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segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Comunismo > Uma metafísica paralítica

Já nos expressamos inúmeras vezes a propósito do Comunismo.

Primeiro enquanto ideologia reprodutora, a qual além de assumir um tipo ideal posto pelo Cristianismo antigo ou pelo socratismo\platonismo,  reproduziu igualmente diversos vícios do capitalismo, do liberalismo político primitivo e do positivismo, como o materialismo economicista, o 'método' revolucionário e o relativismo ético - Isto a ponto de formar uma construção sincrética.

De fato não se pode negar que apesar de todos os seus erros possuí o Comunismo algo em comum com o socratismo e o Cristianismo antigo, que é a sensibilidade face a injustiça e a aspiração de reformar a ordem natural das coisas, eliminando a injustiça. 

Enquanto que a suprema miséria do capitalismo, do positivismo e do darwinismo social, bem como do ceticismo é conformar-se com o mundo tal qual é, aceitando suas mazelas e avaliando-as como algo comum ou mesmo invencível. 

Em que pese o materialismo tomado ao capitalismo, os comunistas não acompanharam seus companheiros 'coerentes'. Mantendo o ideário Cristão segundo o qual deve a realidade do mundo conformar-se com um ideal Ético ou com uma Lei natural e suprema. 

Por parte do Cristianismo antigo, conformar-se com o mundo e seus pecados, seus vícios ou suas maldades é blasfemo, devendo a ordem do mundo ser corrigida e reformada segundo a lei natural e suprema.

Portanto o Cristianismo leal ao Evangelho e o Comunismo partilham do mesmo sentimento de revolta. 

Sendo em parte o Comunismo, um Cristianismo apostólico secularizado. Tal e qual o capitalismo e o destino manifesto são secularizações do protestantismo. Em certo sentido o conflito "Catolicismos" ou "Ortodoxia" e protestantismo, prolonga-se no conflito "Socialismos" X Capitalismo. Apenas a luta secularizou-se, mas mantém o sentido. 

Naturalmente que o materialismo, sendo necessariamente mecanicista, não se encaixa com esse sentimento de inconformidade ou mesmo com o método revolucionário.

Justiça seja feita a Marx, porquanto era ele etapista - Reconhecendo que caberia ao processo histórico ou a evolução interna do próprio capitalismo que produziria as condições necessárias para que a Revolução fosse bem sucedida. Cabendo ao comunista estar atento para reconhecer o sinal dos tempos, e atuar em comunhão com a História.

Foi Lênin que, partindo de Sorel, objetor e adversário de Marx, eliminou o etapismo ou o determinismo materialista e propôs que a Revolução poderia ser feita noutros contextos. Talvez por isso as revoluções Comunistas tenham revertido e falhado. Por outro lado Marx não foi capaz de perceber a habilidade do capitalismo para adaptar-se as condições externas, inclusive restringindo-se, contendo-se ou limitando-se quando sob pressão ou ameaçado pelas sociedades tradicionais.

Sorel sendo irracionalista, meio idealista e próximo ao anarquismo com o paradigma do espontaneísmo ou da imprevisibilidade, o qual de modo algum se encaixa com o materialismo e seu decorrente determinismo\etapismo.

Bom lembrar que esse ideal revolucionário jacobinista surge não num contexto materialista dialético porém num contexto materialista mecanista ou formal e de uma total incompreensibilidade em termos de cultura. A ideia, bastante ingênua por sinal, é que o poder, a violência, a força ou o terror pudessem mudar a cultura ou dos padrões de comportamento pessoal e social.

Basta dizer que serenado o terror os padrões culturais anteriores são restabelecidos. E as tais revoluções, após tantas calamidades, revertem. E tal se dá porque a cultura tem dinâmica própria, a qual não é necessariamente material.

Outro aspecto é o relativismo ético, comum aos pós modernistas e derivado do positivismo. O qual dificilmente concilia-se com um ideal de justiça que leva a reforma. 

No entanto o que mais choca o observador atento quanto o comunismo é sua fixação no século XIX. A qual chega a ser escrupulosa, uma vez que atribuem aos escritos de Marx, Engels e Lênin o status religiosos da infalibilidade e da irreformabilidade - Como se tivessem esgotado todas as possibilidades do passado, do presente e do futuro. 

Não poucos entre eles continuam reproduzindo a milonga positivista e anti racionalista, derivada de Kant e Condorcet sobre a ciência ser a única forma digna de conhecimento, etc Quando é, o materialismo querido, uma elaboração metafísica, por violar a demarcação kantiana. 

Outro aspecto simplório do comunismo é a imagem do proletariado urbano e industrial como agente redentor. E consequentemente o menosprezo pelo homem do campo, as prevenções contra aquele funcionariado público que representa a odiada classe média, o horror ao lupem proletariado... 

Continuam eles, os comunistas, encarando a História como um combate épico, binário e maniqueísta entre dois grupos ou facções: Burguesia e proletariado... Enquanto a partir de 1870\80 tornou-se a sociedade capitalista muito mais complexa e variada, com inúmeras sociais intermediárias... (E aqui temos Sorokin, Parsons e Timacheff, dentre outros). Eles porém não abrem mão de seu reducionismo simplista e de sua narrativa ingênua e romântica - Na qual tudo gira em torno de um choque entre dois grupos.

Para eles o mundo jamais mudou e continuamos situados no século XIX...

Outro rudimento metafísico é a concepção do conflito como motor da História. Pois eles mesmos admitem que o conflito parte da propriedade privada (Não necessariamente da propriedade privada dos meios de produção - Pois aqui, com Marx - há certa plausibilidade.), a qual é posterior a Idade primitiva, o que implica situar a Idade primitiva fora da História, justamente devido a sua 'imobilidade' ou ritmo lento, não marcado pelo conflito em torno da posse da propriedade, uma vez que era comunal.

Bem, o que questionamos aqui não é o movimento ou o progresso porém seu ritmo acelerado face a limitação dos recursos materiais de que dispomos. 

Outro o caso do futuro - Pois se a cosmovisão marxista (Que gira em torno de uma Dialética que parte do conflito e da propriedade.) assumir que a derradeira fase - Inaugurada pelo advento do Comunismo - implica a cessação do conflito, teremos de admitir o fim do movimento dialético e por consequencia o fim da História. E aqui é a História como uma espécie de túnel porque passa a humanidade... Pois ao fim tornaríamos ao repouso ou a imobilidade do começo i é da Idade primitiva.

De minha parte encaro esse túnel ou sanduíche como algo muito menos aberrante que o progresso ilimitado ou infinito dos positivistas - Pois tudo quanto começa deve ter um fim. Sem embargo disto, os comunas, ao serem questionados pelos positivistas, anarquistas e outros, alegam que o fim do conflito ou da dialética e o advento do comunismo não marcará o fim de todo conflito porém apenas do conflito economico, que incide sobre as classes. Obviamente que existem ou surgirão outros conflitos (De natureza diversa) que darão continuidade a outro ciclo de movimentação dialética. Mas quem não percebe que essa resposta vai pelos caminhos da imaginação e da fantasia. Pois teria havido outro ciclo de movimento dialético, de outra natureza, na Idade primitiva...

Agora - Existe de fato um motor da História... Ou é ela movimentada por diversos motores...

Já disse que Marx focalizou a propriedade dos meios de produção, relacionada com o modelo capitalista. E aqui parece haver certa verdade, vislumbrada ante dele por um Sismondi, dentre outros... Outro problema do Marxismo é a visibilidade limitada da História de que dispunha Marx em seu tempo - Tempo em que a egiptologia de Champollion e Lepsius e a sumeriologia de Grotefend e Rawllinson estavam a dar os primeiros passos e a idade primitiva de Pertez e Lartet engatinhava... 

Foi as apalpeladas ou tateando que Marx tentou elaborar um esquema tanto mais amplo e metafísico - No pior sentido do termo. Assim a questão do conflito como motor de todas as fases da História, de grupos lutando uns contra os outros, de reformulações sintéticas, etc Através das quais o esquema Burguesia X Proletariado se antecipa e perpetua sob outros termos, como senhor e servo ou dono e escravizado... 

Todos estes esquemas genéricos, como o de Vico, o de Adam Smith, o de Lord Kames, o de A Fergunson, o de St Simon, o de Comte e enfim o de Marx representam uma fase bastante rudimentar da sociologia. 

Quanto a proposta de Marx ou sua tentativa metafísica de classificar as fases ou períodos da evolução social de nossa espécie é importante dizer que teve continuidade sob a escola de Lukács e seus seguidores. Os quais fazem incidir suas críticas não apenas sob a atual forma de posse da propriedade privada i é quanto aos meios de produção, mas sobre todas a propriedade privada como um todo. Por isso registrei acima que os lukacscianos identificaram o ponto de partida do conflito a partir do fim da propriedade comunitária e o surgimento da propriedade privada> A partir daí só mudam os nomes e podemos definir a História humana como uma luta por propriedade ou poder. (E chegamos a Adler, transfuga de Freud)

Naturalmente que nenhuma dessas especulações pode ser rigorosamente demonstrada. E tanto pior para elas enquanto atreladas ao falso paradigma positivista da monocausalidade. Se é certo que o regime de propriedade influencia a produção da cultura, nada nos indica que ele apenas determine a totalidade dos elementos de uma cultura.

E Ratzel teria mais razão em apontar a terra e o regime alimentar como criador de técnicas agrícolas e de técnicas alimentares plasmadoras de cultura. De modo que teríamos antes uma cultura do arroz, uma cultura do trigo, uma cultura do sorgo, uma cultura do milho, uma cultura da batata, uma cultura da mandioca, etc que uma cultura de patrícios e clientes ou de pillis e maceuallis... 

Não quero lançar fora deste processo formativo o dono e o escravizado ou o senhor e o servo, quero porém inserir o ambiente: Gélido, montanhoso, paludoso, florestal, etc as matrizes alimentares... A Escrita, o Bronze, a Ceramica, as Crenças religiosas, etc Numa perspectiva pluri causal, tendo em vista a complexidade da cultura e o processo de sua afirmação.

Certamente o regime de propriedade teve lá seu papel e importancia, mas, não atuou sozinho.

Outro equívoco que atribuo ao marxismo\comunismo e que deriva da ideologia materialista diz respeito diz respeito a compreensão deles a respeito do que seja Capitalismo. O qual definem como uma modo de produção. Do qual deriva um modo de remuneração> O salário. E enfim certas relações estruturais. 

E toda uma definição formal, mecanica e material do liberalismo economico.

Eu no entanto considero tanto mais exata e profunda a definição posta por Sombart, em termos de 'Geist' ou espírito - Quero dizer enquanto conjunto de princípios e valores que derivam da consciencia ou como uma emanação psicológica ou mental que se faz social e cria estruturas.

De fato suponho e creio ter razões para tanto, que o éthos capitalista é um tipo de mentalidade que deriva da pessoa, uma tendencia do caráter... etc e relaciono esse espírito com o que os antigos chamavam de avareza ou acúmulo.

Foi a partir dessa distinção que o padre Meinvielle - Servindo-se da linguagem aristotélica (Em torno das causalidades) - tentou explicar porque a igreja papa, ao condenar o comunismo não condenou o capitalismo ou ao menos sua totalidade. O quanto o Cristianismo pode e deve condenar sem remissão é a fonte do Capitalismo i é seu espírito 'geist', a avareza, o acúmulo desmedido, a ambição ilimitada, o materialismo, etc não a estrutura por ele produzida, a qual sendo neutra, bem poderia ser reutilizada caso tal espírito fosse contido. Não é o caso de que não possa ser destruída (Como querem os comunistas - Pois a proposta meramente econômica dos comunas não se opõem a fé!) e sim de que essa destruição não é imposta pela fé porém assunto por assim dizer puramente humano.

Agora limitando-se a condenar o espírito 'geist' do capitalismo, não fornece o Cristianismo qualquer tipo de chancela divina ou religiosa a estrutura do regime capitalista, como querem os oportunistas infiltrados na Igreja. Ao menos o Cristianismo Ortodoxo, fiel a tradição da Igreja, jamais poderá santificar a propriedade privada dos meios de produção. 

Outro o caso da propriedade privada pessoal derivada do trabalho. Esta o Cristianismo assume como religiosa e intocável enquanto expressão de um direito natural estabelecido pelo poder Supremo. O quanto a pessoa obteve por meio de seu esforço pessoal e de que faz uso para manter-se pertence-lhe legitimamente e não lhe pode ser tomando sem que tal constitua-se em roubo, logo pecado. Neste caso toda e qualquer apropriação, tendo em vista o Bem comum, exige uma indenização por parte do poder público ou do Estado.

Quanto ao espírito materialista, excessivamente ambicioso ou avaro do capitalismo, já no berço, avaliou-o a igreja como maligno.

Até aqui nossas críticas ao Comunismo ou melhor dizendo, apenas algumas delas.

Obviamente que não pode o Cristão aderir ao sistema comunista em sua totalidade - Pelo simples fato de dogmatizar em torno da ideologia ateísta e afirmar-se como materialista. 
 

Conheça também os demais artigos da série 'Culturas de morte': 


  • Americanismo
  • Conservadorismo
  • Anarquismo
  • Positivismo
  • Protestantismo
  • Capitalismo
  • Fascismo
  • Pós Modernismo
  • Sionismo 
  • etc


sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Resposta as objeções de Hume - Uma ética essencialista/humanista

Este artigo tem por objetivo responder, de modo claro e sucinto, as objeções lançadas contra o essencialismo Ético ou realismo moral (subentenda-se ético) por David Hume e reforçar a defesa do padrão humanista.

A tarefa é de suma importância uma vez que segundo o há citado J Rachels "Pensamos que a escravidão corresponde a uma injustiça e que aqueles que pensem de modo diverso estejam errados... MAS NÃO É FÁCIL DEFENDER O PONTO DE VISTA DO SENSO COMUM."

Todavia em lugar de ESCRAVIDÃO - assumido o ponto de vista de Hume ou dos céticos - você pode ler qualquer coisa: Estupro, tortura, assassinato, pedofilia... que tudo continua sendo opinião defensável. Noutras palavras, as pessoas que discordam de nossa opinião negativa, a respeito do estupro, da tortura, do assassinato, etc não devem renunciar a tais desejos por estarem erradas, mas apenas e tão somente abster-se de coloca-los em prática tendo em vista sua criminalização pela lei e o risco de serem presas pela polícia e encaminhadas as autoridades.

Agora imagine amigo leitor que fariam tais pessoas caso as condições - assim o poder ou a posse das riquezas - as colocasse acima da lei ou as impedisse de serem descobertas ou pegas?

Noutras palavras, sendo incapaz de convencer ou de persuadir internamente o sujeito, a convenção social depende sempre de constrangimento externo ou força física para forçar o comportamento. A convenção supõem sempre a existência se polícia, comarca, exército e estado para manter-se e portanto de condições ideais. Em casos extremos de anomia, como revoluções, guerras, epidemias, catástrofes naturais, etc a moralidade cética da convenção desaparece e o homem converte-se em lobo do outro homem. Pois falta-lhe qualquer critério exterior a si mesmo e ao estado.

Não, não é fácil defender o ponto de vista do senso comum segundo o qual a escravidão ou o estupro correspondem a males essenciais e não a males relativos ou subjetivos. MAS CORRESPONDE A UMA NECESSIDADE IMINENTE ou teremos uma Ética ilusória e aparente.

Daí a necessidade de darmos uma resposta contundente aos problemas levantados pelo epistemólogo inglês -

Então vamos a eles:

  • Problema ontológico ou atinente ao ser: Será que existem fatos morais?

"Caso realizemos um inventário a respeito do quanto encontramos no mundo damos com pedras, árvores, átomos, estrelas, etc ... mas não encontramos o bem ou o mal, a justiça ou a injustiça, etc"

É evidente que aqui estamos diante do vezo materialista, e miseravelmente defendido pois certamente não chegamos a encontrar todas as entidades materiais que existem no universo. As quais existem mesmo sem que tenhamos qualquer conhecimento delas.

No entanto falamos bastante a respeito do bem e do mal, apenas não os localizamos em qualquer lugar ou ponto do universo. Justamente porque não se tratam de objetos, coisas ou elementos materiais.

Diante disto principiamos concedendo e sem maiores dificuldades que não existem fatos morais ou que a ética esteja dentro dos objetos ou das coisas enquanto parte deles.

O Juízo moral é julgamento que parte sempre de seres livre e racionais ou de seres humanos tendo em vista uma relação que encontra-se fora deles.

É um juízo que parte de princípios e valores existentes no interior do homem e direciona-se para eventos ou fatos que acham-se fora dele.

Isto por que os juízos verdadeiramente éticos, incidem sempre sobre as ações de outros seres humanos ou a interação entre seres humanos e seres humanos bem como a interação ser humano e determinado objeto.

É juízo, e portanto ato interno e mental, não externo e material, que incide sobre uma relação humana qualquer e não sobre objetos ou coisas. É juízo que tem por fim julgar as ações postas em prática por outros seres humanos.

Evidentemente que este juízo depende de um ser material, racional e livre para existir. Donde o juízo ético é fenômeno psicológico ou mental existente no ser humano e que tem por escopo levar este mesmo ser a posicionar-se face a atuação alheia igualmente racional e livre.

Portanto o que existem são fatos externos ou relações externas ciadas pelo homem, as quais são objeto de avaliação por outros seres humanos, avaliação que se dá a nível interno de consciência.

Quanto valorativamente avaliado por alguém é que as situações externas de relação adquirem um 'status' ético. Não se convertem em fatos éticos mas ficam sendo sempre atos humanos relacionais eticamente considerados. Assim a relação é sempre um fato e fato material: Pedrinho matou o gato, e o juízo moral, fenômeno mental e igualmente factual: Ana julga que Pedrinho cometeu um ato condenável. Este juízo imaterial existe verdadeiramente na consciência de Ana.

 “Pense-se em qualquer ação malévola: um assassínio premeditado, por exemplo. Examinemo-lo sob todos os prismas e veja-se se conseguimos a questão de facto ou a existência real para aquilo a que chamamos vício. Seja qual for o modo como a ação foi executada apenas encontraremos certas paixões, motivos, volições e pensamento. Não existe qualquer questão de fato neste caso." continua Hume
Se o fato é um assassinato, podemos defini-lo objetivamente como supressão da vida humana. É justamente este fato de suprimir a vida alheia que é objeto de juízo ético ou valorativo, não o modo ou a forma como a vida é tirada, mas por sinal o simples desejo ou intenção de suprimi-la. O malignidade incide sobre a ação externa, real e positiva de eliminar a vida alheia. Se a vida deve ser encarada como um bem e fonte de todos os demais bens, é evidente que sua eliminação corresponde a um mal...



  • O problema epistemológico - Como identificar os tais fatos morais?


"Em ciência distingue-se a existência de coisas pela observação e experimentação, ou talvez através da inferência a partir de observações e experiências. Em matemática há demonstrações. Na vida comum confiamos na percepção comum. Mas os factos morais não são acessíveis através de qualquer um destes métodos familiares..."

Uma vez que os fenômenos avaliados pela ética são sempre fenômenos humanos de relação, todos são perfeitamente observáveis e acessíveis aos sentidos.

Assim "Hitler mandou massacrar seis milhões de Judeus." ou "Eduardo Cunha mentiu sobre as contas existentes na Suíça." são fenômenos de relação, pois Hitler matou alguém e Cunha mentiu a Alguém. 
Aos atos relacionais segue a avaliação ética em torno de determinados princípios e valores. A confecção ou elaboração de um juízo ético pela consciência.


  • O problema da motivação ou da intencionalidade.


    Segundo Hume enquanto a razão é um princípio neutro, a Ética é levada a influenciar a vontade. Donde se segue que sua fonte é o sentimento ou a emoção e não a razão. As regras da moral não procedem da razão.


    Curioso que os kantianos, neo kantianos e 'modernistas' continuem a reproduzir as lições psicológicas fornecidas por Hume cem anos antes de que a Psicologia se converte-se em ciência.

    De fato a teoria dos setores compartimentados e coordenados da mente ao menos em certo sentido, baixou a sepultura com a psicologia clássica e ainda que não tenha sido completamente substituída pela psicanalise teve de ceder lugar a reformulação elaborada por Kofka e Kohler nos termos tanto mais realistas e complexos da gestalt.

    Aqui Kant deitou e rolou e mesmo Aristóteles concedeu sem maiores dificuldades que a razão deve ser exercitada ou educada para não ceder levianamente aos apelos da vontade. Sem no entanto declarar que os sentimentos são sempre e necessariamente irracionais. Tal o problema análogo da Intuição, que já foi definida como operação racional inconsciente e por isso mais acelerada.

    Agora consideramos que o juízo ético tem por objeto as ações alheias.

    Digo das ações livre e conscientes. Pois o que não foi realizado consciente e livremente não possui qualidade ética.

    O que julgamos são as atitudes alheias com base em determinados princípios e valores.

    Importa saber se tais princípios são arbitrários e irracionais, enquanto resíduos de cultura ou resultado de convenção, ou racionais enquanto tomados a vida.

    Nós somos pela racionalidade dos princípios Éticos bem compreendidos.

    Agora por que bem compreendidos?

    Chegamos aqui ao nervo da questão que é a distinção entre Ética e moral.

    (Nós mesmos empregamos ambas as expressões como equivalentes, seguindo o senso comum ou opinião popular)

    Lamentavelmente muita poeria tem sido lançada sobre o tema com o premeditado intuito de obscurece-lo.

    Mas ficaremos com a definição corrente e mais divulgada: A moral diz respeito a costumes, ex: Tirar o chapéu diante dos mais velhos, descobrir-se a mesa, usar garfo e faca, não chamar nomes, evitar usar roupas curtas ou expor certas partes do corpo, etc

    E CONCEDEMOS QUE A MORAL É CONVENCIONAL, CAPRICHOSA, ARBITRÁRIA E IRRACIONAL...
          Por isso que não estamos abordando o tema da moral ou dos costumes, o qual para nós é abso-
          lutamente irrelevante.

          O que estamos a discutir aqui são conceitos éticos ou seja princípios e valores expressos pelos             termos: Bem e mal, certo e errado, justo e injusto; e assim pelas virtudes do bem, da verdade, 
          da justiça, etc E por certas ações humanas atinentes a vida e ao trabalho: assassinato, roubo,
          traição, mentira, etc É a respeito de tais conceitos, virtudes e ações que falamos e não sobre 
          costumes ou modos externos de ser.

          Assim se avaliamos as ações humanas por meio de determinados princípios e valores que a 
          reta razão afirma como excelentes, nada mais justo e ainda racional, que mover a vontade para
          por em prática as mesmas virtudes e valores. Pois o princípio da coerência também emana da
          razão.

          Ademais se consideramos que este ou aquele princípio procede da reta razão, é perfeitamente             normal que busquemos consagrar-lhe todos os aspectos da personalidade e assim a afetividade.
          Assim o que é racional é bom e o que é bom deve ser amado. Por isso vemos com absoluta na-
          turalidade a virtude atrair os sentimentos e os sentidos fixarem-se na virtude. Nada mais con-
          forme a natureza do que a razão despertar o afeto, o amor, simpatia, e trazer jungido a seus
          pés o império da vontade.

          Os homens buscam viver eticamente justamente porque estão convencidos de que os princípios
          e valores que norteiam a ética são racionais, reflexivos, essenciais, verdadeiros e não arbitrários
          como as normas e regras impostas pela moral.

          Por fim é a Ética lei universal presente na consciência humana com o objetivo de regular a
          vontade livre direcionando-a para aquilo que é bom e virtuoso. Dai seu caráter normativo - 
          I Kant diria de "Imperativo categórico" - e não meramente descritivo e a gosto dos positivis-
          tas. Uma Ética meramente descritiva seria simplesmente impossível uma vez que sua tarefa é
          a elaboração de juízos de valor, de juízos ideais sobre aquilo que deve ser.