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sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Outros aspectos do capitalismo...

Tendo sublinhado já alguns aspectos bastante discutíveis do liberalismo econômico face a crítica Cristã tradicional, devo acrescentar alguns outros não menos problemáticos, como a guerra - E já apresentamos o testemunho de W Sombart. - e a indústria armamentista, e a ainda a destruição do mundo natural.

Negar que as duas últimas grandes guerras tenham sido provocadas e manejadas por questões relativas ao 'mercado' ou ao mundo financeiro se me parece tendencioso em demasia. Creio ter sido nas obras de Upton Beall Sinclair - Talvez em Word's end ou em Lanny Budd não sei ao certo que durante a primeira ou a segunda grande guerra tanto a Alemanha quanto a França evitavam geralmente bombardear os grande conglomerados econômicos de ambas as nações ou as grandes multinacionais nelas presentes embora não tivesse mínimo escrúpulo quanto a bombardear escolas, hospitais, asilos, orfanatos e templos religiosos... Creio que tais atitudes tenham algum significado e nos digam algo sobre o que de fato está em jogo ou sobre quem dá as cartas.

No frigir dos ovos a busca pela riqueza esteve por trás das guerras e conflitos desde as mais remotas eras da História e me ocorre terem Umma e Lagash combatido por terras fronteiriças cultiváveis no tempo em que tais terras - Por equivalerem a suprimentos. - eram a riqueza. Se me ocorre ainda a luta pluri secular dos Assírios para atravessarem os estados tampões da Palestina e chegarem a Tebas, antiga capital do novo Reino egípcio e repositório de uma quantidade assombrosa de riquezas. Do mesmo modo Roma atraiu os homens de Alarico pelo mesmo motivo - A imensa quantidade de riquezas nela acumuladas. E Constantinopla para as hordas comandadas por Maomé IV...

Quanto a isto: Novidade alguma debaixo do sol...

Ali eram as guerras movidas por líderes ambiciosos e exércitos ávidos. Desde meados do século XIX passaram a ser movidas por mercados em colisão. 

Parece que agora, no entanto, há um ingrediente a mais, ao menos quanto a articulação.

Refiro-me não apenas a guerra enquanto tal mas a atmosfera de insegurança e medo adrede calculada pela indústria armamentista.

Hoje, talvez mais do que nunca, tendo em vista a tecnologia, são as armas bélicas bastante caras.

De modo que sua negociação ou venda se traduz, quase sempre, em portentosos lucros para aqueles que as fabricam.

Veja que durante as duas grandes guerras os EUA, até determinado momento, venderam armas e munições para ambos os lados, auferindo uma colossal fortuna. Pois num modelo capitalista influenciado pelo positivismo, patriotismo e ética saem de cena quando se trata de lucrar. 

Pouco se dá que duas nações ou povos se ataquem furiosamente um ao outro com o saldo de milhões de mortos se um tal evento possibilita a venda de armas e a aquisição de proventos econômicos. Que de danem as vidas e venha ao nosso bolso ou cofre o dinheiro. Tal o pensamento atual face a guerra - Pois a Guerra de fato produz uma ocasião favorável aos negócios.

Portanto quando as guerras não surgem é necessário causa-las, especialmente quanto sucede algum tipo de crise econômica e o sistema chega a beira do colapso. Em tais situações torna-se a guerra vantajosa... Uma vez que cria um mercado para as armas.

É de fato algo que deve ser pensado e passar pelo crivo da reflexão ponderada. Pois enquanto os parentes de algum político ou general está lucrando com a venda de armas para ambos os lados, um jovem filho de mão viúva é levado a crer que deva morrer ou assassinar outro jovem de mãe viúva a que jamais viu, por amor a sua pátria...

E no entanto me parece que para os grandes industriais - Que tem suas indústrias poupadas pelos dois lados. - o exercício desse amor se torna muito mais fácil. E que os fabricantes de armas e munições não foram ensinados a amar a pátria. Afinal enquanto nossos jovens são induzidos a sacrificar suas vidas ainda na flor da idade, os senhores da indústria bélica, mesmo quando não negociam com o outro lado, jamais distribuem armas a munições, graciosamente ou por amor, a querida pátria.

Então que amor ou dedicação unilateral é essa: Que gera ônus para uma parte > O jovem ingênuo que abre mão de sua vida, e lucro para outra > O nababo proprietário da indústria bélica.

Um aspecto apenas. 

Há outros e igualmente danosos.

Assim até ao menos a primeira grande guerra, este ser que se diz racional, ao invés de suster suas guerras sozinhos, não hesitou em nelas empregar diversas espécies de animais inocentes: Em especial os cavalos, porém também camelos e até mesmo gatos; os quais sacrificou e impôs, na mais larga escala imaginável, horrendos sofrimentos. 

Sem contar que entre os assediados, assaltados pelo terror da fome, não poucas vezes os pets converteram-se em repasto. 

Também a cultura superior sofreu grande dano por parte das guerras. Tomada Cartago por Cipião, foram seus arquivos e bibliotecas transformados em pó. Assediada Alexandria por Júlio César, veio a perder parte da grande biblioteca. Da mesma maneira, quando mais tarde foi Roma conquistada por Alarico e Odoacro pereceram dezenas de bibliotecas, a primeira das quais havia sido criada sob Otaviano César por Asínio Pollio. Da primeira jihad islâmica resultou a perda total da grande biblioteca de Alexandria (Por Amru) e da Biblioteca Cristã de Cesaréia marítima. Posteriormente, foi a Casa da sabedoria de Bagdad lançada as águas do Tigre pelos ferozes mongóis (1258). Em 1525 os alemães saquearam Roma e fizeram perecer nas chamas um imenso número de raros incunábulos. Alguns anos depois foi St Gall atacadas por um grupo de protestantes fanatizados. A própria revolução francesa - Na esteira da reforma protestante. - não foi inocente quanto a destruição de livros e monumentos. Enfim d
urante a primeira grande guerra pereceu a grande biblioteca de Louvain um bombardeio...

Tragicamente todos pudemos testemunhar o estrago incalculável da invasão Yankee ao Iraque, com o bombardeio do Museu e da biblioteca. E a destruição das ruínas de Nínive e Tadmor (Palmira) pelos bárbaros jihadistas do Estado islâmico.

Em termos de conhecimento humano, literário, histórico, etc é a guerra uma calamidade sem atenuantes.

E no entanto, hoje, para muitos - Países - não passa de estimulante negócio... A economia estremece, a crise bate a porte, a moeda desvaloriza, as divisas faltam, a oferta de emprego diminui, etc bora atacar algum país que tenha petróleo, mesmo que o custo, em termos de vidas humanas ou quiçá de cultura, seja elevado. Pois vivemos num mundo materialista economicista que uma determinada fé ou religião, a princípio demasiado transcendente ou celestial, trouxe a luz...

Pois outro aspecto monstruoso da questão é que, tendo sido o protestantismo completamente absorvido pela questão da salvação no além, abandonou e descuidou por completo deste mundo material e natural no qual o Deus Cristão encarnou-se, nasceu, viveu, morreu e ressuscitou... Pois bem, esse mundo, repito, em que quis o Deus Cristão habitar, foi em um determinado momento entregue a si mesmo e posto de lado pela nova fé descarnada. A ponto do próprio romanismo ter dispersado suas energias, com o intuito de frear a nova fé, e se afastado, também ele, em parte da imanência... 

A nós nos parece que essa fervorosa reforma abriu uma brecha para o naturalismo e para o materialismo no mundo cristão, a qual foi ocupada e alargada, mais e mais, por atividades econômicas descontroladas... Sabido é como o próprio absolutismo régio foi enredado e usado por tais poderes - até ser apunhalado pelos costas... Tal o momento em que o Liberalismo econômico, dispensando as muletas do protestantismo e do absolutismo, afirma-se como entidade ou poder autônomo, nos EUA (1776). 

Certo é, no entanto, que se o romanismo não esboçou, face a esse poder, a resistência e a oposição que deveria ter esboçado, o protestantismo, indo além, colaborou ativamente com ele. Material, a princípio, não tardou para o capitalismo tornar-se materialista. E isto numa Era em que as gentes jamais haviam sonhado com o bolchevismo\comunismo - O qual recebeu este vício monstruoso do liberalismo econômico. 

Pois na perspectiva Cristã a acepção materialista não implica apenas na negação do mundo espiritual mas também na supervalorização do mundo material. Na prática reduzir a esfera da religiosidade e colocar em primeiro plano os interesses de ordem econômica é também materialismo e materialismo prático. 

Alias (Segundo o embaixador José Osvaldo de Meira Penna in 'Opção preferencial pela riqueza p 45) foi o ex papa Ratzinger, ao responder o questionamento feito a um jornalista declarou em alto e bom som: "Comunismo e capitalismo são materialistas." - O que entre nós já fora dito diversas vezes por Plínio Salgado, mas que, deriva da percepção Católica francesa: De Calvez, Maritain, Maurras, etc Concepção trivial - Da equivalência entre capitalismo e comunismo - que o sr Meira Penna, partindo (É claro) de autores protestantes, forceja corrigir ...

O mesmo Meira Penna, aludindo a postura da Igreja romana assim se exprime: "... eis que, desde os primórdios da Revolução industrial na Inglaterra, em fins do século XVIII, foi combatida tanto do lado dos conservadores, entusiastas do medievalismo "idílico", quanto da esquerda jacobina e socialista." p 47

E dá enfim suas razões (Por sinal bastante sólidas e consistentes.):

"
Uma outra linha de pensamento, porém, herdeira da filosofia de Platão e de Aristóteles, e da teologia de São Paulo e de Santo Tomás, seguiu seu curso conservador, primeiro nos países da Contra-Reforma e, depois, no movimento de secularização empreendido através das ideologias coletivistas, o solidarismo
 romântico, o nacionalismo e o socialismo." pg 48 sgs

Até onde podemos ver temos nos catolicismos ou no padrão apostólico uma linha de coerência e uma continuidade histórica que vai do solidarismo ao Tomismo e do tomismo a aristotelismo e ao paulinismo, aqui, segundo cremos, em perfeita sintonia com o Evangelho. Pois bem, partindo do Evangelho jamais chegamos ao individualismo ou ao capitalismo porém ao solidarismo ou a algo próximo, i é, fraternalismo, comunitarismo, distributivismo, DSI, etc O que conduziu o ocidente ao liberalismo econômico e ao americanismo foi o protestantismo, e ao faze-lo removeu nossa civilização de suas bases históricas e tradicionais. 

Foi o protestantismo que jogou nossas raízes clássicas e apostólicas no lixo, produzindo o mundo contraditório e estranho em que nos achamos presos. 

Consequentemente, o protestantismo, de modo geral, colabora ativamente, até o tempo presente, com esse sistema materialista que tem diminuído mais e mais o espaço da fé. Assim, de uma revolução religiosa, brotou, paradoxalmente um sistema materialista responsável pelo recuo ou mesmo pela negação da vida religiosa. E falhou devido a inabilidade do protestantismo para substituir a igreja papa e regular a ordem das coisas no mundo moderno. Nominal e até espalhafatosamente cristão, o protestantismo jamais esteve a altura da missão que para si reivindicou, vindo a falhar miseravelmente e a permitir a afirmação do Capitalismo e suas decorrências. Entregou o protestantismo, o cetro ou o comando do mundo contemporâneo ao capitalismo e aplaudiu quanto as bolsas de valores substituíram o vaticano, quando as agências bancárias substituíram as catedrais e sobretudo quando os shoppings centers substituíram os santuários. Desde então cessou a Cristandade de acumular tesouros no céu e ganhar amigos com riquezas imundas para investir em ações e títulos de papel - Isto enquanto parte dos membros de Jesus apodrecem na imundice das sarjetas...


Por ódio a direção espiritual que as igrejas Ortodoxa e Romana imprimiram as sociedades Cristãs nos tempos antigos os líderes protestantes se associaram a banqueiros e entregaram aos materialistas a direção da comunidade - Naturalmente que tudo isso só poderia resultar futuramente em mais materialismo, ateísmo e revoluções sem fim. Foi o protestantismo, a partir do individualismo e do materialismo prático que abriu as portas do inferno para a Sociedade Ocidental. E foi ele a Revolução primogênita que mesmo sem acionar a revolução Francesa, acionou a R Inglesa e por reação a R Russa. Dele partiu por desenvolvimento, o Anarquismo individualista e o ANCAP e por oposição o Comunismo, a quem legou, indiretamente ou por mediação do capitalismo, o materialismo - E está ele, envolvido até o pescoço, com todas as Revoluções, ideologias e distúrbios subsequentes.

Conheça também os demais artigos da série 'Culturas de morte': 


  • Americanismo
  • Protestantismo
  • Positivismo
  • Conservadorismo
  • Comunismo
  • Fascismo
  • Pós Modernismo
  • Sionismo 
  • etc


terça-feira, 2 de maio de 2017

O 'deus' deste mundo; sua majestade o relógio

               

Resultado de imagem para ditadura do relogio




                                        "De fora do bolsinho direito pendia uma grande corrente de prata, com uma
                                          maravilhosa máquina na extremidade. Pedimos que tirasse do bolso tudo que se
                                          achava preso a corrente, e pareceu-nos ser um globo parte de prata e parte de 
                                          metal transparente. Pelo lado transparente vimos certas figuras esquisitas traça-
                                          das num círculo; julgamos que lhes poderíamos tocar, mas os dedos foram repe-
                                          lidos pela substância luminosa. Aplicamos a dita máquina ao pé dos ouvidos.
                                          Fazia um ruído contínuo, semelhante ao de um moinho d'água e conjecturamos
                                          que, ou é qualquer animal desconhecido, ou, então,  A DIVINDADE QUE ELE  
                                          ADORA; no entanto nós nos inclinamos mais a esta última opinião, porque nos
                                          afirmou (Se nós assim o compreendemos, pois se exprimida muito imperfeita-
                                          mente) QUE RARAMENTE FAZIA QUALQUER COISA SEM CONSULTA-LO
                                          CHAMAVA-LHE OU SEU ORÁCULO, E DIZIA QUE ELE DETERMINAVA
                                          TODAS AS AÇÕES DE SUA VIDA." Swift, Jonathan; 'As Viagens de Gulliver'
                                          trad Henrique Martins Junior. S Paulo, ed Cultura, 1945



Embora literariamente as viagens de Gulliver reportem a 1699, alias a quatro de Maio. A obra foi posta em sua forma definitiva em 1735. Nem tenho acesso a primeira narrativa, editada em 1726. Atenho-me pois a edição padrão de 1735, a qual tem servido como ponto de partida para todas as traduções subsequentes.

Estamos assim a um passo da Revolução industrial seja seu inicio datado de 1760 como querem uns ou de 1740 como querem outros. Ou mesmo em seu desenrolar caso coloquemos seu início em 1710 ou 20. Reportando ao uso do carvão por Abraham Darby.

Importa saber que a Revolução industrial implicava redistribuição do espaço e do tempo.

Pois antes dela a matéria prima era entregue ao artesão para que fosse trabalhada ou transformada - em manufatura i é 'Algo feito a mão' - em sua casa. Mormente famílias inteiras trabalhavam juntas na oficina do lar.

Disto resulta que significativa variação quanto ao ritmo produtivo. Pelo simples fato de que o produtor, no recinto do lar, controlava este ritmo segundo uma hierarquia de necessidades definida por ele mesmo.

Quero dizer que se o filho precisasse estivesse doente e precisasse de cuidados o trabalho era posto de lado. Quero dizer que se a carne estivesse a queimar no fogão o trabalho era momentaneamente interrompido. E que podia ser frequentemente interrompido na medida em que o artesão julgasse necessário interrompe-lo. Inclusive quando julgava ter obtido a quantia necessária para manter-se.

Era ele, o artesão, que administrava o tempo de trabalho e a aquisição do dinheiro, tendo em vista suas necessidades, e não as da produção.

O horário estava sob seu controle e também a vida, porque não era escravo dessa estranha máquina de metal e vidro chamada relógio.

O artesão do século XVII no recinto da sua casa era ainda senhor de seu tempo e de sua vida, conforme o critério de suas necessidades.

No entanto esta tradição imemorial estava com os dias contados.

Pois com o advento das máquinas, propriedade do patrão, surge um novo espaço: As fábricas, tal o 'local de trabalho' separado do lar.

Desde então teve o operário enquanto manipulador de máquinas, de deixar o recinto do lar e dirigir-se a um locar específico em que se encontravam as máquinas para lá trabalhar e consequentemente ter o tempo de trabalho administrado não por si, mas pelo patrão... Cabendo e este determinar o ritmo da produção, servindo-se do relógio.

Evidentemente que o patrão esperava dos operários máximo emprenho na produção.

Deveriam portanto permanecer presor aquele local e trabalhar sem interrupção.

Desde então nada mudou...

Curioso é que toda este gente que vive falando em lar ou família, empenhando todo um discurso idealista e romântico até a exaltação mórbida, não tenha se dado conta que foi a Revolução industrial, promovida pelo liberalismo econômico que sacrificou a família as necessidades econômicas ou ao mercado, na medida em que aprisionou o operário e em seguida a operária no recinto da fábrica - Até a completa exaustão de suas forças - deixando o lar, compreendido como a prole, no maior abandono.

Resultando desta transformação hedionda o fenômeno onipresente dos meninos ou das crianças de rua. Assim quem não tem avós, tio, irmão muito mais velho, etc

Outro problema, não menos grave e alarmante, diz respeito a impossibilidade dos pais, exauridos pelo ritmo de trabalho (Então alucinante pois chegava a dezoito horas diárias) cumprirem com suas obrigações não apenas instrutivas, mas até mesmo educativas. Imagine só o amigo leitor que na Inglaterra protestante do século XVIII não haviam monges ou frades, ou clérigos dispostos a instruir e educar gratuitamente tantas crianças. Que o Estado ainda não havia criado a instrução pública. E que os pioneiros do proletariado sequer tinham recursos suficientes para comprar um quartilho de vinho ou pedaço de pão, quanto mais para contratar professores particulares...

O resultado deste terrível dilema foi a massificação, a par da pauperização.

Os ideólogos liberais, rematados mestres em matéria de hipocrisia, só sabiam arremeter contra a odiada Idade Média papista, enquanto a população urbana inglesa ensaiava entrar na mais abjeta fase porque já havia passado, isto já na Era vitoriana...

Nem precisam ler os odiados Marc Ferro e Eric Hobsbawm e gritar que não passam de comunistas desonestos e mentirosos a manipular sordidamente a História se temos o testemunho insuspeito e substancial do consumado literato Charles Dickens. Leiam Dickens e apenas depois de terem lido suas obras venham discorrer sobre as excelências do liberalismo econômico...

Ainda recorrendo aos testemunhos de Hobasbawm e Karl Polanyi fazemos observar que antes que sucedessem todas estas calamidades, lá nos primórdios desta funesta Revolução, parte dos plebeus pareceram ter intuído ou adivinhado o 'futuro' que lhes estava reservado, a si ou a seus filhos. Até onde eu saiba a crônica desta visão antecipada do seria a escravidão contemporânea ainda não foi escrita ou pintada com todas as cores.

Uma coisa no entanto é absolutamente certa. Não passaram plebeus do recinto familiar ao rígido controle das fábricas, suavemente ou como um bando de carneiros, por uma simples questão de tradição e cultura. Eles bem sabiam que estavam prestes a converterem-se em escravos do relógio e do patrão e a ter suas vidas esvaziadas e empobrecidas.

Daí a resistência feroz e titânica que prolongou-se por quase um século, até os idos de 1820. E o rancor dos ludistas face as máquinas, as quais atribuíam a alienação do homem quanto a seu espaço, o lar. Destruíam as máquinas não porque fossem tolos, mas porque perceberam que a nova ordenação do espaço de trabalho fora determinada pelo advento delas, e portanto que elas haviam sido responsáveis por tirar-lhes ou reduzir-lhes drasticamente o tempo. Isto no entanto correspondeu ao epílogo da cena... Uma vez que após o cancelamento das leis de subsistência e da lei do milho, tiveram os plebeus de precipitarem-se nas fábricas ou morrer de fome juntamente com seus filhos.

As leis tiveram de ser quebradas, como salienta Marx, o assistencialismo humanitário ou cristão desmantelado e a fome manipulada sem misericórdia, para que as massas angustiadas tivessem sua resistência quebrada e se precipitassem nas fábricas concordando em satisfazer todas as aspirações do patrão. Foi toda uma política cruel, insensível, maquiavélica e execrável; sem quaisquer escrúpulos, que manipulando situações da mais extrema indignidade humana, consolidaram a desordem institucionalizada da opressão...

Este foi um aspecto da grande revolução ainda hoje saudade por muitos...

O outro foi formativo ou educativo.

Pois além de aterrorizar economicamente as massas para que se submetessem a nova ordem, da fábrica, da jornada, do controle, etc Era necessário educa-las e forma-las, segundo a dinâmica da cultura, para que se adaptassem ou habituassem. E isto foi feito, mas com que sutileza...

A quem desejar obter mais pormenores sobre esta Revolução cultura, recomendamos o estudo das obras de Michel Foucault, a cuja epistemologia relativista, todavia, nos opomos marcadamente. Quanto a este aspecto da realidade no entanto, reconhecemos os méritos de sua obra, a que nos reportamos.

Estamos diante de nada muito complexo.

Basta dizer que o relógio tornou-se onipresente ou que (Vide texto acima de Swift) converteu-se numa espécie de deus e senhor da vida humana.

Para que a fábrica ou o patrão pudessem estabelecer com sucesso a nova ordem, pautada pela ministração regular do tempo e pela administração das horas e minutos passados na fábrica tendo em vista a consolidação de um ritmo cada vez mais ligeiro foi necessário inserir a máquina em quase todas as instituições sociais, até então mais ou menos marcadas pela irregularidade temporal.

Assim se é verdade que os primeiros relógios foram instalados nas torres das igrejas desde S Eustórgios de Milão em 1309, não é menos verdade que eram destinados mais a regular os exercícios religiosos (As horas canônicas) atinentes a vida monacal, do que a regular por completo as vidas dos Cristãos, em especial dos leigos, os quais sequer tem obrigação de recitar as Trindades ou o Angelus pelas seis, doze ou dezoito horas do dia. Se é certo que os homens piedosos deviam rezar, a exemplo do profeta Daniel três vezes ao dia, ou manhã, tarde e noite, não é menos certo que oficialmente hora alguma havia sido imposta aos Cristãos.

Quanto aos monges no entanto, em função da vida regular que levava, era a situação bem outra. Daí a conveniência de marcar as preces por meio do relógio. Daí a origem curiosa da palavra Relógio, a qual remonta justamente ao Horolongion ou livro de horas da Igreja grega. Del orologio, tal a expressão de a partir do século XIV passou a designar um dos mais hábeis montadores e a partir dele o próprio mecanismo. Não houve todavia qualquer tentativa de 'relogizar' as relações sociais e humanas ao cabo de quatro séculos e como dissemos, em tais sociedades jamais se passou das 'Trindades' ou do 'Angelus' recitados por algumas pessoas piedosas.

O mistério da vida permaneceu temporalmente falando, a fluir irregularmente. Ao menos até a Revolução industrial, quando tempo converte-se em dinheiro e o patrão aspira converter-se em senhor e dispensador do tempo.

A partir de então é necessário, sob os mais variados pretextos, introduzir o relógio nas mais diversas instituições sociais: Assim na escola - desde 1833 - e no Hospital, foi introduzido o relógio. De modo a regular a vida dos estudantes e enfermos e em certo sentido adapta-los a uma administração mais rígida do tempo, tal e qual era imposta pelo ambiente fabril.

Se tempo era verdadeiramente dinheiro e o patrão aspirava obter lucro máximo, era necessário administrar e controlar o tempo que o operário passava na fábrica. Coibindo alias os atrasos, sob quaisquer pretextos e convertendo a pontualidade, até a neurose, em virtude quase divina. Mesmo padres e pastores acabaram embarcando na onda e enfatizando a necessidade de chegar as cerimônias pontualmente... ficando a pontualidade canonizada; até adquirir conotações místicas!

Eis porque o capitalismo consagra o relógio como a máquina mais importante da idade da máquina, a ponto de não só controlar o tempo consagrado pelos escravos a rotina do Mercado, mas de converter-se ele mesmo em produto, especialmente a partir de 1850 (O auge do sistema econômico liberal em Inglaterra), quando passa a ser produzido e comercializado em massa. Desde então converteu-se na primeira máquina a adquirir certa importância social nas vidas dos seres humanos. Bem antes do rádio, da TV e do computador...

Quais as consequência desta relogização da vida, contada desde então não mais em horas mas em minutos e segundos, i é, em cada instante?

O mínimo que se pode dizer é que a precisão da divisão temporal, associada a formação do homem e temperada pela mística da pontualidade, acaba convertendo os homens em relógios em ponteiros, pelo simples fato de abarcar todos os setores da vida humana, tornando-os regulares, rotineiros e previsíveis. Os homens convertem-se em monges profanos e regulam todos os atos da existência tendo em vista o ritmo da produção ou do trabalho.

Todas as ações tornam-se sequenciais, porque uma sucede a outra e um atraso aqui resulta outro acolá, atingindo o horário do trabalho e pondo em risco o emprego. Assim uma das principais preocupações do homem atual é jamais chegar atrasado ao trabalho! Preocupação que alastrando-se pelos demais setores da vida torna-se compulsiva, arrastando nosso homem a neurose ou a alienação mental.

É aqui que a vida perder sua naturalidade e espontaneidade para tornar-se artificial, rotineira, massante e desagradável, convertendo-se num fardo insuportável. O homem se sujeita ao tempo, não é senhor de seu tempo e não mais dispõem dele. E sua vida passa a ser controlada inteiramente por outros tendo em vista objetivos que não são seus e a negação de seus objetivos. Já não restando tempo para si, para a família, para o lar e para tudo quanto ama.

Feito senhor do tempo e do espaço converte-se o patrão, por meio do relógio, num deus... e os proletários em criaturas ou servos sem determinação própria.

Importa gastar o tempo produzindo. Importa alienar-se da família. Importa alijar-se do bem, da verdade e da beleza a cuja contemplação dou destinado; e em bestializar-se. Não podendo administrar seu tempo degrada-se este homem... degenera, corrompe-se.

O dilema é cruel: Ou abdica do tempo e do espaço e portanto da liberdade e da vida; ou morre de fome, experimentando situações de miséria. Premido pela tensão posta entre o ideal e o material este homem enferma, e se desespera, e morre...

Isto porque, como adivinharam os minúsculos liliputianos de Swfit o relógio é o deus dos tempos modernos... Não o Deus amoroso e benevolente dos Santos Evangelhos, mas um deus maléfico e iracundo. Durga ou Jagrenate não chegam a ser tão egoístas e cruéis... E nem seus adoradores enfrentam situações tão aviltantes. Tais os resultados do novo culto...

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Tópicos de filosofia grega: adiaphoras ou bens naturais?

Uma das questões mais discutidas pelos filósofos gregos e romanos diz respeito a categoria de coisas a que classificaram como adiaphoras ou neutras moralmente falando.

Assim a saúde, a beleza, a riqueza, a fama, e seus opostos a enfermidade, a fealdade, a pobreza e a obscuridade.

Convém no entanto adiantar que se tratam de coisas diferentes; pois enquanto a saúde e a beleza e seus contrários não dependem da livre vontade, a riqueza conquistada e a glória adquirida pertencem a esfera da atividade livre.

Distinguamos portanto, da saúde, da beleza e de seus contrário a riqueza e a glória e seus contrários, reservando o exame destas duas últimas situações para outra ocasião.

Implica saber se saúde e beleza, enfermidade e feiura correspondem a algum tipo de bem, ou se são de fato coisas neutras, i é, adiaphora.

Para tanto convém esclarecer que até mesmo os adeptos da 'adiaphora', como Crisipo de Soli, admitiam que as pessoas comuns ou sem trato filosófico costumavam referir-se a tais condições dadas como a bens.

Não estamos querendo dizer com isto que tais bens possuam 'valoração' moral ou ética derivada da livre vontade. Não escolhemos nascer saudáveis, enfermos, belos ou feios. Tratam-se de condições dadas pela natureza e dela recebidas. Outro é o caso das enfermidades produzidas por qualquer tipo de excesso relacionado com a fruição dos apetites sensíveis. Estas podendo em certa medida ser evitadas podem vir a possuir uma conotação moral.

Por outro lado não é por pertencer a a esfera da natureza que tais 'elementos' deixam de ser bens. Bens naturais, comuns, remotos e condicionais. Naturais devido a seu caráter não volitivo. Comuns porque saúde ou enfermidade, beleza ou feiura correspondem a estados compartilhados por imenso número de pessoas. Remotos porque não pertencem a esfera superior da moral ou da ética e condicionais porque a ausência deles impede ou dificulta o acesso aos bens superiores ou o exercício da vida virtuosa.

Assim a vida ou a existência é bem primário ou primordial na medida em que concede acesso a todos os outros bens, a plena realização das potencialidades, a aquisição da virtude e a perfeição moral. Neste sentido, enquanto condição 'sine qua nom' aos demais bens não pode a vida deixar de ser encarada com um bem. Um bem de categoria ou caráter inferior, no entanto um bem. Em que pese ser mal utilizado por alguns.

Assim os apetites sensíveis são bens na medida em que concorrem para a conservação da vida.

Assim a integridade física dos sentidos também corresponde a um bem na medida em que nos permite entrar em contato com a realidade e conhece-la. Nem podemos deixar de encarar a falta da visão, da audição, do olfato, do paladar ou do tato, como verdadeiros males na medida em que servem de obstáculo a assimilação da realidade. Uma vez que o fim de nossa existência é a aquisição do saber a cegueira e a surdez não podem deixar de serem males por limitarem nosso acesso ao saber e assim a dor quando intensa e constante a ponto de dispersar a concentração dos sentidos e impedir o aprendizado.

Não se tratam de bens em si mesmos ou de bens absolutos; mas de bens na medida em que servem de acesso a outros bens. Assim de bens relativos. Pois sempre se pode fazer mal não apenas da vida e da saúde mas até mesmo dos conhecimentos relativos a natureza. Por isso que o conhecimento é bem relativo na medida em que esta de acordo com a natureza e não absoluto, pelo fato de sempre poder ser usado para causar dano ou prejuízo ao semelhante.

Tampouco podemos descrever a enfermidade ou a fealdade como males absolutos pelo simples fato de não nos poderem induzir a cometer injustiça ou prejudicar nossos semelhantes.

Antes a dor física em algumas situações tem tido o condão de fazer com que alguns homens descartassem a opinião materialista, aproximando-se do Uno e abraçando a virtude. Ora uma dor capaz de tornar o homem reflexivo e consequentemente melhor merece ser classificada como um bem. Porquanto de algum modo dispôs o sujeito ao sumo bem.

Nem podemos negar que qualquer categoria ou tipo capaz de aproximar os homens da perfeição moral, converta-se ela mesma num bem por conexão ou relação com o bem. Tudo quanto serve de acesso ao bem supremo, merece ser considerado bom. Assim as adiaphoras nada tem de neutras ou de inuteis, antes correspondem a algum tipo de bem quanto a ordem da natureza, e ascendem na escala do bem na medida em que aproximam o homem de seu fim mais excelente que é a posse da virtude.