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segunda-feira, 16 de julho de 2018

O recuo da Revolução nas teorias sociais de vanguarda

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Segundo certa 'Escola' Jesus teria anunciado a manifestação imediata ou premente do 'Reino' de deus a seus seguidores. Estes, a seu tempo, teriam efetuado uma releitura, no sentido de aplica-la a 'segunda vinda' de seu líder, mas mantido a premência... da qual Paulo seria um típico representante.

No entanto a medida em que as gerações envelheciam ou morriam e o 'Senhor' não voltava, a igreja elaborou um novo tipo de padrão escatológico dedicado a prolongar o período intermediário entre sua fundação e a parousia. A interpretação, julgo eu, é bastante discutível senão artificiosa, serve no entanto como exemplo para mostrar o que aconteceu com a teoria revolucionária no interior do marxismo e do anarquismo.

Pois se Marx sempre se distinguiu por certo sentido de realidade, e por uma tendência a concepção etapista - a que chegou por fim - seus correligionários nem sempre se mostraram tão cautelosos, a ponto de crerem, na esteira da tradição jacobinista/individualista (de Voltaire?) que fosse possível adiantar o processo histórico. Sabe, aquela coisa de 'História feita por grandes homens ou por gênios' típica de Carlyle??? Bem isso...

Naturalmente que em alguns momentos Marx também entusiasmou-se ante a possibilidade de que a aquele fosse o momento decisivo. Assim em 1848, assim em 1870. No entanto, após o estrondoso fracasso da Comuna, tornou-se bem mais cauteloso.

De fato o desenvolvimento de sua teoria de Revolução parece conter o germe do quanto será elaborado por Engels, Kautsky e mesmo Gramsci e Bernstein após sua morte, numa linha de raciocínio coerente e lógico que apenas os sectários mais intransigentes são capazes de negar. O pensamento de Marx surge num contexto claramente jacobinista, insuflado pelo blaquismo, com sua ideia de insurreição, e é claro que o marxismo teve de ultrapassar o blanquismo como expressara Engels no prefácio de 1895.

A partir da superação do Blanquismo, em 1895 surgirão duas correntes rivais. A social democracia e o leninismo. Este no entanto esta mais próximo daquele Sorel, porque Lênin afeta arrogante desprezo, mas de cujas obras se nutriu. A autêntica tradição marxista ou a 'sucessão apostólica' parece estar mais próxima da social democracia, a qual se apresenta em Engels sob uma forma bastante equilibrada ou crítica, mas que virá a conhecer outras formas, tanto mais ingênuas é certo.

Importa saber que a solução insercionista ou social democrática, é Engels que no-lo diz (e isto é prenhe de significados), já se apresenta de forma antecipada no famoso Manifesto, onde deparamos com um estímulo a luta pelo sufrágio universal. O mesmo Engels, a continuação, declara - Lassalle tomou o princípio e levou adiante. Apropriou-se de um princípio afirmado historicamente por Marx e Engels em 1848. Engels pode registra-lo sem problemas em 1895 porque Marx já estava morto e, devemos ser claros, Marx nutria por Lassalle uma espécie de inveja que o levava a perder a razão, chegando ao insulto...

Em 1870 Bismarck, tendo em vista certos objetivos, estabelece o sufrágio universal na Alemanha recém unificada e os socialistas de modo geral, inclusive os marxistas, encaram esta alteração política como uma chance ou oportunidade para aproximarem-se do poder. Formam partido e elegem August Bebel, um marxista ortodoxo. No mesmo ano congregam-se em Gotha e subscrevem um programa. Antes que o ano termine Marx subteme o programa de Gotha a uma crítica até hoje bastante citada nos meios marxistas.

Marx arrelia contra a inserção ou contra a social democracia. Buscamos o sentido de sua crítica... E, ao que tudo indica, parece ser sua antipatia insuperável face a Lassalle, falecido já a dez anos. No entanto, em que pese a Crítica tão aplaudida, após algumas emendas destinadas a dissipar certos ares de nacionalismo, Marx dá seu placet  - compreenda-se que Marx não é um São Francisco de Assis corrido por Fr Elias e que nada se faria sem ele em termos de comunismo ou socialismo alemão! - e o partido socialista alemão se torna uma realidade. Dez anos depois e dois anos após sua morte, a filha Eleanor, admitirá que Marx publicou aquela crítica por ódio ao rival falecido e que nos últimos anos de sua vida inclinara-se a social democracia.

Engels o sabia e por isso, com a devida cautela, toma o mesmo caminho.

Importa saber como Marx veio a encarar a Revolução na última década de sua vida. Formulou-se a teoria de Revolução em termos inequivocadamente etapistas ou realistas. O Capitalismo desenvolvendo-se produzindo contradições internas criaria as condições necessárias para a Revolução e sem as quais a Revolução não aconteceria. A História ou melhor a produção econômica é responsável pelas condições dadas, a partir das quais haverão os homens de atuar. Sem as condições dadas conjuração alguma provocada por um ou alguns indivíduos produzirá qualquer coisa... De modo que a Revolução Marxista, embora não seja institucional ou legal, tampouco será violenta ou hecatômbica como a Revolução francesa. Não será nem pacífica mas também não será sangrenta... Neste caso como se dará?

Marx acreditava que do máximo desenvolvimento do capitalismo resultaria um tipo de composição social jamais visto - A um lado um pequeno grupo de grandes capitalistas e a outro uma multidão imensa de proletários. Neste caso a revolução seria pacífica, pois o exército colossal de trabalhadores, cooptados e formados pelo partido comunista, simplesmente removeria esta diminuta elite de parasitas e assumiria o controle. E os mortos não passariam de algumas centenas ou no máximo de alguns milhares de resistentes. Marx no entanto sabia muito bem que essa diminuta minoria de senhores ou nababos haveria de comprar ou de manipular outro significativo contingente de seres humanos, os lupem proletários - ou as massas alienadas - e que estes lutariam por eles.

A questão dessas massas manipuladas pelos milionários e políticos é ainda hoje atual, mas parece não ter preocupado demasiadamente Marx. Teria sido ela a principal responsável por concilia-lo com o insercionismo? Eis o que não sabemos. Digo que a questão das massas manipuladas, numa conjuntura revolucionária, é bastante atual, pelo simples fato dos revolucionários entusiastas ou patológicos, encararem tais massas como carne de canhão... Renunciando a qualquer esforço mais sério no sentido de educa-las, apenas porque semelhante projeto significaria protelar a querida revolução, e há aqui um certo menosprezo pelo elemento humano que não percebo ser compatível com a nobreza da tarefa assumida.

Seja como fora é certo que Engels acabou pronunciando por uma solução não totalmente desprovida de certo sentido humano, a 'violência defensiva', aproximando-se do conceito tradicionalmente Cristão de guerra justa. Claro que para os humanistas os conceitos de Revolução necessária e guerra justa devem hipostasiar-se face as exigências da justiça. O que torna a Revolução em tais casos, tão desejável quanto uma cirurgia. Outro é o caso de entusiasmar-se por uma cirurgia, em termos quase místicos. Quando imaginamos ou concebemos a solução revolucionária, como única e final, como um medicamento amargo, uma cauterização ou uma cirurgia, a que não se pode fugir, penso que estamos no plano da realidade. Quando vibramos com ela ou com seus excessos, chegamos a psicopatia. Talvez, para muitos, esta linha parece tênue. Nós acreditamos que seja real.

Percebam que com Marx a Revolução recua até o máximo desenvolvimento do sistema capitalista e portanto da urbanização, quando as condições necessárias são dadas pelo processo histórico, independentemente das ações humanas ou individuais. O que, ao tempo de Marx, supunha um prazo de tempo mais ou menos longo para diversas sociedades como as mediterrânicas ou a russa. De fato Marx acreditava que Inglaterra e Alemanha eram as sociedades mais propícias a Revolução num prazo mais curto. Portanto a Revolução não era para já como imaginava Bakunin...

A propósito de Bakunin e dos anarquistas temos de compreender que o sentido de Revolução em Proudhon tampouco parece ser jacobinista, blanquista ou draconiano. E ele se refere amiúde a Alexandre, Júlio César e outros conquistadores como tipos de revolucionários por terem produzido, um e outro, a partir de suas conquistas, condições favoráveis a circulação ou difusão de ideias, que a longo prazo haveriam de alterar a realidade social. Assim S luis fica sendo revolucionário porque organizou as Guildas medievais como observa Nisbet 'Os filósofos sociais' 1982 p 367 "É impossivel não concluir que Revolução no pensamento de Proudhon, não passa de uma palavra destinada a designar qualquer mudança social importante, decisiva e irresistível." ib ibd


Tal e qual costumamos dizer Revolução Cristã, Revolução socrática, Revolução sexual, etc

Assim se Bakunin, influenciado pelo psicopata e demagogo Nechayev, por quem alias era apaixonado, passa a apresentar a 'propaganda pelo fato' nos termos terroristas de um Thomaz Muntzer e a apregoar o veneno, a corda, o estrangulamento, etc Temos que o tema tão querido aos atuais anarcóides, aparece apenas esporadicamente no Kropotkin maduro, o qual na velhice aproximasse definitivamente de L Tolstoi e de uma solução ética em que percebemos um eco do Evangelho. Longe de embarcar na canoa furada de Maquiavel, pouco antes de passar a eternidade, o patriarca dos anarquistas eslavos, ousa erguer sua voz contra o todo poderoso Lênin e condenar o recurso ao fuzilamento, a tortura e outros meios anti humanos porque se queria levar a Revolução a cabo, manchando a nobre doutrina do socialismo (A expressão é de Kropotkin).

O emprego sistemático da violência numa perspectiva individualista - condenado pelos mesmo pelos blanquistas e sorelianos - por parte de J Most, O Henry, Ravachol e outros não passou duma fase na vida do próprio Bakunin, e a respeito do qual não achamos consonância quer em Proudhon, quer em Kropotkin. Neste caso por que os anarquistas ou parte deles teriam adotado semelhante método a não ser por questões de ordem patológica que nos remetem a psicopatia. Que haverá de ideológico em explodir ou fuzilar civis inocentes numa praça qualquer??? O anarquismo teve de pagar o justo preço por isto e seus paladinos - apos terem ceifado a vida de mulheres, idosos e crianças - de serem levados ao cadafalso, além de terem fornecido a burguesia amplo repertório de fantasmas com que povoar o imaginário das massas alienadas, precavendo-as contra quaisquer mostras de justa indignação face ao sistema. Foi um método contraproducente, embora aplaudido e louvado por alguns 'bostinhas' de nosso tempo...

A corrente rival - face a social democracia - que desenvolveu-se no marxismo recebeu o nome de leninismo, por ter sido elaborada por W Lênin na Rússia. Lênin, a princípio fora pupilo de Plekhanov, o qual na juventude, confabulará com Engels e assimilara o etapismo. Foi Plekanov que os Nayrodnyia objetaram dizendo: "Por que para chegar no paraíso comunista temos nós de passar pelo inferno capitalista?" questionando o sistema evolucionista linear. Pois bem, Lênin acabou afastando-se de seu mestre por chegar a crer - contra Marx - que a Revolução podia acontecer sem que o capitalismo se desenvolve-se ao máximo na Rússia. A Revolução devia acontecer agora ou já, o que supunha uma tática distinta tanto da propaganda pelo fato de Bakunin quanto as conjurações Blanquistas. Engels já havia indicado o árduo caminho no prefácio de 1895, mas Engels, como Marx, dava tempo ao tempo. Lênin não... Daí ter tomado o conceito de elite guerrilheira as obras do anarquista francês Sorel. Foi esta tática vanguardista que lhe permitiu, contra as advertências de Marx, 'adiantar a História' e implantar sua querida Revolução (em termos jacobinistas) num país predominantemente rural recém saído da feudalidade.


A custa de indizíveis sofrimentos e crueldades, prolongou-se esta estado, anômalo, de coisas, até 1989, quando caiu. Possibilitando a canalha liberal economicista, declarar que a solução socialista, de modo geral, estava morta e sepultada. A parte honesta dos próprios marxistas no entanto teve de concluir pelo erro cabal de Lênin, i é, de pretender fugir as condições dadas e apressar o processo histórico. Claro que semelhante advertência só faz sentido dentro da ótica marxista em que eles, que se dizem marxistas, se situam. Eu fico com os Nayrodnyias e com certas correntes anarquistas que encaram a passagem das antigas formas para o capitalismo ou para o tecnicismo como absolutamente desnecessárias e indesejáveis.


Resta-nos dizer que após Marx e Engels terem preparado o caminho Kautsky, Adler, Rosa, Gramsci e outros, ao menos em algum momento de suas trajetórias chegaram a cogitar se o domínio do Parlamento pelos socialistas através das eleições não corresponderia a 'Ditadura do proletariado' ou não seria seu ponto de partida? Para os leninistas cada um deles - e muitos outros - mereceu ser classificado como revisionista, o que para nós significaria traidor, renegado ou herético... Bernstein no entanto foi que, rompendo com todas as convenções, estabeleceu o babovismo/blanquismo como ponto de partida do jovem Marx, sendo capaz de traçar toda a ulterior evolução de seu pensamento até a morte de Engels, concluindo por uma política parlamentar que, em que pese as advertências de Engels e os exemplos de Bebel e Guesde não deixou de ser contraproducente e degradante, devido as alianças ou pactos imorais e as lutas pelo poder. E alguns disseram que o homem há que entrar no cenário da política institucional para sujar os pés...


Claro que a opção/ação social democrata precisa de uma alta doze de criticidade, tal e qual fora sugerida por Engels. E que de modo algum elimina a possibilidade ou mesmo a necessidade de uma Revolução ou de uma guerra justa tendo em vista satisfazer a demanda da justiça. O que não nos leva a, esgotados todos os recursos possíveis (como a desobediência cívil, a greve geral, etc ) ao delírio místico em torno da violência desbragada ou a ignorar os riscos implicados em tal opção. Pois como temos dito e repetido em diversas ocasiões, a revolução é como um remédio amargo, uma cauterização ou uma cirurgia, e quem a olha com encantamento só pode ter sérios problemas de ordem psicológica. Nós não excluímos a Revolução, mas tampouco encara-mo-la como receita de bolo ou bula de remédio, a exemplo dos jacobinistas. Nem será ela capaz de eliminar todos os nossos problemas. Mesmo uma Revolução, para ser bem sucedida, exige que as massas sejam transformadas em povo consciente e levadas a cabo por ele, devendo vir de baixo para cima. Assim a Revolução, também ela, deverá ser preparada com décadas de antecedência e não realizada a esmo. Mesmo Lênin sabia que um mínimo de organização e de coordenação era absolutamente necessário. Então já sabemos porque todas as conjurações anarquistas, mesmo a conjuração espanhola, falharam estrondosamente.


No próximo artigo tentaremos examinar a teoria revolucionária sob a perspectiva da ética e da própria liberdade.




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August Bebel

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Problemas de marxismo - Engels, a revolução e a democracia ou 'Os caminhos da social democracia'.

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Muito se tem discutido a respeito do posicionamento de K Marx e F Engels face as instituições democráticas, o que torna a questão no mínimo controversa. Há um grupo em especial que exasperasse face ao tema: O dos jacobinistas irredutíveis ou dos que admitem como única forma possível de luta o confronto violento entre proletários e burgueses e consequente tomada de poder pelos últimos, fazendo uso da força bruta é claro. Este grupo repudia como falacioso todo e qualquer discurso em termos de inserção na 'política burguesa' ou democrática, que vá na direção da social democracia, a qual amiúde classificam como uma traição ou apostasia face ao ideal revolucionário legado pelos panfletários alemães.




Claro que o número de compreensões a respeito deste tema é bastante variado.

De nossa parte, sem assumir compromisso com qualquer das partes, pretendemos acompanhar a cronologicamente a trajetória ideológica de Marx e Engels numa perspectiva evolutiva, salientando as derradeiras conclusões a que chegaram um e outro; e antes disto apontar as fontes em que beberam os principais conceitos afirmados em suas obras e em que medida tais conceitos foram sendo sucessivamente reformulado. Embora o pensamento de Marx e Engels não nos pareça contraditório como ou de um Proudhon, não é menos claro que conheceu um desenvolvimento orgânico e no mínimo algumas reformulações.

Antes de tudo, partindo de um princípio realista - designação cara ao 'jovem' Marx - temos de levar em conta o momento histórico em que Marx e Engels estavam situados e conecta-los com diversas outras correntes ideológicas quais sejam a Revolução francesa, o babovismo, o blanquismo, o st simonismo, o positivismo, etc Do contrário não chegaremos a lugar algum. Consideremos aqui uma época de instabilidade e transformação, em que os velhos clubes da Revolução - estruturados por Benjamin Constant - transformam-se em ligas e as ligas em partidos... Marx e Engels vivem esta e outras tantas transformações.

Quanto a Marx  - Surpreendam-se - foi antes de tudo um homem de vasta leitura ou um erudito e faz saber ao velho Aristóteles. Exilado em Londres foi frequentante assíduo da Biblioteca municipal. Onde pode ler os principais teóricos do liberalismo clássico - uma de suas três fontes - em sua totalidade. Como havia lido os 'utópicos' (st Simon, Fourier, Owen, Cabet, etc) e como lerá Comte... E aqui e ali vai coletando os elementos presentes em sua no mínimo 'grandiosa' síntese (nem mesmo o profo Olavo de Carvalho destoará de nós - apenas os liberaizinhos de merda!) em Babeuf, Blanqui, St Simon, Fourier, Stein, Sismondi, etc, etc, etc

A Lorenz Von Stein (As correntes socialistas na Revolução Francesa - 1842) tomou a ideia do conflito como motor da História, de Babeuf a ditadura do proletariado, de Blanqui o método insurrecional, de Sismondi o valor do trabalho, etc

Comecemos observando o drama da Revolução francesa e quiçá o de todas as Revoluções. O povo como um todo não esta preparado para a nova ordem das coisas. Há massas alienadas em quantidade e assim, o ambicioso projeto democrático fundamentado na antiga república romana, no paradigma de Bruto e Cássio, sai forçosamente de cena, dado lugar - pasme leitor querido! - ao espectro de Júlio César, o ditador odiado... Assoma Robespierre, e após ele Napoleão, e em seguida Lênin, Stalin... e jamais se sai disto. Os positivistas delineiam uma aristocracia de sábios, cientistas, juristas, etc a testa da qual esta o 'tirano educador'. Babeuf e Blanqui concebem algo pouco diferente, a ditadura do proletariado, enquanto minoria educadora, sempre representada por um líder ou déspota, um déspota esclarecido.

É 1852, Marx e Engels adotam a solução comum da ditadura do proletariado; apenas formalmente, pois haviam já adotado o conceito alguns anos antes.

Agora por que adotaram esta solução?

Adotaram-na por que antes adotaram a solução jacobinista ou revolucionária legada por aquele evento histórico e transmitida conforme a tradição de Babeuf Buonarroti e Blanqui, o insurrecionismo. Com o qual Marx e Engels rapidamente romperão, após terem refletido sobre os sucessos de 1848 e 1870. É Engels que sem sacrificar completamente o ideal da Revolução, substitui o método arcaico da insurreição e suas barricadas pelo modelo da conspiração ou da formação a longo prazo. Ademais Marx e Engels, como o próprio Kaustky e muitos outros, sabiam que as condições para a Revolução não podiam ser criadas, devendo ser dadas, conforma o Capitalismo fosse substituindo as estruturas precedentes e se desenvolvendo, conforme o ideário etapista. Blaqui, sendo bem mais, ingênuo - assim como os anarquistas - não levava em conta tais condições, perdendo-se nos meandros do espontaneísmo, se bem que condenasse veementemente - como Marx e Engels - a prática dos atentados isolados posta em prática por parte dos anarquistas.

Aqui uma pausa importante. Marx, Engels e tampouco Blanqui, recomendaram a adoção de métodos terroristas postos em prática por indivíduos ou a explosão de bombas em praças ou prédios públicos por onde circulavam populares inocentes. Sempre tiveram em mente alguma forma de organização e ação social ou comum, assim como guerrilhas... Os anarquistas desde o início foram contaminados pela ideologia individualista e chegaram a crer que indivíduos isolados fossem capazes de alterar o curso da história; assim Ravachol, assim Takchev... Os marxistas e blanquistas jamais.

No entanto os blanquistas, como foi dito, não levavam em conta as condições materiais e mesmo o desenvolvimento técnico do estado burguês, como declara Engels na 'Introdução' a obra de Marx sobre a luta de classes da França (1891). De modo que o método deles ficou desatualizado, tornando o proletariado vulnerável. Diante disto os marxistas tiveram de reformular a tática, no sentido de levar em conta o apoio da maioria - já estava embutido na teoria deles - o armamento, o treino, a posse das armas e munições, etc Produzindo uma doutrina revolucionária bem mais prudente e comedida, associada a prática parlamentar ou a inserção.

Chegando a este ponto impõem-se o questionamento - Qual a derradeira opinião de Marx e Engels sobre a inserção parlamentar???

Vamos tentar traçar o panorama ideológico com que nos deparamos ainda hoje:

- Num extremo temos um grupo de sociais democratas que, guiados por Bernstein, assumiram um pacifismo absoluto, abdicando por completo de quaisquer soluções violentas. Para eles a inserção parlamentar é suficiente ou basta. É inegável que eles mutilaram o prefácio elaborado por Engels em 1891 e por isso nós empregaremos exclusivamente - neste artigo - a Ed soviética integral publicada por Riazanov em 1930.

- No extremo oposto temos os que negam, por parte de Engels e Marx qualquer aproximação com a social democracia ou com a ideia de inserção parlamentar, sustentado que a única forma viável de ação seja o confronto direto ou a revolução violenta. Este grupo converge com os anarquistas para o abstenceísmo.

- Num meio termo damos com Engels, e Kautsky, e Rosa Luxemburgo, e Gramsci e uma infinidade de outros teóricos e podemos definir esta opção em torno da definição fornecida por Otto Bauer (Linz 1926)- A aplicação da violência ou da resistência armada apenas como recurso de defesa (Violência defensiva) ou quando o jogo democrático for violado pelos liberais ameaçados ou seja apenas em caso de golpe, o que faz lembrar a velha doutrina da Guerra justa formulada pelos Católicos a partir de Agostinho.

Repassemos as três.

Contra os sociais democratas que excluem por completo e aprioristicamente o recurso a força ou a violência, temos que Liebknecht mutilou o referido prefácio elaborado por Engels com o intuito de favorecer as opiniões de Bernstein, do que se queixa amargamente numa carta a Lafargue, datada de 03 de Abril de 1895. A honestidade nos obriga a declarar que Engels jamais aderiu a um pacifismo ingênuo ou absoluto, depositando todas as suas confianças na política parlamentar, na direção da qual caminhou no entanto...

Quanto aos jacobinistas irredutíveis - que continuam apresentando a política parlamentar como o anti Cristo, a inserção como uma heresia e a revolução violenta como uma receita de bolo em moldes metafísicos, as objeções são muito mais graves e fortes.

A princípio concentram suas baterias nas mutilações feitas por Liebknecht e chegam a falar em falsificação. Ao mesmo tempo de dizem ter sido Engels pressionado pela Richard Fisher no sentido de atenuar seu discurso. Esta última alegação é fútil, faz supor que Engels trairia seus princípios... é injuriosa para com ele, pois atenuar é uma coisa e alterar, mentir, falsear, sacrificar, são coisas bem distintas.

Então eles afirmam que jamais houve esta aproximação, inda que nímia, face a democracia. E centram suas baterias no prefácio de 1895, como se se tratasse do único documento ou dum testemunho isolado.

No entanto além do prefácio integral - prenhe de significados - temos o testemunho de Eleanor, filha de Marx e mais, as últimas cartas enviadas por Engels a Bebel, Victor Adler e Kautsky. Podem dizer que Eleanor mentiu, traiu ou caluniou seu afamado pai, mas sobre as cartas acima citadas não pesa suspeita alguma quanto a autenticidade; PELO QUE NÃO TEM SIDO PUBLICADAS PELOS COMUNISTAS 'ORTODOXOS' embora constem em MEW, donde todos podemos extrair cópias ou simplesmente le-las!

Ora eu mesmo lí uma destas cartas, endereçadas por Engels a Kautsky numa publicação marxista heterodoxa onde deparei com praticamente a mesma fórmula empregada por Bauer em Linz 1926 i é em torno da violência defensiva. Engels dizia a seu interlocutor que o jogo democrático deveria ser mantido até os burgueses violarem-no, quando só então os comunistas deveriam tomar as armas e contra atacar os 'golpistas'. Foi o que li com estes olhos que a terra há de devorar um dia, e o dito livro esta tombado em minha Biblioteca.

Noutra publicação deparei com este não menos elucidativo fragmento tomado a uma carta endereçada ao mesmo Kautsky a 29 de Junho de 1891 - "Se uma coisa é certa é que nosso partido e a classe operária, só podem chegar ao poder sob a forma de uma República democrática. Esta é inclusive A FORMA ESPECÍFICA DA DITADURA DO PROLETARIADO." in Bottomore; Zahar 2012 p 499Esta solução é endossada pelos austríacos, por Kautsky e por Rosa, de modo que o primeiro é apresentado como renegado e a segunda como revisionista pelo russo Lênin, um dos paladinos do jacobinismo. Kautsky alias, fiel ao pensamento de Marx e Engels, declarava insistentemente que inserção ou reforma alguma impediriam o colapso do Capitalismo, determinado por sua própria evolução ou desenvolvimento, e que a Revolução aconteceria de qualquer modo. Já veremos que o próprio Engels teve de lançar água fria a fervura dos mais afoitos, declarando que não haveria revolução alguma sem que o processo histórico produzisse uma nova oportunidade, similar a de 1848. Entrementes, continua Engels, os comunistas, inda que estimulados por seus adversários, não deveriam fomentar qualquer tipo de sedição.

Passemos agora a terceira versão ou ponto de vista, a que chamaremos de social democracia realista ou crítica, em oposição a ingênua ou pacifista.

Para tanto passaremos a resumir o texto integral do prefácio de 1895.

Qual a ideia central desse texto?

Dando provas de supina honestidade Engels, nas primeiras linhas do prefácio faz lembrar que o Manifesto de 1848, aludia a uma luta pela democracia nos termos do assim chamado 'sufrágio universal'.

Concentre-mo-nos primeiramente neste ponto. Do sufrágio universal.

De fato quando nós, cidadãos do século XXI, ouvimos falar em democracia ou na democracia do século XIX, imaginamos que era idêntica, e que todos votavam ou participavam, inclusive os pobres e trabalhadores. Nada mais equivocado. Pois se a democracia principia na França revolucionária com o sufrágio universal, este só será implantado na Alemanha em 1870, nos EUA em 1856, na Dinamarca em 1849 e por ai em diante.

Até os idos de 1850 apenas os burgueses escolhiam representantes tomados a seu grupo com o objetivo de governar a nação, de modo que a democracia estava nas mãos da burguesia, não passando de uma plutocracia. Os pobres, os trabalhadores e os campesinos não tinham voz. Continuavam a ser comandados como antes. Não mais pelos nobres, mas pelo ricos.

A adoção do sufrágio universal no entanto, por franquear as eleições e candidaturas aos pobres e trabalhadores, oferecia novas perspectivas. E Engels avalia-as como promissoras, ao contrário dos anarquistas, presentes a algum tempo nos países 'latinos' i é Espanha e Itália. O próprio Engels afirma que eles não acreditavam de modo algum no sufrágio universal, definindo-o como mais um 'doce' com que a burguesia pretendia entreter o proletariado, enfim como uma ilusão.

Partilhará Engels de semelhante preconceito?

Vejamos.

"O primeiro grande benefício que os trabalhadores alemães prestaram a sua causa consistiu no simples fato de sua existência como partido socialista... sub ministraram a seus camaradas de todos os países uma arma nova, uma das mais afiadas, ao fazer-lhes ver como se utiliza o sufrágio universal.


Nos países latinos eles encaravam o sufrágio universal como mais um engano empregado pelo governo. Na Alemanha não foi assim. JÁ O MANIFESTO COMUNISTA HAVIA PROCLAMADO A LUTA PELO 'SUFRÁGIO UNIVERSAL' E PELA DEMOCRACIA COMO UMA DAS PRIMEIRAS E MAIS IMPORTANTES TAREFAS DO PROLETARIADO MILITANTE E LASSALLE HAVIA ENFATIZADO ESTA DIREÇÃO. E quando Bismarck se viu forçado a introduzir o sufrágio universal... nossos trabalhadores tomaram a coisa a sério e enviaram Bebel ao Reichstag constituinte e desde aquele dia em diante TEM USADO O DIREITO AO SUFRÁGIO DE TAL MODO, QUE TEM TRAZIDO PARA ELES INCONTÁVEIS BENEFÍCIOS E SERVIDO DE MODELO AOS OPERÁRIOS DE TODOS OS PAÍSES." 
Prefácio completo

A partir daí desenvolve Engels o seguinte raciocínio - Na medida em que os trabalhadores forem tomando consciência de classe e inserindo-se no Parlamento acabariam por interferir cada vez mais na política econômica até faze-la reverter contra a burguesia e esmaga-la. Ele mesmo apresenta alguns exemplos neste sentido por parte de ilustres representantes da burguesia e podemos dizer que com isto Engels se dá conta não só da importância do político - já assinalada por Blanqui - mas sobre a tensão existente entre o liberalismo político e o liberalismo econômico; e chega a conclusão de que o governo pode ser tomado pelo proletariado. Os anarquistas, por questões de metafísica em torno da autoridade - que concebem como um mal em si mesmo e sempre como algo pessoal - é que negam-no, peremptoriamente. Mas Engels vai na direção oposta...

E saca uma conclusão vital no sentido de compreendermos o papel da violência e da Revolução classicamente definida em seu esquema de pensamento. Uma vez que a democracia tende a passar ao controle do proletariado segue-se que este ditando a política, será capaz de despojar institucional ou legalmente a burguesia. Como esta no entanto não estará disposta a ser deixar despojar, impõem-se uma conclusão necessária: Em algum momento subsequente a burguesia terá de violar as regras do jogo democrático ou de apelar a um golpe, assumindo formas totalitárias e repressoras. Neste momento os proletários deverão estar preparados para resistir, revidar e tomar o poder.

Em algum momento Engels, mostrando sua genialidade, constata que o melhor caminho para a Revolução, o mais efetivo, é a inserção parlamentar, por meio da qual, ao menos durante algum tempo, o proletariado poderia despojar a burguesia, até o instante em que a burguesia, arrancando sua máscara, apelasse ao golpe, a força e a coerção, atacando os socialistas. A esta altura, como já dissemos, entra a doutrina da violência defensiva e com ela ou atrelada a ela, uma Revolução adrede planejada nos mínimos detalhes. Temos aqui uma síntese equilibrada e magistral, que não se contenta com o pacifismo ingênuo dos sociais democratas à la Bernstein e tampouco com o velho jacobinismo legado por Babeuf.

Dir-se-ia que o velho Engels, sem jamais abdicar do ideal de Revolução, postergou-o tendo em vista não apenas as oportunidades oferecidas pelo processo histórico, mas as ulteriores mudanças políticas e técnicas. Ele deduziu que a Revolução exige um lento preparo, treino e organização. Foi um passo importantíssimo que os jacobinistas não aceitam.

Diante disto que dizem eles, os jacobinistas?

Antes de tudo apelam a um fragmento em que Engels declara que aquela solução era a solução apenas para a Alemanha daquele tempo e não para os demais países, Itália, França, Espanha, Inglaterra, etc É tudo quando podem opor ao óbvio... E como compreende-lo?

É possível e provável que Engels, na perspectiva da cultura, encarasse seus alemães como um povo especial, superior ou mais evoluído. E aqui teríamos o germanismo superestimado... Seja como for ele faz, no mínimo, uma exceção a regra geral, e sabemos que exceções levam a exceções. Pelo simples fato de que, se a situação futura da Alemanha podia mudar, também a das outras nações podia mudar e tornar-se semelhante as daquela Alemanha, i é da Alemanha favorável a social democracia... Em questão de princípios não se faz exceção. Mas é normal que um alemão faça exceção a sua Alemanha. Anormal é que não alemães acompanhem-no. Ademais se os estádios do processo estavam atrelados a produção econômica, na mesmo medida em que a produção dos demais países atingi-se o mesmo estádio que a produção da Alemanha aquele tempo, produzir-se iam as mesmas transformações sociais e condições políticas, no caso favoráveis a social democracia.

Em todo caso estava Engels negando que a Revolução violenta correspondesse a uma receita de bolo ou bula de medicamento aplicável a todas as épocas e lugares. É dedução que salta a vista.

Ademais costumam nossos adversários citar certas alusões depreciativas ao termo 'Social democracia' tomadas aos primeiros escritos de Marx e Engels. Esta claro, diz Bottomore, com razão absoluta, que não poderiam estar se referindo a social democracia alemã pós 1870, mas a outro tipo de tentativa, totalmente diversa, levada a cabo pelos franceses, e com temperos de proudhonismo. Quando a social democracia alemã dos anos 70, Engels reconhece - Volkstaat 1894 - que era perfeitamente aceitável.

Aluídas tais críticas nada resta de muito sério ou relevante.

Temos aqui um quadro perfeitamente discernível: Sem chegar a compactuar com Bernstein e os pacifistas ingênuos dispostos a acordos comprometedores, Engels, que sobreviveu a Marx quase quinze anos, vai gradativamente afastando-se do jacobinismo extremo legado pela revolução francesa, do insurrecionismo de Blaqui e mesmo de qualquer tipo de revolucionarismo apressado que não levasse em conta as circunstâncias externas para, a partir da afirmação do sufrágio universal, entusiasmar-se - esta é a palavra certa - pela teoria da inserção, sem no entanto abdicar do uso da força numa Revolução futura e conscientemente planejada que julgava a um tempo distante e a outro inevitável.

A partir de sua posição outros tantos teóricos partidários da inserção na política parlamentar foram capazes de apresentar-se como continuadores seus, mesmo quando se afastavam dele, pelo simples fato de ter sido ele um continuador de Marx em que pese ter se afastado dele - Se é certo que Marx morreu apegado ao quando escrevera na Crítica ao programa de Gotha (Eleanor Marx e Engels negam-no explicitamente) ou irredutível - na mesma medida em que afastou-se da receita de bolo ou mapa da Revolução violenta ou da insurreição.