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domingo, 26 de novembro de 2023

Religião, credulidade e incredulidade





                                                          OS MILAGRES


Acho mesmo muita canalhice alguém afirmar que Deus é bom e maravilhoso só porque está tudo bem com ela. Quer dizer que quando der ruim Deus ficará sendo feio e mau...

A meu ver essas pessoas que acreditam que a divindade atua exclusivamente em favor delas ou de seu grupo são pessoas sem caráter, egoístas e centradas em si mesmas.

Não tenho motivo algum para julgar que atue Deus em favor delas enquanto nada faz pelas criancinhas famintas da África ou da Ásia - Mesmo porque as criancinhas são inocentes enquanto que elas...

Por outro lado leio na pura palavra de Deus, que ele - Deus, não faz acepção de pessoas; mas que faz chover sobre justos e injustos, sendo imparcial...

Enquanto o ego carnal se apresenta como especial ou como algo da predileção divina, declara Deus que todos são iguais e portanto que não atua em favor de A, B ou C.

Imagina só o caboclo se matando de estudar para passar no vestibular ou no concurso público e Deus ajudando e promovendo sujeito que não estudou, i é, um vagabundo parasita.

Tampouco me parece digno que altere Deus a ordem de um mundo que ele mesmo criou... Afinal porque consertaria Deus algo que poderia ter feito melhor desde o princípio...

Enfim julgo que pessoa alguma daria o melhor de si para evitar algum erro caso contasse com o bom Deus para consertar suas 'cagadas'. Nesse ponto um sadio deísmo ou naturalismo, que exclui o fetichismo, oferece-nos melhores garantias em termos de prevenção de acidentes... E de fato penso que qualquer profissional que qualquer profissional que acredite em milagres ou intervenção divina, tenda a ser mais displicente que um cesssacionista.

Por fim a busca por milagres e eventos sobrenaturais corresponda a uma alteração da ordem divina na medida em que apresenta a divindade como estando a serviço das criaturas ou como executora da vontade delas.


EXTREMA SIT TAGUNT

São nossos neo ateus notáveis por confundir a totalidade das pessoas religiosas com radicais protestantes ou muçulmanos i é com pentecostais/calvinistas e sunitas... O que me parece uma deturpação da realidade ou pura e simples desonestidade.
Também me parecem equivocados quando associam a existência de Deus ao discurso religioso ou quando atribuem a questão da existência de Deus a autoridade, livros, fé, religião, etc e, ainda aqui, se mostram herdeiros de Kant, um pensador luterano alemão que buscava justificar o fideísmo ou exaltar a fé cega.
De fato, seguindo a mesma linha do agostiniano pessimista Lutero Kant tinha por lema abater a a percepção, a racionalidade e a metafísica naturalista ou a capacidade especulativa dos seres humanos para glorificar a fé ou a Revelação divina. Acho incrível mesmo que os céticos, agnósticos e ateus elevem aos céus um autor cujo pensamento deriva justamente do universo religioso e de um universo religioso deplorável. Os protestantes, bíblicos e fundamentalistas agradecem, - Pois situando a divindade no plano da fé cega o debate se torna impossível, e consequentemente qualquer tentativa de impugnação. Segundo o critério de Kant o deus dos fanáticos é sempre intangível.
De fato se a existência da religião revelada depende da existência de Deus, Deus sempre poderia existir sem se ter comunicado com os seres humanos, como predicam os deistas. De modo que a relação não é natural ou necessária e da falsidade das religiões em seu conjunto nada se poderia aduzir de concreto sobre a existência Deus, exceto que seus supostos ou pretensos porta vozes são falsos. A questão em si, da existência de Deus, continuaria sendo tema da metafísica ou da teodiceia, exatamente como foi colocado pelos grandes pensadores gregos: Xenófanes de Colofon, Diógenes de Apolônia, Anaxágoras, Parmênides, Sócrates, Platão, Aristóteles, Crísipo de Solis, Cleanto de Assos, etc
Acho curioso que os modernos passem da fé cega numa religião qualquer diretamente ao ateísmo ou a negação de Deus, sem sequer examinar o agnosticismo ou o deísmo, ao contrário de nossos nobres e prudentes ancestrais. Coisas da bíblia é claro, digo eu, pois apenas a leitura despreparada e irrefletida desse livro poderia causar um tão estranho prodígio.
'Tocam-se os extremos" como diria o 'estagirita' - E de um extremo a outro vão as massas.


PROTESTANTISMO E INCREDULIDADE.


Coisa notável é o protestantismo por produzir, nas massas idiotizadas, um topor estúpido e nos humanos mais inteligentes, materialismo e ateísmo, i é, apostasia. Disto talvez resulte, no futuro, um grande conflito social entre os dois extremos.

domingo, 1 de março de 2020

Nótulas sobre o pensamento contemporâneo

- Como já dissemos nem Descartes nem Spinoza foram iconoclastas no sentido de negar por completo o passado ou o pensamento antigo. Criaram algo novo, novos espaços e setores, os quais todavia conectaram aquele passado. Tampouco Hume ou mesmo La Mothe Vayer, assim Montaigne criaram algo que fosse radicalmente novo, remontando sempre aos céticos do passado ou a tradição agostiniana. Kant é quem criou algo de novo ou um novo sistema, merecendo ser classificado como Copérnico ou Lutero da Filosofia. Foi ele que, buscando elaborar uma solução de compromisso entre o ceticismo e o dogmatismo, produziu o idealismo transcendental ou crítico condenando o exercício da Metafísica ou melhor da Teodiceia e buscando justificar o conhecimento derivado do empirismo, do que resultou a ideologia positivista. Buscou assim Kant evadir-se ao materialismo, ao espiritualismo, ao teísmo e ao ateísmo, lançando as bases do agnosticismo.

No entanto este mesmo Kant, enquanto pensador do conhecimento ou gnoseológico, fugiu a simples empiria e praticou a especulação metafísica. Resulta disto que não repudiou a Metafísica como um todo, e que fez um recorte, focalizando sua crítica na Teodiceia i é em Deus e por ext na imortalidade da alma, com o objetivo de apresentar tais problemas como intangíveis ao intelecto e assim como insolúveis. Agora por que fez Kant este recorte, fixando arbitrariamente (Onde achou ou quis.) as "Colunas de Hércules" da reflexão? Para dar competente resposta a indagação acima devemos ter em mente que esse tão aclamado Kant era Luterano - Jamais rompeu formalmente com essa fé - e que Lutero, irracionalista e fideísta (Agostiniano), tinha Aristóteles, a Filosofia greco romana, o pensamento clássico, a Teodiceia naturalista e a própria razão em conta de seus principais inimigos (Mais do que o Papa romano). Lutero queria tudo atribuir a fé e Kant seguiu-o, atribuindo o tema de Deus a religião, a fé ou aos livros religiosos, e dando todos os antigos gregos por perfeitos estúpidos. Kant foi um imitador de Pirro no sentido de buscar justificar metafisicamente ou filosoficamente um preconceito de origem religiosa, no primeiro caso o Luteranismo e no segundo o Busdismo... a dinâmica é a mesma - A Epoché continua sendo budista (Assim a ataraxia) e o fideísmo gnoseológico continua sendo luterano, sem que haja verdadeiro conteúdo filosófico em tais afirmações. No primeiro caso temos apenas uma mutilação arbitrária e no segundo uma fuga face a reflexão filosófica. (cf Kant e a Teologia)

- Quanto a linguagem ou expressão, bastante complexa, com que nos deparamos na obra de Kant há muita crítica injusta e destemperada. Que hajam graves contradições - Apontadas com habilidade pelo Pe Thiago Sinibaldi - em seu pensamento é assente e demonstrável, que tenha cunhado expressões ocas nos parece exagerado e injusto. Kant visava dar golpe de misericórdia na escolástica (A qual recusava-se a estudar - O que nos parece bem pouco filosófico). Para tanto foi a suas fontes mais remotas i é a Aristóteles (Campeão da Teologia natural) cujo vocabulário técnico, bastante complexo, adota e assume. Kant não tem culpa de que os modernos ou pós modernistas ignorem supinamente o aparato conceitual aristotélico.

- Resta dizer que quem é por Kant, esta em conflito aberto com tudo quanto o antecede, assim com Parmenides, Anaxágoras, Sócrates, Platão, Aristóteles, Speusipos, Straton, Dikaiarkos, Xenócrates, Crantor, Zenon, Antioco, Cícero, Sêneca, Filiponos, Eurígena, Aquino, Scottus, Phleton, Ficcino, Pomponnazi, Telésio, Erasmo, Bacon, Descartes, Spinoza...

- Outro é o caso de Hegel, metafísico confesso, o qual prosseguiu decididamente na senda traçada por Leibnitz, construindo expressões ainda mais grotescas, pomposas e vazias (cf Schopenhauer)  Criou uma Filosofia de bolha de sabão ou bexiga, a custa de tais expressões sem sentido e disto resultou outro sistema bastante aclamado em torno do Estado, o qual a partir de um lento processo imanente identifica com o pensamento divino. Deste homem confuso e desorientado partiram todos os idealistas alemães como Fichte, Schelling e aqueles tão criticados por Marx na 'Ideologia alemã', cada qual apresentando uma versão própria da 'filosofia' e pagando tributo a um subjetivismo desbragado. A reação, como não poderia deixar de ser, foi a 'inversão' de Marx, i é, em termos já de materialismo/ateísmo ou de positivismo. Em certo sentido Hegel, pela via da compulsão, conduziu a metafísica alemã ao colapso e a morte, fortalecendo a posição dos kantianos e marxistas.

- Marx, não se satisfazendo com a metafísica materialista mecanicista dos iluministas franceses (Helvetius e De Holbach), adicionou alguns temperos hegelianos e a partir de uma análise histórico social, formulou sua doutrina do materialismo dialético. O preconceito materialista seja sob um ou outro rótulo, cegou-o e desviou-o para sempre de um são realismo. Ele jamais pode reconhecer, em pé de igualdade com as forças materialistas de produção, o potencial concreto das ideias fossem ou não religiosas. Concedemos que deparou com uma Sociedade materialista e economicista e com uma religiosidade - Representada pelo protestantismo - derrotada e servil... No entanto este encontro não justifica a generalização abstrata com que pretendeu, a partir desta realidade particular ou específica, explicar todo processo histórico, desde a História primitiva, incluindo a Antiguidade e a I Média. Fugiu aos limites do simples recorte e metafisicou.

A simples existência dos mártires Cristãos dos primeiros séculos ou da substituição do paganismo antigo pelo Cristianismo, a dinâmica do islamismo ou do Japão e China budistas e o significado do socratismo deveriam te-lo alertado a respeito de suas precipitações. Especialmente após Fustel de Coulanges - Antecipando Weber, Graves, Dawson, Butterfield e Voeglin - ter publicado sua monumental 'Cidade antiga'.

- Atenuando as críticas nem sempre justas e sensatas de Popper convém admitir que a obra de Marx possui dois aspectos: Um objetivo ou como dizem científico que é sua análise crítica do capitalismo mormente representada pelo Capital. Esta não apenas permanece válida como foi utilizada por J M Keynes. O outro aspecto parece fugir a sua orientação - Não a nossa! - materialista, pré positivista, anti metafísica, etc é seu apelo a uma normatividade ética ou ideal ou seu futurismo. Marx, ao contrário dos demais empiristas/materialistas ressente, ao fim de tudo, uma influência Socrático/Cristã. Pelo simples fato de não contentar-se com uma realidade dada (O que é) tida em conta de injusta, ousando crítica-la e substitui-la por uma outra ordem, a qual só pode ser derivada de princípios ou valores ideais. Disto resultou a Ideologia Comunista, a qual apesar de seus equívocos monstruosamente bizarros, foge ao conformismo anti ético e até cruel de seus críticos ateus, materialistas, positivistas e cientificistas. Ora os humanistas e Cristãos, mesmo discordando quanto aos métodos propostos por Marx e seus colaboradores, não podem acompanhar os ateus, materialistas, positivistas e cientificistas quanto a aceitação passiva de uma realidade ingrata ou injusta. E por isso, em que pesem os erros gravíssimos do comunismo, ousam declarar que a posição de parte de seus críticos é ainda pior e mais grave.

- Já aludimos diversas vezes ao erro de Freud. Como Marx ele fugiu aos limites do recorte e dando com uma realidade cultural ou particular, abstraiu do tempo do tempo e do espaço, elaborando uma metafísica pan sexualista posteriormente emendada ou reformada com base nas sensatas críticas elaboradas por seus ex discípulos. De modo que num determinado momento o próprio Freud - Sem jamais retratar-se formalmente - rompe com o paradigma sexualista e admite outros princípios de regulação. Sua abstração metafísica, como a de Marx, é grotesca. Não seu método ou o caráter relativo de suas constatações, menos ainda o resultado de sua crítica ao puritanismo/moralismo vigente. Claro que a partir de suas críticas parte da Sociedade passou ao extremo contrário, i é a um sexismo desbragado, com sérias consequências sociais, políticas e culturais. Em que pese este desvio continuamos buscando utopicamente por um padrão de equilíbrio em que a sexualidade humana seja aceita com naturalidade, mas, sem ser deificada ou exaltada acima de tudo.

- Darwin alias é anterior a Freud. Porém queríamos estabelecer uma conexão entre o erro de um e de outro. Darwin não pertence aos domínios da Filosofia ou do pensamento abstrato posto que pesquisador ou naturalista. Era ele um homem do empirismo. No entanto sua formulação teorética - já antecipada por Lamarck, St Hillaire e outros - não poderia deixar de incidir sobre todos os domínios do pensamento humano - Psicologia e teologia, passando pela economia e pela sociologia. Foi a partir dele que o naturalismo converteu-se num paradigma, mais do que a própria evolução. Assim ele coroa a obra de Copérnico, Agricola, Newton, Hutton e Buffon/Lamarck/St Hilaire, demonstrando que o corpo humano esta inserido na ordem natural e que também este homem vaidoso não passa de um animal, ainda que racional. Não é o centro do universo, tampouco o centro da terra e sequer o centro da vida. Destarte terá este homem de procurar sua particularidade gloriosa na capacidade perceptiva e racional para a reflexão e para a apreensão das verdades metafísicas. A Filosofia é que lhe trará o sentido especial que sempre buscou por caminhos errados. É este homem um dentre tantos animais, vagando sobre um grão de pó na periferia do espaço... E no entanto, como dizia Pascal nos 'Pensamentos', tem consciência de si ou pensa, enquanto que nem Júpiter, nem o Sol, nem Arcturo tem consciência de si ou capacidade para pensar. É um caniço, um verme, um grão de poeira ou uma átomo perdido na imensidão do universo, e ainda assim caniço, verme, poeira ou átomo pensante...

- Einstein, o qual jamais supos que sua teoria física da relatividade geral fosse gnoseologicamente relativa ou duvidosa, demoliu o mito do espaço absoluto. Tudo quando temos em nosso universo é uma relação entre corpos em movimento. Neste universo que se expande ou amplia tudo esta em movimento, pois o estado de repouso é relativo a certas situações vividas por nós humanos. Este computador bem pode estar em repouso com relação a mim... Move-se no entanto caso esteja eu num trem. Move-se com as placas tectônicas, com o planeta, com a galáxia, com o universo... Tudo é movimento. E o tempo uma propriedade deste universo em expansão. Por isso nosso referenciais de tempo são relativos a terra ou ao sol, não absolutos. Quiçá o aspecto mais interessante da teoria da relatividade geral não seja a teoria em si - Simples dedução com base nas experiências feitas por Morley em 1881 - mas sua expressão (Tomada a Descartes e Newton) em termos matemáticos cujo sentido e exatidão pouquíssimos intelectuais foram capazes de compreender.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Buscando responder algumas objeções levantadas I




Resultado de imagem para altruismo




Discordar pressupõem variação, e parece indicar complexidade, indeterminação e quiçá liberdade



Discordar é uma atitude rica de significados.

Como há um sem número de ideologias e pontos de vistas diferentes, a variedade parece indicar que de fato não somos comandados ou determinados por genes. A menos que os genes além de tencionados e por consequências conscientes (Ed Husserl) sejam também pensadores ou ideólogos...

A tabela periódica possui uns cento e poucos elementos. Portanto a variação é mínima... Nossas ideias, opiniões, crenças, teorias e visões de mundo, etc superam muito provavelmente o número de nossos genes, afinal são bilhões de seres humanos e não menos de dezenas ou centenas de milhões de seres humanos 'conscientes' experimentando e julgando criticamente o mundo i é produzindo concepções e doutrinas que se cruzam e produzem outras tantas, algumas que materializam -se outras que não se materializam, o que, como diz C G Jung é absolutamente irrelevante.



Um ser que elabora perguntas inoportunas



Veja uma obra de arte por exemplo, seu valor consiste justamente em não ter utilidade alguma, é pragmaticamente um mistério que Steven Pinker, o grande mago, esqueceu de alistar entre seus imponderáveis (a respeito dos quais os gregos tanto ponderaram e tantos homens ilustres ponderam ainda.) Produtos da mesma hipertrofia evolutiva que concedeu-nos um cérebro ou um aparelho cognitivo capaz de elaborar questões que os cientistas - materialistas e neo darwinistas é claro - dizem ser inoportunas ou irrespondíveis. É o que diz Pinker (com Kant) em seu livro 'Como funciona a mente' creio que a pag 256 ou segs onde declara que nosso aparelho cognitivo não foi feito para a verdade (Então como ele sabe que não esta equivocado???)...

A riqueza da cultura é mais ampla do que a riqueza genética.


Após esta digressão o que quis dizer é que nosso universo ou variedade cultural parece bem mais amplo do que nossos genes ou nosso universo genético, assemelhando-se a um turbilhão. Claro que se trata apenas duma hipótese a ser verificada no momento em que todas as ideias ou teorias e concepções humanas venham a ser matematicamente contabilizadas. Mas, como Pascal, faço já a aposta na transcendência da cultura face ao número dos genes. Agora se genes de algum modo produzem ideias (não creio nessa xaropada metafísica chamada memética, cujos devaneios, a contento, revelaremos - A gênese e forma da cultura é totalmente outra) são entidades pensantes, além de possuírem intencionalidade e consciência; e estamos já no reino da Carochinha...


Pinker vs Pinker


Agora veja meu bom amigo, o sr Pinker pronunciando-se categoricamente sobre o que acabara de alistar entre seus imponderáveis, uma vez que tal questão, sobre a possibilidade do conhecimento, é metafísica - qualquer doutrina sobre a validade do conhecimento, ultrapassando a empiria, como o empirismo, é metafisica - e epistemológica. É sempre possível que Pinker, no fim das contas repudie ao princípio de contradição de Parmenides, não o sei. Mas sei que responde a uma questão que alista entre seus imponderáveis... E responde-a da pior maneira possível, com Kant.


Hume e Kant (Jamais saímos disto!)


Kant é uma personagem chave a respeito de tudo quanto discutimos. E citado frequentemente por todos os modernistas como uma espécie de oráculo - 'Magister dixit'. David Hume, de cuja honestidade não podemos duvidar, também declarou que o aparelho cognitivo humano não estava posto para a verdade e por isso repudiou a religião, a filosofia e é claro a ciência, uma vez que a empiria parte dos sentidos. Já antes dele Pirro, Timon, Arcesilas, Carneades, Enesidemo, Montaigne, Vayer, Agripa e outros haviam esposado a mesma tese, que é a do ceticismo. O Ceticismo, nobre amigo, tem uma vantagem, não é arbitrário ou parcial, pois não precisa de um papa ou de uma autoridade dogmática a qual caiba definir a extensão ou o terreno de nossos conhecimentos.

Kant - que era luterano e trazia por baixo de sua epistemologia negativa uma antropologia (Toda Epist pressupõem uma Antropol segundo Ed Husserl) negativa - como declarou Mme de Stael sobre os reformadores, pretendeu ter atingido as colunas de Hércules da epistemologia e pôde dizer a posteridade - Daqui não passarás! Querendo com isso definir a extensão do conhecimento humano ou até onde era possível saber. Pupilo de Lutero ele identificou a razão com a imaginação ou a fantasia, condenando tudo quanto fosse demasiado especulativo, racional ou sutil; (A exemplo das modernas TEORIAS 'científicas'), enfim a metafísica, identificada, mui apressadamente com a ontologia e a teodiceia. No entanto o próprio uso de Metaphisika era ambiguo e isto a ponto de Schoepenhauer descrever o homem como um ser ou animal metafísico.

Chegando a Comte - Seu projeto ético



Comte; o francês, foi quem concluiu pela vaidade do exercício ou da reflexão filosófica de modo geral. E no entanto este homem genial não podia deixar de preocupar-se com o 'para que', com os valores, princípios, critérios e padrões que regem o convívio humano, insistindo dramaticamente sobre a necessidade de se manter ou criar uma Ética. Em certo sentido Comte e Freud são muito parecidos por suas contradições... Seja como for, foi Emílio Litreé, segundo papa positivista, que declarou a Ética ociosa ou desnecessária (por aquela época já não se falava em Estética). Os positivistas herdaram o aborto mas a humanidade clamou e clama por uma ética, e não por qualquer ética.


As promessas de Litreé...


Litreé é quem assume a teoria segundo a qual a Ciência deveria substituir a Filosofia tal e qual esta já havia substituido a religião. A compreensão no entanto era bem distinta da de Pinker. Pinker ora nos revela que devemos aceitar um certo estado de ignorância sobre o imponderável, assim a Ética - a qual sendo imponderável continua sendo ociosa! - e a Epistemologia... e nem preciso falar em Estética, afinal não poucos cientificistas admitirão sem maiores problemas que também ela é produto de uma hipertrofia evolutiva e quiçá algo tão dispensável quanto a espiritualidade. Litreé, como diz Grayling, não abre mão de uma escatologia Cristã otimista, mas secularizada (nos mesmos termos que Marx) e assevera que a ciência fornecerá ao homem todas as respostas e desvendará todos os mistérios produzindo uma nova visão de mundo.

Demandando por Ética!


Husserl julga que tais promessas são pretensiosas e mesmo venenosas, uma vez que nosso conhecimento sempre será fragmentário e limitado, como ora parece admitir Pinker, numa perspectiva mais realista, mas não menos dramática uma vez que seus imponderáveis são por assim dizer 'vitais' e não meramente acessórios dispensáveis sem os quais podemos passar muito bem... Com efeito não pode o homem viver sem perguntar a si mesmo 'Para que?' e todos se perguntam sobre isto algumas vezes ao menos na vida. Impulsos genéticos que pretendemos recalcar ou demandas psíquicas a respeito das quais a ciência empírica não é capaz de responder, mas que suscitam outros tipo de reflexão e outras formas de conhecimento.

Contesto mais uma vez que o acesso a este tipo de conhecimento, vital a nosso convívio, desenvolvimento, sobrevivência e felicidade possa ser arbitrariamente negado por um Kant, um Pinker, um Litreé ou outro qualquer. Não é um medo infantil como aquele de que foram presas um Comte ou um Freud com toda sua ciência positiva. Só não vê a crise civilizacional porque passamos quem não quer... E só aqueles que não tem um mínimo de empatia - e que certamente fariam do egoísmo genético sua praça forte - fugiriam a esta preocupação, uma vez que somos todos humanos!







A questão esbatida do altruísmo


Claro que eu bem sei e sei bem que falar em identificação, a alteridade, empatia, abnegação ou altruísmo com um biologista é tabu desde os tempos de Darwin. Hamilton em suas 'equações' já havia restringido o altruísmo a família ou a ligações genéticas, introduzindo o elemento do egoísmo... Tudo isto faz parte da ideologia positivista, a qual serve-se de enormes fórmulas matemáticas com o objetivo de intimidar a platéia. Carrel no entanto, que fora nobel e empirista de primeira linha, já dizia não trocar uma tonelada de demonstrações matemáticas por um único e singelo fato. Mesmo Comte, tão afeito a cálculos, teve de admitir esta bela verdade - Contra fatos não há argumentos...

No entanto exemplos de altruísmo desvinculado de ligações genéticas não são raros já na História, já no naturalismo e indiquei uma obra notável pelo senso de realismo e observação característicos da verdadeira ciência, assim o 'Auxílio mútuo' de Piotr Kropotkin.

É o humanismo um especismo vulgar?


"Soa como um desejo de ser mais do que felinos ou outras formas de vida... e para muitos expressaria uma forma de arrogância." diz meu amigo.

Certamente não somos superiores nos termos do sectarismo religioso ou do gênesis, segundo os quais os animais são propriedade nossa ou nos pertencem. Mesmo quando criamos animais deveríamos faze-lo segundo os princípios de uma Ética. No entanto adotar uma ética quanto ao convívio com os demais animais parece característico do homem. Pois se há homens sem consciência, que atuando como os demais animais, extinguem outras formas de vida, também há um significativo número de seres humanos que questionam a destruição de tais formas de vida apelando a conceitos como a justiça ou a alteridade, uma vez que somos todos sensíveis a dor. Veja o grupo Green Peace por exemplo.


Temos uma Ética que as demais formas de vida não tem!



Agora que leão ou jiboia ou urso após alimentar-se de um humano viria a refletir a ponto de deplorar seus hábitos alimentares e altera-los? Absurdo impensável. Mas nós temos veganos! Temos valores que alteram comportamentos... Estou esperando demonstrarem que os animais são capazes de fazer o mesmo. Nada nos indica que carnívoros façam reflexões de natureza ética determinativas com relação a seus objetos alimentares, ao menos em larga escala.

Neste sentido, de poder avaliar, com base em certos princípios, nossa relação com o que seria nossa comida ou nosso alimento, parece inovador e distintivo. Certamente que o advento da cultura vegetariana entre humanos é absolutamente rico e sugestivo; e não preciso ser vegano ou vegetariano para chegar a esta conclusão. Basta-me preferir a fome a consumir a carne dos grande mamíferos sensíveis a dor...

Os animais não produzem ciência, o homem...


Passemos a outro aspecto da polêmica. Caso sejamos absolutamente iguais aos outros animais e em nada nos destaquemos deles por que raios formigas, baratas, ratos, felinos, cães e elefantes não produzem ciência? Por que não tem seus laboratórios onde fazem pesquisas e experiências? Por que não tem suas universidades e escolas em que produzem o saber? Por que não transformam radicalmente o meio em que vivem como temos feito?

Caso a ciência produzida unicamente pelo homo sapiens tenha este valor tão grandioso - não negamos seu grande valor. O que questionamos é a atitude do cientista que se nega a pensar sobre o fim da técnica numa perspectiva ética - o quadro da vida propriamente animal comporta alguma limitação. Se a ciência produzida pelo homem tem algum valor, não há como deixar de concluir pela superioridade relativa ou intelectual de seu produtor. Agora se dissermos que é tudo uma só e mesma coisa temos de negar o valor desse fenômeno especificamente humano que é a produção científica. Elevar a ciência as alturas e abater o homem até as termitas, que não produzem ciência, é uma atitude absolutamente contraditória e incoerente.

A espiritualidade e a reflexão filosófica como fenômenos  tipicamente humanos


Mesmo sabendo que os cientificistas e positivistas negam o valor objetivo da religiosidade humana, aqueles que estão habituados a estudar o fenômeno humano não podem deixar de considera-la. Ao menos no plano da cultura temos de considerar o aspecto religioso como uma construção humana não só característica e relevante, inclusive, mas até, em certas circunstâncias como elemento positivo e favorável a evolução de determinada sociedade.

Diga-se o mesmo e mais ainda da reflexão filosófica. E o ateu Bertrand Russel foi quem declarou ser o 'deus dos filósofos' a mais refinada abstração concebida pelo homem e ao menos no plano natural, algo não menos grandioso que as pirâmides ou as grandes catedrais. Mas eu não percebo que os animais, claro que isto poderá vir a ser demonstrado, possuam uma vida espiritual e menos ainda que coloquem para si mesmos questões sobre os primeiros princípios e fins últimos do homem ou da natureza, do ser, do destino e da dor, na feliz expressão de Leon Denis. Os animais não parecem contestar a realidade dada que os cerca. Não parecem possuir um belo ideal face a vida e ainda aqui, os positivistas - que mutilam a condição humana - furtando-se a dimensão ética da vida, é que parecem espelhar-se nos animais, rebaixando-se.

A Estética ou a arte...


Temos ainda a arte, cujo fim é valorizar o que não é útil ou que não tem qualquer valor prático (Theophilo Gauthier). O homem entrega-se a este ofício inútil e desperdiça energias a toa, cerca de quarenta mil anos! Afinal para que serviriam algumas linhas e cores impressas num jarro??? ou uns sinais postos a lâmina de uma lança??? Bem, o Partenom e as Catedrais da idade média são a culminância deste exercício típico do homem e que não vemos nas alimárias que nos cercam. Ou já vistes um cão encenar uma peça ou um porco tocar uma flauta???

Por fim o homem, no dizer de Pascal, Kierkegaard, Heidegger, Marcel, Jaspers,e outros 'tolos' é um ser inquieto, que coloca-se diante do tempo, do espaço, da vida, da morte, do ser, da finitude, etc Segundo Platão ele possui um Thymos ou programa vital... segundo Romain Rolland possui um sentimento oceânico... segundo Henri Bergson possui uma intuição das coisas... segundo Husserl tende ao eidético, etc Não percebo essa inquietação, esse incomodo ou angústia nos animais. Não percebo esta sede. Não percebo esta busca ou demanda...

UM SER QUE SE AUTO MUTILA...


Claro que UM OU OUTRO SER HUMANO sempre pode mutilar-se, restringir-se e descer de nível. Outra coisa é o animal ascender ao humano, posto que lhe falta todo um aparato cultural. O esforço dos biologistas e metafísicos cientificistas consiste em eliminar ou minimizar justamente o que é propriamente humano E POR ISSO SÃO COM PROPRIEDADE CLASSIFICADOS COMO REDUCIONISTAS.


Eles pura e simplesmente desconsideram ou menosprezam a espiritualidade, a Ética, a Estética, a curiosidade ou a busca pelo sentido. As quais para eles são irrelevantes, EMBORA SEJAM RELEVANTES EM TERMOS DE ESPÉCIE E CULTURA. Más eles, os auto imunes, encaram a si mesmos como os arbítrios do universo e porta vozes da ciência, a qual sem embargo diariamente atraiçoam e profanam, publicando e divulgando metafísicas, escolásticas, especulações, sutilezas e ideologias em seu nome!!!

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

O ateísmo, o agnosticismo, a Kalokagatia e a morte da estética II

Continuação


"A beleza salvará o mundo" Dostoeffsky




Após Baumgarten ter retomado o tema da estética, foi Kant que pela primeira vez propôs sua revisão ou releitura à la 'Germânica' quero dizer, a moda alemã.

Não foi sem razão que I kant foi descrito por alguém como sendo o 'Copérnico' da Filosofia.

E já veremos que se trata de um Copérnico as avessas ou invertido. Afinal Copérnico avançou da terra ao Sol, desbancando o geocentrismo, o qual em última análise era apenas disfarce com que se ocultava o nosso insopitável antropocentrismo. Queríamos ser o centro das atenções. Queríamos que nossa terra constitui-se o centro do universo. O diácono polonês deslocou o centro do sistema para o astro rei, merecendo inclusive  os insultos de Martinho Lutero.

Non Kant...

Kant fez o percurso oposto no campo da Filosofia, ou melhor da epistemologia, colocando o homem ou sua vontade no lugar do Objeto ou da coisa, enquanto centro do processo cognitivo. O qual fica sendo precipuamente psicológico, subjetivo ou voluntarista, não sensorial, não racional e tampouco conceitual como supunham os helênicos em sua maior parte.

É verdade que parte dos críticos Católicos tendem a espinafrar com o francês Descartes e com o inglês F Bacon, buscando responsabilizados pela balburdia subsequente e futuro descrédito da Filosofia. Assim o Pe Leonel Franca, em seu curso de Filosofia editado pela Agir, assim Tasso da Silveira em diversas de suas obras de crítica literária.

Tampouco os Católicos, assim Jacques Maritain, no Humanismo integral e um Ortodoxo, Berdiaeff na Nova Idade Média abstiveram-se de assestar suas baterias contra o Renascimento. Afinal como poderia um agostiniano ou alguém influenciado pelo agostinianismo ou por qualquer tipo de antropologia negativa ou pessimista compreender o Renascimento, o dealbar do espírito científico ou mesmo a doutrina social da Igreja???

A respeito de Bacon e Descartes, tudo quanto tentaram dizer a seus contemporâneos é que a ciência empírica não podia sair da Metafísica. Não se tratou aqui de negar radicalmente a Filosofia, a especulação ou a razão e a formulação de conceitos; mas de criar-se um nicho específico para a ciência e de fornecer-lhe um aparato metodológico próprio assim a dúvida metódica, Descartes e Bacon jamais postularam a dúvida  metafísica ou invencível de Pirro, Timon, Carneádes, Enesidemo, Montaigne ou Hume. Mas dúvida construtiva e provisória no campo da ciência.

Grosso modo Descartes limita-se a tomar Agostinho quando elabora uma metafísica imanente a partir do eu e portanto psicologista, sem no entanto negar o valor da antiga. O 'Penso logo existo' e portanto a consciência de si como ponto de partida para a demonstração do mundo externo e de Deus já se encontra presente na obra de Agostinho e temos de admitir que é uma abordagem válida. Ademais Descartes desenvolve-a sempre segundo os princípios da razão - assim suas Meditações sobre a existência de Deus - jamais contestando os princípios da lógica formal (como o de contradição) ou pondo em dúvida as conclusões sacadas as premissas.Toda esta argumentação é escolástica ou metafísica e tradicional.

E Hume? Hume é uma reedição inglesa e tanto mais sofisticada de Pirro ou melhor de Enesidemo. Por Victor Brochard somos informados que quase tudo dele já estava lá, presente em Arcesilau, Carneádes, Enesidemo...

E Kant?

Kant não.

Kant faz uma metafísica cerrada em torno do irracionalismo e tenta demonstrar racionalmente a incapacidade da razão, ao menos para metafisicar.

É verdade que ele reconhece que nossa ciência é válida quando descreve fenômenos, sabendo que os fenômenos não passam de aparência. A ciência não toca a realidade íntima das coisas. Nada toca.... Ficamos conhecendo aquilo que ao menos em parte elaboramos uma vez que a realidade externa do ser é em parte ao menos elaborada por nossos sentidos ou por categorias impressas por nós. Fabricamos, ao menos em parte, a realidade externa do mundo. Nossos sentidos não nos informam sobre a coisa ou o objeto, alteram-nos, transtornam-no e portanto enganam-nos... O quanto podemos dizer sobre a ciência é que por vezes funciona e não que nos informa fielmente sobre o ser, o ser fica sempre oculto, misterioso e intangível.

Julgamos ter diante de nós um objeto externo que é o universo, mas temos apenas uma ideia ou uma elaboração da nossa vontade. Eis o sr voluntarismo ou idealismo, filho do psicologismo crasso ou da epistemologia subjetiva e antropocêntrica responsável pelo deslocamento do processo cognitivo do objeto ou da coisa conhecida para o elemento cognoscente. Foi de fato uma Revolução, uma Revolução germânica, uma Revolução individualista, filha legítima da Reforma protestante. Uma contra Revolução caso tomemos por parâmetros a escolástica ou a Filosofia clássica. As raízes de tudo isto remontam é claro a Agostinho, passam pelo sunitas Achari e Gazalli, confluem para Ockan e os franciscanos e chegam a Lutero, o qual toma Aristóteles por seu supremo inimigo após o papa romano e a racionalidade por uma prostituta louca. Afinal não fora este homem transtornado pelo pecado original? A ponto de assemelhar-se a um pedaço de pedra ou de madeira...

No entanto como se sustentarão a ética e a estética sem uma epistemologia objetiva ou realista que lhes sirva de suporte? Não se sustentarão. Pois o kantismo ou criticismo e o positivismo lançarão dúvidas cada vez mais sérias sobre tudo quanto não seja absolutamente empírico.

É sempre a aplicação dos mesmos princípios e reedição da mesma teoria irracionalista. A fonte da sensação estética nada tem a ver com a contemplação racional de formas definidas conforme determinado cânone estético. É subjetiva, irracional e portanto arbitrária. A fruição da beleza estética é puramente subjetiva ou melhor solipsista. Sou eu que julga algo belo ou feio com critérios psicológicos válidos apenas para mim. Resta nos perguntar por que a rebelião modernista demorou tanto tempo para ocorrer? Se as portas já estão abertas para o dionisíaco de Nietzsche i é para as emoções, os impulsos, os instintos, os desejos... enfim para tudo quanto seja psicológico ou oposto a razão, até que a uniformidade racional seja comparada a uma tentativa de controle ou a uma espécie de autoritarismo. Pois esta arte puramente psicologista não conhece quaisquer regras.

O mundo a ser reproduzido aqui não é mais o mundo externo reduzido a hipotéticas formas puras, mas o mundo interno da mente, do inconsciente, da fantasia, da imaginação desbragada, do sonho ou mesmo do pesadelo, onde cada um reformula a realidade externa e é regra absoluta para si mesma. Este mundo interno que a razão pretende controlar é emancipado por Kant, ao menos no terreno da arte e da estética. E nada mais existe de absoluto neste terreno, o feio e o belo são eternos relativos.

A pouco nos perguntamos sobre que evento teria impedido ou evitado um desabrochar do modernismo logo após Kant? Por que tivemos de esperar até Nietzsche? Por que a perspectiva, a rima e os arranjos não tombaram de imediato e saíram logo de cena ao cabo do século décimo nono?

Aqui, paradoxalmente, o positivismo recusou-se a seguir Kant ou a acata-lo. Mas como se deu isto? Aqui a estética foi mais feliz do que a Ética, pois esta carecia mais do que aquela de um fundamento superior ou invisível. E esses mesmos sequazes de Comte, que liderados por Litreé repudiam a ética essencialista e toda ética, apresentando-a como absolutamente relativa ou cultural, recusam-se a privar-se da beleza em sua expressão clássica definida, e sentem necessidade dela. Eles simplesmente tomam os cânones estéticos da civilização clássica e afirmam sua objetividade em termos universais, sem no entanto levar em consideração os fundamentos metafísicos desta elaboração clássica levada a cabo por Platão e Aristóteles. É como uma cabeça separada de um corpo ou um castelo desprovido de seus fundamentos, a estética  neo clássica dos positivistas tem sua base no ar ou no nada, e por isso tomba miseravelmente ao primeiro sopro da rebelião modernista com seu ideário psicologista.

E pensar que esses positivistas, cientificistas, ateus, agnósticos, materialistas... ergueram magníficos templos a 'religião da humanidade' nos mesmos moldes que os antigos templos pagãos e que as igrejas Católicas. E que elaboraram um ritual secularizado com que substituir as cerimônias pagãs ou a missa... Eles assumiram um aparato estético e não o fizeram a toa... Sabiam o que estavam fazendo. Embora o positivismo fosse um programa quase que completo - pelo simples fato de negar a dimensão ética da existência - tinha sérios defeitos estruturais e por isso veio a tombar após um efêmero esplendor.

Fora das velhas igrejas, ora convertidas em baluartes do quanto havia de clássico sobre a face da terra, o modernismo campeou triunfante. Em poucas gerações nosso homem fatigou-se da feiura oferecida e chegou a crer, e ainda cre, que a estética ou a contemplação da beleza é algo supérfluo ou dispensável. Cem ou quarenta mil anos após a elaboração das primeiras obras de arte no recôndito das florestas ou das cavernas, homens há que tem feito o caminho oposto. E eles até se vangloriam de estar em posse de altas Verdades, desvinculadas da ética e da estética, perdendo de vista o ideal da kalokagatia.

No próximo capítulo diremos o que pensamentos a respeito de tais ideologias, porque nos frustram e que esperávamos delas.

Continua -

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Analisando o roteiro do positivismo ou a afirmação do materialismo nas ciências humanas


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Os antigos, queremos dizer os pensadores greco romanos, não tinham qualquer problema em busca fragmentos ou pedaços da mesma verdade por três vias diferentes: A fé religiosa, a especulação filosófica ou metafísica e a investigação científica.

No compreensivo e vasto esquema do divino Aristóteles há espaço para a investigação cientifica em termos de experiencialidade - princípio largamente aplicado no Liceu - para a reflexão filosófica e até mesmo para a religiosidade. Bom lembrar das clássicas passagens em que o perípato pondo em dúvida a possibilidade de demonstrar a imortalidade da alma humana por via de demonstração racional (em oposição a Platão e ao próprio Kant) assegurava abraça-la por via da religião. Equivocam-se aqueles que, guiados por Afrodísias alegavam que a mortalidade da alma - demonstrada pela razão - podia ser negada no campo da religião, e que ambas as teses podiam ser professadas pelo mesmo indivíduo em que pese a contradição existente entre elas.

Não a texto algum de Aristóteles em que se encontre a afirmação de que a inexistência ou destruição da alma fosse racionalmente deduzível. A posição dele a respeito da imortalidade em termos puramente racionais parece equivaler a dos agnósticos, os quais nada pretendem afirmar, negar ou saber; daí socorrer-se da fé religiosa quanto a este tema.

Embora alguns Filósofos como Alexandre, Evemeros e Diagoras fossem não apenas irreligiosos mas inimigos da religião e sobretudo de seu aspecto mágico/fetichista, de modo geral, os grandes Filósofos como Sócrates e Platão, Antístenes, Zeno, Cleantes e Crísipo mostraram-se receptivos a algumas verdades religiosas de caráter universal ou comum. A oposição ou fragmentação não foi generalizada no contexto da antiguidade em que pesem inúmeras divergências a respeito do fetichismo, do politeísmo, da superstição, etc Aqui o mal estar não degenerou em ruptura e por isso os primeiros Cristãos e os padres da igreja puderam recorrer com bastante sucesso ao testemunho dos antigos Filósofos com o objetivo de promover seu monoteísmo revelado.

Quanto ao contesto Cristão devemos observar a existência de certas prevenções anti filosóficas e anti científicas localizadas - desde Tertuliano ao menos - no setor latino ou ocidental da igreja, cuja antropologia foi tornando-se cada vez mais problemática e negativa até Agostinho. O qual certamente nutria dúvidas bastante sérias face ao conhecimento humano ou a capacidade cognitiva do homem e certo desprezo pelo mundo externo e material. As invasões bárbaras e a destruição das escolas, museus, bibliotecas só farão acentuar ainda mais este tipo de mentalidade.

Outra no entanto era a situação do Oriente. Poi se Justiniano haviam mandado fechar os antigos institutos filosóficos atenienses, já dominados pelo irracionalismo neo platônico e, pasme leitor, pela teurgia ou pela magia (de fato os derradeiros escolarcas como Porfírio, Hierócles, Jâmblico e outros eram 'bruxos' ou magos, da mesma cepa que um Eliphaz Levi ou um Aleister CrowleyMarciano e seus sucessores fundaram a Magnaura, o segundo complexo universitário da antiguidade ou se preferirem da Idade Média, sob os auspícios do Cristianismo. E lá se conservavam os registros científicos do passado e dava-se continuidade a reflexão filosófica, de que temos exemplo em Eustátio de Tessaloniki, nos criadores da Suda, em Psellos, etc Em Bizâncio, em que pese o declínio da produção científica, Filosofia e Teologia caminhavam lado a lado.

De modo geral, os antigos padres e doutores da igreja, por uma questão de fluxo cultural, abraçaram ao platonismo e depois ao neo platonismo, aqui certamente com graves prejuízos em todos os sentidos. Afinal quando o Cristianismo principiou a afirmar-se decididamente entre os gentios, pelos idos do ano 100 desta Era, a partida já esta vencida e tanto o materialismo epicurista (embasado nas lições de Demócrito de Abdera) quanto o realismo aristotélico (em que pese suas realizações prodigiosas) - para não falarmos nos ceticismos - esmagados pelo platonismo com toda sua carga idealista.

Alias a questão crucial em termos de platonismo - e não nos devemos iludir a respeito - não implica saber se os tipos ideais ou proto tipos eram materiais ou ideais. Inda que fossem materiais ou realistas estavam situados noutro plano, para o qual - EM DETRIMENTO DA VIL CÓPIA QUE É NOSSO MUNDO - deviam convergir nossas atenções. Importa saber que o platonismo desviava os olhares desta realidade para outra direção...

Tal a escola filosófica com que o Cristianismo encontrou-se e com que ligou-se por séculos a fio, e é de se imaginar que seu viés anti científico fosse antes tributário desta visão idealista - que já havia massacrado o realismo aristotélico do que - que da própria cultura judaica. O contato certamente foi prejudicial ou danoso, mas os preconceitos partiram do platonismo. Ele é que bem antes do advento do Cristianismo havia se negado a olhar para este nosso mundo e se apegado a tradição anti sensorial dominante como a uma tabua de salvação.

O que devemos ressaltar aqui é o surpreendente e quase miraculoso renascimento aristotélico promovido na grande e antiga igreja por S João Damasceno, um de seus principais teólogos. A bem da verdade o Aristotelismo fermentava já entre os assírios e siríacos desde os seculos VI e VII desta Era, sendo as obras do Filósofo estudadas e copiadas nas acadêmias médicas do grande império persa.

Curiosamente o salutar movimento teológico/filosófico iniciado na Igreja Bizantina haveria de ser assumido e desenvolver-se no terreno de uma igreja latina ou romana já socialmente recuperada e em franco desenvolvimento a partir do século XI e mais ainda a partir do século XIII. No contexto Oriental reproduziu-se novamente o velho conflito Platão ou melhor neo platônicos versus Aristóteles agora no plano da teologia, sendo o escolasticismo ancestral e até certo ponto os fundamentos racionais da patrística, arrasados pelo palamismo o qual corresponde a uma corrente neo platônica que remonta ao livro do pseudo Dionísio, a Evágrio e a João Clímaco. Todos estes homens tomaram o caminho inverso ao da imanência, ao da Encarnação e do realismo epistemológico, embora mantivessem a excelente doutrina da Theosis.

A principio também os latinos apegados a Platão e o que é muito pior, a Agostinho, os latinos repudiaram a doutrina de Aristóteles como perniciosa. Assim em 1270 Estephanus Tempier arcebispo de Paris lança um interdito em torno dos escritos de Aristóteles. Evidentemente que naquela altura do campeonato sequer podiam distinguir o Perípato do árabe Ibn Rodh como o próprio Ibn Rodh não conseguia distinguir o comentarista (Alexandre de Afrodísias) do Perípato uma vez que a crítica textual era incipiente e tudo se achava misturado de modo que Siger de Brabante - o 'averroísta 'cristão' de Ernesto Renan - acaba aceitando tudo e, tendo em vista a salvaguarda da fé ou da teologia cristão, formulando a doutrina relativista da dupla verdade.

De um modo ou de outra após os sucessivos renascimentos: Literário, Filosófico e Científico ao cabo dos séculos XII, XIII, XIV e XV as letras clássicas, a reflexão filosófica e a retomada da produção científica, obedecendo a um projeto unitário e grandioso, vão caminhando juntamente com a fé Cristã Católica, a teologia e religiosidade; como que formando um todo ou uma visão integrada e total da existência. Foi um tempo no mínimo interessante pela simples busca de um esquema compreensivo, amplo e abrangente que conciliasse todos os meios de conhecimento, o religioso, o filosófico e o científico além das linguagens literária e artística. Clássicos são os estudos ou analises históricas, geográficas, sociais, culturais, etc em torno do espírito universalista característico do século XIII.

Não, não sou dos ingênuos que pretendem ocultar as trevas e a sujeira debaixo do tapete. Claro que não era a igreja como um todo que apoiava este direcionamento, mas haviam muitos eclesiásticos relacionados com ele, assim Nicolau de Cusa e Marsiglio Ficcino... Claro que o número de pessoas toscas e ignorantes era colossal, claro que haviam massas incultas e lideres religiosos fanáticos, claro que haviam controladores oportunistas, místicos embiocados, agostinianos, sectários, judaizantes, gentes da bíblia, inquisidores desmiolados, e toda uma turba multa de anões e paraplégicos do espírito. O que não elimina o espírito reinante e significativa adesão por outra parte da igreja, a melhor e a mais lúcida.

A tentativa como disse, de manter o são equilíbrio entre as três vias do conhecimento humano, segundo a velha tradição romana, representava um ambicioso projeto arquitetônico, que veio a ruir e a desabar fragosamente no dealbar dos séculos XVI e XVII, enchendo a Europa de ruínas no campo do espírito, rompendo o equilíbrio, fragmentando a cultura e engendrando a crise. Desde então a civilização ocidental combate entre si, dispersa suas energias e dissolve-se. Pois há quem queira pura e simplesmente destruir a religião, como há quem queira substitui-la pela Bíblia ou pelo antigo testamento, como há quem faça guerra a metafísica até os catões da ética. Desde então Filosofia, Religião e Ciência travam entre si a mais pavorosa e insensata das batalhas, perdeu-se definitivamente a compreensibilidade e o resultado mais dramático aqui foi - e é onde queremos chegar com este ensaio - o falseamento do quanto chamamos Ciências humanas ou do homem.

Lançando um primeiro golpe de vista poderíamos nós supor que a quebra da paz ou a ruptura partiu dos ateus, materialistas ou incrédulos. Bom lembrar que - cf Lucien Febvre 'O problema da incredulidade no século XVI' - ao dealbar do século XVI inexistiam ateus e materialistas na plena acepção da palavra. Haviam quiçá alguns sujeitos na periferia da Igreja ou nos confins da Ortodoxia, alguns revoltados, heterodoxos, etc Não materialistas, positivistas, cientificistas ou místicos da técnica.

Neste caso de quem é que parte a ruptura???

Para compreendermos o sentido da ruptura e seu significado imenso para a cultura temos de lançar nosso olhar sobre um cantão tanto mais atraso ou primitivo da Europa, ao menos em comparação com a Itália ou a França. Refiro-me ao Império Germânico ou a Alemanha, onde o Imperador Maximiniano acaba de baixar a sepultura, enquanto iniciava-se uma briga de monges travada entre Dominicanos e Agostinianos em torno da doutrina das indulgências, uma doutrina bastante problemática formulada alguns séculos antes pelo grande fabricante de novidades Alexandre de Alés, quiça inventor da fé romana ou papista, digo de seu conteúdo específico.

Não nos importa aqui entrar nas minudências do conflito Tetzel Lutero, alias bastante conhecido de todos. Nem nos importa entrar nas minudências da doutrina luterana ou das origens da fé protestante. Sintomático aqui é que Tomás de Aquino também foi lançado ao fogo junto com as decretais do Papa romano logo após a condenação das Teses fixadas a porta da Igreja de Wutemberga. E com Tomás de Aquino lá vai Aristóteles. 
Desde as priscas Eras de Orígenes com seus 'Princípios' buscava a Igreja oferecer aos que pediam as razões de sua bela esperança ou expor o conteúdo da fé revelada em termos racionais criando o que chamamos de teologia, postura que veio a ser vital no momento em que a Filosofia viria a recobrar sua importância. Pois ela surge e ressurge a princípio como Ancilla da Teologia, i é como serva, escrava ou auxiliar. Caso predominasse o 'Esta escrito' e tudo fosse resolvido através de citações 'bíblicas' a Filosofia teria permanecida em seu limbo... A teologia latina ou escolástica como demonstram Gilson e Grabmann é que veio a resgata-la. Gostem ou não os incrédulos é pura verdade ou como se diz fato.

Desde então a igreja romana, em que pesem seus erros e equívocos, buscou apresentar sua fé em termos de sistema teológico coerente e acessível a razão, buscando superar certas contradições e sempre servindo-se do aparato lógico de Aristóteles, aproximando-se na mesma medida de sua orientação realista, compreensiva e favorável a um diálogo com a imanência em termos científicos. Daí a ciência ser cada vez mais cultivada e as investigações ampliarem-se mais e mais desde Alberto Magno, Roger Bacon, John Buridan, Robert Grosseteste e outros. Caso lancemos nosso olhar sobre a sociedade Cristã da Itália, nos séculos XIV e XV, se nos parece estar contemplando a Bizâncio dos séculos XI e XII com os Cristãos dispersos pela imanência demonstrando interesse por literatura clássica, botânica, zoologia, mineralogia, economia, geográfica, etnografia, etc. Sim há monges, há teólogos, há homens de fé e o mais surpreendente é que não são infensos a este movimento na medida em que as próprias celas dos mosteiros convertem-se em oficinas artísticas, escritórios ou laboratórios rudimentares.

O efeito do contato efetivado entre a teologia Católica com a Filosofia aristotélica foi fecundo no sentido de despertar parte dos letrados e inclusive dos clérigos para o valor da imanência. Impondo-se cada vez mais a exótica figura de um Willian de Baskerville i é do padre ou monge cientista, artista, inventor - assim Mendel no século XIX e Lemaitre no século  XX - Claro que dessa dispersão ou divisão de forças ressentiu-se o campo religioso propriamente dito, sentindo-se como que desfalcado e nem todos os homens daquele tempo podiam compreender o que podia levar um monge, um padre ou mesmo um devoto a gastar tanto tempo observando animais, plantas ou mesmo estrelas.

A reação a este tipo de secularismo religioso provocado pela Teologia escolástica e sobretudo pela doutrina de Aristóteles foi captada perfeitamente por Lutero e assumida pela Reforma protestante. Para tanto devemos compreender que não poucos Católicos receberam a doutrina de Aristóteles nos moldes tradicionais da religião, tomando-o por papa ou guia infalível a propósito de absolutamente tudo, e numa época em que sequer se sabia com certeza o quanto fora escrito por ele... Naturalmente que este tipo de postura suscitou a princípio críticas justas e em seguida criticas cada vez mais destemperadas e radicais por parte dos próprios Católicos e de alguns religiosos. Críticas que foram levadas aos campos da epistemologia e da gnoseologia, resultando disto uma retomada dos princípios ou preconceitos agostinianos; assumidos declaradamente pelos franciscanos, dentre os quais W de Ockham um dos principais críticos do Filósofo e promotores da visão 'tradicionalista' ou fideísta.

Os místicos em especial tomaram este caminho, devassado igualmente pelo Dr Gabriel Biel, cujo Manual de Teologia prevalecia em diversas escolas alemãs ao tempo de Lutero. Mesmo na França Erasmo não poupava cargas contra os monges, os escolásticos e os aristotélicos obtusos...

Importa saber que a negação de uma única doutrina é suficiente para desestabilizar o sistema Católico, o único existente até então e dentro do qual fácil era argumentar numa linha de coerência. Lutero no entanto havia reassumido - como Fulgêncio de Ruspe, Goteschalk e Wicleff - os pressupostos agostinianos em sua integralidade, e não podia faze-los concordar com a doutrina oficial da igreja romana ou com seu sistema teológico razoavelmente bem articulado. Quando esboçou a doutrina da salvação pela fé somente, que é a sua contribuição individual a reforma protestante, sua posição tornou-se insustentável nesse quadro. E no entanto, seguindo Aristóteles e buscando conduzir Lutero ao absurdo, os teólogos Católicos apelavam dramaticamente a lógica, a razão, a coerência, etc Queriam sobretudo demonstrar que a doutrina da salvação pela fé somente não se podiam conciliar com os demais elementos do sistema Católico posto que havia ali contradição formal.

Lutero não era bobo. Sabia muito bem que todo aquele discurso em torno da coerência, da concordância, da lógica ou da racionalidade estava fundamentado na Filosofia aristotélica. Assim no mesmo instante em que aderiu formalmente ao fideísmo de Agostinho, rompeu com a Teologia latina e canonizou o irracionalismo principiou a atacar furiosamente ao 'pagão' Aristóteles e a sua Filosofia e ataca-la com o mesmo empenho com que atacava o Papa. A razão passou a ser apresentada como uma louca ou uma bruxa e a Teologia - ao menos durante algum tempo - substituída pela Bíblia e pelo estava escrito na dimensão subjetivista que tão bem conhecemos. Ao menos durante a vida de Lutero o luteranismo e o protestantismo nascente assumiram uma feição notadamente anti aristotélica, fazendo-se herdeiro e porta voz de toda aquela crítica precedente. Assim se os aristotélicos e racionalistas apegaram-se a igreja romana os irracionalistas abraçaram entusiasticamente a nova forma de Cristianismo.

Desde então podemos dizer que houve um retorno a 'fé' - compreendida como fé cega ou fideismo ingênuo - ao livro (ou ao princípio do Sola Scritura), a cultura judaica, a religiosidade mórbida e fechada, etc Por fim a própria doutrina da igreja invisível, da união imediata com Deus (sem sacramentos), da presença simbólica, do repúdio as obras, enfim quase tudo no sistema protestante cheirava a ruptura com a imanência - desde já encarada pelos protestantes como pagã - a platonismo, a neo platonismo, a uma espiritualização ou a elaboração de um Cristianismo cada vez mais transcendente e separado do mundo a exemplo rabinismo e do islã. Zwinglio por exemplo, é apresentado por diversos teólogos contemporâneos como um aluno de Plotino ou neo platônico, a orientação no entanto é geral e se manifesta até mesmo no repúdio as imagens e no desprezo pela simbologia cultual. Todo sentido de lei Cristã e a consciência social do Cristianismo sai de cena passando o matrimônio a ser encarado como mero caso de polícia ou política. Toda direção religiosa, todo sentido, toda orientação volta-se para o outro mundo, para o além túmulo ou para o invisível enquanto busca frenética por uma salvação mágica.

Com a Reforma protestante no século XVI, o Cristianismo por assim dizer desencarna-se e desprende-se do mundo para refugiar--se nas alturas do céu. Nada mais platônico ou neo platônico. Até certo ponto devia o próprio leigo comportar-se como um monge as antigas e dedicar-se apenas a oração, ao culto, a leitura da bíblica e as discussões doutrinais i é a teoria, ao invés de ocupar-se em observar o mundo material. Sintomático aqui que Lutero tenha arremetido furiosamente contra Copérnico, o diácono da Igreja que se dedicara a observar o orbe estelar. Para ele os médicos eram embusteiros e o único meio de obter a cura para os males físicos era a fé, a oração ou o milagre. O afastar-se de Aristóteles e o aproximar-se de Agostinho ou Plotino implicou na deserção do mundo material ou natural por parte da Cristandade européia do século XVI. Foi uma passagem da curiosidade incipiente quanto ao mundo para a Bíblia, um exílio espiritual, um retrocesso em todos os sentidos, um imenso e colossal atraso.

Mas e quanto a Igreja romana i é a outra parte da Cristandade ou da Sociedade européia, que aconteceu?

Deflagrada a reforma, enunciados os novos princípios e produzido o novo modelo cultura nada tornou a ser como antes. Nem em termos de política, pois a igreja antiga achava-se enfraquecida, nem em termos de contato com o mundo, porquanto havia sido deflagrada uma guerra e ela, a igreja antiga, achava-se desfalcada em seus quadros. Desde então o quadro de monges e padres dedicados a produção cultural ou científica reduziu-se consideravelmente na medida em que foram sendo deslocados de setor ou mobilizados com o objetivo de entrar na controvérsia religiosa suscitada pelos reformadores. Veja que a partir da reforma protestante e ao cabo de uns cem anos a Europa como um todo a absorvida pela questão religiosa mergulhando de cabela na polêmica Católico/protestante. Diante deste fenômeno singular há quem, e Católicos inclusive, se deixe tomar pelo entusiasmo face a todo este delírio religioso, encarando-o como um efervescer de espiritualidade. E no entanto o que temos aqui são as fastidiosas controvérsias bíblicas, quase sempre de teor subjetivo até a chicana... 

É uma controvérsia inglória, um dispersar de energias, um afã estéril que nada viria a produzir de concreto senão mais e mais incredulidade, materialismo e ateísmo.

O que era de fato importante em termos de Cristianismo. Projeto sócio econômico, elaboração de uma ética essencial, produção artística, pesquisa científica, promoção humana, etc Tudo quanto realmente vale foi abandonado em benefício desta polêmica insana. Por cem anos a Reforma desviou a Europa de sua rota. Interrompeu bruscamente uma linha de progresso iniciada três séculos antes e abandonou o campo da imanência. Levando parte dos papistas a fazerem o mesmo.

É verdade que a partir do século XVII a pesquisa científica vai sendo paulatinamente retomada na Europa, mesmo no contesto protestante, na mesma medida em que as pessoas vão se cansando da Bíblia, das controvérsias e da religião. De modo que ao contrário da Idade média, a pesquisa e produção científica já não são assumidas por homens sinceramente religiosos, mas cada vez mais e numa escala mais larga por homens irreligiosos, e enfim pelos materialistas e ateus, alguns dos quais aspiravam destruir a própria religião.

A ideologia e a cultura no entanto eram Cristãs, formalmente Cristãs e portanto espiritualistas ou abertas a imaterialidade. Aqui a ruptura foi quiçá mais intensa do que aquela outra representada pela passagem do paganismo ao Cristianismo. Pois o homem moderno, o homem irreligioso não conseguiu elaborar uma espiritualidade irreligiosa como o homem antigo havia elaborado uma religiosidade monoteísta. Parte cada vez mais considerável deste homens irreligiosos mostrou-se incapaz de cultivar uma religião natural, a exemplo dos antigos Filósofos gregos, abraçando com fervor não apenas a tese do materialismo, mas inclusive a do ateísmo uma perspectiva combativa. E é evidente que a adoção a priori da tese materialista - por simples ódio ou repúdio a religião - fechou todas estas mentes para a simples possibilidade do imaterial presente na materialidade. Para nossa cultura pós reforma protestante a imaterialidade converteu-se em tabu, ficando relegada ao setor religioso.

A princípio esse aparelho conceitual materialista e ateu - ora assumido aprioristicamente, a semelhança de um credo, não apenas pelos cientificistas mas por muito cientistas (Mesmo no campo das ciências humanas) com a maior boa fé - inexistia, precisando ser fabricado. A nós cabe compreender a fabricação deste credo materialista em termos de epistemologia ou melhor de metafísica, para poder avalia-lo com máxima justeza, sabendo que não corresponde ele mesmo a um dado empírico, sensível e observável mas uma formulação conceitual, produto da especulação filosófica ou da metafísica que eles mesmo arrenegam hipocritamente, permitam me dizer.

O aspecto mais angustioso do materialismo é justamente sua recusa desonesta e terminante em assumir-se a si mesmo como aparelho conceitual ou ideológico e não como fenômeno observável.

A princípio os ingleses, segundo sua tradição empirista - que como vimos deita raízes na Idade Média - dedicaram-se a investigar a capacidade do aparelho sensorial e da percepção, e da experiência, tendo em vista construção do conhecimento humano. Assim F Bacon ao tecer suas criticas, até certo ponto justas, aos aristotélicos obtusos. Assim Locke ao retomar o esquema Aristotélico da Tábua rasa. Tal e qual na antiguidade, a partir do enfoque empirista, chegou a Filosofia contemporânea a Davi Hume, o qual não tornou-se seu Copérnico, justamente por alienar-se dela, digo da Filosofia. Afinal, segundo V Brochard (cf Céticos Gregos) o ceticismo crasso é antes de tudo uma recusa ao dialogo e a Filosofia. Hume é o patriarca do ceticismo contemporâneo enquanto afirmação contraditória em torno de uma dúvida absoluta ou enquanto simples negação do discurso e de todo discurso. Claro que Hume se tornou famoso, mas jamais conquistou a adesão geral dos pensadores, e isto mesmo em tempos de crise (O ceticismo é um dos sintomas da crise).

Devido a seu paralogismo fundamental nem pode afirmar-se como Filosofia, quando não assume o lema da Epoché ou da ataraxia, tomada por Pirro de Elis a fé búdica. Para por ai e por ai fica enquanto apologia da inércia.

Diante disto outros caminhos, e bastante radicais no âmbito da Filosofia, tiveram de ser deslindados e quase que paralelamente, se quem que seguindo tradições totalmente distintas. Assim na França Católica da Universidade de Paris, centro universal da escolástica. Assim na Alemanha Luterana e anti escolástica.

Os franceses juntamente com os ingleses se vão pela via do empirismo, chegando demasiado cedo ao sensualismo crasso com Condillac e ao materialismo epicurista com P Gassendi. Curioso aqui é que tanto Condillac quanto Gassendi eram padres e ao que parece sinceros em suas convicções religiosas. Afinal não é nesta mesma França que deparamos com um grupo de 'céticos' Católicos ou melhor dizendo de agostinianos puros, tradicionalistas, filo luteranos... representados por Gentian Hervetius (Um dos campeões na luta contra o protestantismo) e sobretudo M Montaigne autor dos famosos Ensaios??? Então a que propósito vem escocês Hume, a pouco citado?

Hume por não ter religião ou fé era um cético completo. Os franceses eram céticos quanto a tudo, os sentidos, a razão... mas não quanto a fé. M Montaigne é a seu tempo reprodutor de monumentos antigos e sobretudo consumado literato. Hume é quem aprofunda e amplia as reflexões céticas contribuindo com algo de propriamente seu por ser posterior ao grande Locke e poder expô-lo ao crivo da crítica, bem como ao velho F Bacon.

Herdeiros deste espírito escolástico essencial alguns iluminados franceses é que por primeira vez levarão a cabo o plano ambicioso de novamente inserir o materialismo e por primeira vez inserir o ateísmo nos domínios da Filosofia produzindo por assim dizer uma metafísica materialista e ateia. Diga-se deles que estavam equivocados mas nunca e jamais que foram desonestos. Assim D Holbach, La Metrie e o Dr Pierre Cabanis os quais formularam seus sistemas conforme os princípios da Metafísica pelos fins do décimo oitavo século.

Enquanto isso pelas Alemanhas, mais precisamente na pitoresca Koenisberg, alguém estava decidido a vindicar sua fé ancestral e a levar os preconceitos irracionalistas, anti escolásticos e anti aristotélicos os domínios da Filosofia. Tais os planos do sr Immanuel Kant. O qual além de ser profundamente ilustrado - basta dizer que era geógrafo - possuia conhecimento incomuns e matéria de lógica e de pura lógica aristotélica. A princípio parece ter lido algumas linhas em termos de escolástica, no entanto pouco mais tarde desejou queimar toda produção medieval, julgando ter sido acordado ou iluminado pelo iconoclástico Hume, o qual tampouco lograva satisfaze-lo por duvidar de absolutamente tudo e nada deixar ao homem.

Hume precisava ser consertado e Lutero glorificado. Kant era aquele que elaborando o idealismo crítico deveria fazer uma e outra coisa, estabelecendo as fronteiras do conhecimento e negando metafisicamente a metafisica. Metafisicando estabeleceu Kant que só podíamos conhecer ou ter acesso aos fenômenos através da querida ciência com seu paradigma da materialidade. Já o que se achava por trás dos fenômenos nada se podia saber de concreto ou definitivo, devendo o homem abster-se de afirmar e conformar-se com sua ignorância. Fé religiosa ou cega e ciência era tudo quanto tínhamos. A metafísica e por ext quase toda Filosofia (inclusive suas investigações epistemológicas, gnoseológicas e éticas) não passavam de opinião ou de fantasia e o raciocínio, a lógica, a dedução, separados da experiencialidade pura para nada serviam.

Tal o idolatrado Kant da Razão pura. 

A princípio houve quem o aplaudisse entusiasticamente por ter degolado o monstro repugnante do Deísmo. No entanto quando o outro lado percebeu que também a metafísica negativa ou ateística dos iluminados franceses era igualmente repudiada, e que Kant nas entrelinhas, antecipava o agnosticismo insonso de Comte e Huxley os aplausos foram cessando. Doloroso e sumamente doloroso para os ateístas terem se ouvir que Kant sendo agnóstico condenada sua metafisica tão arrevezadinha repetidamente surrada por escolásticos, aristotélicos, deístas, platônicos, ecléticos, etc E o grande Kant não lhes podiam socorrer. Mas como se Kant, a exemplo de Aristóteles quanto ao tema da alma, afirmava a existência de Deus com base na fé???

O fato é que havia coisa ainda mais séria ou pior para os produtores desta ideologia ou aparelho conceitual apriorístico.

Kant, que era muito dado a refletir ou a metafisicar com seus botões estava destinado quase que a ser revisionista de si mesmo. Pois quando postula a impossibilidade do conhecimento metafísico esta a bem da verdade fazendo um recorte e por metafísica querendo dizer Teodicéia. Tudo quanto ele quer dizer é que a existência de Deus não pode ser provada dedutivamente. Metafísica do conhecimento ele mesmo faz santo Deus! Acaso não esta ali escrevendo resmas e resmas de folhas sobre Epistemologia e Gnoseologia??? Pois bem agora na 'odiada' - um dos livros mais sabotados e odiados de todos os tempos - Razão Prática, que fará ele?

Eis que agora eu desdigo o que digo ou desminto o que falei...

Afinal, por conhecer de passagem as páginas monumentais de Vitória, Soto, Bañes, Cano e Suarez ele bem sabe que não é possível haver ética essencial e objetiva da pessoa humana nos termos de um Sócrates ou de um Platão sem postular uma Lei natural, como sabe do mesmo modo que é impossível postular a existência de uma lei natural, universal e imperativa sem admitir, necessariamente, a existência de um Legislador ou princípio Supremo ou transcendente. Mais ainda, sendo muito bem informado, Kant como V Brochard sabia que esta fora a cruz do ceticismo antigo e que o ateísmo e o materialismo não dariam uma ética essencial da pessoa tal e qual um boi não dá leite e galo não deita ovos.

Deu, merda e no campo da Ética o genial e arguto Kant afirmou exatamente o que negará no campo da teodicéia. É como se o alemão dissesse: Teodicéia é bobagem e não podemos atingir em si mesma a existência de Deus ou demonstra-la, no entanto no campo metafísico da Ética, relativo ao comportamento e interação social entre os seres humanos é absolutamente necessária a existência de um padrão externo, universal e objetivo ou seja de Deus. Morto ali ei-lo por absoluta necessidade ressuscitado aqui.

Que concluir a partir disto?

O grande público imparcial e objetivo conclui sem mais pela genialidade ímpar do Kant do primeiro livro e pela boçalidade extrema do Kant do segundo livro, o qual certamente já devia estar gagá ou esclerosado como os ex ateus Litreé e Flew antes de terem morrido.

Para fazer um justo juízo sobre Kant deveríamos ler ambas as obras, mas, os emancipados ateus e materialistas não leêm a 'Crítica da razão pura' o verdadeiro patinho feio da Filosofia.

Até aqui vimos que Kant não prestou lá grandes serviços a ideologia ateística, chegando a ultraja-la por sinal, em que pese ser considerado o mais arguto dos filósofos contemporâneos. Vejamos agora os serviços que prestou no campo do materialismo, do cientificismo, da ciência e da materialidade.

Continua -


quarta-feira, 26 de abril de 2017

A morte da razão no islamismo - Crítica ao livro de Robert Reilly 'O fechamento da mente muçulmana'

Mutazilites




“Se a ignorância é realmente uma bênção ninguém deveria ler 'O Fechamento da Mente Muçulmana.'"

A frase acima sobre o benefício da ignorância foi proferida pelo personagem Cypher no emblemático filme Matrix. E parece que foi feita sob medida para aqueles que se recusam a ler um Boswell, um Kaldellis, um Harari... E a tantos outros pesquisadores aos quais acrescentamos Reilly. 

Eis ai algo que precisa ser lido ou que deve ser lido por tantos quantos não se satisfazem com a ignorância dos chavões, das repetições, dos modismos e dos lugares comuns.

De qualquer modo ou forma, se você prefere não ler Reilly ao menos não reclame quando seus filhos foram enforcados e suas filhas castradas!

Eu te avisei!


"Como prefiro conhecer a verdade, mesmo quando não seja agradável, achei o estudo de Robert Reilly sobre o pensamento sunita o livro mais esclarecedor de 2010."

O assunto esta em voga porque quatrocentos e cinquenta anos após a vitória de Lepanto, mais uma vez ainda, o islã esta as portas da Europa, do velho mundo e portanto do Ocidente ou do que ainda resta da Civilização (A qual esta premida entre EUA e Islã e sendo triturada).

Lamentavelmente não apenas das massas sempre incultas e alienadas, mas mesmo o leitor mediano ignora que seja o islã, cuidado que seja tudo uma coisa só.

Não sabe o que é carijismo, xiismo, sunismo e menos ainda que tenha sido mutazilismo, acharismo, qadarismo, etc

Resultando disto tremenda confusão.

Na medida em que as pessoas são levadas a imaginar ou a cogitar que o islã de hoje é o mesmo islã que até o século XI contribuiu a sua maneira para a recuperação do patrimônio cultural, filosófico e científico, destruído em parte pelas hordas dos primeiros muçulmanos que queimaram a grande Biblioteca de Alexandria.

Ledo engano e falso enleio.

Por isso temos de ler Reilly e prestar muita atenção no que ele nos conta:


"E Reilly conta a triste história de como uma grande batalha filosófica no seio do Islã, entre mutazilitas e os acharitas, moldou a história da fé e levou inevitavelmente à crise atual do Islã. Essa batalha intelectual – resolvida na metade do século IX – não foi uma discussão acadêmica e civilizada em torno de princípios meramente abstratos; foi uma disputa de suma importância, com implicações que se tornariam óbvias para os cristãos atentos do começo do século XXI."

Nem se tornaram óbvias para os Cristãos, os quais percorrem o mesmo caminho que os acharitas aberto a mais de milenio e meio por Agostinho de Hipona e alargado posteriormente por Ockham, Lutero, Pharran, etc

Sempre bom lembrar que não vivemos mais em tempos áureos de escolástica medieval.

E que o mesmo espírito irracionalista injetado no organismo cristão pelo ex maniqueu Agostinho de Hipona no século V e alimentado por Ockham foi canonizado por Lutero em pleno século XVI e - pasmem - transplantado para o plano da Filosofia pelo Luterano I Kant. No Ocidente Cristão ninguém mais odiou o Lógico e Mestre de todos os que sabem (Aristóteles) do que o Pai do protestantismo para quem o Perípato não passava de um pagão ultra endemoninhado.

Foi o auto proclamado reformador do cristianismo que comandou a primeira cruzada contra o Estagirita, o humanismo, a razão e a lógica; afirmando em termos tão incisivos quanto Achari e Al Gazali a miséria da razão humana e santificando o irracionalismo.

Portanto antes de lançar pedras contra o Islã temos de olhar para o próprio umbigo e fazer auto crítica - Temos muito que falar sobre Agostinho, Ockham, Lutero, Kant, Pharran... Afinal não há dia em que os pentecostais e calvinistas fazendo pouco caso da razão e apropriando-se indevidamente de certas passagens atribuídas ao apóstolo Paulo, fazem gala de que a Loucura de deus é muito superior a sabedoria dos homens... Com a qual identificam a razão, a lógica, etc como se estas não procedessem de Deus, e não devessemos dar a quem solicitar "As razões de nossa esperança."

O mais grave e lastimável é que esse espírito irracionalista e fanático, que encara com suspeita, tudo quanto seja humano, penetrou já a própria igreja romana por meio da RCC... Instilando seu veneno irracionalista pelo corpo dessa antiga comunhão... A ponto de terem trocado a reflexão teológica: sábia, ponderada e racional pelos delírios emocionalistas e tremeliques de Pharram e cia

Portanto, ao menos aqui no Brasil do século XXI (2017), ao contrário de Lawler não vejo esses Cristãos atentos a problemática da razão e preocupados.

Quantos dentre os fervorosos carismáticos leram e estudaram a Encíclica Fides et Ratio do defunto J P II?

Quantos dentre eles tem dedicado algum tempo a estudar alguma obra de escolástica?

Quantos ao menos tem estudado patrística ou doutrina social da igreja???

Então eu não percebo a existência de Cristãos preocupados não necessariamente com o problema do acharismo no islã, que é convergente, mas com o problema, colossal, do pentecostalismo e da RCC, cujos membros endossam o mesmo tipo de pregação irracionalista. Evidentemente que isto é assombroso em se tratando dos romanistas, suja comunhão possui um patrimônio escolástico de primeira grandeza. Mas eu não o percebo devidamente valorizado. 




"As principais disputas filosóficas geralmente sobrevivem por séculos. Os platônicos e os aristotélicos ainda hoje estão discutindo. Ecos dos debates no Concílio de Niceia ainda podem ser ouvidos nos departamentos de teologia das universidades católicas."




Nicéia é questionado e só pode ser questionado por quem tenha perdido por completo o sentido Católico e enveredado justamente pelas tortuosas veredas do biblismo protestante, da judaização, do irracionalismo, etc Mas passo a largo disto...

Nicéia não é algo que se discuta. Exceto pelos unitários...

O padrão atanasiano é fundamento pétreo da Ortodoxia Cristã.

Bem o valor da razão na perspectiva Cristão também é algo que jamais deveria ser discutido por um Católico.

No entanto Agostinho e sobretudo e acima de tudo Kant, o 'Filósofo de Lutero'...

E por ai afora seguem as incoerências, os paralogismos e as sórdidas traições.


Diante de tais aberrações nem preciso dar a público os motivos que me levaram a abraçar o Catolicismo Ortodoxo após ter sido 'resgatado' da superstição protestante pela igreja romana...




"Mas os mutazilitas não estão mais discutindo com os acharitas."

Não existem mais mutazilitas no islã desde o século XII - Marque bem isto querido leitor, antes de classificar seus oponentes como islamofobicos e repetir semelhantes desrazoados! - pelo simples fato de terem sido denunciados por heresia, sacrilégio, blasfêmia e exterminados.



"No Islã o debate acabou – não porque um argumento provou ser mais persuasivo que o outro, mas porque uma escola invocou sua autoridade para silenciar a crítica."

Leia-se os acharitas apelaram a espada do Califa, e com base na instituição do Murtad, criaram uma inquisição, dando cabo de seus inimigos.

Mas o Cristianismo também teve suas inquisições, dirá o leitor exercendo sua criticidade.

Lamentavelmente a igreja romana, desde o século XIII, contou com uma Inquisição e o protestantismo desde que surgiu, no século XVI, com uma Inquisição rival ainda mais violenta (A respeito da qual os meios de comunicação costumam silenciar por questão de conveniência.).

O que nos leva a constatar que não houve Inquisição durante todo primeiro milênio do Cristianismo e tampouco na parte Oriental da Igreja i é nos domínios da Igreja Católica Ortodoxa. Houve portanto um setor ao menos do Cristianismo sem Inquisição. Seja justo e considere isto!

Agora por que não houve Inquisição nem durante o primeiro milênio desta Era, nem na parte Oriental da Igreja?

Simples, por que não ha qualquer mandamento inquisitorial nos Santos Evangelhos ou mesmo em todo corpo do Novo Testamento e tampouco na tradição da Igreja i é nos ensinos dos Santos Padres. Não se alastrou por todo mundo Cristão e nem mesmo se firmou definitivamente nas Cristandades ocidentais porque não partiu da essência mesma ou do espírito do Cristianismo. Do contrário a igreja grega teria tido sua inquisição e as inquisições romana e protestante chegado até nossos dias!

Importa saber que a Inquisição, seja romana ou protestante, foi suprimida há coisa de dois séculos e que não percebemos qualquer clamor generalizado no sentido de restabelece-la, salvo talvez em pequenos grupos de sectários radicais - Sempre protestantes é claro - que aspiram restabelecer a lei de Moisés. Referi-mo-nos aos judaizantes e reconhecemos que são um problema sério decorrente do calvinismo e do pentecostalismo.

Todavia mesmo a maior parte deles é incapaz de cultivar tais pensamento sem alguma medida de vergonha ou pudor, pelo simples fato de, de vez em quando, darem com as fuças nas palavras de Jesus ou nos Evangelhos, no Sermão do Monte, nas Bem aventuranças...

Outra é a realidade do islã e totalmente distinta.

Uma vez que a mesma instituição que deu cabo dos mutazilitas, a murtad, continua viva e operando entre eles. Pelo simples fato de constar no Corão e na Sunah, sendo encarada como divina! Tal a djzia, tal a jihad... Tal o imposto do infiel e a guerra santa contra os que não aderem a sunah! É dogma de fé indiscutível aos olhos do bom muçulmano. Nós temos uma Trindade que não afeta a vida de ninguém... Eles não tem Trindade alguma ou Deus encarnado, mas tem Murtad, Djzia, Jihad, em pelo século XXI, e se vangloriam disto!!!

A violência, a agressão, a intolerância, etc são princípios constituitivos do islã ou dogmas de fé, assentes no Corão, na sunah, nos hadiths. Não é algo a respeito do qual se discute civilizada e ponderadamente, mas algo que pôs a perder os instruídos mutazilitas!

No islã não há Duns Scott, Aquino, Pedro Auriol, Tarantaise, etc Porque seriam condenados comop heréticos.

A igreja romana, tão levianamente acusada por seus críticos, permitiu o desenvolvimento de uma teologia escolástica em suas fileiras, e de cujo exercício resultou a emancipação e autonomia do pensamento filosófico e crítico no Ocidente. Caso ela tivesse procedido como o islã e mandado Tomás as gemônias jamais teríamos chegado até aqui...

Então não me venham dizer que religião é tudo igual ou tudo a mesma coisa porque isso é conversa fiada de quem jamais examinou a fundo a questão.

Aqui o posicionamento do Catolicismo antigo - Face a razão e a Filosofia - foi um enquanto que o do islã (E posteriormente o do protestantismo como hoje o do pentecostalismo e da RCC) foi outro. Sendo totalmente distintos os caminhos percorridos por ambas as comunhões religiosas.



"Os mutazilitas tentaram a mesma síntese entre fé e razão que os filósofos medievais realizaram no Cristianismo. Embora aceitassem inteiramente a autoridade do Corão, os mutazilitas acreditavam que a fé islâmica poderia sujeitar-se à análise lógica, e as palavras de Alá conformar-se-iam às exigências da razão humana."
Eles estavam corretos porque se Deus é a fonte do princípio racional, este princípio externo deve ter sua fonte interna na própria vida de Deus, o qual por sinal é imutável.

Devendo a Revelação divina por necessidade, estar de acordo com o princípio racional.


"Mas os acharitas tinham outra idéia."

Esta ideia é expressa por Gazali na Destruição da Filosofia. 

Gazali a semelhança de Hume e Kant recorre as exposições de Sexto Empíreo, Aenesidemus, e outros céticos com o objetivo de abater a razão e glorificar a fé cega e irracional.

Perceba-se portanto como a crítica do ceticismo não é de todo incompatível com certa modalidade de fé. Dentre nós o exemplo mais vivo neste sentido é Montaigne o qual declara insistentemente buscas asilo na fé. Segundo alguns autores o próprio Kant teria dito que o fim último de sua crítica a capacidade racional era a exaltação da fé, da fé cega e luterana é claro.

Evidentemente que tudo isto fica bem quando associado a uma teoria metafísica que lhe sirva de substrato, como a tal doutrina da depravação total tomada a Agostinho. Como os antigos gregos ignoravam supinamente tais dogmas sinistros em torno da corrupção total do homem, o ceticismo jamais pode firmar-se adequadamente entre eles e sua epistemologia, a exemplo de sua antropologia, sempre foi otimista.

Tal o caso de Kant o qual tampouco pode introjetar ou implantar sua crença agostiniana/luterana no corpo da Filosofia, ficando seu meio ceticismo desprovido de quaisquer bases ou fundamentos mais sérios e suspenso no ar. Supondo sempre no entanto, que há algo de 'errado' com o homem ou que este é um tipo de ser defeituoso...




"Essa escola de pensamento defende que o Islã exige submissão absoluta à vontade de Deus. Pensar que Alá esteja sujeito à razão é indecente, até blasfemo, na visão dos acharitas. Os acharitas não aceitam sequer a mais fundamental análise lógica do Corão; eles exigem obediência incondicional à palavra de Alá."


Eles apresentam um deus incoerente, logo um deus que não pode existir.



"Quando algumas passagens do Corão entram em contradição com outras, os mutazilitas dizem que a razão guiará os fiéis até a verdade. Os acharitas não fazem uma tal concessão à razão humana. Se Alá deseja ser contraditório, eles dizem, quem somos nós, simples mortais, para questionarmos o todo-poderoso? Assim, o princípio da não-contradição, o princípio mais fundamental do pensamento racional, é posto de lado, e o Islã entra nos domínios da desrazão."


Eles atribuem a Deus a vontade de ser imperfeito! Enquanto negamos que Deus seja livre, pelo simples fato de ser necessariamente perfeito e sempre atuar com absoluta perfeição.

"O triunfo dos acharitas, diz Reilly a seus leitores, representa o fechamento final da mente islâmica."


Portanto se acha que o islã de hoje é o mesmo islã meio progressista dos mutazilitas do século XI, esta redondamente enganado e precisa rever seus pontos de vista.

Se espera algo de bom do islã sem a mutazila...

Por outro lado de espera a ressurreição da mutazila após ter entrado em óbito há quase mil anos...

Resta ao islamófilo sincero o dever de primeiramente abraçar o islã é claro, e depois de tentar restabelecer ou restaurar a mutazila, compondo a fé muçulmana com as exigência da racionalidade e da ciência.

É a via mais excelente para quem acredita na possibilidade do islã reconciliar-se com as fontes de nossa civilização greco romana.

Que nossos críticos demonstrem que estamos errados reformando o islã, ou... morrendo tentando e sendo enforcados nas praças de Meca, Riad, Damasco, Cairo...



"Com os mutazilitas, algum diálogo inter-religioso teria sido possível."



Sim porquanto fundamentado nos elementos comuns da percepção e da razão.


"Mas com os acharitas, não há base para uma discussão razoável porque a própria razão é tida em desprezo."Mortas a percepção - A qual nos conduz a uma experiencialidade comum em torno do mundo externo ou da realidade - e a razão - A qual nos conduz a uma reflexão comum - fica impossibilitada qualquer possibilidade de diálogo, por falta de um elemento comum a partir dos quais os homens se possam entender e chegar a algum acordo.

A mesma crítica, evidentemente, cabe aos céticos. Evidentemente que me refiro aos céticos metafísico, não aos cartesianos, cuja dúvida é metodológica e provisória. 

É exatamente aqui que os fideistas e os negadores do conhecimento se encontram.



"Desta forma o pensamento islâmico desde o século IX ficou marcado com o desinteresse pela consistência, pela análise, pela exploração científica. Não é coincidência, Reilly observa, que as grandes descobertas do mundo árabe ocorreram antes do despertar do poder islâmico. Nem é surpreendente que o desenvolvimento das nações islâmicas esteja bastante atrás das ocidentais."
Das premissas a conclusão.

Preciso dizer porque o islã é criacionista?

Mais ainda - preciso dizer porque a crença na inspiração Linear e Plenária da 'Bíblia' ou o Biblismo é igualmente criacionista e fetichista?

Preciso explicar que entre o pensamento e praxis científicas e o padrão de pensamento fetichista representado pelo criacionismo há um abismo intransponível?

Da mesma maneira como o pensamento magico fetichista típico do islã aniquilou por completo um padrão de pensamento científico ou racional e todos as sociedades muçulmanas levando-as a mais completa paralisia e atraso, o criacionismo arvorado em dogma pelas seitas protestantes representa a maior ameça já enfrentada pelo pensamento científico desde seus primórdios.

Não há sobre a face da terra um único cientista de renome, consagrado e reverenciado por suas contribuições e descobertas que acredite das monstruosidades registradas no antigo testamento a respeito da terra, dos céus, dos mares, dos animais, dos seres humanos... ou nas quejandas assentes no Corão. A crer em tais mitos, fábulas, contos, etc estará morto para o pensamento crítico... E não fará ciência, como não a fazem pentecostais e sunitas ortodoxos...

Ah mas no passado Faraday... 

Acontece que Faraday e outros pioneiros viveram há mais de duzentos anos. Praticamente antes de Hutton, Lyell, Lamarck, Darwin, Mendel, etc Queremos dizer antes que fossem feitas as descobertas que tanto revolucionariam a geologia, a biologia, etc Com as quais como cientistas não poderiam deixar de concordar. Eles pertenceram a uma outra era (Pré científica)... Hoje nossa compreensão científica de mundo e natureza são totalmente diversas.

Eles ainda podiam ser honestos creno em alguns mitos e fábulas por força da cultura.

Nós que vivemos muito depois de Buffon, Hutton, Lyell, Perthes, Lamarck, Darwin, Mendel, Mayr, etc não. Não temos justificativa para negar o obvio, aceitando uma coisa e negando outra, e selecionando segundo nos convém.




"Infelizmente, a vitória acharita foi, ao que tudo indica, definitiva, porque uma vez afastada a razão, não há mais maneira de resolver disputas além da imposição da força."

Desde então, mais do que nunca - Pois o princípio da força já lá estava assente! - os homens tiveram de ser convertidos a ponta da espada ou exterminado. Prevalecendo a lógica do 'Converte ou morre'.


"O Islã tornou-se uma fé inteiramente definida pela prática da vontade: a vontade de Alá. Se um mutazilita ousasse sugerir que o Corão deveria ser examinado pelo prisma da razão, os acharitas o acusariam de haver blasfemado contra a fé, e sua vida estaria em perigo."

É um sistema no interior do qual não se pode raciocinar a respeito de um livro inteirinho...

O que torna as pretensões do Catolicismo, com seus quarenta dogmas alusivos ao mundo imaterial ou invisível bastante sumárias... (Face ao protestantismo com sua fé na Bíblia inteira ainda mais rsrsrsrs)




par Lawler, 
Philip - 'The Most Eye-Opening Book of 2010' - ENTRE ASPAS