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quarta-feira, 14 de julho de 2021

Revolução, violência e Contra Revolução.

Admitido que a Revolução ou o revolucionismo - Em oposição a Reforma ou ao Evolucionismo - seja erro crasso, não é a contra Revolução erro menos fatal e metafisicamente podre.

Destarte se o homem refletido, em especial o Cristão Ortodoxo - Mesmo quando como nós admita recurso instrumental a violência - jamais assimilará esse espírito turbulento que é o espírito da Revolução, por razões ainda mais altas e fortes tampouco aderirá a essa outra petição a força chamada contra Revolução e jamais será contra Revolucionário. 

E para ser suficientemente claro, de modo geral ou teórico (Pois exceções há em que poderá apoiar ou combater certos tipo de Revolução - e já o veremos porque.) será o homem sóbrio e refletido sempre neutro face as manobras revolucionárias, mantendo-se a distância ou a parte delas. Pois é certo que não comunga desse furor metafísico em torno qualquer fator que possa transformar o homem ou a Sociedade rapidamente ou excluindo o processo ordinário, e lento, de formação da cultura. E menos ainda crerá ele que um tal fator esteja no acesso de conflitos físicos... que possam fugir a dinâmica corrente da História como que fosse saltando. Aqui temos de ser enfáticos, não se adianta a História por meio da violência e toda e qualquer tentativa será emenda que sairá pior do que o soneto - Tal o caso das Revoluções Francesa, Russa, Mexicana e Chinesa, as quais desandaram uma após a outra, em que pesem terem imposto imenso sacrifícios ao povo e feito correr rios de sangue.

Bem a única delas, que ao menos até o tempo presente, parece ter oferecido resultados minimamente positivos. Tal constatação no entanto só será definitiva quando a civilização democrática e nossa política liberal for posta a prova em algum momento decisivo do futuro, só então saberemos se do jacobinismo cego surgiu algum espírito. Talvez 'a posteriori' e graças a um empenho formativo/educacional, tal espírito, sentido ou consciência tenha surgido. Seja como for a manobra jacobinista, enquanto expressão revolucionária, não passou de uma inversão.

As demais, como as ondas do mar, foram e voltaram, avançaram e recuaram, apenas prolongando a própria agonia. Foi o próprio Lênin que avaliou a NEP de Bukharin como um recuo, outro não foi o veredito da Esquerda comunista de Trotsky e Preobrajenski e enfim do próprio Stalin. Em seguida tivemos a guinada democrática intra partidária e a retomada da perseguição religiosa pelo líder Khrushchov e por fim a glasnost e a perestroika de Gorbatchov, sucessão interminável de idas e vindas permeadas por expurgos. Situação muito parecida com a da Reforma inglesa de Eduardo a Elizabeth...

Outro não foi o curso da interminável Revolução Mexicana e por fim da Revolução Chinesa com sua Revolução cultural e enfim com sua adaptação ao modelo de mercado...

Neste caso por que não conter as Revoluções apoiando as forças anti Revolucionárias?

Sim, concordamos, necessário é conter a Revolução.

Não no entanto imitando, como macacos, os revolucionários, rebentos do erro jacobinista e do erro protestante. 

Embora a Revolução não passe de devaneio metafísico concebido por alguns intelectuais, só pode vir a luz e afirmar-se num quadro social muito bem definido e num quadro social de crise. É a crise que dá oportunidade a Revolução. O que jamais se sucede numa sociedade estável. Portanto antes da Revolução há o problema social, já definido pelos Sociólogos como uma patologia, doença ou enfermidade.

É a Revolução um sintoma. Sintoma de que a organização social não vai bem ou de que a Sociedade está enferma.

Para os Revolucionários é necessário que a infecção se desenvolva até matar o enfermo. 

Já os contra Revolucionários creem que para salvar o corpo social é necessário decapita-lo ou ao menos mutila-lo, cauteriza-lo, etc Vertendo tanto sangue e impondo tantos sofrimentos quanto os revolucionários. Entre revolucionários e contra revolucionários adeptos do padrão da violência ou da força o pobre povo é posto entre a cruz e a espada e me ocorrem diversos filmes sobre a Revolução Espanhola em que o dois lados acusavam a gente do campo de traidora e passava-lhes a metralha, enquanto as vítimas sequer sabiam porque estavam a morrer, ignorando supinamente os ideários anarquista e fascista e toda essa dicotomia estúpida. É esta situação comum pois mesmo quando o espírito ou a metafísica da Revolução e da Contra Revolução sejam distintos a técnica ou o método truculento é igual. 

Buscar manter uma realidade social problemática ou conter mudanças estruturais indesejáveis por meio da força é algo equivalente a superstição revolucionária. Estes querem ativar forças mágicas ou alimenta-las. Estes aspiram conter pela força a dinâmica social. Se a História não pode ser levada adiante na proporção imaginada pelos revolucionários tampouco pode ser o seu fluxo contido pela força física.

Antes do cautério, da mutilação e da eutanásia e antes antes que a Revolução se afirme cabem dietas, vitaminas, vacinas, antídotos, remédios e tratamento. 

Para que a Sociedade não se desintegre ou adoeça necessário é implementar continuas reformas sociais e econômicas.

É por força da adaptação que se afasta o espírito revolucionário. 

A tarefa do médico competente é impedir que o cliente adoeça (Portanto antes de tudo profilática.) ou que o doente piore. 

Um médico que espera seu cliente adoecer ou piorar até tornar-se moribundo não faz jus a seu título e sim a pecha de charlatão.

Permitir que a doença ser desenvolva sem intervir equivale aqui a um crime.

Tal a missão do legislador sábio e prudente.

Impedir que a patologia social evolua e avance é o seu dever.

Daí seu aspecto de reformista. Pois reforma para não perder.

Desde seus primórdios, graças a falsa doutrina da auto regulação, tem o liberalismo econômico causado distúrbios e tumultos sociais onde quer quer se afirme, e por isso em sua rabeira, seguem, inevitavelmente o Comunismo, o Nazismo ou o Fascismo. Pois o liberalismo econômico, recusando aceitar o primado da Ética, tende a opor-se a toda e qualquer reforma que por força da ingerência politica, queira manter o convívio e evitar a crise.

E, da recusa face as ditas reformas vai, dia após dia, aumentando aquele estado de oposição vigente entre as classes como pode observar Henri George  a mais de século em 'Progresso e pobreza' - até resultar em luta aberta.

Diante disto não é para estranhar que muitos revolucionários, sejam anarquistas ou comunistas, apostem no máximo desenvolvimento do liberalismo econômico, para, a partir de suas oposições ou da crise social engendrada por ele entrarem em cena.

Beneficiam-se os revolucionários das condições sociais indesejáveis produzidas pelo sistema capitalista, o qual funciona como gatilho mais remoto de todas as Revoluções. 

Portanto antes das Revoluções ou antes que surjam elas, com seus discursos mais ou menos demagógicos, temos um problema causado pelo liberalismo e seu espírito conservador até o irracionalismo. É esse problema que deveria ter sido evitado pelo legislador sábio e prudente, por meio de reformas muito bem calculadas. Num plano ideal o poder político - Policrático - deveria funcionar como instância que alivia as tensões, atenua o conflito e impede o choque assegurando a paz e a concórdia. 

O poder econômico no entanto, encara tal atividade como vil usurpação, recusa-se a toda e qualquer reforma inspirada em padrões éticos e muito se assemelha as passageiros de um avião que em meio a forte turbulência recusam-se a lançar fora suas bagagens... 

A bem da verdade os economicistas conservadores ou capitalistas tem imenso receio de toda e qualquer reforma ou limitação imposta pelo poder político por saberem que cumulativamente tais reformas produziriam um sistema não capitalista ou em certa medida socialista. Os comunistas e anarquistas recusam-se a admitir tal realidade muito bem exposta por M Deat, não os liberais economicistas, os quais desconfiam de toda e qualquer reforma e resistem ferozmente. 

O que eles não percebem ou fingem não perceber é a atmosfera de ódio e rancor que se vai acumulando e que servirá de motor para as revoluções e conflitos.

É portanto o liberalismo econômico a grande sementeira de culturas de morte, tumultos e confusões que se sucedem e acumulam. 

Inútil tolerar seus caprichos e depois querer afogar a tal Revolução num mar de sangue. Se antes nada se fez no sentido de atenuar o conflito e de evita-la não há que se reclamar depois.

Por isso tinha razão Berdiaeff ao declarar que o Cristão Católico Ortodoxo ou mesmo apostólico jamais formará fileira com os contra revolucionários, especialmente se forem eles economicistas conservadores como aqueles que nos lançaram no abismo, mas permanecerá aparte, assumindo uma neutralidade consciente e a toda prova. A tal Revolução, seus distúrbios, sofrimentos, angústias e dores terá em contra de PENITÊNCIA por seus pecados sociais ou pela omissão dos Cristãos, e tudo sofrerá como mártir. Jamais fará o jogo leviano e irresponsável dos contra revolucionários.

Exceção se fará caso os sofrimentos impostos ao povo pelo modelo liberal forem demasiado cruéis e intoleráveis. Neste caso apoiará o emprego da violência e poderá juntar-se aos Revolucionários com a nobre intenção de aliviar o povo, tal decisão, no entanto, ficará sempre na esfera da consciência pessoal. Cada qual deverá avaliar a situação a partir dos Evangelhos, da Tradição e da Doutrinal social Cristã e tomar sua decisão. Quiçá a providência favoreça os Cristãos no sentido de impedirem que o emprego da violência chegue a esfera do convívio, de evitarem possíveis abusos e de pugnarem pela justiça.

Já face a contra Revolução só poderão endossa-la caso os Revolucionários animados por algum tipo de religiosidade sectária tenham em vista qualquer modelo teocrático que ponha em risco o exercício da liberdade Religiosa. Neste caso é necessário abraçar a contra Revolução. 

Advirto no entanto que o parágrafo acima não se refira aos ateus, materialistas e irreligiosos que nós odeiam e perseguem por constatarem como os liberais hipócritas instrumentalizam nossa fé, ou por confundir nossa postura com a dos protestantes ou ainda com a venenosa cultura americanista, pois como já foi dito certo número de neo cristãos sem consciência tem assimilado essa xaropada. Triste mas compreensível que parte dos miseráveis e perseguidos detestem nossa religião uma vez que alguns daqueles que estão entre nós ousem afirmar que tal situação corresponda a vontade de Cristo e seja normal. Se eles afirmam que o pecado da injustiça é aceitável como admirar-se de que sejamos combatidos pelos injustiçados?

Por isso quanto me refiro aos inimigos da Religião me refiro explicitamente aos calvinistas e pentecostais, aqueles por terem deflagrado as primeiras Revoluções modernas e Teocráticas no século XVI e estes por adotarem os mesmos princípios (Truculentos e anti democráticos.) no tempo presente. A estes fanáticos é dever dar combate por meio da força pois equivale sempre a defender-se. A eles se deve resistir em nome da Constituição e das leis. Não re refiro aqui aos muçulmanos sunitas - Igualmente perigosos. - pois embora santifiquem a força e a agressão por meio de sua jihad não empregam o conceito de Revolução, o qual está muito distante deles. O conceito de Revolução é conceito reflexivo que se movimenta no domínio da metafísica. O islã contenta-se com petições ao Corão ou no máximo a uma tradição autoritativa em termos de fé.

Continua. 



terça-feira, 24 de julho de 2018

O renegado, revisionista e traidor W Lênin

Já foi dito que o que Paulo fez pelo Cristianismo, separando, por assim dizer, essa pequena seita ou ramo do judaísmo e inserindo-o entre as sociedades pagãs, Lênin teria feito pelo marxismo, extraindo-o dos escritos herméticos de K Marx e conferindo-lhes vida própria.

Até certo ponto uma e outra afirmação correspondem a verdade, e paulinismo esta para Cristianismo como leninismo ou bolchevismo esta para Marxismo ou Comunismo. Avanço ainda mais, da mesma maneira como Paulo - pupilo de Gamaliel - falseou a Ética Cristã, Lênin falsificou certos conceitos marxistas como 'Ditadura do proletariado' (cf nosso artigo precedente sobre Rosa Luxemburgo) e 'Revolução'. Sob estes dois aspectos ao menos foi renegado, apóstata, traidor, revisionista... e hipócrita por ter atribuído tais defeitos da Kaustky.

Não é preciso ser um R Nisbet da vida para constatar que Marx vincula a ação individual a oportunidade oferecida pelo processo histórico, concebido em termos materialistas e economicistas. Deve o proletariado consciente acompanhar de perto o desenrolar da História para atuar apenas quando for possível i é no tempo certo. É dever da vanguarda socialista atuar em comunhão com a História para que a revolução seja bem sucedida.

O que implica acompanhar a implantação, o desenvolvimento e o declínio do sistema capitalista numa dada sociedade. Tendo em vista certos defeitos inerentes a sua estrutura o capitalismo devastará as classes médias e proletarizará a sociedade. O proletariado a seu tempo, tirando proveito deste processo e sabendo-se maioria, tomará o poder para si. Disto resultando a ditadura do proletariado. O proletariado servindo-se do poder político alterará radicalmente o regime de propriedade, socializado os meios de produção. Alterada esta relação desparecerá o que chamamos de sociedade classista e com ela o conflito. E como o conflito é o motor da História, chegamos ao fim do estado e do período socialista, para atingir ao que chamam de fase Comunista...

Tal o fim último da Revolução, da qual a ditadura do proletariado de faz meio.

Uma coisa porém é absolutamente certa. Antes da sonhada revolução o capitalismo deve gastar todas as suas forças e desenvolver-se plenamente, pelo simples fato de que a Revolução será - ao menos em parte - o produto final deste desenvolvimento. Ao desenvolver-se o Capitalismo produzirá a expansão da classe operária e da expansão desta classe advirá seu triunfo.

Antes que este ciclo se cumpra a Revolução fica sendo sempre impossível.

Por isso ela deveria acontecer ou ter acontecido, forçosamente, na Inglaterra ou na Alemanha, na medida em que o capitalismo daqueles países havia percorrido o roteiro traçado por Marx enquanto ele ainda vivia e isto a ponto de chamar-lhe a atenção as vésperas da morte. De alguma maneira Marx deve ter intuído o que foi constatado já por Lênin, já por Henri de Man, no século seguinte - Que a atividade político/parlamentar e o sindicalismo tinham o condão, de por meio de reformas, conter o máximo desenvolvimento do capitalismo e portanto de protelar a sonhada Revolução.

De fato os marxistas ortodoxos estão convencidos de que todas as sociedades humanas devam passar pelo mesmo processo. Assim as que se encontram sob qualquer forma primitiva ou pré capitalista, devem forçosamente adotar o modelo capitalista para, ao fim do processo de desagregação do capitalismo chegar a Revolução socialista e, após a ditadura do proletariado, atingir o paraíso comunista. Foi por uma questão de coerência que Marx aplaudiu de pé a conquista da Índia pelo Império Britânico, pois considerava um bem que a tradicional sociedade indiana fosse suplantada pelo modelo capitalista trazido do Ocidente, de modo a ulteriormente atingir o Comunismo... Os nayrodniya no entanto ousaram perguntar a seus apóstolos do porque seria necessário passar pelo inferno capitalista para chegar ao paraíso comunista?

Os comunistas limitaram-se a classifica-los como retrógrados ou reacionários. Enquanto eles redarguiam dizendo que já estavam em posse do socialismo...

Quanto ao Ocidente no entanto a questão era bem outra. Pois o capitalismo já se havia manifestado e desenvolvido. Diante disto, o que parte dos socialistas queria era paralisa-lo, conte-lo, enjaula-lo, limita-lo... ao invés de permitir que continuasse a desenvolver-se livremente no sentido previamente descrito por Marx. Conceberam portanto uma série de reformas politicas com o objetivo de travar a marcha do capitalismo e de manter a sociedade no nível em que se achava. Outros cogitavam em faze-lo retroceder, igualmente por meio de reformas políticas... Uma e outra solução receberam o nome de reformismo ou de socialismo reformista, em oposição ao socialismo revolucionário ou comunista. Os reformistas, chamados também - pelos marxistas - de socialistas pequeno burgueses despertaram a fúria dos marxistas ortodoxos, que encaravam o máximo desenvolvimento do capitalismo como uma necessidade. Afinal, sem ele, não haveria proletarização, revolução e paraíso comunista.

Cumpre dizer ainda que a social democracia jamais pode furtar-se a este 'desígnio ímpio' de regular o trabalho - até então livre ou ditado pelo 'laissez faire' - por meio de leis e de consequentemente melhorar a condição dos proletários, a qual tornou-se de fato suportável, quando não - ao menos por algum tempo - confortável, o que não podia deixar de atuar sob a marcha do capitalismo, retardando-a ou imprimindo-lhe outro sentido. Afinal ao invés minguar, em certas situações, a classe média - sempre identificada com a pequena burguesia - acabou expandindo-se, ficando o número de descontentes minoritário. Na medida em que o capitalismo foi sendo contido ou limitado - o que nos faz duvidar quanto a continuar sendo capitalismo! - mais e mais trabalhadores foram sendo absorvidos por ele, num movimento contrário ao que fora descrito por Marx. Mesmo o capitalismo não pode furtar-se a pressão feita pelas massas e a ação política dos reformistas tendo de adaptar-se a novas realidades para sobreviver...

Os marxistas ortodoxos perceberam-no de imediato e concluíram que o reformismo, limitando o Capitalismo, conferia-lhe vida e resistência. O reformismo foi que impediu o capitalismo de desagregar-se e perecer, frustrando os vaticínios de Marx. A social democracia, mesmo quando protestava não ser reformista, foi que tornou a Revolução inviável ou desnecessária, ao menos por algum tempo. Pois segundo Engels após suportar limitação após limitação, a burguesia ameaçada acabaria por violar as regras do jogo recorrendo ao que chamamos de golpe. Neste momento os socialistas, recorrendo a 'violência defensiva' passariam do exercício (Leon Blum) a posse do poder. No entanto, ao menos na América latina, os golpes de estado promovidos pela burguesia ameaçada, nem sempre suscitaram a merecida reação...

Lênin, por uma questão de lógica, não via diferenças muito significativas entre o reformismo e a social democracia. Tendo chegado a inferências bastante parecidas com as que acabamos de expor. Todavia, ao contrário dos mencheviques fiéis, como Martov, Plekanov e Axelrod, ele não estava nem um pouco disposto a aguardar pelo máximo desenvolvimento do capitalismo russo. Haja visto que os servos haviam sido emancipados em 1861 e que em 1905 ou 1914 o capitalismo russo ainda se achava num estado incipiente. Era a Rússia de Lênin uma sociedade majoritariamente agrária ou rural e Lênin, como Marx sabia que não era possível esperar qualquer Revolução de uma sociedade agrária e por definição tradicional.

Sendo assim Lênin teve de fazer algumas acomodações, repudiando o materialismo economicista do Mestre e opinando que não era necessário esperar pelo máximo desenvolvimento do capitalismo russo - processo que demandaria mais de um século. Era perfeitamente possível fazer a Revolução na Rússia agrária de então... Perceba o amigo leitor que o esquema ou roteiro de Marx não foi respeitado. Lênin de fato, acreditava ou fingia crer, na possibilidade de furtar-se ao processo Histórico e de alguns homens adiantarem os tempos ou a hora da Revolução. Passando as vistas por alto parece uma aposta inocente... Mas implica admitir uma solução idealista e mesmo romântica em termos de História. Na medida em que se admite que o homem prescinda da oportunidade oferecida pelo processo para ser bem sucedido. O homem pode furtar-se ao processo ou atuar por si só, nada menos materialista ou mesmo realista.

Os 'odiosos' mencheviques expuseram detidamente os erros de Lênin, limitando-se ele a declarar que seus críticos não passavam de fariseus, escravizados pela letra ou pelas palavras de Marx, das quais se serviam contra a Revolução... Foi tudo quanto ele pode dizer na 'Doença infantil do Comunismo', onde acusava os radicais i é os que de fato mantinham-se fiéis ao pensamento Marxista. Efetivamente estes estavam dispostos a permitir que o capitalismo russo se desenvolve-se sob a égide de uma democracia formal, e mesmo dispostos a colaborar com semelhante padrão de Sociedade, por estarem convencidos de que ao cabo de sua evolução ela viria a baixo ou desmoronaria, criando as condições necessárias a Revolução. Para eles esperar a ação das forças econômicas era absolutamente necessário, pois tal e qual Marx eram etapistas ou gradualistas. Lênin aspirava pelo poder e por isso não queria esperar, por crer que o poder era a Revolução ou que poderia substituir a ação das forças econômicas. Posteriormente, após o colapso da URSS, em 1990, os comunistas ortodoxos declararam que a Revolução não dera certo justamente porque furtara-se ao esquema estabelecido por Marx... tornando necessárias uma série de emendas ou adaptações, sem que qualquer uma delas pudesse salvar a obra de Lênin.

Para sermos justos temos que concordar com aqueles que viram na Revolução russa um aborto da natureza em termos de teoria marxista ou como um uma saída tão revisionista quanto o reformismo.