sábado, 2 de setembro de 2017

Nas 'Revoluções' de Crane Brinton

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Reflexões baseadas na leitura de 'Anatomia das Revoluções' - Opus Majus do profo Crane Brinton


"Toda Revolução carrega em si um herança jusnaturalista em torno do direito natural na medida em que crítica o que é ou a realidade, tendo em vista o que deveria ser ou o ideal." Luiz Recaséns Siches
Procede a análise já secular de Victor Brochard, segundo a qual, toda crítica a realidade sócio política vigente, supõem certa dose de especulação metafísica, a falta da qual o indivíduo tende a conformar-se com a realidade dada. 

Eis porque o Patriarca do ceticismo, Pirro de Elis - bem como seu continuador Timon de Fleiunte - era essencialmente conservador, chegando a fazer apologia dos costumes tradicionais, vivendo como todos e deixando-se levar pela moda como gado de rebanho... Para ele a neutralidade que conduzia a ataraxia equivalia a ausência de senso crítico, cujo exercício supunha sempre perturbação. 
Toda crítica a realidade parte de um ideal que não é empírico ou verificável, e que portanto, como a Ética, é metafísico.

Acerta em cheio Crane Brinton quando declara, mais adiante, que as Revoluções supõem sempre algo de abstrato. Assim os puritanos burgueses da Revolução Inglesa, apoiaram-se na Bíblia ou no deus Bíblico; os Revolucionários franceses no Deus da razão ou na natureza, os marxistas no materialismo economicista com suas forças produtivas incontroláveis e etapas evolutivas tanto predeterminadas quanto fatais. As Revoluções são certamente provocadas pelo agravamento de certos conflitos ou condições sociais, e, sem embargo disto alimentadas por algum tipo de ideal a falta do qual jamais chegam a ser. Em oposição uma realidade desagradável os revolucionários acenam sempre com uma proposta ideal a ser implantada. A falta desta proposta ideal com que contemplam as esperanças das massas, a Revolução não se concretiza

Logo há que se distinguir nelas um elemento material de crise a ser explorado e um elemento ideal de proposta, por muitos classificado como utópico.


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O supremo erro dos comunistas ou marxistas ortodoxos foi terem adotado - sem jamais o terem admitido é claro - a mesma ética tomada por Marx ao Católico Weitling - o fundador da Liga dos Justos - privado-a de seus alicerces e fundamentos metafísicos, como a ideia de um Supremo legislador e de uma lei natural (jusnaturalismo), e buscado associa-la ao ateísmo e ao materialismo, elementos ideológicos cultivados justamente pela parte mais aburguesada da Revolução Francesa.

É sempre bom lembrar que o patriarca dos radicais (Socialistas) da grande Revolução - François Noel Babeuff - não era ateu (Escreveu pouco antes de morrer a "Nova História de Jesus Cristo) como não o era Robespierre, pelo simples fato de ter oficializado o culto ao Supremo Ser e Legislador natural, sempre associado a suas reformas de caráter justicionista. Donde se infere que a fase posterior e socialista da Revolução Francesa - em parte a primeira Revolução socialista de que se tem notícia no mundo moderno - jamais esteve assentada sobre princípios ateísticos ou materialistas, assumidos via de regra pelos liberais economicistas.
Sempre atenta e arguta a contra crítica liberal não tardou a perceber a incoerência suprema do 'comunismo' e do 'social anarquismo' e partindo do velho positivismo, apresentou a parte positiva do marxismo como de fato era, i é, como um ideal ético, e portanto como algo NÃO científico ou mesmo anti científico; melhor dizendo, como resíduo de uma religiosidade ultrapassada e algo que todos os ateus e materialistas deviam rejeitar por uma questão de coerência. Afinal era de supor que os materialistas, mantendo-se nos limites do empirismo crasso, evitassem toda e qualquer forma de crítica social, enquanto algo situado muito além das fronteiras da materialidade pura.

Assim ao mesmo tempo em que denunciava os crimes perpetrados por aquela burguesia ateia, materialista ou hipócrita e propunha-se a ataca-la eliminando seus privilégios, o marxismo, ideologicamente falando, fornecia-lhe as armas e munições com que a mesma burguesia haveria de ataca-lo e defender-se. Afinal apenas o Capitalismo, enquanto estrutura e ordem social oposta ao feudalismo, converteu-se em algo dado ou real. O socialismo (naturalista) não, assumindo antes de tudo a forma de uma crítica teórica. Agora quais os pressupostos desta crítica??? O máximo que se poderia dizer aqui é que o modelo capitalista era inviável devendo ser substituído por qualquer outra coisa. Quando ao determinar porque e como o capitalismo deveria ser suplantado, é evidente que foge por completo aos domínios da materialidade pura, embrenhando-se pelos meandros sinuosos da boa e velha metafísica!!! Por via material ou empírica dificilmente impõem-se a solução socialista - O SOCIALISMO É E SEMPRE SERÁ UM IDEAL DE ÉTICA PAUTADO NO SENTIDO DA JUSTIÇA! - menos ainda a comunista.
Weber não errou quando disse que a Sociologia, enquanto ciência, limita-se a descrever a realidade tal qual é, sem cogitar no que deva vir a ser ou no ideal. A normatividade fica certamente por conta do Homem, e bem pode ser atribuída a outra forma de conhecimento não menos válido e respeitável do que ela, assim a Ética. Não é enquanto estudiosos de Sociologia que somos socialistas, mas enquanto pensadores, humanistas e seguidores de Sócrates, Platão, etc 

Não acalentemos ilusões, o Socialismo esta inserido na Sociologia enquanto proposta social. No entanto seus fundamentos não são materiais mas ideais e Éticos. O sociólogo será sempre bom sociólogo - E Weber o maior - mesmo enquanto se limite a descrever a realidade social em que vive. Será no entanto um bom Homem ou um homem??? Eis a questão a ser posta em seus termos! O positivista metodológico limita-se a corroborar a afirmação feita por Weber, bem podendo solidarizar-se como o Socialismo e apoia-lo enquanto homem. Já o positivista metafísico jamais. A exemplo de Pirro ele abdicará de toda crítica social e condena-la-a veementemente na mesma medida em que foge ao empirismo puro e a materialidade absoluta, fortalecendo os setores conservadores da sociedade e a situação de vigente de injustiça. Sua neutralidade não passa de mero disfarce com que busca ocultar sua simpatia e servilismo face as forças desumanas e cruéis do capital. No entanto uma coisa é certa, este homem finca pé no materialismo e no ateísmo idolatrados pelo marxismo ortodoxo levando-os as últimas consequência e sem temperinhos socráticos ou Cristãos. Afinal justiça é conceito abstrato que não se ouve, vê, toca, pesa, mede, etc
O Marxismo até hoje, a falta do conceito de um Deus ou Supremo Legislador, ainda não conseguiu justificar 'material', empírica ou cientificamente seu ideal de vir a ser e sua proposta futuresca.. A realidade material ou empírica como disse Weber, conhece apenas o que é, mantendo-se sempre neutra, apática e acrítica dentro de sua esfera. Quer saber como a Sociedade funciona e não analisar ou eliminar os sofrimentos humanos. Definitivamente a Sociologia não pretende afetar a medicina ou assumir-se como uma espécie de medicina social. Toda normatividade é Ética, ideal e especulativa pressupondo certos fundamentos necessários e absolutamente necessários, sem os quais vem abaixo... Tais fundamentos no entanto, o positivismo não assume. Assumiu-os o marxismo, mas separou-os de seus fundamentos ontológicos e colocou-os no ar... Como falar em justiça natural, lei ou ética sem cogitar num Sumo Legislador??? E como negar a existência deste sumo legislador sem cair no relativismo/subjetivismo (ou culturalismo) ético dando por justificada a versão ou a melhor a negação da justiça vigente no modelo capitalista??? Meu sistema minhas regras, bradará o capitalista face a qualquer apelo a uma noção essencial de justiça.

Tal a História do Marxismo, um eterno vir abaixo, apesar de sua proposta redentora... Bem, um homem não pode caminhar sem pernas... É o marxismo coxo, e isto é uma tragédia na mesma medida em que os Cristãos são hipócritas e os Católicos traidores!

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De Bonald e De Maistre apresentaram as revoluções como pecados...

Donoso Cortês, o supremo parvo, apresentou-as como diabólicas.

O Pe Delassus e Pierre Graxotte como conspirações maçônicas.

Giovanni Gentili como algo tão necessário e dinâmico quanto a própria vida.


Bakhunin, Tchernychveski e Lênin como o ideal supremo da existência humana. 
Quem dentre eles estará com a razão?
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Sinto que de minha parte estou bem mais próximo de um Nicholas Berdiaeff segundo o qual enquanto desenrolar necessário e fatal de uma enfermidade - aqui social - não devam elas, as revoluções, serem reprimidas ou execradas e tampouco aplaudidas mas aceitas como uma espécie de punição ou purgação pelos pecados da sociedade. (Pecados sociais evidentemente, como o egoísmo, a injustiça, etc)

Não é claro no sentido mágico e fetichista de que sejam causadas diretamente pela divindade, mas no sentido natural i é enquanto consequências necessárias dos atos humanos numa perspectiva social ou melhor dizendo como uma espécie de dinâmica ou Lei social. 
As crises são as enfermidades e a Revolução a quase morte (a melhor expressão aqui seria coma!) de um dado modelo social que não faz mais sentido ou funciona. Tal e qual o corpo físico o corpo social também entra em colapso, perde a consciência e se abre em feridas ou chagas; ao menos por algum tempo. Não as revoluções não resumem a vida - a vida é mais do que ruptura dramática e brusca - mas fazem parte dela. Na medida em que cessada a febre revolucionária, as feridas se fecham, a consciência é retomada, a febre cessa; e aquele corpo se recupera por completo, restando apenas algumas cicatrizes mais ou menos profundas. É a restauração! Jamais segundo o modelo antigo, pois a Revolução sempre trás alguns elementos novos. De qualquer forma o ideal dos próprios radicais que administraram as Revoluções é, mais cedo ou mais tarde, abandonado. Pois o pecado das revoluções ou sua limitação é não produzir uma cultura em termos de idealidade. 
De modo geral a vida só se compreende em termos de evolução, progresso ou escalada, inda que não seja linearmente, uma vez que as crises e revoluções antepõem-se, ver por outra, ao curso da Evolução e da produção de cultura. As revoluções, como já dissemos, trazem ao menos alguns elementos novos, os quais caso venham a ser socialmente repensados e trabalhados poderão entrar na dinâmica da cultura e favorecer a Evolução. Algumas revoluções no entanto poderão levar uma determinada sociedade não apenas a estagnar mas mesmo a recuar em termos de civilização; assim as revoluções de Matriz religioso ou fundamentalista, as quais apenas muito remotamente e num contexto mais geral - de humanidade - podem vir a acrescentar algo. O protótipo dessas revoluções discutíveis e problemáticas é a Reforma protestante no Ocidente com todas as suas consequências, em grande parte negativas. Podemos ainda pensar na Revolução Iraniana... e nas tais primaveras árabes ou sunitas/salafitas. 
No entanto por si mesmas - isoladamente - enquanto ruptura brusca e mais ou menos inconsciente, incompreensão da cultura e adiantar da História, as ditas Revoluções nada criam de fantástico ou resolvem. Ficando a propaganda ou as propostas muito aquém dos resultados concretos. Daí a necessidade de antes de inicia-las considerar os custos benefícios em termos de sangue e vidas ou mesmo de puro e simples patrimônio histórico/cultural. Afastemos daqui todo sentido místico e admitamos que Revoluções não são eventos mágicos ou soluções infalíveis. Acontecerão sem dúvida alguma, mas não devemos nos entusiasmar com todas elas ou com qualquer uma delas. 

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As revoluções sedições, agressivas e sangrentas por definição, que não dialogam com a cultura ou produzem cultura, não podem ser, como tantos e tantos imaginam as molas ou alavancas que movem o mundo.
Apenas as revoluções que esgotam o pleno sentido da palavra (Para os materialistas talvez não pleno justamente por faltar o conteúdo violento) ou seja aquelas que envolvem a produção, mudança e dinâmica da cultura ideal - princípios, crenças e valores - constroem algo de efetivamente sólido e duradouro.
As demais, as que podem ser definidas antes de tudo como efusões de violência, passado algum tempo tornam atrás ou revertem, dando lugar a restauração. Assim a Inglesa de 1644 teve de compor-se em parte com a velha estrutura monárquica que pretendia aniquilar e produzir algo como o parlamentarismo. Assim a Francesa sob Napoleão, o 'imperador' sic rsrsrsrsrs. Assim a Russa já com Stalin (cf Trotzky 'A Revolução traida') e especialmente após 1990. Assim a Mexicana e a Chinesa... Uma após a outra, passado o período febril, apostataram de seus ideais progressistas pelo simples fato de terem cogitado adiantar-se a História e de não terem compreendido o significado da produção de cultura por meio da formação de consciência ou da educação.
Até mesmo simples reformas empreendidas por determinada plataforma política num contesto social democrata ou institucional, correm o sério risco de serem desfeitas, na medida em que a dita plataforma se esquece de formar as consciências ou de educar as futuras gerações, tornando-se em tais casos vulnerável a uma revanche liberal. Foi justamente o que aconteceu durante o período Lula e Dilma no Brasil. As reformas jamais tocaram os setores da sociedade responsáveis pela produção da consciência - assim a mídia, a estrutura política... - daí o subsequente revertério. Meras reformas estruturais em termos socialistas não equivalem a produção de uma cultura socialista ou humanista. 
Elas, as Revoluções - ao menos parte delas - satisfizeram uma demanda pela justiça e contribuíram com elementos importantes, mas realizaram todas muito menos do que prometeram. Claro que me refiro as revoluções mais recentes e posteriores a Revolução francesa i é as Revoluções socialistas, especialmente a cubana. A Venezuela acima de tudo, cabe o mérito de ter empregado mecanismos essencialmente democráticos - como plebiscitos e referendos - em sua Revolução bolivariana, mostrando sem dúvida uma melhor compreensão da realidade político social e da cultura. 











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Até concordo que em certas situações de injustiça - como a ditadura, o totalitarismo ou mesmo a miséria - as Sedições façam jus ao apoio de todos os cidadãos, merecendo total adesão. Cada Revolução dever ser analisada com toda prudência e cautela tendo em vista os princípios norteadores da liberdade e da justiça, bem como o entusiasmo ou comprometimento do povo, e também os riscos que envolvem a reação (Custo benefício), sabendo-se antes de tudo que Revolução alguma é fácil e que não se faz Revolução com rosas. 
No entanto não devemos nem esperar nem imaginar que elas consigam - por si sós - solucionar todos os problemas a que se propõem. Por um tempo a panela de pressão deve lançar vapor fora, até estabilizar-se, e cessar de lançar vapor... De modo que ao iniciar a Revolução ou mesmo antes temos de refletir sim sobre o que virá depois ou sobre a pós Revolução e sempre na direção da auto gestão ou da democracia direta/popular, uma vez que a própria dinâmica interna e combativa da Revolução parece favorecer soluções totalitárias ou ditatoriais. A questão do papel das lideranças ou do controle interno da Revolução é um tema crucial na perspectiva democrática, a qual, ao menos a posteriori, tende, e com toda razão, a desconfiar de lideres ou chefes. É exatamente aqui que a própria ideia de Revolução torna-se problemática, envolvendo sempre o nível de participação popular e de consciência democrática na medida em que queremos que o próprio povo seja agente da História, jamais súdito ou vassalo, e em que desconfiamos de qualquer redenção dada ou oferecida de bandeja por líderes, elites ou quadros.

Caso fique evidenciado que todas as Revoluções populares exijam, a posteriori, a submissão a um ditador ou mesmo a uma 'Elite educadora', inda que provisoriamente e tendo em vista a já apontada produção de cultura democrático social, temos de discutir e refletir com ainda mais cuidado e prudência sobre a viabilidade das mesmas. É problema que se coloca desde os tempos de Platão e a respeito do qual comunistas e fascistas tem escrito oceanos de papel. Teremos a posteriori de suportar o domínio, inda que provisório, duma aristocracia 'educadora'??? Teremos de acatar, ao menos por algum tempo, ditaduras de Filósofos, Sociólogos/políticos ou proletários??? De minha parte, tendo a negativa... No entanto é algo que deve ser considerado e discutido exaustivamente. Se é para ter Revolução que seja verdadeiramente popular, que envolva o povo e busque soluções policráticas ou populares, não totalitárias ou ditatoriais. 
As Revoluções acontecerão, algumas merecerão apoio ativo, ainda que crítico, mas não mudarão magicamente a sociedade. O caminho sempre será difícil ou precário. 

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