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sexta-feira, 23 de julho de 2021

Entrevista - Continuação

02) Tipo Wallon, Piaget e Vygotsky?

Sem dúvida. Constrói-se o ser humano a partir do que recebeu ou trás, ordenando o conhecimento e estabelecendo relações orgânicas. Não é ele responsável pelo que é ou recebeu mas é responsável pelo que faz com o que é ou recebeu, na magnífica definição de Sartre. Parece que a capacidade de superar-se e de ultrapassar aquilo que ultrapassar aquilo que o influencia e limita faz parte de sua condição. 

O realismo no entanto, e tal realismo tem um acento trágico, considera que em parte dos humanos tal capacidade existe e existirá apenas como potência, jamais vindo a converter-se em ato. Isto por não ser ativada ou excitada pelo meio externo ou por uma educação de qualidade. O exercício da racionalidade precisa ser despertado pelo esforço educativo, o qual por isso mesmo é dever da comunidade, do grupo social ou do Estado. Pois é a partir da experiência educativa que as potencialidades humanas, em termos de habilidades e competências, tornam-se realidades. O que implica a necessidade de uma educação integral, que coloque as pessoas em contato com as principais correntes de pensamento, inclusive com as que sabemos não serem sadias, de modo a que as pessoas, atuando criticamente, façam a seleção. 

Uma educação completa ou integral não pode excluir qualquer elemento ou ser meramente técnica, como pretende este governo ideológico, acrítico e colaboracionista até o sectarismo, pressupondo que vivamos no melhor dos mundos ou sociedades possíveis e que nos devamos conformar com a injustiça. 

Uma educação humanista, integral e completa abarca a história da Filosofia ou do pensamento, a História da arte, a História das crenças religiosas, a História dos sistemas econômicos, Teoria sociológica, Teoria psicológica, Epistemologia, Gnoseologia, Ética, etc Nenhum destes conteúdos é inútil ou ocioso. Não é questão de luxo mas de colocar o ser humano em contato com universo de seu pensamento. Tampouco é necessário, ao apresentar tais conteúdos, afetar uma neutralidade artificial - Segundo os falsos pressupostos do positivismo - bastando que o expositor seja honesto, ou seja, que assuma leal e publicamente seus pressupostos e que jamais falsifique as opiniões de qualquer autor, atribuindo-lhe apenas o que ensinou. 

Na medida em que tais conteúdos são negados a parte dos cidadãos ou que lhes é imposta uma restrição que nada tem de neutra, lhes é negada uma contemplação mais ou menos completa da realidade psicológica, mental, social e histórica, e só podemos classificar uma tal negação em termos de ocultação intencional, e portanto de crime. Nem pode o Estado ocultar a realidade humana em sua complexidade, esconder, disfarçar, etc sem tornar-se manipulador. Implica tal opção - Sob quaisquer aspectos anti ética - alienar parte dos atores sociais e produzir massas. Todas as vezes que o Estado patrocina a ignorância ou a alienação ao invés de dilatar as fronteiras do conhecimento torna-se criminoso ou pecador.

Enfim nós acreditamos que o conhecimento da realidade ou o ensino integral (Que assume um conteúdo Ético) seja por si só libertador e que em certo sentido (Não no convencional empregado pelos sectários!) equipare-se a tão sonhada revolução. Os verdadeiros arsenais estão em nossas bibliotecas, as autênticas armas são os livros e a bomba mais poderosa é a informação associada a reflexão. 

Ema educação meramente 'positiva' ou técnica implica viés materialista e pragmático. É como dissemos educação aparente ou superficial, destinada a definir o espaço ou local do cidadão na sociedade e a criar excelentes empregados, operários, trabalhadores, subalternos, colaboradores, etc sempre incapazes de questionar a Sociedade ou de dialogar com ela. Fornecer uma educação para certo tipo de trabalho é negar oportunidade ao cidadão e fixa-lo. É sobretudo oferecer uma vidinha comum, prosaica ou trivial. É esterilizar o espírito. É destruir vocações. É condenar possíveis pensadores, cientistas, artistas, etc a inexistência. É mutilar o ser humano e fabricar possíveis fanáticos religiosos, marionetes, robôs, zumbis; em suma negacionistas. 

Temos de nos opor a esse tipo de educação limitada, sumária, superficial, seletiva... O qual trará morte ao espírito e acelerá a decadência da civilização. Precisamos de uma educação ou melhor de uma formação integral e humanista que fuja aos pressupostos artificiosos do positivismo e possibilite ao educando posicionar-se criticamente face a realidade do mundo.

02) Escola sem partido ou Ideologia?

A Ideologia porta-mo-la todos nós, cada um de nós, inclusive o positivista que afeta ser cem por cento objetivo. O positivismo no entanto é uma Ideologia como outra qualquer, assim como o Capitalismo - Que tampouco se assume quando busca formar colaboradores ingênuos e acríticos a partir do ensino público. - o ateísmo, o materialismo, etc  

É como nariz, cada qual tem o seu.

Importa que o educador, ao invés de afetar um a neutralidade utópica ou hipócrita, seja honesto ou leal, apresentando a suas turmas seus pressupostos ou sua afiliação ideológica e que ao expor o roteiro teórico da Psicologia, da Sociologia, da Filosofia ou da Pedagogia ao invés de fazer uma seleção sectária ofereça um panorama geral quanto possível completo. É necessário por fim que jamais falsifique as informações, atribuindo a cada pensador ou teórico o que realmente disse ou ensinou. 

Como no entanto é e deve ser a Escola, como salientou Dewey, uma organização democrática destinada a criar democratas, é natural que haja ampla liberdade de ensino, resultando desta abusos e confusão. No entanto é melhor conviver com os abusos de uma educação democrática ou liberal do que estabelecer uma educação autoritária no sentido de estabelecer um currículo fechado verticalmente imposto por ideólogos ainda piores. Aqui a atuação do sectarismo seria ainda pior e a emenda sairia pior do que o soneto. Melhor cometer equívocos por excesso de liberdade do que criar um currículo fechado, sectário e aparentemente objetivo.

Julgo no entanto que em meio a uma saudável esfera de liberdade deva haver um critério ou padrão sumário. De modo a evitar-se qualquer tipo de pregação ideológica semelhante a dos pastores e fanáticos. Concordo com certos críticos e reconheço que não é aconselhável ou de bom tom converter o plano de aula em catecismo comunista, fascista, nazista, capitalista ou anarquista. E julgo que o educador deva ou seguir o currículo, em parte completo, oferecido pelo Estado ou em caso de objeção, criar um roteiro completo e abrangente, que lhe permita circular com a sala pelas principais teorias ou doutrinas que compõem o ensino de sua disciplina. 

A melhor solução todavia me parece acompanhar a curiosidade dos alunos estimulando-os aula após aula a tirarem suas dúvidas ou a fazer perguntas. Creio que o melhor método consista em ouvir os educandos, permitindo, sempre que possível que a demanda intelectual e teórica parta deles. Dar voz ao aluno (E até empregaria o termo 'protagonismo' caso não estivesse batido.) é uma solução excelente. Quando uma pergunta parte de um aluno toda e qualquer restrição é criminosa parta do professor, d diretor, do dirigente, do secretário da Educação, do Governador, do ministro ou do presidente da República... Pois esse aluno tem direito ao saber, ao conhecimento a uma resposta consistente. 

Ofereçam o roteiro ou o currículo aos alunos e não hesitem, em caso de interesses divergentes, passar ao sufrágio. Permitam que o grupo ou a sala escolha o curso das aulas, que estabeleçam as prioridades. Convoquem os educandos a opinar. Partam da demanda ou da solicitação da turma e o ensino será democrático. 

Se os alunos perguntarem sobre o comunismo, exponham honestamente os ensinamentos de Marx, mesmo quando discordem dele. Se questionarem sobre o anarquismo ofereça-lhes Godwin, Stirner, Proudhon e Bakhunin, e Sorel; ainda Tolstoi, Kropotkin, Ellul, etc Se pedirem informações sobre o fascismo exponham fielmente as opiniões de Mussolini; e assim sucessivamente sem medo, receio u temor - Pois tal é a missão de um bom professor: Informar seus alunos. 

Partam dos alunos e não de vocês, é o que aconselho a todos os professores, inclusive aos sectários. E cessem com essas pregações impositivas e toscas. Do contrário os autoritários vão usar esse argumento contra a liberdade de ensino e convencer muita gente. 

03) Gnoseologia -

Sou por uma Gnoseologia forte e positiva.

Noutras palavras sou partidário de um dogmatismo moderado ou da possibilidade do conhecimento. Portanto contrário a afirmação cética, alias contraditória em si mesma, a menos que o ceticismo corresponda a uma exceção enquanto única verdade. Caso o ceticismo deva ser posto em dúvida que credibilidade merece ele? É uma proposta frágil e insegura.

Ademais pressupõe o ceticismo uma antropologia pessimista ou negativa, a qual é, por definição artificial, partindo sempre de crenças ou mitos, jamais duma análise sóbria da própria natureza. 

Caso Sorel alegue que é o dogmatismo ou a antropologia otimista dos antigos gregos fruto de sua realidade social, respondemos que a antropologia pessimista é fruto de conjuntura social ingrata, posterior a morte de Alexandre e a decomposição de seu Império... Dos epígonos, dos diádocos, etc

Ademais esse tipo de antropologia intrusa teve já seu roteiro e sua gênese traçada, reportando ao misticismo oriental, assim a Buda, a renúncia da vontade e ao nirvana. Haja visto que Pirro de Elias, segundo Laércio e outros doxógrafos gregos, havia sido ouvinte dos bicus... Nada de Filosófico aqui.

Para além disso admitimos que o otimismo ou realismo antropológico, em que pese seu caráter natural e naturalista, seja assimilado com mais facilidade por uma sociedade afortunada e segura de si. A admissão de um determinado padrão antropológico não é alheia ou indiferente a uma dada condição social, o que não significa que derive necessariamente dela.

Outro o caso do pessimismo. O qual jamais se sustentou sem petição a algum mito ou crença religiosa. O que continua sendo válido em nossos dias e em nossa cultura - Em que o pessimismo antropológico e cognitivo de modo geral é tributário do agostinianismo (Assim do Jansenismo, do luteranismo, do calvinismo e do protestantismo...) e este enfim do Maniqueísmo, Ideologia muito mais mazdeísta ou zoroastriana do que Cristã. 

Mesmo a igreja apostólica romana, admitindo um agostinianismo diluído, em diversos graus ou níveis, não deixou de portar e transmitir alguma dose desse veneno. Cuja aceitação por sinal, foi potencializada pela queda do império romano e pelo advento dos bárbaros germânicos no Ocidente e pelo advento do islã no Oriente. 

Nada de sério no pessimismo antropológico ou em seu resíduo cognitivo, mero epifenômeno de lendas religiosas potencializado por situações de crise ou decadência - Como a nossa... E reforçado seja pela baixa estima seja por um falso sentimento de culpa inconsciente.

Compreensível que nossa civilização decadente se tenha convertido em viveiro ou sementeira do Ceticismo. 

No entanto o que devemos considerar é a condição do ser humano. 

04 - Por que?

Porque o ser humano demanda pelo saber ou pelo conhecimento como demanda por água e alimento.

Alias enquanto o corpo demanda por água e alimento, a mente demanda pelo saber do qual se alimenta.

Admitir que jamais obtemos qualquer tipo de conhecimento e que nossa ignorância seja invencível é dar nossa espécie por frustrada. 

Coisa admirável, demandar a vontade por algo que esteja acima de nosso alcance ou seja impossível.

Além disso parte da espécie esta persuadida de que nosso aparelho cognitivo seja eficaz. 

Diante disto seriamos autorizados a concluir que as laranjeiras e bananeiras ao produzirem laranjas e bananas cumprem com sua função ou atuam conforme a natureza.

Nós no entanto apesar do propósito e de um aparelho cognitivo, falhamos... sendo como que abortos da natureza. Situação patética e dolorosa.

Estrelas, montanhas, árvores e vermes são mais felizes do que nós por não terem mínimo grau de consciência. Nós no entanto temos consciência para perceber que somos presas duma ignorância insuperável. 

Nada mais dramático do que ter consciência da própria ignorância e saber que nada pode ser feito para remediar tal condição.

Por tal via se chega muito rapidamente ao nihilismo crasso e logicamente ao suicídio.


05 - Epistemologia?

Sou partidário do realismo objetivo vinculado a escola de Aristóteles e dos escolásticos medievais, ou se preferem o senso comum de Th Reid. 

Quero dizer com isto que admito a existência da verdade, de algumas verdades absolutas e de certas verdades relativas porém não menos verazes.

A parte é maior do que o todo. Penso Logo existo. É o homem um ser para a morte.

Aqui quem duvida passe ligeiro a demonstração.

Recebo o óbvio ou o axiomático como verídico assim o que é comunitária ou socialmente percebido, embora hajam exceções. Nossos sentidos são limitados e por vezes falham, o que não significa que falhem sempre ou que nos enganem a todo momento.

Alias por ser limitado nosso conhecimento não se torna falso ou errôneo, pois são conceitos ou perspectivas distintas.

Considero não apenas válida como profunda a resposta dada por Antíoco de Ascalon aos relativistas e subjetivistas de seu tempo: Caso a experiência fosse criada pelos sentidos cada qual criaria a sua experiência e a sua verdade. Cada qual conceberia um mundo a parte e jamais nos poderíamos entender. Se nos entendemos é porque existe um fundo comum percebido por todos. Uma vez que aqueles que possuem a mesma qualidade dos sentidos percebem as mesmas formas, cores ou sons sem prévio acordo somos levados a concluir que as impressões sensoriais procedem não dos sujeitos cognoscentes e sim das coisas ou dos objetos.

Dizer que uma caneta é ou pode ser um lápis segundo a vontade do sujeito é emprestar demasiado poder as palavras. O que por birra ou capricho dizemos não muda a natura das coisas, e o contrário disto é o velho antropocentrismo. Semelhante aquele outro princípio falacioso segundo o qual existe o que é percebido... Todavia as estrelas e mundos que nos vemos continuam a subsistir sem das a miníma importância para nós ou nossa percepção. De fato você pode dar a um alfinete o nome de preskia, o alfinete no entanto continuará sendo aquilo que é, algo que pontudo que serve para furar. Também pode chamar um copo de avião, agora demonstrar que seja avião, entrando nele e decolando, esta acima de suas forças. De fato toda essa questão segundo a qual posso fazer dos objetos ou das coisas o que quiser é sempre pura balela, no máximo mudamos os nomes, não a essência das coisas. É um jogo de palavras miserável.

O que a coisa ou objeto é para cada um de nós ou para os indivíduos é irrelevante, importa o que os objetos ou coisas são em si mesmos e o que informam-nos sobre si mesmos. 

06) Verdade?

Relação de equivalência entre dado objeto ou coisa e nosso intelecto. Quando nossos sentidos detectam algo que se encontra presente no objeto temos este fenômeno relacional que é a verdade. Alias a verdade é sempre relativa, não quanto a vontade do sujeito, mas quanto ao objeto que é seu critério. 

Quando um grupo de estudantes percebe a forma retangular do quadro negro temos uma verdade. Quanto uma turma percebe a cor azul do armário temos outra verdade. Cada vez que atribuímos ou negamos determinada qualidade a um ser em conformidade com sua condição temos a verdade.

07) Critério ou padrão?

A evidência ou algo que nos é seguramente transmitido ou revelado pelo objeto ou, simplificando, a coisa ou o objeto.

08) Não o sujeito ou o aparelho sensorial?

De modo algum. O aparelho sensorial ou cognitivo limita-se a apropriar-se de um dado ou de um aspecto transmitido pelo objeto. Percebem os sentidos aquilo que está no objeto equivalendo portanto a um simples meio ou veículo. Percebemos através dos sentidos e não os sentidos. O quanto percebemos pertence ao objeto e nele se encontra.

09) Método, roteiro ou caminho?

Principiamos pela sensação e chegamos a relações bastante complexas que partem do Silogismo percorrendo um longo caminho: Sensação, Percepção, Abstração, Comparação, Conceito, Juízo (Que é uma relação afirmativa ou negativa entre dois conceitos) e Silogismo, a partir do qual temos diversas formulações lógicas. Isto quanto a nossos processos cognitivos triviais e comuns, a respeito dos quais nem sempre estamos conscientes ou fazemos quaisquer observações.

Caso atentemos ao esquema perceberemos que o conteúdo do conhecimento principia com a ação dos sentidos i é com a sensação e a percepção, posto que ao nascer não trazemos ou portamos qualquer conteúdo formal. O que, como já dissemos, não quer dizer que não portemos uma orientação esquemática, como uma espécie de programação de computador, destinada a ordenar o conhecimento adquirido. 

Com a abstração e a partir dela entramos nesse universo mental, lógico ou racional, que nos leva a formulação não apenas de silogismos mas de fórmulas, leis e teorias. 

Pois o roteiro do que conhecemos por ciência obedece ao mesma ordenação comum. Posto que inexiste experiência pura que por si mesma converta-se em fórmula, lei ou teoria. De fato se o ponto de partida para a Lei ou a Teoria são os dados coletados pela ciência, os esquemas de análise e síntese fogem já por completo a experiencialidade pura, correspondendo a operações mentais. Isto para não falarmos na na formulação daquela relação de termos que procede da natureza mesma das coisas. Essa relação, que é a Lei, é aduzida ou formulada pelo sujeito partindo de conceitos comuns que não são, necessariamente falando, objetos da experiência. Nem poderíamos levar a experiência aos primeiros princípios ou aos axiomas sem fazer eterna petição de princípios...

De modo que a ciência não é apenas experiência mas uma reflexão ponderada sobre os resultados da experiência dentro de um aparelho conceitual definido.

Segundo a visão equilibrada do Conceitualismo o conhecimento, seja qual for, resulta da ação comum e coordenada dos sentidos ou da experiência e do raciocínio ou da reflexão. Sendo fruto da empiria e da razão. Empirismo crasso e racionalismo crasso não passam de posicionamentos extremistas e equivocados. 

10) Metafísica?

Como já foi dito por Schopenhauer "É o homem um animal ou ser metafísico." 

E mesmo sem querer faz metafísica.

Por isso não partilho dos preconceitos do luterano I. Kant, alias tomados ao irracionalismo de Lutero, tributário de Ockhan e enfim do já citado Agostinho com sua antropologia pessimista. Nada de consistente nessa filosofia alemã, espécie de protestantismo secularizado. Prefiro, decididamente a Filosofia grega ou clássica, a qual não tinha vergonha alguma de ser metafísica.

Alias o ateísmo e o materialismo tão em moda nestes nossos tempos são metafísicas, ainda que muito mal formuladas. Apenas o agnosticismo, que é uma espécie de ceticismo limitado ao raciocínio, não seria tão metafísico. Incerta ou dúbia a posição de Kant pelo simples fato de ter buscado estabelecer limites ou fronteiras, o que ao contrário do ceticismo crasso supõem sim uma metafísica, da qual os positivistas são tributários. 

De qualquer modo ou maneira nada me parece mais monstruoso do que os ateus e materialistas clamarem contra a metafísica. Sabe ao espiritismo kardecista apresentando-se como científico. E ao próprio positivismo. Tudo bem século XIX... Pretensa objetividade. 

Bem nós não buscamos disfarçar qualquer coisa, e fazemos metafísica séria e consciente a partir de um aparelho conceitual aristotélico sujas fontes chegam a Parmênides e a Anaxágoras.

Nem seria possível negar a metafísica ou arbitrariamente a Ontologia ou a Teodiceia apenas sem tocar a gnoseologia e a epistemologia tão habilmente manejadas pelo alemão, e o que é ainda pior ou mais grave, sem comprometer a estética e enfim a Ética. Embora Kant tenha tentado salvar a Ética em sua 'Razão prática' desde Litreé, Levy Bruhl e Ayer, o qual proclamou-a como sem sentido e vazia de significado. 

Enfim declarar que nossos conhecimento é aparente, provável, ilusório, superficial ou convencional e não essencial ou real me parece pior do que o ceticismo que nega possibilidade. Melhor negar a possibilidade do saber do que converte-lo numa farsa ou em algo não consistente. 






sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Contraponto ao cientificismo, incongruências...

Esta o cientificismo para a ciência como uma Hipertrofia.

Nada mais é ele do que a última barreira posto por alguns entre o conhecimento e o ceticismo crasso.

Afinal após se ter voltado contra a fé religiosa e julgado te-la esmagado voltou-se essa construção metafísica contra a Filosofia, julgando poder por limites a razão e estabelecer o paradigma do empirismo crasso ou da experiencialidade pura. O que de fato foi insinuado por Kant e canonizado por Comte e seus adeptos os positivistas. As objeções já de início foram insidiosas, já porque a epistemologia ou a gnoseologia não são parques de diversões ou tendas circenses... Monstruosa a simples suposição de uma experiencialidade pura a parte da dedução racional que sempre a acompanha. Mas por que raios a razão deve servir apenas de dama de companhia?

Os céticos optaram preferencialmente por nega-la. Creio ter sido mais digno e respeitoso. A fé já converterá, insolentemente, a razão em serva. Eis que agora é ela, a fé, imitada pelo novo credo cientificista...

E no entanto é este homem, o homem moderno ou o homem de ciências moderno, mera abstração. Antes foi filósofo natural, e como bem diz Koestler, tal diz muita coisa. Não se faz teoria cosmológica sem aparato racional... Pois queiram ou não é exercício metafísico. Teorias gerais tem sido proclamadas como construções metafísicas por Popper inclusive. O qual, bem ao modo de Hume, lançou-as todas as urtigas, inclusive o evolucionismo biológico, assim o freudismo e o marxismo em sua totalidade... nivelando-as a astrologia. E esse Popper querido não media, não pesava, e tampouco contava - Era epistemólogo... Tão querido dos empiristas crassos. Todas estas relações não deixam de ser divertidas.

Isto porque, para escapar ao ceticismo e impor-se como conhecimento válido e verdadeiro, deve a ciência descer a arena da gnoseologia ou a epistemologia. As quais não são ciências, nem produto da experiência ou do empirismo, mas exercício especulativo executado pela razão pura. E não se surpreenda que Kant ao analisar o conhecimento ou o saber e aquilatar sua validade a partir de sua razão purinha foi ele mesmo um metafísico, não um cientista. Alias se alguém professa o materialismo ou o empirismo não pode evitar ser classificado como metafísico. De fato meus amiguinhos não é a crítica da ciência feita pela própria ciência em termos empíricos (Isso não existe!) mas pela Filosofia, segundo o método abstrato da dedução lógica!!! Filosofia da ciência é mera especulação ou metafísica, e não indução... Dispensa-se o laboratório para elabora-la. É coisa de gabinete. Que bem poderia ser feita na ágora de Atenas.

Mas os cientificistas parecem não saber nada disto...

Não é que parecem não saber. Não sabem mesmo, posto que não estudam ou conhecem Filosofia! Proclamando-a ociosa ou inútil. De fato não estão aptos a discutir sobre epistemologia ou gnoseologia, e por isso escrevem tantas e tão monstruosas aberrações. Diante disto podemos dizer que continua faltando Filosofia... O trágico enfim converte-se em comédia quanto a isto tudo adicionam uns temperos de ceticismo. Chegando aqui temos acabada a obra do Dr Franknstein...

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Positivismo e pós modernismo, uma conjuração contra o homem.

Aparentemente é o pós modernismo uma reação ou protesto face ao credo positivista. Uma erupção subjetivista ou psicologista face ao objetivismo chão arvorado pelo positivismo. A negação do sistema concebido por A Comte.

E no entanto há um traço comum entre eles: O repúdio a razão, a reflexão ou enfim ao que definem como racionalismo e comparam a religião, e a sua atividade metafísica. É o empirismo crasso anti metafísico. Assim o ceticismo, o relativismo e o subjetivismo crasso ou psicologismo.

O empirismo crasso por negar a idealidade.

O psicologismo contemporâneo por negar a objetividade seja da percepção ou do raciocínio.

O 'Loci commune' aqui é o repúdio a metafísica enquanto capacidade ou possibilidade.

Honesto, o cientificista ou empirista do século XIX, acompanhando Littré - Comte era demasiadamente influenciado pelo 'Catolicismo' - repudiou a Ética por confundi-la com a moralidade ou com a fé religiosa.

Desde então foi o homem convidado a contentar-se com o que é e a repudiar o que deve ser i é a idealidade, equiparada a imaginação ou a fantasia, e lançada a esfera das coisas individuais ou relativas.

Hoje no entanto adoramos falar em Ética, ainda que levianamente, devido ao preconceito anti metafísico canonizado por Kant e Litree. Mas é como discursar sobre uma casa sem paredes... A Ética além de ser ela mesma um esforço metafísico, carece em última análise de um reforço gnoseologico ou metafísico. Afinal de que serviria ao homem uma Ética que não fosse verdadeira ou que fosse relativa se estamos a falar na convivência?

Fique claro que por isso não produzimos ou temos uma Ética consistente, apenas um discurso vazio, logomaquia ou verborragia... A critica católica ou humanista já havia abalado o discurso anti Ético do positivismo no final do século passado. O delírio não durará mais do que vinte ou trinta anos. Mas foi o quanto bastou para que mil Trasímacos sem consciência pensassem conflitos mundiais. Os quais eclodiram vinte anos depois.

Por falta de espírito crítico, idealidade ou Ética o cientificismo positivista colaborou imensamente para que o novo espírito materialista, economicista ou capitalista invadisse e se assenhorasse das sociedades católicas. E seu conformismo ou solidariedade disfarçada foi ainda mais danoso do que a inação Cristã.

Após terem estourado duas grandes guerras, com o saldo de milhões e milhões de mortos, a solução positivista teve de ser revista. Afinal, caso a ciência produzisse Ética seus representantes não apelaram ao pragmatismo ou ao utilitarismo com o objetivo de advogar o uso de animais em experiências, o que nada significa além de colocar se acima do bem e do mal, e, com a mesma arrogância das seitas religiosas, o que vem a expor o caráter místico do cientificismo. Tal foi e é o caso das armas de destruição maciça ou da Bomba atômica...

Estreitamente empírica, por necessidade, a ciência não pode dar Ética que por definição critique a realidade dada e proponha um padrão ideal. Pelo critério do que é não se chega ao que deverá ser... Diante disto só restará ao cientificista ou positivista do pós guerra servir-se do pragmatismo ou do utilitarismo os dois únicos sistemas de Ética ensaiados pelo ateísmo e pelo materialismo.

O problema aqui é justamente que a partir do que é dado ou do que é não nos parece convincente ou terminante que este utilitarismo deva ser social, como queria J S Mill e não individualista. E empiricamente não percebo, nem creio ser demonstrável que Ayn Rand esteja equivocada... É até me parece que ela é seus pares tenham alguma razão quando alegam que Mill tomou remendos sociais ou gregários ao Cristianismo ou a cultura...

Os cientificistas e positivistas há tempos que prometem uma Ética própria e favorável ao homem, mas... Não tem podido cumprir a palavra. É por que? Simples, porque a Ética é um exercício essencialmente racional ou metafísico destinado a romper com a realidade dada, a nega-la, a ultrapassa-la, etc tendo em vista um padrão ideal. Além disto as pretensões da Ética são atemporais, universais e absolutas i é em torno de alguns princípios e valores comuns a todos os seres humanos ou unificadores. Não John Gray não está enganado ao por o pensamento seminal dos antigos gregos em tais termos. É nossa herança!

Não é menos verdade que foi já o positivismo demolido pelo pós modernismo e por ele substituído enquanto moda ou fetiche do momento. Sem que no entanto houvesse qualquer mudança significativa em termos de Ética. Já porque o pós modernismo costuma ser ainda mais feroz que seu predecessor em sua crítica à objetividade de qualquer valor ou princípio universal. O ideal aqui, quando existe, é sempre fragmentado ou individual e nada transcende a esfera do individual.

O primeiro retirou-nos a razão é o segundo a experiência ou percepção. Até que nada restasse ao homem ocidental em termos de 'comum' e ele se converte-se numa ilha ou universo incomunicável, onde a identidade e a comunhão tornaram-se impossíveis. Perdemos a verdade Ética e em seguida a Verdade ontológica. Que nós restou? NADA... apenas o vazio, sinônimo de miséria cultural e civilizacional. Andamos para trás e podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que o pós modernismo não corrigiu mas ampliou e aprofundou o erro essencial do positivismo. De um extremo a outro da gnoseologia contemporânea nada lucramos.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Breve ensaio sobre os escombros...

Certa vez ousou Nietzsche declarar que a cultura de seu tempo assemelhava-se a um grande campo juncado por ruínas... E já aludi a esta visão a um tempo feérica e a outro melancólica ou mesmo patética diversas vezes.

Jamais me esqueci de uma ilustração vista numa Enciclopédia ainda quando garoto - A qual mostrava Goethe com o olhar perdido diante das ruínas do fórum romano.

E no entanto Goethe contemplando o passado longevo e glorioso dos Césares e memorando os feitos de Scevolla, Furius, Cincinato, Cléia, Cornélia, etc sabe a um Homero, pois tem grandiosidade Épica.

Outro o caso de Nietzsche, o qual possuído pelo espírito dionisíaco assemelhava-se mais aquele profeta judeu que aspirava tudo arrancar pelas raízes para depois replantar; tudo abater para em seguida reconstruir, começando pelos fundamentos. São homens que empunham o camartelo e estilhaçam o belo mármore sem derramar uma lágrima sequer... Tais os iconoclastas. Os iconoclastas - Recicladores de ideais.

Tal nossa civilização - Campo em ruínas ou cemitério de ideologias putrefatas?

Desde que o Catolicismo, a ortodoxia ou a fé apostólica foi imobilizada e lançada por terra após ter imperado soberana por milênio e meio é possível parafrasear os Atos dos apóstolos e dizer a respeito de cada um dos sistemas que o sucederam: "Onde a pouco caiu teu esposo hás de cair tu também, e eis que os coveiros já se acham as portas."

Efêmero foi o triunfo do protestantismo, com seu furor bíblico e altas pretensões - Pois pelos idos de 1700 era já a intelectualidade inglesa descrita como incrédula pelos habitantes do outro lado da mancha. Que dizer então do outro lado do Reno, onde um Reymarus declarava que apodreceu o corpo de Jesus em alguma cova ignorada após ter sido roubado pelos apóstolos com o objetivo de simular sua ressurreição. Sem mencionarmos o imenso enxame de seitas descrito por Voltaire nas "Cartas da Inglaterra" e a sucessiva falencia do projeto totalitário calvinista...

Substituiu-o efetivamente a ordem materialista do liberalismo econômico ou do capitalismo, a qual, desde então, tem o protestantismo servido como um lacaio.

Entrementes veio o convívio democrático a triunfar num cenário, ainda maior: A França. Assim, em menos de século e meio as ruínas do protestantismo foram adicionadas as ruínas do antigo regime.

Resta-nos mencionar as contradições internas do capitalismo. As quais, como registrou Marx,  não tardaram a produzir miséria ou pauperização e, por consequencia a suscitar uma oposição socialista e por fim o advento do comunismo. E se o liberalismo econômico triunfara na Inglaterra de 1643, com a revolução Inglesa; seu antípoda viria a triunfar na Rússia de 1917 com a Revolução russa

Assim, cerca de 1917 as ruínas do protestantismo, do antigo regine e do capitalismo atulhavam o horizonte da civilização e prenunciavam seu ocaso. 

Em que pese outros colossos terem sido erguidos sobre elas - Ao lado do edifício um tanto combalido, mas ainda sólido, da igreja antiga. Assim o Comunismo, a democracia formal e o Positivismo (Sucessor da fé e da Filosofia) enquanto outros como o Fascismo e o Nazismo estavam a ser edificados, sendo aparentemente promissora a arquitetura do século XX...

E no entanto, abalo após abalo, todas estas construções portentosas estremeceram e vieram abaixo com grande estrondo... Até que não sobrou pedra sobre pedra.

O positivismo, que como sereia augurava as novas gerações um paraíso sobre a terra, começo a ruir pelos idos de 1918, até perder quase que todo seu encanto após a segunda grande guerra. A abominação nazista veio abaixo em 1945 juntamente com o Fascismo. Já o todo poderoso Comunismo resistiu por cerca de setenta anos, esboroando-se em 1990.

E no entanto, o desabamento mais fragoso no entanto deu-se em 1962 - a partir do Vaticano II - com a queda da igreja romana, assediada pela maçonaria, comprada pelo americanismo, flagelada pelo ecumenismo, contaminada pelo protestantismo (Protestantizada) apartada de suas tradições e privada de sua identidade... e reduzida a quase nada > Em comparação com o que fora cinco séculos antes.

E tudo quanto restou de grandioso (Junto com o livre arbítrio - Posto na mira dos ateístas e materialistas) foi a crença infantil e leviana nessa democracia meramente formal ou sem espírito, a qual é mais cria do positivismo do que herança legada pelos antigos gregos. Embora haja quem ouse apresenta-la como algo pronto, acabo e incapaz de ser aperfeiçoado, isto é, como o 'fim da História' ou o Capitalismo de Fukuyama - Pasme o leitor inteligente...

Ora, uma coisa é admitir que corresponda ela, hoje, ao melhor do quanto nos tenha restado (Refiro-me apenas a democracia ou ao liberalismo político, de modo algum ao capitalismo) e outra que não possa ou deva ser aprimorada i é ampliada, aprofundada, etc tornando-se mais funcional, eficaz, direta e popular.

Pois o palpite capitalista, segundo a qual, nossa democracia sem consciencia, se sustentará tal e qual é, ou seja, com suas limitações, vícios e defeitos, demanda uma profissão de fé bastante ousada. A qual não me disponho a fazer.

Alias - Quantos e quantos já não escreveram sobre os seríssimos problemas que envolvem nossa democracia mecanica e sem vida? Revel, Sartori, Bobbio, Ameal, Maurras, Huntington, Lucáks, Poulantzas, Gramsci, Cahn, Lindsay, Moss, Tocqueville, etc 

Há portanto chances bastante concretas de que mais e mais ruínas acumulem-se sobre a seara do velho mundo ao cabo deste século... 

Do capitalismo, que parece recuperar-se, nada devemos esperar, exceto que esgote todos os recursos naturais disponíveis, fabrique mais massas desmioladas paras serem manipuladas, incentive o crescimento irresponsável da população e conduza a humanidade a destruição, caso não entre em colapso.

O irracionalismo reinante todavia, serve-lhe de couraça impenetrável. 

Mesmo considerando que as fontes do Capitalismo ou sua causa eficiente, encontram-se dentro do próprio ser humano ou na esfera da vontade, ainda que a razão estivesse em seu zenite teria de despender considerável esforço para 'conte-lo'. Que dizer então sobre o nosso tempo ou a era do pós modernismo...

Suas contradições internas, ou fazem-no entrar em colapso ou levam nossa espécie a extinção, para a sorte das espécies que não chegamos a extinguir e que talvez sejam contempladas com uma nova chance. Salvo se a disputa pelos tais mercados conduzirem-nos a uma terceira grande guerra nuclear...

Caso o edifício da democracia formal, entre em colapso e venha abaixo, antes de converter-se numa democracia popular, real ou direta as perspectivas me parecem bastante sombrias. Na medida em que virá ela a ser substituída por novos totalitarismos - quiçá religiosos (Teocracia) - ou pelo anarco individualismo, compreendido como dissolução do que chamamos convívio social (O sonho de Max Stirner e Ayn Rand) e aqui temos algo que sequer podemos conceber, uma vez que não podemos imaginar o que jamais existiu.

Mesmo esta democracia precária, e que precisa ser ultrapassada, nos tem de fato beneficiado pelo simples fato de preservar--nos desses dois extremos perigosos representados pela tirania, o despotismo ou a ditadura de um lado e a anomia do outro.

Necessário entender que a democracia, para adquirir vitalidade, deve deixar de ser simples forma ou casca para atuar como espírito ou mentalidade na dimensão da cultura. Deve a liberdade, ao invés de ser negada pelos neuro cientistas levianos e irresponsáveis, converter-se em um valor significativo, em nome do qual as pessoas aceitem viver ou desejem morrer caso preciso for. Caso ela não produza conquistas significativas, caso não desperte amor, lealdade e coragem, caso não melhore as vidas das pessoas, correrá o risco de tornar-se indesejável e inútil.

Já as relações humanas, dentre elas a produção de bens ou seja o setor da economia, devem ajustar-se, acima de tudo as exigências da justiça. Não é o Mercado, porém a necessidade humana que deve determinar o salário, impedido assim a afirmação da miséria e evitando que a divisão social aumente até o conflito entre as classes. Tudo isto implica que a economia reconheça o primado da Ética. Me parece que não há melhor caminho que a liberdade no plano da política e restrição ou contenção Ética no plano da economia.

Resta-nos então alguma esperança?

Sim, certamente há alguma esperança, como também parece haver um poderoso obstáculo

Pois se o positivismo desabou como sistema fechado há no mínimo oitenta anos, permanece ainda vivo e pujante no plano da cultura, a partir de seus elementos dispersos ou dos escombros reaproveitáveis.

Mas qual será o problema do positivismo? Perguntará o católico ou o ortodoxo estúpido que só tem olhos para o comunismo, para o anarquismo e quem sabe para o capitalismo...

Cumpre dizer em primeiro lugar, que este modelo, pautado nas ciências exatas e biológicas, tudo envenenou e desvirtuou ao inserir-se nos domínios das ciências humanas, questão examinada com propriedade de Dilthey a Poincaré (Convencionalista) ao cabo de décadas. Mas quem hoje lê Dilthey ou presta atenção a Poincaré ou a seu cunhado Boutrou...

Observemos de passagem os estragos que causou apenas nos campos da Psicologia e da Sociologia. Quanto ao primeiro deu ele origem a toda uma corrente espúria chamada Behaviorismo - Uma análise superficial do Behaviorismo encontra-se no livro de Marilynne Robinson 'Além da razão' ed Nova Fronteira 2011 capítulo I pg 17. Já no campo da Sociologia a diversos sistemas, todos materialistas e mecanicistas, como os de Marx e de W Pareto.

Alegadamente é o positivismo (Mesmo o francês, herdeiro do iluminismo e portanto destemperado desde o berço!) enquanto filho do criticismo kantiano e do ceticismo Humeano, uma forma de agnosticismo. 

O que deveria força-lo - A respeito de tudo quanto ultrapasse da demarcação imediata dos sentidos (A empiria) - a restrição e ao silêncio, como enfatizaram os ingleses Huxley, Mill e Spencer.

Apesar disto, foi o positivismo de Litreé (Alegadamente anti metafísico) sob a forma cientificista, endossando cada vez mais abertamente o materialismo, até vende-lo como científico, enquanto que a ciência, sendo estritamente empírica, é por assim dizer agnóstica face a tudo quanto ultrapasse a simples materialidade. 

Dado por inverificável o quanto esteja para além dos sentidos, fica inviabilizado ou impugnado o discurso materialista. Uma coisa é declarar que o campo da investigação científica restringe-se ao campo da materialidade ou que a ciência seja material e outra, totalmente distinta, é assegurar que não exista qualquer coisa para além da matéria - O que justamente não se pode investigar por meio dos sentidos ou da percepção. Pois dado que existisse algo para além da matéria jamais poderia ser percebido.

É coisa de simples entendimento - Sucede todavia que nem todos os cientistas são versados em Gnoseologia ou Epistemologia...

Diante disto, ao cabo de todo século XX o positivismo, sob a forma acintosa do cientificismo, tornou-se porta voz do materialismo. 

Nada contra os materialistas que tem a lealdade de fugir ao positivismo ou ao kantismo e de apresentarem-se como metafísicos.

Obviamente que tal não é o caso dos positivistas - Os quais aspiram promover a ideologia ou a elaboração mental\conceitual do materialismo como 'ciência' ou dado empiricamente constatado... Aqui há quem pretenda inclusive ser cético (rsrsrs) e ateu, cético e materialista, cético e positivista... 

No plano da cultura o quanto foi dito a respeito do ceticismo por Victor Brochard, em sua extensa monografia sobre os céticos gregos foi reproduzido em gênero, número e grau pelo insuspeito G Sorel.

O qual também pode verificar que é o materialismo - E ainda mais o ceticismo - uma ideologia 'de crise', a qual ele vinculou ao fim do mundo antigo... Antes do mundo antigo ter se lançado aos braços do mitracismo, do gnosticismo e do Cristianismo havia se lançado nos braços do ceticismo e do materialismo. 

Não passou em sua totalidade da razão a fé ou ao fanatismo, mas, a partir da segunda metade do século III d C do irracionalismo ao misticismo (No qual o próprio neo platonismo se havia transformado) e enfim as crenças; sendo recuperado para a razão ou a teologia, por um Cristianismo (A Ortodoxia oriental a partir do século VI d C) que havia incorporado Aristóteles e que viria dar origem as diversas escolásticas. 

Embora alguns digam que este homem antigo fartou-se da razão, parece que foram mais propriamente as condições sociais adversas que fizeram este homem dela desconfiar até a negação ou ainda que a dúvida insuperável e pessimista foi potencializada pela situação externa do mundo, (Assim por calamidades naturais, conflitos bélicos, epidemias, miséria, etc) a qual parece ter repercutido negativamente nos domínios do intelecto, fazendo com que muitos passassem a desconfiar até mesmo de si próprios.

Assim o homem de hoje é precipitado pela crise do tempo presente nos braços das ideologias negativas que reforçam essa mesma crise. 

O homem angustiado ou neurótico da Sociedade do capital - Que trocou a família pelo culto ao trabalho e a viu sucumbir. - chegou a duvidar seriamente de sua capacidade e a sentir-se de todo incapaz ou inábil. 

Isso a um tal ponto que bastou a falsa religião apresenta-lo como culpado, impuro, corrupto e isento de qualquer qualidade para ele acreditar e encarar a si mesmo dessa forma.

Desde então a própria sociedade, enquanto convívio dos homens, não encontra regeneração... Uma vez que a partir do nada ou do vazio não se constrói coisa alguma. Uma vez que o nada o torna ainda mais frustrado. Uma vez que a impotência produz apenas decepção. 

Mesmo antes de ter tirado sua máscara e assumido aquele viés materialista que haveria de caracteriza-lo posteriormente, o positivismo, desde os tempos de Litreé, tendo declarado guerra a metafísica ousou repudiar a viabilidade da Ética enquanto valor universal e unificador. 

Já Brochard, em sua já citada obra, havia registrado que os antigos céticos costumavam ficar exasperados quando seus contraditores embrenhavam-se pelo caminho da ética, uma vez que nada tinham a oferecer e eram levados a admitir que absolutamente tudo era permitido... 

O que evidentemente assombrava seus contraditores, embora de modo algum assombre o homem leviano do século XXI. 

Mason acaba de morrer e esse Mason que acaba de morrer, foi quem urdiu o assassinato de Sharon Tate, seu filhinho e seus hóspedes, alegando que 'Tudo era permitido' uma vez que ele e seus seguidores não admitiam que assassinar, roubar, etc era errado... E como nada de externo ou de objetivo ao individuo além da sociedade falível... Como não há uma Ética transcendente, universal e unificadora... Com que direito podemos nós, a partir de nossos princípios e valores individuais, subjetivos e relativos julgar um Mason, um Streicher ou um Maníaco do parque e com que direito os podemos julgar e punir...

O que nos faz julgar e punir, com absoluta propriedade, tanto um Hitler quanto um Goebels ou um Himler é uma lei natural, essencial e comum que transcende a cada individuo e é fonte de direitos inerentes para todos os seres humanos. É sobre este conceito ou noção que se assentam os fundamentos mais remotos de nossos aparelhos judiciários.

Eliminado esta lei natural e estes direitos inerentes, como querem Kelsen e Ross, apenas a instância social ou o poder político sobrepõe-se a pessoa.

Aparentemente semelhante doutrina não parece apenas inofensiva mas até sensata... 

E no entanto quantos não foram os crimes cometidos pelas sociedades, estados e organizações políticas ao cabo da história... A escravidão negra nos EUA, o Apartheid na África do Sul, os Campos de concentração nazistas na Alemanha, etc 

Daí Thoureau ter elaborado a doutrina da desobediência civil, embasada na consciência pessoal, a qual é tão digna e nobre quanto o poder político o é. 

Assim se Ross e Kelsen personificam Creonte, Antígona é feita valer pelo autor de Walden. Importa que hajam valores objetivos, comuns e essenciais acima de Antígona, Creonte, Ross, Kelsen, Hitler ou Mason... Aos quais se possam reportar todas as pessoas e sociedades.

O positivismo, todavia - E por questão de crenças ou de metafísica. - não o pode admitir...

Afinal Justiça e Liberdade são conceitos puros, que não podem ser experimentados, vistos, pesados, medidos, contados, etc E, sendo assim não existem apenas nos diferentes indivíduos, porém de diferentes formas. E o que é liberdade para um já não o é para outro... Nada de objetivo e externo aqui. 

Caso a justiça exista externamente e tenha uma forma comum, terá de existir e de subsistir imaterialmente... 

O que o positivismo não pode admitir. 

Sendo assim todo essencialismo ético, todo universo socrático/platônico é fundamentalmente abalado pelo positivismo. Pois é metafisico duma metafisica imaterialista ou espiritualista sem a qual a solução ética formulada pelo filho de Fenarete vem abaixo e desabada fragosamente. Enquanto ali, ao lado, diante dele, está Trasímaco, partidário de Creonte ou da força, do poder arbitrário.

Lamento te-lo de repetir pela milésima vez neste tempo em que se fala, tanto e tão levianamente, sobre ética. 

Afinal o grande mérito do pós modernismo anti positivista foi dar razão aos Católicos e reabilitar o tema da ética. Sem no entanto saber ou poder soluciona-lo, pela via do irracionalismo. Posto que por via do irracionalismo nada se soluciona ou conclui. 

Seja como for do positivismo jamais partiu qualquer sistema de ética, e ele jamais ocupou-se da ética mesmo quanto não chegou a nega-la honestamente com Litreé... O máximo a que seus profitentes chegaram foi a identificar a ética ou os valores com uma dada cultura humana, o que nos leva, não apenas ao relativismo, mas, como já foi dito, a instância da sociedade, como sendo o padrão com que nos deveríamos conformar. 

Ao postular o relativismo Etico ou cultural Durkheim, Levy Bruhl e os seus, ao menos remotamente, forneceram um suporte perfeito para Kelsen e este um suporte perfeito para a estatolatria e conformismo típicos do ceticismo enquanto negação de um modelo ideal. 

Foi assim com Pirro na antiga Grécia, e, ninguém mais conformista e conservador do que ele, dirá o citado Brochard... e não poderia ter sido diferente, pois como assevera Recaséns Sichens, não há crítica ou resistência, ou oposição possível a um dado concreto sem que haja uma instancia ideal. 

Negando doentiamente essa instância ideal e portanto, na mesma medida, a correção ou mudança, ceticismo e positivismo (Um Ceticismo ametafísico ético e estético.) tendem a ser conformar com o que é e a fazer com que nos submetamos docilmente a um veredito social que nem sempre é certo.

Remova a ética no entanto e que nos restará: O racismo, o escravismo, a tortura, o machismo, a pedofilia, a guerra, a matança de animais, etc

Irrelevante ou mesmo ocioso condenar tais monstruosidades em nome do individuo, da autoridade ou do grupo social. Pois alguém mais atilado, como um Mason, percebendo o logro, sempre poderá classificar tal condenação como mera opinião e discordar. 

É necessário condenar o machismo, o racismo, o odinismo, o adultismo, o especismo, o escravismo, etc em nome de um princípio objetivo, comum e superior a todos. De modo que a condenação seja categórica e o castigo justo.

É necessário fulminar tais vícios com uma condenação absoluta e  irretorquível. 

A qual independa da anuência ou da vontade dos indivíduos. 

Em nome de uma lei a que eles não poderão furtar-se porquanto sob quaisquer alegações.

O que sempre nos levará ao conceito de Lei natural, digo de que a Etica corresponde a uma Lei natural tão impositiva quanto a Lei física ou a Lei biológica.

O materialismo jamais ultrapassara o utilitarismo crasso i é aquele de Benthan, o da pior espécie... Mesmo porque Benthan, por questão de princípios jamais poderia considerar algo de unificador num universo puramente material. O quanto podia ele ver eram apenas elementos dispersos: Arvores, animais, casas, grupos sociais, culturas, opiniões, pontos de vista, etc sem qualquer mínima conexão ontológica.

Todos estão fartos de saber que o utilitarismo original, concebido por Benthan a partir do ateísmo ou do materialismo foi um utilitarismo individualista capaz de justificar Mason, Hitler, Tamerlão, etc

O que forçou J S Mill inserir naquele sistema o elemento da alteridade ou da empatia, o qual ele disse ter tomado ao catecismo ou ao Evangelho. Que os ateus, materialistas e positivistas (Não me refiro a bíblia ou antigo testamento e nem mesmo as cartas dos apóstolos porém as lições de Jesus ou a suas palavras assentes nos quatro Evangelhos - Quero deixar isto bem claro.) encaram como uma produção grosseira.

Solidariedade ou empatia empiricamente falando nada é. 

Por via do materialismo somos seres separados uns dos outros e não podemos jamais fugir ao individualismo com todas as suas funestas decorrências. 

Mas temos os mesmos corpos! 

Não, não temos os mesmos corpos. O que temos são corpos semelhantes quanto a forma ou a constituição, mas diversos quanto a extensão e por isso a dor sentida por um não jamais se propaga ao corpo do outro... 

Mas eu talvez venha a passar pela mesma situação... Isto continua sendo sempre uma mera suposição, a qual, rigorosamente falando não nos obriga a coisa alguma. 

Todo e qualquer sistema de ética que parta do materialismo jamais conseguirá opor-se com sucesso ao individualismo. Serão individuos buscando suas vantagens, bem a gosto do darwinismo social, o primo cientificista do utilitarismo benthaniano por sinal.

Considere o leitor o caso de tais indivíduos terem que matar, roubar, mentir, trair, etc 
para obterem os resultados a que aspiram, se realizarem e assim conquistar a felicidade? 

Fará voce um belo sermão dizendo que cada um deles deve abrir mão da própria felicidade ou imolar-se... Com base em que experiencia ou constatação empírica... Só se for com base nos romances da Bárbara Cartland...

Dirás que o direito deles termina onde começa o do outro... Que devem se colocar no lugar do outro... Que é errado... Etc

Pois bem, onde e por que modo são tais afirmações comprovadas pela ciencia.

Pelo contrário> O que mais vemos nesse curioso mundo são cientistas de tendencia darwiniana (Pobre Darwin) ou darwinistas sociais, publicando livros nos quais declaram que a traição, a mentira, etc corresponderam a mecanismos ou a estratégias evolutivas...

Teme ao menos - O criminoso, dirá voce. - ser apanhado pela justiça, ser descoberto, ser preso, ser punido, etc

O conselho até seria bom caso não deixa-se implícito que um crime não descoberto ou punido nada significa. 

Aqui, o quanto nosso defensor da 'Teoria pura' esta fazendo é, na prática, estimular o crime perfeito, por parte dos que se acham habilitados. Provavelmente voce responderá dizendo que não existe o crime perfeito - Ao que posso objetar: Alguns crimes são de fato tão perfeitos a ponto de voce, ignorando-os poder negar confortavelmente sua existencia. Direi no entanto que antes do DNA inumeros crimes foram 'relativamente' perfeitos e que outros só foram descobertos décadas após as mortes de seus autores, os quais de fato jamais responderam por eles ou receberam punições conseguindo burlar a justiça humana.

Naturalmente que se alguns conseguiram, alguns outros que tem perfeito conhecimento dos fatos e que se julgam competentes - Já dizia Cecília Meirelles Nada mais comum do que alguém atribuir a si mesmo excessivo valor... 

Sendo assim, ao menos para algumas pessoas pretenciosas a  impunidade por si só, face as autoridades humanas, equivaleria sempre a um estímulo ou a uma permissão, para que cometessem crimes.

Senso assim a doutrina utilitarista individualista corresponde, sob todos os aspectos possíveis a um fiasco completo.

Hume merece certamente ser aplaudido por sua honestidade e franqueza, quando partindo de seu ceticismo inveterado, teve de concluir que o assassinato não constitui um mal em si mesmo e que a única coisa que o transforma em crime é a lei baixada pela sociedade. 

Portanto não havendo punição ou lei externa não haveria crime.

Tortura e estupro tampouco seriam males condenáveis em si mesmos, exceto se condenados pela sociedade. 

Agora imaginem uma Sociedade que aprovasse a tortura, como a Comunista, a Fascista, a Nazista - ou uma outra, como a islâmica, onde estupro de vulnerável ou de infiel fosse autorizado... 

Eis para onde nos levam Hume e o querido ceticismo...

Agora reflitamos sobre o que sucederia caso as pessoas, em especial as massas ouvissem-no e o levassem a sério.

Reflita! 

Imagine uma Sociedade em que o sistema de Mill fosse adotado sem os atavios tomados ao Cristianismo (Tornando a ser o de Benthan) com sua ética revelada... Sim, pois o outro nome do utilitarismo individualista é darwinismo social; amiguinho Benthan e amiguinho Spencer estão de mãos dadas... E nessa sociedade regida por princípios egoístas; compaixão, amor, justiça, etc não apenas carecem de todo sentido ou são meros nomes como representam desvantagens em conflito com as investigações científicas.

Agora veja um clamoroso exemplo ou reflexão que tomo Peter Singer - Por que raios continuamos a torturar e matar animais inteligentes, como cobaias, ratos, macacos, cavalos, cães, gatos, etc com as bençãos dos cientistas positivistas e dos patrões ou empresários apenas para emprega-los em 'experiencias' (Torturas escabrosas, repito) e ter uns sabonetes, perfumes, xampus e desodorantes, e medicamentos, melhores ou ainda para adquirir uns certos conhecimentos... Por que continuamos a fazer isso após sabermos que tais seres não apenas são sensíveis, como auto conscientes, resistentes a morte e sobretudo inteligentes...

Trasímaco responde: Fazemos isso primeiramente porque podemos ou temos força, armas, etc e em segundo lugar porque obtemos vantagens ou benefícios> Eis ai o belo utilitarismo produzindo seus frutos podres i é uma autentica hecatombe! E os cientistas acríticos e negadores da Etica e de lei natural, executam, aplaudem e defendem tudo isso, para depois criticarem os religiosos ignorantes e iletrados que sacrificam animais a seus deuses... Eis a estirpe dos evoluídos positivistas...

Observem mais uma vez este trágico quadro - Utilitarismo, Individualismo e Darwinismo social... 

E reflitam sobre de que maneira poderiam tais doutrinas servir de anteparo as culturas de morte do Anarco individualismo, do Fascismo, do Nazismo e do Comunismo... 

O positivismo, o cientificismo, o ceticismo, o materialismo e sobretudo o ateísmo jamais poderão servir de fundamento a qualquer sistema de Etica nimiamente humanista i é capaz de proteger, valorizar e promover o ser humano face aos clamores das culturas de morte acima citadas! Que dizer então sobre uma Etica supra especista capaz de vindicar os direitos dos animais acima citados!

Afinal sempre serão sistemas estruturais ou funcionalistas a que sempre se poderá escapar. 

Não cogitam em eles em liberdade ou justiça e por isso jamais serão capazes de inserir vida em nossa democracia semi morta ou de reformar as instituições econômicas produzindo uma sociedade mais solidária e fraterna. 

Não devemos esperar qualquer redenção do positivismo ou de seus tentáculos, tampouco do empirismo e do ceticismo e enfim do pós modernismo. Desse balaio não saí Etica alguma. 

Assim enquanto mais e mais escombros vão caindo sobre nossas cabeças (E diante do cenário feérico que é este imenso campo, coberto por ruínas monumentais.) só nos resta ir bater a outras portas...

Seremos capazes de reconstruir alguma coisa??? Não sei, não sei, não sei; mas certamente devemos tentar...

Poderemos aproveitar algum material?

Mármores e pórfiros sempre podem ser reaproveitados com sucesso...

Reciclagem é sinal de inteligência...

Algo há que possa ser recuperado?

Veremos, veremos...

Precisamos porém de um elemento coordenador...


terça-feira, 11 de abril de 2017

Empírico racionalismo, ceticismo e Catolicismo

Algumas fés ou religiões tem mostrado certa sensibilidade face as exigência de nossa condição. Outras tem sido depositadas, desde que nasceram, no berço impuro do ceticismo.

Assim o Catolicismo tomou por divisa as palavras do Apóstolo Pedro: Fornecei aqueles que vos solicitarem as RAZÕES de vossa esperança.

Não se trata aqui de admitir que os itens de nossa esperança ou artigos de fé, seja diretamente acessíveis a natureza. Certamente foram comunicados por Revelação Sobrenatural i é pelas palavras de Jesus Cristo, consignadas nos assim chamados Evangelhos.

No entanto como o objeto desta Revelação sobrenatural era o gênero humana, necessário era que esta Revelação se conforma-se em certa medida com o caráter de seus destinatários. A exceção da Santíssima Trindade - o primeiro de todos os Dogmas, concernente a natureza íntima de Deus - todos os dogmas são por assim dizer racionais pelo simples fato de que, nenhum deles, ultrapassou os limites da razão humana, contrariando-a.

Não é que saibamos como Deus executou-os. Operacionalmente são mistérios porque não sabemos ou saberíamos como como faze-los. Formalmente porém, sabemos que não conflitam com as exigências do intelecto humano. Nossos dogmas nada tem de idiotas ou de loucos.

Por isso a Virgem sábia prudente, na posse da verdade revelada, do Evangelho, das tradições legítimas e do método; não pode temer as virgens imprudentes e toscas, sendo a primeira delas o protestantismo. Este sim nasce, com Lutero, negando a razão, questionando a experiências e castrando a teologia. O catolicismo não teme a razão e mesmo a Filosofia ou a Ciência. O protestantismo apenas nasce solifideista em todos os sentidos.

Desespera o protestantismo da razão e assume seu irracionalismo manifesto, fazendo apologia da loucura, porque é incoerente e assistemático. Jamais satisfazendo as aspirações racionais e sistemáticas de nossa condição.

E no entanto a inoculação do veneno irracionalista no corpo do Cristianismo, alias Católica, antecede em cerca de um milênio o protestantismo, pelo simples fato de estar em sua base ou de ter sido canonizado por ele. O protestantismo tomou e deu seguimento a tudo quanto havia de pior, de mais miserável e bárbaro na religião papalina; assim o gracismo/agostinianismo, assim o infernismo, assim a judaização... Foi abismo do abismo e precipício que chamou precipício. Não solucionou os problemas do mundo Ocidental, agravou-os, potencializou-os, piorou-os...

O ex maniqueu Agostinho de Hipona foi quem por primeira vez insinuou, já velho, a inoperância da razão face a fé. Principiou, como ex maniqueu que era, maldizendo a natureza humana e classificando como depravada ou essencialmente corrupta, deduzindo, logicamente, a inexistência do livre arbítrio e desbancando, por meio da predestinação 'judaica' no fatalismo mais abjeto. As ulteriores conclusões tirou-as apenas de leva, ficando portanto para serem referendadas por seus sucessores e continuadores. O certo é que desde então parte dos Cristãos católicos (do Ocidente) puseram-se a suspeitar da razão e a refugiar-se numa fé cega.

Mesmo Paulo, que é aleivosamente revindicado por eles - Paulo jamais ensinou o dogma abominável da transmissão do pecado adâmico - explicitou bastante claramente, que a existência de Deus é manifesta a razão a partir dos elementos do mundo. Apoiou a teologia natural de Sócrates, Platão e Aristóteles, repudiando de antemão ao que cognominamos 'teologia' (em sentido próprio) tradicionalista, no caso tributária do agostinianismo e condenada apenas em 1870 pelo 'concílio' (sic) do Vaticano I.

Concebendo a falsa doutrina da depravação total da natureza humana, Agostinho logrou abalar os fundamentos humanistas do Cristianismo, fundamentos porque o Cristianismo antigo ou pré agostiniano e semi pelagiano, assumia os pressupostos otimistas e aspirações pagãs a respeito da natureza humana, do racionalismo e da educabilidade. Agostinho lança tudo isto as gemônias e proclama um Cristianismo bárbaro, magico e fetichista. É a consagração do determinismo religioso, mas também do irracionalismo. O qual fica implícito em sua abordagem.

Temos aqui a aparição do homem frágil ou do coitadinho que tanto desfigurou e obscureceu o Catolicismo no Ocidente. Mesmo sem ser propriamente Católica mas agostiniana ou maniqueísta.

Importante salientar sua retomada pela mística franciscana nos séculos XIII e XIV. Pelo simples fato de que os primeiros franciscanos, procedendo das camadas mais baixas da população, não eram apenas teologicamente incultos, mas incultos de modo geral.

Lamentável é que um varão atilado como Ockham tenha ido nesta direção buscando justifica-la! Sem discutir sua epistemologia defeituosa, da qual passaremos a largo, cumpre mencionar dois dogmas seus: O tradicionalismo teológico, segundo o qual a existência de Deus não pode ser objeto de demonstração filosófica, metafísica ou natural, constituindo objeto de divina Revelação (!!!???) e o Irracionalismo, doutrina segundo a qual os dogmas do Catolicismo podem conflitar coma razão.

Aquino, ainda que defeituosamente, assume o legado transmitido pelo perípato. W Ockham não. A fé para ele é tudo e a razão nada...

Recomendo ao amigo leitor as obras publicadas pelos Jesuítas e dominicanos espanhóis, em especial os salmanticenses. Nas quais fazendo arqueologia das doutrinas, conseguiram estabelecer diversas relações causais e traçar a genealogia do ceticismo, do fideísmo e do irracionalismo desde Agostinho a I Kant - "O filósofo portátil de Lutero." - analisando cada elo desta corrente. Não se trata aqui de opinião subjetiva e arbitrária, mas de trabalho histórico, em que se recorre as fontes, apontando as afinidades e dependência dos autores uns para com os outros.

Não foi diretamente de Agostinho que o irracionalismo chegou a Lutero. Epistemologicamente, o monge saxão, é tributário do irracionalista e tradicionalista Gabriel Biel e este de Ockham. Tais os intermediários situados entre o Bispo de Hipona e o esposo de Miss Kate. Tais os professores e instrutores de Lutero com que pensam poder flertar impunemente nossos Católicos de 2017...

"Sancta simplicitas."

Tais princípios já foram plenamente desenvolvidos pelo 'reformador' contra o sentir da Igreja antiga!

Então o que vocês pretendem tomar de bom a esses mestres infectados pelo pessimismo antropológico agostiniano. Ser meio agostiniano não dá... Assim racionalidade e livre vontade perecem juntas e com elas a dignidade do homem como um todo, restando apenas a fé cega ou o fanatismo; em sua crueza e plenitude, infenso a reflexão teológica. O fim disto tudo tem de ser mesmo a Add ou a CCB...

Pura perda de tempo fixar nossa atenção em Lutero. Pelo simples fato de toda pessoa medianamente instruída em matéria de teologia saber que referiu-se a razão humana como a uma louca ou a uma prostituta - Assim a consciência - e que classificou Aristóteles como réprobo, pagão, corruptor, falso profeta, Mestre infernal, etc e isto pelo simples fato de ser o pai da Lógica, linguagem que Lutero por assim dizer abominava.

Quem desejar conhecer todo este palavreado grosseiro e vulgar há edições completas do rebelado alemão, sejam as de Wiemar ou as de Erlangen. 

O Luterano Kant foi quem forjou o derradeiro elo desta cadeia anti humanista ou pessimista, com o objetivo de 'exaltar' a fé, compreenda-se o fideismo e abater a razão, compreenda-se o irracionalismo. O ceticismo já estava ali presente em todas as teologias agostianianas, bastando ao teórico alemão, transplanta-la aos domínios da Filosofia e negar a capacidade da razão em seu próprio terreno. Inviabilizando a metafísica, em especial a teodicea, e a demonstração racional da existência de Deus. Em detrimento de Aquino, Aristóteles e Platão, e de acordo com o sentir de Lutero, Biel e Ockham aos quais havia tomado por mestres.

Aos Católicos mal informados é necessário informar que Agostinho, Ockham, Biel, Lutero e Kant formam uma unidade doutrinal ou um continuo.

Querer quebrar esta corrente e isolar os elos é esforço inútil, que redunda em benefício do protestantismo ou da infecção luterana.

Alimentar os pressupostos negativistas do agostinianismo é alimentar a rebelião protestante até o pentecostalismo crasso.

É dever dos Católicos, sejam anglicano, ortodoxos ou papistas, tomar o caminho oposto e afirmar com os antigos filósofos e pensadores clássicos, a dignidade da condição humana ou seja a capacidade da razão e a existência da liberdade.

Não há outro caminho possível.

Estar com Agostinho ou Kant ou Ockham é postar-se ao lado de Lutero contra a Igreja, sua alta teologia e a Filosofia.

Pois o que temos aqui é pura e simples questão de pessimismo antropológico.

Se a percepção distorce ou disfarça a realidade, enganando o homem ao invés de informa-lo é porque há algo errado nele. A incapacidade da razão implica defeito no homem. Seu estado de ignorância insuperável pressupõem sempre desconforto ou mesmo punição...

O estado real do homem - supondo-o enganado pelos próprios sentidos - choca-se com suas aspirações ou com um ideal irrealizável de perfeição.

Não é apenas imperfeito, mas incapaz de perfeição...

O que nos levaria a questionar o caráter ou melhor a conveniência da própria criação.

Enfim só um mergulho na fé cega poderia 'explicar' as objeções que a própria fé cega levanta, arbitrariamente, contra a razão.

Tornando-se a fé onipotente, soberana, inquestionável.

Nada mais sedutor aos olhos dos fanáticos e de tantos quantos pretendam controlar despoticamente os homens em nome da fé.

Questão de pessimismo que se converte ou transforma em questão de oportunismo ou poder.

De fato eles estabelecem limites arbitrários ao exercício da razão - quando não chegam a nega-la sem maiores cerimônias - em nome da incapacidade humana. E fica o homem sendo incapaz...

Mas por que não é capaz?

Por que Agostinho, colorizando o velho maniqueísmo, proclama que em virtude de um certo 'pecado original' concebido em termos de transmissão, a natureza humana foi completamente transtornada ou corrompida em seus atributos, tornando-se inoperante ou incapaz.

Quem não percebe que esta gnoseologia pessimista ou negativa assumida por Kant supõem ou pressupõem um acidente de percurso ou um evento trágico como o pecado original, concebido nos termos colossais de um Agostinho, de um Ockham, de um Lutero ou de um Kant.

Nada que se possa postular em termos de natureza ou em termos puramente naturais. Do ponto de vista da natureza a percepção deve servir para informar-nos sobre a realidade externa ou para por-nos em contato com o mundo... Do ponto de vista da natureza a razão ou a lógica servem para estruturar, classificar, cruzar, analisar ou trabalhar as informações fornecidas pelos sentidos. Do ponto de vista da natureza não pode existir responsabilidade ou mérito sem liberdade. Simples assim...

Tal o pensamento dos antigos gregos e romanos, segundo nos foi negado pelos estudos clássicos.

A parte dos sofistas, preocupados apenas com o mecanismo do discurso, a Filosofia antiga, afirma uníssono a capacidade do Homo Sapiens para conhecer e até o define como um 'animal racional' i é marcado pela capacidade de raciocinar.

Mesmo os apóstolos Pedro antes de tudo, mas mesmo Paulo até certo ponto, não se separam dos antigos gregos. Este admitindo, no primeiro capítulo da carta aos Romanos, que a razão é apta para demonstrar a existência de Deus. Aquele declarando que há algo de racional em nossa bela esperança.

Sintomático que aos paulinistas luteranizados ocorra apenas a sentença segundo a qual: "A sabedoria dos homens é loucura para Deus." não porque nossos dogmas sejam irracionais, loucos ou imbecis mas porque Deus encarnou-se num homem humilde e morreu numa cruz. O que, mal compreendido, parece denotar insanidade... O próprio Jesus Cristo, alegara que este mistério - segundo qual Deus manifestou-se aos pobres e pescadores e não aos saduceus e fariseus de Jerusalém - permanecia oculto aos PODEROSOS (i é a elite econômica dos judeus). Não querendo dizer com isto que a ignorância ou a boçalidade servissem de introdução ao Cristianismo, mas que o Cristianismo fora destinado a emancipar e resgatar a dignidade dos mais pobres e humildes.

A questão aqui, e ainda em Paulo, é de pobreza ou miséria materiais, não de incapacidade intelectual, burrice ou estupidez.

Os pobres e humildes estavam mais aptos para identificar a manifestação de Deus na Carne, porque melhor do que quaisquer outros homens poderiam avaliar e compreender seu sentido, partindo a situação de angústia em que se achavam. O que permite aos pobres compreender o mistério de Cristo não é a incapacidade intelectual mas experiência do desespero, a miséria material e da angústia... Eles, muito mais do que os ricos, precisam de um libertador e consolador que lhes de sentido a vida, irmanando-se ou mostrando-se fraterno.

Os ricos e poderosos não precisavam de um Deus fraterno, e portanto não estavam aptos para compreende-lo. Tendo acesso a todos os prazeres que a riqueza e o luxo podem proporcionar, bem podiam contentar-se com um Deus espiritual e distante, entronizado sobre as nuvens dos céus. Os pobres apenas precisavam de um Deus vivo, presente, encarnado, solidário e sofredor até a cruz. Esperavam por um Deus sofredor ou companheiro.

É o que possuíam a mais, e por isso se achavam a dianteira dos outros.

A questão aqui é sobretudo se situação social e não de capacidade intelectual, esta jamais negada pelo Cristo, por Pedro ou mesmo por Paulo. Tal a perspectiva dos padres da igreja em sua luta contra o paganismo antigo. Foi todo um esforço para mostrar a irracionalidade e estupidez do sistema antigo, retomando os argumentos já emitidos pelos Filósofos fossem Sócrates, Platão, Demócrito, Aristóteles, etc e um simples repisar da critica naturalista dos antigos Filósofos já a religião precedente, já ao ceticismo arvorado pelos sofistas.

Agostinho foi quem guiado por um sentimento trágico e pessimista da existência, transtornado por suas experiência pessoais e subjetivas e influenciado inconscientemente pelo maniqueismo, elaborou um ensaio de crítica destemperada a razão... Multiplicando os mistério sem necessidade.

Curioso que o islã o tenha compreendido e assimilado, antes do próprio Cristianismo. Refiro-me a crítica fideista ou tradicionalista, elaborada pelos imames Achari e Gazali no século XII, desta era e que serve até hoje de base a ortodoxia sunita e a idolatria corânica. No islã, a demolição da Filosofia, conduziu a sociedade a um colapso social e estado de inércia ou prostração do qual jamais viria a sair. No Cristianismo, duzentos anos após Lutero, patrocinou uma reação naturalista, empirista, racionalista, semi cética, materialista e ateística que prossegue até nossos dias.

Afinal como poderiam os homens admitir um padrão de Cristianismo pessimista, negativo, obscurantista, solifideista, arbitrário e anti humanista para sempre?

Foi assim que de um extremo passamos a outro, e ao meio ceticismo editado pelo cristianismo agostiniano, luterano e protestante, passamos ao ceticismo crasso ou completo do tempo presente. O ceticismo religioso foi apenas um preâmbulo...

Parte da cristandade no entanto, preferiu abraçar outras certezas, não tão amenas ou consoladoras mais ou menos 'certas', a exemplo dos já citados materialismo e ateismo, do deísmo ou de outras formas religiosas. Nem todos puderam arcar com o ônus do ceticismo, fosse religioso, como o de Montaigne, ou irreligioso ou naturalista como o de Hume.

Tudo quanto podemos dizer é que este ceticismo religioso batizado por Agostinho, crismado por Ockham e santificado por M Lutero foi que introduziu o Ocidente nos caminhos dos diversos naturalismos subsequentes. Em termos católicos, propiciou e alimentou a apostasia, e continua alimentando-a até hoje. Pois alegar que o homem é um coitadinho, frustrado ou incapaz jamais saberá a uma 'Boa nova'. É uma nova maligna, um anti Evangelho.