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quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Pecado ancestral, tentação, Super ego, Freud e o Evangelho... Por uma nova compreensão em torno do Super ego (Ensaio de semi pelagianismo)


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É a doutrina Ortodoxa do pecado ancestral uma versão bastante mais atenuada do pecado original proposta por Agostinho de Hipona do século IV. A qual pode ser entendida inclusive naturalisticamente e em conexão com a doutrina de Freud sobre o Super ego. É antes de tudo a experiência do mal no homem uma experiência humana e natural.

Admitido que Freud metafisicou bastante em torno de suas constatações - editando-as como generalizações nem sempre bem fundadas - podemos relaciona-lo com Agostinho, o qual do mesmo modo metafisicou a respeito de coisas que não podia compreender a seu tempo, chegando aos confins do maniqueísmo.

Para os naturalistas ingênuos ou otimistas como Rousseau, é o homem uma criatura perfeita ou melhor harmoniosa. A Sociedade no entanto contamina-o ou infecta-o e nele introduz o mal. Temos de admitir que Rousseau, o otimista, estava absolutamente correto, ao identificar a Sociedade ou seu produto a cultura, como fonte do mal ou do pecado. Seu erro consiste em imaginar o homem, em qualquer tempo ou fase de sua vida separado da Sociedade, pois é este homem um ser social, social do berço ao túmulo. Social porque assim que nasce deve ser limpo, alimentado, aquecido, protegido... por outros seres humanos ou por um pequeno grupo social chamado família. E nem as famílias vivem isoladas umas das outras. Sendo o homem ao nascer um ser familiar, é concomitantemente um ser social, que pela família entra em contato com outros homens.

Uma vez que a sociedade ou a cultura estão impregnadas pelo pecado - mas não só por ele - o homem, gerado, nascido e criado em contato com a sociedade e a cultura terá sua mente preenchida em parte com memórias, recordações ou elementos pecaminosos. Temos assim no pecado ancestral uma potência que pelo pecado atual ou pessoal converte-se em ato.

Evidencia-se com prístina claridade a genialidade da doutrina do alexandrino, repetida por S João Damasceno na 'Fé Ortodoxa' é o pecado ancestral transmitido pelo exemplo humano, pela sociedade e pela cultura enfim. E assimilado pelos sentidos e pela memória - pela mente enfim - desde a vida infra uterina. Assim antes que atinjamos o estágio operatório formal, lógico ou racional - estágio em que nos tornamos aptos para julgar e decidir - temos já um substrato pecaminoso ou maligno em nossa mente.

Podemos então falar, quanto a diversos casos, num super ego pecaminoso, fonte das tentações com que o inconsciente opõem-se, diversas vezes, a deliberação racional. Dando lugar ao tão conhecido estado de combate ou ambivalência porque chegamos, não poucas vezes a neurose. Mas não estou a falar a lingua de S Freud, i é, em sexo ou sexualidade. Cristão Ortodoxo, não maniqueu ou judaizante, estou a falar em verdadeiros pecados ou dilemas éticos - postos pelo Santo Evangelho - e assim em princípios divinos como honestidade, justiça, solidariedade, amor, lealdade, etc é disto que estou a falar, numa concepção autenticamente Cristã ou Católica de pecado ou virtude e não em baboseiras puritanas ou moralistas.

Somos capazes de armazenar em nossas mentes, segundo o ambiente em que fomos criados, uma massa de princípios anti éticos. Noutras palavras um inferno interior ou um Diabo interior e todos conhecem a clássica imagem do anjo e do diabinho. E no entanto a composição do homem interior ou da mente jamais será totalmente má mesmo majoritariamente má. Tudo dependerá do ambiente, da educação, da formação, dos valores concretamente manifestados pelas pessoas com quem entramos em contato... O que nos faz avançar na direção da tese a respeito de um super ego majoritariamente ético ou bom, harmonizado com o aparato consciente ou racional.
Por meio de um super ego majoritariamente pecaminoso, face a uma deliberação racional saudável impoẽm-se o cenário de um drama - o drama do homem enquanto ser dividido ou fragmentado. Cindido entre o consciente ou o aparato racional e um inconsciente pecaminoso. Este drama, percebido por Agostinho e antes dele por Paulo é um drama real e vivo. Com que sentimentos não registrou o apóstolo: Faço o mal que desejo e o bem que desejo não faço. Que significa isto senão a luta ou a guerra entre o homem exterior, cônscio de seu dever e o homem interior dominado por instintos atávicos e más memórias?

Admitida esta compreensão podemos dar por desnecessária e fútil a ação externa de um suposto diabo. É o homem, e algumas parcelas do Novo Testamento já o sabiam, tentado por si mesmo e não por qualquer agente exterior, embora possa também ser sugestionado por outros homens. Claro que uma tentação que parte do interior ou de dentro será sempre mais intensa e incomodativa, afinal é difícil ao homem fugir de si mesmo. Outra constatação é a de que inexiste qualquer transmissão mágica em torno deste pecado... e tampouco qualquer tipo de culpa ou pena, pelo simples fato de não haver assentimento e portanto 'pecado' propriamente dito. Semente não é fruto. Pecado ancestral não é pecado pessoal ou atual, e portanto não implica culpa, e por não implicar culpabilidade não serve de obstáculo entre nós e o sagrado.

O que ele faz é predispor-nos ao pecado pessoal e desde então cindir por assim dizer, a pessoa humana, convertendo-a num campo de batalha, disputado por forças diametralmente opostas; as impressões maléficas e a deliberação racional ou consciência. Eis uma realidade a que não podemos fugir e mesmo os naturalistas são obrigados a encara-la no terreno da Psicologia. Todo homem que aspirar viver conforme os ditames da consciência e deliberação racional encontrará dificuldades e experimentará conflitos interiores.

Freud topou com mentalidades dominadas por conflitos de ordem sexual porque exerceu sua atividade num contexto saturado de puritanismo ou maniqueísmo. Noutros contextos sociais, em que a sexualidade, por não ser demasiadamente reprimida, não se tornava obsessiva, daria com outros problemas, inclusive com dilemas éticos. Assim as relações que descobriu e a que chamou complexas foram produtos de determinadas situações culturais.

Destarte poderíamos supor um outro tipo de Super ego, tanto mais próximo da consciência ou em harmonia com ela. Claro que isto implica a adoção de uma determinada lei ou padrão e de um padrão ético por parte dos educadores, dos pais, das famílias e mesmo da sociedade. Um contexto social em que predomine a ética da pessoa produzirá um substrato mental ou um super ego virtuoso e portanto em sintonia com a deliberação racional. Do que resultará uma vida equilibrada.

Claro que a pergunta que se faz é se além dos bons exemplos que se fixam na memória por meio do esforço cultural a que chamamos educação existe algo de bom imanente no próprio homem. E é claro que estamos invertendo a doutrina de Agostinho e postulando a presença de um bem metafísico. Se em termos de intelecto nossa resposta é um sonoro ou rotundo não, no sentido de que não há conteúdo de virtude ou de ética que anteceda a experiência vivida ou a operação sensorial (empirismo), em termos de uma vontade informe, intuição ou atração podemos dizer que sim e que este homem, possuindo elementos bons e mais em sua mente, identifica-se com os bons, tendendo ao bem. Por isso mesmo o homem natural com experiências de pecado continua sendo atraído pelo bem e realizando coisas excelentes, apenas violando a si mesmo, a sua natureza, a sua condição, o âmago de sua consciência, transforma-se num monstro.

Neste caso, se o homem contém algo de bom em si e tende ao que é bom para que a graça i é a Unidade de Jesus Cristo.

No plano natural por mais que aspire pelo bem, pela virtude e pela perfeição não pode este homem deixar de cometer o mal ou de pecar ao menos episodicamente, devido a ação deste super ego, no qual, em maior ou menor medida existe o mal. Do estado de combate contínuo a que esta exposto, ao menos em algumas ocasiões, resultará a derrota deste homem e, do ponto de vista puramente natural, um afastamento com relação ao Sagrado ou uma profanação. Outro seria o caso se os primeiros homens aos quais coube a deliberação racional tivessem sido fiéis a suas consciências e repudiado o que estavam habituados a fazer. Ao que parece não fizeram isto, cederam livremente a fragilidade e cometeram o primeiro pecado atual e após este alguns outros... até que o mau exemplo contaminou a todos e pelo exemplo fixou-se em todas as mentes, tornando o ideal da impecabilidade impossível.

Por isso manifestou-se o Verbo eterno Jesus Cristo, nosso Legislador e Mestre com o duplo objetivo: De fixar um padrão absoluto de ética por meio de sua Lei, o Evangelho ou o Sermão do monte e de auto comunicar-se a todos os homens de boa vontade, ou que se sentiam desconfortáveis face as situações de pecado. Por auto comunicar-se compreenda-se: Agregar-nos espiritual e intimamente a si, ligar-nos a sua Unidade e oferecer-nos a sua amizade que é a graça.

No entanto não é esta graça elemento neutro ou de enfeite mas um elemento ativo ou capacitador, o qual vem em socorro de nossa boa vontade ou do bem que há em nós reforçando-o contra as tentações. Coadjuvados pela ação da graça podemos resistir heroicamente as tentações internas e vence-las, podemos resistir ao pecado e romper concretamente com ele, podemos cessar de pecar e nos tornar santos, podemos cumprir o mandamento de Jesus Cristo: Sede perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito. Isto é a conversão, 'Metanoia' ou mudança, não de opinião ou crença, mas de vida.

Podemos assim, por meio de uma educação ética, conforme os princípios do Evangelho, produzir super egos cada vez mais puros e diluir o drama do conflito. Como podemos com o auxílio da divina graça superar o conflito e assumir uma vida de santidade e perfeição. Uma mente nutrida do Evangelho desde o berço e posta em contato com a graça do Senhor trilhará a passos largos a senda do bem, do amor e da justiça. Uma memória impregnada por bons exemplos e socorrida pelos Sacramentos não poderá deixar de frutificar abundantemente e de dar bons frutos cem por um.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Dialogando com M Freud, superando o preterismo, analisando o sentimento de culta e tomando o caminho da libertação...

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Não se conserta mais carruagem. O automóvel de Benz e Daimler no entanto é modelo que continua sendo remodelado até nossos dias.

Assim a Psicanalise de S Freud, a crítica de Marx ao Capitalismo, a teoria evolucionista formulada por Darwin/De Vries, a Sociologia weberiana, etc Tais teorias são em parcialmente depuradas ou revistas justamente devido a seu conteúdo imorredouro.

Psicanalise, Das Kapital, Teoria sintética e Culturalismo são aquisições, marquem bem, definitivas, digo definitivas, em termos de conhecimento humano.

É coisa que na mesma direção se pode ampliar, aprofundar e aperfeiçoar, mas que não se pode arrenegar até as raízes ou fundamentos.

Lamento quanto aos puritanos, capitalistas, criacioburros ou simplistas com seus sonhos dourados, mas assim o é.

E não sou em, o pobre profo Domingos da Baixada Santista, com seus parcos conhecimentos experimentais e teóricos quem há de fazer reparos ao carro de S Freud tornando a Psicanálise ainda mais fecunda. Quem sou eu, um pobre educador provinciano??? Sinto-me feliz por ser capaz de refletir e sobretudo por poder aprender e conhecer um tiquinho...

Aprender é minha forma predileta de orgasmo. Sinto tesão pelo ato intelectual de aprender e jamais saberei se no fundo isto é refinado epicurismo ou platonismo, eu que sou aristotélico rsrsrsrsrsrsrs Deo gratias!

Mas, tornando a Freud os reparos a equipagem foram já realizados, drasticamente pelos críticos analíticos ou pelos 'heréticos' da Escola, isto é aqueles que o zeloso e honesto hebreu excomungava sem maiores cerimônias.

Elenquemo-los: O secretário Adler; a 'águia', o sedutor Dr C G Jung, o atilado Otto Rank, Stekel; é claro, o Católico Allers, a conciliadora Karen Horney, etc Cada um deles vai por assim dizer criticando algum aspecto acidental da teoria freudiana, acrescentando conclusões próprias - inda que tão estreitas ou excludentes quanto aos do velho Freud (devido ao mito onipresente da monocausalidade) - e enriquecendo a Psicanalise. Se é certo que deixam de ser freudianos ortodoxos, até certo ponto mantem-se meio freudianos (heterodoxos por certo) e certamente psicanalistas ou exploradores da mente humana.

Nada mais interessante do que as crônicas desses 'heterodoxos' do freudianismo com suas lutas intestinas em torno de um determinado padrão ou critério específico.

Psicologicamente a própria ideia de trauma nos remete a algo mais simples como a fratura de um braço ou de um osso qualquer do nosso corpo, o qual se tendo partido, caso seja devidamente tratado torna a solidificar-se, restando no entanto uma marca indelével a que chamamos de sequela.

A teoria de Freud sendo evolucionista linear, tornou-se basicamente preterista por salientar a importância da sequela produzida no Eu ou na mente por determinadas situações. A princípio, de modo bem mais simples e sóbrio, Sigmund formulou a hipótese do eterno retorno a situações ou problemas não resolvidos, os quais como espectros ou fantasmas ficariam pairando em nosso inconsciente, e provocando, dentre outras coisas, pesadelos... Situações análogas ou semelhantes ocorridas em qualquer tempo futuro desencadeariam uma carga ainda maior de energia, e a formação das neuroses.

Posteriormente, após ter descoberto a vida sexual infantil, o Psicólogo judeu vienense, deslocou sua teoria de certas situações particulares e indeterminadas - o que não podia satisfazer seu espírito positivista - para os complexos, compreendidos como fases evolutivas não percorridas, em que o sujeito por assim dizer travou ou estacionou.

Longe de nós negar o conceito de trauma ou sequela. Tudo quanto pretendemos indagar é se de fato todo e qualquer desajustamento procede de um fenômeno acontecido no passado ou de uma sequela, e se ao menos alguns não poderiam ser provocados por situações de tensão acontecidas no momento presente???

A partir de Adler temos uma resposta muito bem formulada por K Horney em torno dos conflitos, da pressão e da angústia no tempo presente; situação a que o velho Freud não parece ter ligado muita importância, quiçá atribuindo a gênese a um evento pretérito ou a uma sequela mental, mesmo quando não localizada. Admitidos os pressupostos da pesquisadora Norte Americana o cenário até se torna mais sombrio rsrsrsrsrsrs Pois admitindo-se que a pessoa tenha conseguido atravessar a infância e a juventude percorrendo sem maiores problemas todas as fases evolutivas delineadas por Sigmundo e eliminando todos os complexos i é sabendo lidar com eles, ainda assim, em qualquer momento futuro, poderá tornar-se vítima de pressões, conflitos, tensões, etc provocados por uma nova experiência ou situação com que não consiga lidar. Destarte um bom caminho percorrido durante a infância e a juventude nada garantem em termos de sanidade mental, e você sempre poderá vir a perde-la no curso da vida, diante de novas situações/problema.

O conflito entre o Super ego que o homem medíocre carrega e as novas situações provocadas pela dinâmica social sempre poderá acontecer e devastadoramente...

Do ponto de vista social a problemática é instigadora na mesma medida em que Freud colaborou no sentido de produzir uma Sociedade cada vez mais libre, aberta e dinâmica, na exata medida em que teceu severas críticas aos preconceitos maniqueístas ou puritanos relacionados com a formação do Super ego. Desde que exarou seus pontos de vista sobre a repressão ou melhor sobre a opressão exercida pelas sociedades tradicionais face as exigências da natureza, não poucas pessoas - as pessoas geniais - optaram por afrontar a sociedade, por resistir, por rebelar-se, por não se deixar colonizar e por frustrar a gênese do Super ego. A partir das denúncias lançadas pelo homem um número cada vez maior de sujeitos passou a lutar pela própria libertação mental e até podemos falar em movimento de alforria face aos imperativos do super ego. Do que recorreram, quando a técnica veio ao encontro das expectativas globais, as Revoluções feminina e sexual. As quais não teriam ocorrido sem o freudianismo.

Evidentemente que nem todos os Super egos, enquanto produções dadas numa determinada realidade familiar e social, acompanharam esta evolução sócio ambiental. Não poucos super egos continuaram a ser formados segundo o clássico modelo maniqueísta puritano da negação do corpo, da nudez e do sexo; numa sociedade não apenas cada vez mais natural, mas até mesmo mais sexual e na qual a nudez e a sexualidade se fazem cada vez mais presentes. Dentro de um quadro como este: De super egos pré históricos ou retrógrados numa sociedade cada vez mais sexualizada, inverte por completo o quadro social preterista conhecido por Freud. No curso do século XIX era o ímpeto sexual florescente na criança fortemente reprimido por um tipo de moralidade intransigente até a produção de um super ego poderoso e forte a ponto de produzir sentimentos de culpa a priori ou antecipados face ao que classificavam como tentação. Clássico o exemplo de Martinho Lutero para quem a própria tentação ainda que não consentida era encarada como de criminosa, levando-o ao paroxismo do terror. Mesmo dentro da igreja romana não se tratava de fato isolado... Resultado - A culpa acumulava-se aos turbilhões na própria criança e impedi-a de lidar com todos aqueles complexos, ficando-a. O esquema de Freud fazia certo sentido naquela realidade.

Em nossa Sociedade as sugestões de Adler, Jung e Horney em torno do conflito atual enquanto produtor de angústia nos parece bem mais realista.

Assim quando o puritano luta combate em torno do ideal de uma Sociedade fechada e repressora, esta na verdade tentando proteger seu super ego. Enquanto o homem superior, demandando pela liberdade, busca enfraquecer e eliminar o super ego, mantendo apenas a estância da consciência Ética, supinamente desconsiderada por Freud. Até certo ponto o homem de hoje não quer mais ser cópia, reproduzir valores ou viver para a Sociedade, como um escravo. Exige algo para si e quer viver também para si... Dirá alguém que este homem esta errado? Direi que se prejudica concretamente o outro esta errado, mas que se não prejudica ou causa dano a quem quer quer seja, lhe é defeso viver a seu modo e gritar: Meu corpo minhas regras. Este homem quer ser plenamente livre e produzir a si mesmo e temos de considerar que esta meta é um direito seu.

Não poucos acusam Freud de ter andado mal na medida em que partiu da anormalidade ou de situações de neurose para chegar a normalidade. A objeção peca pela simplicidade e chega a ser absurda, afinal Decroly, Montesori e muitos outros educadores também partiram das crianças anormais até chegar a criança normal. Para tanto bastaria dar com o elemento causador da anormalidade e isola-lo e o psicólogo hebreu soube faze-lo com absoluta maestria. O pivô da anormalidade, dos complexos, da fixação era a repressão externa, princípio do Super ego. Noutras palavras a pressão social em torno daqueles tabus sexuais arbitrários é que produzia desajustados como o estrume produz cogumelos... Portanto era a própria dinâmica social do passado que precisava ser questionada e desconstruídas. A criança precisava ser encarada com realismo e naturalidade e não reprimida por meio de castigos físicos ou de terrorismo psicológico.

Será normal aquele homem que no curso da infância e da juventude não introjete princípios e valores anti naturais ou aquele cujo super ego seja despojado de toda essa carga maniqueísta e puritana legada pelo passado. Será normal quem desde cedo aprender a conviver com seu corpo e aceitar a própria sexualidade. Tal o caminho, e não há outro. Onde prevalecer a artificialidade, a mediocridade, o temor supersticioso, o contato com o mundo livre produzirá conflitos e tensões e deflagrará neuroses. A luta aqui será travada no sentido de emancipar-se a tutela de um super ego tacanho, mesquinho e exacerbado.

Quem perder esta luta perderá a tranquilidade, a menos que se feche em seu mundinho artificial ou numa redoma de vidro.

Todo escravo voluntário sente-se humilhado ao tratar com pessoas livres e emancipadas, a audácia e coragem demonstrada por elas abate-o. O escravo só se sente bem em meio a pessoas de sua condição. Assim a liberdade sexual de muitos não pode deixar de incomodar certo número de pessoas. No fundo no fundo todos almejam ser livres. A alguns no entanto falta coragem ou força para lutar... Daí o desejo satânico no sentido de que todos sejam igualmente escravos ou igualmente controlados... A ideia aqui é reprimir e oprimir para proteger-se.

Passando aos exemplo apelarei a um exemplo a um tempo já clássico e a outro polêmico. Do ponto de vista biológico ou natural somos todos bissexuais estando a bissexualidade, em maior ou menor grau, presente em todos os espaços naturais. Temos inclusive exemplos de sociedades antigas que aceitaram integralmente tal pressuposto, assim Grécia e Roma, cuja perspectiva tem sido bastante falseada pelos moralistas do tempo presente, pelos puritanos, pelos fanáticos, etc Mas podemos dizer sem sombra de dúvida que aquelas sociedades ignoravam por completo o que chamamos de normatividade heterossexual. Claro que haviam matrimônios heterossexuais pelo simples fato de procriarem, mas de modo algum uma sexualidade hétero fechada e constituída em torno de certos tabus.

Ter pênis ou vagina não significa de modo algum, ao menos do ponto de vista da natureza, que o pênis tenderá sempre e necessariamente a vagina e vice versa. Assim a fixação do objeto com que devemos transar ou a orientação sexual, parte sempre da cultura. É o discurso sancionado pela Sociedade que diz: Homem só pode transar com mulher e vice versa. Para além disto apelam a vontade de deus e a um montão de bobagens com o objetivo de fixar a regra. A partir daí, tendo em vista o controle da natureza, criam uma Sociedade habilidosamente repressora e fazem a roda girar até ser desmantelada pelo 'satânico' judeu vienense... Pois esta cultura fundamentada no sagrado e em punições espirituais draconianas consolida-se ou torna-se hegemônica.

E no entanto é tudo precário e artificial ali.

Pois na medida em que a dinâmica social é alterada no sentido da liberdade e que as pessoas são autorizadas a aproximarem-se umas das outras sem preconceitos, sucede uma epidemia de homoafetividade, uma autêntica febre... Mas como se a heterossexualidade é absolutamente natural? Como se pode trair a natureza em tão larga escala? Absurdo sobre absurdo.

Neste sentido o homem póstumo ou genial, que afronta ou despoja o super ego se entregará livremente - exceto em caso de compromisso fechado, o qual certamente teria de ser dissolvido (aqui a questão se torna Ética) - aos prazeres lícitos sem complexo de culpa. Ciente de que esta fruição foi disposta pelo sagrado. Já o homem medíocre, dominado pelo super ego e norteado pelos preconceitos, experimentará dadas situações de conflito, oscilação ou tentação e a subsequente carga de angústia... atingindo situações de neurose. Pois se sentirá atraído por alguém do mesmo sexo e experimentará certas tentações, as quais tentará fazer guerra, sendo possível inclusive que venha a experimentar sentimentos de culpa a priori.

Enquanto este homem não confrontar o super ego, revisando seus princípios e valores e eliminando quaisquer complexos de culpa - a priori ou a posteriori - não logrará vencer a angústia e estabilizar-se. Precisa para tanto repudiar a convenção, reconciliar-se com a natureza e viver para si.

Gostaria de abordar rapidamente um tipo de caso até certo ponto raro bastante explorado pelos membros da Igreja romana e que diz respeito a alguns santos muito bem sucedidos quanto a um ideal de vida puritana e até certo pondo aparentemente normais. Claro que também há um número considerável de canonizados vitimados pela neurose, a qual alguns 'católicos' desmiolados chegam a encarar como uma espécie de dádiva celestial !!! Mas o que devemos esperar de pessoas que chegaram a encarar a possessão, e sob o ponto de vista sobrenatural e não natural (como é o nosso), como um meio de santificação??? Tal o caso retumbante do Pe J J Surin de que resultou um dos aspectos mais monstruosos dos neo catolicismo - a mística da possessão.

Atenha-mo-nos no entanto aos religiosos que optaram por abraçar uma ética de perfeição ou um ideal de virtude, o próprio Freud admitira que canalizaram a libido, compreendida como energia sexual - Jung a compreende como energia amorfa ou informe - e desviaram-na para outros fins. A igreja antiga no entanto compreendeu que essa canalização de energias deveria ser facilitada por uma série de exercícios que receberam o nome de disciplina e que até certo ponto fazem lembrar a psicologia reflexiológica do condicionamento.

Importa saber que quanto mais uma pessoa identifica-se com determinado ideal ético, mais forças tende a obter e a aplicar contra as inclinações que possam frustra-lo. Tais pessoas são capazes de tomar decisões bastante firmes, pelo hábito vão formando um caráter forte e tornam-se capazes de resistir a situações de tentação, mesmo em circunstâncias que possibilitam a consumação do ato que consideram ilícito. Elas vencem as tentações, triunfam face aos apelos da natureza e aparentemente não sentem qualquer abalo. Como explicar semelhantes fatos por sinal questionados pela literatura naturalista do século XIX para a qual todo e qualquer monge era decididamente um fingido???

Ao menos estas situações de resistência face a consumação de um desejo natural não me parecem suficientemente explicáveis a luz da teoria da canalização. Então o que??? Estou convencido de que situações de triunfo ou vitória como estas, é capaz de levar algumas pessoas, ao menos inconscientemente, ao paroxismo do orgulho, uma experiência - quiçá orgânica - análoga a do orgasmo sexual experimentado por nós. O religioso que vence a tentação também deve lá experimentar o seu orgasmo, ainda que no plano da imaterialidade, mas certamente com decorrências físicas.

E o religioso, o moralista ou o homem medíocre que cede ou cai pondo em prática o que condena ou que considera imoral? Terá de rever seus pontos de vista ou encontrar na própria religião - caso tenha uma - um rito expiatório capaz de purificar-lhe a consciência. Se judeu aguardará o Yon Kipur, se Católico recorrerá a penitência, se protestante evocará o sangue redentor de Jesus... Com o sentimento de culpa a posteriori dificilmente poderá viver. Interessante salientar que quanto mais os sistemas religiosos dificultam o acesso ao perdão normatizando seus ritos, tanto mais atemorizam o 'pecador' e fortalecem a sociedade fechada. Na proporção inversa na mesma medida em que tornam o acesso ao perdão demasiado fácil, tendem a aliviar ou mesmo a minar o super ego e a desestabilizar a sociedade fechada. Não é por mero acaso que as sociedade luteranas como a Escandinava e a Alemã seja talvez as mais liberais em matéria de sexualidade no contesto Cristão. Afinal os luteranos vincularam o acesso ao perdão ao ato individual de fé, o qual sempre poderia ser refeito ou renovado tendo em vista a fragilidade da natureza. Destarte as situações de pecado - infelizmente não apenas as de natureza moral ou sexual mas também as de ética - tornaram-se recorrentes, comuns, banais, até que por força de cometer sucessivos pecados as pessoas deixaram de acreditar que fossem verdadeiros pecados passando a aceita-los como algo absolutamente natural. Infelizmente, como já dissemos, isto também se aplica a situações de injustiça, engano, opressão, etc

Resta-nos por fim aquilatar as opiniões do Dr Henri Baruk sobre a loucura, o complexo de culpa e o pecado, vejamos que diz ele:

"Em alguns casos dos estudados por Freud os sujeitos se convertem eu neuróticos por terem reprimido o acesso ao desejo do instinto. Outras pessoas caem no paroxismo da psicose e do ódio e chegam as raias da loucura por terem seguido demasiado fácil a seus desejos e reprimido as exigências da moral." 1951

Quanto ao primeiro caso tornam-se neuróticas porque a resistência ao desejo consome uma dose excessiva da energia. E Aquino até diria que consumo da energia atinente ao ato de resistência, esta relacionado com a intensidade do desejo suscitado e enfim com as qualidades do objeto externo. Tanto mais apetecível ou bem ou objeto externo desejado, tanto maior o abalo produzido na consciência e tanto maior o montante de energias despendidas na resistência. A ponto de, atingindo os limites do ser, extenua-lo. Aqui o super ego chegou a seus limites e nem podemos desprezar a possível presença do sentimento de culpa a priori...

Já a situação apontada por Baruk refere a angústia produzida pelo sentimento de culpa a posteriori. Agora donde provém este sentimento de culpa? Da consciência Ética ou desse apêndice de moralidade social e repositório de preconceitos chamado Super ego. Em caso de supostos pecados sexuais é evidente que procedem da segunda fonte, neste caso tupo quanto temos é a presença de um mecanismo repressor, nada que Freud já não tenha dito.

Claro que uma pessoa que se considera culpada por ter posto em prática determinado ato pecaminoso e recusa-se a receber o perdão ou a perdoar-se pode vir a desenvolver psicose. Nem importa se o pecado em questão é verdadeiro pecado ou não, importa que seja pecado para ela. Assim se vir a acreditar que roer a unha das mãos é pecado e vier a faze-lo, sofrerá intensamento por isso. Não é a partir dessa relação que se estabelece digamos um imperativo de resistência. Imperativo de resistência clama por uma definição convincente e satisfatória - não arbitrária ou caprichosa - de pecado. Definição que a moralidade puritana jamais poderá vir a oferecer-nos contaminada como esta pelo veneno maniqueísta. De fato o pecado não esta no copo do home ou em seus órgãos sexuais, mas em seus relações com o outro ou quanto ao que faz de seu irmãos em termos de dano ou prejuízo concreto.

Neste sentido temos de buscar por outros possíveis tipos de contradição - é aqui que temos de ir a Adler ou a Jung - pois a analise freudiana correspondia a um tipo dado de cultura ou sociedade, a uma sociedade superficial. Na sociedade ética os conflitos serão bem outros, envolvendo valores essenciais e perenes como lealdade, justiça, verdade, solidariedade, bondade, etc Aqui é bem sacrificar princípios e valores por status, poder e dinheiro; até que ponto isto também produz sentimento de culpa, angústia, depressão, neurose e loucura. Aqui temos o homem traindo a si mesmo e precisamos saber qual o preço psíquico pago por ele.

Vou citar um exemplo clássico neste domínio e com ele encerrar estas reflexões sobre a presença da ética na mente e a negação dos valores.

A rainha Dna Maria I de Portugal era uma adolescente quando seu pai, o então rei D José I, instigado por seu todo poderoso ministro Pombal, fez acusar e supliciar a Casa dos Távoras. A bem da verdade tanto ela quanto sua mãe conseguiram salvam um vultoso número de condenados, mas não a Marqueza de Távora e seus familiares mais próximos, a cujo bárbaro suplício foram obrigadas a assistir juntamente com toda nobreza. A cena por si só jamais pode ser esquecida pela infeliz moça, a qual além disto jamais pode perdoar-se por não tem conseguido o perdão dos demais condenados dos quais julgava-se co assassina por omissão. Deste sentimento de culpa insuperável e volumoso decorreu seu obscurecimento mental, a ponto de entre os brasileiros vir a ser conhecida como Dna Maria, a louca.

Aqui um conflito ético, e portanto mais profundo por tocar as fontes do ser. É claro que este tipo de fenômeno não estava no acesso de Freud, o qual viveu numa Sociedade que pelo simples fato de policiar doentiamente a sexualidade humana, valorizava-a demais. Afinal não valorizamos somente aquilo que aceitamos, mas também aquilo que obstinadamente negamos.





sábado, 24 de dezembro de 2016

O 'Novo mundo' que Freud devassou...





Muito, muito antes de Freud já se falava na existência de um inconsciente ou de um setor da nossa mente inacessível a esfera da consciência.

Rousseau e Nietzsche já haviam postulado sua existência e discorrido a respeito dela.

Tal e qual aqueles astrônomos que já falavam sobre a lua antes da Apolo XI e como aqueles que hoje falam sobre Marte.

Mas era tudo muito obscuro e misterioso e aquele terreno jamais fora explorado.

Há quem hoje duvide da ida do homem há lua e há certamente quem duvide da vontade inconsciente.

Grosso modo a respeito do inconsciente podemos admitir que homem algum foi lá, pois para tanto teria de entrar na mente do outro, o que sabemos ser impossível.

Não, nós não vemos o inconsciente como não vemos o ar. Tampouco a maioria de nós já esteve na China ou na Índia. No entanto quando testemunhamos os efeitos produzidos pelo vento deduzimos a existência do ar e quanto vemos chineses ou indianos constatamos a existência daqueles lugares.

As memórias do inconsciente ou memórias inconscientes é que vieram até nós quer por meio de delírios febris, quer por meio da assim chamada hipnose ou hétero sugestão.

Foi por esta brecha ou porta aberta no final do século XVIII que tais resíduos chegaram até nós e puderam ser estudados.

O que nos reporta ao Abade de Faria, a F A Mesmer, ao Marquês de Puységur, a Du Potet e finalmente ao grande Liébault.

Um dos casos mais famosos dizia respeito a um ancião de origem polonesa que morava nos EUA e que aos 93 anos de idade durante o delírio febril provocado por um resfriado, tornou a falar polonês. Sucede no entanto que nosso homem havia saído da Polônia com três ou quatro anos de idade e deixado de falar polonês antes dos cinco. Pelo que havia se esquecido por completo da lingua materna e deixado de emprega-la há cerca de 88 anos!!! O que nos levaria a supor que havia o esquecimento havia sido total e que toda e qualquer memória neste sentido tivesse desaparecido.
No entanto o polonês la estava arquivado na memória inconsciente do ancião e não apenas como forma a ser repetida, mas como estrutura dinâmica!!!

Ao cabo de quase um século ou até mais milhares e milhares de casos semelhantes foram registrados e arquivados após terem sido observados pelos médicos.

O que levou J M Charcot e Bernheim a admitirem a existência de uma vida inconsciente, a qual por vezes aflora no domínio da consciência como a ponta de gigantesco Iceberg aflora sobre as águas do mar...

No entanto não se tratava apenas de memória ou arquivo mas de vida inconsciente na acepção mesma do termo.

Pois postas em sono hipnótico não poucas vezes as pessoas surpreendiam seus analistas sustentando ideias, gostos, opiniões, etc que não ousavam suster publicamente ou que até mesmo conscientemente reprovavam... Como se por trás do Eu consciente habitasse um outro Eu. Como se fossemos seres fragmentados e cindidos em duas partes conflitantes, a externa e a interna.

Posteriormente, após o fenômeno de múltipla personalidade ( Transtorno de dissolução da personalidade) ter sido exaustivamente analisado pela Dra Wilbur (caso Sybill) a doutrina da vida inconsciente tornou-se ainda mais sólida e absolutamente demonstrada.

Ao tempo de Charcot no entanto, não havia que estivesse disposto a postular semelhante tese a respeito da personalidade humana - i é que estivesse cindida em diversos departamentos conflitantes - e esta pessoa audaz teve de vir de Viena, capital do Império Austro húngaro.

Tratava-se do judeu Sigmund Freud, fisiologista visitante.

Ali na Salpetrière pode ele constatar que postas sob sono hipnótico as pacientes hipnotizadas tornavam-se normais. Da mesma maneira sob hipnose podiam as pessoas normais reproduzir os sintomas da histeria...

Constatação trivial posto que há décadas eram os sintomas de diversas enfermidades incuráveis e mortais - em especial a dor - suprimidos por meio da hipnose. Cancerosos morriam esvaindo em sangue ou de obstrução mas sem dor ou sofrimento. Assim a hipnose substituia o éter e a morfina com larga vantagem. Prisioneiros condenados a morte haviam morrido por terem sido induzidos a crer que suas veias haviam sido cortadas e que todo sangue do corpo estava a escorrer... e morreram sem sofrer quaisquer danos.

Havia muito, mas muito material.

Faltava no entanto personalidade suficientemente audaz para ligar os fatos e tirar as constatações por sinal revolucionárias. Até que o Dr Freud bateu a porta daquele afamado Instituto no final dos anos 80 (século XIX). E quanto de lá saiu já não pretendia dissecar corpos e examinar tecidos mas explorar o terreno inexplorado da mente humana.

E tinha a brecha, a porta ou a chave, como queiram.

Tinha a ferramenta necessária e esta era a hipnose.

Hipnotizou por quase dez anos ou mais e consequentemente extraiu não apenas memórias arquivadas mas volição inconsciente, disposições, gostos, crenças, ideias, etc Lançadas pela memória inconsciente no mais profundo dos abismos, o inconsciente. Lá ao cabo de exaustivas pesquisas deu com a outra face a moeda, nossa personalidade rival ou banida, o inconsciente.

Diante disto formulou sua teoria dinâmica da mente e segundo a qual achava-se ela cindida no mínimo em duas áreas, esferas ou compartimentos: o Consciente ou Ego e o Inconsciente (primeiramente Id e posteriormente super Ego).

Observando tudo isto do século XXI parece até prosaico.

No entanto até 1900 era o homem concebido como uma Unidade coesa e perfeita. Quiçá os anormais tivesse suas personalidades divididas e em estado de tensão ou choque, não as pessoas normais!

Desde o tempo dos antigos gregos o tipo de homem racional, cuja vontade era comandada ou dominada pela reta razão ou pelo intelecto era bastante caro ao menos para as pessoas mais instruídas e nem mesmo Agostinho, Lutero ou kant haviam logrado aniquilar este ideal de natureza humana organizada.

Pois o que aqueles não haviam logrado fazer executou-o S Freud ao demonstrar cabalmente que somos Caos e não Kosmos. Conflito, tensão, cisão e não unidade coesa e estável.

Dentro de nosso eu temos um outro eu em estado de guerra face aquele.

É a natureza do homem uma natureza fragmentada!

Num primeiro momento ninguém quis dar ouvidos a este judeu austríaco de barba andó e com o eterno charuto entre os lábios. No entanto, quando sua tese mostrou-se seriamente sustentável, muitos devem ter sentido ganas de lincha-lo ou que queima-lo vivo em praça pública tal e qual João Calvino havia feito com Miguel Servet trezentos e cinquenta anos antes!!! De fato passados trinta anos Freud chegou a ver suas obras serem queimadas pelo terceiro Reich! 'Antes, há cem ou duzentos, anos eu é que seria queimado no lugar delas; há progresso!' exclamou ele!

Ao tempo em que Freud elaborava suas teses sobre o inconsciente e o Ego, era a cultura européia dominado por um ideal de moralidade JUDAICO cristão altamente maniqueísta ou puritano, o qual implicava negação sistemática do corpo (com a decorrente condenação da nudez como pecaminosa e imoral) e da sexualidade. E sói como acontece no plano da cultura, mesmo aqueles que haviam perdido a fé ancestral e rompido com a religião ou a igreja conservavam vivo este padrão de moralidade e não ousavam contesta-lo. Sendo assim sexualidade era sinônimo de tabu. Todos certamente faziam sexo, mas não podiam admiti-lo publicamente, aceita-lo como algo normal, tecer comentários, etc pois era algo tido em conta de sujo ou indigno e não poucos rezavam antes e depois de terem tido relações, havendo inclusive quem confessasse e implorasse absolvição pelo pecado da concupiscência e da carne.

Isto para não falar em prazer ou orgasmo. Pois aquele tempo era o sexo encarado apenas como meio voltado para a procriação. E ninguém cogitava em separar uma coisa da outra sob pena de ser considerado devasso! Abordar a questão da satisfação sexual naquela época era certamente coisa de 'tarados', não de gente normal e decente. Toda gente honesta viva e morria como se o sexo jamais existira.

Era toda uma estrutura social, mecanismo ou sistema disposto para a mutilação, a negação e o recalque.

Desde pequenas as crianças eram ensinadas pelos pais, tutores, familiares, professores, lideres religiosos, etc que aqueles impulsos eram criminosos ou malévolos e que deviam ser banidos da vontade consciente, ao menos até a legalização do matrimônio. E mesmo após sua legalização deviam tais impulsos revestir-se de formas ortodoxas ou autorizadas pela boa moral (de origem religiosa ou JUDAICO cristã) para que fossem aceitáveis. Naquele tempo a opinião segundo a qual 'Entre quatro paredes tudo é permitido' tinha bem pouco acolhimento geral.

No entanto como a natureza é o que é e como só se pode agir segundo a lei da natureza não só os impulsos mas os desejos pecaminosos apareciam. Quando apareciam no entanto, já se havia cristalizado junto ao Id e ao Ego a instância policiadora ou repressora do super Ego, e remetidos ao inconsciente ou recalcados, para lá permanecerem enterrados ad aeternitatem!

E tal era a força dessa presença dos outros e de suas ideias em nós mesmos (super Ego) que muitas vezes nem nos dávamos conta daquilo que desejávamos, pois nem bem o desejo aflorava e o super Ego lançava-o nos abismos da inconsciência. Fazendo-nos pensar que éramos puros, imaculados e santos! Engano fatal pois a negação desses desejos e impulsos ditados pela natureza repercutia inevitavelmente sob a forma de enfermidade mental, neurose, alienação, angústia, histeria... A negação de nós mesmos em virtude dos preconceitos arraigados tornou aquela Sociedade doente!

Ao cabo de séculos produziu 'possessões', 'bruxas', dementes, loucos furiosos, melancólicos, suicidas, etc Parte dos quais era queimada viva por padres e pastores em nome do papa ou da Bíblia e parte dos quais era sepultada em mosteiros ou prisões e submetida a toda sorte de maus tratos. Não poucos canalizavam as energias e impulsos sexuais para os domínios da fé e convertiam-se em fanáticos, místicos, visionários, profetas, etc

É portanto em função de uma cultura específica dada no tempo e no espaço que o inconsciente dos europeus, ao fim do século décimo nono, estava povoado principalmente por uma energia de teor sexual. Evidentemente porque o setor da sexualidade humana é que fora satanizado, negativizado e menosprezado por aquela cultura puritana. Incidindo a repressão sobre qualquer outro setor da vida humana outro seria - e totalmente diferente - o teor da energia inconsciente.

O que quero dizer aqui ao encerrar este artigo é que a maior parte das enfermidades psiquicas que afetam a pobre humanidade ainda são provocadas pela negação dos impulsos e desejos sexuais inerentes a nossa condição humana. Em virtude do recalque, do aumento progressivo da tensão e duma fissura maior. Caso não haja válvula de escape ou alívio a personalidade de desfaz ou se desagrega por completo dando lugar a insanidade. Pois não é impunemente que se nega a natureza.

Ainda na esteira de Fliess e Freud cabe reconhecer o caráter bissexual da personalidade ao menos até o estado adulto ou como queiram o caráter não determinado da sexualidade humana em suas primeiras fases ou períodos e ainda durante largo tempo. Disse bissexual ou indeterminado não homossexual ou fixado num objeto igual a si. Há inclusive quem faça remontar esse aspecto da bissexualidade humana a infância, ao embrião, etc numa perspectiva biológica.

É a educação veículo da cultura que nos torna heterossexuais. Por meio da educação é que canalizamos o desejo consciente para determinado objeto. É a educação que nos orienta para uma forma sexual definida - a mulher para o homem e o homem para a mulher. Nós acreditamos e somos levados a acreditar e somos ensinados que a natureza determina esta escolha. No entanto ao que tudo leva a crer tal escolha é produto da cultura e da educação, então não escolhemos mas nos conformamos com uma identidade que nos é imposta ou dada.

Que seria de nós caso jamais tivéssemos ouvido as palavras mágicas: Você não pode gostar de homens ou você não pode gostar de mulher????

Naturalmente que enquanto o drama permanece latente em termos de relativa normalidade passa em branco e não temos com o que nos preocupar. No entanto quando a situação de conflito aflora ou se torna patente sob a forma de neurose, então é necessário por a mão na ferida. Isto no entanto dependerá da forma geral da personalidade e do próprio lugar da sexualidade naquela existência.

Ainda assim sou levado a questionar se algo que é natural precisa ser externamente inculcado por meio da educação com tanto empenho e esforço. Então vocês me dirão que a linguagem humana é igualmente natural e objeto de educação. A afirmação é contestável e discutível e já se disse muitas vezes que o aparato linguístico do homo sapiens é produto da cultura e por isso objeto de esforços educacionais. Sem os quais não vem a consumar-se ou a aflorar.

Por ora é o quanto tínhamos a dizer, a declarar e a propôr a reflexão do leitor!