domingo, 3 de dezembro de 2023

Reflexões sobre a 'Lei de Cristo' e as doutrinas da inspiração plenária e linear.

Ao nobre e excelente W R


Graça, paz e bem no amoroso Redentor nosso Jesus Cristo.
Li com atenção e carinho as reflexões que tu publicaste na comunidade dos judeus, porém como minha resposta respeitosa foi truculentamente apagada por eles eu a reproduzo aqui.
Não me leves a mal, porém, a meu ver, é, o teu ponto de vista, equivocado.

Embora, rigorosamente falando, tua perspectiva pessoal esteja dentro dos limites da Ortodoxia, como uma theologumena ou opinião, é bem verdade que desde o século XIX tem sido utilizada, pelos companheiros e sucessores de Droysen, como uma explicação puramente naturalista sobre as origens do Cristianismo, beneficiando portanto um erro fatal.
De fato muitos Historiadores helenistas alemães propuseram que nosso Cristianismo, ao invés de ter sido revelado, nada teve ou tem de sobrenatural, correspondendo a uma evolução apresentada pelo Cristianismo alexandrino. E o quanto teríamos aqui seria um judaísmo helenizado ou helenizante forjado por Aristóbulos, Fílon e outros.
Noutras palavras, o Cristianismo não passaria de uma releitura, de uma reelaboração ou de uma alegorização do judaísmo.

Seria um judaísmo mais refinado ou um judaísmo mais profundo.

Mas sempre uma versão do judaísmo e uma facção ou corrente judaica.
E de fato se afirmamos que todos os mistérios do nosso Cristianismo se acham simbolicamente presentes na mikra, temos de nos perguntar se não é o Cristianismo a kabalah original e se contém o Cristianismo histórico algo de original ou relevante...
E ainda devemos indagar sobre que fica sendo Jesus Cristo, enfim sobre sua missão, sobre sua condição e seu significado.
Todo meu pensamento Teológico é niceno ou atanasiano, noutras palavras, rigorosamente encarnacionista. Busco criar um sistema articulado e orgânico ao destacar que cada artigo de fé parte deste mistério central e portanto um sistema que represente, por assim dizer, um salto ou mergulho na Cristologia profunda.
Confesso acreditar cumprir um desígnio ou uma missão: Recuperar ou resgatar a consciência cristã não apenas face aos recuos do papismo e do Anglicanismo, a vulnerabilidade da Ortodoxia oriental e a alienação protestante, mas sobretudo face ao islamismo. Minha própria concepção de Igreja, tomei-a de A Mohler, enquanto continuidade, progressão ou desdobramento do mistério da Encarnação.

Diante disso, me parece sumamente duvidosa, a existência de uma Revelação parcial ou de elementos da Revelação Cristã, anteriores à Encarnação do Verbo ou que dele não procedam. Já a ideia de uma Revelação integral, literal ou simbólica, do nosso Cristianismo, anterior ao mistério da Encarnação, me parece impensável e não posso crer nela.
Diante disso que ficaria sendo nosso Jesus, o Verbo encarnado?
Porta voz de Abraão, Moisés, Caleb, Finéias, Salomão, etc...

Me parece aberrante. Jesus um intérprete... Um comentarista... Alguém que se limita a fixar sentidos sem dizer nada de próprio ou de seu.

Me parece monstruoso. E não consigo nem posso ver Jesus assim, como o tipo de um exegeta que parte de livros.
Eu acredito que o Cristianismo, ao contrário do judaísmo e do islamismo, parte de uma pessoa viva ou de um homem Deus. Que é a auto comunicação de Deus. Que é algo de singular, de novo ou de diferente de tudo quanto existiu antes.
Julgo que Jesus Cristo não seja repetidor de qualquer coisa mas Mestre e Instrutor supremo - O qual falou com autoridade própria tudo quanto teria ouvido 'In sinu patris' i é o que diretamente trouxe dos céus.
Alias, me parece estranho que aqueles rudes personagens tenham enunciado os elevados mistérios do Cristianismo numa linguagem simbólica ou alegórica. Parece-me que nesse caso teriam sido mestres superiores aquele que teria ensinado, em tempo futuro, as mesmíssimas doutrinas, com expressões literais e palavras chãs.

Seria o judaísmo repositório de um Cristianismo enigmático e misterioso... Não o creio.
Nem acredito que os odres velhos da profecia pudessem conter o vinho novo da doutrina Cristã.
Creio que o Cristianismo procede do Cristo e que nosso Cristo imutável jamais orientou a moralidade baixa e vulgar da mikra. Entre a moralidade ou ética evangélica e a tanak vai abismo maior do que aquele existente entre os mortais e aqueles que se achavam no 'Seio de Abrão'
Nem posso crer que se omitiu o Verbo Jesus de corrigir, advertir e instruir os que supostamente acompanhava antes de se manifestar na carne. Mas não dou com tais correções divinas na Torá e sim com categóricas afirmações de que esse padrão vulgar de moralidade corresponde a vontade de Deus!
Quanto ao sentido das Sagradas Escrituras: 'Não me manifestei para abolir a Lei.' devo dizer que já foi dado e fixado pelos legítimos intérpretes, os padres da igreja, com brilhante claridade e que diz respeito a Lei divina e celestial do Decálogo ou dos dez mandamentos, os quais tendo sido gravados em tábuas de pedras foram colocados dentro da arca do pacto.

Não a Taurat. Não a mikra. E tampouco a totalidade do testamento antigo, como julgam as massas de iletrados ou semi analfabetos protestantes - Apenas ao Decálogo divino.
Por isso todas as outras partes da mikra ou tanak não foram apropriadamente abolidas, mas reconhecidas como não divinas. Isto pelo simples fato de não estarem vinculadas organicamente pessoa do Verbo encarnado Jesus Cristo fonte da vida.
Tanto que na parte mais nobre ou no coração mesmo do nosso Evangelho disse o Mestre: Ouviste o que dito foi (Porque os judeus atribuíam a Torá uma origem oral vinculada ais anjos.) aos ancestrais... EU PORÉM VOS DIGO.

Expressão com que pura e simplesmente pôs a luz tudo quanto era puramente humano ou natural no livro.
Jamais aboliu Jesus qualquer coisa procedente dos céus.
Só os protestantes cegos podem admitir que Jesus Cristo revogava ou alterava instituições divinas pelo simples fato de ser Deus Todo poderoso.

Posto que é Deus imutável e sem sombra de variação e sua vontade perpetuamente fixada no bem ou naquilo que é perfeito, jamais poderia ele alterar ou reformar sua própria lei. As coisas Santas e divinas são irreformáveis ou 'imexíveis' por definição. E se o protestantismo não reteve algo tão óbvio tal só serve para depor contra a capacidade cognitiva de seus afiliados. O protestantismo imagina sucessivas e infinitas reformas e assim destrói a fé... Até uma 'igreja' no antigo testamento imaginou... Mas nós postulamos uma revelação única, eterna, definitiva, fixa e imutável procedente da Encarnação do Verbo Jesus
Tais as minhas reflexões, as quais espero que te sejam úteis. Forte abraço fraternal.

Fragmento de uma resposta
De fato os apóstolos, bem orientados e guiados pela providência fizeram seleção e deram sentido a tudo quanto, no Antigo Testamento, pudesse ilustrar a Revelação comunicada pelo Verbo encarnado Jesus Cristo.
Selecionaram as partes mais nobres e excelentes e recebemos tais partes como divinas, mas não a totalidade do livro ou as partes que não estão diretamente relacionadas com o doador da vida Jesus Cristo. E temos acesso a elas guiados pelo Novo Testamento, nosso indicador e roteiro.

Tudo quanto era relevante e significativo no Testamento velho foi posto na Escritura do Novo Testamento, e cremos que esse trabalho foi suficiente, não incompleto.

Ademais o fato de que tenham, os homens base, extraído partes daquele registro não autoriza a quem quer que seja declarar que a totalidade daquele registro é divina.
Pelo contrário, caso toda mikra ou Tanak fosse divina, a providência teria orientado os apóstolos, não a selecionar trechos, mas a compor um comentário bíblico 'completo', como esses editados pelos protestantes, os quais vão da primeira página de Gênesis a última palavra de Malaquias, algo que sequer foi feito por qualquer padre antes de Beda, Alcuino e Ruperto, seguidos por Lira.
E só assim teríamos esse sentido total revelado pelos apóstolos bem orientados. Deixar esse encargo a homens falíveis até me parece irresponsabilidade.
De fato eu não vejo como a doutrina Cristã possa preceder seu veículo i é o evento da Encarnação de Cristo e isso me parece uma inversão ou subversão.
Acho complicado recorrer aos apóstolos e antigos padres com relação a doutrinas de inspiração posto que todos eles acatavam a doutrina da inspiração plenária, segundo a qual a tal bíblia como um todo era uma espécie de Enciclopédia dos escoteiros mirins, apta para tudo ensinar, até ciências e boas maneiras inclusive.
Felizmente hoje tal perspectiva subsiste apenas nas seitas de analfabetos como a bréia... Pois parte mais ou menos considerável dos Ortodoxos, romanos e anglicanos admitem a restrição ou o MNI e reconhecem que a tal bíblia seja um escrito meramente religioso ou espiritual, sem cominações naturais ou científicas, o que nos parece mais acertado.

E no entanto esta verdade incontestável era supinamente ignorada pelos apóstolos e padres. Porém quanto a esse ponto, toda Cristandade tradicional, deve ceder e separar-se deles. Assim evita-se a mentira e honorifica-se a verdade, o que é precipuamente Cristão. Já os fanáticos e fundamentalistas falsificam, mentem e buscam ocultar a realidade, o que nada tem de Cristão.
Da mesma maneira deve a Cristandade abandonar a opinião formal sobre a inspiração linear ou a crença num 'corão cristão' e conectar todas as coisas divinas ao Verbo Encarnado Jesus Cristo. 

Todas as tentativas inúteis para salvar o livro ou melhor a falsa opinião da 'bíblia unitária' acabam sempre, ainda que de maneira sutil, arranhando ou obscurecendo a autoridade do homem Deus Jesus Cristo, o único centro e fundamento de toda vida Cristã.

Amorosamente seu. Em Jesus Cristo


Fragmento da segunda resposta


A Igreja, esposa e serva, jamais foi inimiga ou adversária de Cristo. O protestantismo, dando prosseguimento as opiniões de Agostinho, entronizou o livro ou a tal 'bíblia una', no lugar do Homem Deus Jesus Cristo, e desde então a bibliolatria deu origem a esse imenso cipoal de seitas ou a essa Babel anti Cristã.

Lamentavelmente, a igreja antiga, apegada a ficção bíblica ou a ideia de um Corão cristão, jamais teve coragem suficiente para por o dedo no fundo da ferida ou ir a raiz do problema, gritando a plenos pulmões: Ao Evangelho ou ao Novo Testamento. E isso foi dramático, pois ela ficou travada e desarmada diante dessas seitazinhas exóticas...
Devemos no entanto restaurar todas as coisas, não num livro ou conforme o exame humano e falível, mas no Verbo Encarnado Jesus Cristo, do qual a igreja viva ou corpo místico, é extensão.
Para tanto convém situar o veículo ou critério externo da tradição apostólica ao lado do Evangelho Escrito, tomar o Evangelho escrito ou as palavras do Verbo Jesus como padrão de juízo para julgar os escritos do Novo Testamento e enfim, demolir sem contemplação a doutrina da inspiração linear, admitindo que, quanto aos registros judaicos, apenas as profecias e os tipos simbólicos de Jesus Cristo são divinos, porquanto vinculados a sua pessoa prestando-lhe vassalagem.

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