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quarta-feira, 29 de julho de 2026

O terror que produz horror ou a história da censura a indústria do terror nos EUA

 Via de regra, quando pensamos nas inquisições 'made in EUA' ou na dita terra do liberalismo (Nem sempre tão liberal quanto pintam) o que nos vem aos miolos são bruxas de Salem, lei seca ou MaCartismo.

Houve no entanto diversos tipos de repressões naquele país do Norte. Não apenas quanto o sexo, as drogas e a bebida, o que até seria compreensível, mas até mesmo contra o terror ou a produção artística que envolve o sobrenatural, e considero sua contemplação e compreensão como algo mínimo curioso, talvez por comportar um elemento metafísico que as demais formas de repressão não comportam, ao menos de uma forma tão explícita.

De fato havia a tentativa de manter a fantasia do terror em limites cristãos ou piedosos.

Assim esses códigos auto restritivos, que entraram com o MaCartismo até meados dos anos 60 determinavam que as crenças religiosas fossem respeitadas, que o clero não pudesse ser criticado, que o nome de Deus não fosse citado levianamente e sobretudo que o bem sempre triunfasse do mal... Era todo um vies levemente providencial que aponta já para a fonte do problema.

Efetivamente há algo de distinto entre o terror clássico que partindo de Walpolle com 'O castelo de Otranto' chega ao mestre supremo M R James, passando por Le Fanu ou mesmo Stocker. 

Poe é um dos poucos, e o primeiro, a afastar-se do modelo gótico ou da receita de bolo, em que o mal é sempre contido no final, dando espaço a um desfecho quase sempre feliz.

Em Poe há morbidez, na qual os males humanos se agravam até destruir a vida presente. Ao menos na imanência o epílogo nem sempre é feliz. Em Poe se percebe já um desconfortável realismo, que se choca com o paradigma romântico tradicional.

Apesar disto inexiste qualquer especulação sobre uma providência genérica ou sobre o mundo espiritual ou invisível. Aqui Poe apenas é omisso em seu recorte. Não parecer haver uma pretensão de totalidade nas obras de Poe ou uma metafísica pessimista, caótica ou anti providencialista. Dir-se-ia no máximo que para esse autor o mal triunfa, episódios ou frequentemente, neste mundo e que o resto, o resto é mistério. Então Poe, silencia, caso pensasse doutro modo.

Mesmo no possível telemita Bram Stoker, o caçador de vampiros, Dr Von Helsing, logra destruir o conde Drácula e assim eliminar o mal.

De modo geral um novo modelo de terror parece inaugurado, de fato, pelo estado unidense incrédulo ou ateu, H P Lovecraft. H P Lovecraft inicia sua produção cerca de 1917, com pouco mais de 25 anos de idade e produz cerca de setenta narrativas até cerca de 37, quando vem a óbito com cerca de 47 anos ou seja bastante precocemente. Produziu terror por cerca de duas décadas portanto e mais, com ele temos não apenas uma ruptura porém o início de uma tradição, a qual haverá de refletir-se no cinema inclusive, com 'O bebê de Rosemary' e 'O exorcista' película em que o Pe Mallony, creio eu, termina pessimamente. E há também o exorcismo de Emily Rose...

Bem, o mal começa a triunfar de modo totalizante com o pai de Chtullu... E é exatamente esse aspecto que trara preocupações a Cristandade despreocupada com a fome ou com a justiça, e preocupações não de todo inverossimeis ou fantasiosas. Pois a algo de perturbador, para as mentes mal formadas, nas obras de Lovecraft e seus continuadores.

Digo, para as almas vulgares e despreparadas ou massificadas. Afinal A Derleth, seu amigo e imitador, era um apostólico romano devoto e, eu mesmo, apesar de Ortodoxo, já li com gosto metade de suas obras em diversos idiomas. E revelo já o segredo, que é não as considerar seriamente ou encara-las como produto da imaginação, pois fantasia é o que são e sua metafísica não cristã pura bobagem.

Digo isto porque ele Lovecraft subjaz todo um panorama ideológico ou uma metafísica bastante bem delineada. 

Aqui não há um bom Deus ou qualquer vestígio de providencia amorosa. Salvo se havendo Deus produziu ele o universo e entregou-o a outros poderes que o substituíram - Conforme o esquema do Deísmo crasso. E sequer poderíamos avaliar tal ser como bom, uma vez que aqueles que tomaram o poder não são nada bons.

Ao que parece esses poderes em conflito sucedem uns aos outros como dinastias... Ou que comandam distintos setores da realidade ou distintos universos. O que nós levaria a uma multiplicidade caótica em termos de tempo e espaço. 

Pela narrativa de Conan, o Bárbaro e seu universo hiboriano, somos informados sobre as linhagens dos deuses antigos. Por meio de algo semelhante aos arquivos de Churchward... E retrocedemos a Atlântida, a Mu e a Lemúria.

Por sinal, apesar dos cataclismos que destruíram tais civilizações, ao que parece os representantes dessas tradições místicas, lograram escapar a aniquilação, conseguindo transmitir esse tipo de conhecimento, que seria a feitiçaria sangrenta ou os ritos bárbaros que abrem portais invisíveis e possibilitam a comunicação com tais entidades. O que nos lembra o Telema ou a Goetia.

Existiria portanto uma continuação ou tradição, quase que uma sucessão apostólica, em termos de magia ou misticismo negro, que não obra de Lovecraft está vinculada ao Necronomicon, do árabe insano Abdul Alhazred. Um desses entes, procedentes das estrelas seria Chtullu, o qual está a receber um corpo produzido pelos magos e a criar uma nova humanidade ou uma nova Era.

E essa última parte da narrativa nós levaria aos deuses astronautas ou anúncios do recém falecido Daniken, de Vilekovsky, de Sitchin e outros.

Aliás, só para constar, há a projeção futura do Conan ou de um Conan pós apocalíptico, que é Thundarr (Sabor Mad Max) e no qual os deuses retomam o controle e a magia recupera seu prestígio. 

Portanto existe certo encadeamento entre tais narrativas a ponto de produzir uma visão totalizante ou um panorama total de caráter caótico e povoado por deuses sanguinários que combatem entre si e sucedem uns aos outros por algum tempo. 

Nesse quadro sinistro restaria aos mortais, conectar, alimentar e servir tais seres com o objetivo de obter sua proteção e, obviamente, poder. A partir daí segue o insano, com efusão de sangue, tortura, estupro, sadismo, etc a parte que, com certa razão foi condenada pelo código Hays, por ser, admitimos nós, carga um tanto pesada para mentes simples e já atormentadas.

A partir da queda do código Hays, da rebelião e da assim chamada contra cultura, teremos outros temperos adicionados a este universo irracionalista como o sexo e as drogas, os quais vão se fazendo presentes em doses cada vez maiores. 

E, a exemplo de certas correntes da assim chamada arte moderna, vão confluindo para este terreno certos ideais anarquistas como a libertação do inconsciente e do mundo onírico, em cujo plano o caos se torna não apenas hiper monstruoso porém absoluto. Pelo que chegamos, no final dos anos 80, salvo engano meu, a Sandman (N Gaiman - Vertigo) e com ele aos domínios do bizarro. 

Veja que os próprios deuses aqui são gerados no ato de sonhar ou produtos do sonho, como para Buda, caso existissem, não escapavam a roda e para os primitivos aedos gregos eram subordinados ao fado ou ao destino. Portanto esses deuses não são seres ilimitados e onipotentes, porém criaturas tão problemáticas quanto nós, embora tanto mais poderosas. Bem, considere ser caprichosamente controlado por uma chusma de entidades problemáticas... Num seleto repertório de que fazem parte: o Destino, a morte, a destruição, a angústia, a insanidade, etc 

A meu ver este aflorar do onírico, com Morpheus, representa o ápice da tradição inaugurada por Lovecraft setenta anos antes. 

Contrário a censura ou a qualquer tipo de controle exercido por fanáticos religiosos devo admitir não somente a existência de um forte conteúdo ideológico ou metafísico anti Cristão em tais narrativas, como seu aspecto geral potencialmente fecundo quanto a produção de angústia e desespero... 

Penso serem narrativas voltadas para um público adulto e não gostaria que meus filhos ou que qualquer criança ou adolescente as folheasse. É, penso eu, coisa para gente madura e esclarecida, que sabe já distinguir perfeitamente a fantasia da realidade, obtendo distração. N Mailer foi curto e grosso: São narrativas para intelectuais e não para o vulgo. Para intelectuais mentalmente estáveis e mais ou menos equilibrados e portanto para um público seleto ou restrito.

Remédios controlados também fazem parte da realidade e são necessários para algumas pessoas. Porém nem todo remédio pode ser consumido por todos os por qualquer um.

Mesmo sendo totalmente contra todo e qualquer controle externo e formal quanto a produção desse tipo de literatura, sou favorável sim a um controle externo, social, democrático e parcial, quanto as faixas etárias do consumo e sobretudo a uma orientação cerrada por parte dos pais, responsáveis e educadores.

De fato sequer conhecemos perfeitamente os efeitos ou consequências dos jogos eletrônicos que envolvem efusão de violência, sangria e carnificina nas mentes em formação, que se dirá então de narrativas totalizantes em torno de uma metafísica caótica que conduz ao desespero?

Me parece enfim que o resultado do consumo dependa sempre da qualidade da pessoa e que a chave para uma leitura saudável de tais produções esteja em não considera-las como realidade e sim como o que de fato são: Fantasia, segundo o mesmo esquema que aplicamos a mitologia grega ou aos contos de fada... Ficção e nada além de ficção.

As mentes sensíveis se afastem e as almas impresionaveis evitem.




sábado, 18 de março de 2023

Psicologia, psicanálise, Freud e a questão da multiplicidade de existências - Reflexões sobre a obra de Hermínio C Miranda 'A memória e o tempo' Edicel 1984 - Parte VII


UM AMONTOADO DE PRECONCEITOS - O MATERIALISMO, O DOGMATISMO E A RECUSA.


           Certa vez o conselheiro Aksakoff assim se expressou a propósito dos fenômenos paranormais ou 'heterodoxos': "Os fenômenos correm atrás dos cientistas e os cientistas fogem dos fenômenos.". Já a mistagoga Blavatsky referiu-se a certos acadêmicos como "Psicofobos" talvez parafraseando Platão. 

            Ao contrário do que se poderia pensar não era a importância do cérebro e sua conexão com o pensamento ignorada pelos antigos. Bastando para tanto mencionar Herófilo de Kalkedon e Eresístrato de Chios. Eresístrato no entanto, juntamente com os hormônios ou fluídos cerebrais um Pneuma que pode ser compreendido como força vital ou espírito.

              Efetivamente uma teoria materialista ou atômica foi elaborada pelo pensador Demócrito de Abdera, mas não com base empírica ou pautada em observações fisiológicas em torno do cérebro. 

              No entanto, ao que parece, a ideia de que o pensamento corresponde a uma espécie de secreção produzida pelo cérebro, surge apenas na segunda metade do século XVIII. Impõem-se no entanto a alguns cientistas como dogma ou princípio fundamental e indiscutível.

               Sobre a primeira síntese materialista contemporânea, o "Sistema da natureza" (1770) do Barão de Holbach temos duas apreciações que falam por si mesmas: A primeira é a do Marquês de Sade (A respeito do qual disse o ultra insuspeito Michel Onfray "Fazer de Sade um herói é intelectualmente bizarro.") segundo o qual era esse livro - Que lera seis vezes e de cujo sistema se considerava um 'mártir' - um "Livro de ouro" que "Deveria estar em todas as bibliotecas e cabeças."

               Necessário dizer que o Sistema de De Holbach sendo determinista e mecanicista excluía por completo a noção de livre arbítrio ou de liberdade. Eis porque, para Sade, imoralidade e crime eram palavras vazias uma vez que todas as ações humanas eram fruto da necessidade, assim o estupro, a tortura, a agressão, o assassinato, etc

               Afinal, como ensinava o profo Carus, o materialismo "sendo mecanicista por necessidade, tudo explica por combinações e agrupamentos de átomos. Sendo assim todas as variedades de fenômenos existentes: O nascimento, a morte, etc não são senão o resultado puramente mecânico das composições e decomposições, mera manifestação externa de átomos que se agregam e separam." Não há portanto outras opções ou possibilidades e tudo, absolutamente tudo, inclusive o crime - Como ensina Sade - torna-se não apenas necessário mas inevitável. 

               Vejamos agora que diz o grande Goethe sobre a obra prima de De Holbach: "Quintesência da velhice enfadonha e insípida." 

                Moleschott no entanto concorda perfeitamente com De Holbach e Sade "Caso uma razão ou personalidade dirigisse a matéria a um determinado fim, A LEI DA NECESSIDADE DESAPARECERIA da natureza, e cada fenômeno seria apenas possível."

                Agora demos a palavra a Pierre Cabanis: "Vemos as impressões chegarem ao cérebro por intermédio dos nervos; elas se acham, então, isoladas e sem coerência. O órgão entra em ação, age sobre as impressões e as reenvia metamorfoseadas em ideias que se manifestam, exteriormente, pela linguagem da fisionomia ou do gesto, pelos sinais da palavra ou da escrita. Concluímos, com a mesma segurança, que o cérebro DIGERE, DE ALGUM MODO, ESSAS IMPRESSÕES; E QUE REALIZA A SECREÇÃO DO PENSAMENTO." Eis o que diz o homem... e o que dá por demonstrado - Sem que o seja.

             Completa-o Carl Vogth "Os pensamentos tem com o cérebro a mesma e exata relação que a bílis tem com o fígado e a urina com os rins." só faltou completar: E as fezes com os intestinos...

              Ouçamos agora a Broussais: "Desde que eu soube, pela cirurgia, que o pus acumulado à superfície do cérebro destruía nossas faculdades, e que a saída desse pus lhes permitia o reaparecimento, não as pude considerar mais de outras forma, as ideias, como produtos do cérebro vivo, mesmo sem saber que era cérebro e que o que era vida." Testamento.

               Observem agora a lógica desse senhor - Tens um revólver que não funciona porque está enferrujado, removes e ferrugem, ele funciona... pronto, o tiro é produzido apenas pelo revólver, se necessidade de uma gente humano que lhe puxe o gatilho...

                Demos no entanto a palavra a Moleschott: "O pensamento não é mais que um fluído, assim como calor e som, é um movimento, uma transformação da MATÉRIA CEREBRAL, a atividade cerebral é uma propriedade do cérebro, tão necessária como a força, por toda parte inerente a matéria, de que é caráter essencial e inalienável. É IMPOSSÍVEL QUE O CÉREBRO INTACTO NÃO PENSE, COMO É ABSOLUTAMENTE IMPOSSÍVEL QUE O PENSAMENTO SEJA LIGADO A OUTRA MATÉRIA QUE NÃO O CÉREBRO." 

                     E noutra parte continua: "Bem sabeis que a abundância excessiva do líquido céfalo raquidiano produz a idiotice, a apoplexia é seguida pela aniquilação da consciência, a inflamação no cérebro causa o delírio, a síncope - Que diminui a circulação do sangue, no cérebro provoca a perda do conhecimento, a afluência de sangue venoso provoca alucinações e vertigens, uma completa idiotia é efeito necessário e inevitável da degeneração dos dois hemisférios cerebrais; enfim toda a excitação nervosa na periferia do corpo só desperta sensações conscientes no momento em que repercute no cérebro." Até aqui Moleschott.

                   
Passemos a palavra ao Dr H Tutlle "Tudo - diz ele - desde a lagarta que dança aos raios de sol até a inteligência humana que EMANA DAS MASSAS MEDULOSAS DO CÉREBRO, é submetido a princípios fixos, isso pelo simples fato de inexistir um deus." 

                    Ouçamos também a Dubois Reymond "O pensamento nada mais é além de matéria em movimento."

                    "Esse negócio de espírito nada mais é do que uma força da matéria que resulta imediatamente de atividade nervosa - Mas donde provém... Do éter em movimento nos nervos." assevera Hermann Schaffle.

                   Tudo perfeitamente aceitável, como Filosofia ou especulação Metafísica.

                   Como dado científico, tudo perfeitamente discutível. 

                   Inclusive para pensadores ou cientistas honestos como Bruchner, o qual assim responde a seus companheiros: 

                   "Em que pese o MAIS ESCRUPULOSO EXAME, não podemos encontrar analogia entre a secreção da bílis ou da urina e o processo porque se forma o pensamento no nosso cérebro. A urina e a bílis são elementos materiais palpáveis, ponderáveis e visíveis; e mais ainda, são matérias excrementícias que nosso corpo usou e agora rejeita. O pensamento, o espírito, a alma, pelo contrário, nada têm de material, não são substâncias, mas o encadeamento de forças diversas que formam unidades, o efeito do concurso de muitas substâncias dotadas de força e de qualidades.
                       Quando uma máquina feita pela mão do homem produz um efeito qualquer, põem em movimento seu mecanismo ou outros corpos, dá uma pancada, indica a hora ou coisa semelhante, esse efeito considerado em si mesmo é coisa essencialmente distinta de certas matérias excrementícias que ela produz, talvez, durante essa atividade.
                         Assim é o cérebro, princípio, fonte, ou melhor dizendo, causa única do espírito ou do pensamento; mas não é por isso seu órgão excretor. Ele produz algo que não é rejeitado, que não perdura materialmente e que se consome no momento mesmo de sua produção. O trabalho ou atividade dos rins ou do fígado se realiza sem que o saíbamos... mas a atividade do cérebro não pode existir sem que dela haja consciência completa..." 

                           
O que o nobre professor Bruchner jamais logrou esclarecer - Como lhe foi solicitado pelo Dr Janet no "Materialismo dos dias atuais, uma crítica ao sistema do Dr Bruchner" - é como o cérebro, sendo um agregado de células materiais, produziria pensamentos imateriais ou o fenômeno da consciência... 

                             Mais adiante de Moleschott foi o professor Bayson que para demonstrar que o cérebro produzia ou excretava pensamentos dava-se ao trabalho de pesar todos os sulfatos e fosfatos que consumia por meio da alimentação, após o que dedicava-se a algum trabalho mental e por fim contabilizava a quantidade de sais presentes em suas excreções i é fezes, urina e suor, visando demonstrar que a quantidade de sais excretados aumentava após qualquer trabalho intelectual...

                              Meio século passou-se até que um outro Nobel, e portanto para que um pesquisador sério, Henri Bergson repudia-se expressamente a doutrina ou ensinamento segundo a qual é a mente humana produto do cérebro ou que o pensamento seja exclusivamente elaborado por ele. O espírito, declara ele, não é matéria e não está demonstrado que seja ele mera função do cérebro. 

                              Todavia, como não houvesse um Bergson a Ideologia materialista impregnou de tal modo a ciência e suas instituições ao cabo dos séculos XIX e XVIII, que elas chegaram a substituir o Vaticano e a Inquisição com suas denuncias por heresia, excomunhões, interditos, etc enfim com seus meios de controle.

                               E já veremos como Mesmer teve seus pedidos de pesquisa ou análise aprioristicamente negados por tais Instituições, o que por si só é comprometedor. Posto que é dever dos cientistas e instituições científicas investigar.

                               Todavia, tanto mais se apegavam a certos princípios apriorísticos ou metafísicos, tanto mais esses acadêmicos temiam a realidade e suas manifestações - Justamente por não se enquadrarem em seus sistemas. Do que resultava a recusa ao exame... 

                                Os tais sábios limitavam-se a cruzar os bracinhos e declarar: Tal coisa não pode ser real - Determinando se algo podia existir ou não, conforme o esquema de mundo vigente.

                                 Foi atitude que vigorou por mais de século e infectou vários homens ilustres, a começar por Lavoisier o qual, apelando a tais e tais princípios, tachou os camponeses de simplórios ou imbecis, por insistirem que pedras caiam do céu. Feito isso compôs a famosa memória contra a existência de meteoritos e enviou-a a Academia, onde foi ovacionada pelos guardiães da ciência. Trinta anos depois tiveram os mesmos guardiões que dar razões aos camponeses imbecis - Que apesar disso tinham olhos e sabiam observar! - e admitir a existência de meteoritos! 

                Passado um século foi a vez de Th Edison, após ter apresentado seu Phonógrafo, quase ser agredido por um acadêmico francês, o qual aos gritos de - Não passais de um ventríloquo! - buscava desmascara-lo.

                Tais os tempos.

                O mais grave no entanto era a peremptória recusa, por parte de alguns, a investigar. 

                De fato, quando o fenômeno das mesas girantes chegou a França, Foulcault, no "Journal des debats" apelando a determinados princípio, não apenas negou o fenômeno, como após ter declarado que era absurdo e impossível, declarou que sequer deveria ser examinado por um cientista sério.

                 No entanto passados mais de cento e vinte anos, pudemos ler com gosto num Carl Sagan que todo e qualquer fenômeno, por insólito que fosse - A exemplo dos discos voadores ou OVNIs - deveria sim ser investigado, sendo dever faze-lo. 

                  Muito antes de Sagan, tanto o estadista Agenor de Gasparin quanto o poeta Victor Hugo - Legítimos expoentes do pensamento crítico e científico. - deram competente resposta ao grande físico -

                   "Substituir o exame pela zombaria é muito cômodo, mas bem pouco científico. O fenômeno da velha trípode, como o da atual mesa, tem, tanto quanto qualquer outro, direito a observação." Hugo in "William Shakespeare

                    "Não, eles não lerão essas coisas, mas julgarão! Julga-las-ão sem mais nem menos, do alto de suas cátedras e apelando a um argumento irrebatível: Não creio porque não creio - Simples, fácil e peremptório. Não admito tais coisas porque são impossíveis. Sendo assim perdeis vosso tempo transmitindo tais narrativas!" De Gasparin
in "Des tables tournantes, du surnaturel en général et des esprits." 

                   Acho absolutamente válido discutir teorias, explicações, hipóteses, etc discutir, por em dúvida ou negar a atuação de espíritos... Postulando a Hiperestesia, a objetivação de tipos ou a Prosopopese metagnomia, os resíduos mentais ou tulpas, desdobramentos psíquicos, etc desde que fatos não sejam aprioristicamente negados e pesquisas seriamente realizadas desdenhadas, pois aqui topamos com a desonestidade. E o fruto da desonestidade e da negação dos fatos será o descrédito da própria ciência, mormente num tempo em que os fundamentalistas e ocultistas buscam desacredita-la.

                        
                                
               



                  

             

quarta-feira, 15 de março de 2023

Psicologia, psicanálise, Freud e a questão da multiplicidade de existências - Reflexões sobre a obra de Hermínio C Miranda 'A memória e o tempo' Edicel 1984 - Parte I

Ao passar por uma Banca de Jornais - Esta convertida e Bazar enquanto outras tantas foram convertidas em mini Shoppings por obra e graça do mundo digital. - avistei uma pilha de livros velhos, da qual extraí um bom número de volumes interessantes, dentre eles uma brochura esverdeada, de umas cento e cinquenta páginas e intitulada 'A memória e o tempo'. Nem é preciso advertir de que a comprei e também os mais volumes interessantes, num total de vinte e poucos.

Havia, dentre eles, a Biografia completa do sr Kardec por Zeus Wantuil em três alentados volumes, dos quais eu havia tido um só e perdi há muitos anos. Diversos volumes de Parapsicologia, alguns volumes do Herculano Pires, um do Bozzano, etc E como disse fiz a ceifa.

Quiçá alguns tenham já concluído: Quanta baboseira ou que desperdício... Julgo porém que, ao contrário do genial Karl Sagan, diriam a mesma coisa da Odisseia de Homero, do Teatro de Sófocles ou da República de Platão. Refiro-me aos materialistas crassos, aos positivistas inveterados e aos cientificistas a exemplo do falecido Mário Bunge, enfim de toda essa gente que jamais fora capaz de escrever uma opereta medíocre ou um draminha satírico - Gente tão alienada quanto a outra gente que tanto gostam de criticar.

A exceção das baboseiras esotéricas - Que se embrenham pelos campos da História, da Geografia ou da Astronomia. - divulgadas por Churchward, Posnansky, Braghine, Donnely, etc leio praticamente tudo. 

Há mais de trinta anos tomei por divisa está pequenina frase: "Examinai tudo e ficai com o que proveitoso é." e dela não me aparto. Tanto isto é verdade que, mesmo não sendo adepto das Ideologias ateísta e materialista, bem como da mística positivista. contínuo a ler diversas publicações congêneres tendo em vista garimpar algumas coisas boas e formular uma visão de mundo, quanto possível mais equilibrada.

Naturalmente que leio muito Freud, o qual apesar de seus erros, alguns dos quais aberrantes - ainda me encanta. E Darwin, e Marx, e Weber, e Malthus, etc na medida em que a leitura dos clássicos me permite. Nada do quanto seja humano ou mesmo natural me é indiferente...

Claro que a exceção da fé Cristã não respeito Ortodoxia ou sistema algum - Embora admire certos construtos como o de Sócrates, o de Aristóteles, o de Malthus e o de Max Weber - pelo simples fato de saber que não existem seres humanos infalíveis... Sou sinceramente Católico Ortodoxo por julgar que tal sistema, quanto a sua parte mais íntima (A dogmática) seja divina ou Revelada por Deus. No campo da própria Teologia sou já rebelado e portanto suspeito...

Portanto não creio em ortodoxias, sistemas fechados, místicas secularizadas ou igrejolas humanas... 

Concordo portanto com os agnósticos, filhos de Huxley, quando apresentam o ateísmo e o materialismo como são i é como elaborações metafísicas e tão metafísicas quanto o teísmo e o espiritualismo, pelo simples fato de ultrapassarem os dados imediatamente sensíveis em sua rude simplicidade. Excluída a reflexão racional (Metafísica) impugnada pelo rude escocês, só nos resta silenciar sobre todos esses assuntos ou calar a boca...

E não concordo menos com os espíritas, quando apontam o materialismo dos cientificistas, como igualmente ideológico e não como científico. Especialmente no que tange os domínios da Psicologia - Aqui o estrago e a tragédia são muito maiores! 

Podemos admitir sem maiores problemas que a exceção da Psicologia, a ciência ou as ciências são materiais pelo simples fato de que o campo devassado por elas é a materialidade. Cumpre-nos repetir aqui a lição do agnosticismo: Uma coisa é ter a ciência, de modo geral, como material e outra por materialista; pois ali cumpre com seu escopo> Investigar a matéria, enquanto aqui, ultrapassa a si mesma e a seu escopo, predicando - Sem mínima legitimidade! - que nada há para além da dimensão material do ser, predicação que foge tanto ao empirismo como a ciência...

Criticam os marxistas quando invadem o campo das ciências humanas, a começar pela História e pela Geografia, introduzindo sua Ideologia grande parte ideativa ou metafísica (Weber!) e sem embargo disto, imitam-nos - O Dawkins, o Harris, o Dennett e outros - invadindo o campo de ciências que por definição são exatas ou naturais e introduzindo opiniões metafísicas como se empíricas fossem ou como tivessem dado com o princípio materialista na gema do ovo ou com o ateísmo na partícula do Argônio... Mas onde encontraram e isolaram tais 'elementos''... E como os formularam sem o auxílio da 'razão' impugnada por Hume.

Bem aventurados os materialistas e ateus que não se fantasiam como cientistas, céticos ou positivistas assumindo o caráter metafísico de suas crenças mais queridas. No entanto em tempos nos quais é a Filosofia sistematicamente repudiada e a honestidade escasseia tal postura se torna rara.

Ateísmo e teísmo, materialismo e espiritualismo, etc não são questões religiosas - Que se resolvem por meio da fé ou de livros autoritativos. - e menos ainda questões científicas a serem solvidas num gabinete científico ou laboratório e sim questões de ordem metafísica a serem examinadas e julgadas por cada pessoa com máxima liberdade > Embora para tanto deva haver preparo i é investigação, pesquisa, estudo ou leitura.

Vender tais lucubrações por elementos científicos, como faz a ralé positivista até os dias de hoje, é pura e simples falta de caráter.

Por isso os espíritas e alguns romanos tem plena razão ao denuncia-los, respirando indignação inclusive.

Tanto pior o resultado dessa falsa propaganda no campo daquele tipo de conhecimento que é por assim dizer o único que foge ao estrito campo das demais ciências: A Psicologia...

Principiou a falsa ciência 'materialista' na França, com o ideólogos De Holbach, La Metrie e Clothes, dentre outros... Asseverando que NÃO HAVIA imaterialidade alguma e que a existência do espírito era falsa. Tudo quanto havia era matéria ou materialidade... Tal o materialismo crasso, formal e mecanicista dos quais muitos teóricos acharam por bem desprender-se no decorrer do século XIX quando a barquinha começou a fazer água.

No entanto os resistentes ou 'ortodoxos' asseveravam, de geração em geração, que na geração seguinte, a inexistência do espírito ou a fábula do imaterial seria rigorosamente demonstrada num laboratório. 

O primeiro foi Broussais, o francês... o qual chegou a declarar - Como Branly um século depois - que caso testificasse qualquer evento de natureza imaterial NÃO ACREDITARIA rsrsrs Após ele foi a vez do comunista Joseph Dietzgen, o qual tendo declarado que a ciência havia demonstrado experimentalmente o princípio do materialismo, foi advertido e corrigido pelo próprio Engels. Pouco depois Engels declarou que os comunistas não eram materialistas formais ou crassos pelo simples fato de não negarem a existência do imaterial e sua interação com o material inclusive. Por fim assomou o inteligente Lênin, o qual numa obra de inegável valor 'Materialismo e empiro criticismo' e opinou que não tardaria muito tempo para que o princípio materialista fosse empiricamente demonstrado.

A questão é que desde aquele tempo, a geração de Engels, os dois campos tiveram que reformular o conceito de materialismo tendo em vista sua sobrevivência no âmbito das ideias. Pois conforme a ciência progredia se tornava cada vez mais difícil o óbvio, que era a existência de um elemento imaterial ou espiritual. Eram os tempos de Ch Darwin, o qual demonstrou o princípio da Evolução no campo da biologia, abrindo novas perspectivas, das quais se aproveitaram diversos pensadores, como um Spencer por exemplo. 

A recomposição deu-se justamente nesse sentido, da evolução - A princípio existia, apenas o elemento material (Daí monismo materialista.) o qual, a cabo de um lento processo evolutivo, se foi depurando ou tornando menos denso (Espiritualizando...) até dar origem ao espírito ou ao imaterial... Portanto se havia algo de imaterial ou espiritual no mundo esse algo teria se originado a partir do elemento material, pelo que o material seria a origem de tudo. Creio que tal construção remonte inclusive a Lucrécio, mas não sei exatamente.

Em meio a tantas revoluções ou transformações o conhecimento da mente não pode deixar de cindir-se em duas correntes não apenas distintas mas rivais: O que ora chamamos Psiquiatria e a que ora chamamos Psicologia... sabendo que está última remonta a Th Fechner e Wundt e que a primeira não teve dificuldade alguma em ser reconhecida como legítima ou científica. 

Outro o caso da segunda....

Importante salientar que ainda hoje, em pleno século XXI, há ideólogos - Positivistas, cientificistas, materialistas... - que repudiam não apenas a parapsicologia, como a psicanalise e até mesmo a psicologia não colonizada ou não behaviorista, como construtos semelhantes as diretrizes comunistas ou a astrologia... Um sujeito de rara inteligente como Popper, inclusive, enredado por Hume, lançou a Psicanálise, a parapsicologia e a Evolução das espécies no mesmo balaio que a astrologia e as diretrizes marxistas, o que nos possibilita antever o caráter sectário desde tipo de mentalidade.

Outros positivistas lançam ainda História, a Filosofia, a Jurisprudência... no mesmo balaio, de modo que só seria ciência o que eles querem e do jeitinho que querem, e isso mais de século após W Dilthey ter pulverizado seus preconceitos sectários. 

Para que a crença querida do materialismo seja científica toda ciência precisa ser materialista...  Portanto caso o campo científico em questão - Pelo simples fato de ser humano e não sideral, mineral ou vegetal. - destoe do materialismo cessa por isso mesmo de ser científico ou respeitável. Engenhoso não...

Que pensem assim os físicos e químicos e ainda alguns naturalistas por serem reducionistas e paladinos da monocausalidade com as bençãos do capelão Ockhan bem se compreende. Agora que tais prejuízos se tenham afirmado no campo da Psicologia, que é uma ciência da mente, é bem outra coisa...

Durante a segunda metade do século XIX, o conflito não estourou abertamente devido as personalidades conciliadoras e respeitáveis dos já citados Fechner e Wundt. Tratava-se de um conflito apenas latente, em que a Psicologia nascente era muito mal vista e encarada com suspeição enquanto a Psiquiatria era muito bem acolhida pelos líderes cientificistas. 

Assim até os idos de 189... ou até a última década do século XIX. Período em que, após a morte de J M Charcot, a controvérsia Salpêtrière - Nancy tendia a serenar. Foi no entanto quando justamente tornou-se universal. Pois junto a Charcot estava um jovem ateísta e presumidamente materialista, S Freud, e do outro lado do Reno, Wagner Jauregg e Emil Kraepelin. 

O quanto podemos dizer é que nesse período - Ao menos até a criação do behaviorismo por Watson! - surgiu um divisor de águas entre Psiquiatria e Psicologia que possibilitou a plena expressão da última. E tal se deve, paradoxalmente, a S Freud. É com Freud que a Psicologia desprende-se, como deveria, da psiquiatria ou da determinação somática unilateral para postular a existência de fenômenos psicosomáticos. 

Até hoje, um século depois, ainda podemos testemunhar a rivalidade existente entre essas duas áreas - Psiquiatria e Psicologia, as quais para o bem dos seres humanos, deveriam caminhar juntas. A resistência no entanto é quase sempre mais viva nos domínios da Psiquiatria, partindo obviamente dos cientificistas, animados pela ideologia materialista. O resultado disto é a rejeição seja da Psicologia ou da Psicanalise por eles, e o reconhecimento exclusivo - Por motivos que nos parecem óbvios. - dessa Psicologia esvaziada e aparente chamada behaviorismo.

O behaviorismo é sempre bem vindo por qualquer psiquiatra pelo simples fato de negar a mente e por extensão qualquer coisa de imaterial ou espiritual. 

Antes da criação desse ente aberrante chamado behaviorismo, era a Psicologia repudiada em bloco por parte significativa de psiquiatras.




quinta-feira, 15 de julho de 2021

A metafisicalização das verdades e a deturpação da realidade.

Nobre é a busca pela verdade e preciosa sua aquisição.

Há mais de milênio e meio disse alguém que toda e qualquer verdade procede, ao menos remotamente, do Espírito divino.

De fato qualquer verdade, por ínfima e humilde que possa parecer é como que uma cor ou tom no caleidoscópio do infinito.

Da combinação química presente no molho béarnaise e da formula da água as complexas fórmulas matemáticas que exprimem a realidade da física, assim a Teoria da Relatividade.

Agora por belas e majestosas que sejam certas verdades matemáticas expressas por gênios como Tales ou Pitágoras, Euclides ou Arquimedes, Euler ou Gauss, tem elas seu próprio lugar ou espaço no plano da realidade. 

E mal fica que um Pareto as queira transplantar a fina força para o plano da economia com a esfarrapada desculpada de que é a economia uma ciência exata e assim tão matemática como a física.

Como mal fica a matematicização total iniciada por Descartes e completada por aqueles (Dentre todos por Comte.) que, a modos de novos Pitágoras, aspiraram levar as fórmulas newtoneanas a Filosofia, a Biologia, a Geografia, e assim por diante. E daí surgiram sistemas ideológicos aberrantes.

Não que deseje increpar as matemáticas apenas. Que os matemáticos, face os religiosos, os biólogos, o sociólogos e outros foram humildes. 

Comecei pelos matemáticos e ideólogos matematicizantes, geralmente de inspiração positivista, apenas para obter exemplos.

A partir dos quais a escamoteação da realidade ficasse suficientemente clara, e se pudesse perceber o processo de metafisicalização urdido pelos ideólogos inconsequentes.

O qual consiste em detectar uma verdade qualquer situada em determinado campo da realidade e estende-la a todos os outros campos, qual fosse, um princípio universal capaz de tudo explicar quando na verdade mística e obscurece a contemplação da realidade.

E é esta manobra tão aberrante a ponto de que, quando certo fato nela não se encaixa, destoando do esquema, bastar para que o dito fato - E outros mais - seja negado. E negam-se fatos que são verdades em nome da teoria ou do esquema querido. 

Partindo da fé religiosa por exemplo, que é, do ponto de vista Cristão Ortodoxo e Católico, imutável e autoritativa, concluiu certo grupo, representado de modo geral pelos integralistas, que também a organização política e social deva ser imutável e autoritativa ou autoritária, isto a ponto de apresentarem seu monarquismo ou despotismo e seu conservadorismo tosco como espécie de dogmas de fé (O que de fato converte-os em heréticos.). Quanto ao papismo já disse que o insuspeito Joaquim Pecci ou Leão XIII, desferiu rude golpe sobre tais homens desorientados ao declarar, como era esperado e justo, que a organização democrática é perfeitamente compatível com a fé, o que é igualmente válido quanto a fé Ortodoxa ou qualquer Igreja apostólica. 

Já quanto o conservadorismo tosco, que é um pensamento rasteiro e falsa apreensão da dinâmica social escusado seria que um papa romano, patriarca, Bispo, presbítero ou clérigo qualquer o refutasse.

Afinal quem autorizou tais pessoas a ultrapassarem os limites do sagrado e aplicar as notas que pertencem exclusivamente a revelação divina, a realidade sublunar e as instituições humanas. Agora porque a Revelação divina é autoritativa e divina desde quanto as instituições políticas e sociais devem ser autoritativas e divinas? Nada mais ímpio do que divinizar o humano, pois é aproximar-se da idolatria. 

É o quanto basta sobre nossos irmãos desorientados. 

Passo agora os agostianianos e heréticos da mesma cepa, representados por Calvino e por diversas seitas protestantes, os quais estendem sua crença ímpia sobre a corrupção total da natureza humana e a inexistência do livre arbítrio ou o determinismo sagrado a realidade vivida como um todo. 

E tocando a questão da epistemologia advogam que o homem nada pode saber fora da Revelação, posto que os sentidos e a razão enganam-no. Pronto temos o ceticismo...

Agora como é o homem um ser sempre depravado, apesar da graça e do batismo, é necessário que seja objeto de uma educação repressora. Pronto temos o moralismo ou puritanismo.

E como mesmo essa educação não basta para redimi-lo precisamos de uma estrutura eclesial ou secular com que fiscaliza-lo e disciplina-lo, mantendo-o sob controle. Pronto temos o autoritarismo.

E como todo esse ordenamento procede da fé imutável temos o conservadorismo.

E como a experiência e a reflexão nada são, a ciência - Especialmente se oposta aos mitos judaicos do antigo testamento. -  tampouco vale alguma coisa - Pronto temos o negacionismo, do qual procedem criacionismo, geocentrismo, terraplanismo, etc 

Agora veja como temos aqui um perfil ideológico bem definido procedente do agostianismo/calvinismo com sua antropologia e psicologia estendidas a diversas outras áreas da existência.

E não é para admirar que a mesma criatura que se recusa a reformar a Sociedade ou a moralidade, após ter reformado muito mal o Cristianismo ora pretenda reformar a História, a Geografia, a Física, a Química, a Biologia, a Psicologia e todos os conhecimentos sólidos e seguros aduzidos pelo gênero humano.

É toda uma escolástica de matriz religioso parte parte de um dado equivocado.

Pois aqui não se trata de verdade alguma. No entanto mencionamos a tragédia, por ser correlata ao fenômeno que relatamos quanto a profanação da verdade.

Ainda no plano religioso dos erros temos o princípio individualismo canonizado pelo protestantismo já em seus primórdios, o qual foi sendo sucessivamente secularizado e aplicado a outros campos da realidade pelos protestantes. De que resultou uma economia individualista a que chamamos liberalismo econômico ou capitalismo. Uma negação da política, a que chamamos anarquismo, especialmente a partir de Stirner. E uma proposta 'ética' que conservou o termo individualismo com Ayn Rand, havendo quem por força de coerência sejam protestante, capitalista, a anarquista e individualista - Assim um ANCAP. E temos pessoas com esse perfil nas Igrejas Ortodoxa e romana nas quais as normas e regras são totalmente opostas a esta visão, por partirem de um princípio diametralmente oposto ao individualismo, como o solidarismo ou fraternalismo.

No entanto essa infecção ideológica saiu de controle, deixou seu campo - que era o protestantismo, um campo religioso - e contaminou diversos outros, produzindo alias um sistema de cultura, tanto mais firma nos EUA e tanto mais preciso sob a forma ANCAP, que é produto final de tudo isso.

A partir do anarquismo, surgiu esse negacionismo iconoclástico radical, adversário de todas as instituições e não apenas da política, o qual estendeu-se ou alastrou-se a quase todas as áreas da realidade como uma espécie de rival do conservadorismo. E se o conservadorismo, sem fazer mínima distinção entre bem e mal ou entre o que merece e não merece ser conservado segue seu caminho, o anarquismo, assumindo um progressivismo virulento de origem metafísica, vai pelo extremo oposto. 

No plano institucional esse anarquismo (A que Sorel credita o mérito de o te-lo em conta de incoerente. Rappoport) negou-se a inserir-se onde quer que fosse: Parlamento, sindicato (Sorel, Kropotkin e os seus o fizeram por conta e risco e enfrentaram o repuxo da 'Ortodoxia'.), escola, igreja, etc apregoando a deserção do mundo e a destruição completa do mundo burguês por meio de uma Revolução não poucas vezes sangrenta. Pouco mais tarde completou o anarquismo seu trajeto e coroou sua visão totalizante com a negação da cultura teórica: Da Filosofia, assim da gnoseologia; da ciência, assim da epistemologia e enfim da estética, negando o passado em sua totalidade. Aqui encontrou-se ele com o ceticismo, em parte já secularizado e com o relativismo/subjetivismo kantiano tributário de Lutero e assim de Agostinho. Sem averiguar as possíveis fontes de suas crenças carregou e trouxe consigo o anarquismo, um travo pessimista quanto o passado do homem, no qual viu apenas opressão.

De modo que o partindo da negação do parlamento ou do politico e passando pela negação das instituições atuais, chegou o anarquismo a manifestar-se e impor-se como modelo ideológico completo, aqui sustentando posições céticas e relativistas, ali posições anarquistas (Vide a posição de Feyerabend quanto a pesquisa científica.), e por fim quanto as artes, posições psicologistas que ajudaram a criar essa arte sinistra que é a arte moderna, alias com grande dose que pragmatismo burguês advindo da cultura capitalista. 

Podemos dizer assim que o espírito anarquista alastrou-se pelo universo e consolidou-se em diversas áreas que sequer faziam parte da proposta primitiva. E produziu-se como dissemos uma visão anarquista totalizante, um óculos ou uma lente a partir da qual se busca ver o mundo através da mesma perspectiva e manter certa dose de coerência.

O que queremos dizer ao fim deste artigo é que elementos das matemáticas cartesiana e newtoneana, da Revelação Cristã ou da heresia agostiniana e enfim da postura anarquista - E são apenas alguns exemplos - foram recortados ou descolados e inseridos artificialmente noutras tantas áreas da existência ou do conhecimento de modo a tudo explicarem ou darem origem a visões de mundo que obscurecem a própria realidade. Daí resultaram diversas ideologias ora reinantes como o positivismo, integralismo, o puritanismo, o conservadorismo, o autoritarismo, o determinismo, o negacionismo científico, o irracionalismo, o ceticismo, o negacionismo social, o psicologismo, o modernismo estético, etc todo esse cipoal que não poucas vezes se enlaça e encontra, complicando ainda mais a compreensão e consequentemente a exposição das ideias.






sexta-feira, 25 de maio de 2018

Egiptologia e conservadorismo

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Costumamos ler e ouvir, amiúde, em diversos artigos, livros ou documentários a respeito do antigo Egito que esta Civilização manteve-se praticamente imutável e estática ao cabo de quase três mil e quinhentos anos a contar de Scorpion ou Narmer (Menés) a bela Cleópatra. Especialmente no campo da religião e da arte nada teria mudado... Recordo-me bem de que no quinto ano, quando contava com doze anos de idade, ao ficar ciente disto - i é da suposta imutabilidade egípcia - fui fortemente impactado.



Psicologicamente aspirava pela estabilidade. Foi o início de minha jornada conservadora, alias alimentada pela cultura tomada ao protestantismo e sua moralidade tosca. Desde então o Antigo Egito converteu-se na pupila de meus olhos e no foco de minhas atenções; e tudo quanto era livro didático corroborava a fábula ou mito do Egito imutável.

Para minha maior sorte, desde os vinte anos, comecei a pesquisar por mim mesmo e ler coisinhas mais sérias assim Lange, Pierre Montet, Vandier... até que cheguei a Etienne Drioton... E toda quimera se desfez. Cedendo lugar a uma compreensão mais objetiva e real. Um dia temos de tomar vergonha e folhear Moret ou de dar ouvidos a Dra Fletcher ou a Gunther Dreyer... Então os ídolos partem-se e caem todos por terra.

Não, o Egito não foi a Sociedade imutável dos idealistas e românticos. Foi uma cultura estável e resistente, mas, de modo alguma uma sociedade paralisada por três mil anos. Ademais uma tal visão seria tão utópica quanto o livre mercado dos liberais, o fim do estado dos anarquistas ou o futuro sonhado pelos comunistas. Nem mais nem menos.

A pirâmides por exemplo não foram uma constante... As primeiras foram supinamente ignoradas por Narmer, Aha, Djer, etc e assim até Djoser, que floresceu em 2.615 a C, durante a quarta dinastia. E já haviam caído em desuso durante o novo império, de modo que as últimas foram construídas para servir de tumbas aos construtores das tumbas reais do Vale dos Reis - que moravam em Deir el Medina - pelos idos de 1100... A bem da verdade outras tantas centenas de pirâmides foram erguidas do oitavo século a C aos primeiros séculos de nossa Era, mas pelos faraós ou melhor pelas faraonas negras (Candaces) de Meroé ou Khush, assim Amanitore, Amani Shesketo, Amanirenas, etc os quais desejavam ser mais egipcios do que os próprios egipcios... No Egito porém já haviam saído de moda há mais de milênio. Ademais os meroíticos, núbios ou etíopes nem sempre respeitaram a forma da pirâmide egipcia - cuja base era quadrangular - chegando a edificar pirâmides de base triangular ou perfeitamente triangulares.

As próprias múmias, que constituem para muitos uma constante na História daquele pais, remontam a Snefru, o construtor da primeira pirâmide em Dashur. Anteriormente as múmias eram produto natural do meio e não produto de intervenção humana. Por outro lado, embora a mumificação só tenha sido abandonada nos primeiros séculos desta Era, devido a influência da fé Cristã, com seu conteúdo judaico, a máscara com que buscavam reproduzir as feições do falecido não conservaram a mesma forma. Assim, alguns séculos antes desta Era, os fayumitas passaram a introduzir nas faixas da múmia umas tabuas ou painéis pintados conforme o gosto helênico ou romano ao invés das velhas máscaras de madeira ou metal que reproduziam o gosto estético dos egípcios. Ao que parece este novo estilo arraigou-se por todo Delta...

Mesmo a medula da religião egipcia, centrada na vida eterna, segundo Drioton, não deixou de passar por drásticas transformações no decorrer dos séculos. Trata-se de um histórico a ser melhor considerado e Drioton pode defini-lo como uma paulatina democratização. Pois a princípio apenas o Faraó tinha acesso a vida eterna, caso os ritos funerários fossem executados. Posteriormente no entanto, a guiza de recompensa, o faraó adotou o costume de conceder tumbas, rituais e consequentemente o acesso a vida eterna seus familiares e colaboradores, assim ao vizir e aos nomarcas; assumindo o além uma forma aristocrática. Com a generalização da mumificação, do jazigo e dos livros mortuários; no Novo Império, a maior parte dos egípcios passou a revindicar acesso a vida eterna, com o 'placet' de seus reis...

Além disto a própria concepção de vida eterna não cessou de transformar-se durante todo este tempo. Pois se é certo que os primeiros faraós, adeptos de uma simples dicotomia - acreditavam que passariam a eternidade ressuscitados em suas tumbas consumindo oferendas, os textos gravados na pirâmide de Unis ou Venis, dão já a entender que ao menos durante o dia o Faraó podia tomar carona na Barca de Rá ou ascender aos céus. Passados alguns séculos a adoção de um modelo tricotômico possibilitou que o espírito do Faraó ascendesse ao mundo divino enquanto que seu corpo ressuscitado (ou habitado pela alma) continuasse a viver em sua sepultura... Os próprios nobres e populares adotaram semelhante modelo, passando a crer que enquanto seus corpos ressuscitados tornariam a viver nas tumbas, o espírito migraria para um local bastante parecido com as margens do Nilo ao que passaram a chamar 'campos elíseos'.

Portanto sequer o cerne da religiosidade permaneceu estático ou fixo entre eles mas sujeito a constante alteração. O mesmo pode ser dito com relação aos deuses. Uma vez que o posto de deus supremo ou rei dos deuses sempre coube ao principal deus cultuado na capital do pais - O Rá da Heliopólis pré dinástica, Phtá de Mênfis durante o antigo Império e por fim o todo poderoso Amon de Tebas, durante o Novo Império. Daí o esperto Usirmaré Setepenre Ramsés II, fazer-se ladear por Rá, Phtá e Amon em seu templo de Abu Simbel. Assim a fama ou status da divindade acompanhou as mudanças administrativas porque o pais passou em seus três mil anos... Até chegarmos a Serapís, o grande deus do período helenístico, cujo principal centro foi Alexandria.

A própria concepção de divindade não deixou de conhecer significativa alteração. Uma vez que Akhenaton aspirou substituir o henoteísmo vigente pelo monoteísmo, da mesma maneira como o henoteísmo havia eclipsado o politeísmo vigente nas primeiras dinastias. Nem foi o culto popular ou folclórico aos animais tão marcante como após o século XII, chegando a predominar no período helenístico. Após ter sido incipiente após o antigo e o médio impérios.

Diga-se o mesmo a respeito de diversas técnicas ou modos de produção. Os quais apesar de sua repugnância os egipcios tiveram de adotar e alterar, tendo em vista a perpetuação de sua autonomia. Assim o emprego dos carros e cavalos, do arco duplo e da machadinha estreita tomados ao invasor Hicso ou Heka Shasut. E mais tarde, ao tempo dos Hititas, a adoção das armas de ferro, em detrimento as de bronze...

Mesmo no plano da arte não se puderam manter estáticos. E se a arte de Amarna apresenta sérias rupturas as estátuas de Senusret III, que remontam ao Império médio, denotam um realismo espantoso. Já ao tempo de Ramsés III, a arte minóica faz sua primeira aparição no Delta...

O próprio caráter ou significado mais íntimo dos faraós também apresentou significativa alteração. Assim nos impérios antigo e médio, o rei é encarado como divino enquanto sacerdote ou representante da divindade; mas só se torna um 'deus' efetivamente, após sua morte. É filho adotivo ou como querem alguns emanação do Sagrado, mas não uma divindade como Rá, Phtá ou Amon aos quais deveria servir. Mentuhotep e Senusret estavam, ao que parece, bastante conscientes de sua humanidade...

É ao correr do Novo Império que as coisas assumem nova configuração, em conexão com o culto do todo poderoso Amon, a esta altura hipostasiado com o velho Rá, o Sol. Hatchepsut, filha de Tutmósis I e esposa de Tutmósis II, buscando legitimar seu poder, em detrimento do enteado - o futuro Tutmés III - e com o decidido apoio de Hapuseneb, alto sacerdote de Amon, não hesitou em recorrer a patranha e recorrer a um mito em torno de sua concepção miraculosa. O deus Amon, assumindo forma humana, havia coabitado com sua mãe... sendo ela filha do próprio deus e portanto uma deusa ou deus encarnado... Desde então pode governar sossegada pelo espaço de uns quinze anos. O preço que pagou pelo poder no entanto foi bastante caro...

Pois cada Faraó deveria compor-se com o poderoso clero de Amon para manter tais fábulas. Não Tutmés III, o Napoleão do antigo Egito, que manteve sua reputação ímpar, devido a seu staus de guerreiro invencível. Seja como for ele não deixou de despejar toneladas e mais toneladas de ouro no Ipet Sut, e de fortalecer o sacerdócio... e assim seus fracos sucessores. Até que o grande sacerdote tornou-se tão poderoso quanto o Faraó, é uma ameaça a seu poderio... Foi quando Amenhotep III, sem romper com os sacerdotes de Amon, retomou, discreta, mas decididamente, a estratégia de Hatchepsut.

Até então, o maior templo do pais estava situada na banda Leste do Nilo, em Tebas, a capital e era Karnak ou o Ipet Sut, com seus quase quarenta acres e oitenta mil servidores, um autêntico feudo sacerdotal... Amenhotep no entanto, optou por construir um templo ainda maior na outra banda, a banda Oeste do rio, a saber seu templo funerário ou necrópole, onde viria a ser adorado após a morte. Era este templo algo absolutamente soberbo e sem precedentes no pais e apenas Abu Simbel viria a faze-lhe sombra século e meio depois. Atualmente restam dele apenas os dois colossos, ditos de Mennon, cada qual com vinte e um metros de altura. Champollion e Rosellini chegaram a ver os pedaços de outros dezoito, alguns dos quais estão sendo desenterrados e restaurados enquanto escrevemos estas linhas. Quantos haviam na realidade não o sabemos... Compunham um verdadeiro exército de gigantes... Amenhotep faz-se apresentar tal e qual os deuses, em pé de igualdade... A mensagem é bastante clara: Ele mesmo é um deus vivo a ser cultuado sobre a terra e assim sua esposa Tyi. Mas não é certo que seu pai fosse Amon, quiçá fosse o velho Rá ou Aton, importava que ele era um deus vivo, concepção que seus sucessores - Horemheb, Seti e sobretudo Ramsés II, jamais abandonaram.

Também a forma do trabalho alterou-se significativamente no decorrer daqueles três mil anos. Devido a experiência porque passaram os antigos hapiru ou semitas, o modo grego de encarar o mundo e as películas de Cecil B de Mille fomos levados a crer que as pirâmides e a grande esfinge de Gise, haviam sido construídas por hostes ou multidões de escravos, conduzidos a ponta do chicote. Hoje, graças a descoberta da Vila em que viveram os construtores de tais monumentos, sabemos ser tal visão completamente falsa ou anacrônica. Tais trabalhadores eram livres e trabalhavam durante as cheias, sob corvéia; sendo além disto alimentados, vestidos e assistidos pelo estado. Acreditavam além disto que erguendo o túmulo do Faraó estavam colaborando em sua deificação e consequentemente colaborando para que a maat ou ordem das coisas fosse mantida.

Posteriormente no entanto foi o carater das coisas sendo paulatinamente modificado. Assim Senusret despeja no Egito milhares de escravos trazidos da Núbia. Tutmés III despeja outros tantos infelizes trazidos da Núbia e em seguida da Palestina após cada uma de suas campanhas e o Egito vai sendo atulhado por escravos estrangeiros cuja mão de obra deve ter sido ostensivamente empregada por Amenhotep III, Seti e Ramsés em suas obras colossais ou 'faraônicas'...

A conclusão a que buscamos chegar é bastante simples: A ideia segundo a qual o Egito se manteve imutável e estático durante todo este tempo é artificial e forçada e corresponde mais a nosso desejo de que as coisas não mudem ou de que o fluxo das mudanças torne-se menos intenso, do que a realidade e somos nós que projetamos nossas inseguranças e temores no passado formando uma imagem 'conservadora' do antigo Egito, uma imagem que é bastante cara para muitos, mas que jamais existiu... Enfim nossa imagem forçada daquele antigo país não passa de mais um álibi ideológico com que procuramos reforçar nossas aspirações e esperanças. Nada de Histórico, concreto ou real. Afinal nem o Egito antigo nem qualquer outra sociedade poderiam fugir aquele fluxo dinâmico que caracteriza tudo quanto é propriamente humano.



segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Buscando responder algumas objeções levantadas I




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Discordar pressupõem variação, e parece indicar complexidade, indeterminação e quiçá liberdade



Discordar é uma atitude rica de significados.

Como há um sem número de ideologias e pontos de vistas diferentes, a variedade parece indicar que de fato não somos comandados ou determinados por genes. A menos que os genes além de tencionados e por consequências conscientes (Ed Husserl) sejam também pensadores ou ideólogos...

A tabela periódica possui uns cento e poucos elementos. Portanto a variação é mínima... Nossas ideias, opiniões, crenças, teorias e visões de mundo, etc superam muito provavelmente o número de nossos genes, afinal são bilhões de seres humanos e não menos de dezenas ou centenas de milhões de seres humanos 'conscientes' experimentando e julgando criticamente o mundo i é produzindo concepções e doutrinas que se cruzam e produzem outras tantas, algumas que materializam -se outras que não se materializam, o que, como diz C G Jung é absolutamente irrelevante.



Um ser que elabora perguntas inoportunas



Veja uma obra de arte por exemplo, seu valor consiste justamente em não ter utilidade alguma, é pragmaticamente um mistério que Steven Pinker, o grande mago, esqueceu de alistar entre seus imponderáveis (a respeito dos quais os gregos tanto ponderaram e tantos homens ilustres ponderam ainda.) Produtos da mesma hipertrofia evolutiva que concedeu-nos um cérebro ou um aparelho cognitivo capaz de elaborar questões que os cientistas - materialistas e neo darwinistas é claro - dizem ser inoportunas ou irrespondíveis. É o que diz Pinker (com Kant) em seu livro 'Como funciona a mente' creio que a pag 256 ou segs onde declara que nosso aparelho cognitivo não foi feito para a verdade (Então como ele sabe que não esta equivocado???)...

A riqueza da cultura é mais ampla do que a riqueza genética.


Após esta digressão o que quis dizer é que nosso universo ou variedade cultural parece bem mais amplo do que nossos genes ou nosso universo genético, assemelhando-se a um turbilhão. Claro que se trata apenas duma hipótese a ser verificada no momento em que todas as ideias ou teorias e concepções humanas venham a ser matematicamente contabilizadas. Mas, como Pascal, faço já a aposta na transcendência da cultura face ao número dos genes. Agora se genes de algum modo produzem ideias (não creio nessa xaropada metafísica chamada memética, cujos devaneios, a contento, revelaremos - A gênese e forma da cultura é totalmente outra) são entidades pensantes, além de possuírem intencionalidade e consciência; e estamos já no reino da Carochinha...


Pinker vs Pinker


Agora veja meu bom amigo, o sr Pinker pronunciando-se categoricamente sobre o que acabara de alistar entre seus imponderáveis, uma vez que tal questão, sobre a possibilidade do conhecimento, é metafísica - qualquer doutrina sobre a validade do conhecimento, ultrapassando a empiria, como o empirismo, é metafisica - e epistemológica. É sempre possível que Pinker, no fim das contas repudie ao princípio de contradição de Parmenides, não o sei. Mas sei que responde a uma questão que alista entre seus imponderáveis... E responde-a da pior maneira possível, com Kant.


Hume e Kant (Jamais saímos disto!)


Kant é uma personagem chave a respeito de tudo quanto discutimos. E citado frequentemente por todos os modernistas como uma espécie de oráculo - 'Magister dixit'. David Hume, de cuja honestidade não podemos duvidar, também declarou que o aparelho cognitivo humano não estava posto para a verdade e por isso repudiou a religião, a filosofia e é claro a ciência, uma vez que a empiria parte dos sentidos. Já antes dele Pirro, Timon, Arcesilas, Carneades, Enesidemo, Montaigne, Vayer, Agripa e outros haviam esposado a mesma tese, que é a do ceticismo. O Ceticismo, nobre amigo, tem uma vantagem, não é arbitrário ou parcial, pois não precisa de um papa ou de uma autoridade dogmática a qual caiba definir a extensão ou o terreno de nossos conhecimentos.

Kant - que era luterano e trazia por baixo de sua epistemologia negativa uma antropologia (Toda Epist pressupõem uma Antropol segundo Ed Husserl) negativa - como declarou Mme de Stael sobre os reformadores, pretendeu ter atingido as colunas de Hércules da epistemologia e pôde dizer a posteridade - Daqui não passarás! Querendo com isso definir a extensão do conhecimento humano ou até onde era possível saber. Pupilo de Lutero ele identificou a razão com a imaginação ou a fantasia, condenando tudo quanto fosse demasiado especulativo, racional ou sutil; (A exemplo das modernas TEORIAS 'científicas'), enfim a metafísica, identificada, mui apressadamente com a ontologia e a teodiceia. No entanto o próprio uso de Metaphisika era ambiguo e isto a ponto de Schoepenhauer descrever o homem como um ser ou animal metafísico.

Chegando a Comte - Seu projeto ético



Comte; o francês, foi quem concluiu pela vaidade do exercício ou da reflexão filosófica de modo geral. E no entanto este homem genial não podia deixar de preocupar-se com o 'para que', com os valores, princípios, critérios e padrões que regem o convívio humano, insistindo dramaticamente sobre a necessidade de se manter ou criar uma Ética. Em certo sentido Comte e Freud são muito parecidos por suas contradições... Seja como for, foi Emílio Litreé, segundo papa positivista, que declarou a Ética ociosa ou desnecessária (por aquela época já não se falava em Estética). Os positivistas herdaram o aborto mas a humanidade clamou e clama por uma ética, e não por qualquer ética.


As promessas de Litreé...


Litreé é quem assume a teoria segundo a qual a Ciência deveria substituir a Filosofia tal e qual esta já havia substituido a religião. A compreensão no entanto era bem distinta da de Pinker. Pinker ora nos revela que devemos aceitar um certo estado de ignorância sobre o imponderável, assim a Ética - a qual sendo imponderável continua sendo ociosa! - e a Epistemologia... e nem preciso falar em Estética, afinal não poucos cientificistas admitirão sem maiores problemas que também ela é produto de uma hipertrofia evolutiva e quiçá algo tão dispensável quanto a espiritualidade. Litreé, como diz Grayling, não abre mão de uma escatologia Cristã otimista, mas secularizada (nos mesmos termos que Marx) e assevera que a ciência fornecerá ao homem todas as respostas e desvendará todos os mistérios produzindo uma nova visão de mundo.

Demandando por Ética!


Husserl julga que tais promessas são pretensiosas e mesmo venenosas, uma vez que nosso conhecimento sempre será fragmentário e limitado, como ora parece admitir Pinker, numa perspectiva mais realista, mas não menos dramática uma vez que seus imponderáveis são por assim dizer 'vitais' e não meramente acessórios dispensáveis sem os quais podemos passar muito bem... Com efeito não pode o homem viver sem perguntar a si mesmo 'Para que?' e todos se perguntam sobre isto algumas vezes ao menos na vida. Impulsos genéticos que pretendemos recalcar ou demandas psíquicas a respeito das quais a ciência empírica não é capaz de responder, mas que suscitam outros tipo de reflexão e outras formas de conhecimento.

Contesto mais uma vez que o acesso a este tipo de conhecimento, vital a nosso convívio, desenvolvimento, sobrevivência e felicidade possa ser arbitrariamente negado por um Kant, um Pinker, um Litreé ou outro qualquer. Não é um medo infantil como aquele de que foram presas um Comte ou um Freud com toda sua ciência positiva. Só não vê a crise civilizacional porque passamos quem não quer... E só aqueles que não tem um mínimo de empatia - e que certamente fariam do egoísmo genético sua praça forte - fugiriam a esta preocupação, uma vez que somos todos humanos!







A questão esbatida do altruísmo


Claro que eu bem sei e sei bem que falar em identificação, a alteridade, empatia, abnegação ou altruísmo com um biologista é tabu desde os tempos de Darwin. Hamilton em suas 'equações' já havia restringido o altruísmo a família ou a ligações genéticas, introduzindo o elemento do egoísmo... Tudo isto faz parte da ideologia positivista, a qual serve-se de enormes fórmulas matemáticas com o objetivo de intimidar a platéia. Carrel no entanto, que fora nobel e empirista de primeira linha, já dizia não trocar uma tonelada de demonstrações matemáticas por um único e singelo fato. Mesmo Comte, tão afeito a cálculos, teve de admitir esta bela verdade - Contra fatos não há argumentos...

No entanto exemplos de altruísmo desvinculado de ligações genéticas não são raros já na História, já no naturalismo e indiquei uma obra notável pelo senso de realismo e observação característicos da verdadeira ciência, assim o 'Auxílio mútuo' de Piotr Kropotkin.

É o humanismo um especismo vulgar?


"Soa como um desejo de ser mais do que felinos ou outras formas de vida... e para muitos expressaria uma forma de arrogância." diz meu amigo.

Certamente não somos superiores nos termos do sectarismo religioso ou do gênesis, segundo os quais os animais são propriedade nossa ou nos pertencem. Mesmo quando criamos animais deveríamos faze-lo segundo os princípios de uma Ética. No entanto adotar uma ética quanto ao convívio com os demais animais parece característico do homem. Pois se há homens sem consciência, que atuando como os demais animais, extinguem outras formas de vida, também há um significativo número de seres humanos que questionam a destruição de tais formas de vida apelando a conceitos como a justiça ou a alteridade, uma vez que somos todos sensíveis a dor. Veja o grupo Green Peace por exemplo.


Temos uma Ética que as demais formas de vida não tem!



Agora que leão ou jiboia ou urso após alimentar-se de um humano viria a refletir a ponto de deplorar seus hábitos alimentares e altera-los? Absurdo impensável. Mas nós temos veganos! Temos valores que alteram comportamentos... Estou esperando demonstrarem que os animais são capazes de fazer o mesmo. Nada nos indica que carnívoros façam reflexões de natureza ética determinativas com relação a seus objetos alimentares, ao menos em larga escala.

Neste sentido, de poder avaliar, com base em certos princípios, nossa relação com o que seria nossa comida ou nosso alimento, parece inovador e distintivo. Certamente que o advento da cultura vegetariana entre humanos é absolutamente rico e sugestivo; e não preciso ser vegano ou vegetariano para chegar a esta conclusão. Basta-me preferir a fome a consumir a carne dos grande mamíferos sensíveis a dor...

Os animais não produzem ciência, o homem...


Passemos a outro aspecto da polêmica. Caso sejamos absolutamente iguais aos outros animais e em nada nos destaquemos deles por que raios formigas, baratas, ratos, felinos, cães e elefantes não produzem ciência? Por que não tem seus laboratórios onde fazem pesquisas e experiências? Por que não tem suas universidades e escolas em que produzem o saber? Por que não transformam radicalmente o meio em que vivem como temos feito?

Caso a ciência produzida unicamente pelo homo sapiens tenha este valor tão grandioso - não negamos seu grande valor. O que questionamos é a atitude do cientista que se nega a pensar sobre o fim da técnica numa perspectiva ética - o quadro da vida propriamente animal comporta alguma limitação. Se a ciência produzida pelo homem tem algum valor, não há como deixar de concluir pela superioridade relativa ou intelectual de seu produtor. Agora se dissermos que é tudo uma só e mesma coisa temos de negar o valor desse fenômeno especificamente humano que é a produção científica. Elevar a ciência as alturas e abater o homem até as termitas, que não produzem ciência, é uma atitude absolutamente contraditória e incoerente.

A espiritualidade e a reflexão filosófica como fenômenos  tipicamente humanos


Mesmo sabendo que os cientificistas e positivistas negam o valor objetivo da religiosidade humana, aqueles que estão habituados a estudar o fenômeno humano não podem deixar de considera-la. Ao menos no plano da cultura temos de considerar o aspecto religioso como uma construção humana não só característica e relevante, inclusive, mas até, em certas circunstâncias como elemento positivo e favorável a evolução de determinada sociedade.

Diga-se o mesmo e mais ainda da reflexão filosófica. E o ateu Bertrand Russel foi quem declarou ser o 'deus dos filósofos' a mais refinada abstração concebida pelo homem e ao menos no plano natural, algo não menos grandioso que as pirâmides ou as grandes catedrais. Mas eu não percebo que os animais, claro que isto poderá vir a ser demonstrado, possuam uma vida espiritual e menos ainda que coloquem para si mesmos questões sobre os primeiros princípios e fins últimos do homem ou da natureza, do ser, do destino e da dor, na feliz expressão de Leon Denis. Os animais não parecem contestar a realidade dada que os cerca. Não parecem possuir um belo ideal face a vida e ainda aqui, os positivistas - que mutilam a condição humana - furtando-se a dimensão ética da vida, é que parecem espelhar-se nos animais, rebaixando-se.

A Estética ou a arte...


Temos ainda a arte, cujo fim é valorizar o que não é útil ou que não tem qualquer valor prático (Theophilo Gauthier). O homem entrega-se a este ofício inútil e desperdiça energias a toa, cerca de quarenta mil anos! Afinal para que serviriam algumas linhas e cores impressas num jarro??? ou uns sinais postos a lâmina de uma lança??? Bem, o Partenom e as Catedrais da idade média são a culminância deste exercício típico do homem e que não vemos nas alimárias que nos cercam. Ou já vistes um cão encenar uma peça ou um porco tocar uma flauta???

Por fim o homem, no dizer de Pascal, Kierkegaard, Heidegger, Marcel, Jaspers,e outros 'tolos' é um ser inquieto, que coloca-se diante do tempo, do espaço, da vida, da morte, do ser, da finitude, etc Segundo Platão ele possui um Thymos ou programa vital... segundo Romain Rolland possui um sentimento oceânico... segundo Henri Bergson possui uma intuição das coisas... segundo Husserl tende ao eidético, etc Não percebo essa inquietação, esse incomodo ou angústia nos animais. Não percebo esta sede. Não percebo esta busca ou demanda...

UM SER QUE SE AUTO MUTILA...


Claro que UM OU OUTRO SER HUMANO sempre pode mutilar-se, restringir-se e descer de nível. Outra coisa é o animal ascender ao humano, posto que lhe falta todo um aparato cultural. O esforço dos biologistas e metafísicos cientificistas consiste em eliminar ou minimizar justamente o que é propriamente humano E POR ISSO SÃO COM PROPRIEDADE CLASSIFICADOS COMO REDUCIONISTAS.


Eles pura e simplesmente desconsideram ou menosprezam a espiritualidade, a Ética, a Estética, a curiosidade ou a busca pelo sentido. As quais para eles são irrelevantes, EMBORA SEJAM RELEVANTES EM TERMOS DE ESPÉCIE E CULTURA. Más eles, os auto imunes, encaram a si mesmos como os arbítrios do universo e porta vozes da ciência, a qual sem embargo diariamente atraiçoam e profanam, publicando e divulgando metafísicas, escolásticas, especulações, sutilezas e ideologias em seu nome!!!

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Viajando pela cultura com Robert Musil


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"Segundo tradições de um passado remoto, foi o século XVI período de intensa fermentação espiritual e momento em que, o home, renunciando deslindar os segredos mais profundos da natureza, segundo o hábito dos séculos e os usos da religião e da metafísica, passou a contentar-se com a superficialidade dos fenômenos... O trânsito que o homem realizou fora da aventura metafísica para a simples observação e descrição dos fenômenos arrastou consigo uma multidão delirante. Se me perguntares como a humanidade pode transformar-se de um tal modo e maneira te responderei que comportou-se como um menino precoce que tentou andar demasiado cedo e que consequentemente levou um tombo e caiu com glúteo estatelado no chão...

E ali vão surgindo uma certa falta de escrúpulos e de inibição, o valor, o prazer, tanto de destruir como de agredir, a exclusão de toda e qualquer cogitação moral, o mercantilismo paciente até os menores benefícios... o culto supersticioso do número, da medida, da massa; associado a um desconforto mórbido face a mínima imprecisão. Assim os antigos vícios ou traços comuns a caçadores, soldados e comerciantes passaram o domínio intelectual transfigurados em virtudes. Indubitavelmente estes vícios foram desassociados quanto a busca de um proveito imediato, individual e grosseiro; e sem embargo disto o mal original, como poderíamos chama-lo, sobrevive a esta transformação mantendo-se indestrutível e eterno, ao menos tão eterno quanto certos ideais ou tendências humanas...

Temos que salientar ainda e sobretudo esta singular predileção do pensamento científico para com as explicações mecânicas e materiais, das quais se diz terem arrancado o coração. Não ver nos atos de bondade coisa alguma além de egoísmo calculado, referir-se aos sentimentos ou pensamentos como secreções glandulares, declarar que o homem nada é além de alguns elementos químicos em água a dez porcento, reduzir todos os atos humanos 'livres' a um conjunto de reflexos, reduzir a beleza a uma boa digestão e as excelentes condições do tecido adiposo, reduzir a procriação e o suicídio a umas tabelas com curvas anuais... tais ideias parecem revelar, de certo modo, essa ginástica mental ou mistificação a partir da qual determinados preconceitos, crenças ou ideologias são vendidas como científicas ou enquanto frutos da experiência em termos de objetividade..."
in Der Mann ohne Eigenschaften 1956 (O homem sem qualidades)

Ps Evitamos reproduzir aqui as críticas injustas, abusivas e destemperadas que Musil - da mesma maneira que Max Lerner - endereça a própria ciência, das quais evidentemente não comungamos. Já quanto a sua ampla, profunda e sistemática crítica ao cientificismo, ao positivismo e ao materialismo - Mormente quando introduzidos nas ciências humanas e mais especialmente ainda nos campos da Psicologia e da Sociologia - só podemos reproduzi-la e classifica-la como atual, magistral e insuperável enquanto diagnóstico preciso de uma mutilação arbitrária ou melhor de uma profanação, a que o fenômeno humano tem sido submetido desde os idos do século XVIII.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

É Jesus um coquetel de deuses antigos? Uma resposta ao panfleto 'RELIGIÕES: TUDO QUE VOCÊ PRECISA SABER ANTES DE MORRER' - Oiced Mocam





A serenidade nos faz ler muitas bobagens e silenciar ou calar.

Em determinadas circunstâncias tentar refutar uma tolice pode acabar sendo demonstração de tolice ainda maior.

E também, como dizia o velho Orígenes, há quase mil oitocentos e cinquenta anos, a vontade humana continua irrefutável.

Se a pessoa quer ou deseja acreditar em algo nada do que escrevamos ou digamos mudará isso...

As vezes é sinal de sabedoria poupar argumentação, tinta e saliva!

Por outro lado, quando algum amigo querido ou aprendiz solicita uma refutação, então temos algo sobre o que pensar.

E neste caso só resta fazer algo muito bem feito.

Por isso pensei, pensei e pensei...

No entanto o que me fez tomar decisão, foi um desses inúmeros textos imbecis que desfrutam da boa graça dos esclarecidos internautas e faceboqueanos mas que seriam varridos incontinenti e como lixo dos meios acadêmicos.

Plagiando Julio César até posso dizer que: LI, RELI E NÃO CRI!

Pois até mesmo a estupidez há de ter seus limites. Ou não?

E como o fragmento da porqueira estivesse truncado e sem indicações lá fui eu pesquisar qual fosse a fonte, e céus eternos, para minha maior surpresa pude encontra-la!

Trata-se da obra intitulada - 'Religiões tudo que você precisa saber antes de morrer.' Busquei o nome do autor e ao invés de dar com ele, tudo quanto pude encontrar foi um anagrama (nome falso ou codinome FAKE) Oiced Mocam (Decio alguma coisa, Macom??? Não sei, mas até gostaria de sabe-lo para desafia-lo a um debate publico!). Trata-se portanto de obra tão chula que o autor até tem receios de vincular seu nome, preferindo recorrer as estrategias das Tjs, assim ao anonimato...

Ademais o titulo é absolutamente falacioso e enganador.

Pois não se trata de expor imparcialmente os credos religiosos, ou de descreve-los como faz a verdadeira ciência acadêmica representada por um G Vermes ou por um J D Crossan, mas de um ataque as religiões em geral, especialmente é claro ao Cristianismo, religião a que o autor vota profundo ódio. E busca apresentar tão rasteiro sentimento como cientifico!!!

No entanto já antes de darmos com o prato principal, começa o pregador ateístico a clamar contra o culto da Cruz, alias Católico, posto que os protestantes a exemplo dos ateus, também odeiam a cruz. E a partir de sua Bíblia passaram a apresenta-la como pagã e diabólica, bem antes dos ateus, os quais limitaram-se a copiar ou reproduzir a parlenga dos reformadores, seus mestres...

E de chofre já declara que o símbolo da Cruz passou a ser empregado pelos Cristãos muito após a morte de Jesus... Claro que ele se contenta com um 'muito apos' genérico, pois precisa-lo em termos de tempo não dá né... e sempre se pode dar uma 'saída para a esquerda...'

Seja como for numa de suas Epístolas - Tida como autêntica pela própria crítica racionalista e indiferente (cf E Renan 'Historia do Cristianismo') - o apóstolo Paulo já se refere a cruz como símbolo do poder e da glória de Deus e vinte anos após a morte de Jesus. Para além disto altares com cruzes foram escavados numa capela Cristã existente na cidade de Pompeia, soterrada pelo Vesúvio no ano 80 desta era (meio século apos a morte de Cristo) e fragmentos de vidros com cruzes gravadas foram encontrados nas ruínas de uma das primeiras igrejas cristãs de Damasco capital da Síria, construção que data do seculo I.

De modo que em meados do século II o polemista Ortodoxo Tertuliano de Cartago, aconselhava os Cristãos a traçarem o sinal da cruz a proposito de qualquer coisa... Antes de comer, beber, dormir, ler, etc.

Portanto a alegação do panfletário cristianofóbico carece de todo e qualquer embasamento.

Alegar que a Cruz ou qualquer outro símbolo assumido e empregado pelos cristãos é anterior ao Cristianismo nada significa caso consideremos a doutrina dos arquétipos ou símbolos universais presentes já na mente, já na cultura. O fato de existirem antes do Cristianismo comunica lhes veneranda antiguidade enquanto o fato de terem sido assumidos pela igreja indica que o Cristianismo converteu este universo mental de veneranda antiguidade em realidade concreta, inserindo-o nos domínios da História. O que precisa ser explicado não é a existência do símbolo 'a priori', mas sua presença 'a posteriori' na História do Cristo, assim a Cruz, assim a crucificação dele... Ela é que pede a explicação e a explicação é que os símbolos e arquétipos onipresentes no imaginário humano encontraram correspondência na vida deste ser humano singular.

Pois os cristãos só assumiram os símbolos antigos na medida em que tinham relação com a Historia de sua fé. Tomando o Cristo como referência fizeram uma seleção e tudo quanto não trazia este sentido foi descartado...

Genial a resposta dada a essa gente pelo nosso Joaquim Nabuco: Toda vez que vocês demonstram que algo no Catolicismo é mais antigo do que ele, mais venerando, mais remoto e tomado a religião ancestral do paganismo, tanto mais me apego a esta religião que corresponde aos anseios mais remotos da humanidade.

Em seguida o catequista ateu lança esta maravilhosa pérola de grande quilate: Sem o antigo testamento de que o Cristianismo se apoderou o Cristianismo jamais teria existido.

Diante desta pérola gigantesca não temos como nos controlar e só nos resta exclamar: E há redundância brava aqui! Pois se nosso gênio já havia mencionado o Cristianismo na primeira parte do período a norma culta da nossa lingua determina o emprego de pronome pessoal 'Ele' quando se refere ao Cristianismo pela segunda vez. No entanto a alma bárbara que compôs esse enorme acervo de afirmações gratuitas e estapafúrdicas porfia em martirizar a 'flor do lácio inculta e bela' enquanto vai destilando seu veneno puramente ideológico.

Pois ao contrário do que propala o apóstolo San Harris ateísmo não sendo material, imediatamente acessível aos sentidos, perceptível e empírico é meramente ideológico e por isso mesmo lançado pelos verdadeiros céticos ou agnósticos no mesmo balaio que o teísmo e tido em conta de fé ou especulação. Não, não são os cristãos que dizem isto e nem mesmo os religiosos mas pensadores do quilate dum Huxley. E se como alega o sr Pirula 'Darwin chegou perto do ateísmo' é justamente porque não chegou ao ateísmo, como por estar perto da Catedral da Sé não estou nela, pois se estivesse nela não estaria perto...

Quanto ao Antigo Testamento a afirmação é veraz quanto as profecias alusivas a vinda ou manifestação futura de Jesus Cristo, tais como: Uma Virgem dará luz a um filho... ou Um menino nos nasceu, filho nos foi dado... ou ainda Cresceu diante de nos como pobre rebento... varão das dores, moído pelos sofrimentos, etc Evidentemente que os ateístas odeiam tais oráculos pelo simples fato de que apesar de terem gasto toneladas de tinta e papel, jamais conseguiram refuta-los sob qualquer perspectiva. Pelo que continuam convencendo muitos homens de valor.

Agora para além das ditas profecias a relação existente entre Evangelho ou Cristianismo e Antigo Testamento ou Tanak, ao contrario do que declaram Calvino e os reformadores protestantes, foi marcada pela criticidade e pela rejeição. Moisés vos ensinou... disse o Mestre amado, eu porem vos ensino... O que atraiu a cólera dos rabinos opressores e reacionários com sua gama de preconceitos, e determinou o assassinato do subversivo ou revolucionário galileu (cf  'Cristo, o maior dos anarquistas', por Anibal Vaz de Mello).

Pouco mais adiante, pois a obra prima sequer é paginada e o autor parece ignorar que sejam números, damos com a afirmação arbitraria de que Jesus não passara de um tipo ideal, noutras palavras de um mito sem direito a existência histórica concreta. Assim entre o nazareno e o Mikey Mouse ou o Peter Pan não haveria qualquer diferença significativa. Incrível como os ateístas se mostram tão acríticos e apegados a suas tradições podres quanto qualquer judeu ou protestante. Haja visto sua petição ao arcaico e ultrapassado E Bossi cuja filípica remonta a século e meio tendo sido refutada brilhantemente pelo Pe Senna Freitas dentre outros tantos... Mas nosso crente, confiando docilmente nos dogmas estabelecidos pelo sr Bossi, sequer folheou a obra de Senna Freitas ou mesmo - o que é infinitamente mais grave - as dos já citados pesquisadores e cientistas Vermes e Crosan duas 'bestas' que jamais se atreveram a postular seriamente a inexistência de Jesus.

A justiça no entanto obriga-nos a reconhecer que apesar da sujidade acumulada sobre esse monturo, há ali uma flor e flor odorífera.

Pois ao menos o autor, descrevendo Jesus como mero 'avatar da Filosofia grega' reconhece a decantada relação existente entre o Evangelho e a Filosofia helênica ou entre Cristianismo e Socratismo, reconhecida pelo insuspeito Nietzsche e enfatizada pelo eruditissimo Wener Jaeger na "Paideia Cristã e Paideia grega". 

Eis porque - segundo já citado Nietzsche - Jesus e Sócrates devem ser abatidos juntos, ademais o pensador de Silz Marie jamais acalentou duvidas sobre Cristianismo e Humanismo sobreviverem ou morrerem juntos. Paradoxalmente é este 'humanismo' florescente apenas naquele cristianismo 'paganizado' a que chamamos catolicismos, não no cristianismo judaizado e sectário i é no protestantismo, sempre infenso a nossa herança greco romana incorporada pelo primeiro.

Justamente por ter percebido esta correspondência entre a Filosofia grega, no que tinha de mais excelente - o socratismo e o aristotelismo - e o Catolicismo é que aderi a este e o tenho professado até hoje após ter descrido dos mitos do antigo testamento e rompido com o protestantismo.

A percepção de que a organização Cristã primitiva logrou realizar, ainda que precariamente - e nos referimos ao aparelho de serviço social criado pelo Império Bizantino no século IV ( com a Magnaura, jardins da infância, hospícios, escolas, hospitais, asilos, orfanatos, recolhimentos, leprosários, dispensários, etc ) o ideal de sociedade fraterna esboçado por Sócrates e Platão foi terminante para mim. Nenhuma ideologia - em termos puramente humanos - mais vigorosa do que a socrático/platônica/aristotélica, quiçá mais vigorosa entre os antigos no final da Era pré Cristã, do que o positivismo na segunda metade do século décimo nono, o marxismo na primeira metade do século vinte ou o pós modernismo em nossos dias.

E no entanto essa ideologia colossal não conseguiu preservar o mundo antigo da destruição.

Sossobraram os ideais pagãos de Sociedade humanista com a Sociedade que os gestou apesar de sua imensa popularidade.

Roma - então repositório de tudo quando havia sido acumulado pelo Ocidente desde os egípcios e sumérios - caiu fragosamente e com ela todo um projeto de Sociedade e ideário de vida elaborados pelas mentes mais brilhantes que o mundo conhecera.

A queda o Império romano, a crise e colapso da civilização antiga implicam reconhecer que Sócrates, Platão e Aristóteles não haviam sido capazes de reforma-la ou de sanea-la eticamente. Implica reconhecer que seus heroicos esforços falharam.

Agora se estamos bem informados e levamos em conta quais foram as culturas que substituíram aquele império e que fizeram com ele temos de nos perguntar por que raios ainda sabemos tanta coisa a respeito daquele mundo destruído, seu ideário de vida e projeto de sociedade???

Quem não souber que eram os bárbaros germânicos e que faziam as cidades romanas com suas pontes, aquedutos, templos, estátuas, bibliotecas, teatros, escolas, pinacotecas, estádios, etc o conteste; assim como quem ignorar ou não souber o que a primitiva jihad islâmica fez com os principais centros helenísticos do Oriente próximo... Dar-me-ei satisfeito com rememorar a destruição da Biblioteca de Skandaria, por Amru al ass valido do quarto califa Omma ibn Katib.

Ruínas fumegantes, destroços e cadáveres era tudo quando restava daqueles então florescentes espaços de cultura.

No entanto os nomes de milhares ( O Florilégio de Ihoannes Stobaeus apenas contem centenas deles) de personagens relacionados com a cultura clássica nos são conhecidos e digo mais, até detalhes de seus vidas e opiniões. Agora a quem se deve isto se os germânicos e muçulmanos nutriam total ojeriza para com aquele padrão cultural???

Teriam os guerreiros islâmicos e/ou teutônicos compilado e transmitido a posteridade a Eneida de Vírgilio, As vidas e doutrinas dos filosofos ilustres de Laertius, a Antigona de Sófocles, as Memoráveis de Xenofonte ou dos Diálogos de Platão???

É verdade que chegaram aos muçulmanos 'liberais' ou mutazilas que floresceram do século IX a XI desta Era, como no entanto haviam chegado a eles?

Será que Ésquilo, Aristóteles ou Sexto caíram dos céus nas mãos dos esclarecidos mutazilas???

Até onde esclarece-nos a crítica mais sólida tais escritos haviam sido tomados ao siríaco ou arameu. E vertidos a esta lingua - a partir da lingua original, o grego - por teólogos, clérigos e Bispos Ortodoxos, tanto malkaya ou bizantinos quanto assírios e siríacos. Já no Ocidente as memórias dos latinos como Cícero, Sêneca, Tácito, Lívio, Suetônio, Catulo, Estácio, Propércio, etc haviam sido compiladas primeiramente pelos monges escribas congregados por Cassiodoro em Vivarium, posteriormente, sob Columbano em Bobbio e por fim em Lidsfarne e outras abadias da distante Irlanda ao tempo de Scottus Eurigen. cf "Como a Irlanda salvou a cultura" Th Cahill

Como se vê quem salvou e preservou os fragmentos, vestígios ou elementos de Filosofia grega ou de civilização clássica que chegaram até nós foram os odiados monges Católicos. Foram eles que compilaram e transmitiram tais tesouros a posteridade. Agora se havia marcada oposição entre o conteúdo de tais obras e a fé Cristã por que raios o teriam feito???

O simples fato dos monges terem compilado e preservado tantos e tantos monumentos da Filosofia grega remete-nos mais uma vez a questão da afinidade.

Era Jesus de fato um 'avatar da Filosofia grega' mas vivo e real perdido nos confins obscuros e arenosos da judeia ou da Galileia. Podem os ateus explicar naturalmente este 'fato'? Não. Então já sabemos o que os leva a negar a existência de Jesus. Porque se trata dum homem póstumo ou extraordinário, subversivo ou revolucionário, emblemático e misterioso... Este eco de Sócrates e/ou Platão a expandir-se pelos ínvios desertos da Palestina é um desafio a crítica anti Cristã porque esta figura terá de ser no mínimo grandiosa ou não vulgar.

De fato um Jesus vulgar em termos de rabino acrítico, crédulo, topo e bem comportado é o que jamais existiu.

CONTINUA -