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sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Breve ensaio sobre os escombros> Positivismo, Ceticismo, Etica e Utilitarismo...

 Certa vez ousou Nietzsche declarar que a cultura de seu tempo assemelhava-se a um grande campo juncado por ruínas... E já aludi a esta visão a um tempo feérica e a outro melancólica ou mesmo patética diversas vezes.

Jamais me esqueci de uma ilustração vista numa Enciclopédia ainda quando garoto - A qual mostrava Goethe com o olhar perdido diante das ruínas do fórum romano.

E no entanto Goethe contemplando o passado longevo e glorioso dos Césares e memorando os feitos de Scevolla, Furius, Cincinato, Cléia, Cornélia, etc sabe a um Homero, pois tem grandiosidade Épica.

Outro o caso de Nietzsche, o qual possuído pelo espírito dionisíaco assemelhava-se mais aquele profeta judeu que aspirava tudo arrancar pelas raízes para depois replantar; tudo abater para em seguida reconstruir, começando pelos fundamentos. São homens que empunham o camartelo e estilhaçam o belo mármore sem derramar uma lágrima sequer... Tais os iconoclastas. Os iconoclastas - Recicladores de ideais.

Tal nossa civilização - Campo em ruínas ou cemitério de ideologias putrefatas?

Desde que o Catolicismo, a ortodoxia ou a fé apostólica foi imobilizada e lançada por terra após ter imperado soberana por milênio e meio é possível parafrasear os Atos dos apóstolos e dizer a respeito de cada um dos sistemas que o sucederam: "Onde a pouco caiu teu esposo hás de cair tu também, e eis que os coveiros já se acham as portas."

Efêmero foi o triunfo do protestantismo, com seu furor bíblico e altas pretensões - Pois pelos idos de 1700 era já a intelectualidade inglesa descrita como incrédula pelos habitantes do outro lado da mancha. Que dizer então do outro lado do Reno, onde um Reymarus declarava que apodreceu o corpo de Jesus em alguma cova ignorada após ter sido roubado pelos apóstolos com o objetivo de simular sua ressurreição. Sem mencionarmos o imenso enxame de seitas descrito por Voltaire nas "Cartas da Inglaterra" e a sucessiva falencia do projeto totalitário calvinista...

Substituiu-o efetivamente a ordem materialista do liberalismo econômico ou do capitalismo, a qual, desde então, tem o protestantismo servido como um lacaio.

Entrementes veio o convívio democrático a triunfar num cenário, ainda maior: A França. Assim, em menos de século e meio as ruínas do protestantismo foram adicionadas as ruínas do antigo regime.

Resta-nos mencionar as contradições internas do capitalismo. As quais, como registrou Marx,  não tardaram a produzir miséria ou pauperização e, por consequencia a suscitar uma oposição socialista e por fim o advento do comunismo. E se o liberalismo econômico triunfara na Inglaterra de 1643, com a revolução Inglesa; seu antípoda viria a triunfar na Rússia de 1917 com a Revolução russa

Assim, cerca de 1917 as ruínas do protestantismo, do antigo regine e do capitalismo atulhavam o horizonte da civilização e prenunciavam seu ocaso. 

Em que pese outros colossos terem sido erguidos sobre elas - Ao lado do edifício um tanto combalido, mas ainda sólido, da igreja antiga. Assim o Comunismo, a democracia formal e o Positivismo (Sucessor da fé e da Filosofia) enquanto outros como o Fascismo e o Nazismo estavam a ser edificados, sendo aparentemente promissora a arquitetura do século XX...

E no entanto, abalo após abalo, todas estas construções portentosas estremeceram e vieram abaixo com grande estrondo... Até que não sobrou pedra sobre pedra.

O positivismo, que como sereia augurava as novas gerações um paraíso sobre a terra, começo a ruir pelos idos de 1918, até perder quase que todo seu encanto após a segunda grande guerra. A abominação nazista veio abaixo em 1945 juntamente com o Fascismo. Já o todo poderoso Comunismo resistiu por cerca de setenta anos, esboroando-se em 1990.

E no entanto, o desabamento mais fragoso no entanto deu-se em 1962 - a partir do Vaticano II - com a queda da igreja romana, assediada pela maçonaria, comprada pelo americanismo, flagelada pelo ecumenismo, contaminada pelo protestantismo (Protestantizada) apartada de suas tradições e privada de sua identidade... e reduzida a quase nada > Em comparação com o que fora cinco séculos antes.

E tudo quanto restou de grandioso (Junto com o livre arbítrio - Posto na mira dos ateístas e materialistas) foi a crença infantil e leviana nessa democracia meramente formal ou sem espírito, a qual é mais cria do positivismo do que herança legada pelos antigos gregos. Embora haja quem ouse apresenta-la como algo pronto, acabo e incapaz de ser aperfeiçoado, isto é, como o 'fim da História' ou o Capitalismo de Fukuyama - Pasme o leitor inteligente...

Ora, uma coisa é admitir que corresponda ela, hoje, ao melhor do quanto nos tenha restado (Refiro-me apenas a democracia ou ao liberalismo político, de modo algum ao capitalismo) e outra que não possa ou deva ser aprimorada i é ampliada, aprofundada, etc tornando-se mais funcional, eficaz, direta e popular.

Pois o palpite capitalista, segundo a qual, nossa democracia sem consciencia, se sustentará tal e qual é, ou seja, com suas limitações, vícios e defeitos, demanda uma profissão de fé bastante ousada. A qual não me disponho a fazer.

Alias - Quantos e quantos já não escreveram sobre os seríssimos problemas que envolvem nossa democracia mecanica e sem vida? Revel, Sartori, Bobbio, Ameal, Maurras, Huntington, Lucáks, Poulantzas, Gramsci, Cahn, Lindsay, Moss, Tocqueville, etc 

Há portanto chances bastante concretas de que mais e mais ruínas acumulem-se sobre a seara do velho mundo ao cabo deste século... 

Do capitalismo, que parece recuperar-se, nada devemos esperar, exceto que esgote todos os recursos naturais disponíveis, fabrique mais massas desmioladas paras serem manipuladas, incentive o crescimento irresponsável da população e conduza a humanidade a destruição, caso não entre em colapso.

O irracionalismo reinante todavia, serve-lhe de couraça impenetrável. 

Mesmo considerando que as fontes do Capitalismo ou sua causa eficiente, encontram-se dentro do próprio ser humano ou na esfera da vontade, ainda que a razão estivesse em seu zenite teria de despender considerável esforço para 'conte-lo'. Que dizer então sobre o nosso tempo ou a era do pós modernismo...

Suas contradições internas, ou fazem-no entrar em colapso ou levam nossa espécie a extinção, para a sorte das espécies que não chegamos a extinguir e que talvez sejam contempladas com uma nova chance. Salvo se a disputa pelos tais mercados conduzirem-nos a uma terceira grande guerra nuclear...

Caso o edifício da democracia formal, entre em colapso e venha abaixo, antes de converter-se numa democracia popular, real ou direta as perspectivas me parecem bastante sombrias. Na medida em que virá ela a ser substituída por novos totalitarismos - quiçá religiosos (Teocracia) - ou pelo anarco individualismo, compreendido como dissolução do que chamamos convívio social (O sonho de Max Stirner e Ayn Rand) e aqui temos algo que sequer podemos conceber, uma vez que não podemos imaginar o que jamais existiu.

Mesmo esta democracia precária, e que precisa ser ultrapassada, nos tem de fato beneficiado pelo simples fato de preservar--nos desses dois extremos perigosos representados pela tirania, o despotismo ou a ditadura de um lado e a anomia do outro.

Necessário entender que a democracia, para adquirir vitalidade, deve deixar de ser simples forma ou casca para atuar como espírito ou mentalidade na dimensão da cultura. Deve a liberdade, ao invés de ser negada pelos neuro cientistas levianos e irresponsáveis, converter-se em um valor significativo, em nome do qual as pessoas aceitem viver ou desejem morrer caso preciso for. Caso ela não produza conquistas significativas, caso não desperte amor, lealdade e coragem, caso não melhore as vidas das pessoas, correrá o risco de tornar-se indesejável e inútil.

Já as relações humanas, dentre elas a produção de bens ou seja o setor da economia, devem ajustar-se, acima de tudo as exigências da justiça. Não é o Mercado, porém a necessidade humana que deve determinar o salário, impedido assim a afirmação da miséria e evitando que a divisão social aumente até o conflito entre as classes. Tudo isto implica que a economia reconheça o primado da Ética. Me parece que não há melhor caminho que a liberdade no plano da política e restrição ou contenção Ética no plano da economia.

Resta-nos então alguma esperança?

Sim, certamente há alguma esperança, como também parece haver um poderoso obstáculo

Pois se o positivismo desabou como sistema fechado há no mínimo oitenta anos, permanece ainda vivo e pujante no plano da cultura, a partir de seus elementos dispersos ou dos escombros reaproveitáveis.

Mas qual será o problema do positivismo? Perguntará o católico ou o ortodoxo estúpido que só tem olhos para o comunismo, para o anarquismo e quem sabe para o capitalismo...

Cumpre dizer em primeiro lugar, que este modelo, pautado nas ciências exatas e biológicas, tudo envenenou e desvirtuou ao inserir-se nos domínios das ciências humanas, questão examinada com propriedade de Dilthey a Poincaré (Convencionalista) ao cabo de décadas. Mas quem hoje lê Dilthey ou presta atenção a Poincaré ou a seu cunhado Boutrou...

Observemos de passagem os estragos que causou apenas nos campos da Psicologia e da Sociologia. Quanto ao primeiro deu ele origem a toda uma corrente espúria chamada Behaviorismo - Uma análise superficial do Behaviorismo encontra-se no livro de Marilynne Robinson 'Além da razão' ed Nova Fronteira 2011 capítulo I pg 17. Já no campo da Sociologia a diversos sistemas, todos materialistas e mecanicistas, como os de Marx e de W Pareto.

Alegadamente é o positivismo (Mesmo o francês, herdeiro do iluminismo e portanto destemperado desde o berço!) enquanto filho do criticismo kantiano e do ceticismo Humeano, uma forma de agnosticismo. 

O que deveria força-lo - A respeito de tudo quanto ultrapasse da demarcação imediata dos sentidos (A empiria) - a restrição e ao silêncio, como enfatizaram os ingleses Huxley, Mill Spencer.

Apesar disto, foi o positivismo de Litreé (Alegadamente anti metafísico) sob a forma cientificista, endossando cada vez mais abertamente o materialismo, até vende-lo como científico, enquanto que a ciência, sendo estritamente empírica, é por assim dizer agnóstica face a tudo quanto ultrapasse a simples materialidade. 

Dado por inverificável o quanto esteja para além dos sentidos, fica inviabilizado ou impugnado o discurso materialista. Uma coisa é declarar que o campo da investigação científica restringe-se ao campo da materialidade ou que a ciência seja material e outra, totalmente distinta, é assegurar que não exista qualquer coisa para além da matéria - O que justamente não se pode investigar por meio dos sentidos ou da percepção. Pois dado que existisse algo para além da matéria jamais poderia ser percebido.

É coisa de simples entendimento - Sucede todavia que nem todos os cientistas são versados em Gnoseologia ou Epistemologia...

Diante disto, ao cabo de todo século XX o positivismo, sob a forma acintosa do cientificismo, tornou-se porta voz do materialismo. 

Nada contra os materialistas que tem a lealdade de fugir ao positivismo ou ao kantismo e de apresentarem-se como metafísicos.

Obviamente que tal não é o caso dos positivistas - Os quais aspiram promover a ideologia ou a elaboração mental\conceitual do materialismo como 'ciência' ou dado empiricamente constatado... Aqui há quem pretenda inclusive ser cético (rsrsrs) e ateu, cético e materialista, cético e positivista... 

No plano da cultura o quanto foi dito a respeito do ceticismo por Victor Brochard, em sua extensa monografia sobre os céticos gregos foi reproduzido em gênero, número e grau pelo insuspeito G Sorel.

O qual também pode verificar que é o materialismo - E ainda mais o ceticismo - uma ideologia 'de crise', a qual ele vinculou ao fim do mundo antigo... Antes do mundo antigo ter se lançado aos braços do mitracismo, do gnosticismo e do Cristianismo havia se lançado nos braços do ceticismo e do materialismo. 

Não passou em sua totalidade da razão a fé ou ao fanatismo, mas, a partir da segunda metade do século III d C do irracionalismo ao misticismo (No qual o próprio neo platonismo se havia transformado) e enfim as crenças; sendo recuperado para a razão ou a teologia, por um Cristianismo (A Ortodoxia oriental a partir do século VI d C) que havia incorporado Aristóteles e que viria dar origem as diversas escolásticas. 

Embora alguns digam que este homem antigo fartou-se da razão, parece que foram mais propriamente as condições sociais adversas que fizeram este homem dela desconfiar até a negação ou ainda que a dúvida insuperável e pessimista foi potencializada pela situação externa do mundo, (Assim por calamidades naturais, conflitos bélicos, epidemias, miséria, etc) a qual parece ter repercutido negativamente nos domínios do intelecto, fazendo com que muitos passassem a desconfiar até mesmo de si próprios.

Assim o homem de hoje é precipitado pela crise do tempo presente nos braços das ideologias negativas que reforçam essa mesma crise. 

O homem angustiado ou neurótico da Sociedade do capital - Que trocou a família pelo culto ao trabalho e a viu sucumbir. - chegou a duvidar seriamente de sua capacidade e a sentir-se de todo incapaz ou inábil. 

Isso a um tal ponto que bastou a falsa religião apresenta-lo como culpado, impuro, corrupto e isento de qualquer qualidade para ele acreditar e encarar a si mesmo dessa forma.

Desde então a própria sociedade, enquanto convívio dos homens, não encontra regeneração... Uma vez que a partir do nada ou do vazio não se constrói coisa alguma. Uma vez que o nada o torna ainda mais frustrado. Uma vez que a impotência produz apenas decepção. 

Mesmo antes de ter tirado sua máscara e assumido aquele viés materialista que haveria de caracteriza-lo posteriormente, o positivismo, desde os tempos de Litreé, tendo declarado guerra a metafísica ousou repudiar a viabilidade da Ética enquanto valor universal e unificador. 

Já Brochard, em sua já citada obra, havia registrado que os antigos céticos costumavam ficar exasperados quando seus contraditores embrenhavam-se pelo caminho da ética, uma vez que nada tinham a oferecer e eram levados a admitir que absolutamente tudo era permitido... 

O que evidentemente assombrava seus contraditores, embora de modo algum assombre o homem leviano do século XXI. 

Mason acaba de morrer e esse Mason que acaba de morrer, foi quem urdiu o assassinato de Sharon Tate, seu filhinho e seus hóspedes, alegando que 'Tudo era permitido' uma vez que ele e seus seguidores não admitiam que assassinar, roubar, etc era errado... E como nada de externo ou de objetivo ao individuo além da sociedade falível... Como não há uma Ética transcendente, universal e unificadora... Com que direito podemos nós, a partir de nossos princípios e valores individuais, subjetivos e relativos julgar um Mason, um Streicher ou um Maníaco do parque e com que direito os podemos julgar e punir...

O que nos faz julgar e punir, com absoluta propriedade, tanto um Hitler quanto um Goebels ou um Himler é uma lei natural, essencial e comum que transcende a cada individuo e é fonte de direitos inerentes para todos os seres humanos. É sobre este conceito ou noção que se assentam os fundamentos mais remotos de nossos aparelhos judiciários.

Eliminado esta lei natural e estes direitos inerentes, como querem Kelsen Ross, apenas a instância social ou o poder político sobrepõe-se a pessoa.

Aparentemente semelhante doutrina não parece apenas inofensiva mas até sensata... 

E no entanto quantos não foram os crimes cometidos pelas sociedades, estados e organizações políticas ao cabo da história... A escravidão negra nos EUA, o Apartheid na África do Sul, os Campos de concentração nazistas na Alemanha, etc 

Daí Thoureau ter elaborado a doutrina da desobediência civil, embasada na consciência pessoal, a qual é tão digna e nobre quanto o poder político o é. 

Assim se Ross Kelsen personificam CreonteAntígona é feita valer pelo autor de Walden. Importa que hajam valores objetivos, comuns e essenciais acima de Antígona, Creonte, Ross, Kelsen, Hitler ou Mason... Aos quais se possam reportar todas as pessoas e sociedades.

O positivismo, todavia - E por questão de crenças ou de metafísica. - não o pode admitir...

Afinal Justiça e Liberdade são conceitos puros, que não podem ser experimentados, vistos, pesados, medidos, contados, etc E, sendo assim não existem apenas nos diferentes indivíduos, porém de diferentes formas. E o que é liberdade para um já não o é para outro... Nada de objetivo e externo aqui. 

Caso a justiça exista externamente e tenha uma forma comum, terá de existir e de subsistir imaterialmente... 

O que o positivismo não pode admitir. 

Sendo assim todo essencialismo ético, todo universo socrático/platônico é fundamentalmente abalado pelo positivismo. Pois é metafisico duma metafisica imaterialista ou espiritualista sem a qual a solução ética formulada pelo filho de Fenarete vem abaixo e desabada fragosamente. Enquanto ali, ao lado, diante dele, está Trasímaco, partidário de Creonte ou da força, do poder arbitrário.

Lamento te-lo de repetir pela milésima vez neste tempo em que se fala, tanto e tão levianamente, sobre ética. 

Afinal o grande mérito do pós modernismo anti positivista foi dar razão aos Católicos e reabilitar o tema da ética. Sem no entanto saber ou poder soluciona-lo, pela via do irracionalismo. Posto que por via do irracionalismo nada se soluciona ou conclui. 

Seja como for do positivismo jamais partiu qualquer sistema de ética, e ele jamais ocupou-se da ética mesmo quanto não chegou a nega-la honestamente com Litreé... O máximo a que seus profitentes chegaram foi a identificar a ética ou os valores com uma dada cultura humana, o que nos leva, não apenas ao relativismo, mas, como já foi dito, a instância da sociedade, como sendo o padrão com que nos deveríamos conformar. 

Ao postular o relativismo Etico ou cultural Durkheim, Levy Bruhl e os seus, ao menos remotamente, forneceram um suporte perfeito para Kelsen e este um suporte perfeito para a estatolatria e conformismo típicos do ceticismo enquanto negação de um modelo ideal. 

Foi assim com Pirro na antiga Grécia, e, ninguém mais conformista e conservador do que ele, dirá o citado Brochard... e não poderia ter sido diferente, pois como assevera Recaséns Sichens, não há crítica ou resistência, ou oposição possível a um dado concreto sem que haja uma instancia ideal. 

Negando doentiamente essa instância ideal e portanto, na mesma medida, a correção ou mudança, ceticismo e positivismo (Um Ceticismo ametafísico ético e estético.) tendem a ser conformar com o que é e a fazer com que nos submetamos docilmente a um veredito social que nem sempre é certo.

Remova a ética no entanto e que nos restará: O racismo, o escravismo, a tortura, o machismo, a pedofilia, a guerra, a matança de animais, etc

Irrelevante ou mesmo ocioso condenar tais monstruosidades em nome do individuo, da autoridade ou do grupo social. Pois alguém mais atilado, como um Mason, percebendo o logro, sempre poderá classificar tal condenação como mera opinião e discordar. 

É necessário condenar o machismo, o racismo, o odinismo, o adultismo, o especismo, o escravismo, etc em nome de um princípio objetivo, comum e superior a todos. De modo que a condenação seja categórica e o castigo justo.

É necessário fulminar tais vícios com uma condenação absoluta e  irretorquível. 

A qual independa da anuência ou da vontade dos indivíduos. 

Em nome de uma lei a que eles não poderão furtar-se porquanto sob quaisquer alegações.

O que sempre nos levará ao conceito de Lei natural, digo de que a Etica corresponde a uma Lei natural tão impositiva quanto a Lei física ou a Lei biológica.

O materialismo jamais ultrapassara o utilitarismo crasso i é aquele de Benthan, o da pior espécie... Mesmo porque Benthan, por questão de princípios jamais poderia considerar algo de unificador num universo puramente material. O quanto podia ele ver eram apenas elementos dispersos: Arvores, animais, casas, grupos sociais, culturas, opiniões, pontos de vista, etc sem qualquer mínima conexão ontológica.

Todos estão fartos de saber que o utilitarismo original, concebido por Benthan a partir do ateísmo ou do materialismo foi um utilitarismo individualista capaz de justificar Mason, Hitler, Tamerlão, etc

O que forçou J S Mill inserir naquele sistema o elemento da alteridade ou da empatia, o qual ele disse ter tomado ao catecismo ou ao Evangelho. Que os ateus, materialistas e positivistas (Não me refiro a bíblia ou antigo testamento e nem mesmo as cartas dos apóstolos porém as lições de Jesus ou a suas palavras assentes nos quatro Evangelhos - Quero deixar isto bem claro.) encaram como uma produção grosseira.

Solidariedade ou empatia empiricamente falando nada é. 

Por via do materialismo somos seres separados uns dos outros e não podemos jamais fugir ao individualismo com todas as suas funestas decorrências. 

Mas temos os mesmos corpos! 

Não, não temos os mesmos corpos. O que temos são corpos semelhantes quanto a forma ou a constituição, mas diversos quanto a extensão e por isso a dor sentida por um não jamais se propaga ao corpo do outro... 

Mas eu talvez venha a passar pela mesma situação... Isto continua sendo sempre uma mera suposição, a qual, rigorosamente falando não nos obriga a coisa alguma. 

Todo e qualquer sistema de ética que parta do materialismo jamais conseguirá opor-se com sucesso ao individualismo. Serão individuos buscando suas vantagens, bem a gosto do darwinismo social, o primo cientificista do utilitarismo benthaniano por sinal.

Considere o leitor o caso de tais indivíduos terem que matar, roubar, mentir, trair, etc 
para obterem os resultados a que aspiram, se realizarem e assim conquistar a felicidade? 

Fará voce um belo sermão dizendo que cada um deles deve abrir mão da própria felicidade ou imolar-se... Com base em que experiencia ou constatação empírica... Só se for com base nos romances da Bárbara Cartland...

Dirás que o direito deles termina onde começa o do outro... Que devem se colocar no lugar do outro... Que é errado... Etc

Pois bem, onde e por que modo são tais afirmações comprovadas pela ciencia.

Pelo contrário> O que mais vemos nesse curioso mundo são cientistas de tendencia darwiniana (Pobre Darwin) ou darwinistas sociais, publicando livros nos quais declaram que a traição, a mentira, etc corresponderam a mecanismos ou a estratégias evolutivas...

Teme ao menos - O criminoso, dirá voce. - ser apanhado pela justiça, ser descoberto, ser preso, ser punido, etc

O conselho até seria bom caso não deixa-se implícito que um crime não descoberto ou punido nada significa. 

Aqui, o quanto nosso defensor da 'Teoria pura' esta fazendo é, na prática, estimular o crime perfeito, por parte dos que se acham habilitados. Provavelmente voce responderá dizendo que não existe o crime perfeito - Ao que posso objetar: Alguns crimes são de fato tão perfeitos a ponto de voce, ignorando-os poder negar confortavelmente sua existencia. Direi no entanto que antes do DNA inumeros crimes foram 'relativamente' perfeitos e que outros só foram descobertos décadas após as mortes de seus autores, os quais de fato jamais responderam por eles ou receberam punições conseguindo burlar a justiça humana.

Naturalmente que se alguns conseguiram, alguns outros que tem perfeito conhecimento dos fatos e que se julgam competentes - Já dizia Cecília Meirelles Nada mais comum do que alguém atribuir a si mesmo excessivo valor... 

Sendo assim, ao menos para algumas pessoas pretenciosas a  impunidade por si só, face as autoridades humanas, equivaleria sempre a um estímulo ou a uma permissão, para que cometessem crimes.

Senso assim a doutrina utilitarista individualista corresponde, sob todos os aspectos possíveis a um fiasco completo.

Hume merece certamente ser aplaudido por sua honestidade e franqueza, quando partindo de seu ceticismo inveterado, teve de concluir que o assassinato não constitui um mal em si mesmo e que a única coisa que o transforma em crime é a lei baixada pela sociedade. 

Portanto não havendo punição ou lei externa não haveria crime.

Tortura e estupro tampouco seriam males condenáveis em si mesmos, exceto se condenados pela sociedade. 

Agora imaginem uma Sociedade que aprovasse a tortura, como a Comunista, a Fascista, a Nazista - ou uma outra, como a islâmica, onde estupro de vulnerável ou de infiel fosse autorizado... 

Eis para onde nos levam Hume e o querido ceticismo...

Agora reflitamos sobre o que sucederia caso as pessoas, em especial as massas ouvissem-no e o levassem a sério.

Reflita! 

Imagine uma Sociedade em que o sistema de Mill fosse adotado sem os atavios tomados ao Cristianismo (Tornando a ser o de Benthan) com sua ética revelada... Sim, pois o outro nome do utilitarismo individualista é darwinismo social; amiguinho Benthan e amiguinho Spencer estão de mãos dadas... E nessa sociedade regida por princípios egoístas; compaixão, amor, justiça, etc não apenas carecem de todo sentido ou são meros nomes como representam desvantagens em conflito com as investigações científicas.

Agora veja um clamoroso exemplo ou reflexão que tomo Peter Singer - Por que raios continuamos a torturar e matar animais inteligentes, como cobaias, ratos, macacos, cavalos, cães, gatos, etc com as bençãos dos cientistas positivistas e dos patrões ou empresários apenas para emprega-los em 'experiencias' (Torturas escabrosas, repito) e ter uns sabonetes, perfumes, xampus e desodorantes, e medicamentos, melhores ou ainda para adquirir uns certos conhecimentos... Por que continuamos a fazer isso após sabermos que tais seres não apenas são sensíveis, como auto conscientes, resistentes a morte e sobretudo inteligentes...

Trasímaco responde: Fazemos isso primeiramente porque podemos ou temos força, armas, etc e em segundo lugar porque obtemos vantagens ou benefícios> Eis ai o belo utilitarismo produzindo seus frutos podres i é uma autentica hecatombe! E os cientistas acríticos e negadores da Etica e de lei natural, executam, aplaudem e defendem tudo isso, para depois criticarem os religiosos ignorantes e iletrados que sacrificam animais a seus deuses... Eis a estirpe dos evoluídos positivistas...

Observem mais uma vez este trágico quadro - Utilitarismo, Individualismo e Darwinismo social... 

E reflitam sobre de que maneira poderiam tais doutrinas servir de anteparo as culturas de morte do Anarco individualismo, do Fascismo, do Nazismo e do Comunismo... 

O positivismo, o cientificismo, o ceticismo, o materialismo e sobretudo o ateísmo jamais poderão servir de fundamento a qualquer sistema de Etica nimiamente humanista i é capaz de proteger, valorizar e promover o ser humano face aos clamores das culturas de morte acima citadas! Que dizer então sobre uma Etica supra especista capaz de vindicar os direitos dos animais acima citados!

Afinal sempre serão sistemas estruturais ou funcionalistas a que sempre se poderá escapar. 

Não cogitam em eles em liberdade ou justiça e por isso jamais serão capazes de inserir vida em nossa democracia semi morta ou de reformar as instituições econômicas produzindo uma sociedade mais solidária e fraterna. 

Não devemos esperar qualquer redenção do positivismo ou de seus tentáculos, tampouco do empirismo e do ceticismo e enfim do pós modernismo. Desse balaio não saí Etica alguma. 

Assim enquanto mais e mais escombros vão caindo sobre nossas cabeças (E diante do cenário feérico que é este imenso campo, coberto por ruínas monumentais.) só nos resta ir bater a outras portas...

Seremos capazes de reconstruir alguma coisa??? Não sei, não sei, não sei; mas certamente devemos tentar...

Poderemos aproveitar algum material?

Mármores e pórfiros sempre podem ser reaproveitados com sucesso...

Reciclagem é sinal de inteligência...

Algo há que possa ser recuperado?

Veremos, veremos...

Precisamos porém de um elemento coordenador...


Conheça também os demais artigos da série 'Culturas de morte': 


  • Americanismo
  • Protestantismo
  • Capitalismo
  • Comunismo
  • Anarquismo
  • Conservadorismo
  • Pós Modernismo
  • Sionismo 
  • etc

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Reflexões ecológicas - O Capitalismo e o meio natural... Para onde nos encaminha o sistema vigente ou a 'desordem' estabelecida...

Já me referi ao discurso dos Aristotélicos sobre o planeta como sistema fechado e recursos necessariamente finitos ou limitados. E também ao genial J S Mill e a doutrina da economia estacionária.

Decerto que o liberalismo econômico partilha do mesmo otimismo presente no positivismo\cientificismo, e que segundo E Troeltsch A C Grayling, não passa de resíduo secularizado do Cristianismo. O que por sinal devemos ao iluminista francês Condorcet.

Condorcet porém, ao contrário de Malthus, não parece lá se ter impressionado muito com a finitude do mundo... Dando largas a imaginação e a fantasia. Para ele o progresso seria linear, continuo e infinito. 

Temo portanto que bilhões de pessoas com aspirações ambiciosas ilimitadas não estejam em sintonia com a finitude dos recursos naturais. Pois aspirações sem controle ou regulação, aspirações demasiado amplas e livres, convertem-se bastante fácil em explotação descontrolada.

E enfim, a explotação descontrolada - resultante do excesso de população e da disputa pelo espaço com um meio natural quase sempre incapaz de defender-se, conduziu-nos a beira do abismo ou da sexta extinção em massa, a qual será antrópica ou provocada pelo único animal que ousa fazer alarde de sua racionalidade.

Estamos falando portanto no suicídio da espécie, uma vez que a meta posta pelo capitalismo: O máximo possível de acúmulo, por parte de uma multidão de seres humano, num cenário de livre disputa ou concorrência, é absolutamente irracional, inda que os meios sejam perfeitamente racionais. O fim ou a meta continua sendo clamorosamente irracional num sistema fechado e finito. 

Nada de catastrofista e muito menos de utópico - Pois sucedeu-se já, se bem que em escala menor, na América, entre os Maias, os quais para erguer e decorar suas soberbas pirâmides escalonadas, esgotaram seu entorno > A cal dependia das fogueiras, as quais dependiam das madeiras, as quais dependiam da floresta, assim as plantações... Eliminadas as florestas cessaram as chuvas e, consequentemente a produção de alimentos, advindo a fome, as epidemias, as guerras e o fim desta tão avançada civilização.

Sucede, no entanto que os Maias não tinham a mínima ideia sobre o ciclo da água ou sobre a dinâmica da natureza, sendo portanto incapazes de prever, planejar e evitar. Nós no entanto estamos a par até mesmo da extensão e do peso da terra... Sendo perfeitamente capazes de prever as consequências de nossas ações.

Está nossa realidade posta de modo bastante claro: Um sistema individualista, materialista e irracionalista (Pelo que temos reproduzido aqui dois aspectos do protestantismo: O individualismo e o irracionalismo.) está conduzindo a espécie humana a extinção. 

Ao estimular a multiplicação da espécie que satura já o planeta e a satisfação das ambições desmesuradas de cada representante seu, protestantismo e capitalismo decretam a destruição do mundo natural i é a eliminação da fauna e da flora, das matas, florestas, bosques e daqueles que os povoam. 

A tendência levada a cabo pelo economicismo é cobrir o espaço como um todo i é todo solo do planeta com uma camada artificial composta por cimento e pedra, alumínio e vidro, plástico e borracha. A qual partindo do centro de cada cidade se vai estendendo, até conectar-se no que chamamos de megalópoles ou conurbações. A acelerar-se um tal ritmo em mais alguns milênios não mais restará palmo descoberto de terra em nosso planeta, ficando ele completamente encerrado numa capa fabricada por nós.

A bem da verdade, antes que tal designío seja consumado, teríamos também nós encontrado a morte certa em meio aos resíduos de nossa atividade ou dessa poluição que contamina águas, terra e ar, envenenando e, no devido tempo, matando. Pois como haveremos de respirar um ar empesteado por CO2... beber água misturada com mercúrio... ou pisar uma terra encharcada por nossos próprios dejetos... É de fato uma perspectiva terrível.

Porém os conspiracionistas não se abalam e as aspirações do liberalismo econômico se apresentam irredutíveis e inconciliáveis. 

Cada qual julgue esta dada situação a partir de seus princípios e valores e, eu, tenho os meus muito bem pontuados, oriundos já da Filosofia socrático\aristotélica, já do Evangelho de Cristo (Não dessa 'coisa' chamada bíblia.), já do Cristianismo antigo, histórico, apostólico... e coordenados pela razão, na qual com toda segurança confio.

E meu juízo é um juízo negativo e condenatório.

Não vejo como a crença em que Deus se fez carne ou assumiu nossa condição. De que Deus tenha querido encarnar-se neste mundo natural e material. De que Deus tenha santificado este mísero grão de pó com a intensidade de sua presença e que estejamos a depreda-lo. 

Poderia acrescentar ainda que malbaratar milhões de espécies viva, de animais e vegetais - Enquanto resultados de um processo evolutivo que toca centenas de milhões ou mesmo um bilhão de anos é uma atrocidade. Dada a singularidade, a utilidade e provável beleza de muitos destes seres.

Consiste por um lado em destruir as expressões ou manifestações da mente divina e por outro em extinguir um espaço visitado e santificado por aquele que chamou-as a existência por meio da Evolução. Autêntico sacrilégio.

Tendo em vista que cada ser existente é um projeto da mente divina e que nosso Deus assumiu uma condição material neste mundo é grave dever nosso respeitar essa mãe natureza e respeita-la como se um santuário fosse. Ao invés, de guiados pela cobiça converte-la numa imunda carcaça - Fazendo o papel nojento de vermes pululando sobre ela...

Ademais um ser não merece respeito apenas por ser racional ou livre, ou mesmo inteligente e sim porque o ser racional é capaz de perceber a totalidade das coisas, avaliar as conexões e atribuir-lhe importância segundo a posição que ocupa no conjunto. Posto que tais seres formam uma cadeia ou teia na qual estamos inseridos e a qual pertencemos.

Ainda utilitária ou pragmaticamente, tendo em vista a função voltada para o conjunto, tais seres precisam ser respeitados e nossa continuidade enquanto espécie depende sim dessa atitude ética que é o respeito. Assim aqueles que explotam ao máximo essa mesma natureza, ultrapassando os limites da prudência e visando apenas o lucro sórdido ou o vil metal, prestam um deserviço a espécie e colocam-na em risco.

É uma profanação absurda, decorrente de nossa miséria e insaciedade interior. De fato apenas o Sagrado ou o plano espiritual é capaz de satisfazer plenamente nossas aspirações, de saciar nossa sede, de preencher nosso interior, de completar nosso ser e de conduzir-nos a uma sóbria serenidade ou temperança. Somente a partir de um tal estado de espírito é que nossa consciência assoma as alturas para que foi posta, impondo equilíbrio e moderação em nosso trato com o mundo externo ou com as coisas.

Tentar substituir a fonte do ser enquanto posse do ser jamais deu ou dará certo. Nem poderia a posse de todo este universo limitado substituir a posse do ilimitado e infinito porque aspiramos ou suprir nossa vacuidade interior. O materialismo associado ao ateísmo será sempre incapaz de aliviar nossa inquietude, inquietude que nos dispersa entre os objetos materiais com a ânsia de acumular.

Todo esse burburinho em torno da acumulação ilimitada, ainda que potencializado ou mesmo ativado pela cultura, parte em última análise de nossa condição, de nosso interior ou de nós mesmos e acaba sendo alimentado pelo ateísmo, pelo materialismo, pela negação da espiritualidade, pelo fetichismo, pela ignorância e pela miséria... Tudo isso estimula nosso apetite insaciável pelo mundo e se opõe a vida média.

Deve assim o Cristão, por o dedo no fundo da chaga purulenta e condenar a totalidade deste movimento em cada uma de suas expressões.

Não podemos aceitar, batizar e abençoar um sistema como esse: Que por tirar proveito do ateísmo e da irreligiosidade, promove-os sorrateiramente por meio da mídia - Objetivando, como já foi dito, estimular ainda mais o consumo. Nobre leitor, desculpa a rude franqueza mas é o consumismo irrefletido, num mundo finito, muito mais perigoso do que o comunismo ou que o fantasma do comunismo e, é esse consumismo vulgar e grosseiro, esse desejo pelo supérfluo, esse gosto pelo excedente que está a destruir o planeta.

Não me contentando em declarar com Henry George, que o delírio em torno do consumo, e, em seguida, o excesso é que produz a carência, o desequilíbrio, a desigualdade, a injustiça e a miséria; direi que esse delírio está já a fazer buracos no mundo como vermes fazem furos num queijo.

Então não mais podemos aceitar esse estado de coisas engendrado pelo capitalismo e tributário, em última análise, do individualismo protestante.

Seremos nesse caso comunistas ou bolchevistas, como afirma essa corja de pastores protestantes 'made in EUA'... 

Julgue o leitor sensível e inteligente as nossas palavras: Precisamos transcender o individualismo, precisamos vencer o ateísmo, precisamos questionar o materialismo e seu papel, precisamos refletir sobre o consumismo e a necessidade, precisamos nos reencontrar, precisamos analisar sem preconceitos o nosso passado e as nossas tradições, precisamos cultivar uma ética não especista ou holística em torno do respeito. E avalie se semelhante pauta faz parte da ideologia comunista e quais possam ser suas fontes.

É honesto desafio que faço a cada um de vocês.

Pois sequer estamos nós em tempos de socialismo ou de malthusionismo puro porém de ecologia e ecologismo. 

Conheça também os demais artigos da série 'Culturas de morte': 


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Outros aspectos do capitalismo...

Tendo sublinhado já alguns aspectos bastante discutíveis do liberalismo econômico face a crítica Cristã tradicional, devo acrescentar alguns outros não menos problemáticos, como a guerra - E já apresentamos o testemunho de W Sombart. - e a indústria armamentista, e a ainda a destruição do mundo natural.

Negar que as duas últimas grandes guerras tenham sido provocadas e manejadas por questões relativas ao 'mercado' ou ao mundo financeiro se me parece tendencioso em demasia. Creio ter sido nas obras de Upton Beall Sinclair - Talvez em Word's end ou em Lanny Budd não sei ao certo que durante a primeira ou a segunda grande guerra tanto a Alemanha quanto a França evitavam geralmente bombardear os grande conglomerados econômicos de ambas as nações ou as grandes multinacionais nelas presentes embora não tivesse mínimo escrúpulo quanto a bombardear escolas, hospitais, asilos, orfanatos e templos religiosos... Creio que tais atitudes tenham algum significado e nos digam algo sobre o que de fato está em jogo ou sobre quem dá as cartas.

No frigir dos ovos a busca pela riqueza esteve por trás das guerras e conflitos desde as mais remotas eras da História e me ocorre terem Umma e Lagash combatido por terras fronteiriças cultiváveis no tempo em que tais terras - Por equivalerem a suprimentos. - eram a riqueza. Se me ocorre ainda a luta pluri secular dos Assírios para atravessarem os estados tampões da Palestina e chegarem a Tebas, antiga capital do novo Reino egípcio e repositório de uma quantidade assombrosa de riquezas. Do mesmo modo Roma atraiu os homens de Alarico pelo mesmo motivo - A imensa quantidade de riquezas nela acumuladas. E Constantinopla para as hordas comandadas por Maomé IV...

Quanto a isto: Novidade alguma debaixo do sol...

Ali eram as guerras movidas por líderes ambiciosos e exércitos ávidos. Desde meados do século XIX passaram a ser movidas por mercados em colisão. 

Parece que agora, no entanto, há um ingrediente a mais, ao menos quanto a articulação.

Refiro-me não apenas a guerra enquanto tal mas a atmosfera de insegurança e medo adrede calculada pela indústria armamentista.

Hoje, talvez mais do que nunca, tendo em vista a tecnologia, são as armas bélicas bastante caras.

De modo que sua negociação ou venda se traduz, quase sempre, em portentosos lucros para aqueles que as fabricam.

Veja que durante as duas grandes guerras os EUA, até determinado momento, venderam armas e munições para ambos os lados, auferindo uma colossal fortuna. Pois num modelo capitalista influenciado pelo positivismo, patriotismo e ética saem de cena quando se trata de lucrar. 

Pouco se dá que duas nações ou povos se ataquem furiosamente um ao outro com o saldo de milhões de mortos se um tal evento possibilita a venda de armas e a aquisição de proventos econômicos. Que de danem as vidas e venha ao nosso bolso ou cofre o dinheiro. Tal o pensamento atual face a guerra - Pois a Guerra de fato produz uma ocasião favorável aos negócios.

Portanto quando as guerras não surgem é necessário causa-las, especialmente quanto sucede algum tipo de crise econômica e o sistema chega a beira do colapso. Em tais situações torna-se a guerra vantajosa... Uma vez que cria um mercado para as armas.

É de fato algo que deve ser pensado e passar pelo crivo da reflexão ponderada. Pois enquanto os parentes de algum político ou general está lucrando com a venda de armas para ambos os lados, um jovem filho de mão viúva é levado a crer que deva morrer ou assassinar outro jovem de mãe viúva a que jamais viu, por amor a sua pátria...

E no entanto me parece que para os grandes industriais - Que tem suas indústrias poupadas pelos dois lados. - o exercício desse amor se torna muito mais fácil. E que os fabricantes de armas e munições não foram ensinados a amar a pátria. Afinal enquanto nossos jovens são induzidos a sacrificar suas vidas ainda na flor da idade, os senhores da indústria bélica, mesmo quando não negociam com o outro lado, jamais distribuem armas a munições, graciosamente ou por amor, a querida pátria.

Então que amor ou dedicação unilateral é essa: Que gera ônus para uma parte > O jovem ingênuo que abre mão de sua vida, e lucro para outra > O nababo proprietário da indústria bélica.

Um aspecto apenas. 

Há outros e igualmente danosos.

Assim até ao menos a primeira grande guerra, este ser que se diz racional, ao invés de suster suas guerras sozinhos, não hesitou em nelas empregar diversas espécies de animais inocentes: Em especial os cavalos, porém também camelos e até mesmo gatos; os quais sacrificou e impôs, na mais larga escala imaginável, horrendos sofrimentos. 

Sem contar que entre os assediados, assaltados pelo terror da fome, não poucas vezes os pets converteram-se em repasto. 

Também a cultura superior sofreu grande dano por parte das guerras. Tomada Cartago por Cipião, foram seus arquivos e bibliotecas transformados em pó. Assediada Alexandria por Júlio César, veio a perder parte da grande biblioteca. Da mesma maneira, quando mais tarde foi Roma conquistada por Alarico e Odoacro pereceram dezenas de bibliotecas, a primeira das quais havia sido criada sob Otaviano César por Asínio Pollio. Da primeira jihad islâmica resultou a perda total da grande biblioteca de Alexandria (Por Amru) e da Biblioteca Cristã de Cesaréia marítima. Posteriormente, foi a Casa da sabedoria de Bagdad lançada as águas do Tigre pelos ferozes mongóis (1258). Em 1525 os alemães saquearam Roma e fizeram perecer nas chamas um imenso número de raros incunábulos. Alguns anos depois foi St Gall atacadas por um grupo de protestantes fanatizados. A própria revolução francesa - Na esteira da reforma protestante. - não foi inocente quanto a destruição de livros e monumentos. Enfim d
urante a primeira grande guerra pereceu a grande biblioteca de Louvain um bombardeio...

Tragicamente todos pudemos testemunhar o estrago incalculável da invasão Yankee ao Iraque, com o bombardeio do Museu e da biblioteca. E a destruição das ruínas de Nínive e Tadmor (Palmira) pelos bárbaros jihadistas do Estado islâmico.

Em termos de conhecimento humano, literário, histórico, etc é a guerra uma calamidade sem atenuantes.

E no entanto, hoje, para muitos - Países - não passa de estimulante negócio... A economia estremece, a crise bate a porte, a moeda desvaloriza, as divisas faltam, a oferta de emprego diminui, etc bora atacar algum país que tenha petróleo, mesmo que o custo, em termos de vidas humanas ou quiçá de cultura, seja elevado. Pois vivemos num mundo materialista economicista que uma determinada fé ou religião, a princípio demasiado transcendente ou celestial, trouxe a luz...

Pois outro aspecto monstruoso da questão é que, tendo sido o protestantismo completamente absorvido pela questão da salvação no além, abandonou e descuidou por completo deste mundo material e natural no qual o Deus Cristão encarnou-se, nasceu, viveu, morreu e ressuscitou... Pois bem, esse mundo, repito, em que quis o Deus Cristão habitar, foi em um determinado momento entregue a si mesmo e posto de lado pela nova fé descarnada. A ponto do próprio romanismo ter dispersado suas energias, com o intuito de frear a nova fé, e se afastado, também ele, em parte da imanência... 

A nós nos parece que essa fervorosa reforma abriu uma brecha para o naturalismo e para o materialismo no mundo cristão, a qual foi ocupada e alargada, mais e mais, por atividades econômicas descontroladas... Sabido é como o próprio absolutismo régio foi enredado e usado por tais poderes - até ser apunhalado pelos costas... Tal o momento em que o Liberalismo econômico, dispensando as muletas do protestantismo e do absolutismo, afirma-se como entidade ou poder autônomo, nos EUA (1776). 

Certo é, no entanto, que se o romanismo não esboçou, face a esse poder, a resistência e a oposição que deveria ter esboçado, o protestantismo, indo além, colaborou ativamente com ele. Material, a princípio, não tardou para o capitalismo tornar-se materialista. E isto numa Era em que as gentes jamais haviam sonhado com o bolchevismo\comunismo - O qual recebeu este vício monstruoso do liberalismo econômico. 

Pois na perspectiva Cristã a acepção materialista não implica apenas na negação do mundo espiritual mas também na supervalorização do mundo material. Na prática reduzir a esfera da religiosidade e colocar em primeiro plano os interesses de ordem econômica é também materialismo e materialismo prático. 

Alias (Segundo o embaixador José Osvaldo de Meira Penna in 'Opção preferencial pela riqueza p 45) foi o ex papa Ratzinger, ao responder o questionamento feito a um jornalista declarou em alto e bom som: "Comunismo e capitalismo são materialistas." - O que entre nós já fora dito diversas vezes por Plínio Salgado, mas que, deriva da percepção Católica francesa: De Calvez, Maritain, Maurras, etc Concepção trivial - Da equivalência entre capitalismo e comunismo - que o sr Meira Penna, partindo (É claro) de autores protestantes, forceja corrigir ...

O mesmo Meira Penna, aludindo a postura da Igreja romana assim se exprime: "... eis que, desde os primórdios da Revolução industrial na Inglaterra, em fins do século XVIII, foi combatida tanto do lado dos conservadores, entusiastas do medievalismo "idílico", quanto da esquerda jacobina e socialista." p 47

E dá enfim suas razões (Por sinal bastante sólidas e consistentes.):

"
Uma outra linha de pensamento, porém, herdeira da filosofia de Platão e de Aristóteles, e da teologia de São Paulo e de Santo Tomás, seguiu seu curso conservador, primeiro nos países da Contra-Reforma e, depois, no movimento de secularização empreendido através das ideologias coletivistas, o solidarismo
 romântico, o nacionalismo e o socialismo." pg 48 sgs

Até onde podemos ver temos nos catolicismos ou no padrão apostólico uma linha de coerência e uma continuidade histórica que vai do solidarismo ao Tomismo e do tomismo a aristotelismo e ao paulinismo, aqui, segundo cremos, em perfeita sintonia com o Evangelho. Pois bem, partindo do Evangelho jamais chegamos ao individualismo ou ao capitalismo porém ao solidarismo ou a algo próximo, i é, fraternalismo, comunitarismo, distributivismo, DSI, etc O que conduziu o ocidente ao liberalismo econômico e ao americanismo foi o protestantismo, e ao faze-lo removeu nossa civilização de suas bases históricas e tradicionais. 

Foi o protestantismo que jogou nossas raízes clássicas e apostólicas no lixo, produzindo o mundo contraditório e estranho em que nos achamos presos. 

Consequentemente, o protestantismo, de modo geral, colabora ativamente, até o tempo presente, com esse sistema materialista que tem diminuído mais e mais o espaço da fé. Assim, de uma revolução religiosa, brotou, paradoxalmente um sistema materialista responsável pelo recuo ou mesmo pela negação da vida religiosa. E falhou devido a inabilidade do protestantismo para substituir a igreja papa e regular a ordem das coisas no mundo moderno. Nominal e até espalhafatosamente cristão, o protestantismo jamais esteve a altura da missão que para si reivindicou, vindo a falhar miseravelmente e a permitir a afirmação do Capitalismo e suas decorrências. Entregou o protestantismo, o cetro ou o comando do mundo contemporâneo ao capitalismo e aplaudiu quanto as bolsas de valores substituíram o vaticano, quando as agências bancárias substituíram as catedrais e sobretudo quando os shoppings centers substituíram os santuários. Desde então cessou a Cristandade de acumular tesouros no céu e ganhar amigos com riquezas imundas para investir em ações e títulos de papel - Isto enquanto parte dos membros de Jesus apodrecem na imundice das sarjetas...


Por ódio a direção espiritual que as igrejas Ortodoxa e Romana imprimiram as sociedades Cristãs nos tempos antigos os líderes protestantes se associaram a banqueiros e entregaram aos materialistas a direção da comunidade - Naturalmente que tudo isso só poderia resultar futuramente em mais materialismo, ateísmo e revoluções sem fim. Foi o protestantismo, a partir do individualismo e do materialismo prático que abriu as portas do inferno para a Sociedade Ocidental. E foi ele a Revolução primogênita que mesmo sem acionar a revolução Francesa, acionou a R Inglesa e por reação a R Russa. Dele partiu por desenvolvimento, o Anarquismo individualista e o ANCAP e por oposição o Comunismo, a quem legou, indiretamente ou por mediação do capitalismo, o materialismo - E está ele, envolvido até o pescoço, com todas as Revoluções, ideologias e distúrbios subsequentes.

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sábado, 31 de julho de 2021

Porque não sou um estorvo ao sistema ou porque sobrevivo.






Viver em semelhante conjuntura é deprimente ou até comprometedor por ser, em certa medida e até certo ponto, sinal de criminosa cumplicidade ou ao menos de impotência. 

Se vivo ou sobrevivo em meio a um sistema tão podre é porque até certo ponto devo ser conivente ou ao menos inócuo. Se sou conivente não sei, tenho no entanto a consciência de ser inócuo.

Nem em sonho vivemos num sistema respeitoso face aqueles que o ameaçam. Certamente não vivemos mais os tempos das inquisições papais ou bíblicas (Esta última mais virulenta que a primeira!), romana ou protestante... E tampouco nos achamos no período vitoriano em que os 'dissidentes' culturais eram diagnosticados como loucos e internados em sanatórios ou hospícios. 

Em tempos de direitos humanos e democracia, quando por hora não se pode mais torturar ou matar abertamente só resta mesmo recorrer ao assassinato, e portanto a eliminação categórica dos inimigos. Do que temos inúmeros exemplos: Garcia Moreno, Delmiro Gouveia, Oscar Romero, Chico Mendes, Dorothy Stang, etc A mensagem é de prístina simplicidade: Caso você ameace algum grupo hegemônico prepare-se para morrer. Pois se representa uma ameaça real ao sistema não sobreviverá.

Se passar do discurso as obras e ao exemplo, postando-se intransigentemente ao lado da justiça e denunciado corajosamente as injustiças - Na medida em que representar uma ameaça real ao sistema econômico vigente você terá poucas chances de sobreviver. 

Claro está que um sistema que deseja ser considerado manso ou liberal recorrerá a todos os modos e maneiras possíveis com que neutralizar seus críticos sem derramar sangue. Tal será quase sempre possível, porém nem sempre...

Aos teóricos ou que apreciam sobretudo palavras e discursos vazios bastará ao sistema opor denunciantes contratados. Ficando desmoralizada assim a imensa maioria dos revolucionários - Sejam comunistas ou anarquistas - que pouco se preocupam com a virtude e que tão rapidamente assimilam os métodos maquiavélicos de seus oponentes.

Logo em seguida vem os Cristãos que tem algum conhecimento do Evangelho e que sem ser perfeitos buscam opor-se a iniquidade. Quanto a estes é suficiente que a imprensa ameace denunciar alguns de seus pecados episódicos ou ocasionais, revelando algum caso, algum amante ou ex amante, etc o que equivale a desmoralização... Com isso se cala 99% do clero apostólico, seja romano ou ortodoxo, o qual fica amordaçado, mudo, silencioso e calado, limitando-se a tartamudear indiretas...

Já quanto aos leigos Cristãos de diversas orientações, anglicanos, espíritas, etc, judeus, budistas, teístas humanistas, etc de modo geral é suficiente lançar contra eles a 'mão invisível' i é fechar-lhes todas as portas ou possibilidades honestas, retirar-lhes o emprego e sobretudo ameaçar-lhes a estabilidade econômica, convertendo-os em párias ou mendigos. Isto sem que - Ao menos antes da Internet - pudessem vir a público espernear. O que a esquerda cirandeira reproduz sob o termo 'Cancelamento' ou boicote, já é feito há muito pelo poder econômico estabelecido contra seus críticos ou dissidentes de vária lavra. 

Que a mídia sendo privada ou paga negue a palavra aos Cristãos apostólicos e aos socráticos e mesmo aos socialistas mais intrépidos é fato. Não temos uma imprensa democrática a serviço do bem comum - Já pensou nisso? Temos uma imprensa paga ou privada a serviço de valores econômicos ou do lucro. Como pode haver liberdade de fato ou democracia sem real liberdade de expressão? No entanto a liberdade de expressão continua sendo atribuída apenas aos 'economistas' científicos de Chicago, a certas Xuxas da filosofia e no máximo a padres bailarinos... Quando foi que a Globo ou o SBT deram espaço a qualquer sacerdote papista para divulgar a doutrina social da igreja romana? Quando foi que os grandes canais de Televisão promoveram simpósios ou cursos sobre Sócrates, Aristóteles, Platão, Confúcio, etc??? Jamais...

Os próprios partidos políticos não deixam de funcionar como filtros políticos, como dizia M Nordau, e assim os sindicatos... Bastando para o sistema subornar os dirigentes políticos e sindicais sem Ética ou humanismo. 

Suponhamos no entanto que alguém consiga furar filtro após filtro... Empenhando-se em favor da virtude como um Teori Zavascki. Haverá defeito na turbina e o avião cairá. Para que se evite derramamento de sangue... O sistema está perfeitamente a par do tertulianesco dístico: Sangue de mártir é semente de Cristãos... Sangue de mártir é semente ideológico. Pois não poucos são os que despertam por darem crédito aos que se deixam morrer por suas crenças. Sendo melhor não criar mártires em demasia. 

Todavia se preciso for...

Antes o mártir que o sistema.

Mas professor, por que faz o senhor declarações tão amargas?

Sinto-me impelido após ter lido e relido as vidas de um Buda, de um Confúcio, de um Jesus e sobretudo de um Sócrates, os principais críticos ou reformadores sociais sobre os quais muito sabemos.

Antes de tudo eram tais personagens rigorosamente atidos ao princípio da justiça e refratários a toda sorte de injustiças, partissem elas donde partissem.

Dos dois últimos temos que foram mártires, embora o primeiro tenha morrido com certa de quarenta anos e o segundo com certa de setenta. Quanto aos outros dois, posto que tendo vivido em sociedades não tão corruptas, não chegaram a ser imolados, o que não quer dizer que tiveram uma existência agradável. De fato tanto Confúcio quanto Buda, em certos períodos de suas vidas foram atrozmente perseguidos.

Quanto ao divino Jesus não possuímos reflexões suas sobre o assunto. Temos porém algumas declarações enfáticas:

Se me odiaram odiarão a vós.

Haverão vocês de ser perseguidos.

Bem aventurados quando forem vocês perseguidos por conta da justiça.

...

Há porém no tempo presente milhões ou bilhões de Cristãos formais espalhados pelo mundo que não sofrem qualquer tipo de perseguição, vivendo até muito bem...

De fato, afinal por que perseguiria este mundo do dinheiro os calvinistas que lhe deram a vida ou as emprejas que lhe tomaram o método?

De fato não creio que os poderes deste mundo haveria de perseguir aqueles cristãos nominais que servem ao dinheiro ou ao Estado mas sim aqueles que se recusam servir a Mamon i é ao dinheiro, ao lucro, ao capital... Conforme está escrito: A Deus e ao dinheiro não podeis servir.

De fato não me parece que o Redentor esteja se referindo a essa Cristandade de Liturgia, Missa ou Culto, que se satisfaz com a adoração e sim aos que ultrapassando a adoração (Sem jamais repudia-la.) buscam imitar o Cristo, assimilando seu comportando e regulando a vida pelo Evangelho. A estes que acumulam bens no Reino dos céus e não neste mundo e que odeiam a injustiça, e que não toleram qualquer forma de maldade, e somente a estes persegue o mundo e extermina o sistema sem piedade.

Por isso os mártires foram levados ao suplicio antes de tudo por terem repudiado - Em grande parte ao menos e em que pese Paulo. - a abominação escravista e ao ataque a outros povos. 

Outro o caso de Sócrates porquanto este refletindo sobre sua morte, deu-se conta da situação que envolveu sua existência. Perguntando a si mesmo por que não havia sido morto ha muito tempo atras i e quando mais moco... 

Tenho tal reflexão por atual e crucial.

Sem postular o que hora chamam de revolução, furtou-se Sócrates inclusive ao insercionismo ou seja a participar ativamente da vida politica (Como politico profissional.) no auge da democracia grega. Justificando tal opção e priorizando uma ação politica indireta ou não estrutural por meio de uma formação. Claro está que Sócrates exerceu uma ação politica indireta pelo simples fato de ser educador, não sendo alias pela abstenção dogmática e sectária mas pelo preparo. De fato Sócrates acreditava ser mais importante preparar cidadãos para a democracia do que exerce-la ele mesmo.

E contemplando aquele despreparo categórico, atribuía-o ao fato dos cidadãos dirigentes priorizarem o lucro, dos negócios ou do dinheiro que o auto conhecimento, da formação ética ou a virtude, descuidando inclusive (cf Laquetes) a educação dos filhos... Parece que era já aquela Atenas no seculo V a C proto economicista, como que adiantando-se a seu tempo e antecipando o nosso.

Agora que resultava disto?

Infiltrada a sórdida avareza ou a paixão pelo lucro na estrutura do poder ou na politica uma apenas pode ser a consequência> O florescimento da Injustiça no mais alto grau! Portanto era a monarquia, e era a ditadura, e era a oligarquia, e era a democracia, e era a oclocracia - enfim, cada uma delas - usada com o proposito de cometer crimes e exações... Perdido o conceito de bem comum, modelo politico algum podia salva aquela sociedade, pois o problema não era politico estrutural mas ético. Aquelas pessoas amavam o ouro e odiavam a justiça. Diante disto milagre algum podia ser feito...

A uma maquina diabólica sucedida outra.

E nosso Sócrates ficava sempre alheio, a parte, de fora... E por que?

Vos responderei exatamente como ele -

Por que seu Daimon, seu inconsciente, sua intuição, sua mente, seu guia, seu tutor providencial ou seja la o que fosse advertia-o para que jamais se dedicasse a atividade politica, pois caso contrario, assumindo com intransigência o paradigma da justiça e afrontando os poderosos, os avarentos e os injustos seria logo morto, sequer chegando aos quarenta ou cinquenta anos. Entrando pela senda politica e opondo-se as ilegalidades, crimes, arbitrariedades e injustiças não tardaria a tombar o filho de Fenarete! Todavia era necessário que vivesse ou ao menos que prolongasse sua nobre existência ate os setenta anos de idade, de modo a educar uma multidão de homens, formar uma constelação de cidadãos e garantir uma hoste inumerável de discípulos. Tal sua missão ou vocação atribuída pela Providencia celestial.

Destarte o socratismo prepararia o elemento humano e daria vida a democracia ainda em nossos dias i e vinte e cindo seculos depois. Porquanto a vida esta no ideal e não na estrutura.

Decorre do discurso de Sócrates que aquele tempo o sistema, cooptado por gente vil, ja matava, assassinava e suprimia a vida dos reformadores movidos pelo ideal.

E não havia espaço para críticos capazes de ameaçar a normalidade. 

Sócrates, amigo leitor, e quem pinta este cenário aterrador.

Observem agora como em nossos dias as coisas não fogem a esse padrão. Tendo um bom numero de vereadores, deputados e políticos virtuosos tombado sob cortante aço ou atingidos pela bala por se terem postado contra essa maquina de injustiça, denunciado seus pares e devassado seus crimes. Pois não e hoje este sistema menos feroz do que aquele.

Importa saber que a simples atividade educativa quando bem executada jamais se torna improfícua. Assim se nosso homem, evitando exercer cargos públicos, ultrapassou os sessenta não pode ultrapassar os setenta anos de idade. Pois enfim sua atividade tornou-se ameaçadora e tal foi sua gloria. Foi Sócrates bem sucedido como educador ético porque enfim incomodou o Estado ou a estrutura e tudo quanto ela representa, sendo enfim supliciado. Foi justamente a morte que coroou sua atividade educadora. Pois caso a não representar qualquer risco para o sistema não teria suscitado qualquer forma de repressão.

Por isso para o educador ético, humanista e consciente e dos mais luminosos.

Devendo saber ele que enquanto estiver vivo e seguro não cumpriu com seu dever e nada fez de duradouro. Devendo saber que enquanto não for ameaçado ou sentir-se incomodado não representa perigo algum - Por isso pode o homem falar ou discursas livremente. Pode no entanto ameaçar ou representar qualquer medida de risco livremente? Julgue e responda você mesmo amigo leitor. Pois estamos numa época em que muitos vangloriam-se quanto a audácia de seus discursos ou palavras enquanto comodamente vivem... sem serem molestados pelo poder estabelecido. Por isso me pergunto> Que fazem eles para não serem molestados? Pois vejo que Sócrates e Jesus não morreram confortavelmente em seus leitos.

De modo geral acredito que a vivencia, a vida e o exemplo de algumas pessoas rigorosas e intransigentes face as injustiças e mais ameaçador - Para o poder do dinheiro! - do que certos discursos revolucionários iconoclásticos dos quais muito desconfio. Confio mais no testemunho dado por certos homens e mulheres quando confrontados pelo sistema, assim como quando alguém que exerce autoridade toma coragem e se posta ousadamente em favor da fauna, da flora ou de alguma pessoa injustiçada ou ainda de qualquer grupo humano oprimido, pois estes, sabem que correm risco de morrer.

E uma situação concreta da vida que nos poem em risco quando fazemos a opção correta. 

Sempre podemos fugir e estar durante certo tempo a margem do sistema. Todavia quando estando nele - Em maior ou menor medida - oferecer-mos qualquer risco seremos exterminados ou ameaçados por algum matador profissional, capanga ou justiceiro - Sempre formalmente desvinculado, mas, moralmente vinculado... 

Ha quase trinta anos fui convidado para ser politico profissional ou para exercer ativamente a vida politica, e como sou policrata e não abstenceísta sempre tenho sido inquirido por meus alunos (Ao cabo de quinze anos.) sobre o porque de ainda não me ter candidatado ou disputado eleições quando tenho imensa possibilidade de vir a ganha-las tornando-me vereador e implementando uma pauta verdade ou social... Hoje, por meio desta reflexão dou publica resposta e fundada razão ao interrogantes.

Meio constrangidamente confesso que mesmo não temendo a própria morte temo pela segurança de meus entes queridos, de minha mãe idosa, irmão, animais de estimação... Tal a minha covardia e fonte da restrição. Por isso mesmo quando me excedo, grito, denuncio, etc e sempre como articulista ou escritor, jamais como politico atrelado ao poder. Pois não sei por quanto tempo seria tolerado ou viveria. E certamente encontraria um trágico fim.

Por isso me sinto envergonhado quando me dizem que faco parte dessa coisa chamada opinião publica ou que influencio pessoas. Talvez por meio dessas páginas influencie um ou outro, todavia não um número suficiente de pessoas com que ameaçar a 'desordem estabelecida' ou este sistema iníquo de coisas a que chamam estrutura. Pois caso ameaçasse de fato não seria minha sorte melhor que a de Jesus ou que a de Sócrates. Tendo eles recebido a cruz e a cicuta, escaparia eu - Aluno de ambos! - a bala ou a ponta do gládio? Certamente que não - Pois não pode o aluno estar acima de seus instrutores.

Portanto se vivo estou e porque sou inofensivo, inerte e inútil - E sofro por ter plena consciência disso...

Espero que chegando aos setenta ou oitenta tenha já incomodado suficiente o sistema a ponto de obter o que chamam de martírio - Prêmio com que se coroa uma vida honesta! E que a Providência divina e celestial me predisponha a tanto.





 

Tempo de assistir 'O tempo' ou porque Shyamalan não será indicado para o Oscar...



Tirei hoje um tempo para assistir 'O tempo', o novo clássico - Isso mesmo, um clássico, pois toda 'obra prima' nasce já sendo um clássico. - dirigido M Nigth Shyamalan.

A bem da verdade, absorvido por minha leitura das obras de Platão, ignorava que estivesse ele dirigindo um novo filme. No entanto, ao passar pelo Cinema existente no Shopping center de minha cidade, deparamos com o cartaz.

Diante disso, revi meus planos para o Sábado e decidi assistir ao Novo filme, descrito pela vendedora de bilhetes com um filme de 'Suspense' - E de fato ai temos um filme do mais puro suspense, compreendido como mistério. Nem por isso deixa de ser ele de terror. Não porém daquele terror estereotipado e banhado a sangue como 'O massacre da serra elétrica'. Tampouco de um terror sobrenatural e manjado a semelhança de 'O exorcista'. Não. Nada disto, aqui o contexto é outro e, pasme, há narrativa ou concatenação. Aqui temos uma trama, no sentido de que faz oposição a uma urdidura. 

Aqueles leitores nossos que acompanharam-nos até aqui temos de advertir que talvez haja Spoiler. 

Portanto se ainda não assistiu 'O tempo' para de ler este artigo e corra ao Cinema. E não, não estamos recebendo qualquer comissão pelo convite. O quanto aqui fazemos é em benefício da cultura geral, do raciocínio, da Ética, da formação pessoal, etc de não a custo de 'vil metal'.

Não perca portanto a oportunidade de deliciar-se com o tempo, filme feito não para pessoas medíocres mas para gente que pensa ou para seres pensantes. Pois é obra que estimula o pensamento no mais alto grau.

Eu assisti e posso dizer desde já que foi, ao menos para mim, uma experiência tão marcante quanto a que tive ao assistir "Elysium", "O preço do amanhã" ou "V de Vingança". Os quais até hoje são presença obrigatória em meus artigos, aulas, palestras, etc Especialmente quando versam sobre Ética, virtude, moralidade, dilema, ciência, etc

Antes de tudo não creia que o diretor se atrapalha ou embaralha com qualquer coisa. 

Não são 'O Tempo' ou seu diretor que se embaralham. Não - O quanto fazem eles é decodificar para nós uma realidade atrapalhada ou um mundo embaralhado.

Pelo contrário, é 'O tempo' filme de rara acuidade Psicológica e Social, capaz de captar perfeitamente a mentalidade de um psicopata ou canalha que pensa a si mesmo como mocinho, herói ou redentor da humanidade. Em 'O tempo' esta presente o espírito venenoso e sorrateiro de Maquiavel com suas terríficas consequências. Como também esta nele, e é precisamente o que faz dele um marco ou uma obra exponencial, vigorosa resposta a premissa positivista segundo a qual a Ciência nos dará uma Ética, o que alias vem já prometendo há quase dois séculos...

Será que de fato dos laboratórios e tubos de ensaios saíra uma Ética superior a que nos foi dada por Sócrates ou pelo Evangelho (Disse Evangelho não Cristianismo e menos ainda bíblia.)???

Não, não me impressionei com a capacidade de certas pessoas fazerem o mal (Embora quase sempre socrático não creio que a maldade humana seja sempre expressão da ignorância do bem. Todavia conduzido por um otimismo ingênuo e tosco, cheguei a crer que os homens tivessem consciência de seus crimes ou algum vestígio de culpa. "O Tempo" no entanto reconduz-nos a realidade da vida vivida na qual os criminosos não apenas vangloriam-se do que fazem como apresentam-se como beneméritos. 

Assim o é... Fazer o que? Pois enquanto uns possuem sentimentos inconscientes de culpas infundadas outros são simplesmente debochados, insensíveis e cruéis no mais alto grau... 

Talvez se observar com atenção a morte do segundo personagem e de seu cão alguém consiga intuir o desenrolar da trama... O que leva um idoso a morrer antes dos outros? Que leva um cãozinho a perecer primeiro?
 
A partir de 'O tempo' você começará a entender porque os ateus e materialistas apreciam tanto a doutrina no ideologia do Caos, e qual o sentido dessa ideologia. 

Em seguida se lembrará talvez do misterioso 'Triângulo das Bermudas', agradecendo aos céus ou a Providência porque ele não e outros locais do gênero não possuem existência real. Afinal nossa existência, mesmo sendo bizarra, poderia ser ainda mais bizarra e monstruosa. Amorosos céus...

Nada mais reconfortante saber nosso mundo natural e uniforme. 

Para além disto há também material para uma boa reflexão existencial em torno de um casal de jovens, de seu bebê e da morte acidental. 

E como se não bastasse há ainda uma lição de amor em termos de vínculos, cumplicidade e resgate, com direito a heroísmo e quem diria, a um final feliz. Como a ensinar-nos que em meio a mais densa treva pode haver alguma luz...

Há enfermidades - Esquizofrenia, Alzheimer, cegueira, tumor, epilepsia, etc Num quadro de temporalidades, mortes, aparências, engano, amizade, afeto, educação, etc elementos muito bem relacionados uns com os outros e que fazem deste filme, como registrei a princípio, um clássico.

Após terminar de assistir a 'O Tempo' talvez nos tornemos pessoas mais prudentes, quem sabe prudentes como as serpentes e aptos para saber que 'Quando a esmola é demais o santo desconfia' ou se ferra... Pois o preço de um paraíso oferecido de mãos beijadas bem poderá ser um inferno de dor...

Opino no entanto que 'O tempo', devido a seu sentido Revolucionário - Não para comunistas e anarquistas ou no sentido usado por eles! - passará batido. Não contará o apoio das galinhas que não botam ovos, i é, dos críticos e quiçá sequer seja indicado para o Oscar. Pois sem querer ele destapa um cloaca ou boeiro demasiado fétido.

De fato temos uma produção que nas entrelinhas questiona o espectro, ainda vivo e presente, do cientificismo ou do positivismo. 

Claro que uma produção que questiona tais valores não poderá ser bem acolhida por uma mídia movida a grana ou por uma cultura econômica 'evolutiva' ou progressivista. 

"O tempo" como já disse não é uma produção ingênua, mas crítica, e que crítica uma parte ainda essencial - e mitológica - de nossa cultura. 

E como o genial ateniense dizia que antes de buscar conquistar o universo devemos conhecer e dominar a nós mesmos há humanismo na nova produção de Shyamalan. Sendo essa obra mais um testemunho artístico a respeito dessa inversão a que chamamos civilização. 

No entanto não se preocupe se após ter assistido 'O tempo' você não conseguir perceber tudo isso de uma vez. Caso perceba alguns dos elementos apontados já saíra mais rico e melhor... E por fim, sempre poderá reassistir o filme, uma, duas, três ou até mais vezes, que bem merece.

Eis o quanto queríamos registrar sobre "O tempo", seu diretor e seu significado.

Bora partir para o Cine mais próximo e assistir Shyamalan???

 




segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Éticas ou Ética...

Num dias destes, proseando com um amigo, atalhou-me ele para postular a existência de diversas Éticas ou de Éticas diferentes, contrárias, etc tal e qual sucede a moralidade ou aos costumes, de fato relativos ao tempo e ao espaço.

Bem sei que eu que a par de diversas revelações ou grupos religiosos, existe certo número de predicações valorativas que revindicam ser Éticas. Revindicar porém não é ser, e devemos investigar os fundamentos.

Como Socrático e humanista que sou, julgo ela existência de uma única Ética autêntica ou bem fundamentada. As demais teorias e sistemas que revindicam este título seriam tão equivocadas quanto as moedas falsificadas.

Nem poderiam ser opostas e verdadeiras ao mesmo tempo. Declarar aceitáveis diversas éticas contraditórias equivaleria renunciar a verdade, e a contentar-se com aparências ou palavras.

Remeto meus críticos ou objetores ao princípio da contradição.

E diante dele dirijo-me aqueles que compreendendo a importância vital do tema estão dispostos a investigar e a descobrir qual seja a Ética verdadeira.

Você pode demonstrar por qualquer meio (Que não o religioso é claro!) que a Ética deva contemplar a espécie ou a sociedade ao invés do indivíduo??? Nada na natureza obriga o indivíduo a ceder lugar ao grupo. Nada, em absoluto. A empiria esta a favor dos individualistas. Aqui concordamos com eles, e chegamos, pelo que é ou a observação dos fatos, ao individualismo... Com todos os problemas subsequentes.

Kropotkin demonstrou que os animais costumam a auxiliar uns aos outros. Certo, é fato. Mas o que temos de indagar aqui é em que circunstâncias ajudam-se ou se ajudam-se mesmo com prejuízo de si mesmos e de seus interesses, i é, se os animais de imolam pelo outro e se isto é habitual entre eles. Quanto a este tipo de consciência gregária, quanto a imolar-se pela espécie, não tenho qualquer notícia entre os animais. Observo-o nos homens, mormente quando instigados por alguns credos religiosos. Ademais em situações ou circunstâncias anormais ou desfavoráveis tendem os animais a 'pensar' somente em si mesmo ou em termos individuais, exceto talvez da prole (inda que com reservas!) que é a continuação deles mesmos.

As Éticas empíricas não tem podido ultrapassar o abismo do individualismo.

Podem escapar ao abismo do utilitarismo chão???

Pode você leitor demonstrar-me, partindo do que é ou da experiência, que devamos construir princípios e valores que transcendam a utilidade ou aquilo que seja útil ao individuo, cogitando sofrer prejuízo em nome da justiça, como tantas vezes foi cogitado por Sócrates?

A simples vivência irrefletida e irredutível a razão jamais ultrapassa o ponto de vista de Trasímaco, inda que este, qual Morfeu, mude de feições com o passar das gerações. Excluído o elemento comum da reflexão metafísica ou do arrazoado racional, sustentará o homem a busca pelo seu prazer sem cuidar de outra coisa. Moral ou Ética sera sempre fruição de vantagens, benefícios, prazer, etc e não se sai disto. Assim a política será apenas uma questão de poder ou força, a serviço não do bem comum, mas da fruição individual... E atrelado a fruição do prazer e do poder teremos a posse de bens materiais até o abuso, garantindo acesso ao poder a ampliando o acesso ao prazer. E tudo fica nisto: Prazer, poder e fortuna em termos individuais.

Este tipo de 'Ética' sequer nega mas simplesmente despreza ou ignora a existência de seres sofredores, enfermos, escravizados, dominados ou injustiçados; pois os outros só existem para ele enquanto meios para se obter ou consolidar o próprio bem estar. O outro aqui é sempre um objeto ou uma coisa a serviço dos interesses individuais e não uma outra pessoa ou um igual, com o qual nos devemos solidarizar. A empiria não cobra essa equalitarização porque não observa a igualdade na ordem do mundo mas a desigualdade, a qual encara como natural e irreformável. Não se questiona a realidade porque inexiste o padrão ideal posto pela razão ou pelo exercício da metafísica.

Por isso considero apenas uma Ética como autêntica ou legítima em seus fundamentos: A Ética racional, que parte de uma problematização e reflexão profundas, construindo seus princípios e valores em termos de algo tão abstrato como a humanidade, face a qual todos são iguais em termos de relação. Este elemento comum ou 'elo de ligação' universal só se apresenta a razão, não a experiência, e é com base nele que disciplinamos o convívio, dando-lhe uma conotação marcadamente social a um tempo e abstrata ou ideal a outro.

Apenas esta reflexão, que ultrapassa a mera observação dos fenômenos materiais e cogita naquilo que é abstrato e social, poderia ter criado na noção de Bem Comum. Ora a noção embrionária de bem comum, afirma-se teoricamente com o Estagirita, embora esteja já presente em Platão, Sócrates ou na mentalidade da polis grega enquanto busca. E quando dizemos busca, dizemos busca racional.

O conceito em questão não foi apenas formulado pelos grandes sistemáticos do pensamento clássico, mas também provido de fundamentos estáveis ou essenciais.

Por este motivo quanto escrevo Ética, escrevo em singular e quero dizer sempre esta Ética que remonta a Sócrates, passa por Platão e é por assim dizer 'acabada' por Aristóteles, ao menos quanto a seus elementos mais relevantes.

As demais são aparências de Ética, muito mal construídas.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Nos diálogos de Platão... I


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Não sabemos exatamente quantos Diálogos ele legou a posteridade. Os estudiosos e críticos não estão de acordo, afinal além das obras indubitáveis há obras duvidosas e apócrifas.

Há quem fale em 22 - Os indubitáveis - e quem adicione seis, chegando a 28 e mais cinco - suspeitos ou duvidosos - chegando assim a 33, além das Cartas, atingindo a soma de 34 obras. E há é claro, quem por amor a Platão e falta de mais Diálogos, aceite ingenuamente outros 8, certamente apócrifos.

Dentre estes destacam-se, pela densidade e a doutrina, A República ou Da Justiça (Peri Dikaion) e as Leis (Peri Nomoi), a primeira, composta durante a juventude e portanto bastante idealista, a segunda uma espécie de revisão, composta já na idade madura, alguns anos antes da morte de um quase octogenário. Da República, com sua comunidade de mulheres e filhos e uma confiança ingênua na autoridade, as Leis, com seu objetivismo legal, comparável ao Constitucionalismo hodierno, vai caminho... O Caminho de Platão.

Um Platão que teria cruzado com Sócrates com cerca de vinte anos de idade. E ficado literalmente preso aquela mente grandiosa. A qual no entanto lhe foi arrebatada oito ou dez anos depois, e por um regime, formal ou pretensamente democrático. Platão jamais recuperou-se deste trauma. E se críticos declaram que a Igreja supliciou Giordano Bruno que dizer da República que assassinou o melhor de todos os homens??? De fato Platão jamais pode distinguir a Democracia da Oclocracia ou da Demagogia. E concebeu o paradigma da autoridade redentora, mesmo quando na velhice, achou por bem delimitar sua esfera.

Há nos afamados Diálogos - Literariamente muito mais ricos do que a massa dos escritos atribuídos a Aristóteles ou por ele escritos - uma grande gama de personagens famosos - Professores, generais, médicos, devotos, poetas, estadistas, etc Criton, Eutrifon, Crítias, Adimanto, Glauco, Céfalo, Cálias, Querefon, Queremon, Protágoras, Laques, Nicias, Cármides, Trasímacos, Górgias, Agaton, Fedro, Erixímaco, Pausânias, Aristófanes, Fedon, Zenon, Parmênides, Alcebíades, Protarco, Filebo, Timaeus, Hermócrates, Clínias, Meguilo, etc que ora dormem no Kerameikos... A impressão é que estamos numa das praças ou largos da velha metrópole helênica a ouvir as arengas produzidas pelo filho de Fenarete.

Atualmente os Diálogos de Aristócles (Sim, Platão é apelido e significa Ombrão ou ombros largos!) constituem a principal referência ao Pai do humanismo, i é, a Sócrates. Mas não a única, e sequer a melhor ou a mais fiel. A antiguidade clássica conheceu muitas outras fontes a respeito do ilustre mártir da Filosofia: Fedon, Critias, Glauco, Adeimantos, Euclides de Megara, Aristipo de Cirene, Antístenes e mesmo um sapateiro... Todas estas fontes, citadas e fragmentariamente reproduzidas por Laércio, Stobaeus, Athenaios, Aulo Gélio e outros doxógrafos antigos acham-se atualmente perdidas para nós. Contamos porém com a Memorabilia de Xenofonte e com alguns fragmentos de Aesquines de Asfeto, rival de Platão.

Seja como for a Sócrates não é Platão e Platão não é Sócrates. Embora Platão estivesse persuadido de que era uma espécie de homenagem ou recompensa atribuir ao mestre suas lucubrações metafísicas em torno das origens do conhecimento ou sua origem das ideias. Para Th Gomperz por exemplo, o Sócrates histórico é o Sócrates de Xenofonte. Para outros é do Aesquines de Asfeto... ou mesmo a caricatura de Aristófanes. O certo é que nem tudo quanto Platão atribui a Sócrates parece digno de aceitação. Sócrates, sem jamais negar a possibilidade, veracidade ou a objetividade do conhecimento parece ter sido antes de tudo um Mestre de Ética, concentrando seus esforços sobre o fenômeno humano - "Do que me tenho eu ocupado senão do conhecimento do homem?" indaga ele na insuspeita Apologia. Criticou certamente os conhecimentos que julgava ingênuos ou aparentes e muito teve de demolir segundo as circunstâncias. Deixou muitas reflexões ou diálogos inconclusos, mas nada indica que tenha sido cético ou relativista. Especialmente quando opunha-se decididamente a Górgias, Protágoras e os demais sofistas, buscando por um padrão ou critério exato no plano da Ética. Se Sócrates concordaria com Descartes no sentido de que os frutos da Filosofia pertencem aos domínios da Ética, como o francês não ignorava a ilação metafísica existente entre a gnoseologia e a Ética ou que sem Verdade absoluta não era possível postular uma Ética do absoluto ou para além das opiniões e aspirações individuais. Mesmo assim quis começar pela Ética e tão larga foi sua seara que ao deixar a vida, aos setenta anos, estava sua obra incompleta ou mesma por começar.

Sócrates jamais repudiou a verdade e provavelmente em alguns momentos de sua carreira apoiou a tendência naturalizante atribuída aos Sofistas e Filósofos de modo geral. Queremos dizer que compreendeu ou apresentou os deuses da mitologia como forças da natureza, sem no entanto, como eles postular o assustador ateísmo ou mesmo agnosticismo. Foi Sócrates o principal apoiante do teísmo ou monoteísmo racional, metafísico e racionalista, não religioso, revelado ou fideísta. Seja como for tal não foi seu foco - A questão dos deuses e da natureza - e não insistiu muito sobre o assunto, exceto para sustentar que a existência de um ELEMENTO UNIFICADOR {Jamais alheio a consciência grega} era absolutamente necessário no sentido de sustentar uma economia universal, seja no plano do conhecimento, da Ética ou da Estética. O Bem, a verdade e a beleza eram expressões universais de um Ente universal. E o Bem, antes de tudo, foi o objeto da busca socrática. Pois para Sócrates uma ordenação hierárquica situava tais qualidades. E ao Bem pertencia a primazia. A Ética para ele é soberana.

Assim se a crítica da verdade não tocou ao mestre, até por questão de oportunidade, ficou ao encargo do filho de Perictione e Ariston, o qual tentando conciliar os opostos, assim Parmênides e Heráclito, apresentou seu sistema como criado por Sócrates. Nisto não há mentira, há homenagem ou preito de gratidão, segundo a cultura dos antigos. Todavia não devemos crer nem imaginar Sócrates dissertando sobre vidas sucessivas, reminiscências, mundo ideal, arquétipos, etc Tudo isto é apenas e tão somente Platão, o qual para construir seu sistema serve-se das tradições religiosas dos órficos e pitagóricos. Nada demasiado sólido ou racional... Daí a reelaboração, racionalista ou naturalista, desta teoria platônica das formas, apresentada pelo Estagirita, a qual para muitos tornou-se definitiva, ao menos no plano da Gnoseologia ou da metafísica do conhecimento. Aristóteles porém tinha seus pés sobre os ombros de um gigante colossal, do primeiro pensador sistemático do conhecimento: Platão, o pupilo de Sócrates.

Daí a conveniência de que o homem de hoje conheça suas obras ou Diálogos, lidos inclusive por Oppenheimer e Sagan, dentre outros cientistas quase contemporâneos.

Acompanhe em alguns de nossos artigos a apresentação crítica de algumas de suas obras já estudadas por nós.