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quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Problemas de democracia pura ou direta - Era Políbio um sabotador?





Quando penso no impacto ou melhor no incomodo ou no pavor produzido pela ideia de democracia direta em certas mentes o único equivalente que me ocorre é a afirmação do Jesus Revolucionário em oposição ao rabino embiocado da tradição conformista...

Em certas rodas emancipadas discorrer sobre a democracia direta é ofício tão amargo quanto discorrer sobre o Jesus 'Evangélico' i é feminista, socialista, não homofóbico, etc num ambiente sectário...

Isto porque vivemos numa civilização oficial ou aparentemente democrática!

No entanto para muitos nosso enfoque ainda corresponde a um tabu ou a uma utopia e não poucos desmiolados ensaiam relaciona-lo com Marx, Engels ou o odiado espantalho do Comunismo. Quando estamos falando em Clístenes... outra lingua, outro departamento.

E no entanto a evolução atinente aos meios de comunicação e transporte bem como criação da Internet torna essa realidade tão perseguida não apenas possível mas perfeitamente viável e o Demoex constitui apenas um exemplo neste sentido.

O mundo virtual é que haverá de franquear acesso ao universo da democracia direta tornando possível sua construção.

Não é que antes sua construção fosse impossível.

A construção da democracia direta jamais foi impossível.

Ser indesejável ou inviável a qualquer título não comporta impossibilidade.

A construção era possível porém em termos bastante restritos ou diminutos, resolvendo-se desde o tempo dos gregos na cidade/estado, e até podemos dizer que a cidade/estado era a 'cruz' da democracia direta.

Pois a afirmação da cidade estado dependia - e sempre dependerá - da demolição do macro estado ou do estado nação.

Aparentemente nada mal até aqui.

Destruamos o macro estado ou o estado nação.

Acontece 'coisa meiga' que não existe apenas um estado nação ou macro estado abstrato, mas praticamente duas centenas de países ou de estados nações espalhados pelo mundo.

Qual deles você espera destruir primeiro?

A indagação é pertinente porque quando você destruir o primeiro macro estado ou estado nação e decompo-lo em dezenas ou centenas de comunidades regidas segundo o princípio da democracia direta, deve estar pronto para aguentar o repuxo dos países vizinhos, os quais de imediato tentarão submeter as pequenas cidades/estado buscando aumentar seu próprio território e poder.

Assim ao aniquilar um estado nação sempre podemos estar alimentando um estado nação ainda maior ou um Império. Trotsky bem sabia que um estado cuja economia seja diferenciada e bem sucedido tende a produzir alterações no Mercado global. Daí a necessidade de por meio da força desmontar qualquer pais ou sociedade socialista ou de economia alternativa e não integrada. A implantação de um novo modelo econômico não capitalista deverá acontecer em esfera global pelo simples fato de que o capitalismo é global. Do contrário os países dominados por esta ideologia não hesitarão atacar aqueles que se desviarem... Em certo sentido é a mesma dinâmica que toca as cidades/estado ou as pequenas comunidades auto geridas.

Ou o modelo das cidades/estado será universalmente adotado ou malogrará sucumbindo a ambição dos demais estados, dos estados imperialistas. Em certo sentido os países ou macro estados anulam a força ou o poder um dos outros e intimidam-se mutuamente pela relativa proximidade do tamanho. No entanto entre os macro estados e as cidades/estado a disparidade chega a ser assombrosa e a ameaça de dominação real.

Triste mas real, criem uma reserva indígena autônoma em qualquer lugar do mundo, reconheça e afirmem sua independência e não dou um ano para que não venha a converter-se em base e província dos EUA. O mesmo argumento vale igualmente para a criação de comunidades auto geridas ou das cidades/estado segundo o modelo grego.

O que nos leva ao historiador Políbio, o qual bem poderia ser classificado como sabotador da democracia pura ou absoluta, sujos méritos não reconhece, propondo uma solução mista (vide artigo anterior). Não Polibio mesmo sendo grego não apreciava a democracia direta. Pois conhecia melhor do que ninguém a experiência grega.

Certamente não fora a democracia que produzira a cidade/estado. A cidade/estado certamente precede a democracia e lhe serve de cenário. E ela nem fora um problema até o momento em que as ondas do Imperialismo oriental, no caso persa, chegaram as praias do mar Egeu.

Até o século VI a C viviam os europeus, inclusive os gregos, isolados dos mundo 'civilizado' em seus rincões paradisíacos. O mundo oriental no entanto 'girava' já há vinte e cinco séculos, desde os tempos dos Sumérios e Egípcios e desde os tempos de Sharukin senhor de Agadê ou do grande Faraó Tutmósis III buscavam tais povos dominar uns aos outros e unificar o governo sob o 'Imperium'. Pouco antes dos Persas os ferozes assírios - comandados pelo fabuloso Sardanapalo (Assurnabipal) haviam consagrado todas as energias de seu pais a este ideal e depois deles, por algum tempo, os babilônicos de Nabu kuduri Usur. 

No entanto se qualquer algum deles teve conhecimento sobre a existência da Península balcânica e seus habitantes, certamente que jamais pretendeu conquista-la. Sobretudo tendo um Egito ou uma Caldeia assim tão perto... Aquilo sim compensava pelo substrato de riquezas ou mesmo de cultua acumulada. Não a Grécia com suas montanhas e terras infecundas, alias igualmente pobre em termos de cultura.

Dia veio no entanto em que o Império posterior ao Babilônico acabou estendendo suas fronteiras orientais até o Indo e as Ocidentais até a Lídia (na Ásia menor), pátria de Creso, e em fim a um grupo de cidades jônias situadas a borda do Mar Ocidental. Apesar de terem esboçado alguma resistência tais cidades foram logo adicionadas pelo Império, o qual havia por assim dizer chegado a seus termos. No entanto Império algum atinge seus termos enquanto haja terra para ocupar ou reino para conquistar. E para a infelicidade dos gregos peninsulares a China achava-se bem mais distante de Susa ou de Persepolis. De modo que a opção mais viável era a Grécia peninsular, isto no dealbar do quinto século a C.

Quando o poderoso Império Persa lançou suas cobiçosas vistas sobre a pequenina Península balcânica, ela já se achava coalhada de pequenas cidades rivais umas das outras. Em Atenas, uma das maiores e mais promissoras a democracia fora estabelecida por Clístenes há quase vinte anos, assim em outras tantas cidades embora algumas ainda correspondessem a monarquias e outras fossem comandadas por algum tipo de aristocracia. No entanto a democracia era a ideologia do momento e propagava-se como uma epidemia através dos apóstolos enviados por Atenas o que não deixava de produzir sedições e certo tumulto...

No entanto os atenienses obtiveram a vitória em Maratona. Quando a Dário foi repousar com seus pais pouco tempo depois.

Todavia, desde aquele momento Xerxes, mais prevenido e menos entusiástico, não pode mais retirar suas vistas da Grécia. No entanto, ainda mais uma vez, Atenas e seus parceiros obtiveram arrasadora vitória em Platéia e Salamina. Desde então o Império dos Persas recolheu-se e limitou-se a observar o campo rival.

De fato os belicosos atenienses haviam contido o gingante persa, mas de modo algum abatido-o e não podiam os gregos separados em pequenas cidades estado cogitar em conquista o Império Persa. Diante disto sucedeu a boa parte dos cidadãos gregos, inclusive a parte dos atenienses, a ideia de unificar politicamente o pais.

Somente unificada poderia a Grécia conquistar o Império Persa e livrar-se duma vez para sempre daquela ameaça que jamais cessará de espreita-la.

Além das divergências em torno do regime e da forma políticas, a ideia da unificação converteu-se num elemento a mais de desarmonia entre os gregos e assim as arbitrariedades e ambições imperialistas de Atenas e disto resultou o que havia de pior para os gregos: A oposição e a guerra (e portanto a vulnerabilidade e o desguarnecimento) ao invés da acalentada unidade, cada vez mais distante.

De fato a Guerra do Peloponeso foi um evento desastroso que não deixou de repercutir em muitas consciências. Os gregos já sabiam e a muito tempo que a prática da democracia num contesto politicamente unificado seria impossível, todavia, foi o conflito entre as cidades que tornou este tema por assim dizer muito mais agudo, convertendo-o numa espécie de dilema.

E o dilema foi posto nos seguintes termos: Unidade Política ou Democracia?

Seguiu-se um debate que prolongou-se por quase setenta anos.

Entrementes as lutas fratricidas entre as cidades prosseguiam e dentro de diversas cidades as turbações causadas pela sucessiva troca das formas de governo. Era um pandemônio e muitos cidadãos achavam-se extenuados. Outros tantos cidadãos temiam por um ataque iminente dos persas. Apenas a sorte ou seja as condições igualmente precárias do Império impediram que a Grécia fosse conquistada durante o século IV a C.

Foi quando apareceu Alexandre.
Alexandre era bárbaro pelo nascimento posto que macedônio i é não grego. No entanto fora educado por Aristóteles e por isso culturalmente grego e em certo sentido herdeiro das tradições helênicas. Tal e qual seu pai, homem de visão, Alexandre percebeu que assim que o Império se recuperasse, logo na primeira oportunidade conquistaria a Grécia e daria cabo da cultura grega. Era um risco potencial e só poderia ser evitado caso a Grécia somando forças atacasse e conquistasse o Império.

No entanto, devido as cidades/estado e ao regime democrático a unificação de dentro para fora era impossível. Separados pela democracia e pelos limites de suas cidades os gregos jamais chegariam a qualquer acordo. Foi quando o príncipe Alexandre, filho de Filipe, um macedônio, um bárbaro, um profano, decidiu conquista a Grécia e unifica-la de fora para dentro, a revelia de seus cidadãos.

Que Alexandre tenha deliberado conquistar a Grécia e unifica-la não nos deve surpreender. Alias se ele não o fizesse os persas o fariam.

O que nos deve surpreender e pede explicação é a pouco e quase nula resistência esboçada pelos gregos, inclusive pelos atenienses, zelosos defensores das tradições democráticas. Para Alexandre conquistar a península foi quase como colher um fruto maduro. Entrou pacificamente na maioria das cidades quando não foi aclamado por seus habitantes. Em Atenas não foi demasiado diferente apenas Demóstenes disparava seu verbo solene em favor do liberalismo político e da democracia! E que verbo! Em situações bastante raras o verbo revestiu-se de formas tão belas até a sublimidade. Todavia como não é dado a palavra e mesmo a beleza disputar com a realidade das coisas, venceu o partido de Ésquines. E o bárbaro Alexandre foi aclamado como libertador e herói no santuário da democracia.

Para alguns foi a suprema profanação, para outros no entanto a conquista de Alexandre e unificação política constituiu de fato um progresso. Parafraseando o apóstolo Paulo diriam alguns que a democracia antiga ou grega das cidades/estado precisava morrer, a semelhança do grão de trigo, para germinar, brotar e renascer com maior vigor nas sociedades futuras.

Então o significado dos gregos em geral e dos atenienses em particular terem acolhido tão benevolamente ao príncipe macedônico coloca-se nos seguintes termos: Ou mantinham a democracia, as cidades/estado, a divisão e o conflito, e ficavam vulneráveis face ao colossal império persa, pondo em risco a totalidade de sua cultura e visão de mundo (admitindo-se que os persas submetessem a península) ou sacrificavam parte desta cultura, a saber a democracia e a existência das cidades/estado, deixavam-se conquista e unificar por um príncipe helenizado (ou culturalmente grego) e davam cabo do odioso Império Persa.

Claro que a maior parte dos homens ponderados optou pela segunda alternativa: Sacrificar a democracia para salvar o restante da cultura. Poucos dentre eles mostraram-se dispostos a manter autonomia das cidades, mesmo sabendo que era condição 'sine qua nom' a democracia não podia subsistir. Como num avião que perde altitude alguma coisa tinha de ser lançada fora para aliviar o peso e naquela conjuntura a melhor coisa a ser lançada fora era a rivalidade existente entre as pequenas cidades e juntamente com elas a democracia. Viabilizar uma democracia direta em larga escala é o que os antigos gregos não podiam com os rudimentares meios de transporte e comunicação que possuíam. Se ao menos contassem com rádio, TV, Internet... Mas não contavam. Uma democracia de proporções maiores do que uma cidade era inviável, utópica e até prejudicial por jamais poder estender-se para além da cidade e fazer frente aos grandes reinos e Impérios bárbaros.

Desde então ficou o conceito de democracia sob sua forma pura, legítima ou direta associado ao espantalho da 'cidade/estado' e como tal sujeito as mais severas críticas por parte dos pré cientistas políticos, dentre os quais Políbio, para quem a forma romana, impura e mitigada de democracia, existente dentro de um sistema misto era bem mais atraente pelo simples fato de poder ser posta em prática numa escala mais ampla. Pois o Senado romano é aristocrático e representativo, apresentando-se já a solução inglesa da representatividade proposta por J Locke. Antes da Internet um ideal de macro democracia relacionado com um estado nação ou macro estado, devia ser necessariamente representativo. Ainda hoje imitamos mais aos romanos do que aos gregos, embora já possamos imitar os gregos e retomar seu ideal de democracia direta ou pura.

Portanto mais do que vil sabotador, Polibio foi um critico realista, salientando os obstáculos naturais a democracia direta, segundo as circunstâncias daquele tempo e a História da antiga Grécia, que conheceu como poucos. Assim se aspiramos pela implantação da democracia pura e direta no macro estado convém analisar e ponderar sobre a crítica estabelecida pelos antigos.


sábado, 3 de dezembro de 2016

Crise de civilização: O momento crucial porque passamos!

Imagine que um grande navio atravessando as vastidões do Oceano enfrenta ora momentos de calma e bonança, ora momentos de tormenta em que corre risco iminente de sossobrar e ficar eternamente sepultado sob espuma marulhante...

Nos momentos de calma e bonança o capitão não tem que preocupar-se em demasia com a qualidade daqueles que ocupam os postos no navio... Nos momentos de perigo todavia ele certamente escolhe os mais aptos e preparados para que juntos possam superar os desafios da tormenta e salvarem-se uns aos outros!

Não sei se a História deste planetoide obscuro possuí capitão. Digo capitão que desperdice seu tempo escolhendo os oficiais que haverão de resistir a tormenta. Afinal o capitão supremo e infinito não habita entre nós...

No entanto caso tenhamos sido lançados e existência com algum tipo de propósito ou cálculo, nós que vivemos no momento presente - refiro-me aos Ocidentais do século XXI - devemos ser especiais e feitos de rija tempera, pois tal os tempos, tal o homem e passamos por tempos incomuns, daqueles que marcam a História e a memória.

Sendo assim não devemos invejar aqueles que viveram do século III ao V ou mesmo VIII desta nossa Era e que assistiram não a queda do Império Romano, mas ao sossobrar fragoso de todo mundo antigo e duma herança ancestral acumulada por mais de três mil anos!

Refletindo na esteira do brilhante V Gordon Childe não mais aprecio a batida expressão: Queda do império romano, por inexata, insuficiente ou mesmo falaciosa. Império romano foi repositório da cultura grega ou helênica, esta das culturas egípcia, fenícia e babilônica; estas das culturas sumeriana e indiana, dentre outras. É todo uma caudal ou corrente compósita de civilizações que vem ter em Roma e a queda de Roma perante os teutônicos ou de Bizâncio perante os muçulmanos é a o ponto final de um mundo ou universo específico.

É todo um mundo que entra em colapso e declina com o Império romano.

E não afundou de um dia para o outro mas em decorrência de uma crise de identidade ou de um lento processo que arrastou-se por diversos séculos.

Claro que há elementos de natureza econômica e são preponderantes. Mas talvez não sejam os únicos...

Não me estenderei agora por esta direção.

O que desejo salientar aqui é que a queda de Roma é momento em que a civilização de desintegra, decompõem, dissolve e evolve ao 'nada' ou ao quase nada. É momento de crise e Roma só cai e deixa de existir em decorrência desta crise, econômica certamente, mas também de consciência e cultura.

A econômica foi brilhantemente deslindada por Childe, Huberman e outros mestres brilhantes. A da cultura por uma plêiade de analistas vigorosos, assim Th Momsen, W Oncken, etc 

Mas a que propósito vem isto pergunta o amigo leitor.

Quando o Império romano ou melhor dizendo a cultura ancestral entrou em colapso uma organização recém aparecida mas que comportava uma força colossal: A Igreja antiga, Católica, Cristã Ortodoxa, Episcopal ou como queiram chama-la tomou os elementos mais significativos daquela civilização desorganizada, caótica e decadente que estava a ser materialmente aniquilada por bárbaros germânicos e árabes, agregou-os, deu-lhes novo sentido e plasmou uma nova civilização capaz de subsistir por cerca de mil anos, talvez menos, pouco menos.

Não, não foi uma civilização perfeita, ideal, pura, sem pecado, isenta de contradições que isto não existe. Não existiu no auge da civilização antiga e não existe, jamais existiu. Mas logrou essa força, o Cristianismo antigo, salvar e conservar alguns fragmentos preciosos de cultura antiga, assim algumas partes de Filosofia - assim Platão, assim Aristóteles, assim Cícero, Vírgilio, Horácio - e alguns vestígios de arte que do contrário - não fosse essa força muitas vezes menosprezada - teriam perecido para sempre.

É verdade que durante o prolongamento ou continuação imaterial da crise (séculos VIII ao XII) tais fragmentos permaneceram encerrados nos mosteiros e no acesso de pouquíssimas pessoas. Todavia o fato da semente permanecer repousando sob a terra antes de vir a germinar e a dar fruto não tira o mérito daquele que a lançou... Pelo que rendemos os créditos dos futuros renascimentos literário, filosófico e artístico ( cujas condições foram produzidas por um Renascimento econômico cuja gênese é específica) tanto aos monges e bispos copistas assírios ou nestorianos do Oriente quanto aos monges copistas da antiga Irlanda. Quase tudo quanto pode ser futuramente explorado pelos Ocidentais após o Renascimento econômico dos séculos XIII e XIV foi transmitido por eles. Sem este elo da cadeia seriamos muito mais pobres...

seja como for a estabilidade e a produção ordinária de cultura vão sendo paulatinamente restabelecidas e obedecendo a um ritmo e significado próprios a partir de 1200. Tanto este ritmo quanto este sentido plasmam como já dissemos uma nova civilização e uma nova Idade - a Idade média ou baixa Idade Média (porque a alta Idade Média é por assim dizer a Idade Média em termos de estabilidade e cultura, especialmente os séculos XIII e XIV)  - a qual no entanto conhece um declínio bastante rápido e pronunciado (em meados do século XV) até desaparecer ao cabo de meio século de transformações materiais, técnicas e enfim CULTURAIS OU INTELECTUAIS.

A crise suprema, de cultura imaterial ou intelectual surge mais uma vez ao cabo da crise econômica ou as mudanças econômicas, materiais e técnicas; e prolonga-se para muito além desta até que nova síntese cultural ou modelo de civilização seja elaborado e a estabilidade restaurada.

A Idade primitiva conheceu esta estabilidade cultural. A Idade Antiga conheceu esta estabilidade ida que por um menor período de tempo e enfim conheceu-a a Idade Média por brevíssimo espaço de tempo. Pois em que pesem as crises e rupturas todas estas Fases e Idades conheceram a transmissão da cultura ou a Permanência. Assim a religião ancestral introduziu os elementos da cultura primitiva na Idade Antiga após as mudanças de produção e técnica porque passou e podemos dizer que naquela fase áurea não ouve uma crise de identidade ou consciência mas avanço tecnológico apenas. O qual prolongou-se após algumas 'crises' episódicas e de menos grau até a queda do Império romano, quando a humanidade letrada conheceu sua primeira e grande crise global ou se querem Ocidental.

No entanto ali estava como já dissemos a instituição Cristã, muito bem organizada e disciplinada com seus Bispos e Monges letrados disposta a salvar todo quanto lhe fosse significativo. Por isso lemos a Antígona de Sófocles e a República de Platão ou a Amizade de Cícero...

E mil anos depois ali estava ainda o mesmo Cristianismo ja sob a forma de um papado monárquico contagiado até a medula pena Renascença humanista e capaz de mais uma vez identificar-se com os ideais da cultura clássica afirmando-os face a nova crise emergente.

Importa dizer que após o término da crise 1530 (???) e o fim da Idade média não produzimos uma cultura estável, mais ou menos coesa ou uniforme em torno de um núcleo ideológico comum. O que a religião ancestral fora para os primitivos, o que a paidéia grega fora para os antigos, o que o Catolicismo e os restos de Paideia haviam sido para os medievos e Renascentistas da primeira leva NÃO TEMOS. NÃO TEMOS, NÃO TEMOS...

Porque desde Lutero e sua reforma temos apenas materialismo, técnica, econômica. Em termos de cultura propriamente imaterial, em termos de epistemologia ou de crenças religiosas tudo quanto temos hoje é epifenômeno da dúvida ou do ceticismo. Não temos verdades, não temos nada de intelectualmente positivo, não temos nada de metafisicamente relevante nestes tempos de continuidade e agravamento da Crise.

Passamos por uma fase ou por um tempo de ceticismo crasso ou crônico, a qual como já se disse é incapaz de produzir elementos intelectuais ou imateriais revelantes a ponto de conferirem estabilidade e certa unidade a cultura. E temos uma cultura fragmentada em inúmeros elementos contraditórios ou caóticos, um turbilhão de partículas separadas e de homens que são como mundos que nunca se encontram e jamais dialogam.

A princípio, como todos os seus erros (alguns bastante graves por sinal) o Cristianismo ocidental, papismo ou romanismo - AO MENOS PARTE DELE - buscou em maior ou menor medida reintroduzir estes elementos de unidade e reorganização em termos de epistemologia aristotélica, direito natural (hoje direitos humanos) e até mesmo de justiça social. Busca esta que prolongou-se até o colapso da Igreja romana nos anos 60 por ocasião do Vaticano II. Desde então embora ela tenha mantido de forma muito sumária e restrita tais valores foi invadida pelos elementos ou pelo conteúdo que até então denunciava (relativismo, subjetivismo, etc) e perdeu grande parte de seu prestígio e influência.

O papel que a religião ancestral desempenhou no mundo antigo, que a paideia grega e a igreja antiga desempenhou no mundo medieval (cf Jaeger 'Paideia grega e paideia Cristã'), que o papismo representou no fim da Idade Média e até meio século atrás não há instituição que possa representa-lo hoje em 2016 e já Toynbee e outros que acompanharam a agonia e o fim da igreja romana enquanto elemento social unificador e dinâmico, avaliaram esta situação como única e dramática. Cientes - com Coulanges, Mauss, Dawson - de que a religião e a Filosofia, a Filosofia e a religião sempre desempenharam papel de máxima importância quanto a produção, transmissão, afirmação, estabilização e unificação da cultura (necessária a existência de uma Civilização) parte dos intelectuais deixou-se contagiar pelo pessimismo e com Huizinga, Spengler, etc proclamaram o fim do ciclo ou da civilização Ocidental embalada pelo divino Sócrates e patrocinada por Alexandre há quase vinte e cinco séculos.

Após os círculos do ceticismo e do materialismo terem se fechado parece não haver mais qualquer possibilidade religiosa para o Ocidente após o Cristianismo (Nós restringimos tal afirmativa aos padrões Católicos: ortodoxo, anglicano e romano.) que parece ser a menos problemática e a mais evoluída das crenças religiosas mesmo sob o ponto de vista natural (aqui Bertrand Russel). Krisnamurti já apontou com propriedade o vão esforço de produzirmos um civilização sobre bases céticas ou materialistas. Pelo que o já citado filósofo da História, Toynbee, para escapar a maré ascendente de pessimismo imiscuiu-se (quase que como K Marx) pelos meandros sutis da profecia postulando o surgimento de uma nova síntese religiosa no Oriente médio, isto pela última quadra do século XX. Conciliando o humanismo, a ciência e a metafísica, elementos filosóficos, positivistas e hindus este novo padrão religioso superaria definitivamente a rivalidade islâmico/Cristã trazendo paz ao mundo, Unidade a cultura e suporta a civilização do futuro.

Nem preciso dizer que semelhante oráculo não se concretizou.

Assim temos hoje: O SALAFISMO, o ISIS, o TALIBAN, etc fazendo peripécias no Oriente. O sectarismo fetichista e bíblico dominando o Cristianismo Ocidental. Uma ciência cada vez mais cientificista e não só ateística e materialista como anti ética. Um humanismo ameaçado pelas culturas de morte com seus venenos totalitários, Nossa herança grega em termos de epistemologia objetiva ou realista cada vez mais negada ou esquecida. Um total entorpecimento em termos estéticos ou artísticos; enfim mundos em colisão, sociedades em conflito, culturas em choque e nada de Civilização.

Dentre este cenário caótico e negativo apenas os herdeiros do protestantismo, legatários de um ceticismo e de materialismo tímidos e paladinos de um individualismo economicista ou seja capitalistas ousam falar numa nova civilização pós medieval elaborada por eles lá nos Estados Unidos. Tal a única proposta de Civilização que em certa medida estendeu-se pelo Ocidente pulverizando os elementos humanistas da cultura antiga.

Temos aqui o ideal de civilização protestante, liberal economicista ou yankee (porque forma uma solidariedade cultural ou modelo mais ou menos uniforme construído naquela República) e já foi cognominado Americanismo ou câncer americano (Aron e Vailant). É o único modelo mais ou menos consistente que nos é apresentado num cenário geral de ceticismo, materialismo, totalitarismos e islamização. Ao ceticismo epistemológico e ao materialismo crasso opõem os yankees uma espécie de metafísica que desenvolveram em torno do lucro e do dinheiro numa perspectiva individualista. Uma espécie de religião ou culto do ego voltada para necessidades econômicas ou como dizem para o Mercado.

O Mercado este existe e dele não duvidam nem podem duvidar os apóstolos deste novo culto. E até se auto regula, em que pesem as crises, que eles sempre atribuem ao controle exercido pela Sociedade ou pelo Poder político, em que de fato não creem...

Como se vê e sabe ali tudo começou pela Bíblia, a luz do livre exame e naturalmente, depois, vieram, as seitas, as disputas e a total ou quase que total falta de fé. No capital porém encontraram os Yankees digno substituto para seu javé e nos livros de Smith, Ricardo, Molinari, Bastiat e mais ainda nos de Mises, Hayek e Fridmann a nova Bíblia com os dois testamentos: velho liberalismo e neo liberalismo... Há ali templos que são bolsas de valores. Sacerdotes que são acionistas e empresários. Culto que é o trabalho alheio e evidentemente hóstias ou sacrifícios que são os trabalhadores ou a gente humilde esmagada pelo peso da miséria.

Seria um ideal de civilização a ser seriamente analisado se como declarou o Filosofo estivesse destinado a fazer sumamente felizes o maior número possível de pessoas.

O liberalismo econômico no entanto não faz consideração em termos de pessoas ou de Sociedade. Para ele tudo quanto existe é a iniciativa privada e necessidades individuais que cada qual satisfaz segundo suas capacidades. Aqui quem não satisfaz, quem não se adapta ou se acomoda, quem não deixa comandar ou explotar pelo 'mais forte' é vencido, quando não vagabundo e esta é a lei da vida, a lei eterna que rege o universo e que foi ultimamente descoberta pelo vidente Mises.

Tudo quanto existem são unidades individuais (sic) empreendedoras num cenário natural de disputação ou concorrência e tudo quanto o Poder público deve fazer é velar para que a concorrência seja livre. Fazer algo pelos derrotados, miseráveis ou humildes seria anti natural!

É o Mercado impessoal e soberano e não o patrão que por puro capricho seleciona arbitrariamente os afortunados. Que é afortunado o é por qualidade e competência e questionar isto é simplesmente absurdo.

Mas é ou foi o protestantismo e não o liberalismo que separou as pessoas ou a comunidade em individuos no momentos mesmo em que ousou apresentar a Instituição do Cristianismo como uma relação individual com Deus na qual o homem bem pode salvar-se sozinho, isolado em seu egoísmo e sem se preocupar com seus irmãos os demais homens.

O liberalismo econômico veio depois e aproveitou-se certamente da situação, tirando partido da nova realidade cultural ou ideológica.

O terreno, repito em alto e bom som fora preparado pelo Dr Lutero ou pelo protestantismo no momento mesmo em que excluiu da econômica Cristã - inda que provisoriamente - os conceitos sociais ou gregários de igreja visível, mediação sacerdotal e obras éticas propondo um novo modelo religioso e espiritual centrado apenas no ego. A busca de uma salvação individual ou pessoal desvinculada da dimensão comum, eclesiástica ou social tinha mesmo de dar onde deu, numa economia individual, numa política individual ou negação da política (Estado mínimo/ Stirner), numa moral individual ou individualista (Rand) e até mesmo numa arte individualista. Pela porta da religião o individualismo apoderou-se de toda cultura ou de todas as esferas da cultura até formar uma anti civilização ou uma civilização anti humanista em tudo oposta a nossa herança clássica e a nossa herança Cristã as quais pensavam antes de tudo em termos de Pólis e de Igreja, jamais em termos de individuos.

Havia decerto o espaço da pessoa. O qual todavia jamais conflitava com a dimensão social da fé ou com a dimensão social da política.

Aqui o individualismo e suas necessidades egoístas ou psicopáticas por assim dizer tudo dominaram e produziram uma cultura para a qual o homem nada é ou para qual as exigências do Mercado, o capital ou o lucro foram postos acima da pessoa. Relação de já foi definida em termos de TER X SER.

Todas as civilizações antigas foram todas pelo SER. A nova civilização surgida no Norte das Américas ao tempo em que a Europa alienava-se de seus valores e se desagregava como civilização (seculos XVI e XVII) é decididamente pelo TER.

A reorganização e o sentido dados ali sob o influxo do protestantismo tendiam a um liberalismo exacerbado em todas as instâncias do ser. Por isso na terra do protestantismo o capitalismo evoluí cada vez mais num sentido ANACAP e não creio que seja por coincidência ou que as coisas possam se dar doutra forma. A um tempo político por seu conteúdo anti político e social e a um tempo econômico por sua insistência mórbida em torno da excelência do Mercado julgo que este modelo de pensamento corresponda a forma mais desenvolvida do individualismo.

Agora por que raios o protestantismo não produziu o mesmo efeito cultural na Europa???

Simples gênio, porque ali de par com ele haviam elementos - as vezes até inconscientes - da cultura ancestral e gregária mantidos pela velha igreja romana ou pelos catolicismos. Mesmo nos locais onde a nova fé suplantou a antiga haviam Catedrais, torres, sinos, cruzes, calvários, instituições culturais, etc Havia cultura Católica e nela cultura pagã ou cultura helênica e esta não pode ser destruída de imediato pela nova fé.

O desconforto dos reformadores mais dedicados tinha sua razão de ser justamente nisto, em que o povo mudava de fé mas não mudava facilmente de costumes e as instituições sociais perpetuavam-se e perduravam mesmo quando eram rotuladas como anti bíblicas. O ideal iconoclástico e fanático acalentado por alguns implicava erradicar todos os monumentos e vestígios da fé ancestral e por produzir um novo modelo de sociedade, uma sociedade que partisse dos moldes bíblicos do antigo israel numa perspectiva protestante e houve quem pensasse em termos tão radicais quanto menonitas e amishes inclusive em termos de técnica.

Sonhavam com um mundo totalmente novo sem cruzes, torres, sinos, bispos, pinturas, enfim tudo quanto lembra-se o Catolicismo e seus elementos pagãos e politeístas ou idolátricos como diziam. Era toda uma febre ou delírio que levou os puritanos ingleses do século XVII a destruir até mesmo os antigos padrões reais.

Poder destruir símbolos e emblemas até podiam mas a cultura é que não podiam destruir pelo que encaravam-na como poluída. A Apostasia da igreja romana e sua paganização havia contaminado a infeliz Europa durante toda Idade Média e deseducado a Cristandade. Mesmo após o surgimento da luz, como diziam os pregadores protestantes, alguns dos cidadãos ao contemplar os antigos emblemas sentiam renascer a fé antiga e regressavam ao papismo inda que tivessem de enfrentar as sansões do poder secular.

Era uma situação desconfortável porque não dava para produzir de imediato uma cultura protestante pura e consequentemente uma nova civilização isenta de elementos 'católicos'.

Neste sentido o surgimento de um novo continente, Virgem em termos de cultura européia - a cultura indígena sequer era considerada), passou a ser encarado providencialmente ou como uma benção divina e os sectários - que se sentiam oprimidos pelo simples fato de terem de conviver com os Bispos anglicanos paramentados, as cruzes, as catedrais, os sinos, os órgãos, etc - puderam concretizar seu sonho no sentido de criar uma civilização protestante pura. Essa cultura de fundo protestante ou civilização protestante é a cultura Norte americana ora marcada não mais pela religiosidade bíblica ancestral mas pelo capitalismo ou pela religião de mercado. O elemento comum que representa a continuidade é o ideal individualista presente em todos os setores da existência da religião a economia passando pela política.

A partir da religiosidade ancestral os primeiros povoadores da América do Norte puderam imprimir um sentido individualista a todas as esferas da vida humana e este pode desenvolver-se bastante rapidamente pela simples falta de uma cultura oposta capaz de conte-lo. Consciência social ou gregária não estava presente ali. O individualismo religioso medrou e desenvolveu-se até secularizar-se sob a forma de capitalismo e assumir ultimamente sua forma acabada: o projeto ANACAP. Em certo sentido este projeto é o último herdeiro direto do protestantismo...

Compreendem agora porque estamos lançados num conjuntura tão grave quanto aquele que teve lugar após o fim do Império romano, e sem instituição que nos possa valer.

Como somos levados falaciosamente a optar pelos extremos da ausência de civilização (representada pelas culturas de morte surgidas na Europa - comunismo, fascismo e nazismo) e a proposta duma anti civilização ou dua civilização anti humanista...

A encruzilhada da existência conduziu-nos a este terrível dilema.

O que a ética se é que assim nos podemos exprimir, espera de nós é a negação desta falsa cultura Americanista e sobretudo esperança de dar com uma solução cultural eficaz no sentido de forjar uma nova civilização humanista, que resgate o elementos do passado e nos reconcilie com a herança ancestral.

Faremos nós jus a esta tarefa?

Estaremos a altura de semelhante desafio?

Seremos nós os homens certos?

Estaremos nós no lugar e no momento certos?

Fomos escalados por algum capitão?

Corresponderemos a tão prementes necessidades?

Ou assistiremos o fim da civilização e quiçá da humanidade, enfeitiçada por um modelo que nada tem de ético???

Tais as minhas cogitações e perguntas ao querido leitor.

Porque eu mesmo me sentiria bem melhor no século V a sombra da igreja antiga e ao lado de um Boécio... ou no século XVI ao lado de um Morus ou de um Campanella e mesmo algum tempo depois ao lado de um mably, um Morelli ou um Lammenais. 

Diante de tudo quanto presencio em termos de cultura sinto-me um tanto desanimado, partilhando os mesmos temores de um Huizinga e de um Spengler sem as ilusões de um Toynbee. 



sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Cultura européia, cultura norte americana e cultura islâmica IV - Balanço final

Balanço final - superando falsas dicotomias 


Não sei saber quem é mais safado: o americanista tecendo críticas ao islamismo ou o islamófilo/muçulmano tecendo críticas ao americanismo.

São dois hipócritas que se merecem.

De minha parte não desejo viver nem sob o jugo totalitário da sharia, nem sob o jugo aviltante do capital.

Por isso digo não há ambos os modelos sociais: o árabe e o norte americano, o islâmico e o economicista liberal, o teocrático e o plutocrático.

Não quero escolher entre o islamismo e o americanismo porque ambas as culturas ignoram o sentido do homem e restringem seus direitos.

Não desejo nem quero ser oprimido por uma fé que santifica a violência ou por uma ambição desmedida que ignora os imperativos da justiça.

Repúdio pois ao convite: Islã ou americanismo ou V V.

Pertenço decididamente a terceira via ou aos não alinhados que recusam-se a aceitar esta falsa dicotomia de um mundo islamizado ou capitalizado.

Pelo contrário penso numa dupla frente de luta: contra o capitalismo e contra o islamismo. Numa luta em prol do humanismo. Porque o homem seja posto acima de tudo, acima da fé e acima do lucro e seus direitos garantidos.

Neste sentido como deixar de olhar para aquela parte do velho mundo chamada Europa???

Não para a Europa contaminada pelo delírio materialista do século XIX.

Nem mesmo para a Europa abalada pela grande rebelião do século XVI.

Quiça nem mesmo para a Europa do século XIV, já dominada pelo papado, embora haja ainda nela um sentido de grandeza.

Mas não me satisfaz.

E menos ainda para a Europa barbarizada e fumegante do século V.

Olho decididamente para o passado remoto do século IV, o século de Ambrósio de Milão e dos grandes padres da Igreja!

E ouso erguer meus olhos para além dos umbrais do Cristianismo! Para a Atenas do século V e IV a C. A Atenas de Sócrates, Platão, Aristóteles, Zenon... cidade de meu coração!

Ouso dirigir meu olhar ao passado longuinquo não por pensar ou mesmo desejar que se repita nos mínimos detalhes. O que seria para lá de ridículo ou de absurdo.

Olho para tais idades apenas como fonte de inspiração, donde podemos recolher ou retomar alguns princípios e valores deixados para trás no curso dos tempos.

A História não pode ser repetida, mas valores certamente podem ser resgatados e talvez até mereçam ser resgatados com o intuito de tirar-nos deste cenário de pobreza ética e intelectual.

Por isso não posso deixar de contemplar saudoso as fontes de nossos dois grande amores: a liberdade e a justiça! Esta afirmada por Platão e Jesus Cristo, aquela sustentada por Aristóteles e Jesus Cristo!

Democracia e socialismo.

Não a democracia puramente formal e posta a serviço do lucro. Mas uma democracia fiel ao espírito da justiça! Não um socialismo totalitário, mas um socialismo em comunhão com a liberdade!

Coisa que os EUA não nos deram e que islã jamais poderá nos dar.

Os EUA apresentam-nos a lei dos mais forte, trazida nas pontas das baionetas e nas bocas dos canhões. O islã os grilhões da sharia e a servidão da Djzia! Que só os emasculados, covardes e degenerados podem aceitar!

Ao contemplar a Europa do século V a C a primeira metade do século XX d C encho-me de vivo otimismo, porque deparo-me com uma pleíade de sábios e pensadores e um imenso mosaico de teorias sociais, políticas e econômicas dos mais diversos matizes. Importa que estejam em oposição tanto ao capitalismo quanto ao islamismo... ou em comunhão com o comunismo. Não, não me refiro ao comunismo, nem ao nazismo, ao fascismo ou ao anarco individualismo; que são outros tantos venenos como o capitalismo e o islamismo. O cenário intelectual que descortino é muito mais rico, vasto, profundo e amplo do que podeis imaginar!

Quando fato em Europa, cultura e civilização européia não me refiro em hipótese alguma a EUROPA PROTESTANTE ou alemã. Pois esta trás em seu bojo os germes do capitalismo com que se faz solidária!

Refiro-me a Europa em luta com o protestantismo - e posteriormente contra o capitalismo - e anterior ao protestantismo. Não apenas a Europa Católica, ortodoxa e SEMI PELAGIANA do século IV desta Era, mas acima de tudo a Europa ancestral e pagã, sim pagã, pagã mas divina, de Sócrates, Platão, Aristóteles, Zenon, Cícero, Strabo, Sêneca, Quintilianus...

Em tudo o protestantismo se me apresenta como humano e mesquinho, já por ter apresentado a igreja romana como paganizada! De minha parte encaro os Catolicismos como geniais ou divinos justamente por terem incorporado e conservado parte de nossa herança pagã! Apesar de seus erros grande foi o papismo por ter contribuído em certa medida para o Renascimento durante os século XIV e XV! Agora contemplemos a pobre Alemanha: Surge Lutero e desde então é atalhado o curso de um Renascimento que jamais veio a realizar-se!

Lutero auxilia os príncipes a esmagarem os camponeses rebelados e faz prolongar a Idade Média na Alemanha até 1810 quando é invadida por Napoleão!!! Prega contra os infelizes judeus e inspira o nazismo! Imitador servil de Paulo alimenta o monstro da estatolatria! Morre o luteranismo no século XIX mas a estatolatria e o anti semitismo alimentados pelo pseudo reformador permanecem vivos!

E por duas vezes lavam a Europa em sangue!

Lutero - teórico a um tempo do fascismo e a outro do nazismo -  e sua reforma, juntamente com o sistema de mercados rivais, conduziram a Europa a duas tremendas guerras mundiais! Portanto os fundamentos do protestantismo e do Capitalismo não prestam, devem ser removidos! Agora não pode uma Sociedade sobreviver sem seus fundamentos.

Então o que haveremos de por em seus lugares?

O Comunismo? O anarco individualismo?

A solução comunista não só falhou por completo na Rússia como degenerou em expurgos!

A do anarco individualismo talvez saísse ainda pior, resultando na guerra de todos contra todos de Hobbes!

O islã???

Talvez se fosse capaz de desprender-se totalmente da cultura árabe. No momento presente porém, isto parecer estar bem longe de acontecer.

Islã e sharia ainda são apresentadas como uma e mesma coisa.

Sistema regulador de natureza totalitária e não uma fé inspiradora é o que o islã pretende ser em nossos dias.

Como o Comunismo, o fascismo e o nazismo ele sufoca o homem livre.

Aqui não se pode falar livremente contra o partido, o estado ou a raça, ali não se pode falar livremente contra o livro... A mesma coisa!

Então só posso sugerir um retorno ou um resgate de sentidos, valores e princípios que estevam no passado da Sociedade Européia. Sentidos, valores e princípios que deixamos para trás, mas que se quisermos podemos resgatar.

Neste sentido um olhar sem preconceitos relativistas e hipócritas para as fontes de nosso passado e ancestralidade pode ser revelador.

Pois poderá levar-nos a superar esta falsa dicotomia em termos de americanismo ou islã, explorada pelos oportunistas e radicais de ambos os lados com seus telhados de vidro.

Concluindo: por ser adversário do americanismo não me torno como os esquerdopatas aliado do islã e por ser adversário do islamismo não me torno, como supõem, os ulemás imbecis, aliado dos americanistas. A dinâmica social cultural é muito mais complexa do que supõem estas duas formas de extremismo.