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sexta-feira, 2 de agosto de 2019

As empregadas na literatura clássica.

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Há no mínimo duas Nastasyas na obras de Mestre Dosto.

Uma casa-se com Mishkin e leva já sobrenome: Pilippovna. A outra, de 'Crime e castigo' não passa de uma criada sem sobrenome, a que chamam simplesmente Nastasya.

Ao contrário da primeira a segunda não é personagem de primeiro escalão nas crônicas de Rodion, mas personagem de segundo plano, o que não é suficiente para tirar-lhe o encanto, ao menos quando serve chá ao atribulado hóspede esfaimado...

Esta Nastasya como tantas Marias ou Creuzas espalhadas pelo Brasil e mesmo pelo mundo, não tem sobrenome, talvez por pertencer a grande massa dos que servem e produzem. Os marxistas costumam classificar tais pessoas como Lupem e as elites a trata-las com desprezo e até mesmo negar-lhes os mais elementares direitos, e há pouco vociferaram quando o Estado brasileiro concedeu-lhes um amparo bastante sumário.

Apesar de estar a margem da obra clássica, Nastasya não deixa de ser interessante, já por ser pintada por Dostoevsky com a acuidade psicológica que lhe é própria ou singular. E a partir do que narra muito resta a imaginar-se. O mestre russo é tão fascinante que narra ou fala justamente quando omite ou silencia. É consumado em sua arte...

E ficamos nós a perguntar-se sobre um possível amor platônico cultivado pela serviçal. Cujo objeto seria o conturbado Rodion...

Amaria Nastasya e por isso apagar-se-ia face a um amor problemático ou impossível? Permanecendo sempre ali como fiel escudeira ou anjo tutelar? A exemplo das esposas de Carlyle, de Lord Beaconsfield ou da fiel Carolina, esposa de mestre Machado???

Intuo uma certa devoção por parte de Nastasya face ao rebento de Pulchéria Românovicht, associada a diversas virtudes como a compaixão, a discrição, a praticidade... enfim tudo quanto aponta para uma sabedoria divina. No entanto com ela ficamos no 'umbral' e 'Crime e castigo' não é obra que se concentre na vida da apagada serviçal...

Passemos assim a outro clássico calhamaço onde topamos com outras tantas empregadas ou serviçais, assim o 'Vento levou' de M Mitchell (1936) obra focada na figura de Scarlett O'hara e que dispensa maiores atenções. Tá certo, temos também Rhett Butler, Ashley, Melanie, etc Scarlett todavia, como Rodion e Maria Rafferty, ocupa o âmago da trama, constituindo o personagem central. E é uma 'filhinha de papai', granfina ou patricinha, como diríamos hoje... Uma garotinha extremamente mimada pelo pai, fazendeiro de ascendência irlandesa.

As empregadas ou serviçais pertencem a este círculo, pois são, por assim dizer 'amas' de Scarlett. Prissy é a mais jovem e caricata, ao menos no Filme. Doutra lavra é a Mammy, a qual, superando Nastasya consegue em certos momentos da narrativa ameaçar a primazia de Scarlett. No filme a 'rivalidade' acirrou-se ainda mais e podemos dizer que a personagem encarnada por Hattie McDaniel faz jus ao Oscar que ganhou. Mammy encanta e seduz porque representa um tipo que segundo o insuspeito Silvio Romero, aqui e lá, soube vencer as adversidades e conquistar espaço a mercê dos dotes do coração, assim a 'mãe negra', entre nós representada na literatura pela igualmente marcante Mamãe Zabel, quiçá calcada na Mammy de Mitchell, mas muito bem aclimatada a nosso Brasil.

Apesar de toda esta riqueza, como dissemos, Mammy não é a personagem central da narrativa e tampouco uma obra consagrada a figura de uma empregada doméstica. E temos de esperar mais um pouco - seis anos - para apreciar o surgimento de semelhante joia, obra prima da Sra Davenport (Marcia). Aqui temos por personagem central - ou se alguém o desejar por heroína - não apenas uma empregada (O que ao tempo era já um desafio) mas uma irlandesa e católica. A antítese dos White Men's. A inversão do padrão socialmente aceito: Macho, inglês e protestante além é claro de rico...
Maria Rafferty não é nada disto, é mulher, quase menina, e mais tudo quanto dissemos, o que em Pittsburgh torna-a sumamente indesejável.

No entanto ao contrário da pragmática e estouvada Scarlett, Maria Rafferty esta bem mais próxima da mãe daquela personagem, isto tendo em vista os sólidos princípios, já Éticos, já morais, os quais cristalizavam a virtude ao tempo. Maria Raffery personifica-os e com o coração transbordante de doçura conquista a todos, inclusive ao Patriarca calvinista Scott, o qual, numa cena magnífica, triunfa de seus preconceitos e diz a Paulo, seu filho querido: Casarás tu com Maria Rafferty!

Maria Rafferty nos faz pensar na parábola do bom samaritano. Pois eram os samaritanos tão detestados pelos hebreus do tempo de Jesus quanto os irlandeses do século XIX, desprezados pelos ingleses e seus descendentes norte americanos. Maria Rafferty aqui personifica a 'boa samaritana' pois é justamente ela quem irá assistir e aliviar os derradeiros instantes da igualmente bondosa sra Scott, Clarice...

Alias, retornando a cena anterior, em que o Patriarca Scott, opta por afrontar todos os tabus e preconceitos impostos por aquela sociedade em nome da felicidade do filho, temos, já o disse, outra cena memorável e pintada com habilidade. Por meio desta cena nos dá a sra Davenport uma aula ou lição de humanismo querendo dizer que os homens sabem ser superiores a suas crenças e ideologias. Guilherme Scott é  um calvinista devoto e como tal costuma guiar-se pelos costumes, não pelos sentimentos, os quais deveriam ser imolados tendo em vista a dignidade da família. O que nos conduz a toda uma vida de convenções ou de aparências, nas qual a moral social esmaga o sentimento e o espírito. Maria Rafferty no entanto faz com que naquele coração de pedra dura passe a bater um coração de carne, cheio de amor e doçura, e posto para o objeto digno: A Felicidade do filho, pela qual ele opta face as ditas convenções, revelando-se como uma pai na plena acepção da palavra, um pai digno deste nome.

No mais as observações em termos de religiosidade - naquele recorte N Americano - não destoam, pelo contrário aproximam-se bastante as que encontramos em diversas obras: 'O fim do mundo' e 'Pamela e Satã' de Beal Sinclair, o já citado 'E o vento levou', 'Anthony Adverse'... que é o contraste entre a severidade - não poucas vezes forçada e aparente - ou a total incredulidade vigente entre os protestantes (Particularmente entre os calvinistas com seu moralismo afetado) e a sensibilidade, doçura, sinceridade, piedade e equilíbrio dos Católicos... Em todas estas obras damos com referências positivas ou elogiosas a fé Católica e com personagens marcantes oriundos deste credo então distorcido e marginalizado pela crítica protestante. Digam o que disserem é este aspecto sobremodo interessante já a Psicologia já a Sociologia religiosa.

O foco no entanto é este: No 'Vale da decisão' temos, quiçá pela primeira vez uma empregada fazendo o papel de personagem principal de uma trama, o que por si só aponta para o avanço dos costumes, em torno da mulher, do fanatismo religioso, do preconceito racial/cultural, do trabalho, etc Sob todos estes aspectos e muitos outros é a obra da sra Davenport recomendável. E não se assustem com a dimensão: Pouco mais de setecentas páginas, apesar dos erros do tradutor (As atuais edições de 'Crime e castigo' sofrem do mesmo mal), mas de um conteúdo delicioso, propício a ser 'devorado'.

Ademais Mobby Dick, Imãos Karamazov, Crime e castigo, E o vento levou, Anthony Adverse, Poço de solidão, como O vale da decisão e Mobby Dick não apenas merecem ser lidos, é um pecado imperdoável não le-los. Vençam a primeira impressão e obterão a devida recompensa.

Profo Domingos Pardal Braz, de Santos - SP


segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Conhecendo o outro lado de Juan Valera II - Um liberalismo salutar



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Já abordei exaustivamente o tema dos liberalismoS, cujo S maiúsculo vem a calhar. Assim como jamais houve uma Cruzada, uma Renascença ou uma Revolução Francesa mas diversas CruzadaS, RenascençaS e RevoluçõeS francesaS, tampouco existe algo como LIBERALISMO em singular... E se os autores ingleses insistem doentiamente a respeito de tal espantalho é porque aspiram levar o capitalismo no reboque da democracia ou melhor do liberalismo político e do liberalismo moral/pessoal. E, sem embargo, não há conexão ontológica entre eles!

Como não há conexão ontológica entre aborto e socialismo... em que pese os asnos abortistas... Alias não sou contra a sociedade discutir a discriminalização do aborto em certas situações sociais, como a extrema ou pobreza ou miséria. Questiono apenas o Dogma da liberalização geral, em termos de direito atribuído a mulher e sem relação com as circunstâncias externas. Abortar não constitui direito algum quando os interessados podiam ter evitado a concepção... assim no caso das pessoas instruídas e economicamente bem constituídas.

Mas vamos ao liberal Juan Valera, a respeito do qual ignoro supinamente se assumiu ou não o liberalismo econômico. Pelo simples fato de não ter podido ler todas as suas obras. Valera no entanto apresenta-se como liberal por ter assumido, na Espanha desencontrada do século XIX, o liberalismo religioso. Leia-se liberalismo e não relativismo e menos ainda ceticismo, pois este Valera não cessa de apresentar-se como Católico, em que pesem suas críticas, sempre lúcidas e ponderadas, a respeito de como os iletrados, os fanáticos e as massas pensavam o Catolicismo...

Valera tem qualidade Católica. Por não confundir os mistérios centrais da Religião com bentinhos, medalhas, milagres, aparições, canonizações, tremeliques, etc ou seja, face a toda esta craca ou ganga que onera o Catolicismo seja o romano ou mesmo o Ortodoxo, e que tanto agrada os ignorantes.

Em política não me parece que tenha sido liberal, por ter sido embaixador dos reis, e suponho eu, menos ainda em economia.

É curioso que ainda hoje prolifere este tipo de mau Católico, ignorante ou malicioso, que fazendo guerra aos liberalismos político e pessoal/religioso - e consequentemente sustentando o totalitarismo - bem como a forma democrática, 'pegue leve' face ao liberalismo econômico, primogênito do protestantismo...

Católicos há querendo que a sacrossanta religião assuma o filho que não é dela, e que batize e crisme o bastardinho da reforma, digo o Capitalismo ou liberalismo econômico. Não odeiam apenas ao judeu/alemão barbudo com sua ditadura do proletariado - pois também eles acalentam a ditadura ou a tirania na alma! - mas também ao imortal autor da 'Ética protestante e o espírito do Capitalismo'... pois aspiram demonstrar que mamonolatria ou a idolatria do capital teve berço Católico... Pobre para Leão XIII...

O que eles não sabem ou mal sabem é que Aquino, ao tomar Aristóteles por mestre e guia, desbancou Agostinho há quase oitocentos anos. Agostinho, na Civitas Dei (Que não deixa de ser uma obra memorável - por ter primeiramente aplicado o conceito de Humanidade ou de Humanitas a síntese História) foi quem baralhou ou confundiu as duas esferas - Deus e César - perfeitamente separadas pelo Verbo divino, além de promover o regime monárquico (Vezo de que Aquino não se desprende). Além disto o Bispo de Hipona apresenta a vida política segundo sua visão maniqueísta ou fetichista, como uma espécie de castigo pós pecado.

Para Aristóteles a vida política possui um fim em si mesmo ou seja é autárquica.

Aquino fez opção de seguir Aristóteles. Quanto a igreja romana - e o autor destas linhas, que admira Aquino, não é romano, mas Católico Ortodoxo - foi canonizado e sua teologia apadrinhada pelo Papa Leão XIII. Para nós é um pensador vigoroso e teólogo respeitável.

Aquino formulou a tese dos fins estanques mas articulados. Assim o fim da Igreja ou da piedade é encaminhar-nos a felicidade eterna. Já o fim da Sociedade civil ou política é promover a felicidade humana em termos de natureza.

As consequências aqui são estrondosas: Embora enquanto princípio o poder proceda de Deus, seu objeto primário ou imediato é o povo. E temos já aqui a teoria do poder popular. Muito bem estabelecida por Aquino. No entanto Aquino respeita em demasia a Agostinho e lhe paga tributo - bem como a seu tempo - incensando a monarquia. Pois segundo crê Aquino, o povo não tarda a alienar seu poder, transmitindo-o ao governante.

Em que pese este 'senão' por parte de Aquino ele não deixa - em contraposição a diversos autores de 'Espelhos' dos séculos XVI e XVII - de reconhecer que o povo tem o direito de fiscalizar e de impugnar o exercício do poder. Justificando plenamente a rebelião caso o príncipe ou soberano anteponha quaisquer interesses particulares ou privados ao 'Bem comum'. Permanecendo, ainda aqui, fiel a Aristóteles e a seu critério, por nos exposto num artigo precedente.

Já dissemos que tais princípios não foram apenas reproduzidos mas ampliados pelos neo escolásticos de Salamanca até chegarmos ao liberalismo político/pessoal pleno, aos Direitos humanos e ao Constitucionalismo. Alias antes que os ingleses impusessem sua Magna Carta ao rei João sem terra, já as cortes espanholas haviam imposto uma carta a seu rei. Basta lembrar que durante o Reino Visigótico foi a Espanha governada pelos Sínodos de Toledo, os quais na prática funcionaram como cortes e limitaram o poder do rei. Este sistema foi amplamente exposto por S Isidoro de Sevilha e a par dele florescia o sistema municipalista implantado pelos romanos.

Mas não se havia chegado a qualquer teoria democrática. As cidades Suíças, que adotaram as formas democráticas no decurso dos séculos XIV e XV, jamais conheceram uma teoria democrática.

Quanto a simples forma democrática, Waley (1969) nos informa que a primeira cidade Italiana a adota-la foi Pisa no ano de 1085. Milão assume a dita forma em 1097, Arezzo em 1098, Luca, Bolonha e Siena cerca de 1125. Alastrando-se esta forma 'republicana' como era chamada então por toda Toscana e Lombardia. Curiosamente não temos notícia de que o Papa romano, os bispos ou sínodos a tenham impugnada como herética ou anti Cristã.... Como querem os adeptos do direito divino ou os integralistas.

As populações eram Católicas, as cidades possuíam Bispos, clérigos, monges, teólogos, etc e ninguém deu com a heresia democrática. O quanto temos a dizer é que no século XIII, que corresponde ao apogeu da Civilização Italiana ou mesmo europeia, temos, por parte de diversos autores, todos Católicos, decidida defesa da forma democrática. Assim Ptolomeu de Luca, responsável por completar o 'Governo dos príncipes' de Aquino, Dominicano e Bispo de Torcello além de confessor do papa romano João XXII. Ora este homem religioso identifica a forma monárquica como tirânica e aplica o termo Político apenas a forma democrática, declarando que o sistema eletivo sempre deve contar com a preferência das pessoas.

Seu ponto de vista foi aprovado e desenvolvido por: Brunetto Latini, Dante, Alberto Mussato, Dino Compagni, Bonvesin della Riva, Marsiglio de Padua, Coluccio Salutati, Leonardo Bruni, P P Vergerio, Poggio Bracciolini, Alberti, Manetti, Matteo Palmieri, Landino, Platina... Temos aqui clérigos franciscanos, secretários papais, etc Temos assim que os primeiros teóricos ou advogados do sistema democrático foram Católicos. Ponto e basta... E as repúblicas democráticas floresceram ali aos pés de Roma e do Vaticano. A menos que Roma fosse completamente cega não teria deixado de condenar semelhante praxis, caso fosse anti Cristã.

Roma não se manifestou. Admitindo a tese tomada ao própria Aquino e aos neo escolásticos: Não cabe a Igreja, de modo algum, julgar as formas ou estruturas políticas... Pois esta função pertence a ciência política. A Igreja cabe julgar os atos do governante tomando por base a Lei natural ou os direitos essenciais da pessoa humana. Destarte seu juízo é ético e válido apenas, em princípio, para o povo de Jesus Cristo Senhor Nosso. Juízos puramente políticos a Igreja não elabora porque não lhe cabem. É o que se deduz da doutrina de Aquino, como fizeram os neo escolásticos.

Destarte quem quiser condenar a divisão, seja honesto, torne a Agostinho e condene não a Aristóteles apenas, mas a Aquino, como corruptor e a seus continuadores como corruptos. Por outro lado, admitidos os princípios admitidos por Aquino, não é possível fugir as deduções lógicas feitas por seus continuadores. Escolasticamente...

Juan Valera podia ignorar quase tudo isto. Não presumo que o soube-se ou que o ignora-se... Limito-me a declarar que conhecia muito bem as origens dos direitos humanos e da liberdade religiosa, vinculando-os a Vitória e a sua escola; e endossando-os numa época em que o sinistro Donoso Cortes tipificava a Ortodoxia... Quando penso Donoso Cortes com seu confusionismo integrista não posso deixar de ter em mente a crítica magistral elaborada por Valera.

E para tanto desejo reproduzir algumas parcas passagens suas. As quais vem a calhar nestes tumultuosos dias em que a infidelidade dos Católicos assoma aos céus:

"Meu antagonista deseja estabelecer que Catolicismo, Liberalismo e Socialismo correspondem a três escolas totalmente opostas e inimigas umas das outras e supõem que não é possível ser liberal sem ser cético ou ser socialista sem se ateu e o que é pior ser Católico sem ser servil..."


"Assim seria como se disséssemos que a escola liberal, inspiram-lhe vivo horror tanto a postura dogmática de Donoso ou Torquemada quanto a negação ousada de Proudhon ou Babeuf - A escola liberal por ter pingo de juízo causam-lhe horror os extremos do Dogma e do Anti dogma, ambos inconsistentes... pobre dela caso de ao porto 'Católico' de S Antonio em Sevilha, com o saque feito em nome de Deus e do rei aos gritos de 'Morte a nação - Viva a Inquisição e aos grilhões!' ou aos escolhos socialistas dos incêndios de Valladolid e Palência. 'A escola liberal só domina quando a civilização desfalece' diz ele, e por isso domina a Inglaterra, a França e a Bélgica... Por isso espero que jamais chegue o dia das negações radicais ou das afirmações soberanas ou seja a festa de Torquemada ou Robespierre, a apoteose de S Bartolomeu ou do terror, a exaltação dos autos de fé ou da guilhotina, dos assassinatos de judeus, indígenas ou frades. Para que tais dias jamais venha a brilhar, a escola liberal, busca distinguir todas as noções POR MEIO DA DISCUSSÃO... E PROPAGA A DOUTRINA FILOŚOFICA QUE NOS ACONSELHA A EXAMINAR DETIDAMENTE ANTES DE CRER NO MARQUÊS DE VALDEGAMAS OU NO CIDADÃO AIGUALS DE IZCO."


"Escrevendo, falando, pensando e até sonhando pode errar o ser humano. O que não queremos de modo algum é que o amarrem, que lhe cortem a lingua, que o façam mudo, que o deixem manco, que o amordacem para que jamais venha a errar... queremos a liberdade de pensar, a liberdade de andar, como queremos a liberdade de viver. Vivendo se erra pois é a vida exposição ao erro, nem por isso aspiramos que se assassine a alguém com o objetivo de evitar que erre."


"Não pode assim esta nossa terra não poderá erguer muralha que impeça a corrente do espírito humano de penetra-la. Todo bem e todo mal que esta corrente trás consigo forçosamente penetrará nossa sociedade, e temos que lançar nossos espíritos nela. Se por receio de nela cair nos retirarmos, esta corrente nos arrastará e nos levará para onde quiser. Caso tenhamos a ousadia de entrar nela, poderemos contribuir para imprimir-lhe uma nova direção, uma direção sã. Assim tomaremos parte numa grande obra, e estaremos situados entre os povos que vão a frente da Civilização. Nós que levamos a fé de nossos pais e a civilização a um Novo Mundo. Nós que tanto contribuímos para o zênite da Civilização, em que pesem as negações dos contrários, não iremos nos converter em fósseis ou em múmias, não iremos nos emparedar ou enfiar a cabeça no chão e nos separar de todo comércio humano e espiritual por receio de que nos seduzam, de que nos enganem, de que nos iludam, de que burlem de nossa inocência. Isto seria uma loucura digna apenas dos paraguaios do doutor Francia."


"Apresentas tu o Estado como uma casa, onde o bom governo faz as vezes de pai de família ou de tutor e o povo de filho ou menino e na qual o governo vela para que o pobre menino jamais fique enfermo ou jamais caia, guiando-o, tomando-o pela mão, afastando de seus lábios qualquer alimento nocivo ou lançando-o entre as grades do chiqueirinho; e ali, preso, eternamente, ficará seguro e jamais se lastimará. Ora este povo jamais crescerá..."


"Boa unidade Católica fechada essa que a Espanha fantasia. Uma Unidade Católica em luta aberta contra a informação e a liberdade opõem-se a dignidade humana e a vontade divina, a qual deseja que a ela nos submetamos não por receio dos poderes terrenos mas por amor. Não apenas quanto ao exterior, a aparência e a forma mas no mais profundo do ser... Por isso não vejo a de extinguir a ciência humana, de fechar a porta ao progresso ou de impedir que se pense e se discuta para que se creia. ANTES ME PARECE MELHOR E MAIS EXCELENTE QUE CREIAMOS MAIS FIRME E PIAMENTE TANTO MAIS PENSEMOS, SAIBAMOS E DISCUTAMOS."

"Assim se a Rebelião de Proudhon vomita blasfêmias contra Deus, a reação encetada por Donoso Cortês vomita outras tantas blasfêmias contra a humanidade e contra os dons naturais que o Senhor Deus chamou a existência. Era dignos um do outro... Proudhon arrenegava Deus e lhe declarava guerra porque não lhe revelava o segredo de fazer os homens felizes. Donoso cortês arrenegava a humanidade inteira porque não admitia a soberania de sua inteligência ou a perícia de suas opiniões. Negava aos demais o apanágio da inteligência porque não o tomavam por árbitro infalível e para que suas opiniões ficassem sendo invulneráveis cuidava de mistura-las ímpia e criminosamente com a sã doutrina da Igreja
." Assim todos os integralistas, jutamos nós...

E para encerrar este artigo selecionamos esta joia literária:






"Apesar das limitações que inquinam minhas obras, quisera por meio delas obter uma fama póstuma; quisera deixar algo que me sobrevivesse. Bem sei que não serei muito popular ou muito lido, porém dentro de cem ou duzentos anos não faltarão aficcionados por livros raros que me tenham em suas bibliotecas. Pode ser que um Salamanca ou um Gayangos de então, adquiram um exemplar desta edição a peso de ouro, pois chegarão a ser raros, provavelmente por ser esta a única edição que dou a público, assim pelo descuido com que manipularão estes exemplares, empregando-os para embrulhar qualquer coisa. Este pensamento do bibliófilo é que me há de salvar da onda do mortal esquecimento. Ele me anima, me conforta, me guia e por isso optei por publicar estes artigos.


Apenas pelo pensar e dar por certo que dentro de um ou dois séculos, se poderá dizer que por um Valera bem conservado haverá quem dê mil ou mesmo dois mil reais, dou por bem empregados os que gasto nesta impressão e o desdem que agora obtenho do grande público. Tudo se poder sofrer e suportar na esperança de que ainda haja um Valera bem conservado daqui a um par de séculos; especialmente se considerarmos que o Valera em carne e osso, ou seja, aquele que vos escreve, se vai lentamente envelhecendo, desfazendo e consumindo. Sobreviva assim meu espírito e reste algo dele neste pobre mundo, tão querido quanto ingrato, mesmo que no fundo empoeirado de uma estante e em raras ocasiões em contato com outros espíritos humanos, salvo é claro com os espíritos daqueles eruditos que folgam ler tudo quanto ninguém jamais quer ler."


sábado, 2 de dezembro de 2017

O humanismo de 'Assassinato no expresso do Oriente'

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Confesso que não sou fã de romances policiais.

De uma tia, já falecida, ouvi dizer que sua mãe obrigara-a a ler todas as obras de Aghata Christie para que se tornasse mais esperta, uma vez que era uma mocinha bastante ingênua.

Apesar disto, jamais lí qualquer livro de Doyle, Aghata ou Simenon; Sherlock Holmes, Poirot e Maigret não fazem parte de meu círculo de Amizades, sou mais um Dostoevsky, um Mika Watari, um Robert Graves ou um Gore Vidal e minha predileção é pelo romance histórico.

No entanto quanto os poucos romances policiais que li - li alguns de 'segunda classe' - consegui desvendar o mistério antes do final...

Neste fim de semana todavia fui convidado a assistir a mais recente obra de Branagh 'O assassinato no expresso do Oriente' e como nada me parece melhor, aproveitei a oportunidade e fui. Afinal, tendo nascido no ano seguinte, não poderia ter assistido a gravação homônima de Lumet (1974).

Nada direi sobre a trama em si, afinal não seria de bom tom, estragar o prazer de quem ainda não leu o livro ou assistiu o filme.

Limitar-me-ei a declarar que Branagh é daqueles bons e raros diretores que se mantém fiéis ao livro fonte, abstendo-se de deturpa-lo. Haja visto 'E o vento levou' de Mitchel alterado em 1939, 'O egípcio' de Mika alterado em 1954... Isto quanto aos filmes que assisti após ter lido as obras nas quais os diretores declaram terem se inspirado.

Branagh como disse prima pelo respeito as obras que declara gravar.

Neste caso por que assistir ao filme se já lemos o livro?

Porque ao ler o livro imaginamos enquanto que ao assistir a um filme qualquer, vemos e ouvimos, experimentando outros tipos de sensações.

Assim todo filme fiel é como que um livro 'encarnado' ou corporificado, o que reporta a uma outra dimensão, a dimensão dos sentidos.

Temos aqui um caso de assassinato, ocorrido no expresso, o qual reporta a um outro assassinato, este último marcadamente sádico e cruel.

Uma curiosidade. Quanto a este último assassinato Agatha Christie tomou por ponto de partida um drama da vida vivida - O sequestro e assassinato do filhinho do aviador Norte americano Ch Lindenbergh, o qual comocionou o mundo inteiro no comecinho dos anos trinta.

Uma vez que a composição de primeira classe achava-se fechada Poirot é levado a concluir que apenas um dos doze ocupantes daquela composição poderia ter cometido o crime em questão. Temos portanto doze suspeitos, um mais peculiar que o outro.

A sempre bela e deslumbrante Michelle Pffeifer como a socialite Norte Americana Caroline Hubbard.

O impecável Derek Jacobi como Ed Masterman, o mordomo.

Willem Dafoe como um professor nazista.

As divas Daisy Ridley e Lucy Boynton.A fantástica Judi Dench encarna com perfeição a princesa Natalia Dragomiroff. Por fim a Johnny Depp coube representar o finado sr Ratchett

Portanto, como se vê, temos aqui uma constelação de astros e estrelas, um elenco tarimbado.

Detalhe curioso é a diversidade de nacionalidades, raças e até mesmo de classes sociais incluída nesta primeira classe cujo destino final é Calais. A tensão nacionalista, racial e classista é marcante durante boa parte do filme.

Afinal temos ali um médico negro de origem norte americana e um hispânico muito bem sucedido em seus negócios...

Temos governantas, nobres, secretários, policiais e até mesmo uma freira...

Cenário ideal para que os conflitos aconteçam e multipliquem-se.

E é claro, cenário em que todos se tornam suspeitos em potencial.

Penso que a maioria dos amigos vão adorar acompanhar Poirot em suas conclusões... passo a passo... até o fim.

Bouc principiara dizendo, logo no começo do filme, que numa viagem de trem pessoas que jamais se viram ou verão novamente tem uma única coisa em comum, seu destino... Tudo nesta trama tenderá a demonstrar o contrário...

Importa saber que no fim e por fim o 'criminoso' (Mas será 'o' criminoso mesmo???) é descoberto...

Nem poderiam as coisas darem-se doutro modo estando ali, no 'Expresso do Oriente' o maior detetive do mundo, Hercule Poirot... Dandi ou janota belga cuja perspicácia jamais falha.

Aqui um dilema - Poirot, em tese ao menos, deve entregar tal pessoa a polícia, ou melhor dizendo, a forca. Conclui no entanto não estar diante de um criminoso vulgar, o qual, por assim dizer, mata por motivos banais ou pueris. Há por trás daquele pequeno drama uma drama bem maior...

Bem, o que se espera de uma senhora inglesa nascida ainda na Era vitoriana é que o sentido das formalidades legais predomine, e que o detetive, entregue o criminoso as autoridades, sem fazer qualquer caso da justiça, afinal, como tantos costumam repetir 'Lei e lei' ou ainda 'Dura lex sed lex'. Surpreendentemente é o que não acontece. Pois Poirot adotando um critério ético de justiça, mostra-se humano. Aqui, sem ser comunista ou anarquista, Agatha Christie mostra-se muito mais revolucionária...

Ao parar na derradeira estação foi a composição invadida por um desconhecido, o qual após ter assassinato, por motivos pecuniários sem dúvida, ao sr Harchett evadiu-se sem deixar pistas... Eis o que Poirot diz a polícia, a qual se dá por satisfeita...

Teria sido este o ocorrido??? Do contrário, que motivos teriam levado nosso homem a dize-lo???

Situações há em que a justiça se faz e é feita em cabines de trem, quartos de hotel ou aposentos de uma residência, não nas cortes judiciárias... Situações há em que devemos compreende-lo - como Hercule Poirot compreendeu-o.

Há nisto excelência, elevação e humanidade.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Viajando pela cultura com Robert Musil


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"Segundo tradições de um passado remoto, foi o século XVI período de intensa fermentação espiritual e momento em que, o home, renunciando deslindar os segredos mais profundos da natureza, segundo o hábito dos séculos e os usos da religião e da metafísica, passou a contentar-se com a superficialidade dos fenômenos... O trânsito que o homem realizou fora da aventura metafísica para a simples observação e descrição dos fenômenos arrastou consigo uma multidão delirante. Se me perguntares como a humanidade pode transformar-se de um tal modo e maneira te responderei que comportou-se como um menino precoce que tentou andar demasiado cedo e que consequentemente levou um tombo e caiu com glúteo estatelado no chão...

E ali vão surgindo uma certa falta de escrúpulos e de inibição, o valor, o prazer, tanto de destruir como de agredir, a exclusão de toda e qualquer cogitação moral, o mercantilismo paciente até os menores benefícios... o culto supersticioso do número, da medida, da massa; associado a um desconforto mórbido face a mínima imprecisão. Assim os antigos vícios ou traços comuns a caçadores, soldados e comerciantes passaram o domínio intelectual transfigurados em virtudes. Indubitavelmente estes vícios foram desassociados quanto a busca de um proveito imediato, individual e grosseiro; e sem embargo disto o mal original, como poderíamos chama-lo, sobrevive a esta transformação mantendo-se indestrutível e eterno, ao menos tão eterno quanto certos ideais ou tendências humanas...

Temos que salientar ainda e sobretudo esta singular predileção do pensamento científico para com as explicações mecânicas e materiais, das quais se diz terem arrancado o coração. Não ver nos atos de bondade coisa alguma além de egoísmo calculado, referir-se aos sentimentos ou pensamentos como secreções glandulares, declarar que o homem nada é além de alguns elementos químicos em água a dez porcento, reduzir todos os atos humanos 'livres' a um conjunto de reflexos, reduzir a beleza a uma boa digestão e as excelentes condições do tecido adiposo, reduzir a procriação e o suicídio a umas tabelas com curvas anuais... tais ideias parecem revelar, de certo modo, essa ginástica mental ou mistificação a partir da qual determinados preconceitos, crenças ou ideologias são vendidas como científicas ou enquanto frutos da experiência em termos de objetividade..."
in Der Mann ohne Eigenschaften 1956 (O homem sem qualidades)

Ps Evitamos reproduzir aqui as críticas injustas, abusivas e destemperadas que Musil - da mesma maneira que Max Lerner - endereça a própria ciência, das quais evidentemente não comungamos. Já quanto a sua ampla, profunda e sistemática crítica ao cientificismo, ao positivismo e ao materialismo - Mormente quando introduzidos nas ciências humanas e mais especialmente ainda nos campos da Psicologia e da Sociologia - só podemos reproduzi-la e classifica-la como atual, magistral e insuperável enquanto diagnóstico preciso de uma mutilação arbitrária ou melhor de uma profanação, a que o fenômeno humano tem sido submetido desde os idos do século XVIII.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Que aprendi com os clássicos...



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Ps.: Este ensaio diz respeito apenas e tão somente aos clássicos da literatura contemporânea.

Acabo de ser questionado por uma amiga, leitora voraz como eu, sobre o que aprendi ao ler os clássicos.

Tentarei compôr uma breve resposta.

Com o Robinson Crusoé, Defoe 1719, inspirador do Emílio aprendi que J J Rousseau não esta completamente certo. Pois se isolamento na Ilha obriga nosso herói a reaprender, redescobrir e reinventar praticamente tudo - Estimulando a faculdade da imaginação e estimulando o processo educativo quase nos termo de Dewey (Aqui porém numa perspectiva diferente ou social) e da Escola Nova - vemos que tal se em detrimento de sua afetividade

A suprema verdade aqui é que nosso herói não é feliz, e que a solidão incomoda-o. Isto a ponto de chorar a morte de um papagaio, com o qual conversava e de pedir, em suas preces, que Deus lhe concede-se humana companhia com que trocar ideias e experiências. Não, nosso homem estando numa Ilha isolado não era uma Ilha e certamente não se achava em seu estado natural.

O que nos reporta a definição Aristotélica como homem como um ser social, que nasce, vive e se desenvolve na Sociedade, em comunhão e não isoladamente. Alias a obra dá a compreender o quanto tais situações de isolamento são danosas para a mente humana.

Racionalidade ou intelectualidade é coisa excelente. Mas não a ponto de suprimir a afetividade. Além de capacidades racionais ou lógicas o 'homo sapiens' também possui sentimentos e necessidades afetivas que precisam ser satisfeitas tendo em vista a construção de uma personalidade sudável e equilibrada.

É o mínimo que tenho a dizer sobre o modelo de Rousseau. Crescer em comunhão com a natureza é benefício concreto, desde que em companhia de outros seres humanos ou de outras crianças. Pois o homem é ser que não se constrói no isolamento ou na solidão.

Passemos agora a Swift, 1735 ou seja as Viagens de Gulliver.

Onde há muito que se aprender a respeito da educação.

Refiro-me a parte primeira, em que o autor descreve sucintamente os costumes e instituições dos pequenos liliputianos.

Memorável a passagem em que declara - e estamos em 1735! - que a curiosidade deveria ser estimulada por meio de recompensas ou mesmo castigos.

Pois tudo quanto temos feito até 2017 consiste - mesmo em sala de aula - em deseducar as crianças por extinguir-lhes a curiosidade e classificar como vício ou mania o costume de perguntar.

Outro aspecto não menos marcante desta obra consiste em afirmar o primado social da ética.

Por dizer o autor que a virtude é superior a qualquer outra capacidade intelectual ou prática. E que mais vale ao cidadão ser honesto do que inteligente, erudito ou inventivo.

"Julgam que a verdade, a justiça, a temperança e as demais virtudes estão no acesso de toda gente e que a prática de tais virtudes, acompanhada por uma experiência sumária em termos administrativos torna quem quer que seja perfeitamente apto para servir ao pais... E CREEM QUE NÃO HÁ NADA DE MAIS PERIGOSO DO QUE ENTREGAR A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA A UMA PESSOA HABILIDOSO, MAS ISENTA DE VIRTUDE. E dizem ainda que os erros de um ministro honesto são sempre menos nefastos do que os de um ministro competente e talentoso mas desonesto."

Nada pior do que a habilidade, a competência ou o talento associados a falta de probidade e caráter. Nada pior do que um 'sábio' sem consciência. Nada mais prejudicial a um povo do que uma ciência sem Ética. Nada mais dramático do que conhecer as forças do universo antes de ter devassado a si mesmo... Nada mais pernicioso do que ciência sem consciência.

Não se trata aqui de desprezar a experiência, mas apenas e tão somente de associa-la a uma vivência ética e de subordina-la a virtude. Não se trata aqui de exclusão mas de subordinação, numa perspectiva hierárquica.

E temos cá o eco do velho Sócrates...

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segunda-feira, 1 de maio de 2017

O sentido mais íntimo de 'Crime e castigo' ou o problema de Raskolnikoff

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Acho irrelevante ficar discutindo se Capitu traiu ou não o Bentinho. É algo que não me adiciona nada.

Adoro a Trilogia machadiana (Digna de um Dostoevsky, de um Dickens, de um Balzac ou de um Eça - Os mestres supremos!) e por isso digo que há muito mais coisa a explorar-se nela - Digo de relevante - do que as aventuras de Dna Capitu e seo Escobar.

Coisa de maior quilate toca a Raskolnikoff. Poucas personagens tão interessantes ou fascinantes quanto ele. Ocorrem-me apenas o Sinuhe de Mika Watari, o Imperador Claudio de Graves, Dna Lola e mana Rosa da Sra Leandro Dupré...

No entanto Raskolnikoff e mesmo Razoumikhine parecem-me ultrapassar a todas.

Durante quase quinhentas páginas a obra toca aos motivos que levaram Raskolnikoff a fazer 'aquilo'... Quero dizer assassinar a agiota ou o 'verme desprezível', mais sua irmã Isabel, a adela, com um golpe de machado no sinciput, estourando-lhe o crânio.

No entanto a resposta é dada apenas na última parte durante a confissão feita a Sônia.

Após sucessivas tentativas... De modo que podemos imaginar uma cebola tendo suas cascas removidas, uma após a outra, em direção do interior.

Assim Raskonicoff vai analisando a si mesmo a partir da consciência até chegar aos meandros mais sombria da inconsciência e fornecer-nos a resposta mais apropriada.

Já no começo da obra nos deparamos com a afirmação de que ninguém conhece melhor o homem do que ele mesmo.

Eis porque o ponto culminante da obra é a introspecção feita pelo filho de Pulqueria Fedorovna no quarto da prostituta...

Antes que alguém mais afoito suponha que lá foi ter o homem com o propósito de obter uma mera noite de prazer ou para transar, adianto que não.

Em que pese a admiração confessa de Freud por sua obra, o clássico russo não é freudiano na plena acepção da palavra. Svidrigailoff tem via sexual desregrada por assim dizer, sem que por isso sua personalidade deixe ser bastante rica e complexa. Ali a sexualidade não assume proporções 'desmesurada' e tampouco a religiosidade; e a vida ou melhor a tragédia humana jamais se diluí em qualquer uma dessas áreas sendo absorvida por elas. Há sexualidade, há religião, mas a vida ou melhor o drama da vida é muito mais amplo e podemos dizer que Dostoevsky esta muito mais próximo de Adler do que do primeiro Freud, i é, do Freud de 1900.

Nem mesmo o economicismo capitalista/marxista toca ao fundo da questão humana na perspectiva do grande Mestre.

Há algo maior, mais amplo e mais profundo para além da fé, da sexualidade ou da economia.

De um modo ou de outro, de uma forma ou de outra, de qualquer maneira este homem quer Ser ou afirmar-se. E esse desejo de ser, de afirmar-se, de poder, de imortalizar-se é que consome o homem. É existencialismo puro porque o drama do homem é existir. Existo. Mas como prolongar esta existência na memória coletiva da humanidade?

Lembra de algum modo a busca de Aquiles e de Alexandre pela glória.

Tomemos porém as falsas pistas.

Por que mataste a velha Raskolnikoff?
A primeira resposta oferecida é trivial -

Matei porque se tratava de uma agiota sem sensibilidade ou coração, um ser inútil, uma parasita, etc O que suscitou meu ódio.

Mas será?

Por que mataste a velha Raskolnikoff?
A primeira resposta conduz-nos a escola social do direito ou da criminologia, tributária de K Marx:
Matei porque era pobre, porque minha condição era miserável, porque sofria privações, porque não tinha o que comer, impelido pela necessidade enfim. Foram as condições sociais que determinaram fazer o que fiz.

Já antes de ter consumado o crime cogitava que não podia deixar de comete-lo.

Alguns dias depois no entanto confessava que a certeza de que não podia deixar de ter cometido aquele crime seria doce para ele.

Pois se é certo que tendo dado largas aos mais nobres sentimentos empenhou parte do dinheiro enviado regularmente pela pobre mãe com o intuito aliviar o sofrimento alheio, experimentando consequentemente uma situação se penúria, não é menos certo que Razoumikhine experimentava as mesmas dificuldades, recorrendo no entanto a traduções de textos e algumas aulas com o objetivo de angariar subsídios.

Conduzido por uma honestidade inflexível para consigo mesmo o irmão de Dounia conclui que bem poderia ter imitado o exemplo do colega de curso. Sente que não havia esgotado todas as possibilidades viáveis no sentido de ter escapado a penúria.

Ademais obtido o dinheiro ou os recursos desejados, acabou ocultando-os debaixo de uma pedra e abstendo-se de fazer uso dele.

Seja com for há situações de miséria, de penúria ou de indignidade que bastam para conduzir o ser humano a loucura. É constatação científica feita há alguns poucos anos. Claro que há pessoas e pessoas, mentes e mentes, temperamentos e temperamentos... E que os limites variam de pessoa para pessoa. Sem que os efeitos sociais da miséria, sobre uma média de pessoas deixem de ser significativos.

Não é o caso de Raskolnikoff por ele mesmo sente que não chegara ao limite, e que a loucura surgira posteriormente, como consequência do ato praticado. E não antes, como causa. Tal o resultado de sua introspecção.

Então por que mataste a velha Raskolnikoff?
Claro que nosso ex estudante de direito, como todo e qualquer ser humano, tentará racionalizar e em certa medida justificar o crime por si cometido.

E por via alguma conseguia arrepender-se do que havia feito.

Sentia-se mal, constrangido, abalado, etc não por ter partido a cabeça da velha e lhe tirado a vida, mas apenas por ter denunciado a si mesmo num momento de fraqueza (???!!!!???).

De fato não fora pego. Pois a tempo fora notificado sobre a morte de Svidrigalioff... 

Mesmo assim num momento de grandeza ou fragilidade denunciou-se.

Havia portanto ocasiões em que se arrependia não de ter cometido seu crime, julgando-se inocente, mas sim de não ter podido conter-se, de não ter podido vencer a si mesmo, de não ter podido manter a constância da alma, de ter se desestabilizado e ido entregar-se a polícia.

Envergonhava-se quanto ao estado de desordem mental a que chegará após a consumação do crime e cuja gênese sequer sabia explicar.

Julgava-se talvez ou muito provavelmente sabotado pelo próprio medo de vir a ser pego.

Quiçá sua cruz fosse a cruz do medo.

O fato é que não conseguia conviver com esta situação de fraqueza.

A fraqueza ou a sensibilidade face ao crime é que exasperavam-no.

Mas por que?

A resposta temos no artigo que publicará alguns meses antes e que fora usado pelo juiz de instrução criminal, Porfírio com o intuito de conduzir as investigações.

Artigo em que nosso estudante de direito, antecipando Nietzsche, sustentava que o homem superior ou super homem - Fosse um Napoleão, um Cesar, um Maomé ou um Newton; não importa quem! - não só podia como devia cometer quaisquer crimes, e sem o menor constrangimento, pelo simples fato de estar plenamente cônscio a respeito de sua genialidade e de seu desígnio, enquanto benfeitor do gênero humano. Aqui matar, roubar ou mentir, se necessário fosse, não constituía apenas um direito mas um dever daquele homem... Já qualquer laivo de sensibilidade ou de arrependimento face ao 'crime' implicaria fragilidade, e portanto vulgaridade.

Ali a vocação para a riqueza ou a prosperidade, segundo Calvino (cf Weber 'A ética protestante e o espírito do capitalismo') indicaria a predestinação. Aqui o arrependimento ou a sensibilidade indicariam a vulgaridade...

Aquele homem especial, genial ou superior deveria ter suas vistas postas apenas sobre o fim, jamais sobre os meios. Pois os fins justificariam plenamente os meios...

O único crime aqui era ser pego, preso, punido, etc Numa palavra: Falhar e não atingir seu fim.

Pois ninguém (Atente aqui a mente sagaz!) ou quase ninguém, increpa como criminoso aquele que extermina milhares ou milhões de vidas humanas nas guerras. Será que chegamos aqui a Timothy McVeigh? 
E estátuas são erguidas a César, Átila, Maomé, Tamerlão, Henrique VIII, Filipe II, Cromwell, etc E nomes de ruas, praças, escolas, etc são conferidos aqueles que dissiparam tantas vidas humanas.

Enquanto aquele que comete um ou alguns assassinatos, estes são tidos em conta de criminosos, punidos, castigados, suplicados...

Por que raios matar alguns é encarado com horror pelas massas, enquanto exterminar povos inteiros é encarado por elas com a mais absoluta naturalidade?

Porque aqueles milhões, guiados por um gênio ou por um homem superior, lutam por um desígnio... Enquanto os outros, tendo sido pegos, e antes disto aminados por um desígnio vulgar como a fome (???) ou a miséria (???) mostram-se inferiores e vulgares.

Em tese, os crimes do home superior ou genial jamais vem a luz porque ele não foi, não é ou não será pego. Podendo, a custa de crimes perfeitos, realizar sua ascensão até o topo.

Tais as doutrinas expostas por Raskolnikoff  postas em sociologuês...

Toquemos porém a alma...

Porque é evidente que tendo colhido em algum lugar esta 'bela' doutrina do homem sem compaixão e desenvolvido-a o nobre moço não pode deixar de perguntar a si mesmo se é ou não é um destes homens superiores...

Sou ou não sou um deste super homens? Pertenço ou não pertenço a essa casta de homens superiores? Que sou eu??? A que rango pertenço???

Aqui o único teste possível é a execução de um crime, crime feito a sangue frio e perfeito.

Raskolnikoff precisa matar, não para obter dinheiro em primeiro lugar, mas para saber que é? Se é dos homens geniais ou dos vulgares...

Antes do crime vive este dilema e precisa resolve-lo.

E se hesita e não comete o crime já vai tendo a si mesmo em conta de vulgar.

Por isso planeja, por isso apropria-se sorrateiramente do machado, por isso vai a casa da velha e por isso da cabo dela. Sem no entanto contar com a aparição da Isabel... A qual se lhe apresenta a consciência como inocente. E já não sabemos que efeito a morte da pobre adela produziu no íntimo de seu ser.

Então por que Raskolnikoff mata, amigo leitor?

Mata, olhe só, para afirmar-se.

Aqui eliminar a vida do outro é espécie de introdução a vida.

Mata para ser.

E até consumar este ato perverso nosso homem estava firmemente convencido de que passaria pelo teste.

Eis a fé de Raskolnikoff: Que mataria e permaneceria o mesmo, ou seja, indiferente.

Era sua fé e tudo empenhou: A mãe, a irmã...

E no entanto mal comete o crime fragmenta-se em dois. O estado de tensão espiritual aumenta e sua sanidade mental deteriora-se. O homem já não é senhor de si e ao cabe de mil e uma peripécias acaba de entregar-se a polícia.

O fato é que após ter cometido o crime e mesmo sem se julgar arrependido sofria... E como sofria. Talvez sofresse mais pelo medo de ser preso... Mas sofria e não deixa de sofrer.

Julgava-se senhor de si enquanto assistia perder o controle de tudo...

E qual o epílogo de tudo isto?

Sucumbindo a tensão o homem é vencido por si mesmo e constata, necessariamente, a luz de sua doutrina, não ser um super homem mas um fracassado. E acredita nisto e sofre sobretudo por isto. Sofre porque convencido de que não era genial ou predestinado. Sofre porque concluir que não passava de um homem vulgar.

A consequência mais prática aqui fica sendo a morte de sua mãe.

Pois a infeliz Pulqueria Fedorovna não consegue suportar a dor da desventura, e sucumbe miseravelmente após ter perdido o uso das faculdades mentais.

O homem acreditava ter ganho o mundo inteiro ou a oportunidade do mundo, e... no fim das contas perde a criatura que mais amava, a mãe.

E tampouco pode assumir seu grande amor, Sônia, pelo simples fato de ter sido condenado ao degredo por oito longos anos...

Evidente que não pretendo postular a monocausalidade do crime. Toda monocausalidade me parece forçada e suspeita. Há crimes e crimes, motivações e motivações...

Há certamente quem mate por ódio ou vingança, como há quem mate para roubar movido por necessidades materiais... No entanto tais motivações não esgotam as fontes do crime. Há outras.

Assim Raskolnikoff mata para ser, para a afirmar-se e até podemos dizer que mata por uma questão de necessidade psicológica.

Mata apenas para sentir que é capaz de matar, que pode matar ou que tem o direito de matar.

Até aqui 'Crime e castigo', até aqui Dostoevsky, até aqui literatura russa, até aqui ficção.

E no entanto este autor é mestre consumado em matéria de psicologia. E até antecipa Adler.
Neste caso que fazer para que a conquista a auto afirmação não se converta em tragédia?

Penso que a resposta aqui esteja no livro que Raskolnicoff tomou as mãos já nas últimas linhas do romance; no Evangelho.

Na sacralidade com que este livro único nimba a vida humana.

Eis a melhor cartilha com que educar nossos filhos e moderar o instinto vital da afirmação.

De fato o homem deve buscar por sua afirmação, realização, fama e glória; mas sempre numa perspectiva Ética, visando não prejudicar ou causar dano, as beneficiar concretamente o maior número possível de seres humanos sem cometer pecado algum.

Tome não o caminho de Hitler, Bush, Pot, Stalin, Napoleão, Ivan, Tamerlão, Átila, César, etc os quais de fato não passaram de criminosos ou de psicopatas; mas o caminho de Buda, Confúcio, Sócrates, Platão, Jesus... S João de Deus, S Camilo de Lelis, Cotolengo, Abbe L Eppé, Braile, Abbe Pierre, Pe Damien Deveuster, Pe Ibiapina, Pe Bento, Irmã Dulce, A Schweitzer, Madre Tereza... O caminho do amor enfim, que é o melhor de todos os caminhos.

Tomando o caminho de Raskolnikoff tomará certamente o caminho da dor...


sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Por que doravante votarei nulo?




Apesar de ter lido vários textos de anarquistas contra o sufrágio universal, contra o voto, mesmo contra o voto crítico, mesmo tendo conhecimento de textos e mais textos, mesmo assim votei - o coração tem razões que a própria razão desconhece, escreveu Pascal - pois parece-me que só aprendemos a partir de nossas experiencialidades, com nossos próprios erros.

No 1º turno votei nos candidatos do PSOL e no 2º turno optei pelo "voto crítico", pelo "voto tático" com medo de eleger Aécio pois em minha ingenuidade pensei que a situação do Brasil poderia piorar e ante isso eu votei na senhora Dilma Roussef, ainda escrevi textos sobre o voto crítico bem como  textos apoiando a presidente, aquiaqui, aqui e aqui.

Eu não votei na Dilma porque pensei que o Brasil iria ter avanços mas votei para não ter retrocessos e enganei-me da forma mais estúpida possível, mais estúpida porque já tinha sido alertado por textos anarquistas. Por estes dias Dilma anunciou Joaquim Levy como ministro da fazenda, um sujeito neoliberal que não tem um pingo sequer de socialismo. A Dilma enganou seus eleitores, tudo o que disse em sua campanha eleitoreira foi desmentido  com o anúncio de um ministro da fazenda à direita, isso para não falar na indicação da Kátia Abreu para ministra da agricultura. O PT criticou tanto o PSDB para no fim fazer o mesmo que o PSDB, só por isto, o PT se mostra mais desonesto que o PSDB. O bom disso é que a máscara do PT caiu, se o partido da estrela vermelha conseguia se disfarçar como esquerda, agora o disfarce foi desfeito e todos sabem de que lado está o PT. Até a revista liberal The Economist elogiou a escolha da senhora Roussef e mais ainda a revista afirmou que a política econômica do PT é uma imitação da política do PSDB, além de toda a canalhice, o PT é também um partido plagiador, se ao menos plagiasse o que é bom...

A esquerda que votou em Dilma está revoltada e sente-se traída pela presidente que mostrou ter aprendido bem as lições de O Príncipe e agora não adianta reclamar, o voto crítico assim como todos os outros votos revelou-se uma fraude, na verdade o voto crítico/tático deveria ser chamado de voto ingênuo.

Guilherme Boulos percebeu que o partido dos trabalhadores não é mais dos trabalhadores, é um partido que está à direita e pouco se importa com os trabalhadores e com os pobres deste país, ademais continuarão com o seu assistencialismo barato e a gente pobre ainda verá na dupla dinâmica Lula e Dilma uma espécie de Cristo no primeiro e uma espécie de virgem Maria na última. O texto de Guilherme Boulos  é um texto irônico mostrando a verdadeira face do PT.

O PT metamorfoseou-se, de esquerda que era tornou-se direita, a sátira de George Orwell cai bem ao PT:

"Não havia dúvida, agora, quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora, olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco".  George Owell in A Revolução dos bichos.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Resenha do livro Sócrates encontra Marx


Antes de começar a falar do livro vamos falar um pouco de seu autor. O autor é católico romano, conservador na moral e também na economia, Peter Kreeft, é phD em filosofia, é professor e palestrante dotado de um bom senso de humor.

Na série Sócrates encontra...., todos os diálogos (sim os livros são feitos em diálogos ao estilo socrático ou melhor platônico) começam no além, logo que morrer os filósofos se deparam com Sócrates e este examina seus livros bases, àqueles nortearam e norteiam os caminhos da humanidade.

O Sócrates de Kreeft é bem convincente e bem semelhante ao de Platão, irônico e investigados infatigável da verdade. Neste livro (Sócrates encontra Marx) o autor examina o livro O Manifesto do Partido Comunista e as ideias bases desse mesmo comunismo apregoado por Marx.

O intuito de Sócrates neste diálogo é demonstrar a falsidade do comunismo ensinado por Marx, então Sócrates faz uma excursão pelo Manifesto do Partido Comunista e aponta as falhas do mesmo assim como dos raciocínios de Marx. O Sócrates de Kreeft desmonstou o determinismo de Marx, aquele que diz que não são as ideias que movem o mundo, mas as estruturas sociais é que determinam o pensamento, então Sócrates demonstrou para Marx que se não existe livre-arbítrio ele não pode ter escolhido ser comunista e tampouco poderia ensinar essa doutrina pois nasceu numa sociedade burguesa e no seio de uma família burguesa, então Sócrates pergunta como ele pôde ter ensinado o comunismo se ele também era um ser determinado e não livre pelas condições históricas ao que Marx responde que ele foi escolhido para quebrar esse ciclo, foi escolhido, usando esse vocabulário bem religioso.

Depois Marx detona com o seu vocabulário relativista como justiça burguesa, liberdade burguesa e assim por diante, Sócrates tenta convencê-lo que a justiça é imutável e universal e Marx se revolta contra essa ideia, ele (Marx) diz que a justiça é apenas uma convenção humana de uma época, então Sócrates lhe pergunta se a verdade também era produto das estruturas sociais e econômicas e Marx disse que sim ao que Sócrates perguntou: Pelo menos essa verdade (a verdade que a verdade se transforma) é absoluta e universal não?

Marx nega que possam haver homens honestos e bons por si mesmos pois todos eles são frutos das estruturas sociais e tudo o que fazem e acredita é determinado pela economia ou pelo modo de produção. Mas Marx nunca explicou cientificamente como ele mesmo pôde se tornar comunista fugindo da determinação.

Sócrates também mostra para Marx que o comunismo matou de milhões de pessoas e que não realizou o sonho de  um paraíso na Terra e também que sua profecia de que a revolução iria começar  num país industrializado não se realizou.

Marx  insiste que as pessoas só mudarão se as condições sociais mudarem já que são os eventos reais é que determinam as consciências, mas Sócrates sempre solícito mostra as falhas de sua argumentação.

Sócrates ainda mostra que Marx teve um filho com sua empregada que nunca assumiu, que era plagiador barato, e argumentava mais com o fígado do que com a razão propriamente dita. Enfim, o livro merece ser lido por aqueles que concordam e por aqueles que discordam de Marx.




sábado, 22 de março de 2014

Impressões sobre os contos da Ana Carolina Barros






No mês passado eu ganhei de presente o livro Movimento da palavra ao texto autografado por uma das co-autoras, Ana Carolina Barros. Ela é uma jovem de 17 anos e uma incrível devoradora de livros, mas vamos ao que interessa de fato.

No conto o Violinista que voltou ao mar ela narra a história de um violinista que estava num cruzeiro, o navio no qual estava bate em alguma coisa e começa a naufragar. O protagonista já estava entrando num bote quando se lembrou de seu violino em sua cabine e voltou para buscá-lo, quando viu que não podia mais retornar tocou Inverno de Vivaldi e assim morreu porque para ele a vida sem música seria um erro como bem escreveu Nietzsche. Este conto foi baseado numa história verídica mas foi metamorfoseada em arte pela autora, deixando a linguagem seca do jornalismo.

Em seu segundo conto tão bom quanto o primeiro ela descreve perfeitamente o cotidiano dos paulistanos no metrô, suas estações, e usou o cenário de modo perfeito para narrar uma paixão espontânea que durou apenas algumas estações.

Já no último conto ela faz o protagonista da história interagir com o passado e o presente, o passado feliz e o presente triste e sem esperança.




A Ana Carolina Barros tem apenas 17 anos é uma grande leitora de livros, toca piano e violino e sabe brincar com as palavras sabe fazer literatura e das boas. Soube assimilar o que há de melhor na literatura e assim criar o seu próprio estilo calcado no cotidiano, na realidade. Admito que eu fiquei cativado e que ao ler seus contos ficava a imaginar como terminariam as histórias. Adorei, que venham mais contos, que venham mais livros.

Ah, esqueci de falar o nome dos dois últimos contos:
Metrô
Azul

P.S.: O livro tem outros contos, crônicas e poesias de outros autores tão bons quanto os da Ana Carolina, mas como a conheço pessoalmente e já tive a oportunidade de ver sua biblioteca penso que posso falar desta autora com propriedade.


segunda-feira, 17 de março de 2014

Não existe literatura imoral




Depois de muito tempo sem escrever em meu blog eis que retorno e prometo aos meus leitores que doravante serei assíduo (sempre lembrando que promessas podem ser quebradas).

Quando eu estava nas casas dos vinte anos eu estudei num centro de suplência e eliminei muitas matérias e depois eu fui eliminado por ser péssimo nas exatas, mas isso não vem ao caso. Então vamos direto ao assunto, quando eu estudava nesse centro de suplência eu tive que ler dois livros da literatura brasileira:


  • Dom Casmurro - Machado de Assis;
  • Um certo capitão Rodrigo - Érico Veríssimo
Quanto ao Dom Casmurro não tive muitas queixas pois se tratava de uma suspeita de adultério, a meu ver se tratava de paranóia do Bentinho. Mas quando chegou a vez de expor na prova as impressões que tive do livro Um certo capitão Rodrigo, eu não fui feliz, isso porque eu estava cheio de preconceitos adquiridos aos longos dos anos na sacristia da igreja. Então escrevi aberrações lançando juízos de valores, afirmando que a obra era um lixo, um mau exemplo porque ensinava adultério, amor pelas brigas, bebedeiras e outras coisas, enfim eu esqueci de tratar o livro como literatura e tratei como uma obra de imoralidade que atentava contra a "moral e os bons costumes". Olvidei as belas palavras, a forma de escrever e o enredo da história que é humana e sendo algo "humano não me é estranho" (Terêncio). Evidentemente a professora de literatura ficou chateada por minha visão tão pobre da vida. Mas não tentou me convencer porque na época era um fanático religioso e sabe como é...

Depois de muitos livros lidos, depois da coragem de pensar por mim mesmo, depois de muitas reflexões comecei a ler outros tipos de literaturas, pois até então eu só lia livros de teologia e filosofia que concordassem com a doutrina e a moral católicas. Foi nesse tempo que já vai longe que vi que o mundo é muito maior do que minha estreita visão. Infelizmente eu acreditava que havia livros morais e livros imorais até que aprendi com Oscar Wilde que "não existem livros imorais o que existe são livros bem ou mal escritos" e até estendo o pensamento de Wilde: o que existe são bons ou maus escritores.

A boa literatura não se pauta pela moralidade mas pela forma como se escreve e como influencia o leitor. Enfim foi a duras penas que aprendi a ser leitor.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

JESUS CRISTO É UMA PERSONALIDADE VERDADEIRAMENTE FASCINANTE


Diante da figura de Jesus de Nazaré (ou o galileu como preferia o imperador Juliano cognominado o apóstata) é impossível ficar indiferente. É um ser que é amado ou odiado mas nunca esquecido.

Muitos livros já foram escritos sobre ele, a favor de sua existência e contra a sua existência; Uns defendem que é deus encarnado, outros que é um mestre cheio de sabedoria, outros acham que era um revolucionário e outros que era um doente mental, e ainda há aqueles que creem piamente ser ele um extra-terrestre.

Nenhuma personagem na história foi digna de tanta atenção, de tanto amor e de tanto ódio como Jesus Cristo.

Escritores sem religião, ateus também escreveram sobre Jesus (e aqui não falo se escreveram verdades ou mentiras), não puderam se furtar ao magnetismo dessa personalidade fascinante, pois se a figura de Jesus não fosse fascinante por que escreveriam romances e biografias de Jesus o nazareno? Norman Mailer escreveu O Evangelho segundo o filho, e José Saramago (que morreu ateu e comunista) que escreveu O Evangelho segundo Jesus Cristo, isso para não falar de Nikos Kazantizakis que escreveu A última tentação de Cristo.

Vira e mexe surge um escritor ou arqueólogo para granjear fama e "provam" (com documentos falsos, evidentemente ou com elucubrações de mentes megalomaníacas) que Jesus Cristo nunca existiu.

A figura de Jesus também mexe com os ateus principalmente no facebook e já vi muitos ateus caírem em contradição, pois numa semana postam que Jesus nunca existiu porque um escritor não sei de onde tem os "documentos" e numa outra semana no mesmo facebook postam notícias de que Jesus Cristo provavelmente era um analfabeto, um zelote, isto é, um revolucionário, mas pera aí, como era analfabeto e/ou revolucionário se ele nunca existiu? Vê? A figura de Jesus Cristo pelo amor ou pelo ódio cega uns e outros, realmente é uma figura fascinante quer se creia nele quer não.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

São Francisco de Assis e o ateu

Hoje é dia de São Francisco de Assis, il poverello. Francisco de Assis foi eleito pela revista Time como o homem do 2º milênio. Ele é uma das figuras mais queridas da Igreja Católica e fundou a OFM (ordem dos frades menores) que tinha por carisma viver o Evangelho na radicalidade ensinada por Jesus Cristo. Ele é um santo verdadeiramente católico na acepção máxima da palavra, isto é, universal porque conhecido, querido e admirado por multidões mundo afora. Infelizmente nem todos pensam assim, nem todos tem a visão e a sabedoria do senso comum, alguns estão acima do bem e do mal e "constituem a medida de todas as coisas das que são enquanto são e das que não ão enquanto não são".

Ontem eu tive o infeliz ensejo de lidar com um desses iluminados da internet que tem tanta sabedoria quanto os jornalistas que escrevem para a revista Caras ou para a ti ti ti. Apareceu em minha página seus "brilhantes" comentários sobre São Francisco de Assis que o(a) leitor(a) pode consultar nos prints abaixo.




O "sábio" em questão é ateu mas desses ateus que encontraram a verdade e pretendem sair pelo mundo anunciando o evangelho do homem novo, emancipado e sem preconceitos contra a tirania do cristianismo principalmente da Igreja Católica. O homem que nunca leu biografias da vida de São Francisco de Assis e conhece sua vida como nenhum acadêmico o conhece disse: (SIC) "O verdadeiro nome de Francisco de Assis era Giovanni di Pietro; Aliás, tudo indica que era uma bixona..."
Interessante, é que esse tipo de gente acusa a Igreja Católica de ser homofóbica e cai no mesmo erro chamando Francisco de Assis de bixona. Qualquer um sabe que o termo bixona é pejorativo e que tem a intenção clara de reduzir o homossexual a um ser fraco e afetado, por aí se vê como o ateu ilustrado nas revistas de fofocas semanais é um homem emancipado, emancipado da razão, dos estudos e da seriedade.
O novo biógrafo do santo de Assis cujas fontes são tão misteriosas quanto as do fundador do mormonismo escreve: "Amor esse, que aliás, era compartilhado com animais! Zoofilo...". Pedi ao meu contraditor que citasse as fontes para sustentar sua tese de que Francisco de Assis praticava a zoofilia e ao pedir provas eu agi como um cético coisa que eles recomendam e mais, usei de um argumento que eles sempre se usam quando lidam com crentes fanáticos: "Cabe ao afirmante o ônus da prova". Ele provou? Sim, provou, provou que não pode ser levado à sério, que não sabe argumentar e que não tem conhecimento de causa. Quando você pede fontes sérias e pesquisas o que recebe como resposta? Uma afirmação gratuita:  "É fato que Giovanni di Pietro trocava carícias com animais, a igreja afirma isso...". Mas Euclides nos ensinou que "o que gratuitamente é afirmado pode ser gratuitamente negado". Então tentei explicar para o gênio da lâmpada elétrica queimada que vai uma diferença muito grande em acariciar animais e praticar atos de zoofilia, seria como dizer que um pai que acaricia seu filho comete um ato de pedofilia. Mas o alienista (não o de Machado de Assis pois este no fim reconheceu que o problema não era os outros mas ele mesmo) não prova nada do que afirma e continua a soltar suas pérolas:  "Hahahaha, você não quer que eu te mostre uma foto não é? Basta analisar a estorinha do padeco, além de bixona também praticava a "zoofilia em si", que é o envolvimento, levando em conta o prazer sexual também do animal... Que estes passam ter um "afeto" pelo Zoofilo...". O ódio por Deus e pela Igreja é tanto que o cara não é um ateu é um cara que odeia Deus e tudo o que remete a sua existência e vê sujeira (zoofilia) até na mais gentil e bondosa figura do cristianismo, expondo sua homofobia. Ele não provou que São Francisco era homossexual (e se fosse o homossexualismo é uma condição da natureza e portanto digna) e nem provou que este fosse praticante da zoofilia mas levantou sérias suspeitas sobre si mesmo porque a psicologia nos diz que ao acusar o outro lhe imputando defeitos, isso outra coisa não é do que projeção. Bom, por via das dúvidas é melhor não acusar ninguém sem conhecimento de causa pois ao fazer isso o indivíduo corre o risco de expor aos outros o seu verdadeiro eu.