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quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Alturas e abismos do fascismo.

Outra tentativa ideológica sincrética elaborada na Europa, a partir de várias fontes, foi o odiado fascismo - De fasces ou feixe de graveto, símbolo da unidade social e do poder romano.

Importante conhece-lo muito bem aqui no Brasil onde a esquerda, sempre burra e alienada, classifica a teocracia capitalista - Made in EUA - bolsonárica, como fascista. Isto quando estamos diante de uma expressão derivada do americanismo. Aliás os nossos estooouuudiosos chegam inclusive a classificar Donald Trump, o calvinista, como fascista kkkkk como se seu ideário procedesse da Itália ou de Mussolini e não das tradições yankeess i é do protestantismo ou da bíblia.

A maçonaria, a imprensa, sei lá mais o que, sempre protegendo o protestantismo e o islamismo, ocultando suas m... E a esquerda pós moderna e irracionalista engolindo tais atrocidades. Ao menos neste Brasil, que Ch de Gaulle avaliou como não sério.

Vamos porém ao fascismo e sua elaboração.

Sob o aspecto da força ou da violência e do poder, e da política, o fascismo derivada curiosamente de G. Sorel, um anarquista irracionalista e sincrético idolatrado por Mussolini. Como Marx inverteu Hegel de ponta cabeça Mussolini inverteu Sorel na direção dos militares ou do 'establishment'

Veja que os militares jamais foram cobiçados pelos comunistas e menos ainda pelos a anarquistas. E que essas preferências ou rejeições tem uma razão de ser.

Tornaremos a esse interessante assunto neste artigo ou em sua continuação.

Outro colaborador (Indireto) foi Ch Maurras, idealizador da 'Ação francesa', escritor pouco conhecido em nossos dias, porém bastante atilado. Pois principiando por um nacionalismo um tanto ingênuo e tosco, chegou, em sua fase mais madura, a compreender algo sobre a dinâmica da cultura.

A exemplo de Comte ou a partir dele, chegou Ch Maurras a reconhecer o papel das crenças religiosas (Pode ter lido "A cidade antiga" de Fustel de Coullanges) na formação da Cultura (Víde: R Graves, H Butterfield, C Dawson dentre outros) e a perceber a oposição entre romanismo ou Ortodoxia e protestantismo no plano das estruturas sociais.

Como Comte, Maurras, apesar de deseja-lo, não tinha fé religiosa. E no entanto, aspirando firmar ou fortalecer a cultura europeia, frequentava a igreja e apoiava suas ações. Do que resultou sua excomunhão pelo papa romano.

Apesar do nacionalismo ingênuo e tosco, ao menos parte dos fascistas chegou a teorias ou concepções de talhe mais ou menos culturalista. O que encaramos como um valor significativo em tempos de resistência ao relativismo cultural. Por pior que seja, um fascista jamais se associaria a jihadistas islâmicos na Europa, mesmo quando no Brasil, sempre por via do moralismo insípido, parte deles apoie a hidra bolsonarista (Derivada de uma cultura exógena e protestante!). O que significa que parte dos nossos fascistas também é burra... Aliás é o mesmo caso dos neo romanistas ecumênicos traidores da fé face a mesma impiedade.

Repito, a correta compreensão da cultura será sempre um valor.

Quanto a questão da economia, sinto ir na contra corrente e contrariar a opinião pública (Burra). A ser Mussolini ex socialista ou leitor de Marx, o fascismo sempre desconfiou do liberalismo econômico e vice versa. De modo que com grande custo chegaram a uma solução de compromisso um tanto grotesca. Forçoso dizer: Se o fascismo jamais aceitou as reivindicações do mercado em termos de liberalismo crasso, pondo-lhe limites e exercendo uma interferência ativa, temos de considera-lo, no mínimo, como a tão falava terceira via ou mesmo como um socialismo heterodoxo e 'suave' - Classifica-lo como capitalista reflete uma atrocidade do espírito.

Vamos lá.

Notória a insistência do fascismo em torno da unidade social, da concórdia, da harmonia... E sua oposição ao conflito, tolerado, senão estimulado, pelo liberalismo econômico. Como resultado esperavam eles a paz. 

E todavia, a parte que deveria ceder jamais cede de bom grado, mas, como é sabido, reivindica sempre mais e mais lucro. Enquanto que a outra parte, quando faltar-lhe o essencial  ou o pão (Como dizia Frederico Ozanam) será levada a lutar. Diante disto, deste beco sem saída, que fazer...

Face a essa antinomia ou oposição insolúvel concebeu o fascismo, o poder político ou o Estado, como um terceiro poder ou árbitro neutro, destinado a mediar as relações entre o mercado e a mão de obra i é entre a burguesia/patronato e o proletariado. A sugestão aqui é que o poder político estivesse acima do poder econômico e que não fosse dominado por ele. O que, para os comunistas e anarquistas, não faz sentido algum - Desde que a partir do século XVII o poder econômico foi, numa escalada cada vez maior, tomando as regras do poder político ou apropriando-se dele e convertendo-o em instrumento seu.

O quanto percebemos aqui é que o fascismo, tal e qual o anarquismo, voltou os olhos para o pesado, aderindo a contra corrente do processo histórico. E o modelo aqui parece ser a Itália medieval de um S Antônio de Pádua, na qual a igreja, com o suporte do Estado, julgava ou determinava os limites da ação econômica, condenando inclusive a usura.

Agora implica esta solução um problema (Ao menos em 2025) pois apesar da resistência exercida, não apenas por comunistas, mas muitas vezes por anglo católicos, romanistas, ortodoxos, humanistas e conservadores (Quem reconhece o mérito dessa resistência são k Polanyi e Hobsbawm) o capitalismo acabou por assumir o controle do Estado ou do poder político. 

É algo que deixo para os fascistas resolverem. Pois em 2025 não constato a existência de um setor neutro ou não cooptado pelo poder do dinheiro. E não faço exceção nem mesmo a nossas igrejas apostólica, mantidas pelas esmolas dos empresários ou das viúvas/beatas ricas, como já apontava G B Shaw há mais de século. Concordo todavia quanto ao passado, i é, o século XIV ou XV e quanto ao modelo, não porém quanto o que temos hoje.

Atualmente os bancos e indústrias comprariam qualquer governo, como por meio do lobby, manipulam nossos parlamentos. Vivemos hoje no império da venalidade e da corrupção, no qual os pobres não contam com proteção alguma. Sendo assim deveríamos começar indagando a nós mesmos: Quando desapossaremos a Elite econômica do poder politico, criando a tal estância neutra.

Do contrário continuaremos a ser neo liberais...

Continua 

Conheça também os demais artigos da série 'Culturas de morte': 


  • Americanismo
  • Conservadorismo 
  • Positivismo
  • Anarquismo
  • Protestantismo
  • Capitalismo
  • Comunismo
  • Pós Modernismo
  • Sionismo 
  • etc


sexta-feira, 6 de março de 2020

Em tempo de coronavirus - Opção pelo homem ou pelo Mercado?

Vezo nosso criticar os medievais e os antigos... e endeusar, em tudo, o nosso tempo i é a 'Civilização', sob diversos aspectos, já o dissemos 'sifilização' em vias de colapso.

De fato os medievos e os antigos não tinham nem conhecimentos nem tecnologia médica capaz de fazer frente a vírus, bactérias e demais agentes patógenos como temos nós.

Mas é bastante provável que tivessem mais caráter, prudência ou mesmo respeito pela vida humana. Podiam achar belos os combates entre homenzarrões portando achas, machados, espadas e lanças. mas não achavam tão belo assistir idosos, crianças, mulheres e mesmo animais tombando vitimados pela peste... Tinham uma salutar medo da peste. Ao menos isto...

O homem de homem possui conhecimento e tecnologia capazes de elaborar uma vacina em menos de seis meses.

No entanto temos de considerar esses seis meses. Durante os quais o coronavírus bem pode espalhar-se e ceifar número considerável de vidas, especialmente entre idosos e vulneráveis i é pessoas cuja imunidade esteja baixa.

Temos sobretudo de ponderar que nos EUA estão faltando kits para testes. E que na Itália - país que conta com um bom serviço público de saúde - faltam aparelhos respiratórios... Temos de ponderar isto e de questionar se o SUS do Brasil esta preparado pra enfrentar uma pandemia... ou mesmo se a estrutura da saúde nacional - Incluindo orgs privadas - esta a altura deste desafio.

Alias estamos falando de mundo.

E então temos de pensar que há países e grupos bem mais vulneráveis do que o Brasil. Que dizer de Guatemala, Belize, Equador, Bolívia, Guianas, Gabão, Nigéria, Sudão, Myamar, etc, etc, etc de culturas e tribos africanas, asiáticas e ameríndias???

Não sou nem um pouco inclinado a conspiracionismos.  Porém o fato de tantos países terem notificado os primeiros casos da doença no dia seguinte ao Carnaval me parece muito mas muito estranho... Será que não esta havendo má vontade quanto as vidas humanas?

Tudo quanto quero dizer é que com todos os infinitos defeitos que a modernidade folga atribuir-lhes, aqueles receosos medievos muito provavelmente fechariam as fronteiras das cidades e feudos ao primeiro sinal da doença. Não eu não penso que eles hesitariam ou demorariam muito caso soubessem como se dá o contágio.

Nós sabemos. Nossos políticos... Nossos líderes. Eles sabem muito bem como o vírus se propaga em 'proporção geométrica' e como é 'distribuído' por pessoas que não sentem quaisquer sintomas... Ele gira assintomaticamente...

E mesmo assim a maravilhosa ONU, dois meses depois... Não decreta estado de pandemia. Do que resultaria um controle mais rígido em torno das fronteiras ou viagens internacionais e dos eventos que, a exemplo do Carnaval, envolvem aglomerações... Excursões distrativas por exemplo seriam desestimuladas ou mesmo proibidas, assim quaisquer eventos capazes de congregar multidões. Se tal já não é capaz de tratar a disseminação do vírus por incúria, ao menos, será capaz de diminuir o ritmo do contágio e de poupar muitas vidas, até que a vacina seja produzida.

Tenho certeza de que qualquer povo antigo ou primitivo em posse do conhecimento que temos já teria tomado todas as providências práticas e cabíveis no sentido de evitar a propagação deste flagelo.

Nossos governos porém, e a ONU, estão agindo levianamente i é a passo de lesma ou tartaruga. Com o desperdício de vidas humanas, quiçá pensando que sejam apenas velhos ou mesmo que a pandemia possa remediar o excesso de população mundial. Dando cabo dela pura e simplesmente... Sim há quem veja nas guerras e epidemias uma forma da 'natureza' controlar a superpopulação... ou mesmo de beneficiar os mais 'aptos'. Sim, há psicopatas chamamos darwinistas sociais.

Assim a pergunta que não quer calar é simples: Por que estão dizendo para as pessoas não se alarmarem se a letalidade da doença chega a 15% entre os idosos e vulneráveis??? Acaso eles não são pessoas ou cidadãos com os quais a sociedade deva preocupar-se??? Será que os 3% de cidadãos 'mortos' nada conta ou significa??? Enfim por que a ONU e os diversos governos ainda não tomaram as medidas necessárias para evitar eficazmente esta praga??? Por que estão a omitir-se quando qualquer sumeriano ou medievo agiria, tomando as medidas corretas, alias bastante simples - Impedir aglomerações e restringir a circulação de pessoas pelo mundo??? Sim, falo em restringir o turismo!

Talvez os noticiários de TV possam auxiliar-nos a compreender o que esta acontecendo conosco e quais sejam os fundamentos arenosos da nossa 'silifização', uma 'sifilização' que sacrifica o homem, simplesmente por não prioriza-lo.

Já perceberam que os articulistas e jornalistas falam vinte minutos sobre o coronavírus e outros tantos vinte minutos ou mais sobre o Mercado, a Economia, as Finanças, a Bolsa, Investimentos, Crise, etc??? Já notaram a insistência mórbida a respeito??? Isto é a crise humana e já a vivenciamos... Eis a profunda crise porque passamos justamente por igualar ou sobrepor o econômico ao humano. Chama-se materialismo ou economicismo, e estamos mergulhados até os pescoços nesse lodo ou nessa lama.

Por que não paramos de emitir gazes poluentes e de acentuar o aquecimento global???
Por que não cessamos de desmatar ou de massacrar a vida animal???
Por que sujamos o Planeta???
Por que ainda não controlamos a densidade populacional duzentos anos após Malthus???
Por que brincamos com a natureza e seus recursos???
Por que ainda nos recusamos a ouvir J S Mill e seu discurso sobre a economia estacionária???
Por que ainda acreditamos num progresso infinito e ilimitado num sistema finito???
Por que ainda adormecemos embalados pela cantilena de Condorcet???

POR QUE NÃO BRECAMOS OU DIMINUÍMOS O RITMO DE PROPAGAÇÃO DO CORONAVÍRUS???

POR QUE A ONU AINDA NÃO DECRETOU PANDEMIA???

POR QUE NÃO ADMITEM O FECHAMENTO DAS FRONTEIRAS E IMPEDEM A REUNIÃO DE MULTIDÕES???

Qual o verdadeiro e real motivo da nova peste não estar sendo levada a sério???

Quem serão os prejudicados?

Sinto muito pelos liberais economicistas sabichões mas tenho de registrar mais esta na conta do capitalismo!

Pois a questão dos eventos e das viagens é apenas questão de consumo e turismo, assim de lucro, de capital, de dinheiro, de economia ou de finanças - Apenas isto.

Não se restringe a circulação ou a reunião de pessoas porque diminui os lucros e ameaça a economia - Somente isto.

Não se tomam as providências cabíveis porque as necessidades do Mercado foram colocadas - Já há uns quatrocentos anos! - acima das vidas humanas e do bem estar humano.

É para preservar o ritmo da economia e salva-la de uma possível crise que nada ou pouco se faz! É pelas bolsas de valores...

Mesmo porque, caso a epidemia se alastre ou propague os milionários sempre poderão embarcar em seus jatinhos rumo a países mais 'limpos' ou seguros ou pagar por um tratamento de ponta. Poderão pagar internação no Albert Einstein ou no Samaritano quando não puderem migrar para a Suíça ou para a Bélgica... Terão acesso aos melhores médicos e terapias e certamente serão os primeiros a obterem as vacinas. Por isso não estão receosos pela própria saúde e muito menos pela sua ou pela minha. Por isso eles só se importam com a Bolsa, com o Mercado ou com seus lucros astronômicos.

O mais patético é que comprando os políticos ou 'representantes do povo' eles ditam a política em diversos países (Como EUA e Brasil) ou mesmo na ONU... Tal a força política do poder econômico!

E com isto vão anestesiando o povo - Dizendo: Não se preocupem, enquanto os avós vão morrendo! - e deixando de fazer o que deveria ser feito... E assim se arrasta a pobre humanidade: Brincando com pandemias que podem fugir a todo controle e aniquilar grande parte da humanidade!

Cessem portanto de falar em trevas medievais quando a verdadeira treva esta bem aqui, diante de nossos narizes!

quinta-feira, 5 de março de 2020

Nem a extrema esquerda nem o Brasil paralelo - Quando os extremos fogem a realidade e criam ideologias.

Não é segredo para ninguém que essa extrema esquerda que adora posar de 'crítica' - Assim Comunistas e Anarquistas de modo geral... tem posto guela abaixo, sorvido e até se deliciado com diversos equívocos históricos, mitos, fábulas e preconceitos toscos que os liberais ou iluministas tomaram a reforma protestante. Os reformadores por pura malícia ou ignorância inventaram, os liberais ou ilumistas absorveram e nossa esquerda radical transformou em dogmas indiscutíveis.

A questão aqui é que nem os reformadores nem os iluministas negavam ser dogmáticos... enquanto que os contemporâneos posam de críticos ou de emancipados, enquanto continuam repetindo as mesmas tolices inventadas a cinco séculos atrás.

Momento de crise devido a desagregação do Império romano e as incursões tanto nórdicas quanto islâmicas, foi a Idade Média, para o contesto da Europa ou do Ocidente, um momento de crise ou uma fase negativa, ao menos em parte - Assim a alta Idade Média. A baixa Idade Média foi já um momento de recuperação, alias culturalmente tão rico quanto complexo. De modo que não existe UMA Idade média - Como jamais existiu UM Renascimento, UMA Reforma, UMA Revolução francesa, etc - mas no mínimo duas. Uma bastante caótica, outra tanto mais organizada e consolidada.

Quando o protestantismo fez sua aparição, por obra e graça do sr Lutero lá mas Alemanhas os mesmos reformadores que classificaram o papismo ou a igreja de Roma como uma corrupção ou apostasia e seu próprio movimento como um feliz retorno só podiam avaliar socialmente o período anterior a sua querida reforma, associado quer ao catolicismo antigo ou ao papismo, como algo negativo, corrupto, maléfico, atrasado, etc Acontece que totalmente ignorantes em matéria de História e Sociologia, os reformadores e seus discípulos foram adiante, e partindo de uma monocausalidade ingênua, atribuíram todos os males da Alta Idade Média a Igreja romana ou ao papado. Que o papado tenha causado sérios distúrbios na Itália e alguns outros na Europa é indiscutível... Que tenha sido responsável por todos os problemas do tempo é proposição tão estúpida que faria tanto Marx quanto Weber emitirem sonoras gargalhadas!

É ignorar o significado já do colapso do Império romano já o aspecto das culturas - Germânica e islâmica - que circundavam aquele espaço, assediando-o e ameaçando-o.

Os que avançaram no sentido protestante, a exemplo do grande Gibbon - culpabilizaram o Cristianismo como um todo, a começar pelos apóstolos, mártires e pelo Catolicismo antigo, arrestando inclusive Jesus. Já escrevemos muito sobre o Cristianismo antigo em relação a queda do Império romano... Não é este o foco agora. O foco agora é a cultura antiga i é greco romano, e sua destinação futura. Que espaçou a aniquilação, que restou e porque restou... No Ocidente foram os monges irlandeses que preservaram grande parte do que temos. No Egito foram os monges Coptas que conservaram os restos da magnífica Biblioteca que o muçulmano Amru Al Ass mandou incinerar. No Oriente médio foram os monges e clérigos assírios e siríacos que puseram a cultura greco romana nas mãos dos Mutazilas! Em todos os lugares do mundo antigo foi a elite Cristã ou Católica, os Bispos, clérigos e monges que dedicaram suas vidas a copiar antigos manuscritos gregos e a salva-los da grande conflagração. Não, não puderam salvar tudo, e temos até muito pouco. No entanto o imenso tesouro que temos transmitido foi por eles. Não por Lutero e seus amiguinhos... Falo como admirador confesso da cultura clássica e demonstro minha gratidão para com esses elementos da Igreja antiga, ou da Grande Igreja, como costumava dizer Ernesto Renan. Sempre que leio Tácito ou Suetônio, Ésquilo ou Eurípedes, Fedro ou Êsopo, Epicteto ou Sêneca, recordo-me deles e de seus 'scriptoriuns' (sic).

Isso que sobrou foi vital para a recomposição e superação da Alta Idade Média. O que a antiguidade Cristã copiou lá ficou guardado nesses imensos armazéns de cultura antiga chamados mosteiros até os Renascimentos literário e Filosófico... Esperando pelos herdeiros ou sucessores, como Petrarca, Valla ou Angelo Mai.

Mas chega de eruditismo medieval. Há que se ler Ganchoff, Marc Bloch e após eles Le Goff, Dubois, Bede Jarreth, etc A bibliografia é imensa. E demonstra quanto a alcunha 'Idade das trevas' além de maniqueísta é forçada, enquanto produto da mente protestante fanatizada. Vá a Escócia e contemple - quem convida é Kenneth Clark - os restos desmantelados das janelas das grandes catedrais, com seus 'bordados' em pedra, destruídos ou vandalizados pelos emancipados reformadores. Claro que os vitrais você jamais poderá contemplar... Adivinhe por que???

Afinal os liberais e modernos digeriram também a 'Lenda negra' a respeito da colonização da América Latina, especialmente da hispânica. A versão corre até hoje lá nos EUA terra do Faroeste e do escalpo, após ter feito imenso sucesso na Inglaterra. Não estamos dizendo nem querendo dizer que não houveram conflitos entre colonizadores e povos indígenas ou que estes não tenham sido eliminados em diversas situações - Não sempre ou em todas!. Sabido é que os primeiro grupo de colonos estabelecido por Colombo em Ganahany era composto por indivíduos bastante brutais, a ponto de cometerem estupros e assassinatos; e é claro de terem sido eliminados e degustados pelos naturais...  Por outro lado, não menos inconsistente é o mito do bom indígena... Claro que os indígenas estavam defendo sua posição, assim a que era justa. Nem por isso o canibalismo havia sido inventado pelos conquistadores! Sua existência está já suficientemente demonstrada, inclusive quanto as Antilhas... E se os Maias ficam horrorizados sempre que seus ancestrais são apresentados como comedores de gente, agradeçam a padralhada... Pois lá estão os painéis de Bonampak...

O problema aqui é apresentar os europeus, sejam espanhóis ou portugueses, em sua totalidade ou mesmo significativa maioria, como movidos pelo lucro sórdido e sede de sangue. E Isto é o cerne da lenda negra, o qual desfigura todo um grupo humano... Apresentar todo colonizador como um assassino ou rapinante é desfigurar a História. Apesar das tintas com que Las Casas pinta ou descreve a situação a seu tempo não havia um único Las Casa no Novo Mundo... Mas alguns outros, todos movidos por sentimentos religiosos de grande nobreza ou pelo que hoje chamamos de Ética. E mesmo na Espanha havia deles, como o grande Vitória, patrono dos 'Direitos humanos', e Soto, Banez, Cano... os quais afirmaram em alto e bom som o direito dos naturais a vida, a justiça e mesmo a liberdade. Graças a influência deles a condição descrita por Las Casas foi bastante aliviada pela própria coroa. Disto resultando a preservação de um número considerável de vidas e a consequente mistura ou miscigenação, corrente do México ao Paraguai. Em todo este território as concentrações urbanas são majoritariamente formadas por mestiços, havendo grandes bolsões de povos indígenas no Interland, seja o da Guatemala, o do Equador ou o do Brasil. A única exceção diz respeito ao extremo Sul da América Latina, jamais densamente povoado por povos de culturas bem mais primitivas, estes aniquilados a partir dos 800... Num contesto ideológico bem distinto em que entram oligarcas, políticos 'liberais', caçadores Yankees, ingleses e alemães, etc

O que a esquerda radical aprecia afirmar a respeito da colonização do Brasil é exatamente isto, que português é sinônimo de bandido, criminoso, rapinante, assassino, estuprador; enfim de homem sem coração, alma ou consciência. O que aconteceu por aqui foi uma invasão seguida por uma guerra aberta e continua contra os naturais, até que fossem completamente aniquilados - Apesar dos traços característicos da maior parte da população brasileira, os quais apontam para a mistura ou miscigenação. Não entra aqui o caso da cultura, a qual tem dinâmica própria. Aqui falamos em vidas e pessoas. Insisto, houveram conflitos e mortos numa proporção que não podemos verificar e em que é demasiado difícil oferecer dados com precisão matemática. Não porém uma aniquilação de pessoas como nos EUA, sociedade em que não há traços de miscigenação ou sinais de presença indígena significativa após o genocídio realizado no século XIX!!! I é em plena Era da Civilização e dos direitos humanos...

Apesar disto para a extrema esquerda é bem isso: Todos os colonizadores eram invasores movidos pelo lucro sórdido, tal e qual os nossos capitalistas e empresários de hoje. Pessoas degeneradas, más, sem escrúpulos e dispostas a praticamente tudo. Tal e reedição da lenda negra criada pelos protestantes Ingleses, endossada é claro pelos Norte Americanos e divulgada pelos anglo saxões liberais ou iluministas... Observem o roteiro ideológico da 'coisa' e avaliem... Mas fica sendo certo porque se quer...

Aqui um extremo. Vamos agora ao outro...

Camões, o insigne Épico e poeta maior de nossa lingua amiúde descreve os portugueses em demanda do Oriente como heróis da fé e paladinos da Civilização, posto que lá iam para deslocar os infiéis, que há muito ameaçavam a Civilização com sua Jihad... É o poeta, todo poeta, homem idealista, que por vezes perde o sentido da realidade. Ademais o poeta fixa sua atenção sobre o belo e o heroico e não sobre o vil e corriqueiro. Camões todavia mostra ter pés no chão sempre que vincula parte dos marinheiros, ou melhor, comandantes e coroa, ao desejo de mercadejar com os indianos e de, adquirindo especiarias, multiplicar os maravedis. Não era apenas uma cruzada composta por santos ou homens de fé, mas também uma empresa comercial, destinada a obter lucros ou benefícios financeiros.

A versão ingênua e ufanista - Por isso Ideológica - do 'Brasil paralelo' ignora ou parece ignorar este aspecto ou a complexidade das intencionalidades envolvida nas grandes navegações - E assim na colonização do Brasil - supondo que todos ou ao menos que a imensa maioria fosse formada por intrépidos marujos, movidos apenas pela fé na Cruz, no Abençoado Redentor e na Virgem. Tudo quanto movia tais heróis seria a fé Cristã ou 'católica' (Leia-se romana). E tudo não passou duma epopéia de fé... Temos esta visão como igualmente forçada e fora da realidade.

Sim, certamente houve, durante todo este processo e especialmente em seus primeiros passos - No século XV - a aspiração religiosa de atingir a Meca ou a Arábia pela volta da África e bombarde-la, deslocando a atenção do Império Turco, que então assolava o Leste Sudeste europeu e avançava para o Norte. Não poucos nobres portugueses, presos a época e mentalidade das Cruzadas ocidentais - A empresa sem fim! - cuidavam atacar o islã em seu coração e desestabiliza-lo. Todavia o contato com os navegadores e negociantes italianos, fossem de Genova, Pizza ou Veneza, bastou para desviar a vontade de boa parte destes homens para o setor do lucro ou das finanças, apontando para o comércio dos temperos... A princípio os portugueses ou melhor a coroa, buscou associar os dois interesses, com o passar do tempo porém diversas mentes foram dominadas pelas necessidades e aspirações meramente econômicas, isto ao tempo em que foi descoberto o Brasil.

Desde então as necessidades e aspirações econômicas não cessaram de colidir com as aspirações religiosas ou éticas, colidindo com elas e eliminando-as inclusive. De modo que mais e mais, na medida em que o liberalismo econômico afirmava-se pela Europa pós reformista, a intencionalidade de nossos ancestrais foi assumindo um aspecto cada vez mais material ou financeiro responsável pela maior parte das tragédias ou desgraças que acometeram este nascente país - Roubos, sequestros, servidões, assassinatos, massacres, estupros, traições, etc de que temos exemplo no massacre dos tupis lá na Bahia e enfim o Capão da Traição, a destruição de Guaíra e de inúmeras missões Jesuíticas, etc Até que no século XVIII não era mais o grosso dos homens (Até então matriculados nas fileiras da companhia ou do seráfico padre.) atraído pela 'redenção das almas' ou pela catequese, mas pelo ouro e pelas pedrarias das Minas. Sim e lá nas Minas também se ergueram inúmeras igrejas, enquanto os negros e índios era forçados, a toque de chibata, a escavar as entranhas da mãe terra e enriquecer os outros. E tudo ali era já roubo e sangue... De modo que aquele heroísmo do infante D Henrique corrompeu-se e perdeu-se para sempre, e nada pode recupera-lo.

Quando o Brasil foi descoberto e colonizado já achavam-se em conflito ambos os sentidos, o religioso, legado por D Henrique e o financeiro, que predominou e chegou a ser materialismo. Nos séculos XVII apenas os Jesuítas, certo número de religiosos regulares e alguns leigos piedosos, incorporavam as virtudes do Cristianismo. Em meio a considerável número de degredados, desertores e piratas, de cuja cepa, em S Paulo, surgiu o mameluco, preador e escravizador de índios, logo chamado bandeirante. Ora este bandeirante, em seu furor assassino, não tardou a atacar aqueles que haviam fundado a Vila de S Paulo i é os Jesuítas, e a expulsa-los... E é o quanto basta para revelar a dinâmica desta História abreviada, resumida ou distorcida pelo tal Brasil paralelo.

Nada mais absurdo do que buscar uma monocausalidade intencional em eventos tão complexos como as grandes navegações ou o processo civilizatório do Brasil. Aqui e ali em diferentes tempos havia diferentes níveis seja de inspiração ou fé religiosa seja de motivação econômica, os quais frequentemente chegaram a entrelaçar-se, claro que em detrimento da fé e da Ética... Aqui o velho refrão 'Nem oito nem oitenta' deve refletir com exatidão esta realidade.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Notulas sobre o pensamento medieval

- Após as invasões germano/árabes, as simples escolas e instituições educativas clássicas desapareceram. Que dizer então de uma Filosofia agonizante? Doravante a reflexão Filosófica será posta a serviço da Teologia Católica ou Ortodoxa, enquanto tentativa de se compreender racionalmente os elementos da fé Cristã. Enquanto atividade autônoma, iniciada mil anos antes pelos gregos a Filosofia chega ao fim.

- Julgo jamais ter existido uma Filosofia escolástica. No entanto diversos problemas de ordem filosófica foram postos e examinados no contesto da Teologia escolástica, sem que a profundidade da reflexão ficasse comprometida.

- O primeiro teólogo Cristão a servir se largamente da Filosofia clássica foi S Clemente de Alexandria, a quem devemos a transcrição de cerca de trezentos fragmentos clássicos, doutro modo perdidos. Seu exemplo foi seguido por Orígenes, famoso escolarca alexandrino, por Eusébio de Cesárea e outros, até S João Damasceno, primeiro expositor a fazer uso de Aristóteles e guia, por assim dizer de Tomás de Aquino.

- Parte dos cristãos ocidentais ou latinos, mais afeitos a gramática ou a arte retórica bem como as instituições do direito romano, chegou a nutrir sérios preconceitos contra o manejo da Filosofia pelos crentes, do que temis exemplo no 'anti teológico' Tertuliano.

- A principio Agostinho assimilou o pensamento Oriental, chegando a compor uma obra contra os académicos, há muito comprometidos com o ceticismo. Posteriormente no entanto, toda sua concepção de mundo é sua teologia foram afetadas pela queda do Império Romano ou pela Invasão de Roma por Alarico. Desde então assumiu ele uma posição maniqueísta, deturpando o conceito de pecado ancestral, negando o livre arbítrio, afirmando a predestinação e construindo um sistema próprio chamado agostinianismo ou grafismo o qual serviu de base ao luteranismo e ao protestantismo de modo geral. Tal sistema é pessimista da antropologia a epistemologia, havendo alguma evidência disto ja nas Confissões. Com efeito está a Agostinho nas bases de - Al Achari, Al Gasali, Ockhan, Lutero, Montaigne, Jansenio, Pascal, dos 'tradicionalistas', de grande parte dos neo conservadores e de outros tantos irracionalistas.

- Devemos ao Cristianismo histórico, Católico, Ortodoxo, tradicional ou episcopal, em termos de literatura a conservação de parte significativa da produção clássica compilada pelos monges da Assíria a Irlanda. Em termos de Ética a retomada ou conservação do ideário humanista/reformista proposto por Sócrates e Platão, o que foi constatado tanto por um Nietzsche quanto por um Werner Jaeger. Em termos de gnoseologia realista um certo apego  velha tradição aristotélica bem como a metafísica grega tradicional. É o quanto nos liga ao mundo antigo, enquanto elemento de continuidade. Neste sentido a Igreja histórica ou antiga é como que um cordão umbilical que ainda nos liga a Cultura clássica.

- O falacioso conceito agostiniano de pecado original, com toda sua carga de pessimismo, remete nos a queda ou a morte do Homem grego romano enquanto ideal/padrão posto pela cultura, assim ao trauma ou impacto produzido por esta queda. A falência dos projetos Socrático e Aristotélica, ao cabo de quase mil anos, não podiam deixar de repercutir no ideário dos Cristãos iletrados do Ocidente produzindo um paradigma negativo.

- Não poderia nem pode o islã produzir qualquer contribuição ao pensamento Filosófico. No entanto, a princípio - Tal e qual os judeus a partir de Aristóbulo e Filon - Continuados no decorrer da Idade Média por Avicebrom e Maimonida - e os já citados padres Cristãos - não podiam os muçulmanos, instalados na orla do Mediterrâneo ou nos domínios do Império Persa, permanecer impermeáveis ao patrimônio cultural clássico. Ali instalados quase que de pronto foi o pensamento Filosófico introduzido por convertidos Cristãos (Ou mesmo por clérigos Assírios, Siríacos, Coptas e Bizantinos) ou Zoroastrianos resultando em duas vertentes rivais: A Mutakallim ou Alh al Kalãm e a Mutazila. A primeira, representada por Al Isfaraini 'Ostad' fazia uso da Filosofia com o objetivo de compreender ou justificar o sentido tradicional dos elementos da fé. A segunda, representada por Ibn Ubayd e pelo próprio Averróis (Ibn Rodh), adotou um posicionamento mais crítico, buscando soluções de compromisso bastante ousadas.

Ao cabo de três séculos foi a Mutazila condenada pelos líderes religiosos e teólogos ortodoxos do islã como uma contaminação ou poluição grega e classificada como heresia. Por fim no século XI, Al Achari e Gazali, usando de material grego fornecido pelo ceticismo ou pelo agostinianismo - E antecipando Ockhan, Lutero e Kant - atacaram já a percepção, já a razão em benefício da fé cega, assim dos livros e profetas. O que se seguiu após eles foi uma inquisição feroz... O remanescente dos Mutazilas refugiou-se em Al Andaluz junto aos últimos Umayas, onde em pouco tempo veio a extinguir-se cedendo espaço a estreita ortodoxia sunita. E como diz Reilly o pensamento racional e livre jamais tornou a renascer no seio do Islã, prova de que era de fato um elemento exógeno, em oposição a cultura árabe ou semita. Possivelmente Averróis foi o único Filósofo situado no contesto islâmico.

- A Teologia escolástica de modo geral não sufocou o exercício Filosófico, antes estimulou o mesmo quando o fazia convergir para outro fim e o subordinada à outra área do saber. Penso na Escolástica como um período de gestação ou ventre, em que foi gestada a Filofosia moderna, novamente senhora de si.  O próprio Descartes não foi capaz de romper por completo com esta tradição, embora como Filósofo da Natureza ou epistemologo científico buscasse já por um.novo critério ou padrão.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

A doutrina social e os equívocos da Igreja Romana - A grandeza e a miséria do Social Catolicismo.

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Há coisa de dois ou três anos, tendo visitado um grande amigo meu, Comunista, não apenas de boca, mas conhecedor profundo daquela Ideologia e homem de imenso saber  - Poliglota, polímata, etc a conversa tocou na D S I, i é, na doutrina social da Igreja romana ou no Social Catolicismo. Principiou meu amigo e oponente dizendo que se tratava duma bela construção teórica ou uma bela proposta, porém, letra morta desprovida de um maior significado, uma vez que a própria organização que a concebera ou idealizara, na prática, parecia não leva-la a serio, pelo simples fato de pouco ou nada fazer no sentido de ve-la realizada ou concretizada. A impressão, segundo ele, era que a própria igreja romana não dava o devido valor a essa doutrina, ostentando-a como uma espécie de enfeite.

Ao calor da discussão tomei semelhante acusação por injusta...

Agora, passados tantos anos, ouso fazer 'Mea culpa' e reconhecer sua legitimidade.

Afinal, dispostos os meios, a mesma Sociedade que enfrentou heroicamente a máquina do Império Romano e que por tanto tempo enfrentou e conteve a jihad islâmica, ao menos por uma vez salvando o mundo Ocidental (Com seu tesouro de cultura Greco Romana) - pelo que merece nossa gratidão - bem poderia ter conjurado o espectro nefando do Capitalismo ou do liberalismo econômico enquanto expressão economicista subsidiária do materialismo e classificada pela Ética Cristã tradicional como sórdida avareza... Se bem que estivesse já essa Sociedade enfraquecida pelo advento do Protestantismo (Aqui o atenuante ignorado por meu bom amigo comunista).

No entanto é patente que a igreja romana cometeu dois colossais equívocos, um no Concílio de Trento, por aproximar-se doutrinalmente do protestantismo através  do agostinianismo (Jamais existiu qualquer contra Reforma exceto enquanto tentativa feita na França pelo Duque de Guise, mas assimilação de elementos protestantes como a teologia agostiniano da graça). 0 que por nós foi exposto em inúmeras dissertações teológicas.

O outro equívoco diz respeito ao Liberalismo Econômico ou Capitalismo e demais liberalismos emergentes... Vamos, arqueologicamente, tentar traçar esta História tão confusa.

O primeiro erro da igreja papa foi misturar ou confundir os Liberalismos criando um rótulo - vazio e absurdo: Liberalismo (No singular). Jamais existiu algo como um liberalismo exceto do ponto de vista da cultura protestante a qual batizou o liberalismo econômico tentando Cristianizar suas pretensões essencialmente anti Cristãs... Existiram sim diversos liberalismos (Uma pluralidade), de vária cepa e muito mal relacionados entre si, isto a ponto de podermos falar não apenas em tensão, mas em verdadeiro conflito, a que foge somente a cultura protestante americanista, na qual o elemento humano é esmagado e a dimensão Ética da vida negada ou minimizada. O anti humanismo de mercado é filho primogênito do anti humanismo protestante ou bíblico (Vetero testamentário).

Um é o L moral, outro o religioso, outro o Político, outro o econômico... Basta dizer que a mancebia entre o capitalismo e as ditaduras é bastante conhecida. Quando o L econômico é ameaçado por qualquer reforma democrática ou popular (ainda que rara) o L Político sai pela porta dos fundos ou é sacrificado.

Em que pese a tristeza, a justiça obriga-nos conceder que a igreja romana, exaurida pela luta contra as seitas protestantes não soube compreende (Como ainda hoje os Catolicismos não querem compreender - E por isto perecem!) a dinâmica da Cultura e o significado do Capitalismo emergente. E o resultado disto, o último resultado será já o Concílio do Vaticano II, já este tradicionalismo espúrio permeado pela cultura alienígena... E quando deu por si o inimigo oculto já havia ultrapassado as fronteiras, atravessado as muralhas e transformado em escombros esta cidade de Cristo, que ora tentamos reconstruir, ao menos teoricamente - De modo a iluminar e a inspirar as gerações futuras. Nós somos semeadores de novos mundos, em parte espelhados no passado... A Igreja de modo geral negociou. Imolou sua cultura, seu éthos, seu espírito imortal e assimilou uma cultura que jamais foi sua. O desastre da assimilação da adoração protestante e do sistema econômico capitalista pela Igreja romana, começou bem lá atrás, em Trento, com a falsa contra reforma, a qual não passou de assimilação. Primeiro a igreja Latina assimilou a fé protestante ou agostiniana a respeito da graça e em seguida a cultura e o padrão econômico produzidos pela HERESIA SOLIFIDEISTA. Tudo quanto ora vemos é um abandono do mundo e a derrocada (Aparente) da ENCARNAÇÃO. Não temos sido ENCARNACIONISTAS coerentes...

Concentrou-se a Igreja romana ainda nisto, imitando (Como uma macaca.) o protestantismo, e assimilando modos moralistas e puritanos (Sinais de decadência em termos de instituições religiosas.) - Pasme leitor, a Idade Média foi muito mais liberal (Nos termos da moralidade) do que os neo catolicismos, subservientes a crítica protestante/puritana que incorporaram - e atendo-se a uma forma política histórica i é espacial temporal, relativa e ultrapassada... Divisou um Estado forte quanto a moralidade dos súditos ou a vida privada mas, fraco quanto a Educação e assim quanto a vida política por estar diretamente subordinado a ela. E por instigação de reis e políticos incrédulos e ambiciosos perdeu seu fervor educativo, embora jamais abdicasse dele. Crendo fixo semelhante estado de coisas - o qual não era senão provisório - permitiu que parte dos seus profitentes permanecesse sob o jugo da ignorância, fabricando massas ao invés de povo (Do que tirou e tira proveito o protestantismo com suas seitas!). Assentiu que houvessem analfabetos nesta cidade cujos fundamentos mais sólidos deveriam ser a fé pura e esclarecida bem como um conhecimento elementar ao menos da Teologia e uma certa educação filosófica. E foi um erro fatal... (Nina Rodrigues já dissera, e com razão, que os Catolicismos não são assimiláveis pelas massas incultas.) Quanto a economia, setor em que as transformações aconteciam a galope nada discerniu ou fez além de impostos e alguns tratadinhos sobre comércio e moeda... Ignorou por completo este setor e receando um Estado Forte (quanto mais democrático!) apostou no Estado omisso, fraco ou mínimo...

Desde que o protestantismo serviu-se do Estado e da estatolatria com o objetivo de afirmar-se e que o Estado moderno, já absolutista, já democrático ou politicamente liberal, mas consolidado no poder, ameaçou, romper com o velho pacto, assumir a educação e desamparar o moralismo insosso, aspirou ela, a Igreja Romana, por um Estado frágil, inerme ou mínimo, sem cogitar que o economicismo disto pudesse tirar máximo proveito, introduzindo um novo padrão de cultura. Como jamais imaginou que as seitas protestantes tirariam mais e mais vantagem da ignorância em que jazem até hoje as massas sumariamente alfabetizadas ou apenas letradas, vitimadas por uma condição miserável. Miséria e ignorância alienaram as massas da Igreja assim que ela perdeu o controle da Educação ou das escolas...

Da associação entre o Estado frágil e a massificação dos grupos sociais resultou a inserção muito bem sucedida do liberalismo econômico e do protestantismo que são elementos solidários e formativos do agregado cultural americanista. Esta afinidade eletiva foi devidamente exposta pela corrente weberiana, a luz da qual compreendemos a dramática transformação porque passa o Brasil é a agonia do Ocidente. O Capital precisava e precisa de uma exército de reserva angustiado e as seitas de iletrados, semi letrados e imbecis para escravizar mentalmente por meio da superstição. As massas mal alimentadas e fatigadas constituem o pasto predileto das seitas todas... fornecendo-lhes inclusive válvulas emocionais de espace, por meio de um culto emocionalista copiado pelos carismáticos. Nada no sentido de TRANSFORMAR a realidade, apenas de deixar como estar, fornecer explicações falaciosas e tirar proveito. O fetichismo 'Cristão' é isto, e as estruturas perversas do mundo atual agradecem - É colaboração...

Enquanto tal se sucedia o gracismo e o solifideismo iam mais e mais contaminando a igreja romana. Até que chegamos a este aparente renascer chamado romantismo. O romantismo é fenômeno alemão, que antes de convergir para aparências de Catolicismo, surge numa Alemanha luterana. Por isso trás em seu bojo o ideal de uma comunicação direta com Deus ou de uma comunhão espiritual que parte do coração, sem precipitar-se necessariamente em obras... Por isso o romantismo produz uma praxis Católica venenosa e desligada por completa da tradição medieval que é a própria vida social. Disto resultou a crença horrenda (Quando parte dos protestantes, por falta de beleza, já não ia ao culto!) de que ser Católico é ir a Missa dominical e assimilar certos tipos de moralidade puritana, individualistas e oriundos quase todos do antigo testamento ou do judaísmo. A Idade Média, com suas associações que permeavam a vida, tinha sentido de Ética Cristã ou Evangélica, bem mais acurado. O neo romano do século XIX isolou-se de seus irmãos batizados, encastelou-se no recinto privado do lar, perdeu todo e qualquer vínculo social e criou para si uma falsa torre de marfim, o avesso da Cidade do Deus encarnado Jesus Cristo... Isto não é vida, é culto somente, fé somente, espiritualidade somente; protestantismo. Catolicismo é consciência, sentido, espírito, vida e prática. Algo que se vive e prática vinte e quatro horas por dia e trezentos e sessenta e cinco dias por ano. O Católico do século XIX não tem mais este perfil total, é obra em parte, corrompida, pela apostasia luterana com seu abandono do mundo, com sua desistência, com sua inanidade...

O Cristianismo foi perigoso. Face ao Império Romano, face ao Império Bizantino e face a Jihad islâmica e arabizante. O neo cristianismo luteranizado e avesso as obras não é perigoso. Pois desesperou de transformar o mundo e suas estruturas. Já não é sal - É água de flor de laranjeira ou rosas, calmante. Cristianismo não pode jamais ser calmante, tem exigências Éticas inegociáveis. Críticos de imensa cultura temem que retorne a suas autênticas tradições, tornando-se mais perigoso do que o anarquismo, o comunismo e o fascismo; embora seus métodos e fontes sejam bem outros. O capitalista estudado esforça-se por satanizar a Idade Média - Ainda aqui adotando os métodos da falsa reforma - e até os antigos padres e a tradição Cristã, social e humanista. Ele teme o episcopalismo ou os Catolicismos, mas não se importa com as seitas protestantes, mesmo quando assumem um viez teocrático. Sabe que elas jamais desampararão o economicismo, contentando-se com dominar o comportamento privado, inda que por meio do poder político.

Isolando-se uns dos outros os Católicos não perceberam nada disto. Nada, nada... Seus líderes - como Pio IX, continuaram a meter os pés pelas mãos... a disputar com o Estado em sua esfera, a combater pelo 'vitorianismo', a proclamar moralidades, a vindicar uma propriedade que mudará de significado por completo (A noção de propriedade MEDIEVAL não é a contemporânea), a condenar o Liberalismo qual fosse uma coisa só, etc Foi uma Cruzada inglória. Marx combatia a forma apenas do Capitalismo... E a Igreja não lhe atingia o espírito, o éthos, o coração ou a alma, que era necessário aniquilar e substituir por outra. De modo que não atingiu ela seu escopo...

E no entanto o primeiro meio capaz de - A partir de um controle indireto ou de simples orientação - implantar a doutrina social da igreja e de reformar as estruturas sociais no sentido da Tradição e do Evangelho, seria justamente um Estado forte. Democrático, popular e limitado a sua esfera, mas forte nessa esfera - Das coisas comuns, da convivência ou da Ética. Forte quanto a Ética humanista ou a promoção do ser humano e a afirmação da justiça (Aqui a República de Platão) em todas as áreas da atividade humana. Lamentavelmente a Igreja sempre suspeitou deste Estado (Mesmo quando Democrático ou Policrático!) até anatematiza-lo. Desamparados pela própria igreja os elementos populares, os demagogos liberais economicistas após terem assumido o protagonismo do movimento democrático, tomaram a direção das Escolas e fechou os mosteiros, beneficiando ainda mais a cultura protestante e capitalista... Ao invés de identificar os inimigos e a cultura de morte que os inspirava a igreja, cega, anatematizou ainda as formas democráticas, e postulou um retorno utópico ao velho Estado dirigido. CONCLUSÃO - Os maus liberais (Capitalistas) apresentaram-se como heróis e paladinos da liberdade, fazendo avançar a cultura americanista... A igreja - aqui muito falível, terrivelmente falível - fez o jogo deles, mesmo quando se lhes opôs...

Sim, os espertos americanizantes e economicistas jamais deixaram de tirar proveito dos equívocos cometidos pela igreja e assim de apresentar e promover o Liberalismo com um todo homogêneo, em que entrasse o capitalismo. De fato eles associaram o Liberalismo político - que é a alma da democracia - ao liberalismo econômico, isto com o premeditado objetivo de justificar este por aquele.

A loucura integrista ou integralista (Aberração no terreno da política, da ciência e dos costumes), reforçou este erro, pois quando honesta condenava ambos os liberalismos e sancionava a tirania, senão o velho ideal teocrático. Destarte os inimigos do despotismo - inclusive dos setores dominados! - passaram a encarar o capitalismo com franca simpatia e como elemento necessário de um pacote cultural superior ou mais civilizado. O próprio americanismo, que é antípoda da nossa cultura, foi assumido por não poucos... Enquanto isto dos simplórios Donoso Cortês, Salvany, Murilo, etc e mesmo um De Maistre ou um De Bonald continuavam a apresentar a modernidade empacotada... O que desaguou na Ação Francesa, com Ch Maurras, embora este tivesse já certa noção da cultura e das conexões ideológicas com o protestantismo. No entanto jamais situou o problema onde devia, na economia de mercado ou no economicismo, insistindo na tecla do político. Se Marx, foi prisioneiro daquele materialismo comum ao sistema que criticava Maurras foi prisioneiro de formas políticas que nada explicavam ou cuja dimensão era limitada face a cultura. Apenas Weber começou a decifrar esta esfinge...

Fácil é compreender que entre nós os frustrados do integrismo passaram ao americanismo - Como comunistas e fascistas tem migrado para o capitalismo e como ora passam ao islamismo, juntamente com alguns fundamentalistas protestantes e romanistas moralizantes (perceba o leitor a ilação!). E que do conflito entre o Estado democrático e a Igreja tirou partido o Mercado, assim como o Imperialismo Norte americano e toda essa cultura de morte, da qual, como elemento basilar faz parte o protestantismo, com seu abandono do mundo, seja pela fé somente ou pelo apocalipticismo. Aliás o economicismo apenas reivindicou um setor da vida abandonado pelo protestantismo... Bom insistir nisto, pois trata-se da fonte da crise porque passa nossa civilização.

Havia no entanto, para a Igreja ( Como ainda há, embora pareça por demais utópica) uma outra possibilidade - A do afrontamento ou da auto reconstrução a partir da Tradição ou do passado, no qual não haviam faltado meios com que enfrentar e vencer a Cultura de morte. Os próprios liberais economicistas, como os falsos cristãos mamonolatras ou avarentos, sabem melhor do que ninguém que o Cristianismo vivo é a suprema ameaça a este sistema. Por isso tentam a todo custo conter a expansão da consciência Cristã, sabendo que sua ética é mil vezes mais devastadora e temível que o Comunismo e o Anarquismo, posto que suas fontes são divinas! O materialismo, a avareza, a ambição excessiva, o economicismo capitalista tem a Deus por adversário e tal é o segredo do rei...

Cumpre apenas dar consciência a este corpo decadente, que como o Verbo Jesus pode ressuscitar e dar vida ao mundo. Ao Comunismo materialista e totalitário, não podia a mãe igreja estender fraternal e ingenuamente a mão. As atuais e legítimas aspirações ECOLÓGICAS não só pode como deve. Que aproveite o kairós para fecundar e encher de luz esta corrente do bem. Que saiba à luz da memória (TRADIÇÃO) recriar-se e recuperar os mecanismos espirituais com que no passado movia seus filhos, ora movendo-os a uma vida Ética coerente, intensa e avassaladora.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Conhecendo o outro lado de Juan Valera - O Pe Francisco Vitória OP


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Há muito que se falar sobre a Espanha e sua literatura ou da Espanha enquanto produtora de conhecimento.

Lamentavelmente a reputação da Espanha tem sido amplamente obscurecida em função da Leyenda negra.

Nada mais falacioso do que a produção historiográfica protestante, fonte de inúmeros mal entendidos ou mesmo de inverdades. Mesmo quando assumida por positivistas apressados não se torna ela neutra. Continua sendo anti romana ou Católica, anti medieval, anti latina, anti hispânica... e por ai vai.

Construíram os ingleses e seus sucessores N americanos suas historiografias em ambientes ideológicos bem definidos em termos de centralização de poder, afirmação do capitalismo, construção do nacionalismo e para eles tudo quanto cheira a descentralização do poder, comunitarismo/solidarismo/socialismo, cosmopolitanismo ou sentido católico lhes é pura e simplesmente incompreensível senão diabólico.

Estão encarcerados na prisão da cultura embora apreciem julgar com tanta afoiteza a Antiguidade, a I Média, o romanismo, o Catolicismo, o latinismo, a hispanidad, etc

Isto é até certo ponto natural.

Exótico é que os latinos, os hispânicos, os Católicos, os humanistas, etc assumam tais vícios, fazendo 'mea culpa'... Estranho é que nós incorporemos tais críticas infundadas, preconceitos, tabus, etc após te-los recoberto com uma camada de verniz positivista - Isto para sermos ainda mais ridículos.

Negamos que o homem seja imparcial em seus juízos de valor. E aplaudimos os juízos de valores protestantes como imparciais...

Os protestantes, para bem ou para mal, construíram outra Sociedade ou Cultura, que é pós medieval. Não podem portanto apreciar a I Média com a dita isenção de juízo acalentada por Ranke... Porque o padrão a que recorrem são seus próprios princípios e valores. O homem antigo ou medieval tinha outros. Julgamos estes homens por seus próprios princípios e valores ou abste-mo-nos de julga-los - fazendo mera crônica... Nem mais nem menos.

No entanto já o véu vem sendo despedaçado - muitas vezes pelos protestantes mais honestos e esclarecidos outras por autores insuspeitos ou descomprometidos com o papismo ou com o Catolicismo a exatos dois séculos ou duzentos anos, desde que Henry Hallan, publicou seu monumental "The view of the state of Europe during the midle ages", obra que ainda hoje merece ser lida com atenção. Após ele tivemos Schrenurer, Denifle, Newman, Ganchoff, Bloch, Duby, Romilly, Le Goff, etc Paulatinamente a querida imagem maniqueísta construída em torno de uma 'Idade de trevas' produzida (quiçá intencionalmente rsrsrsrs) pelo papado (Tese de Maytland por exemplo) se vai mostrando cada vez mais forçada, inconsistente, ideológica ou mesmo panfletária...

O que se é para deplorar é a lentidão com que tais luzes atingem, mesmo o público seleto da Hispanidad e da Lusitanidade; particularmente na América latina e especialmente no Brasil, onde a tradição das trevas medievais e rigorosamente mantida não apenas pelos protestantes que a inventaram mas por Comunistas, Anarquistas e Liberais 'emancipados' ou seja por grupos teoricamente descomprometido. É fato sabido no entanto, que ao menos até o Vaticano II, tais grupos temiam muito mais a Unidade da Igreja Romana, do que a multiplicidade das seitas protestantes...  De algum modo eles optaram por atacar a igreja papa - e os Catolicismos de modo gral - com as armas embotadas produzidas pela reforma na medida em que a substituição da antiga pela nova fé tornava o Cristianismo tanto mais vulnerável. O Pastor com sua Bíblia ou melhor com sua Torá ou antigo testamento jamais foi temido seriamente pelos intelectuais naturalistas... Outro é o caso dos sacerdotes ou mesmo leigos esclarecidos, representantes da alta teologia Católica moderadamente liberal. Mesmo Dawkins é perfeitamente a cônscio quanto o problema, na medida em que classifica os representantes desta alta teologia como incoerentes e em que se recusa a debater publicamente com eles, voltando seus elogios - em torno da coerência - aos fundamentalistas, os quais costuma ridicularizar e esmagar sem misericórdia...

Compreenda-se que a crítica ideológica protestante produtora de historiografia tem sido assumida por diversos grupos 'interessados'.

Julgo no entanto que tais grupos deveriam pautar-se pela honestidade ou pela Ética. Ao invés de repetirem boatos e calúnias contra a igreja papa ou contra os Catolicismos de modo geral. Não é por ser Católico Ortodoxo que vou inventar mentiras e caluniar o papado. Tenho-o, evidentemente, em contra de construção humana ou natural e religiosamente como algo desprovido de significado ou como uma corrupção. No entanto como já dizia o Pe Vieira 'Justiça seja feita até ao Demônio'... Devo julgar o papado e todo fenômeno Histórico, assim a reforma protestante - de modo justo e equânime. Talvez seja impossível ser imparcial em termos de juízos valorativos ou mesmo quanto a escolha do material histórico a ser registrado. Sei apenas que ser ou tentar ser honesto é absolutamente necessário. Digo, não caluniar, não inventar e não repetir boatos acriticamente...

Já vimos que a historiografia medieval tem passado por uma necessária avaliação. Posto que até mesmo seu prosaico nome construído por Keller ou Cellarius - enquanto simples barreira ou espaço vazio entre a brilhante Antiguidade clássica e a formidável Renascença já indicava uma avaliação negativa, quiçá injusta. Não estou querendo negar com isto a patente superioridade da Atenas do século V a C, de Clístenes a Péricles, mesmo da Roma augusteana ou a ainda da Bizâncio do século IV, face a tudo quanto possamos sonhar em termos de I Média Ocidental.

Parte da I Média foi de fato um momento de 'franca' crise. De uma crise sócio, político e econômica que após o fim do Império romano chegou a ser cultural. Devido a inserção do elemento germânico. De fato não podemos exigir um continuidade cultural por parte da Europa Latina a partir do momento em que ocorrem as grandes migrações germânicas. As coisas não podem nem poderiam ficar como eram antes... Nem podemos julgar com equidade a Sociedade do século XIII sem apreciar que eram estes povos germânicos recém chegados ao Império no dealbar do século V. A comparação é absolutamente necessária pois somente a partir dela podemos aquilatar a obra formativa e educativa, da Igreja Católica - pelo menos até o século XI ou XII - e enfim da Igreja romana...

Sem a inserção desse sangue ou dessa força germânica não teríamos resistido a jihad islâmica do século VIII, e Carlos Martel é prova viva do quanto falo. Tampouco sem a incorporação destas culturas, desta força ou deste sangue pela Igreja Católica teria esta operação de resistência a um tempo e salvadora a outra, chamada Cruzadas, existido. E os minaretes se estenderiam de Palos a Berlim ou mesmo Oslo... Podemos devemos criticar os abusos e crueldades que envolvem as Cruzadas, sabendo que somos todos filhos seus e que foram absolutamente necessárias a seu tempo. A antiga Cristandade greco romana teria escrúpulos... Os recém chegados germânicos estavam melhor dispostos e sabiam que a Sociedade enquanto tal precisava defender-se e ser defendida.

Tenho de falar sobre Valera e a Espanha, mas veja por onde vamos em rodeios... Por isso minha falecida Mestra Izamar Alcover Loureiro do Amaral costumava a tratar-me por Domingos, o prolixo e também a profa Eliana...

Quero dizer que nós latinos, ibéricos, hispânicos, lusitanos... Introjetamos a quimera da lenda negra e construímos falsos complexos de culpa e inferioridade face a nossa cultura, que é, e digo-o conscientemente - Soberba. Já o veremos...

Após criticar os mitos e tabus forjados pela crítica protestante e partidarista, levo ao tribunal os místicos da Igreja romana... Sim, a Espanha, produziu e alimentou este tipo de espiritualidade que não hesito classificar como patológica. A ponto dos pobres Cristãos espanhóis se ufanarem duma riqueza aparente, assim de Tereza de Ávila (ademais uma mulher bastante sensata, mas não um gênio), esta nulidade chamada Juan de La cruz, e, a cambada esses Padres - Murillo, Salvany, Fuente de La Peña, Boneta, Sor Patrocínio, Donoso Cortês, etc bando de aleijões teológicos e de anões espirituais que tem deliciado as boas almas dos espanhóis... No entanto, dia após dia, o mal alimento regurgita e sai... E vai o Cristianismo, o romanismo ou mesmo o Catolicismo, sendo vomitado ou expelido por este bom povo... Com grave dano de sua cultura, construída sobre este fundamento Cristão Católico.

A situação se torna dramática pois ou tais pessoas se contentam com o que há de pior no romanismo ou no Catolicismo, assumindo essa mística deplorável ou desamparam sua própria cultura ao lançar fora a fé religiosa. Que na Espanha, já o veremos, produziu gênios de imenso calado...

É uma cruz. Pois mesmo quando os espanhóis - e agora reproduzo juízo de D Menéndez Pidal (cf El Pe Las Casas y Vitória, con otros temas... Austral, Madrid 1958 p 09 sgs) - reconhecem seus gênios nem por isso vão a fundo... Equivoco-me. Pidal é espanhol e tem discernimento. Espero que seus conterrâneos e todo Cristão, e todo Humanista, e todo homem interessado pela cultura, leia o volume de ensaios acima citado.

Longe de mim negar a grandeza do defensor dos Índios americanos, B de Las Casas. Foi homem necessário a seu tempo. E creio eu fiel e honesto, numa época em que não haviam estatísticas... Com razão, no posto em que se achava, tinha de fazer grande bulha ou berreiro. Pois almas vivas estavam sendo destruídas pela febre do ouro ou mesmo pelo fanatismo. E havia quem tomasse os pobres índios por Mouros ou maometanos bravos... B de Las Casas precisa gritar, berrar, apelar a figuras de linguagem poderosas, etc Foi ele como uma tempestade e cumpriu seu propósito.

No entanto aquele mesmo tempo, do outro lado do Oceano, retirado a soledade de seu mosteiro ou convento estava o cérebro ou a mente trabalhando. Seu nome Francisco de Vitória, nome que merece ser colocado ao lado dos grandes nomes que imprimiram certo curso a cultura na medida em que buscaram responder aos problemas de seu tempo.

E com absoluta e plena razão Ballesteros - Gaibrois define o descobrimento da América por Colombo como fenômeno singularíssimo ou melhor único (cf Séjourné; América pré-colombiana - Meridiano ante pag de rosto). Desde de que os gregos, com olhar diverso dos fenícios, exploraram o entorno do Mediterrâneo e mais além, jamais havia se dado tal encontro ou choque de culturas. Las Casas assumiu a defesa da parte fraca ou conquistada... Vitória foi o que primeiramente pensou naquele conflito, construindo uma análise que partia de Aquino, logo de Aristóteles e, consequentemente do conceito de Natureza. No entanto Vitória - como Aquino - tem plena consciência ou sentido de não ser um grego ou um romano mas de ser um Cristão, o que comporta outra escala de valores...

Este sentido ético Cristão corresponde a fé. Vitória aspira encontra-lo quiçá na natureza e, para tanto, por meio do próprio Digesto ou das Institutas, dá com as formulações postas pelos antigos estoicos. Os quais tinha estudado a variedade das culturas após as conquistas empreendidas por Alexandre na Ásia. Os estoicos mesmo sendo gregos, admiraram-se amplamente face a variedade das culturas. Mas, como herdeiros de Aristóteles e mais remotamente de Sócrates, encararam o desafio de encontrar algo de essencial ou comum e é exatamente aqui, que antes de ser descoberto o homem ou o liberalismo político/social é descoberta a HUMANIDADE...

E esta descoberta se vai afirmando no transcorrer do processo Histórico, agora sob o comando dos romanos e seu império. Pois os principais jurista do tempo, como Gaio, eram bastante afinados com o estoicismo. Sendo assim, a par do jus civile ou jus romano (post Caracala) - que era o direito da cidade, atribuído apenas ao cidadão romano - surge, a partir do citado Gaio o 'jux gentium', algo tão importante quando a roda, o arado, a moeda, o automóvel, o avião ou o computador... O jux gentium é encarado como natural e portanto como comum a todos os homens e racional ou dedutível a partir do elemento comum da razão. Pelo que chegamos ao direito natural ou a noção de Lei natural...


Foi deste manancial que Vitória abasteceu-se com o objetivo de refutar aqueles que assumindo um aristotelismo puro ou ortodoxo - como Ginés de Sepulveda, Juan Quevedo, Bernardo Mesa e Palacios Rubios, dentre outros - defendiam a inferioridade natural dos indígenas americanos ou mesmo sua irracionalidade, daí deduzindo a necessidade de escraviza-los e de fazer guerras 'justas' aos que buscassem defender-se... Salta a vista como esta doutrina vinha ao encontro de ambições econômicas, que os marxistas costumam apresentar como infalíveis... E no entanto não foi ela que prevaleceu no seio da Igreja romana ou mesmo entre os intelectuais cristãos espanhóis após o colóquio de Valladolid (1550).

Foi aqui que pela primeira vez se estabeleceu de modo inequívoco os direitos essenciais de toda pessoa humana. Ali que se forjou a alma do liberalismo político pessoal... Não em 1776 na Constituição N Americana... Não em 1789 na Declaração universal de direitos... Nem mesmo pela pena do grande Hugo Grotius simples repetidor dos jus naturalistas hispânicos. Toda esta tradição foi firmada na Espanha - na Espanha da Inquisição, é paradoxal - a partir do Dominicano Francisco de Vitória. É o Renascimento do Humanismo natural timidamente esboçado pelos antigos estoicos, agora levado as últimas consequências, escolasticamente, pois Vitória é um escolástico, e pai, e patrono dos direitos humanos. Mas ele não é e jamais será festejado - como Darwin, Freud, Weber ou mesmo K Marx - pelos cientificistas ou positivistas, pelo simples fato de ser um mestre de Ética, laborando em torno daquilo que eles, classificam irredutivelmente como subjetivismo. Para eles o gênio é Kelsen, teórico do direito puro... Daqueles que como Alf Ross principiam dizendo solenemente que Antígona não diz coisa com coisa, e que Creonte, legítima fonte do poder, esta com a razão... Razão que só pode ser absoluta por ser suprema. E a democracia formal não pode remediar as coisas enquanto mera estrutura a serviço de uma 'vontade geral' (aqui Rousseau) que pode ser tão totalitária e despótica quanto o Leviatã. De fato todos - Maquiavel, Hobbes, Rousseau, Kelsen, Ross e todos os teóricos do direito positivo ou puro encontram-se na negação de uma Lei natural no acesso da consciência pessoal, enfim na negação de uma justiça que não seja política ou estatal... E sabemos onde esta negação da justiça e da consciência chegará...

Por isso Vitória OP não será universalmente homenageado, embora sua doutrina - em que pesem possíveis abusos ou inversões - seja revolucionária (no quadro social em que veio a luz) e mais ainda profundamente humana e ética. Por incrível que possa parecer Vitória conheceu ou raro privilégio de ter tido colaboradores e continuadores tão dignos e competentes. Citarei alguns: Domingo Bañez, Domingo Soto, Gregório Lopez, Melchior Cano, Las Casas, José de Acosta, Juan de Mariana, Roberto Bellarmino e sobretudo Francisco Suarez ao qual Grotius copia sistematicamente. Verdade seja dito - foi Hugo Grotius (homem virtuoso e bom) um erudito vulgarizador, não um gênio criador, e nada disse que os espanhóis não tenham dito antes, desde Vitória.

Suarez,
autor do De legibus foi quem coroou os esforços do grupo, e enquanto Le Bret, Silhon e tristemente J B Bossuet reproduzem as frioleiras de Maquiavel, Lutero, Erastus, Tiago I - ainda mais amplamente divulgadas por Hobbes e Filmer - deduzia, a lei natural, o direito divino dos povos ou do povo. Havendo alias certa aproximação das formas democráticas inclusive... sem é claro os descalabros totalitários de Rousseau. Houve ensaios, discretos mas fecundos, de naturalismo político - sempre associado a uma inspiração ética Católica... Chegando Suarez a separar muito bem a política da fé e mesmo da moral pessoal, identificando-a com a administração do poder ou com o governo da sociedade tendo em vista o 'Bem comum'. Embora as esferas ainda estivessem ligadas ou articuladas havia um sincero esforço para dar ao político um conteúdo próprio ou seu, e assim uma Ética própria em termos de felicidade geral dos súditos. Maquiavel pode ter querido repudiar a certo moralismo tosco, e com razão... Fato é que ele, destruindo o falso moralismo, nada constrói em termos de ética, permitindo que um poder absoluto ou ilimitado concentre-se nas mãos do governante. Suarez busca por uma ética específica ligada a um conteúdo específico... é um construtor genial.

Lamentavelmente nossos latinos, ibéricos, espanhóis, etc não tiram proveito de nada disto... Ignoram supinamente o contributo de seus ancestrais a uma ordem social, política e ética que pode ser afirmada como universalmente relevante, na mesma perspectiva que a socrática e ainda mais vigorosa que o aristotelismo ortodoxo. Os espanhóis não apenas deram origem a uma Renascença humanista como partindo do jusnaturalismo lançaram os fundamentos do liberalismo político/pessoal e da teoria do poder popular, mais tarde assumida por Rousseau e obscurecida por seu totalitarismo e despotismo jacobinistas.

Que tudo isto tem a ver com Juan Valera?
Na segunda parte deste artigo veremos que ele é o outro homem ou espanhol genial, como - para muitos paradoxalmente - paladino de um Catolicismo tão belo, digno e esclarecido quanto o de seus predecessores Vitória e Suarez. Assim se você - apesar de Lutero, Zwinglio e Calvino terem sido bons assassinos - enche sua boa para dizer Torquemada... encheremos as nossas para dizer Las Casa, Vitória, Suarez... E se disser que a igreja papa produziu apelas entidades desequilibradas como Salvany e Murillo direi que também produziu um Juan Valera...


quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Analisando o roteiro do positivismo ou a afirmação do materialismo nas ciências humanas


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Os antigos, queremos dizer os pensadores greco romanos, não tinham qualquer problema em busca fragmentos ou pedaços da mesma verdade por três vias diferentes: A fé religiosa, a especulação filosófica ou metafísica e a investigação científica.

No compreensivo e vasto esquema do divino Aristóteles há espaço para a investigação cientifica em termos de experiencialidade - princípio largamente aplicado no Liceu - para a reflexão filosófica e até mesmo para a religiosidade. Bom lembrar das clássicas passagens em que o perípato pondo em dúvida a possibilidade de demonstrar a imortalidade da alma humana por via de demonstração racional (em oposição a Platão e ao próprio Kant) assegurava abraça-la por via da religião. Equivocam-se aqueles que, guiados por Afrodísias alegavam que a mortalidade da alma - demonstrada pela razão - podia ser negada no campo da religião, e que ambas as teses podiam ser professadas pelo mesmo indivíduo em que pese a contradição existente entre elas.

Não a texto algum de Aristóteles em que se encontre a afirmação de que a inexistência ou destruição da alma fosse racionalmente deduzível. A posição dele a respeito da imortalidade em termos puramente racionais parece equivaler a dos agnósticos, os quais nada pretendem afirmar, negar ou saber; daí socorrer-se da fé religiosa quanto a este tema.

Embora alguns Filósofos como Alexandre, Evemeros e Diagoras fossem não apenas irreligiosos mas inimigos da religião e sobretudo de seu aspecto mágico/fetichista, de modo geral, os grandes Filósofos como Sócrates e Platão, Antístenes, Zeno, Cleantes e Crísipo mostraram-se receptivos a algumas verdades religiosas de caráter universal ou comum. A oposição ou fragmentação não foi generalizada no contexto da antiguidade em que pesem inúmeras divergências a respeito do fetichismo, do politeísmo, da superstição, etc Aqui o mal estar não degenerou em ruptura e por isso os primeiros Cristãos e os padres da igreja puderam recorrer com bastante sucesso ao testemunho dos antigos Filósofos com o objetivo de promover seu monoteísmo revelado.

Quanto ao contesto Cristão devemos observar a existência de certas prevenções anti filosóficas e anti científicas localizadas - desde Tertuliano ao menos - no setor latino ou ocidental da igreja, cuja antropologia foi tornando-se cada vez mais problemática e negativa até Agostinho. O qual certamente nutria dúvidas bastante sérias face ao conhecimento humano ou a capacidade cognitiva do homem e certo desprezo pelo mundo externo e material. As invasões bárbaras e a destruição das escolas, museus, bibliotecas só farão acentuar ainda mais este tipo de mentalidade.

Outra no entanto era a situação do Oriente. Poi se Justiniano haviam mandado fechar os antigos institutos filosóficos atenienses, já dominados pelo irracionalismo neo platônico e, pasme leitor, pela teurgia ou pela magia (de fato os derradeiros escolarcas como Porfírio, Hierócles, Jâmblico e outros eram 'bruxos' ou magos, da mesma cepa que um Eliphaz Levi ou um Aleister CrowleyMarciano e seus sucessores fundaram a Magnaura, o segundo complexo universitário da antiguidade ou se preferirem da Idade Média, sob os auspícios do Cristianismo. E lá se conservavam os registros científicos do passado e dava-se continuidade a reflexão filosófica, de que temos exemplo em Eustátio de Tessaloniki, nos criadores da Suda, em Psellos, etc Em Bizâncio, em que pese o declínio da produção científica, Filosofia e Teologia caminhavam lado a lado.

De modo geral, os antigos padres e doutores da igreja, por uma questão de fluxo cultural, abraçaram ao platonismo e depois ao neo platonismo, aqui certamente com graves prejuízos em todos os sentidos. Afinal quando o Cristianismo principiou a afirmar-se decididamente entre os gentios, pelos idos do ano 100 desta Era, a partida já esta vencida e tanto o materialismo epicurista (embasado nas lições de Demócrito de Abdera) quanto o realismo aristotélico (em que pese suas realizações prodigiosas) - para não falarmos nos ceticismos - esmagados pelo platonismo com toda sua carga idealista.

Alias a questão crucial em termos de platonismo - e não nos devemos iludir a respeito - não implica saber se os tipos ideais ou proto tipos eram materiais ou ideais. Inda que fossem materiais ou realistas estavam situados noutro plano, para o qual - EM DETRIMENTO DA VIL CÓPIA QUE É NOSSO MUNDO - deviam convergir nossas atenções. Importa saber que o platonismo desviava os olhares desta realidade para outra direção...

Tal a escola filosófica com que o Cristianismo encontrou-se e com que ligou-se por séculos a fio, e é de se imaginar que seu viés anti científico fosse antes tributário desta visão idealista - que já havia massacrado o realismo aristotélico do que - que da própria cultura judaica. O contato certamente foi prejudicial ou danoso, mas os preconceitos partiram do platonismo. Ele é que bem antes do advento do Cristianismo havia se negado a olhar para este nosso mundo e se apegado a tradição anti sensorial dominante como a uma tabua de salvação.

O que devemos ressaltar aqui é o surpreendente e quase miraculoso renascimento aristotélico promovido na grande e antiga igreja por S João Damasceno, um de seus principais teólogos. A bem da verdade o Aristotelismo fermentava já entre os assírios e siríacos desde os seculos VI e VII desta Era, sendo as obras do Filósofo estudadas e copiadas nas acadêmias médicas do grande império persa.

Curiosamente o salutar movimento teológico/filosófico iniciado na Igreja Bizantina haveria de ser assumido e desenvolver-se no terreno de uma igreja latina ou romana já socialmente recuperada e em franco desenvolvimento a partir do século XI e mais ainda a partir do século XIII. No contexto Oriental reproduziu-se novamente o velho conflito Platão ou melhor neo platônicos versus Aristóteles agora no plano da teologia, sendo o escolasticismo ancestral e até certo ponto os fundamentos racionais da patrística, arrasados pelo palamismo o qual corresponde a uma corrente neo platônica que remonta ao livro do pseudo Dionísio, a Evágrio e a João Clímaco. Todos estes homens tomaram o caminho inverso ao da imanência, ao da Encarnação e do realismo epistemológico, embora mantivessem a excelente doutrina da Theosis.

A principio também os latinos apegados a Platão e o que é muito pior, a Agostinho, os latinos repudiaram a doutrina de Aristóteles como perniciosa. Assim em 1270 Estephanus Tempier arcebispo de Paris lança um interdito em torno dos escritos de Aristóteles. Evidentemente que naquela altura do campeonato sequer podiam distinguir o Perípato do árabe Ibn Rodh como o próprio Ibn Rodh não conseguia distinguir o comentarista (Alexandre de Afrodísias) do Perípato uma vez que a crítica textual era incipiente e tudo se achava misturado de modo que Siger de Brabante - o 'averroísta 'cristão' de Ernesto Renan - acaba aceitando tudo e, tendo em vista a salvaguarda da fé ou da teologia cristão, formulando a doutrina relativista da dupla verdade.

De um modo ou de outra após os sucessivos renascimentos: Literário, Filosófico e Científico ao cabo dos séculos XII, XIII, XIV e XV as letras clássicas, a reflexão filosófica e a retomada da produção científica, obedecendo a um projeto unitário e grandioso, vão caminhando juntamente com a fé Cristã Católica, a teologia e religiosidade; como que formando um todo ou uma visão integrada e total da existência. Foi um tempo no mínimo interessante pela simples busca de um esquema compreensivo, amplo e abrangente que conciliasse todos os meios de conhecimento, o religioso, o filosófico e o científico além das linguagens literária e artística. Clássicos são os estudos ou analises históricas, geográficas, sociais, culturais, etc em torno do espírito universalista característico do século XIII.

Não, não sou dos ingênuos que pretendem ocultar as trevas e a sujeira debaixo do tapete. Claro que não era a igreja como um todo que apoiava este direcionamento, mas haviam muitos eclesiásticos relacionados com ele, assim Nicolau de Cusa e Marsiglio Ficcino... Claro que o número de pessoas toscas e ignorantes era colossal, claro que haviam massas incultas e lideres religiosos fanáticos, claro que haviam controladores oportunistas, místicos embiocados, agostinianos, sectários, judaizantes, gentes da bíblia, inquisidores desmiolados, e toda uma turba multa de anões e paraplégicos do espírito. O que não elimina o espírito reinante e significativa adesão por outra parte da igreja, a melhor e a mais lúcida.

A tentativa como disse, de manter o são equilíbrio entre as três vias do conhecimento humano, segundo a velha tradição romana, representava um ambicioso projeto arquitetônico, que veio a ruir e a desabar fragosamente no dealbar dos séculos XVI e XVII, enchendo a Europa de ruínas no campo do espírito, rompendo o equilíbrio, fragmentando a cultura e engendrando a crise. Desde então a civilização ocidental combate entre si, dispersa suas energias e dissolve-se. Pois há quem queira pura e simplesmente destruir a religião, como há quem queira substitui-la pela Bíblia ou pelo antigo testamento, como há quem faça guerra a metafísica até os catões da ética. Desde então Filosofia, Religião e Ciência travam entre si a mais pavorosa e insensata das batalhas, perdeu-se definitivamente a compreensibilidade e o resultado mais dramático aqui foi - e é onde queremos chegar com este ensaio - o falseamento do quanto chamamos Ciências humanas ou do homem.

Lançando um primeiro golpe de vista poderíamos nós supor que a quebra da paz ou a ruptura partiu dos ateus, materialistas ou incrédulos. Bom lembrar que - cf Lucien Febvre 'O problema da incredulidade no século XVI' - ao dealbar do século XVI inexistiam ateus e materialistas na plena acepção da palavra. Haviam quiçá alguns sujeitos na periferia da Igreja ou nos confins da Ortodoxia, alguns revoltados, heterodoxos, etc Não materialistas, positivistas, cientificistas ou místicos da técnica.

Neste caso de quem é que parte a ruptura???

Para compreendermos o sentido da ruptura e seu significado imenso para a cultura temos de lançar nosso olhar sobre um cantão tanto mais atraso ou primitivo da Europa, ao menos em comparação com a Itália ou a França. Refiro-me ao Império Germânico ou a Alemanha, onde o Imperador Maximiniano acaba de baixar a sepultura, enquanto iniciava-se uma briga de monges travada entre Dominicanos e Agostinianos em torno da doutrina das indulgências, uma doutrina bastante problemática formulada alguns séculos antes pelo grande fabricante de novidades Alexandre de Alés, quiça inventor da fé romana ou papista, digo de seu conteúdo específico.

Não nos importa aqui entrar nas minudências do conflito Tetzel Lutero, alias bastante conhecido de todos. Nem nos importa entrar nas minudências da doutrina luterana ou das origens da fé protestante. Sintomático aqui é que Tomás de Aquino também foi lançado ao fogo junto com as decretais do Papa romano logo após a condenação das Teses fixadas a porta da Igreja de Wutemberga. E com Tomás de Aquino lá vai Aristóteles. 
Desde as priscas Eras de Orígenes com seus 'Princípios' buscava a Igreja oferecer aos que pediam as razões de sua bela esperança ou expor o conteúdo da fé revelada em termos racionais criando o que chamamos de teologia, postura que veio a ser vital no momento em que a Filosofia viria a recobrar sua importância. Pois ela surge e ressurge a princípio como Ancilla da Teologia, i é como serva, escrava ou auxiliar. Caso predominasse o 'Esta escrito' e tudo fosse resolvido através de citações 'bíblicas' a Filosofia teria permanecida em seu limbo... A teologia latina ou escolástica como demonstram Gilson e Grabmann é que veio a resgata-la. Gostem ou não os incrédulos é pura verdade ou como se diz fato.

Desde então a igreja romana, em que pesem seus erros e equívocos, buscou apresentar sua fé em termos de sistema teológico coerente e acessível a razão, buscando superar certas contradições e sempre servindo-se do aparato lógico de Aristóteles, aproximando-se na mesma medida de sua orientação realista, compreensiva e favorável a um diálogo com a imanência em termos científicos. Daí a ciência ser cada vez mais cultivada e as investigações ampliarem-se mais e mais desde Alberto Magno, Roger Bacon, John Buridan, Robert Grosseteste e outros. Caso lancemos nosso olhar sobre a sociedade Cristã da Itália, nos séculos XIV e XV, se nos parece estar contemplando a Bizâncio dos séculos XI e XII com os Cristãos dispersos pela imanência demonstrando interesse por literatura clássica, botânica, zoologia, mineralogia, economia, geográfica, etnografia, etc. Sim há monges, há teólogos, há homens de fé e o mais surpreendente é que não são infensos a este movimento na medida em que as próprias celas dos mosteiros convertem-se em oficinas artísticas, escritórios ou laboratórios rudimentares.

O efeito do contato efetivado entre a teologia Católica com a Filosofia aristotélica foi fecundo no sentido de despertar parte dos letrados e inclusive dos clérigos para o valor da imanência. Impondo-se cada vez mais a exótica figura de um Willian de Baskerville i é do padre ou monge cientista, artista, inventor - assim Mendel no século XIX e Lemaitre no século  XX - Claro que dessa dispersão ou divisão de forças ressentiu-se o campo religioso propriamente dito, sentindo-se como que desfalcado e nem todos os homens daquele tempo podiam compreender o que podia levar um monge, um padre ou mesmo um devoto a gastar tanto tempo observando animais, plantas ou mesmo estrelas.

A reação a este tipo de secularismo religioso provocado pela Teologia escolástica e sobretudo pela doutrina de Aristóteles foi captada perfeitamente por Lutero e assumida pela Reforma protestante. Para tanto devemos compreender que não poucos Católicos receberam a doutrina de Aristóteles nos moldes tradicionais da religião, tomando-o por papa ou guia infalível a propósito de absolutamente tudo, e numa época em que sequer se sabia com certeza o quanto fora escrito por ele... Naturalmente que este tipo de postura suscitou a princípio críticas justas e em seguida criticas cada vez mais destemperadas e radicais por parte dos próprios Católicos e de alguns religiosos. Críticas que foram levadas aos campos da epistemologia e da gnoseologia, resultando disto uma retomada dos princípios ou preconceitos agostinianos; assumidos declaradamente pelos franciscanos, dentre os quais W de Ockham um dos principais críticos do Filósofo e promotores da visão 'tradicionalista' ou fideísta.

Os místicos em especial tomaram este caminho, devassado igualmente pelo Dr Gabriel Biel, cujo Manual de Teologia prevalecia em diversas escolas alemãs ao tempo de Lutero. Mesmo na França Erasmo não poupava cargas contra os monges, os escolásticos e os aristotélicos obtusos...

Importa saber que a negação de uma única doutrina é suficiente para desestabilizar o sistema Católico, o único existente até então e dentro do qual fácil era argumentar numa linha de coerência. Lutero no entanto havia reassumido - como Fulgêncio de Ruspe, Goteschalk e Wicleff - os pressupostos agostinianos em sua integralidade, e não podia faze-los concordar com a doutrina oficial da igreja romana ou com seu sistema teológico razoavelmente bem articulado. Quando esboçou a doutrina da salvação pela fé somente, que é a sua contribuição individual a reforma protestante, sua posição tornou-se insustentável nesse quadro. E no entanto, seguindo Aristóteles e buscando conduzir Lutero ao absurdo, os teólogos Católicos apelavam dramaticamente a lógica, a razão, a coerência, etc Queriam sobretudo demonstrar que a doutrina da salvação pela fé somente não se podiam conciliar com os demais elementos do sistema Católico posto que havia ali contradição formal.

Lutero não era bobo. Sabia muito bem que todo aquele discurso em torno da coerência, da concordância, da lógica ou da racionalidade estava fundamentado na Filosofia aristotélica. Assim no mesmo instante em que aderiu formalmente ao fideísmo de Agostinho, rompeu com a Teologia latina e canonizou o irracionalismo principiou a atacar furiosamente ao 'pagão' Aristóteles e a sua Filosofia e ataca-la com o mesmo empenho com que atacava o Papa. A razão passou a ser apresentada como uma louca ou uma bruxa e a Teologia - ao menos durante algum tempo - substituída pela Bíblia e pelo estava escrito na dimensão subjetivista que tão bem conhecemos. Ao menos durante a vida de Lutero o luteranismo e o protestantismo nascente assumiram uma feição notadamente anti aristotélica, fazendo-se herdeiro e porta voz de toda aquela crítica precedente. Assim se os aristotélicos e racionalistas apegaram-se a igreja romana os irracionalistas abraçaram entusiasticamente a nova forma de Cristianismo.

Desde então podemos dizer que houve um retorno a 'fé' - compreendida como fé cega ou fideismo ingênuo - ao livro (ou ao princípio do Sola Scritura), a cultura judaica, a religiosidade mórbida e fechada, etc Por fim a própria doutrina da igreja invisível, da união imediata com Deus (sem sacramentos), da presença simbólica, do repúdio as obras, enfim quase tudo no sistema protestante cheirava a ruptura com a imanência - desde já encarada pelos protestantes como pagã - a platonismo, a neo platonismo, a uma espiritualização ou a elaboração de um Cristianismo cada vez mais transcendente e separado do mundo a exemplo rabinismo e do islã. Zwinglio por exemplo, é apresentado por diversos teólogos contemporâneos como um aluno de Plotino ou neo platônico, a orientação no entanto é geral e se manifesta até mesmo no repúdio as imagens e no desprezo pela simbologia cultual. Todo sentido de lei Cristã e a consciência social do Cristianismo sai de cena passando o matrimônio a ser encarado como mero caso de polícia ou política. Toda direção religiosa, todo sentido, toda orientação volta-se para o outro mundo, para o além túmulo ou para o invisível enquanto busca frenética por uma salvação mágica.

Com a Reforma protestante no século XVI, o Cristianismo por assim dizer desencarna-se e desprende-se do mundo para refugiar--se nas alturas do céu. Nada mais platônico ou neo platônico. Até certo ponto devia o próprio leigo comportar-se como um monge as antigas e dedicar-se apenas a oração, ao culto, a leitura da bíblica e as discussões doutrinais i é a teoria, ao invés de ocupar-se em observar o mundo material. Sintomático aqui que Lutero tenha arremetido furiosamente contra Copérnico, o diácono da Igreja que se dedicara a observar o orbe estelar. Para ele os médicos eram embusteiros e o único meio de obter a cura para os males físicos era a fé, a oração ou o milagre. O afastar-se de Aristóteles e o aproximar-se de Agostinho ou Plotino implicou na deserção do mundo material ou natural por parte da Cristandade européia do século XVI. Foi uma passagem da curiosidade incipiente quanto ao mundo para a Bíblia, um exílio espiritual, um retrocesso em todos os sentidos, um imenso e colossal atraso.

Mas e quanto a Igreja romana i é a outra parte da Cristandade ou da Sociedade européia, que aconteceu?

Deflagrada a reforma, enunciados os novos princípios e produzido o novo modelo cultura nada tornou a ser como antes. Nem em termos de política, pois a igreja antiga achava-se enfraquecida, nem em termos de contato com o mundo, porquanto havia sido deflagrada uma guerra e ela, a igreja antiga, achava-se desfalcada em seus quadros. Desde então o quadro de monges e padres dedicados a produção cultural ou científica reduziu-se consideravelmente na medida em que foram sendo deslocados de setor ou mobilizados com o objetivo de entrar na controvérsia religiosa suscitada pelos reformadores. Veja que a partir da reforma protestante e ao cabo de uns cem anos a Europa como um todo a absorvida pela questão religiosa mergulhando de cabela na polêmica Católico/protestante. Diante deste fenômeno singular há quem, e Católicos inclusive, se deixe tomar pelo entusiasmo face a todo este delírio religioso, encarando-o como um efervescer de espiritualidade. E no entanto o que temos aqui são as fastidiosas controvérsias bíblicas, quase sempre de teor subjetivo até a chicana... 

É uma controvérsia inglória, um dispersar de energias, um afã estéril que nada viria a produzir de concreto senão mais e mais incredulidade, materialismo e ateísmo.

O que era de fato importante em termos de Cristianismo. Projeto sócio econômico, elaboração de uma ética essencial, produção artística, pesquisa científica, promoção humana, etc Tudo quanto realmente vale foi abandonado em benefício desta polêmica insana. Por cem anos a Reforma desviou a Europa de sua rota. Interrompeu bruscamente uma linha de progresso iniciada três séculos antes e abandonou o campo da imanência. Levando parte dos papistas a fazerem o mesmo.

É verdade que a partir do século XVII a pesquisa científica vai sendo paulatinamente retomada na Europa, mesmo no contesto protestante, na mesma medida em que as pessoas vão se cansando da Bíblia, das controvérsias e da religião. De modo que ao contrário da Idade média, a pesquisa e produção científica já não são assumidas por homens sinceramente religiosos, mas cada vez mais e numa escala mais larga por homens irreligiosos, e enfim pelos materialistas e ateus, alguns dos quais aspiravam destruir a própria religião.

A ideologia e a cultura no entanto eram Cristãs, formalmente Cristãs e portanto espiritualistas ou abertas a imaterialidade. Aqui a ruptura foi quiçá mais intensa do que aquela outra representada pela passagem do paganismo ao Cristianismo. Pois o homem moderno, o homem irreligioso não conseguiu elaborar uma espiritualidade irreligiosa como o homem antigo havia elaborado uma religiosidade monoteísta. Parte cada vez mais considerável deste homens irreligiosos mostrou-se incapaz de cultivar uma religião natural, a exemplo dos antigos Filósofos gregos, abraçando com fervor não apenas a tese do materialismo, mas inclusive a do ateísmo uma perspectiva combativa. E é evidente que a adoção a priori da tese materialista - por simples ódio ou repúdio a religião - fechou todas estas mentes para a simples possibilidade do imaterial presente na materialidade. Para nossa cultura pós reforma protestante a imaterialidade converteu-se em tabu, ficando relegada ao setor religioso.

A princípio esse aparelho conceitual materialista e ateu - ora assumido aprioristicamente, a semelhança de um credo, não apenas pelos cientificistas mas por muito cientistas (Mesmo no campo das ciências humanas) com a maior boa fé - inexistia, precisando ser fabricado. A nós cabe compreender a fabricação deste credo materialista em termos de epistemologia ou melhor de metafísica, para poder avalia-lo com máxima justeza, sabendo que não corresponde ele mesmo a um dado empírico, sensível e observável mas uma formulação conceitual, produto da especulação filosófica ou da metafísica que eles mesmo arrenegam hipocritamente, permitam me dizer.

O aspecto mais angustioso do materialismo é justamente sua recusa desonesta e terminante em assumir-se a si mesmo como aparelho conceitual ou ideológico e não como fenômeno observável.

A princípio os ingleses, segundo sua tradição empirista - que como vimos deita raízes na Idade Média - dedicaram-se a investigar a capacidade do aparelho sensorial e da percepção, e da experiência, tendo em vista construção do conhecimento humano. Assim F Bacon ao tecer suas criticas, até certo ponto justas, aos aristotélicos obtusos. Assim Locke ao retomar o esquema Aristotélico da Tábua rasa. Tal e qual na antiguidade, a partir do enfoque empirista, chegou a Filosofia contemporânea a Davi Hume, o qual não tornou-se seu Copérnico, justamente por alienar-se dela, digo da Filosofia. Afinal, segundo V Brochard (cf Céticos Gregos) o ceticismo crasso é antes de tudo uma recusa ao dialogo e a Filosofia. Hume é o patriarca do ceticismo contemporâneo enquanto afirmação contraditória em torno de uma dúvida absoluta ou enquanto simples negação do discurso e de todo discurso. Claro que Hume se tornou famoso, mas jamais conquistou a adesão geral dos pensadores, e isto mesmo em tempos de crise (O ceticismo é um dos sintomas da crise).

Devido a seu paralogismo fundamental nem pode afirmar-se como Filosofia, quando não assume o lema da Epoché ou da ataraxia, tomada por Pirro de Elis a fé búdica. Para por ai e por ai fica enquanto apologia da inércia.

Diante disto outros caminhos, e bastante radicais no âmbito da Filosofia, tiveram de ser deslindados e quase que paralelamente, se quem que seguindo tradições totalmente distintas. Assim na França Católica da Universidade de Paris, centro universal da escolástica. Assim na Alemanha Luterana e anti escolástica.

Os franceses juntamente com os ingleses se vão pela via do empirismo, chegando demasiado cedo ao sensualismo crasso com Condillac e ao materialismo epicurista com P Gassendi. Curioso aqui é que tanto Condillac quanto Gassendi eram padres e ao que parece sinceros em suas convicções religiosas. Afinal não é nesta mesma França que deparamos com um grupo de 'céticos' Católicos ou melhor dizendo de agostinianos puros, tradicionalistas, filo luteranos... representados por Gentian Hervetius (Um dos campeões na luta contra o protestantismo) e sobretudo M Montaigne autor dos famosos Ensaios??? Então a que propósito vem escocês Hume, a pouco citado?

Hume por não ter religião ou fé era um cético completo. Os franceses eram céticos quanto a tudo, os sentidos, a razão... mas não quanto a fé. M Montaigne é a seu tempo reprodutor de monumentos antigos e sobretudo consumado literato. Hume é quem aprofunda e amplia as reflexões céticas contribuindo com algo de propriamente seu por ser posterior ao grande Locke e poder expô-lo ao crivo da crítica, bem como ao velho F Bacon.

Herdeiros deste espírito escolástico essencial alguns iluminados franceses é que por primeira vez levarão a cabo o plano ambicioso de novamente inserir o materialismo e por primeira vez inserir o ateísmo nos domínios da Filosofia produzindo por assim dizer uma metafísica materialista e ateia. Diga-se deles que estavam equivocados mas nunca e jamais que foram desonestos. Assim D Holbach, La Metrie e o Dr Pierre Cabanis os quais formularam seus sistemas conforme os princípios da Metafísica pelos fins do décimo oitavo século.

Enquanto isso pelas Alemanhas, mais precisamente na pitoresca Koenisberg, alguém estava decidido a vindicar sua fé ancestral e a levar os preconceitos irracionalistas, anti escolásticos e anti aristotélicos os domínios da Filosofia. Tais os planos do sr Immanuel Kant. O qual além de ser profundamente ilustrado - basta dizer que era geógrafo - possuia conhecimento incomuns e matéria de lógica e de pura lógica aristotélica. A princípio parece ter lido algumas linhas em termos de escolástica, no entanto pouco mais tarde desejou queimar toda produção medieval, julgando ter sido acordado ou iluminado pelo iconoclástico Hume, o qual tampouco lograva satisfaze-lo por duvidar de absolutamente tudo e nada deixar ao homem.

Hume precisava ser consertado e Lutero glorificado. Kant era aquele que elaborando o idealismo crítico deveria fazer uma e outra coisa, estabelecendo as fronteiras do conhecimento e negando metafisicamente a metafisica. Metafisicando estabeleceu Kant que só podíamos conhecer ou ter acesso aos fenômenos através da querida ciência com seu paradigma da materialidade. Já o que se achava por trás dos fenômenos nada se podia saber de concreto ou definitivo, devendo o homem abster-se de afirmar e conformar-se com sua ignorância. Fé religiosa ou cega e ciência era tudo quanto tínhamos. A metafísica e por ext quase toda Filosofia (inclusive suas investigações epistemológicas, gnoseológicas e éticas) não passavam de opinião ou de fantasia e o raciocínio, a lógica, a dedução, separados da experiencialidade pura para nada serviam.

Tal o idolatrado Kant da Razão pura. 

A princípio houve quem o aplaudisse entusiasticamente por ter degolado o monstro repugnante do Deísmo. No entanto quando o outro lado percebeu que também a metafísica negativa ou ateística dos iluminados franceses era igualmente repudiada, e que Kant nas entrelinhas, antecipava o agnosticismo insonso de Comte e Huxley os aplausos foram cessando. Doloroso e sumamente doloroso para os ateístas terem se ouvir que Kant sendo agnóstico condenada sua metafisica tão arrevezadinha repetidamente surrada por escolásticos, aristotélicos, deístas, platônicos, ecléticos, etc E o grande Kant não lhes podiam socorrer. Mas como se Kant, a exemplo de Aristóteles quanto ao tema da alma, afirmava a existência de Deus com base na fé???

O fato é que havia coisa ainda mais séria ou pior para os produtores desta ideologia ou aparelho conceitual apriorístico.

Kant, que era muito dado a refletir ou a metafisicar com seus botões estava destinado quase que a ser revisionista de si mesmo. Pois quando postula a impossibilidade do conhecimento metafísico esta a bem da verdade fazendo um recorte e por metafísica querendo dizer Teodicéia. Tudo quanto ele quer dizer é que a existência de Deus não pode ser provada dedutivamente. Metafísica do conhecimento ele mesmo faz santo Deus! Acaso não esta ali escrevendo resmas e resmas de folhas sobre Epistemologia e Gnoseologia??? Pois bem agora na 'odiada' - um dos livros mais sabotados e odiados de todos os tempos - Razão Prática, que fará ele?

Eis que agora eu desdigo o que digo ou desminto o que falei...

Afinal, por conhecer de passagem as páginas monumentais de Vitória, Soto, Bañes, Cano e Suarez ele bem sabe que não é possível haver ética essencial e objetiva da pessoa humana nos termos de um Sócrates ou de um Platão sem postular uma Lei natural, como sabe do mesmo modo que é impossível postular a existência de uma lei natural, universal e imperativa sem admitir, necessariamente, a existência de um Legislador ou princípio Supremo ou transcendente. Mais ainda, sendo muito bem informado, Kant como V Brochard sabia que esta fora a cruz do ceticismo antigo e que o ateísmo e o materialismo não dariam uma ética essencial da pessoa tal e qual um boi não dá leite e galo não deita ovos.

Deu, merda e no campo da Ética o genial e arguto Kant afirmou exatamente o que negará no campo da teodicéia. É como se o alemão dissesse: Teodicéia é bobagem e não podemos atingir em si mesma a existência de Deus ou demonstra-la, no entanto no campo metafísico da Ética, relativo ao comportamento e interação social entre os seres humanos é absolutamente necessária a existência de um padrão externo, universal e objetivo ou seja de Deus. Morto ali ei-lo por absoluta necessidade ressuscitado aqui.

Que concluir a partir disto?

O grande público imparcial e objetivo conclui sem mais pela genialidade ímpar do Kant do primeiro livro e pela boçalidade extrema do Kant do segundo livro, o qual certamente já devia estar gagá ou esclerosado como os ex ateus Litreé e Flew antes de terem morrido.

Para fazer um justo juízo sobre Kant deveríamos ler ambas as obras, mas, os emancipados ateus e materialistas não leêm a 'Crítica da razão pura' o verdadeiro patinho feio da Filosofia.

Até aqui vimos que Kant não prestou lá grandes serviços a ideologia ateística, chegando a ultraja-la por sinal, em que pese ser considerado o mais arguto dos filósofos contemporâneos. Vejamos agora os serviços que prestou no campo do materialismo, do cientificismo, da ciência e da materialidade.

Continua -