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quinta-feira, 16 de março de 2023

Psicologia, psicanálise, Freud e a questão da multiplicidade de existências - Reflexões sobre a obra de Hermínio C Miranda 'A memória e o tempo' Edicel 1984 - Parte III

 A comédia behaviorista


             


      

         No entanto os senhores e profetas do materialismo não descansam. E a exemplo de Jao jamais dormem ou cochilam...

          E por isso resolveram tomar a Psicologia de assalto e introduzir a querida ideologia no território do espírito, que é a mente.


          Foi essa façanha realizada nos EUA por um certo J B Watson, o inventor daquela Psicologia 'materialista' e 'científica' - Em oposição ao Freudismo e a Psicanálise -  chamada behaviorismo.

           Tem a expressão behaviorismo sua origem em Behaviour ou comportamento, pelo simples fato de limitar-se a analisar aqueles fenômenos externos aos quais damos o nome de comportamento. 

            Em suma o behaviorismo ocupa-se apenas do quanto aflora a consciência do sujeito ou a suas interações com o mundo.

            Isto porque, para seus teóricos, algo semelhante a uma mente ou agregado de ideias, conceitos, opiniões, crenças, esperanças - IMATERIAIS, não pode ter existência própria ou real e menos ainda atuar sobre o corpo físico. 

             Portanto, caso esse ente, cognominado mente exista, é por assim dizer inacessível ou incognoscível (Quem aqui lembra do sr Kant...) i é não pode ser estudado ou conhecido. Dando na mesma avançar e declarar que a dita mente inexiste ou que foi inventada por Freud e seus sequazes...

              Necessário dizer que o behaviorismo ou melhor seu pai, Watson, parte do fisiologista russo Pavlov, o qual, há cerca de um século, trabalhando com cães, descobriu o reflexo condicionado ou o condicionamento comportamental - Nos cães e por ext em gatos, ratos... A esse tempo era já ateu e materialista, por obra e graça do partido comunista...

              Era algo relativo ao comportamento de certos animais que ora sabemos serem dotados de inteligência - O que obviamente nada tem a ver com o tal condicionamento, pelo simples fato de ser fenômeno totalmente distinto e irredutível a ele. 

              E no entanto teve o Behaviorismo a 'magnífica' ideia de aplicar o dito condicionamento aos seres humanos com exclusão de quaisquer fenômenos propriamente mentais, como se tudo explicasse. Pelo que batizaram o condicionamento associado ao comportamento - Humano ou animal, uma vez que para eles dá sempre no mesmo. - sob a alcunha de reforços. 

              Observe a equação: Dos impulsos ou sensações neuronais (Portanto materiais) parte o condicionamento, do condicionamento os reforços e dos reforços o comportamento e tudo quanto nós idiotas temos em conta de consciência ou personalidade.

               Pois se não existe mente não pode existir consciência ou personalidade na acepção clássica dos termos. 

               Portanto inexiste qualquer solução estável ou coerente face ao mundo externo e menos ainda qualquer centro ou polo organização 'mental'. É como se a aberrante doutrina do Caos surgisse primeiramente no campo da Psicologia, pelo simples fato de converter o ser humano num confuso agregado de ações externas. 

                Mesmo algo mais ou menos estável como princípios, valores e crenças resultam em última análise de interações neuronais, quiçá, ao menos em parte causadas ou provocadas pelo condicionamento externo ou melhor dizendo pelos reforços positivos e negativos. 

                 Adiante: A Sociedade, de alguma maneira, tendo em vista certos interesses misteriosos, treina ou amestra os atores sociais para que assumam determinadas posturas. 

                 Perceba o amigo leitor nos domínios da Psicologia, por obra e graça do behaviorismo, o mesmo reducionismo - Afilhado do materialismo e por ext do positivismo! - presente na Biologia... Desde agora convertidas em desdobramentos da Química e da Física, inclusive sujeitas as mesmas leis básicas. 

                  Perceba ainda que ao fim dessa linha tudo quanto resta é Química ou melhor dizendo Física, diluindo-se todo conhecimento nela. Pelo behaviorismo é eliminado o conceito de mente no Homo Sapiens (O qual, por puro preconceito, jamais fora aplicado aos outros animais.). Ficando o humano nivelado a caricatura que fazíamos das 'bestas'... Pelo behaviorismo homem e animais são nivelados pela eliminação da inteligência, da consciência, da personalidade, da mente... De tudo quanto distingue homem e animais dos vegetais ou dos minerais. 

                      Convém lembrar aqui que Kant não apenas reconhecia a necessidade de produzir uma área dedicada ao conhecimento do mundo mental como a colocava ao lado da física e da Filosofia. Kant 197. B 876. 

                       Eis porque, o behaviorismo, eliminando todas essas entidades ou fenômenos que fogem a compreensão de seu materialismo crasso,  elimina precisamente o humano, e consequentemente - Desumaniza, despersonaliza, reduz, simplifica, empobrece... até apresentar humanos e animais como agregados de sensações ou de impulsos neuronais necessariamente caóticos.


                       De fato o ideólogo materialista Buchner (O mais mansinho deles) refere-se ao homem nestes termos: "Não sendo senão produto da matéria, não é o ser que os moralistas pintam." - O que por sinal tem lá uma pitadinha de Sade... E nem poderia ser ético sem estar em posse de sua liberdade ou livre arbítrio.

                       Tal o serviço prestado ao homem, a criatura racional e livre, pela ideologia materialista. Entre nós e um pé de couve ou uma bananeira não há qualquer diferença essencial. 

                        Agora sem objeto próprio, admitida a xaropada reducionista, tanto a Psicologia como a Biologia perdem por completo a razão de ser, por perderem o objeto próprio, no caso da primeira a mente e no caso da segunda a vida. Considere que se tudo quanto há é comportamento ou ação e que essas por meio do reforço ou do condicionamento, partem dos neurônios tudo quanto temos é medicina, fisiologia, biologia... Pois fica a Psicologia sendo caso de interações ou contatos neuronais, a serem estudados, repito, pela Fisiologia ou pela Biologia. 

                     Por fim se a Biologia reverte, não sei porque processos misteriosos, a Química ou da Física, convertendo-se em bailado de átomos ou em equações e fórmulas matemáticas, já não existe Biologia propriamente dita. 

                     A conclusão a que se chega é simples: Privadas de seus objetos específicos Biologia e Psicologia desaparecem por completo ou saem de cena sem deixar vestígios. A menos que se convertam em departamento da Química e da Física pelas quais são absorvidas. 

                     A bem da verdade, amigo leitor, quanto a Psicologia, sequer o nome os positivistas apreciam, como podemos ler nesta peça de E J Litreé: "Talvez pareça insólita a expressão de 'fisiologia psíquica'. Poderia ter escolhido Psicologia para designar o estudo das faculdades intelectuais e morais... porém sendo certo que a Psicologia foi, em sua origem, e ainda é o 'estudo do espírito' considerado como distinto da substância nervosa, NÃO DEVO NEM QUERO SERVIR-ME DUMA EXPRESSÃO QUE PERTENCE A UM TIPO DE FILOSOFIA MUITO DIFERENTE DAQUELA QUE EMPRESTA SEU NOME AS CIÊNCIAS POSITIVAS. NESTAS CIÊNCIAS NÃO SE CONHECE PROPRIEDADE ALGUMA DISTINTA DA MATÉRIA... Daí ter escolhido eu a palavra 'fisiologia' e bem poderia ter optado por 'fisiologia cerebral' embora esta envolva assunto bem mais vasto... tudo quanto aqui pretendo é... inculcar que a descrição DOS FENÔMENOS PSÍQUICOS, COM SUA SUBORDINAÇÃO E ENCADEAMENTO, ENQUANTO PURA FISIOLOGIA EM TERMOS DE FUNÇÃO E EFEITOS. Desde que a Psicologia rompeu com as ideias inatas e adotou o esquema de Locke APROXIMOU-SE DA FISIOLOGIA. E tanto mais a Fisiologia se de conta da extensão de seus domínios, tanto menos se assustou com os anátemas da Psicologia... HOJE NÃO RESTA JÁ DÚVIDA ALGUMA DE QUE OS FENÔMENOS INTELECTUAIS E MORAIS SÃO FENÔMENOS PERTENCENTES AO SISTEMA NERVOSO E QUE O TIPO HUMANO NADA MAIS É QUE UM ELO (UM TANTO MAIS LARGO) DUMA CADEIA QUE SE PROLONGA, SEM NÍTIDOS LIMITES ATÉ AS MAIS SIMPLES FORMAS DE VIDA... contanto que empreguemos o método descritivo, derivado da observação e da experiência, será ela FISIOLOGIA." Litreé "A ciência sob o ponto de vista filosófico" Paris 1873 p 306 e "A filosofia positiva' 23 de Março de 1860. - Percebe como tudo quanto existe para o sucessor de Comte é Psiquiatria...

                     Aqui Mirville "A ordem começará a reinar na mente humana apenas no dia em que a Psicologia se transformar numa espécie de física cerebral e a História numa espécie de física social." 

                     Destarte o complexo humano torna-se incrivelmente simples e compreensível. Somos agregados de nervos que são agregados de átomos... Nada a mais, nada além. E tudo quanto fuja a esse esquema, como a Evolução das formas de vida ou a mente, seja eliminado, oculto ou posto debaixo do tapete. E tudo fica muito bem assim porque o sr materialismo o quer...

                       Átomos que ligam-se uns aos outros numa loteria da sorte... Células que se unem umas as outras noutra loteria de sorte... Tecidos que se encontram, mais uma vez, numa terceira loteria de sorte... E desse turbilhão confuso de matéria, saem - Como Atena armada da cabeça de Zeus seu pai... - leis físico químicas, vida e pensamento> Tudo numa palavra: Golpe de sorte... Resultado de átomos e células e tecidos bailando ao acaso...

                   Melhor descomplicar e após falsear a Evolução dos seres vivos eliminar a mente...

                   Destarte facilitam-se as coisas para o materialismo e quem discordar deixa de ser científico... Quanta manipulação ideológica e desonestidade.

                    Isso num tempo em que podemos, a força de demonstrações, reverter toda xaropada e admitir que grande parte dos animais - Por questão de estudos me limito aos mamíferos! - possui não apenas inteligência, mas vida metal e portanto mente, da qual resultam fenômenos psicológicos complexos...

                     Já não se trata, como no miserável esquema behaviorista, de reduzir a criatura humana a uma 'animalidade' já mutilada e muito mal compreendida e sim de atribuir ao animal uma vida psíquica ou mental injustamente negada. Pois cães e gatos sonham... e tem neuroses, traumas, fobias, etc

                     Podemos portanto falar já não em reducionismo físico químico mas em Psiquismo e Psicologia animal. Fútil a tentativa ideológica de eliminar a mente e a razão no Ser humano quando a primeira manifesta-se já nos animais mais próximo senão em quase todos. 

                      Enfim para poder entrar no esquema materialista deve a condição humana ser simplificada ou melhor despojada de elementos constituintes que lhe são essenciais como a racionalidade e o livre arbítrio. Pois somente com a negação de tais elementos pode enquadrar-se no esquema materialista equivalendo já a um pé de couve ou a uma laranjeira... Admitida sua complexidade manifesta e sua vida mental ou psicológica fica o materialismo em maus lençóis...

                   Não sei porque caminhos confirma-se um veredito lavrado em séculos passados e segundo o qual a destruição de Deus e da Imortalidade - E não estou falando de fé ou religião. Vão estudar Aristóteles e Platão seus burros! - resultariam na destruição ou mutilação do próprio ser humano. E o behaviorismo nos domínios da Psicologia nada mais é do que isso: Uma mutilação, negação e empobrecimento da natureza humana...

              Reservo para o fim a resposta de Paul Janet a Litreé e os positivistas
: "A mentes que foram criadas nas ciências exatas e positivas, mas que, entretanto, sentem como que um impulso irresistível para a Filosofia. E elas não podem satisfazer um tal instinto senão com os elementos que já têm em mãos. IGNORANTES EM CIÊNCIAS PSICOLÓGICAS E TENDO ESTUDADO APENAS OS RUDIMENTOS DA METAFÍSICAS, estão dispostas todavia, a combater, tanto a metafísica quanto a psicologia, sobre a qual quase nada sabem. Tendo feito isso, elas se imaginam criadoras de uma ciência positiva, no entanto o que elas criaram foi uma teoria metafísica nova, mutilada e incompleta. Arrogam-se a autoridade e infalibilidade que pertencem as ciências reais, baseadas na experiência e no cálculo; mas elas são desprovidas dessa autoridade, pois as suas ideias, tão defeituosas quanto possam ser, pertencem a mesma classe daquelas que buscam combater." Janet "Revue des Deux Mondes; 01 de Agosto de 1864 p 727 sgs 


 


          

quarta-feira, 15 de março de 2023

Psicologia, psicanálise, Freud e a questão da multiplicidade de existências - Reflexões sobre a obra de Hermínio C Miranda 'A memória e o tempo' Edicel 1984 - Parte I

Ao passar por uma Banca de Jornais - Esta convertida e Bazar enquanto outras tantas foram convertidas em mini Shoppings por obra e graça do mundo digital. - avistei uma pilha de livros velhos, da qual extraí um bom número de volumes interessantes, dentre eles uma brochura esverdeada, de umas cento e cinquenta páginas e intitulada 'A memória e o tempo'. Nem é preciso advertir de que a comprei e também os mais volumes interessantes, num total de vinte e poucos.

Havia, dentre eles, a Biografia completa do sr Kardec por Zeus Wantuil em três alentados volumes, dos quais eu havia tido um só e perdi há muitos anos. Diversos volumes de Parapsicologia, alguns volumes do Herculano Pires, um do Bozzano, etc E como disse fiz a ceifa.

Quiçá alguns tenham já concluído: Quanta baboseira ou que desperdício... Julgo porém que, ao contrário do genial Karl Sagan, diriam a mesma coisa da Odisseia de Homero, do Teatro de Sófocles ou da República de Platão. Refiro-me aos materialistas crassos, aos positivistas inveterados e aos cientificistas a exemplo do falecido Mário Bunge, enfim de toda essa gente que jamais fora capaz de escrever uma opereta medíocre ou um draminha satírico - Gente tão alienada quanto a outra gente que tanto gostam de criticar.

A exceção das baboseiras esotéricas - Que se embrenham pelos campos da História, da Geografia ou da Astronomia. - divulgadas por Churchward, Posnansky, Braghine, Donnely, etc leio praticamente tudo. 

Há mais de trinta anos tomei por divisa está pequenina frase: "Examinai tudo e ficai com o que proveitoso é." e dela não me aparto. Tanto isto é verdade que, mesmo não sendo adepto das Ideologias ateísta e materialista, bem como da mística positivista. contínuo a ler diversas publicações congêneres tendo em vista garimpar algumas coisas boas e formular uma visão de mundo, quanto possível mais equilibrada.

Naturalmente que leio muito Freud, o qual apesar de seus erros, alguns dos quais aberrantes - ainda me encanta. E Darwin, e Marx, e Weber, e Malthus, etc na medida em que a leitura dos clássicos me permite. Nada do quanto seja humano ou mesmo natural me é indiferente...

Claro que a exceção da fé Cristã não respeito Ortodoxia ou sistema algum - Embora admire certos construtos como o de Sócrates, o de Aristóteles, o de Malthus e o de Max Weber - pelo simples fato de saber que não existem seres humanos infalíveis... Sou sinceramente Católico Ortodoxo por julgar que tal sistema, quanto a sua parte mais íntima (A dogmática) seja divina ou Revelada por Deus. No campo da própria Teologia sou já rebelado e portanto suspeito...

Portanto não creio em ortodoxias, sistemas fechados, místicas secularizadas ou igrejolas humanas... 

Concordo portanto com os agnósticos, filhos de Huxley, quando apresentam o ateísmo e o materialismo como são i é como elaborações metafísicas e tão metafísicas quanto o teísmo e o espiritualismo, pelo simples fato de ultrapassarem os dados imediatamente sensíveis em sua rude simplicidade. Excluída a reflexão racional (Metafísica) impugnada pelo rude escocês, só nos resta silenciar sobre todos esses assuntos ou calar a boca...

E não concordo menos com os espíritas, quando apontam o materialismo dos cientificistas, como igualmente ideológico e não como científico. Especialmente no que tange os domínios da Psicologia - Aqui o estrago e a tragédia são muito maiores! 

Podemos admitir sem maiores problemas que a exceção da Psicologia, a ciência ou as ciências são materiais pelo simples fato de que o campo devassado por elas é a materialidade. Cumpre-nos repetir aqui a lição do agnosticismo: Uma coisa é ter a ciência, de modo geral, como material e outra por materialista; pois ali cumpre com seu escopo> Investigar a matéria, enquanto aqui, ultrapassa a si mesma e a seu escopo, predicando - Sem mínima legitimidade! - que nada há para além da dimensão material do ser, predicação que foge tanto ao empirismo como a ciência...

Criticam os marxistas quando invadem o campo das ciências humanas, a começar pela História e pela Geografia, introduzindo sua Ideologia grande parte ideativa ou metafísica (Weber!) e sem embargo disto, imitam-nos - O Dawkins, o Harris, o Dennett e outros - invadindo o campo de ciências que por definição são exatas ou naturais e introduzindo opiniões metafísicas como se empíricas fossem ou como tivessem dado com o princípio materialista na gema do ovo ou com o ateísmo na partícula do Argônio... Mas onde encontraram e isolaram tais 'elementos''... E como os formularam sem o auxílio da 'razão' impugnada por Hume.

Bem aventurados os materialistas e ateus que não se fantasiam como cientistas, céticos ou positivistas assumindo o caráter metafísico de suas crenças mais queridas. No entanto em tempos nos quais é a Filosofia sistematicamente repudiada e a honestidade escasseia tal postura se torna rara.

Ateísmo e teísmo, materialismo e espiritualismo, etc não são questões religiosas - Que se resolvem por meio da fé ou de livros autoritativos. - e menos ainda questões científicas a serem solvidas num gabinete científico ou laboratório e sim questões de ordem metafísica a serem examinadas e julgadas por cada pessoa com máxima liberdade > Embora para tanto deva haver preparo i é investigação, pesquisa, estudo ou leitura.

Vender tais lucubrações por elementos científicos, como faz a ralé positivista até os dias de hoje, é pura e simples falta de caráter.

Por isso os espíritas e alguns romanos tem plena razão ao denuncia-los, respirando indignação inclusive.

Tanto pior o resultado dessa falsa propaganda no campo daquele tipo de conhecimento que é por assim dizer o único que foge ao estrito campo das demais ciências: A Psicologia...

Principiou a falsa ciência 'materialista' na França, com o ideólogos De Holbach, La Metrie e Clothes, dentre outros... Asseverando que NÃO HAVIA imaterialidade alguma e que a existência do espírito era falsa. Tudo quanto havia era matéria ou materialidade... Tal o materialismo crasso, formal e mecanicista dos quais muitos teóricos acharam por bem desprender-se no decorrer do século XIX quando a barquinha começou a fazer água.

No entanto os resistentes ou 'ortodoxos' asseveravam, de geração em geração, que na geração seguinte, a inexistência do espírito ou a fábula do imaterial seria rigorosamente demonstrada num laboratório. 

O primeiro foi Broussais, o francês... o qual chegou a declarar - Como Branly um século depois - que caso testificasse qualquer evento de natureza imaterial NÃO ACREDITARIA rsrsrs Após ele foi a vez do comunista Joseph Dietzgen, o qual tendo declarado que a ciência havia demonstrado experimentalmente o princípio do materialismo, foi advertido e corrigido pelo próprio Engels. Pouco depois Engels declarou que os comunistas não eram materialistas formais ou crassos pelo simples fato de não negarem a existência do imaterial e sua interação com o material inclusive. Por fim assomou o inteligente Lênin, o qual numa obra de inegável valor 'Materialismo e empiro criticismo' e opinou que não tardaria muito tempo para que o princípio materialista fosse empiricamente demonstrado.

A questão é que desde aquele tempo, a geração de Engels, os dois campos tiveram que reformular o conceito de materialismo tendo em vista sua sobrevivência no âmbito das ideias. Pois conforme a ciência progredia se tornava cada vez mais difícil o óbvio, que era a existência de um elemento imaterial ou espiritual. Eram os tempos de Ch Darwin, o qual demonstrou o princípio da Evolução no campo da biologia, abrindo novas perspectivas, das quais se aproveitaram diversos pensadores, como um Spencer por exemplo. 

A recomposição deu-se justamente nesse sentido, da evolução - A princípio existia, apenas o elemento material (Daí monismo materialista.) o qual, a cabo de um lento processo evolutivo, se foi depurando ou tornando menos denso (Espiritualizando...) até dar origem ao espírito ou ao imaterial... Portanto se havia algo de imaterial ou espiritual no mundo esse algo teria se originado a partir do elemento material, pelo que o material seria a origem de tudo. Creio que tal construção remonte inclusive a Lucrécio, mas não sei exatamente.

Em meio a tantas revoluções ou transformações o conhecimento da mente não pode deixar de cindir-se em duas correntes não apenas distintas mas rivais: O que ora chamamos Psiquiatria e a que ora chamamos Psicologia... sabendo que está última remonta a Th Fechner e Wundt e que a primeira não teve dificuldade alguma em ser reconhecida como legítima ou científica. 

Outro o caso da segunda....

Importante salientar que ainda hoje, em pleno século XXI, há ideólogos - Positivistas, cientificistas, materialistas... - que repudiam não apenas a parapsicologia, como a psicanalise e até mesmo a psicologia não colonizada ou não behaviorista, como construtos semelhantes as diretrizes comunistas ou a astrologia... Um sujeito de rara inteligente como Popper, inclusive, enredado por Hume, lançou a Psicanálise, a parapsicologia e a Evolução das espécies no mesmo balaio que a astrologia e as diretrizes marxistas, o que nos possibilita antever o caráter sectário desde tipo de mentalidade.

Outros positivistas lançam ainda História, a Filosofia, a Jurisprudência... no mesmo balaio, de modo que só seria ciência o que eles querem e do jeitinho que querem, e isso mais de século após W Dilthey ter pulverizado seus preconceitos sectários. 

Para que a crença querida do materialismo seja científica toda ciência precisa ser materialista...  Portanto caso o campo científico em questão - Pelo simples fato de ser humano e não sideral, mineral ou vegetal. - destoe do materialismo cessa por isso mesmo de ser científico ou respeitável. Engenhoso não...

Que pensem assim os físicos e químicos e ainda alguns naturalistas por serem reducionistas e paladinos da monocausalidade com as bençãos do capelão Ockhan bem se compreende. Agora que tais prejuízos se tenham afirmado no campo da Psicologia, que é uma ciência da mente, é bem outra coisa...

Durante a segunda metade do século XIX, o conflito não estourou abertamente devido as personalidades conciliadoras e respeitáveis dos já citados Fechner e Wundt. Tratava-se de um conflito apenas latente, em que a Psicologia nascente era muito mal vista e encarada com suspeição enquanto a Psiquiatria era muito bem acolhida pelos líderes cientificistas. 

Assim até os idos de 189... ou até a última década do século XIX. Período em que, após a morte de J M Charcot, a controvérsia Salpêtrière - Nancy tendia a serenar. Foi no entanto quando justamente tornou-se universal. Pois junto a Charcot estava um jovem ateísta e presumidamente materialista, S Freud, e do outro lado do Reno, Wagner Jauregg e Emil Kraepelin. 

O quanto podemos dizer é que nesse período - Ao menos até a criação do behaviorismo por Watson! - surgiu um divisor de águas entre Psiquiatria e Psicologia que possibilitou a plena expressão da última. E tal se deve, paradoxalmente, a S Freud. É com Freud que a Psicologia desprende-se, como deveria, da psiquiatria ou da determinação somática unilateral para postular a existência de fenômenos psicosomáticos. 

Até hoje, um século depois, ainda podemos testemunhar a rivalidade existente entre essas duas áreas - Psiquiatria e Psicologia, as quais para o bem dos seres humanos, deveriam caminhar juntas. A resistência no entanto é quase sempre mais viva nos domínios da Psiquiatria, partindo obviamente dos cientificistas, animados pela ideologia materialista. O resultado disto é a rejeição seja da Psicologia ou da Psicanalise por eles, e o reconhecimento exclusivo - Por motivos que nos parecem óbvios. - dessa Psicologia esvaziada e aparente chamada behaviorismo.

O behaviorismo é sempre bem vindo por qualquer psiquiatra pelo simples fato de negar a mente e por extensão qualquer coisa de imaterial ou espiritual. 

Antes da criação desse ente aberrante chamado behaviorismo, era a Psicologia repudiada em bloco por parte significativa de psiquiatras.




sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Pelos caminhos traiçoeiros do positivismo

Resultado de imagem para S Freud
O supremo 'homem póstumo' do século XX fez muito mais do que desmistificar a sexualidade humana, sendo suas concepções Psicológicas prenhes de ilações Epistemológicas, Antropológicas e Sociais




Nas últimas palavras escritas por nós no artigo anterior salta a vista que o legítimo pai do positivismo, enquanto negação radical e arbitrária da metafísica ou melhor da teodicéia, foi o alemão Kant e não o francês Comte. 

No entanto o que para os alemães, ao menos para os irracionalistas luteranos, jamais chegará a ser novidade, do outro lado do Reno produziu frenesi. Isto pelo fato dos franceses terem tentado, segundo sua tradição cultural, assaltar a Filosofia e produzir uma metafísica ateia e materialista, o que como vimos redundou em total fracasso. Doravante tiveram os francos de se submeter ao império dos germânicos assimilando as doutrinas do sr Kant, tomando-as tanto mais a sério, aprofundando-as e ampliando-as.

Após Kant, Comte assumirá a negação da totalidade da metafísica, incluindo a negação da epistemologia, da gnoseologia, da Ética e da Filosofia como um todo, a qual pretendeu substituir justamente pelo que Hume negará e o alemão restabelecerá, a ciência. Até que ponto Comte foi capaz de perceber que condenando toda metafísica condenava seu guru não o sabemos. Quis ser mais papólico que o papa ou mais kantiano do que Kant e o foi. Desta radicalização de posições surgiu toda essa mística indigesta em torno da ciência e do progresso a que chamamos positivismo... Na Inglaterra o positivismo recebeu o nome de agnosticismo e alguns temperos bretões.

No entanto ao que parece a Filosofia ou melhor a metafísica parece não ter levado em conta a interdição baixada pelos francos e continuou a existir como se nada tivesse acontecido. E isto a ponto de nas Alemanhas um certo Schopenhauer ter definido o homem como um ser essencialmente metafísico. Estranho teria sido caso a sútil disciplina inventada pelos gregos geniais vinte séculos passados, tivesse se submetido aos ímpetos do homenzinho de Koenisberga...

Destarte Comte se suas hostes não tiveram outra saída a não ser denunciar o conhecimento filosófico como relíquia dos tempos pretéritos e passar ao terreno da Sociologia, novo campo da ciência que tendo sido ocupado por eles recebeu toda carga do materialismo mecanicista comum ao tempo, e o que é pior, em termos de ciência. A bem da verdade a própria elaboração das ciências humanas como a História, a Sociologia e a Psicologia, no ambiente cultural do século XIX, foi dramática por ter de se conformar com os dogmas aprioristas do Positivismo ou ser posta fora dos meios acadêmicos, nos quais a ordem do dia era transplantar o método exato, quantitativo ou experimental 'in totum' se possível, para o domínio das Humanidades. A ciência devia ser toda ela não apenas material mas absolutamente matemática, exata e quantificável, ou não ser. Era um pressuposto que não se discutia, pois os positivistas maliciosos ou ingênuos, acreditavam ou fingiam crer que não havia nada além de fato a serem descobertos e que cada um deles caia magicamente seu seu devido lugar sem a necessidade que qualquer aparato conceitual ou esquema predeterminado de mundo. Claro que homem semelhante concepção, que beira o absurdo, foi já relegada a condição de velharia ultrapassada. Os positivistas no entanto, na mesma medida em que reconheciam a existência de um aparato conceitual pré existente em que encaixavam os fatos, abandonavam o querido Kant e aproximavam-se de Hume, indo de um extremo a outro e flertando com o subjetivismo e o relativismo. Outro não foi o roteiro do sr Popper...
Como Agostinho e Lutero que eram religiosos e fanáticos também os positivistas não se detiveram face ao absurdo.

Para nós importa saber que devido ao influxo do positivismo foi o imaterial ou ideal alijado das ciências humanas, as quais tiveram que assumir o aspecto de sistemas fechados a exemplo de uma máquina qualquer. Assim a máquina da Sociedade, assim a máquina da mente... Estava o determinismo mecanicista, enquanto epifenômeno do materialismo, na ordem do dia. Marx tendo lido D Holbach postula uma Sociologia economicista absolutamente materialista segundo a qual a totalidade da cultura, incluindo a cultura imaterial ou ideal, é resultado das relações econômicas de produção. É falso que tenha inventado o materialismo contemporâneo - cuja formulação deve-se antes aos liberais - mas inegável que tenha formulado a primeira teoria social cem por cento materialista. Outras Sociologias buscaram ser mais comedidas ou apenas materiais, sem que no entanto, qualquer uma delas - mesmo a de Weber - tenha ousado situar o fenômeno humano no contesto a que faz jus e reconhecer-lhe a importância. Para a Sociologia o homem continua inexistindo e não pode ser posto, ao lado dos fatos sociais, como uma força doutra natureza.

De modo que a batalha pela recuperação do humano tinha de dar-se noutro terreno, deslindado pelos alemães Th Fechner e Wundt, já em meados do século XIX, Referi-mo-nos a Psicologia, que é a ciência da mente humana. Como a medicina negasse insistentemente o mesmerismo e, por vezo materialista, ridicularizasse tudo quanto lhe era atribuído; após Puysegur, o grande Liebault, Bernhein de Nancy e mesmo J M Charcot puseram-se a estudar a auto sugestão, dando com o inconsciente - P Janet - ou com a mente, o que seriamente não podiam assumir enquanto filhos de um século positivista. De fato estes homens chegaram a fronteira do imaterial ou do ideal, a qual no entanto haveria de ser ultrapassada somente pelo Dr Freud com sua teoria não somática ou não psiquiátrica de neurosa e a Psicanálise, método introspectivo e dialético que fazia lembrar a confissão Católica.

Freud foi quem ousou abrir a tampa que os positivistas haviam colocado sob o alçapão da mente e descreve-la dinamicamente ou como relação de forças/instâncias, enquanto o modelo clássico ou formal compartimentava artificialmente nossas capacidades mentais separando assim o intelectual do volitivo. Freud na mesma linha que Kant, Nietzsche, Dilthey e outros teve esta separação por arbitrária.

Foi S Freud, o ateu, o materialista e o positivista que recuperou o homem todo para a ciência e iniciou a grande Revolução epistemológica e metafísica, o que por si só já nos revela o drama desse gênio sucessivamente apontado como incoerente. Este homem por natureza e cultura é que deveria ter concebido e formulado o behaviorismo ( de J B Watson tbém conhecido como Psicologia rasa ou comportamental devido a seu viés materialista). Mas dá com a Psicanalise. Este homem que deveria ter passado a vida dissecando cérebros descobre a mente ou o elemento imaterial posto de lado desde 1700... Este homem deveria ter se contentando com os fenômenos externos de consciência, mas deduz a existência de um inconsciente ideal. Este homem que não cre em alma ou imortalidade foi quem descobriu a instância do Eu a que não temos acesso. Este homem inicia a exploração de nosso universo interior, de nosso eu... e cria a Psicologia profunda.

Observem quem era Freud e o que fez e deduzirão por sua obstinação e probidade. Eis um homem que se deixou levar por suas pesquisas e constatações contra seus postulados a ponto de converter-se na contradição ambulante.

Em certo sentido até podemos dizer que a Psicologia só se torna Psicologia com S Freud porquanto antes não passava de apêndice da Psiquiatria e por ext da medicina. De fato, todos os 'psicólogos' até J M Charcot investigavam o Psicológico sempre em conexão direta com o Somático ou melhor dizendo com o cérebro, os nervos e a medula. Assim o eminente Paul Broca. E não se cogitava no contrário. Charcot estava convencido de que suas pacientes tinham algum defeito estrutural, orgânico ou físico responsável pela condição neurótica. Teve no entanto de convir que tal defeito não podia estar situado nos membros e foi apenas uma questão de tempo para que seus conhecimentos em matéria de fisiologia o fizessem supor que inclusive o cérebro delas achava-se em ordem, suposição que o molestava enquanto positivista. Seja como for achou por bem colocar de lado toda esta questão e continuar buscando pelas supostas anomalias ou defeitos orgânicos, os quais jamais encontrou. Também, morreu logo depois e Freud é que ficou com a pulga atrás da orelha.

Freud foi ao encalço da pista e pode comprovar que os corpos e cérebros estavam sãos enquanto a mente mesma achava-se deteriorada e deteriorada atuava sobre o corpo, produzindo falsos sintomas ou falsas doenças, as ora chamadas enfermidades psico somáticas, enfermidades cuja gênese encontra-se no eu ou na mente, mas cujos efeitos manifestam-se concretamente no corpo. Eis o que Freud descobriu, que não é apenas o corpo que atua sobre a mente ou o comportamento através de suas glândulas e hormônios. Mas que em contrapartida também essa mente ou esse eu atua sobre o corpo físico danificando-o. Eis o que Freud, o materialista, descobriu.

Desde então forcejou nosso homem por conhecer melhor essa mente, seus recônditos e seus achaques, produzindo dúzias de obras interessantíssimas a cabo de meio século.

Agora eu vos pergunto amigo leitor? Que resultou disto? A conciliação entre Psiquiatria e Psicologia numa teoria realista??? A paz? A concórdia???

Nem bem começamos o século XXI e a paz ainda parece estar muito distante de ser alcançada neste terreno. Terreno em que Psicólogos e Psiquiatras ainda buscam afirmar suas posições radiciais; idealismo crasso aqui e materialismo ali... Os materialistas como já era de se esperar denunciaram a psicanalise como essencialmente charlatanesca e criaram seu domínio que é o do behaviorismo legatário da reflexologia pavloviana. Via de regra os Psicanalistas e psicólogos clássicos - como os da gestalt - folgam ignorar as contribuições elementares do behaviorismo e remetem seus afiliados a psiquiatria. Em diversos contextos culturais psiquiatra e psicólogo ainda trabalham separados e em oposição um ao outro.

Por outro lado não puderam Psicanalise e psicoterapias derivadas continuar sendo supinamente ignoradas pelos meios acadêmicos. Queremos dizer com isto que pela primeira vez na História foi o monopólio acadêmico do positivismo quebrado e uma doutrina que não se reconhece a si mesma como puramente material e menos ainda como materialista, pode enfim obter o justo reconhecimento ao menos de parte da comunidade científica. Isto é claro só foi possível na Psicologia e não nas demais áreas das ciências humanas que permaneceram hermeticamente fechadas a simples possibilidade do ideal. Grosso modo a luta jamais cessou, pelo simples fato de que um Eysenck ou um Silva Mello jamais baixaram a guarda contra o herético da Psicologia. Importa saber que para certo número de psicólogos a psicanalise não é ciência e nada teem de científica. Tal a opinião de K Popper.

O positivista verdadeiro no entanto é exigente, de modo que um deles acaba a escrever a Dawkins negando em alto e bom som o seu caráter de cientista pelo simples fato de ser Biólogo e não Físico ou Químico. Positivista há para quem apenas as duas únicas categorias absolutamente exatas e invariáveis de conhecimento são científicas. Quem pensar então sobre a História? A História é mais técnica do que outra coisa, assim o Direito... Que pensar da Sociologia??? A Sociologia peca por editar simultaneamente um grande número de teorias... E da Psicologia??? A Psicologia lida com um fantasma a que chama mente ou com o inverificável... Enfim tudo isto cheira bem a metafísica. O positivistas completam a medida de seus postulados asseverando que o único tipo seguro e válido de conhecimento é o conhecimento científico... Portanto???

Tudo quanto sabemos de certo se dá apenas em termos de Física e Química... O resto é incerto e duvidoso.

Calculem portanto o ódio votado pelos positivistas a psicologia, a Psicanalise e sobretudo a S Freud por ter ousado ir afronta-los em sua Zona de segurança...

Arrematando:

"Freud teve a grandeza - nem querida, nem procurada, nem percebida por ele mesmo - de introduzir na Psiquiatria um elemento transcendente o qual jamais quis chamar de alma, embora o fosse pois achava-se ao mesmo tempo impregnado de materialismo positivista. E no entanto apesar do materialismo positivista este homem adota uma posição espiritualista. Desde então a psiquiatria e a medicina foram obrigadas a afastarem-se do modelo tradicional do recorte e da abstração forçada da doença para encarar o doente como um pessoa ou como um ser integral, oi que tornou possível o surgimento da teoria Psico somática, a qual vai pelos caminhos da antropologia." Juan Bautista Torello 1961 p 68 sg

"Queremos dizer com isto que a doutrina de Freud é rigorosa e fielmente antropológica e que a a partir dela o enfermo passa a ser encarado como uma pessoa no pleno sentido da palavra? Não. Freud foi um antropólogo a seu pesar. Queria ser apenas Biólogo ou Psiquiatra no máximo, mas há que reconhecer que o enfoque do enfermo como ser racional, livre e íntimo, noutras palavras, enquanto pessoa pertence formal e necessariamente - apesar de suas sugestões em sentido contrário - a concepção psicanalítica da patografia; sem ela Freud jamais teria conseguido compreender ou mesmo descrever 'freudianamente' sequer um de seus neuróticos. Por isso foi dito que com sua obra é que a patologia humana principiou a ser antropológica, depois de ter sido apenas cosmológica." Entralgo 1950 p 124 sgs

Freud por não poder desvencilhar-se por completo da ganga cultural positivista teve de carregar eternamente consigo o estigma da incoerência.

De um modo ou de outro foi ele que abriu a primeira brecha no muro com que o positivismo havia cercado artificialmente nossas ciências humanas e devemos lamentar sinceramente não ter a Sociologia encontrado o seu Freud, rompido com o mecanismo fechado, superado o apriorismo material e recuperado a pessoa humana, até o momento presente encarada como simples peça movida pela engrenagem social.

Todos estes desvios e equívocos começaram a cerca de dois séculos, ocasião em que o homem decidiu fugir da metafísica e voltar as costas para o incognoscível. Deus foi proclamado ultrapassado e a metafísica morta, sem que apesar disto a mística naturalista continuasse a produzir outras tantas entidades não menos exóticas: Assim a meta da Revolução, o ideal do progresso linear, o materialismo dialético, o patriotismo abstrato ou nacionalismo, a estatolatria, o Mercado, o lucro, a pureza racial, etc Cronos não cessa de abater Uranos e Zeus de fazer guerra a Cronos, e os deuses vão se sucedendo uns após os outros...