vez que seus membros ignoravam supinamente os ensinamentos de Tomás de Aquino. O estudo da obra de Tomás de Aquino só viria a ser sistematicamente retomado sob os auspícios de Leão XIII pelos idos de 188

Curioso observar que um estudioso brasileiro dedicado ao tomismo, o profo Jorge Boaventura, falecido em idade provecta na última década do século passado, após ter publicado inúmeras obras de polêmica contra os Marxistas - editadas pela Biblioteca do exército - chegou a conclusão, alguns anos antes de morrer, que o ensinamento de Tomás de Aquino era sem sombra de dúvida socialista ou ao menos incompatível com o que chamamos liberalismo econômico, o que alias sabe a obviedade. A conclusão a que chegou este pensador honesto e sincero, produziu, aquele tempo, imensa consternação entre os católicos incoerentes e protestantizados, os quais chegaram a declarar que o professor Boaventura estava caducando ou esclerosado. A bem da verdade ele limitou-se a constatar o que o grande Cardeal Mercier de Malines (+ 1926) e seu sucessor Von Royer, haviam constatado há muito: Que entre o ensinamento social da Igreja e as pretensões do liberalismo econômico há uma abismo intransponível e que por ser a igreja anti comunista não pode ser menos anti capitalista ou anti liberal.

Alias por qualquer outra via que se tome, chega-se sempre a mesmíssima conclusão. Veja que o Pe Hurtado ingressou nas fileiras do Catolicismo social a partir da leitura das obras de D Columba Marmion, o que aconteceu comigo mesmo, embora no meu caso ja tivesse lido os padres da Igreja. A leitura de Marx ou de qualquer ideólogo Comunista foi absolutamente desnecessária para a maior parte dos Católicos que perceberam a antinomia - Catolicismo - Capitalismo. Todos os grandes eclesiólogos e cristologistas da Católicos são obrigados a considerar a comunhão dos santos em seu vínculo, e a insistir sobre os laços de fraternidade, solidariedade, alteridade... existentes entre aqueles que são membros de um só e mesmo corpo, chegando a doutrina do amor, da justiça e das obras...  A ilação teológica conduz o Católico, necessariamente, aos braços do fraternalismo... em oposição ao individualismo e ao sistema econômico alimentado por ele. O próprio M Weber não pode deixar de compreender tudo isto, embora estivesse fora da igreja... As premissas do solidarismo Católico já estão em Sertillanges, K Adam ou qualquer outro grande teólogo que tenha buscado deslindar a vida íntima da Igreja.
 
COMO OS CATÓLICOS PROFESSAM UM IDEAL COMUNITÁRIO DE SALVAÇÃO, deduzem uma economia solidária ou humana. Como os protestantes afirmam uma salvação individual ou egoísta, deduzem uma economia individualista, marcada pela rivalidade ou pela concorrência.

Mas tomemos agora a segunda via de pensamento percorrida pelo Catolicismo social.

A qual reconhece que o sistema economicista liberal tem sido produtor de uma ordem social injusta, e portanto incompatível com os ensinamentos éticos do Catolicismo.

A importância desta constatação é amplamente fecunda. Pois caso situemos a gênese do problema no âmbito da caridade, ou de meros 'conselhos evangélicos', como doar todos os bens aos pobres... sempre poderemos fugir desonestamente a ele, apelando a liberdade... Embora estejamos obrigados em função da lei de Jesus Cristo a amar e a amar concretamente o próximo, sob pena de não sermos Cristãos. Isto no entanto suscitaria uma discussão enorme... E sempre fugiria a realidade e a verdade.

Não se trata aqui de negar ou de reconhecer uma luta ou conflito existente entre as classes sociais pelo simples fato de tal conflito ser oficialmente estimulado pelo credo liberal. O credo liberal, associado a uma visão darwinista da realidade, jamais encara os homens como irmãos, mas sempre como concorrentes ou rivais na 'luta' pela sobrevivência. Apresentando o patrão bem sucedido como apto e o proletário explorado como inapto, quando na verdade - na maior parte dos casos (aqui Max Nordau - Mentiras convencionais de nossa civilização) o primeiro limitou-se a herdar enquanto o outro nada herdou...

Naturalmente que semelhante tipo de ideologia acabaria produzindo uma Sociedade enferma ou em estado de conflito. Aqui a negação da existência do conflito exigiria do Católico o sacrifício de sua honestidade. Esta ele numa Sociedade em estado de conflito. O conflito é real, é histórico e independe da vontade do Católico - é dado ou fato empírico irredutível a vontade. E a honestidade exige que o Católico, como Berdiaeff fez, reconheça a existência do conflito.

Nisto o Cristão não se distingue do Comunista e sequer podería distinguir-se dele, exceto se viva numa sociedade tradicional ainda não infectada pelo virus do Laisez faire... Do contrário estará situado numa Sociedade dividida, pelo simples fato de uns explorarem outros ou viverem as custas do trabalho alheio e não do próprio. A existência de opressores e oprimidos é concreta e não produto de nossa imaginação!

Assim a questão posta, ao Católico e ao Comunista, não é de fato mas de valor.

Como o Católico avalia este conflito implementado e estimulado pelas forças Capitalistas de produção ou por seu éthos???

O Comunista dirá que o conflito é o motor da História e que portanto tal situação deverá ser intensificada. Ele aplaudirá e estimulará todas as situações de conflito, acompanhando a dinâmica do liberalismo econômico em seu desenrolar e 'excitando' os justos rancores do proletariado, com o objetivo de produzir uma consciência de classe estribada muitas vezes num ódio feroz.

Agora qual o posicionamento do Cristão???

Eis uma pergunta que é crucial e que toca ao âmago do problema!

Quanto a negar ou ocultar o conflito social, já vimos que não é uma solução honesta.

A outra postura, igualmente desonesta, consiste em exigir que ambas as partes, patrões e operários, façam as pazes e vivam em harmônia sem estipular quais sejam as condições em que tal convivência se dará. Pois aqui exigir a paz e a conciliação equivale a ordenar que os operários se conformem com sua situação, se resignem, e se deixem explorar passivamente como sequer uma ovelha procede com relação ao lobo, porque até mesmo a ovelha foge...

Usar o mandamento sagrado do amor com o objetivo de cimentar uma situação de injustiça é, permitam-me dizer sacrílego, senão diabólico.

Antes do amor, apresentam-se as exigências da justiça, e ninguém, nem mesmo a mãe igreja, a qual deve ser tão justa quanto seu esposo e mestre, pode ordenar a seus filhos que sofram injustiça! Antes é grave dever dela eliminar as situações de injustiça, de modo a suprimir o conflito e evitar, como já foi dito, a catástrofe da revolução, desejada por anarquistas e comunistas.

Nivelar a vítima com o agressor é e será sempre uma atitude iníqua. Por isso a voz da igreja deve se dirigir não aos proletários com o objetivo de conte-los ou apazigua-los mas aos ricos e poderosos.

Neste caso que deve fazer ela?


Simples - Conter, por força de sua lei a parte agressora ou opressora, advertindo-a a respeito de seus deveres e obrigações.

Numa situação em que os patrões exploram e oprimem os operários o único caminho a ser seguido é proibir aqueles dentre os patrões que se declaram Católicos, de explorar seus operários, sem sem importar com a praxis vigente entre os acatólicos sejam ateus ou protestantes, no caso subservientes as flutuações do deus Mercado.

O Católico tem obrigações sociais e econômicas que lhe são impostas pela doutrina social da Igreja - como o pagamento do salário família e de todos os demais direitos trabalhistas mesmo quando não tenham sido sacramentados pela lei - e as quais não pode fugir sob pena de excomunhão, devendo de fato ser posto fora da igreja caso teime em seguir as regras assentes pelo liberalismo econômico.
Tal o dever dos Bispos e clérigos, fazer valer a doutrina social da igreja e aliviar a situação do povo de Jesus Cristo. A menos que a doutrina social da igreja não passe de letra morta ou de algo para 'inglês ver' como insinuam os comunistas, o que seria insultuoso para a igreja - ter leis e não leva-las a sério. Agora se houve ou houver acomodação, é resultado da falta de fé...

A Igreja tem tradições e leis e elas consistem em reprimir a avareza, a cobiça, o amor as riquezas materiais... a exemplo do que era posto em prática e comumente executado por um S Antonio de Pádua, cuja defesa dos pobres e miseráveis face aos banqueiros é bastante conhecida de todos. Tal o modelo a ser seguido. Não Mises, Fridmann, Hayek e outros ateus que para a igreja nada são mas Asterius, Crisóstomo, Basílio, Antonio, etc os quais são nossos maiores e nossos refenciais.

Ora esta questão da justiça foi reconhecida e posta em relevo pelos Bispos alemães congregados em sínodo sobre a presidência de Immanuel Von Ketteler, Arcebispo de Maguncia, em 1848 ou seja no mesmo ano em que Marx publicava o seu manifesto ultrafamoso. Agora que diziam os Bispos, dignos representantes de toda uma tradição muito mais antiga que o Marxismo? Reconheceram publicamente a injustiça inerente ao sistema Capitalista de produção, e apontaram intrepidamente os fatores responsáveis por um semelhante estado de coisas -

  • O Caráter anti ético do economicismo.
  • A desvinculação da propriedade face a sua função social.
  • A recusa do estado em interferir (Dogma basilar do liberalismo econômico) e
  • A destruição das corporações medievais por uma legislação inspirada dos novos princípios do liberalismo.

Alias estes dois fatores, em especial o último foram salientados igualmente, por Leão XIII na Rerum Novarum, reconhecendo o chefe da igreja romana, a necessidade do estado interferir em favor dos operários em diversas situações, o que contraria, como já foi dito, a doutrina liberal da não intervenção ou da intangibilidade do Mercado.

Foi o ponto de partida para uma tomada de consciência ainda maior por parte dos Católicos mais dedicados. Embora a reação continuasse sendo desproporcional... A própria política nos países Católicos era dirigida por acatólicos, em sua maior parte alinhados com a ideologia liberal. Os próprios positivistas e cientificistas, após a morte de Augusto Comte e sob a direção de Litreé, tornaram-se subservientes face aos interesses do capital e buscaram 'modernizar' as Sociedades Católicas introduzindo nelas o modo capitalista de produção. Positivistas e liberais nutriam não menos horror que os comunistas a gente do campo e aos modelos tradicionais de organização social. O ideal Católico era considerado sempre ultrapassado quer fosse monarquista ou social... E o liberalismo, especialmente sob o viés econômico encarado como progressista.

O pior no entanto era a existência de um imenso número de Católicos formais e alienados. Os quais nada sabiam sobre a doutrina social da Igreja ou julgavam-na ociosa, raciocinando, é claro, como protestantes. O fundo do poço, como ainda hoje, eram os Católicos que acreditavam ser possível ser Cristão e Capitalista ou liberal economicista ao mesmo tempo, havendo dentre eles, inclusive, os oportunistas, que clamavam contra o comunismo anti Cristão enquanto cobiçavam por oprimir seus irmãos em Jesus Cristo membros do mesmo corpo místico. Já o Visconde de Inhomirim fustigava esses Católicos de fancaria que haviam compactuado com a chaga da escravidão. Eliminada a escravidão esta ralé de solifideistas pos-se logo em sintonia com o Mercado - Hora de contratar e oprimir imigrantes italianos ou de explorar a mão de obra nordestina corrida pela seca de sua terra Natal. Esses eram os principais problemas da igreja aquele tempo... E como nem todo Bispo ou prelado tinha virilidade suficiente para 'encarar o problema de frente'... A igreja era constantemente descrita por seus opositores socialistas, como uma instituição hipócrita. Reconhecemos que nem sempre tem sido regida por homens de valor, para cada Ambrósio, Atanásio ou Teodoreto há mil acomodados...

Felizmente, cerca de quarenta anos após o Sínodo presidido por Ketteler ter feito suas objeções ao liberalismo, Leão XIII publicou a já citada Encíclica, em sob a perspectiva tomista. E houve quem o levasse bastante a sério na Bélgica ou melhor dizendo na Lovaina. Foi nesta Universidade em que sob a presidência de Mercier, Arcebispo de Malines, resgatou-se a doutrina social tomista, centralizada no conceito aristotélico do 'bem comum'. Foi a partir de tais pesquisas que foi sendo formulada a doutrina social da Igreja e os Códigos sociais de Malines, dentre outros documentos. E no mesmo ambiente tomaram corpo o Sillon, a Ação Católica e o Jocismo de Cardjin, para sermos sucintos. Foi todo um florescer de consciência social autenticamente Católica fundamentada na doutrina de Tomás de Aquino, até então completamente ignorada pela corrente rival.


Afinal, teólogo medieval algum, disserta com maior propriedade, em termos de Ética Cristã, a respeito da distinção entre a ordem da caridade, que Aquino relaciona, até certo ponto, com a liberdade humana; e a ordem da justiça, que   Aquino apresenta como de estrita necessidade. Ora Aquino, situa todas estas questões atinentes ao trabalho, a produção de bens, a economia, etc não na ordem da caridade mas na ordem da justiça. E o próprio bem comum é situado por ele nesta ordem de bens, relacionados com a justiça, e portanto, estritamente necessários. Como se vê não é algo voluntário ou desejável, mas algo absolutamente necessário e a ser expresso por meio de leis obrigatórias ao povo de Jesus Cristo.

Desde então, todos os principais expoentes do Catolicismo, a começar por Maritain, tiveram de acompanhar os Dominicanos de Lovaina e Tomás de Aquino. Já não era possível encarar a questão social apenas sob o ponto de vista ou a perspectiva unilateral da caridade e adotar os meios postos por S Vicente de Paulo numa Sociedade tradicional. A situação criada pelo liberalismo econômico - foi bastante bem descrita na Inglaterra por Dickens e na França por Zolá - demandava por novos tipo de reflexão e ação. Era necessário que a Sociedade Católica reassumisse seu autêntico 'modus vivendi', rompendo com o éthos puramente naturalista do economicismo liberal, interferindo positivamente nos setor da economia, implementando a justiça social na mais larga escala possível, investindo na pessoa humana e erradicando a miśeria produzida pela injustiça.

Este programa só será esboçado com absoluta nitidez a partir das primeiras décadas do século XX devido as contribuições de diversos pensadores quais sejam - Bloy, Berdiaeff, Maritain e Mounnier. Tais pensadores constituem as vigas mestras por assim dizer do pensamento social Católico - alias Berdiaeff, é nosso i é Católico Ortodoxo - em construção, e nenhum deles, como veremos, estava sob influxo do marxismo, mas sob influxo da corrente de pensamento tomista e da tradição patrística. Lamentavelmente Corção permaneceu atrelado a primeira corrente de pensamento, delineada na França por Ozanam. Deixando de acompanhar o desenvolvimento suscitado pelos estudos tomistas iniciados na última década do século XIX e as possibilidades descortinadas pela Rerum Novarum... E isto a ponto de chegar a encarar os legatários desta corrente como inovadores influenciados pelo marxismo. Esta errado e basta dizer que estes teóricos estão todos relacionados com o círculo de Leon Bloy e que este estava muito bem a par do que ocorria na Lovaina. Foi um movimento comum, de convergência, fruto da própria consciência Católica voltada para sua tradição mais pura e para suas raízes mais profundas. evidente que hoje, mais do que nunca, precisamos resgatar tudo isto.

A Teologia da Libertação procede em parte doutra cepa. Tem, como os socialismos naturalistas - e Ozanam mesmo o reconhece - uma herança Católica comum, a par de diversos erros. Ao contrário de seus erros, em grande parte de origem protestante, vou insistir sobre os acertos! Não errou ao servir-se de Marx e dos teóricos marxistas com o objetivo de conhecer melhor a realidade produzida pelo Capitalismo e seus mecanismos internos de natureza econômica. Aqui um pouco de Gabriel Le Bras ou de Lallemant faz bem - Marx é um teórico como outro qualquer, podendo ber servir como ferramenta a crítica Católica e mais ainda Max Weber, e outros mais... Alias não foi ele quem produziu a situação que descreve! Materialismo já havia sido posto em circulação há muito tempo, pelos economicistas... A questão é que os adeptos da TL deixaram-se cooptar por certos ideais e métodos propriamente comunistas, além de adotarem um vocábulo de tal modo técnico que afastou-os do povo Católico afeito a um linguajar tradicional com que os comunistas jamais souberam lidar. A TL foi pelo mesmo caminho e cometeu os mesmos erros... Embora houvesse nela um princípio de justiça, como havia um princípio de lealdade entre os feudais.

Seja como for a libertação total da pessoa humana não é, como ordinariamente se crê, assunto relacionado meramente com a ética Católica ou com a doutrina social da igreja, mas assunto relacionado com a soteriologia e a antropologia Católicas exaustivamente debatido na ocasião em que foi levantando o problema da fé e das obras. A simples afirmação, sinergista, segundo a qual as obras são absolutamente necessárias a salvação, já nos encaminha a solução do problema social. Assim a doutrina da igreja visível, da comunhão dos santos e da ressurreição da carne apontam para a mesma perspectiva de uma salvação integral do homem, não quanto a um diabo ou a um inferno, mas quanto o mal e o pecado. A afirmação de uma graça capacitante por parte do Catolicismo não pode deixar de culminar com a elaboração da ideia de uma Redenção integral e portanto de fundamentar a tese da transformação do mundo a luz do Evangelho ou do triunfo da lei de Jesus Cristo numa perspectiva social. Por isso o Catolicismo sempre será um modo de vida ou uma lei, jamais uma fé somente e totalmente separada do mundo material. A fé Católica esta sempre em diálogo com o mundo buscando transforma-lo a luz da Encarnação e ampliar a presença do Cristo. A própria escatologia torna-se otimista e plena de esperança!



quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Brasil - Cristiane. Cazuza, 'Psicografada' (Sic)

Uma sátira baseada na música 'Brasil' de Cazuza


A uma 'candidata' a ministro do trabalho


Brasil, mostra tua cara
Quero ver quem paga
Pra tu vestir cetim
Brasil, ministério do ócio
Teu pai é o teu sócio
Só quer din din...

Não me convidaram
Pra esta festa nobre
Que eles forjaram
Com o PTB
Para esconder
Toda essa droga
Reforma safada
do PMDB

Nois num vai pode
Comprar um cigarro
Nem ficar na porta
Pois num vai te carro
Não te elegeram
Golpista deslavada
O Brasil é levado
Em gume de navalha

Não te sortearam
A garota do fantástico
Já te subornaram
E disseste sim
Ai de nós não fossem
Os computadores
A tela da Globo
Passava rintintim

Vivemos em tempo
de manifestoche
Malaco que se vende
Por um broche
Uma sanguessuga
Como presidente
Não ouço panelas
Gado sorridente!

Decepção

Que verdade oh homem te oferecem
O magos que deslindam a existência?
Sacerdotes do culto da ciência
Que dia após dia em fama crescem...

Não, não, os homens não merecem
Da parte deles tanta complacência
Declaremos com supina reverência,
A dura verdade, os mitos cessem

Bem e mal não há que possa nortear
A existência nossa, posto que aparente
É a responsabilidade presumida

Da liberdade que cremos ostentar.
Elos somos de uma fatal corrente
Marionetes - eis vossa existência resumida!

Determinismo

Por obscuras força controlada
É a criatura racional que pensa
E diante da vastidão imensa
Dos céus, se julga afortunada

Crendo agir sempre impulsionada
Não pela matéria cinza e densa
Mas por ação da mente, intensa
Tendo as razões pesado, acautelada

As 'razões' que acodem no entanto
A este que se crê livre, alucinado
Impulsos são dos genes seus

Homem por que avançaste tanto?
Hoje ainda és tão predestinado
Escravo ainda que não haja Deus!