Não é propósito deste Blog atacar quaisquer pessoas ou mesmo ideologias e crenças. Pois embora Sam Harris tenha apresentado o ateísmo como fato consumado, ainda concebemos fatos como eventos ou fenômenos acessíveis aos sentidos ou imediatamente perceptíveis.
Tal o caso da última chuva, vi-mo-la, ouvi-mo-la e toca-mo-la inclusive. No entanto jamais vimos, ouvimos ou tocamos ou ateísmo.
Salvo engano nosso não é fenômeno físico, material e perceptível como supõem o sr Harris mas fenômeno interno, imaterial, psicológico ou mental, forjado ou concebido pela mente humana como qualquer crença ou ideologia. Em termos de essência entre ateísmo ou teísmo não há qualquer diferença... É tudo construção teórica ou visão de mundo com maior ou menor fundamento.
Caso nossos amigos ateus venham a discordar de nosso 'juízo valorativo' adiantem-se e apresentem-nos o peso, medida, densidade, extensão, etc do 'fato' ateu ou da 'coisa' ateia.
Feita esta ressalva - Pois ateus há que se julgam tão 'perseguidos' quanto nossos neuróticos pentecostais... - necessária principio declarando que o único propósito deste artigo é questionar. Os ateus ou melhor os ateístas não apreciam questionar todas as religiões ou mesmo o simples deísmo? Bebam pois a mesma poção que não lhes fará mal algum! Ademais todo e qualquer sistema depura-se e torna-se mais consistente na medida em que fica exposto as críticas de seus contrários, os quais no fim das contas prestam-lhe bons serviços.
De modo que se os apóstolos do ateísmo congregados numa nova Agora, perguntassem que pena mereço eu por questiona-los, não hesitaria reproduzir as palavras do divino Sócrates: Ser alimentado graciosamente no pritaneu! Calma, bem sei que não existe mais pritaneu, mas bem que os ateístas poderiam fornecer-me cestas básicas gratuitamente por no mínimo um ano.
Alias o questionamento me interessa pelo simples fato de ser mestre ou professor de Ética e interessar-me sobre o tema ou assunto da vida Ética. Tema por sinal exaustivamente abordado e explorado por filósofos religiosos, deístas, agnósticos, materialistas e ateus desde o décimo nono século.
De minha parte, tal e qual I Kant, na "Razão prática" considero absolutamente normal que qualquer sistema metafísico (ateísmo e teísmo/deísmo) ou não (agnosticismo e materialismo) seja 'posto na parede' e irremissivelmente julgado e sentenciado tendo em vista os princípios e valores que inspira.
Claro que estou cônscio e até farto de ouvir a resposta fornecida pelo senso comum ateístico, segundo a qual há ateus bons como há religiosos, inclusive Cristãos malvados.
E é assim, com o afirmar que há ateus bons e religiosos maus que muitos dão a questão por encerrada.
Quanto a nós que diremos?
Negaremos a assertativa acima e diremos que todos os ateus - sem exceção - são maus e todos os religiosos bons?
Nada mais tolo e pífio do que negar a realidade.
Eu poderia negar, gritar, bater os pezinhos, etc
E vós brindar-me com exemplo semelhante ao de Unamuno, em seu São Manuel Bueno mártir.
Ou o que é ainda pior lançar-me em face os nomes horrendos de um Torquemada, de um Calvino, de um Malacraia, de um Felicianus, de um Cunha, de um Edir Macedo, de um RR Soares, de um Valdomiro, de um G W Bush, etc
E eu teria de calar-me envergonhado.
Péssimo Cristão é coisa que não falta ou até sobeja.
E certamente há ateu que seja bom no mundo felizmente.
Logo...
Logo o que?
Logo a conversa esta encerrada. Pois a ideia de um Deus nada tem a ver com o bem e o mal, o vício e a virtude, o certo e o errado, com a Ética enfim!
Errado, tem muito a ver ou melhor tem tudo a ver.
Mas não acabas de dizer que há ateus bons e religiosos canalhas?
Exatamente.
Então que raios deus ou cristo tem a ver com a 'moralidade'?
Tudo quando eu digo é que devemos problematizar a situação, questionar e investigar mais a fundo e quando digo isto, como culturalista que sou, penso que devamos examinar antes de tudo a questão da cultura.
E já adianto-me e digo que tal e qual os marxistas e anarquistas, os ateus relacionados com os mais variados modelos sociais e políticos, inclusive os liberais (que se julgam completamente distintos), sofrem do mesmo 'mal' ignorando por assim dizer o tema da dinâmica da cultura, em termos de produção, afirmação, declínio, assimilação, etc
É vezo comum a nosso tempo e aos religiosos fanáticos por sinal, os quais votam ódio imenso ao tema da cultura. Isto porque é da cultura, considerada em sua dinâmica, demolir todos os ídolos, sejam os 'cristãos', sectários, marxistas, anarquistas, liberais ou ateísticos... E vão parar todos na mesma cloaca dos 'mitos'.
Assim o primeiro fator que devemos considerar é que via de regra, as pessoas são incoerentes, especialmente as menos instruídas.
De fato é a incoerência problema universal e bastante sério.
Assim os 'católicos' afrontados em comício fascista por Unamuno (1936) o qual mesmo sendo incrédulo, soube opor a seus instintos vis e homicidas as mesmas palavras do Evangelho lidas em cada missa, ao invés de terem chorado e se lançado ao solo pedindo penitência, apontaram suas pistolas contra aquele que havia se limitado a repetir as palavras de Jesus Cristo...
Assim os anarquistas que em nome da liberdade destruíram os símbolos religiosos contra a vontade da população rural, alegando que eram 'símbolos de opressão'... E com maior opressão eliminavam os tais símbolos de opressão atraindo contra si mesmos o ódio das massas.
Assim os comunistas russos, russificando o marxismo e contento a tal 'Revolução' em que pese as advertências de Trotsky
Assim a população budista do Japão endossando a febre do consumo e a cultura produzida por ela...
Assim os 'liberais' abatendo e traindo o liberalismo político ou a democracia em nome dos interesses do mercado ou do liberalismo econômico.
As incoerências multiplicam-se por este mundo afora.
Cristãos há que estão plenamente cônscios a respeito da Ética do Evangelho, mas recusam-se a vive-la... Claro que eles deveriam ser advertidos e submetidos a regra da penitência, há quem lute por isso. Também o Cristianismo precisa passar por uma purificação ética e livrar-se de tantos quantos encaram a religião como simples questão de fé.
Este enfraquecimento da consciência Cristã remonta ao alemão Martinho Lutero patriarca do solifideismo. Felizmente não somos luteranos ou protestantes.
Outro grande fator que devemos considerar é a ignorância e a falta de instrução.
Assim como há ateu sem embasamento teórico algum por jamais terem lido o Faure, o Stirner, o Feuerbach, o Duhring, o Freud, o Hitchens, o Dennet, o Sam Harris ou o Dawkins; há muito Cristão nominal que jamais leu o Evangelho de Cristo ou o livrinho de catecismo.
E como a comunidade Cristã é muito maios (100 vezes mais) do que a comunidade ateística, há de se convir que o número de iletrados e analfabetos seja muito maior. O que nos leva a um problema educativo, a Igreja tem tido dificuldade para educar toda essa gente, pois trata-se de um esforço colossal. Então temos de considerar que parte dos Cristãos forma como que uma massa inconsciente em termos de doutrina.
Há enfim aqueles que são além de letrados e instruídos, resistentes! Há ainda quem professe o Cristianismo externamente apenas e que o pratique mecanicamente i é indo as missas, rezando, etc Mas por mera questão de 'aparência' ou oportunismos, agradar a sociedade, garantir o emprego, manter a paz familiar, conservar os amigos, etc Essas pessoas sabem ler, sabem o que deveriam fazer... Mas não creem.
Mais um problema a ser corrigido pela penitência eclesiástica. Lamentavelmente a igreja, infectada pelos ensinamentos de Lutero e da pseudo reforma insiste mais a respeito da fé e faz vistas grossas a prática das virtudes Cristãs. A virtude para aquele que aderiu a fé Cristã já não é questão de liberdade mas de estrito dever. Aquele que recusa-se a cumprir concretamente com seu dever deveria ser excomungado.
Temos enfim todo um problema de educação e de disciplina.
No entanto quando tais problemas são vencidos, o Evangelho é lido, conhecido e meditado; a tradição estudada, a lição do catecismo assimilada, etc Temos o católico consciente e coerente e o resultado disto foi o aflorar da espiritualidade franciscana no século XIII e do Catolicismo social no século XIX, e da 'Teologia da libertação' no século XX.
E desta consciência evangélica surge um São João de Deus, um São Camilo de Lelis, um São José Cotolengo, um São João Bap de la Salle, um São João Bosco, um F Ozanam, um Pe Bento, um Pe Ibiapina, uma Irmã Dulce, uma Madre Tereza, um Abbe Epeé, um Pe Gapon, um Pe Lebret, um Abbe Pierre, um Pe Julio Lancelotti, um Alexandre Schmorel, uma madre Maria Skobtzoff, um Pe Maximiniano Kolbe, uma Anália Franco, um Von Keteller, um Lammenais, um De Mun, um Meignan, um La Tuor du Pin, um Wietling, uma Simone Weil, uma Mother Jones, uma Dorothy Day e tantos e tantos homens e mulheres comprometidos com a promoção integral do ser humano. Estes entretiveram um relação orgânica com o Evangelho, buscaram imitar e honorificar Jesus Cristo, foram coerentes.
Cristianismo conhecido, refletido, esclarecido, vivido e coerente reverte sempre em benefício da pessoa humana, desde os tempos de Basílio, o Grande, Fabiola, Ambrósio, Patrício, Crisóstomo...
Tanto mais conhecido, refletido e vivido o Evangelho numa perspectiva tradicional ou Católica, isenta de contaminação platonizante, e tanto mais é beneficiada a Sociedade com escolas, hospitais, orfanatos, asilos, dispensários...
Não, a alegada 'malignidade' de certos cristãos (Católicos é claro) não parte de sua intimidade ou proximidade com o Evangelho mas da distância e alienação face a seus imperativos divinos de amor e justiça. A quase totalidade dos maus cristãos é iletrada, estúpida, incoerente e acomodada. Ignoram assim qual seja a essência de sua religião e por isso negam com as obras o que com a boa afirmam crer.
Não se trata duma situação de obediência ou cumprimento. Não odeiam, matam, roubam, mentem e cometem injustiças porque Jesus Cristo o tenha determinado, mas justamente porque ignoram o que o fundador de sua religião determinou... Jesus jamais ordenou a seus seguidores que odiassem, praticassem o mal ou exercessem a vingança, mas que amassem, se abstivessem de julgar, desistissem de condenar, etc Se parte dos cristãos desobedecem-no livremente a culpa certamente não é sua, embora a igreja mereça ser questionada neste sentido, e parte de seus filhos questionam-na.
Sei que tampouco os principais teóricos do ateísmo - digo sua grande maioria - aconselharam seus seguidores neste sentido, de praticar maldades e cometer crimes, e que alguns até tentaram honestamente produzir uma Ética ateística. No entanto devemos confessar que tais esforços falharam miseravelmente, e é o que veremos mais adiante.
Digo sua grande maioria porque minoria houve que optou por trilhar outros caminhos e produzir, e justificar uma Ética, oposta a pessoa humana e sua dignidade.
O problema havia sido lançado e era relevante desde os tempos de D Holbach (século XVIII) em seus sistema da natureza, obra em que pretendeu substituir o sistema de ética afirmado pela Igreja por um novo sistema de Ética fundamentado no ateísmo e no materialismo.
É verdade que a Cristandade - Influenciada pelo judaismo, pelo maniqueismo, pelo platonismo e pelo neo platonismo - havia cometido gravíssimos erros neste campo pelo simples fato de condenar os prazeres naturais que encontram-se no acesso do corpo. Sem embargo disto, ela continha e trazia em si mesma um sentido 'vital' em termos de Ética, o sentido da empatia ou da alteridade. Princípio que o materialismo por assim dizer desamparou completamente.
Por isso que em termos de moralidade o Barão D Holbach refere-se a busca pela realização pessoal e pela felicidade em termos de 'Poder, riqueza e prazer'. Tal a orientação que ele imprimiu a Ética e embora pretendesse criar uma moralidade tanto mais social, teve de contentar-se - como Adam Smith inclusive - em tecer algumas conjecturas em torno de uma amabilidade o simpatia natural. Ele tinha fé na bondade natural do homem e acreditava que tudo daria certo. Pois não havia conhecido aquele novo mundo produzido pelo 'deus' Mercado em meados do século XIX e tampouco as duas grandes guerras mundiais, o holomodor, etc
Impossível é para o homem do século XXI ter fé na bondade natural de seus semelhantes...
Daí a necessidade de falarmos numa Educação Ética ou conscientização em torno de princípios e valores humanistas. E de construirmos um sistema de Ética significativo.
Já o abade N S Bergier havia notado o vício original desta 'ética' materialista e ateística e salientado que ela perdera de vista o outro, a existência do outro e as dores do mundo - tema tão caro a Schopenhauer e a Freud. No entanto grande parte da existência humana consiste mesmo na experiencialidade da dor... Face a qual o Cristianismo, a guiza de solução ou suavização, ofereceu-nos uma Ética fundamentada na solidariedade. Segundo esta 'Filosofia' bárbara também achamos realização, conforto e felicidade ao amenizar o sofrimento alheio. Agora esta concepção tirava sua razão de ser dum evento histórico revestido de significado religioso, a saber da crucificação, dos sofrimentos e da morte experimentados por Deus...
O materialismo no entanto não tem Deus e muito menos cruz.
Daí sua tarefa, colossal, ingente e utópica que elaborar uma Ética voltada não para a identificação da felicidade com a fruição dos prazeres sensíveis (alias lícitos e necessários quanto a normalidade da vida) e sim como algo mais extenso e amplo, que incorpora-se os prazeres do coração ou da alma como o exercício da solidariedade. O que nos leva ao ideal de fraternidade humana!
Agora vejamos se o ateísmo estava a altura de semelhante desafio.
Enquanto Feuerbach quebrava sua cabeça e gastava incontáveis resmas de papel com o objetivo de forjar essa nova Ética a um tempo ateística e a outro ateísta, mais ousado, apareceu em cena um certo Kaspar Schmidt (Mais conhecido como Max Stirner) e num livro intitulado 'O uno e sua propriedade' iniciou a demolição da Ética humanista numa perspectiva escolástica. O homem foi terminante: partindo outros princípios não se chegará jamais aos mesmos objetivos, o Cristianismo enunciava a igualdade e fraternidade universal porque partida não apenas da existência de Deus mas da suposição absurda que ele se havia manifestado ou revelado. Como nosso ponto de partida eram outros, a saber materialismo e ateísmo, o objetivo atingido seria bem outro pelo que era necessário reconhecer que os homens não eram iguais sob quaisquer aspectos, que uns eram superiores e outros inferiores cabendo aqueles dominar ou até mesmo exterminar a estes... Claro que tinha de sobrar até mesmo para o deísmo voltairiano com seu Deus legislador e para a lei natural ou o jusnaturalismo salmanticense... Sem Legislador divino nada de lei ou direito natural.
Neste ponto a Ética ou 'moral' como era chamada ao tempo ( e ainda confundia-se com os costumes) perdeu sua essencialidade objetiva - proposta primeiramente por Sócrates e endossada por Platão e Aristóteles - para tornar-se subjetiva, e não científica e converter-se por fim em opinião individual ou mero preconceito. Do que resultou esta crise contemporânea que abalou a civilização européia até os fundamentos. Graças a mística positivista engendrada pelo materialismo foi a Ética depreciada ou abandonada por cerca de setenta anos, em que pese o clamor dos Católicos, dos deístas, dos humanistas, dos socráticos, dos aristotélicos, dos espíritas, etc e duas grande guerras mundiais com o saldo de milhões e milhões de mortos.
Claro que esta Ética ou moral frágil até mesmo no sentido de evitar-se o mal não podia encaminhar os homens a prática do bem em proporções heroicas, pelo que minguando o heroísmo e a abnegação humanas, inseriu-se o capital naquele nicho, e alimentamos ainda mais e mais o monstro que nos estava a devorar...
Retornando ao Stirner é bom saber que ele negou qualquer tipo de direito ou justiça natural, chegando a declarar que em estado de natureza o homem sequer tem direito aquilo que produz ou ao fruto de seu trabalho, e que pode ser alijado de tal fruto sem que possamos considerar tal ação como má ao menos do ponto de vista da natureza. Por onde chegamos a primazia do egoísta em posse da força. Para que relativa paz seja mantida a aristocracia do egoísmo estabelece um convenant e dita regras não apenas para si mas para todo resto da sociedade ou para os dominados, os quais recebem uma lei dada ou imposta pelos donos do poder. E fica a nova Sociedade cindida entre dominantes e dominados ou entre fortes e fracos segundo o novo paradigma ateu e materialista, A OPRESSÃO.
Em termos de moral ou ética foi isto que o ateísmo refletido ou digerido ofereceu-nos em termos de ética!
Até onde sei Nietzsche não apenas leu a obra de Stirner como referiu-se explicitamente a ele como o único pensador ou filósofo alemão. E não preciso dizer porque, e temos diante de nós o berço do 'super homem'. Eis seus cueiros... Nietzsche em certo sentido limitou-se a desenvolver os princípios enunciados por Stirner e seu padrão é a força, a insensibilidade, a indiferença, o egoísmo, a apoteose do individualismo enfim, porque o ateísmo não nos permite transcender o individuo.
Com J M Guyau que durante a juventude flertara com o estoicismo, tornamos mais uma vez a solidariedade, cujo imperativo ele reconhece ao menos abstratamente. Pois tolhido pelos preconceitos positivistas é levado a declarar que não podemos - como fez o Cristianismo - estabelecer normas ou regras concretas em termos de solidariedade. Daí também ele lançar-se para o futuro e postular que a solidariedade alimentará a estética, que esta propiciará um conhecimento mais seguro em termos de transcendência e os homens virão a amar-se mutuamente sem religião... Isto num futuro pálido e distante. Por hora reinassem as contradições sociais criadas pelo capitalismo... Ao cabo de trinta anos após a publicação deste manual de idealismo ingênuo estourou a primeira grande guerra.
Chegamos enfim a Spencer e ao darwinismo social, o qual posteriormente passou a ser compreendido como um suporte biológico - e portanto científico - fornecido aos devaneios de Stirner e Nietzsche. Ao que parece Darwin jamais teria esposado semelhante teoria, tal o veredito de Kropotkin. Embora outros teóricos aleguem que no final da vida tenha aderido as conjeturas de Spencer o qual partiu não de Darwin mas do velho Lamarck e de Malthus, compondo-se mais tarde com a 'Origem das espécies'. Spencer estabelece analogia entre os organismos vivos e os homens ou classes sociais e argumenta que da mesma forma como os organismos vivos aperfeiçoam-se por meio da 'seleção natural' os indivíduos e classes aperfeiçoam-se e a Sociedade evolui através de processos análogos. (cf O organismo social - 1860)
Assim ele cunha o termo 'sobrevivência dos mais fortes' falseando inconscientemente o enunciado darwiniano sobre a sobrevivência dos mais aptos e introduz esse conceito biológico na sociedade humana. Desde então não só as teorias pré fascistas e pré nazistas de Stirner e Nietzsche adquirem uma conotação científica aos olhos do positivismo sem ética, mas a própria dinâmica capitalista da livre concorrência e do livre mercado passam a ser justificadas a luz da 'seleção natural'. Passando o burguês bem sucedido ou o rico a ser identificado como um vencedor na luta pela vida e portanto como um herói e não como o 'vilão sem consciência' do socialismo legatário da 'embolorada' moral Cristã. Esta ponto foi feita pelo yankee William Graham Sumner em sua obra "O que as classes sociais deve umas as outras?" Ele responderá: Nada... pois a luz da ciência biológica o capitalismo acha-se finalmente vindicado.
Além disto Sumner como Malthus já havia feito criticou amargamente a assistência social com que os Cristãos buscam minorar os sofrimentos dos vencidos da vida... Ele declarou ainda que o posicionamento do clero anglicano em favor dos pobres e contra os ricos não passava de preconceito idiota.
Naturalmente que a ideia é importada e introduzida na Alemanha por outro apóstolo do ateísmo e do materialismo Ernest Haeckel.
Até que chegamos a Ayn Rand com seu egoísmo racional (!!!), seu repúdio formal ao altruísmo e seu apoio decidido ao sistema capitalista. Preciso dizer que também esta musa era atéia?
Toda esta 'abominação' anti humanista como se vê foi assumida ao mesmo tempo pelo formalismo político nazista e pelo formalismo economicista capitalista enquanto sistemas opostos a Ética da essência.
Grosso modo podemos dizer que o ateísmo refletido jamais saí do individualismo egoísta ou supera-o no plano da ética. Não ele não pode oferecer-nos qualquer outra coisa.
De fato os ateus bonzinhos são em sua maior parte pessoas que aderiram ao ateísmo a posteriori e que ainda não refletiram escolasticamente sobre ele. Ex deístas, ex espíritas, ex papistas, ex judeus, etc que por hábito continuam vivendo como sempre viveram e segundo foram educados. Culturalmente falando jamais questionaram os princípios e valores que haviam recebido. O ateísmo é recebido quase sempre como teoria, que pouco ou nenhum impacto produz sobre o comportamento das pessoas, em oposição a conversão religiosa. O ateísmo não possui organização, liderança ou mesmo doutrina oficial a ser assimilada pelos neo ateus... Uma revisão drástica da vida não se impõem. Deixam de frequentar suas igrejas ou clubes, mas quase nunca abandonam os 'preconceitos arraigados'. De modo que se já são bons continuam a ser.
De modo geral é assim porque o homem comum - e portanto boa parte dos ateus - não costuma a questionar e a refletir profundamente sore seus princípios e valores, as fontes da vida Ética.
Agora quando se trata de ateísmo de família ou herdado e transmitido de geração em geração a possibilidade de que haja reflexão e abandono dos princípios e valores tradicionalmente arraigados é bem maior. Na verdade tais princípios sequer são questionados, eles apenas deixam de ser repassados ou transmitidos de geração em geração devido a ausência de 'afinidades eletivas' entre eles e o ateísmo, de modo que apenas a cabo de um processo que abarca gerações, aflora uma Ética naturalmente ateísta e intuitivamente elaborada. No entanto o resultado desta construção improvisada e da solução refletida acaba sendo sempre o mesmo: A morte do homem, a negação do outro, a desaparição do semelhante e a perda quase que total da empatia, da alteridade, do altruísmo. Noutras palavras a afirmação de um egoísmo virulento e feroz.
Ao contrário do que previam D Holbach e Guyau a simpatia não foi afirmada e potencializada mas eliminada pelo ateísmo e pelo materialismo com sua ética individualista até o egoísmo.
Para finalizarmos este artigo ja demasiado longo resta descrever como e porque isto aconteceu e demonstrar que não podia acontecer de modo diverso.
O único elemento universal de convergência ou vínculo em termos de homem e virtude é Deus ou o Supremo Legislador, em cuja vontade eterna todos os princípios e valores éticos encontram-se objetivamente legitimados.
Eliminado o Legislador externo fica eliminada toda e qualquer possibilidade de lei natural, essencial e objetiva. O Bem e o mal perdem seu padrão ou critério de universalidade e objetividade.
A consequência desta perda implica admitir, e não há outro recurso possível, que o indivíduo isolado (ou como querem outros a Sociedade ou o Estado e já discutimos exaustivamente a respeito) converte-se em lei externa e absoluta para si mesmo em termos de ética e em fonte subjetiva de princípios e valores válidos unicamente para si mesmos. O indivíduo escolhe seus princípios e valores, os quais perdendo a universalidade e a objetividade convertem-se em pura e simples opinião. E a ética passa a ser identificada como opinião individual, punto e basta. Se não há Legislador externo e universal temos de reconhecer o indivíduo como árbitro supremo em termos de ética e conceder que possa julgar legitimamente em causa própria.
E não pode o outro ser seu juiz porque haverá de julga-lo segundo outros princípios e valores distintos.
Assim se alguém considerar correto matar, roubar, mentir, trair, torturar, etc quem será capaz de censura-lo???
Afinal não é ele que escolhe seus princípios e valores segundo seu ideal de felicidade?
Portanto e se esta felicidade consiste em torturar, estuprar, enganar, assaltar e tirar a vida alheia???
Mas ele não pode querer para si o que não quer para os outros???
E por que não pode? Quem é que converte o enunciado acima em lei universal se não há Legislador?
Se não há lei natural e universal tudo pode ser contestado.
No entanto, pergunta este outro ateu ingênuo, quem haverá de contestar ao menos a conveniência de identificar-se com o outro?
Ora, ora meu amigo, os pensadores e filósofos ateus Stirner, Duhring, Nietzsche, Guyau, Rand... o agnóstico Spencer... os capitalistas selvagens, fascistas, comunistas e nazistas todos.
Enquanto isto Católicos ( Ortodoxos, anglicano e papistas), espíritas, judeus, etc continuarão edificando Hospitais, Leprosários, Asilos, Escolas, Orfanatos, Dispensários, etc por toda face da terra. Lutando pela promoção humana e pela justiça social e até mesmo, quando necessário imolando-se até a morte pelo semelhante.
Agora a fundação de quantos Hospitais, Leprosários, Asilos, Escolas, Orfanatos, Dispensários, etc t foi inspirada pelos princípios do materialismo e o ateísmo? Quantos Hospitais ateus ou orfanatos materialistas existem sobre a face a terra? Quantos ateus virtuosos tem oferecido a vida pelo outro a exemplo do Cristão Oscar Schindler? Enfim quantos ateus deram suas vidas e morreram confessando ao ateísmo e declarando estar certos de que não existe um Supremo Ser?
Não sendo o ateísmo capaz de promover uma ação social em tão intensa quanto os religiosos e não sendo apto para infundir virtude tão heroica que arroste o perigo da morte pela simples afirmação da verdade como haveríamos de crer que servirá de barreira face ao capitalismo, ao nazismo, ao fascismo, ao comunismo e a outras tantas culturas de morte ao invés de alimenta-las?
Poderá o ateísmo servir-nos de barreira face as culturas de morte e salvar o ser humano de ser esmagado pelo rolo compressor da estatolatria? Vindicará ele o humanismo no mais alto grau? Fornecer-nos há os elementos necessários para a construção de uma ética essencial da pessoa? Logrará preservar-nos do flagelo do islã?
De minha parte penso e julgo que não...
Aos demais penso apenas que reflitam.
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domingo, 15 de janeiro de 2017
sexta-feira, 6 de janeiro de 2017
Objetividade ética - Critério humanista
Para mim humanismo não é mera questão de opinião ou ponto de vista, mas de objetividade essencial.
Justamente por não 'admitirmos' a objetividade essencial das coisas somos absolutamente levianos, acomodados, descompromissados, insensíveis.
Graças a essa brincadeira de muito mau gosto alimentada pelo ethos burguês chegamos a duvidar da existência do ser e consequentemente da existência da pobreza, da injustiça, da miséria, da opressão, da dor e do sofrimento alheio, como o qual nos acostumamos a conviver folgadamente. Não nos empenhamos efetivamente na construção de um mundo melhor, mais justo, humano e fraterno pelo simples fato de crer que tudo não passa de aparência ou ilusão.
Para quem vive bem é fácil crer que a experiencialidade da vida alheia, da vida real e vivida, seja ilusória ou aparente.
Quem sofre sofre e por isso não esta interessado no númeno ou na coisa em si imaginada pelos filósofos de gabinete, geralmente bem vestidos e alimentados.
Ser cético face a dor alheia não é ser pensador ou filósofo. Me perdoem é ser cruel, canalha ou psicopata.
O grito de angústia do outro me faz perceber seu sentimento como real.
Chagas purulentas, farrapos, comida podre, palafitas, pontes de madeira, lama podre... é inferno real sobre a terra e sou chamado a posicionar-me face a ele ao invés de ficar diletando...
Para mim a negação do mundo implicará sempre na aceitação do mundo tal qual é e portanto em colaboração e servilismo. Aceito a realidade do mundo para empenhar-me em transforma-la.
Foi da imoderação dos céticos que partiu a negação da Ética e da negação da Ética ou do cientificismo comteano todas as culturas de morte que assombram o Ocidente. E o ceticismo com seu utilitarismo, com seu pragmatismo, com seu emotivismo e sobretudo com o relativismo crasso não lhes opôs resistência alguma. Deixou-nos indefesos face ao liberalismo crasso, o fascismo, os militarismos, o nazismo, o comunismo, etc Batemos de porta e porta pedindo ajuda a essas ideologias necrosadas e não achamos resposta alguma, apenas opressão e sórdida opressão e esmagamento do homem!
O ceticismo metafisico lanço-nos neste báratro de estruturas econômicas ou sociais e nos perdemos por completo e chegamos a negação do outro. Negamos o outro pelo dinheiro, pela raça, pela pátria, pelo partido, pela categoria, pelo gênero... Rotulamos, etiquetamos, desumanizamos...
Tudo porque lá atrás, lá no passado, algum gênio do mal ou ídolo podre declarou que nossa ética sendo meramente subjetiva, relativa e irracional não possuía qualquer padrão ou critério satisfatório.
Objetiva era apenas e tão somente a ciência material e empírica, filha das provetas e tubos dos laboratórios.
Como a Ética não fraciona, não conta, não mede, não pesa, não prevê... passou a ser identificada com os costumes ou preconceitos legados pelo passado remoto ou como resíduo transmitido a estes tempos áureos de par com as superstições mais degradantes...
No entanto era necessário substituir a Ética por alguma coisa. A princípio escolheram a 'deusa' razão. Mas o racionalismo de Voltaire, Rousseau, Diderot, Maine du Biran, Jouffroy, Damiron, Cousin, Renan, etc continuava remetendo os homens a um Ser Supremo e Legislador Eterno. Derribaram-na e entronizaram em seu lugar a ciência, e em seguida o capital, a pátria, a raça, o partido, etc E um deus foi derrubando e devorando seu predecessor... Alguns deuses apenas definharam, outros ressuscitaram quase que miraculosamente; e chegamos a esta luta inglória entre 'pés de barro' que consome as energias do mundo ocidental enquanto o abutre do islã permanece a espreita. A espreita duma civilização, que a semelhança do antigo Império romano, fragiliza-se dia após dia...
Quando encaro a infeliz Europa infeccionada pelos germes cadavéricos do ceticismo, do relativismo, do subjetivismo e das culturas de morte, ocorre-me a imagem horrenda do menino etíope, esquelético, observado pelo abutre faminto.
E ai esta o abutre... Lá em Paris o islamismo, aqui o pentecostalismo, nos EUA o Belt Bible...
Talvez a única liberdade que tenhamos seja a de escolher o monstro porque seremos devorados.
No entanto como ainda não morremos, não demos o último suspiro, não soltamos a respiração, não fomos devorados, temos ainda esperança.
No vestíbulo ainda do inferno de Dante resta-nos ainda um pingo de esperança.
E acreditamos que o cidadão ocidental, superando os preconceitos americanistas e pós modernos (que são o câncer desta civilização moribunda), será cada vez mais de contemplar seu passado, seja ele medieval ou clássico, e reencontrar-se nele ao descobrir as fontes e o sentido de sua cultura original.
Nestes tempos há quem aposte em Marx, em Mises, em Rootbarth, em Stirner, em Lutero, em Calvino, em Nietzsche, em Durkeim, em Dawkins, em Trump... Nós esperamos decididamente em dois derrotados: Num envenenado e num fugitivo ou seja em Sócrates e em Aristóteles, aos quais bem poderíamos adicionar um revolucionário e contestador supliciado nos confins da Judeia. São nossas fontes de inspiração juntamente com o já citado Marx, Weber, Darwin e especialmente Mestre Freud.
A eles: Sócrates e Jesus é que tomamos nosso critério ou padrão de Ética: O homem, sua vida, sua dignidade e sua liberdade.
Pois quando discursamos sobre este homem discursamos sobre nós mesmos lançados que fomos na mesma condição.
Todos conhecemos de perto a dor e a aborrecemos. Todos conhecemos por experiência o prazer e o desejamos, embora não sob a mesma forma!
O problema aqui não é a busca pelo prazer ou a fuga face a dor.
O problema é o outro.
O outro e nossa busca pelo prazer. O outro e nossa fuga face ao sofrimento.
Podemos sacrificar o outro, que é semelhante a nós, tendo em vista a aquisição do prazer ou a eliminação da dor?
Podemos usar o outro para adquirir o prazer ou suavizar a dor?
Podemos por de lado o elemento humano e cogitar apenas na dor e no prazer como fenômenos abstratos?
Qual deveria ser nossa intenção, a intenção reta, a intenção pura?
Como identificar-se é reconhecer a semelhança e admitir que também o outro foge a dor e busca o prazer, a reflexão é pertinente.
Na vida vivida em que fomos lançados isoladamente conseguimos muito pouco e sempre temos laços de dependência mútua.
Assim se hoje os outros dependem de nós, amanhã bem poderemos depender deles.
E quase sempre esperamos algo dos outros.
E até calculamos o que devemos fazer para agradar os outros e ser favoravelmente satisfeitos.
Tendemos a confiar na reciprocidade.
É uma tendência natural esperar o melhor do outro, especialmente quando nos adiantamos e beneficia-mo-lo.
Quantas vezes não recebemos nada do que desejamos justamente porque nada demos e fizemos por merecer?
Neste sentido adiantar-se e beneficiar o outro - ao menos desde que não haja dano ou prejuízo para nós - parece ser a atitude ou critério mais sábio.
Pois se tratarmos os outros como desejamos ser por eles tratados e portanto sempre que possível for amável e benignamente, honramos a natureza comum.
Ademais na medida em que nossas atitudes forem sendo imitadas pelos demais e a corrente do bem tornando-se mais densa as chances de sermos nós mesmos beneficiados irão se tornando bem maiores. Trata-se portanto dum princípio que se levado a sério melhorará a vida de todos.
Da mesma forma, se esperamos que não nos façam quaisquer males comecemos abstendo-nos de fazer mal aos outros. De modo que nosso exemplo venha a ser imitado e o mal entre em declínio.
Evidentemente que este padrão de comportamento nos remete a espécie ou gênero humano em termos de solidariedade.
Ao fazer mal a mesma qualidade que esta no outro faço mal a mim. Pois pela razão, a liberdade, a vontade, a percepção, etc estou no outro e sou um com ele. E ao beneficia-lo beneficio a mim mesmo.
Assim nosso padrão ou critério será o homem ou melhor ainda a humanidade, a espécie humana; e tudo quando a favorece.
Agora quais os bens mais caros e preciosos ao homem?
Antes e tudo a vida! Condição primária para que tenhamos acesso a todos os outros bens oferecidos pelo universo. Não há como ter acesso ao prazer sem estar vivo.
Assim a Ética da pessoa valorizará antes de tudo a vida, e se oporá decididamente a morte, assim ao assassinato e assim a pena capital (embora aqui possam ser feitas algumas exceções).
No entanto esta vida deve valer a pena. Devendo ser digna para ser prazerosa.
E por dignidade devemos considerar antes de tudo a ausência de dor.
Sob pretexto algum seria lícito fazer o outro sofrer, assim profanar-lhe o corpo, mutilar seus membros e tortura-lo. É crime dos mais perversos e abomináveis digno apenas de psicopatas e povos bárbaros.
A integridade do corpo, seguem-se em matéria de dignidade humana a saúde, a alimentação, a vestimenta, a habitação e o lazer.
Abster-se-a o homem virtuoso de comprometer direta ou indiretamente a saúde, a alimentação, a habitação e o ócio alheios. Jamais poderá subtrair remédios, comida, bebida, roupa, brinquedos, etc aqueles que os tenham adquirido honestamente e deles façam uso.
Agora como tais bens costumam ser adquiridos pelo próprio sujeito as custas do valor auferido pelo trabalho que exerce, chegamos a questão da propriedade pessoal. A qual jamais deverá ser confundida com a posse dos meios de produção, esta sempre poderá ser questionada e ter sua legitimidade negada; aquela jamais. A propriedade pessoal é sagrada e inalienável e sua apropriação por particulares ou pelo Estado um crime abominável.
Por propriedade pessoal definimos os proventos obtidos por meio do trabalho. Assim o salário ou estipêndio, bem como todos os objetos ou coisas adquiridos a partir dele. Portanto se um imóvel foi comprado por um trabalhador com as economias advindas de seu trabalho temos propriedade pessoal e portanto intocável. O homem virtuoso jamais ousará apropriar-se de qualquer objeto adquirido as custas do suor alheio, assim não furtará.
Obviamente que isto não toca a questão da herança, do excesso, do acúmulo, etc mas apenas das propriedades e bens adquiridos com o suor do trabalho e USADOS pela família.
Claro que tudo isto nos leva a questão da justiça pessoa e social.
Em termos clássicos definimos a justiça como dar a cada qual aquilo que lhe pertence. Isto apenas é certo, correto e direito.
Aquele que trabalhou e produziu pertence ao menos parte da produção em termos de valor. Como aquele que plantou uma árvore e dela cuidou merece colher os frutos e degusta-los. E aquele que semeou o trigo e por ele velou pertence o direito de ceifa-lo e converte-lo em pão. E aquele que adquiriu a uva e transformou-a em vinho em seu lagar, a felicidade de bebe-lo.
O compromisso do homem com a justiça implica questionar sempre se as pessoas estão tendo acesso aos bens que ajudaram a produzir, e a analisar e a questionar a repartição dos bens.
Há por fim aquela Ética atinente a liberdade humana ou a auto determinação da pessoa e que diz respeito a suas escolhas. Implica admitir que as pessoas possam exercer o ofício que bem quiserem, acreditar no que quiserem (ou não), expressar-se como desejarem e determinar o que haverão de comer, beber, trajar, ouvir e com quem haverão ou se haverão de casar ou com quem haverão de transar... etc, etc, etc.
Como todos desejamos ser livre e determinar nossas vidas é perfeitamente compreensível do ponto de vista racional, que reconheçamos a liberdade alheia. Afinal na mesma medida em que aspirarmos dominar os outros, outros aspirarão dominar-nos. Então o menor é que respeitemos as liberdades uns dos outros numa perspectiva comum. Claro que a dimensão da liberdade tem um limite bastante preciso: A vida, a dignidade alheia e os imperativos da justiça. Grosso modo podemos dizer que a pessoa tudo pode exceto causar dano ou prejuízo ao outro.
Chegamos assim ao supremo critério de ética.
Se o padrão é o outro e aquilo que o outro teme é a dor ou o sofrimento, segue-se que posso fazer absolutamente tudo quanto me der na telha, desde que não atinja ou acometa o outro.
Por este critério temos o fim da moralidade enquanto costume arbitrário e a consagração de uma ética essencialista, humanista e racional.
E temos como saber perfeitamente que a norma: "Não vestireis ao mesmo tempo roupas de lã e linho." em termos de Ética não faz sentido algum pelo simples fato de que a associação dos dois tecidos não prejudica a quem quer que seja.
Dá mesma forma o preceito: "Proibido comer coscorões." torna-se igualmente irrelevante pelo simples fato de não tocar ou atingir a pessoa humana.
Já a recomendação para amar, beneficiar, respeitar e tornar felizes o maior número de seres humanos converte-se em imperativo categórico, num mandamento ou numa necessidade.
Promover o outro em todos os sentidos e sob pretexto algum incomoda-lo. Aqui temos uma regra de ouro.
Justamente por não 'admitirmos' a objetividade essencial das coisas somos absolutamente levianos, acomodados, descompromissados, insensíveis.
Graças a essa brincadeira de muito mau gosto alimentada pelo ethos burguês chegamos a duvidar da existência do ser e consequentemente da existência da pobreza, da injustiça, da miséria, da opressão, da dor e do sofrimento alheio, como o qual nos acostumamos a conviver folgadamente. Não nos empenhamos efetivamente na construção de um mundo melhor, mais justo, humano e fraterno pelo simples fato de crer que tudo não passa de aparência ou ilusão.
Para quem vive bem é fácil crer que a experiencialidade da vida alheia, da vida real e vivida, seja ilusória ou aparente.
Quem sofre sofre e por isso não esta interessado no númeno ou na coisa em si imaginada pelos filósofos de gabinete, geralmente bem vestidos e alimentados.
Ser cético face a dor alheia não é ser pensador ou filósofo. Me perdoem é ser cruel, canalha ou psicopata.
O grito de angústia do outro me faz perceber seu sentimento como real.
Chagas purulentas, farrapos, comida podre, palafitas, pontes de madeira, lama podre... é inferno real sobre a terra e sou chamado a posicionar-me face a ele ao invés de ficar diletando...
Para mim a negação do mundo implicará sempre na aceitação do mundo tal qual é e portanto em colaboração e servilismo. Aceito a realidade do mundo para empenhar-me em transforma-la.
Foi da imoderação dos céticos que partiu a negação da Ética e da negação da Ética ou do cientificismo comteano todas as culturas de morte que assombram o Ocidente. E o ceticismo com seu utilitarismo, com seu pragmatismo, com seu emotivismo e sobretudo com o relativismo crasso não lhes opôs resistência alguma. Deixou-nos indefesos face ao liberalismo crasso, o fascismo, os militarismos, o nazismo, o comunismo, etc Batemos de porta e porta pedindo ajuda a essas ideologias necrosadas e não achamos resposta alguma, apenas opressão e sórdida opressão e esmagamento do homem!
O ceticismo metafisico lanço-nos neste báratro de estruturas econômicas ou sociais e nos perdemos por completo e chegamos a negação do outro. Negamos o outro pelo dinheiro, pela raça, pela pátria, pelo partido, pela categoria, pelo gênero... Rotulamos, etiquetamos, desumanizamos...
Tudo porque lá atrás, lá no passado, algum gênio do mal ou ídolo podre declarou que nossa ética sendo meramente subjetiva, relativa e irracional não possuía qualquer padrão ou critério satisfatório.
Objetiva era apenas e tão somente a ciência material e empírica, filha das provetas e tubos dos laboratórios.
Como a Ética não fraciona, não conta, não mede, não pesa, não prevê... passou a ser identificada com os costumes ou preconceitos legados pelo passado remoto ou como resíduo transmitido a estes tempos áureos de par com as superstições mais degradantes...
No entanto era necessário substituir a Ética por alguma coisa. A princípio escolheram a 'deusa' razão. Mas o racionalismo de Voltaire, Rousseau, Diderot, Maine du Biran, Jouffroy, Damiron, Cousin, Renan, etc continuava remetendo os homens a um Ser Supremo e Legislador Eterno. Derribaram-na e entronizaram em seu lugar a ciência, e em seguida o capital, a pátria, a raça, o partido, etc E um deus foi derrubando e devorando seu predecessor... Alguns deuses apenas definharam, outros ressuscitaram quase que miraculosamente; e chegamos a esta luta inglória entre 'pés de barro' que consome as energias do mundo ocidental enquanto o abutre do islã permanece a espreita. A espreita duma civilização, que a semelhança do antigo Império romano, fragiliza-se dia após dia...
Quando encaro a infeliz Europa infeccionada pelos germes cadavéricos do ceticismo, do relativismo, do subjetivismo e das culturas de morte, ocorre-me a imagem horrenda do menino etíope, esquelético, observado pelo abutre faminto.
E ai esta o abutre... Lá em Paris o islamismo, aqui o pentecostalismo, nos EUA o Belt Bible...
Talvez a única liberdade que tenhamos seja a de escolher o monstro porque seremos devorados.
No entanto como ainda não morremos, não demos o último suspiro, não soltamos a respiração, não fomos devorados, temos ainda esperança.
No vestíbulo ainda do inferno de Dante resta-nos ainda um pingo de esperança.
E acreditamos que o cidadão ocidental, superando os preconceitos americanistas e pós modernos (que são o câncer desta civilização moribunda), será cada vez mais de contemplar seu passado, seja ele medieval ou clássico, e reencontrar-se nele ao descobrir as fontes e o sentido de sua cultura original.
Nestes tempos há quem aposte em Marx, em Mises, em Rootbarth, em Stirner, em Lutero, em Calvino, em Nietzsche, em Durkeim, em Dawkins, em Trump... Nós esperamos decididamente em dois derrotados: Num envenenado e num fugitivo ou seja em Sócrates e em Aristóteles, aos quais bem poderíamos adicionar um revolucionário e contestador supliciado nos confins da Judeia. São nossas fontes de inspiração juntamente com o já citado Marx, Weber, Darwin e especialmente Mestre Freud.
A eles: Sócrates e Jesus é que tomamos nosso critério ou padrão de Ética: O homem, sua vida, sua dignidade e sua liberdade.
Pois quando discursamos sobre este homem discursamos sobre nós mesmos lançados que fomos na mesma condição.
Todos conhecemos de perto a dor e a aborrecemos. Todos conhecemos por experiência o prazer e o desejamos, embora não sob a mesma forma!
O problema aqui não é a busca pelo prazer ou a fuga face a dor.
O problema é o outro.
O outro e nossa busca pelo prazer. O outro e nossa fuga face ao sofrimento.
Podemos sacrificar o outro, que é semelhante a nós, tendo em vista a aquisição do prazer ou a eliminação da dor?
Podemos usar o outro para adquirir o prazer ou suavizar a dor?
Podemos por de lado o elemento humano e cogitar apenas na dor e no prazer como fenômenos abstratos?
Qual deveria ser nossa intenção, a intenção reta, a intenção pura?
Como identificar-se é reconhecer a semelhança e admitir que também o outro foge a dor e busca o prazer, a reflexão é pertinente.
Na vida vivida em que fomos lançados isoladamente conseguimos muito pouco e sempre temos laços de dependência mútua.
Assim se hoje os outros dependem de nós, amanhã bem poderemos depender deles.
E quase sempre esperamos algo dos outros.
E até calculamos o que devemos fazer para agradar os outros e ser favoravelmente satisfeitos.
Tendemos a confiar na reciprocidade.
É uma tendência natural esperar o melhor do outro, especialmente quando nos adiantamos e beneficia-mo-lo.
Quantas vezes não recebemos nada do que desejamos justamente porque nada demos e fizemos por merecer?
Neste sentido adiantar-se e beneficiar o outro - ao menos desde que não haja dano ou prejuízo para nós - parece ser a atitude ou critério mais sábio.
Pois se tratarmos os outros como desejamos ser por eles tratados e portanto sempre que possível for amável e benignamente, honramos a natureza comum.
Ademais na medida em que nossas atitudes forem sendo imitadas pelos demais e a corrente do bem tornando-se mais densa as chances de sermos nós mesmos beneficiados irão se tornando bem maiores. Trata-se portanto dum princípio que se levado a sério melhorará a vida de todos.
Da mesma forma, se esperamos que não nos façam quaisquer males comecemos abstendo-nos de fazer mal aos outros. De modo que nosso exemplo venha a ser imitado e o mal entre em declínio.
Evidentemente que este padrão de comportamento nos remete a espécie ou gênero humano em termos de solidariedade.
Ao fazer mal a mesma qualidade que esta no outro faço mal a mim. Pois pela razão, a liberdade, a vontade, a percepção, etc estou no outro e sou um com ele. E ao beneficia-lo beneficio a mim mesmo.
Assim nosso padrão ou critério será o homem ou melhor ainda a humanidade, a espécie humana; e tudo quando a favorece.
Agora quais os bens mais caros e preciosos ao homem?
Antes e tudo a vida! Condição primária para que tenhamos acesso a todos os outros bens oferecidos pelo universo. Não há como ter acesso ao prazer sem estar vivo.
Assim a Ética da pessoa valorizará antes de tudo a vida, e se oporá decididamente a morte, assim ao assassinato e assim a pena capital (embora aqui possam ser feitas algumas exceções).
No entanto esta vida deve valer a pena. Devendo ser digna para ser prazerosa.
E por dignidade devemos considerar antes de tudo a ausência de dor.
Sob pretexto algum seria lícito fazer o outro sofrer, assim profanar-lhe o corpo, mutilar seus membros e tortura-lo. É crime dos mais perversos e abomináveis digno apenas de psicopatas e povos bárbaros.
A integridade do corpo, seguem-se em matéria de dignidade humana a saúde, a alimentação, a vestimenta, a habitação e o lazer.
Abster-se-a o homem virtuoso de comprometer direta ou indiretamente a saúde, a alimentação, a habitação e o ócio alheios. Jamais poderá subtrair remédios, comida, bebida, roupa, brinquedos, etc aqueles que os tenham adquirido honestamente e deles façam uso.
Agora como tais bens costumam ser adquiridos pelo próprio sujeito as custas do valor auferido pelo trabalho que exerce, chegamos a questão da propriedade pessoal. A qual jamais deverá ser confundida com a posse dos meios de produção, esta sempre poderá ser questionada e ter sua legitimidade negada; aquela jamais. A propriedade pessoal é sagrada e inalienável e sua apropriação por particulares ou pelo Estado um crime abominável.
Por propriedade pessoal definimos os proventos obtidos por meio do trabalho. Assim o salário ou estipêndio, bem como todos os objetos ou coisas adquiridos a partir dele. Portanto se um imóvel foi comprado por um trabalhador com as economias advindas de seu trabalho temos propriedade pessoal e portanto intocável. O homem virtuoso jamais ousará apropriar-se de qualquer objeto adquirido as custas do suor alheio, assim não furtará.
Obviamente que isto não toca a questão da herança, do excesso, do acúmulo, etc mas apenas das propriedades e bens adquiridos com o suor do trabalho e USADOS pela família.
Claro que tudo isto nos leva a questão da justiça pessoa e social.
Em termos clássicos definimos a justiça como dar a cada qual aquilo que lhe pertence. Isto apenas é certo, correto e direito.
Aquele que trabalhou e produziu pertence ao menos parte da produção em termos de valor. Como aquele que plantou uma árvore e dela cuidou merece colher os frutos e degusta-los. E aquele que semeou o trigo e por ele velou pertence o direito de ceifa-lo e converte-lo em pão. E aquele que adquiriu a uva e transformou-a em vinho em seu lagar, a felicidade de bebe-lo.
O compromisso do homem com a justiça implica questionar sempre se as pessoas estão tendo acesso aos bens que ajudaram a produzir, e a analisar e a questionar a repartição dos bens.
Há por fim aquela Ética atinente a liberdade humana ou a auto determinação da pessoa e que diz respeito a suas escolhas. Implica admitir que as pessoas possam exercer o ofício que bem quiserem, acreditar no que quiserem (ou não), expressar-se como desejarem e determinar o que haverão de comer, beber, trajar, ouvir e com quem haverão ou se haverão de casar ou com quem haverão de transar... etc, etc, etc.
Como todos desejamos ser livre e determinar nossas vidas é perfeitamente compreensível do ponto de vista racional, que reconheçamos a liberdade alheia. Afinal na mesma medida em que aspirarmos dominar os outros, outros aspirarão dominar-nos. Então o menor é que respeitemos as liberdades uns dos outros numa perspectiva comum. Claro que a dimensão da liberdade tem um limite bastante preciso: A vida, a dignidade alheia e os imperativos da justiça. Grosso modo podemos dizer que a pessoa tudo pode exceto causar dano ou prejuízo ao outro.
Chegamos assim ao supremo critério de ética.
Se o padrão é o outro e aquilo que o outro teme é a dor ou o sofrimento, segue-se que posso fazer absolutamente tudo quanto me der na telha, desde que não atinja ou acometa o outro.
Por este critério temos o fim da moralidade enquanto costume arbitrário e a consagração de uma ética essencialista, humanista e racional.
E temos como saber perfeitamente que a norma: "Não vestireis ao mesmo tempo roupas de lã e linho." em termos de Ética não faz sentido algum pelo simples fato de que a associação dos dois tecidos não prejudica a quem quer que seja.
Dá mesma forma o preceito: "Proibido comer coscorões." torna-se igualmente irrelevante pelo simples fato de não tocar ou atingir a pessoa humana.
Já a recomendação para amar, beneficiar, respeitar e tornar felizes o maior número de seres humanos converte-se em imperativo categórico, num mandamento ou numa necessidade.
Promover o outro em todos os sentidos e sob pretexto algum incomoda-lo. Aqui temos uma regra de ouro.
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