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quinta-feira, 21 de setembro de 2023

Os erros e acertos do Sardinha (Antonio in 'Glossário dos tempos' 1942) II


Agora damos que esse Sardinha, que tanto censura os demais por terem assumido ideais estrangeiros ou galicanos (Franceses), não pode deixar de citar seu guru francês que é o excomungado Charles Maurras, criador da Ação francesa e pai do integralismo.

Crítica os ancestrais lusos reprodutores de Rousseau, Barras, Robespierre, etc - E copia outro francês...

E assim caminha a pobre e infeliz humanidade, de abismo em abismo - Abyssus...

Trágico é que o pobre Sardinha copia muito mau o seu guru francês.

O qual vivendo nas Gálias bem podia observar muito de perto o que sucedia nos cantões da majestade luterana i é do Kaiser Guilherme...

Justiça seja feita ao velho Maurras, como proto fascista tinha ele certa compreensão realista da cultura (Não era um Weber é claro mas não lhe faltava gênio!) e perfeito entendimento - Tal e qual o insuspeito Comte e muitos outros - quanto ao significado do protestantismo e a cultura produzida por ele. Da qual absolutamente nada esperava.

De fato esses franceses, geniais mesmo quanto equivocados, como Comte, Maurras, Gaxotte, etc muito teriam a dissertar sobre os EUA, o norte americanismo, o protestantismo e o tempo presente, quiçá superando o velho Tocqueville. Já o pai de Montaigne e sobretudo Guilherme Postel haviam percebido diversos aspectos do éthos protestante quando este ainda dava seus primeiros passos.

E todavia a pobre humanidade e os franceses de hoje, e os latinos, parecem se ter esquecido de tudo, de tudo...

Sendo velho o mal...

Como podemos detectar no Sardinha, patriarca dos integristas lusitanos - Muito mal orientados... Pois com que incredulidade não lemos, á página 74 do citado Ensaio, seus votos pela vitória do imperialismo alemão. Para ele a humilhação de uma França politicamente liberal e laicista pelo império luterano alemão representaria a regeneração da Europa... Não era simples questão de reprochar os excessos anti clericais de uma França desorientada por Clemenceau, mas questão de admirar o éthos Alemão pautado na submissão passiva do cidadão a qualquer lei ou mesmo decisão do líder - Submissão cega e irracional de que resultaram mais tarde os nefandos crimes do nazismo.

Éthos inseparável do luteranismo ou de um calvinismo reinante, ou ainda de um jansenismo que jamais se impôs a França - Tudo derivado da antropologia podre de Agostinho, do irracionalismo e da negação da liberdade, negação em nome da qual os senhores luteranos, desde 1525, impuseram - Aos camponeses ou servos! - um regime mais rigoroso e estreito do que o vigente na odiada Idade Média romano papal. Desde então foi a vontade tomada ao povo alemão, e converte-se este num boneco ou naco de cera sempre submisso ao poder.

E Sardinha, sem investigar fontes e causas, admira a disciplina dos cidadãos ou soldados alemães. Morre de amores, esse luso tão confuso, pelos pais daqueles que mecanicamente sujeitos a uma ordem ou palavra exterminaram sem inibição aldeias inteiras na Grécia, Itália, França, Rússia, etc metralhando milhares de mulheres, crianças, idosos ou mesmo animais, todos inocentes... Exatamente como no adorado velho testamento. Tudo em nome desse culto supersticioso e horrendo a obediência cega e a ordem, o qual foi e é um verdadeiro flagelo.

Sem jamais ter lido uma palavrinha do quanto escreveram os insuspeitos pastores protestantes Monod, Wagner, Viénot e Monnier sobre as atrocidades cometidas pelos soldados do Império Germânico em conexão com o éthos protestante, a sardinha lusitana vê em tudo isso Redenção!!! Como os europeus latinos e sulistas de hoje, Sardinha é angelical, e nada desconfia do protestantismo alemão... Ele que ufanava ser bom católico - Tal e qual os 'bons' católicos (Ou Ortodoxos) de hoje, alinhados com os EUA ou o americanismo. De século a século o engano é o mesmo...

Ora aliados dos Alemães ou dos Norte americanos vão os romanos sacrificando suas tradições e cultura a interesses políticos ou econômicos, pelo que se tornam súditos desses países protestantes, apaniguados de sua cultura e por fim conquistados...

Outro aspecto curioso deste ensaio integralista foi ter carregado fortemente contra o liberalismo político francês sem ter tocado mesmo de leve nos problemas muito mais sérios e graves do liberalismo econômico inglês ou mesmo Norte americano ou ventilado que aquele poderia corresponder apenas a simples passagem de qualquer modelo tradicional para este último. Noutras palavras - Que as transformações políticas bem podiam ter por objetivo e fim a criação de uma sociedade econômica ou economicista em que os bens e serviços violentamente tomados a igreja de Roma em nome do laicismo bem poderiam vir a ser, em qualquer momento, adjudicados a indivíduos ambiciosos, como sucede hoje por meio das assim chamadas privatizações ou da tal desestatização.

Bem se percebe que Sardinha não fez qualquer contribuição relevante neste terreno, sendo incapaz de superar o tosco padre Murillo, o qual tendo olhos apenas para o liberalismo político não quis ou pode ver senão a pontinha do iceberg. 

Hoje, quando apregoam a passagem do político ou estatal para o privado ou individual podemos contemplar, ao menos na imaginação, o corpo do iceberg.

Querem que no futuro, absolutamente tudo seja pago $$$... Ao menos o quanto os padres, monges e freiras faziam era oferecido a todos, inclusive aos mais humildes e não apenas aos ricos ou a quem podia pagar. Havia vícios e defeitos... Aos montes... E por isso o poder político, alegou tomar posse de tais instituições e oferecer tais serviços sempre com a ideia de torna-los mais e mais universais por meio da gratuidade. 

Eis que agora, os descendentes daqueles que, em nome da acessibilidade e da igualdade, tomaram tais bens e serviços a velha igreja romana, pretendem vende-los a particulares de modo a autoriza-los a converter tais bens e serviços em fontes de lucro, com exclusão dos que mais necessitam. Que lógica há nisso...

Já vimos o mesmo embuste e falso enleio, no berço da reforma protestante. Quando o povo, acreditando nas promessas dos reformadores, apoiou o confisco dos bens eclesiásticos, por acreditar que obteria parte deles...  O que aconteceu depois disso já foi descrito por Janssen e Cobbett. Os príncipes e nobres amealharam tudo e os pobres ficaram ainda mais desassistidos, não tendo a quem recorrer.

Parece que a passagem do religioso para o político e sobretudo a atual tentativa de passagem - Exigida pelo Mercado todo poderoso - do político para o econômico (Por meio das tais privatizações) reflete um tipo de movimento análogo, se bem que mais sútil.

Apenas consumada a afirmação dessa sociedade econômica por meio do esvaziamento do político e da, consequente, dominação absoluta do poder econômico, poderíamos dar razão aos tradicionalistas e avaliar a passagem do religioso ao político, por passageira, como danosa. 

Naturalmente não nos foge a memória que nos reinos ibéricos, ao tempo em que a América foi ocupada, admitiu-se a participação da iniciativa privada em certos setores da atividade humana. Mas não na Educação e tampouco na Saúde... Setores essenciais eram retidos pela coroa e permaneciam em suas mãos, uma vez que a religião, a ela unida, era espécie de repartição de Estado. 

Posteriormente, tiveram os Estados de assumir a exploração das riquezas naturais, comunicações e transporte - Ao menos em grande parte. - por considerar que eram setores vitais ou estratégicos. E de fato a questão premente é se a totalidade de tais serviços ou mesmo parte deles deva passar a mãos de particulares e ser geridos objetivando apenas e tão somente a aquisição do lucro.

Quanto ao transporte e comunicações não nos opomos a participação da iniciativa privada sob a fiscalização efetiva e rigorosa de um Estado popular ou democrática, agora quanto a extração das riquezas naturais e sobretudo quanto a Educação e a Saúde, temos que devam permanecer nas mãos do poder público e oferecidas por ele observando rigorosos critérios de qualidade. Postulamos uma gestão pública ou democrática sob a égide de determinados postulados éticos. 

Pois quando se tem em vista o lucro acima de tudo é absolutamente normal que se proponha sempre a contenção de gastos ou a economia sem seu sentido estrito e chão, o que nos domínios da Educação e da Saúde são sempre funestos, pelo simples fato de que determinado aluno ou paciente, cuja condição implique excesso de gastos, vir a ser encarado como causa de prejuízo. Estamos acompanhando esse tipo de problemática - Mais comum do que se imagina - no Seriado Norte Americano 'The good doctor', transmitido alias pela Rede Globo. Não é produção de Michael Moore financiada pelos comunistas porém relato insuspeito sobre o gerenciamento privado da saúde nos EUA.

Tivemos aqui em Santos um caso acontecido nos anos 90 em que o Hospital Beneficência portuguesa, por questões de ordem financeira, não achou conveniente trocar uma peça do aparelho destinado a Radioterapia - Conclusão, por anos a fio, os pacientes cancerosos foram submetidos a um tratamento inócuo ou assassinados porquanto o câncer não foi debelado.

Posteriormente tivemos o caso da Prevent Senior em que, tendo em vista minimização de gastos, tais e tais tratamentos custosos eram recusados a pacientes idosos cuja condição fosse demasiado grave. Eu mesmo testemunhei cenas chocantes nas assim chamadas retaguardas de certos Hospitais privados desta região, as quais não hesitaria qualificar como criminosas. 

Quando um diretor de Hospital ou sua equipe consideram como prioridade o lucro e não a recuperação do paciente, ainda que onerosa, tais instituições convertem-se em autênticos açougues. 

Outra não é a situação das Escolas. Há escolas privadas que a preço de ouro oferecem educação esmerada, como ferramenta de poder, as elites. Tais o Dante Aligheri ou o Bandeirante... Como há diversas Instituições de Ensino superior que vendem diplomas... Situação que se vai tornando cada dia pior. 

Mesmo porque as pessoas, em geral, atribuem maior valor a vida do corpo físico do que a vida do espírito, que é a Educação. Do que resulta ser, o espaço da saúde, fiscalizado com mais intensidade e atenção. O Hospital é certamente muito mais cobrado que a Escola... E nele não toleraríamos jamais o que toleramos nela... Resulta tal menosprezo numa cultura de mortos vivos ou zumbis a que chamamos massas, associada a abominável oclocracia.

Mesmo quando refere as Danaídes, Sardinha, não percebe que ajustar os modelos sociais, políticos, morais, etc ao novo modelo econômico criado pelo protestantismo, i é, ao capitalismo, equivalia a uma utopia como outra qualquer. Pois como verificou o insuspeito Le Play as relações de convívio familiar que suportam aquele tipo de moralidade são as primeiras a serem destruídas no contexto urbano implementado pelo capitalismo.

A tão acalentada moralidade é moralidade de pequenas comunidades camponesas, agrícolas ou interioranas, e como tal infensa a um ambiente urbano em que o ritmo do trabalho, sendo alucinante, absorve a totalidade das energias e ocupações humanas.

No ambiente urbano, sob a égide das relações de mercado, política, comunidade e família cedem passo a produção de bens de consumo e são trituradas pelas engrenagens do capitalismo. Pai e mãe desertam do lar, abandonam a prole e a partir daí a cultura antiga desaba ruinosamente. O afeto se perde, o calor humano se acaba, o convívio desparece, os corpos se alienam, o educação se obscurece e o espírito entorpece... As pessoas se despersonalizam e os humanos se desumaniza. 

Não foi qualquer ideologia posterior que destruiu a família tradicional com seu modelo de moralidade, foi o liberalismo econômico!!! 

Não se pode conservar tudo e liberalizar apenas a economia como querem os tradicionalistas do Plínio C de Oliveira... O conservadorismo só seria viável em bloco, conservando o modelo econômico medieval. Os neo romanos no entanto, e por mero oportunismo, estabelecem compromissos levianos com o liberalismo econômico, ponta de lança do americanismo, que é um modelo de cultura protestante.

Scruton percebeu-o claramente no fim de sua vida, assim como nosso Jorge Boaventura... E ai temos o mitológico tonel.

Não acredito num conservadorismo total - Que ultrapasse o domínio da fé. - como D Lefebvre, mas admiro lealmente a honestidade de seus defensores. Quanto as soluções de compromisso são todas grotescas... Admitido o liberalismo econômico os modelos sociais legados pela antiguidade ou pela I Média estão condenados - Impossível salva-los.

Impossível evitar a mudança - Viver é transformar-se.

É no entanto, perfeitamente possível, orientar a mudança imprimindo-lhe direção. 

A direção imposta pelo capitalismo está errada, pelo simples fato de que após ter destruído diversas formas de convívio dignas de terem sido conservadas, ameaça a natureza, o planeta e a sobrevivência da própria espécie.

O fim do paraíso bucólico ou do idílio campestre era algo que talvez pudesse ter sido suspeitado por Sardinha como o foi por T S Elliot, Bernanos, Valéry, Hesse, Wolf, etc mas não o foi... 

O lusitano bisonho desconfia tanto dos tentáculos do capitalismo quanto do luteranismo germânico, o qual saúda como aurora dedirósea da civilização...

Abominável inversão tão comum em nossos dias - Concede-se máxima e irrestrita liberdade ao Mercado enquanto se lança pedras a liberdade política ou a democracia, bem como ao liberalismo moral (Por parte da hipocrisia moralista.)... Diante disso como não dar total razão ao verso do Evangelho: A luz manifestou-se aos homens e eles preferiram as trevas! Ainda preferem...

E o Antonio Sardinha foi um deles, como são seus leitores e os do pobre Corção, e os do Olavo... Como Marta, eles escolheram a pior parte... a parte mais infectada ou podre da modernidade.











sábado, 7 de agosto de 2021

Os 'católicos' (Apostólicos romanos) TridentiProtestantes - Resposta ao Sr Paulo Cogos

Como Católico Ortodoxo sempre fui e sou favorável não a missa tridentina porém a Missa medieval, de S Pedro ou de S Gregório, filho da tradição, fiel, coerente e portanto adversário de qualquer inovação ou mudança no plano da adoração ou do culto.

Distingua-se - Sempre encarei com franca simpatia o ideário tradicionalista ou lefrevista em torno da adoração tradicional. Porém, quanto os tridentinos em si há muito que cessei de simpatizar com eles, chegando as vias da ojeiriza. 

Pois me parecem semelhantes as árvores estéreis e secas, as quais não produzem frutos bons. Paradoxalmente por via do moralismo ou do puritanismo de matriz calvinista tornaram-se eles estéreis quanto as obras legitimamente Cristãs... E a beleza do ritual, sendo malbaratada, não tem produzido frutos neles.

Leitor de Lefrevre, de George de Nantes e outros tradicionalista, inclusive do velho H Delassus, ao qual, ao menos em parte não faltava razão, assumi a tradição 'in totum', condenando o sifilização em sua totalidade e não apenas pragmática ou fingidamente ou seja quanto ao que me agradasse ou desagradasse. Compus apenas com a democracia ou com o liberalismo político (Que tornou-se exacerbado em mim.) após ter lido Leão XII (Refiro-me a sua 'reprimenda' a Albert de Mun.) e acompanhando-o e, em seguida com o liberalismo religioso ou com o direito dos seres humanos exercerem a liberdade religiosa, isto por força da Tradição, graças a meus estudos quanto a literatura patrística.

Quer dizer isto que com Lefevre e fiel ao pensamento lefreviano ou tradicional jamais assimilei este elemento exógeno e estranho do 'liberalismo econômico', alias parte essencial da cultura moderna e protestante. Isto ao contrário da oportunista e leviana TFP, que serviu de modelo a este tradicionalismo incoerente e enfermiço florescente no Brasil. Venenosa foi tal inspiração... 

Triste saber que entre nos Brasileiros foi o ritual antigo adotado por questões de exterioridade ou ritualismo e não de vida espiritual. Uma vez que a autêntica fé e a religiosidade apostólica não faz negociações... Entre nós no entanto os adeptos da seita, distorcendo por completo os ensinamentos de Leão XIII e da tradição da Igreja como um todo, mancomunaram-se com o liberalismo econômico, assumindo seus postulados anti Cristãos e ocupando-se em criticar apenas o comunismo. Digo, não apenas pouparam como apoiaram ativamente este modelo econômico materialista de origem protestante. O que não foi feito sem graves consequências em termos de proximidade com concepções e métodos protestantes ora importados dos EUA, os quais evidentemente fogem por completo a Ética Cristã e a lei do Evangelho.

É como se para dar combate a Marx ou melhor a Lênin tivessem recorrido a Maquiavel... O que equivale a expulsar Belzebu com Belzebu. Pois não precisamos de mentiras, calúnias ou difamações com que reprochar o comunismo ou quaisquer culturas de morte e quanto damos combate ao comunismo e a quaisquer culturas de morte, devemos faze-los como Cristãos Católicos i é com ética ou honestamente. Sintomático que nossos 'tracidionaleiros' do Brasil tenham reproduzido o que há de pior numa propaganda calvinista que se torna luterana. (Quem for capaz entenda o trocadilho.) - Nossos TFPentelhos trocaram a solida crítica dos Pes Chambre e Calvez por toda essa miséria protestante e sectária. E a geração atual segue pelo mesmo caminho tenebroso.

Afinal a questão da TFP e de todas as seitas que dela procedem era conservar a todo custo o monopólio da terra ou a propriedade improdutiva das famílias ricas e não pugnar pela fé de nossos ancestrais e, menos ainda, assumir a vida Cristã em sua totalidade e profundidade - O que tampouco parece ser pauta dos nossos Tridentícolas de missa dominical.

Por mais que como Ortodoxos defendamos o ritual ou o ofício litúrgico e, entre nós a missa tridentina ou a Missa petrino/gregoriana jamais defenderemos um Catolicismo Ortodoxo (Ou um romanismo.) de missa dominical. Uma coisa é ir a missa aos Domingos quando não haja impedimento sério, outra dizer que tal e suficiente para ser Bom Cristão ou resumir a prática religiosa a ida da família a missa, isso seria bom para o Luteranismo, jamais para o Cristianismo antigo, Católico, Ortodoxo ou tradicional... Tampouco seria Ortodoxia ou Catolicismo (ou sequer papismo) assumir uma moralidade pessoal estrita ou puritana advinda do protestantismo, pois o que teríamos a qui e o que temos aqui é Calvinismo e ainda protestantismo. 

Digo isto, marco e pontuo, porque sob auspícios da cultura protestante e individualista (Muito próxima do liberalismo econômico.) já a partir do século XVIII mas principalmente a partir do século XIX, surgiu no seio da igreja apostólica romana ou entre os apostólicos romanos uma ideia nova e essencialmente falsa segundo a qual bastava ao papista (Insinua-se isto hoje no seio do Catolicismo ortodoxo com grande sucesso.) ir a Missa, sozinho ou em companhia da família, aos Domingos ou mesmo diariamente, rezar, comungar e viver uma moralidade individual no seio de sua família, ou isolado face a comunidade, para ser um excelente Cristão. Tal a gênese do que começa a esboçar-se como Ideologia libera economicista 'católica' (A expressão é absurda, ímpia e herética!). 

No entanto - Afirmo-o como Bacharel em História - remonta esse novo modelo ou ethós 'católico', a reforma protestante (Cujo teor foi, desde o princípio individualista.) jamais a Idade Média e menos ainda a Antiguidade, ao padrão apostólico, ao Evangelho ou mesmo a antiga cultura israelita... períodos e modelos sócio culturais nos quais nada encontramos em termos de isolamento ou individualismo. A começar pelo século XVII, caso recuemos cada vez mais no tempo, vamos deparando com um romanismo cada vez mais social, gregário, solidário, fraterno... Ou com o papista integrado em sua comunidade e em comunhão orgânica com sua comunidade. O que é perceptível no mesmo no Anglo Catolicismo até o século XVIII ou ainda até meados de 1830, tendo sido memorável primeiramente a briga do arcebispo Laud contra as ambições da burguesia calvinista no século XVII e ainda a luta das paróquias e do espírito paroquial face a movimentação de pessoas exigida pelas fábricas até 1830. Isto quando a um modelo em parte contaminado pelo individualismo protestante. Que dizer então de um Portugal ou de uma Espanha nos século XVI, XV, XIV - Nada, nada de liberalismo econômico ou mesmo de isolamento social por parte dos Cristãos e sim de profunda conexão.

Foi dissimuladamente ou por meio da literatura protestante que o ideal sacrílego, anti tradicional e anti medieval do isolamento burguês ou das famílias burguesas em seus 'paraísos artificiais' desconectados da realidade social infiltrou-se na igreja romana - Partindo daí inclusive o modelo de guetos, digo, de bairros luxuosos onde passaram a viver os ricos, distante dos pobres, isoladamente, como que para não ve-los. O que entre nós culminou nas favelas onde os demais batizados morriam de fome sem que os bons Cristãos se preocupassem. Esse ideal egoísta e criminoso de isolamento foi assimilado. Não partiu nem podia ter partido da igreja romana. A partir do século XVIII e principalmente do século XIX (Com um modelo vitoriano posterior a 1830) que consolidou-se a ideia perversa de um Cristianismo de missa dominical i é limitado a algumas horas de reza ou de cerimonial separado da vida Cristã. 

Lamentavelmente os papistas (Como nossos Ortodoxos do tempo presente.) não tardaram a concluir - Com Lutero e Calvino, e os protestantes - que não precisavam ser Cristãos enquanto patrões, mas apenas dentro de seus lares ou apenas nos templos durante as missas... A abominável constatação é que não era necessário ser Cristão com o vizinho, com o funcionário público ou com o empregado. E criou-se uma moralzinha cristã apenas para a família ou os parentes. Quanto segundo a doutrina Cristã pelo batismo somos todos parentes ou irmãos, membros da mesma família e obrigados a fraternidade. Toda essa atmosfera cultural protestante, individualista e liberal destruiu o sentido tradicional da vida Cristã, por sinal, quanto a este quesito, muito próximo do judaísmo e do islamismo. 

Sob influxo da cultura protestante foram os Cristãos, antes de tudo os apostólicos romanos, alienando-se paulatinamente uns dos outros e afastando-se dos ideais vigentes na antiguidade ou na Idade média, estes autenticamente Cristãos e patenteados pela Tradição. Até ousarem os apóstatas, a partir de apelações pífias com base nos socialismos naturalistas ou no comunismo, conceberem um capitalismo 'católico' i é apostólico romano, chegando ao cúmulo da monstruosidade. Tanto pior a situação da Igreja romana por ter ela, em seus documentos oficiais, condenado o comunismo; e descuidar de condenar o 'éthos' capitalista, por já estar condenado pela tradição sob o termo avareza ou por tocar - A condenação, apenas a sua intencionalidade e não a sua estrutura. A partir disto, parte dos apostólicos romanos concluiu, que seu éthos ou intencionalidade é aceitáve; o que não está de acordo com o ensinamento dos padres da Igreja. Seja como for essa omissão ou falta de profundidade favoreceu a manipulação que agora testemunhamos - Quanto a alguns papistas como o sr Paulo Cogos quererem batizar ou Crismar uma doutrina herética e uma prática pecaminosa, já por ser a ideologia liberal economicista materialista e individualista. Ora é o materialismo uma erro filosófico ou metafísico equivalente a heresia e o individualismo ou egoísmo um vício pecaminoso.

Seja como for o citado Cogos chegou ao desplante de indigitar S João Crisóstomo - Do qual possuímos diversos Sermões contra os ricos ou avarentos! - como partidário de uma entidade cultural que originou-se a partir da heresia protestante, incorrendo por isso mesmo em anacronismo. E foi tão anacrônico quanto K. Marx ao transplantar o conceito de classes para a Antiguidade ou a I Média...

Remetemos ao sr Cogos a obra 'Porque a igreja condena os ricos' publicada pela Ed Paulinas nos anos oitenta ou a qualquer Patrologia como a Badenhawer, a Tixeront, a Cayré, a Altaner/Stuiber, a Drobner, etc se é que já folheou alguma dela. Afinal quem escreve estas linhas teve já a oportunidade de folhear a L. E. Du Pin, Lipomanno, Possevino, Tricalet, etc sem jamais deparar com misera linha em torno do liberalismo economico.

E quem diz que os antigos padres tinham conhecimento dessa ideologia bem poderia escrever, com a mesma seriedade, que entendiam os padres de programas de computador ou ainda que usassem aplicativos... 

Sr Cogos, nos bancos da academia aprendi que posso discordar de determinado autor ou mesmo antipatizar com ele porem jamais atribuir a si o que jamais ensinou, pois e deslealdade.

Melhor seria o sr assumir com os neo papistas ou com um neo ortodoxo impugnado por mim, que a tradicao da igreja ou melhor que a Divina Revelacao, e por ext., a autoridade de Jesus Cristo, do Evangelho, da Cristandade, nao toca a producao ou as relacoes economicas. Ficando tudo isto num setor afora ou aparte da Religiao, qual, portanto, regularia a si mesmo. Destarte sua face de positivista (E portanto de heretico.) viria a plena luz do dia. Na medida em que o sr estaria assumindo o principio anti Cristao e anti etico do MNI. 

Nao fundamentalista, sr Cogos, admito a vigencia do MNI quanto as ciencias de fato exatas ou nao humanas e mesmo assim no plano da Teoria. Pois as certas experiencias cientificas que tocam a vida humana ou animal embrenham-se pelo caminho da etica, assim pelo caminho da etica revelada. Deveria portanto o sr comecar demonstrando que a economia sob aspecto algum e uma ciencia humana, o que foi ensaiado ja, em que pese a miseria, por um colosso como Pareto. Por que o sr nao gasta seu precioso tempo desenvolvendo as teses de Pareto ao inves de perde-lo invadindo terreno que nao e seu, como o da Patristica e o da Patrologia. Por isso vou responder-lhe - Como se diz `Na lata` - Sapateiro, nao passe dos sapatos... Outra possibilidade fecunda para o sr e alegar que sua igreja ou qualquer outra igreja apostolica (Nao me venha com seitas protestantes e claro.) ou o Catolicismo Ortodoxo como um todo, jamais pretendeu exercer sua autoridade no campo da economia ou regular as atividades economicas executadas por seus filhos. Advirto-o no entanto que entrando o sr por essa outra via, como Historiador ecelesiastico que sou, vou remete-lo ao Bulario de Jaffe... Compreende???

Liberalismo economico. Que piada sr Cagos, perdao, digo Cogos... Das duas uma> Como pessimo aluno de Socrates ou do Estagirita o sr nao sabe conceituar o que seja liberalismo economico ou jamais leu palha dos Padres da Igreja ou das Enciclicas de seus lideres, os papas... o que seria leviandade de sua parte. Caso essa atividade humana que e a economia nao tocasse a etica e assim a divina revelacao `Rerum novarum` nao passaria de inutilidade... Da mesma forma Pio XI teria gasto toneladas de tinta e resmas de papel em vao. Percebe como o sr apresenta os membros mais ilustres de sua religiao como beocios, por discorrerem amplamente sobre algo que foge a compentencia deles??? 

Por que seus papas nao se contentaram em recomendar aos fieis a leitura de um Ricardo ou de um Bastiat... Por que nao rechearam suas Enclicas com luminosas citacoes de Molinari ou Mises??? Tens a resposta da Igreja nas entrelinhas sr Cagos, digo Cogos... Igreja apostolica alguma, Igreja tradicional alguma, Igreja historica algum pode deixar de revindicar autoridade no plano da Economia ou da etica, por avalia-la como uma atividade humana conectada as outras e nao sob o falso prisma positivista do isolamento. Pelos simples fato que a ciencia e o conhecimento de modo geral nao e produzido de forma compartimentada como imaginam os filhos de Litree.

Torno no entanto ao inicio de minha critica - Sua afirmacao e monstruosamente anacronica. Nem o sr poderia apontar-nos seriamente qualquer modelo social individualista anterior ao protestantismo no entorno do Mediterraneo ou na Asia. O desafio esta lancado e o sr deve ser um excelente historiador, do contrario consiga um bem bom para debater publicamente comigo, pois ja lhe digo que nao sou comunista ou anarquista (O que alias e publico e obvio - Pois sou bem reconhecido como culturalista!).

Desde ja no entanto ensaiarei uma aula gratis - Tendo se manifestado o Verbo Encarnado Jesus Cristo para criticar ou censurar os israelitas e suas crencas ou para demolir o judaismo antigo, ao menos quanto a um ponto esteve nosso Jesus de pleno acordo com eles, i e, com os antigos judeus e precisamente quanto a organizacao social deles que era gregaria, fraternalista ou solidaria. Conhecida e a preocupacao do hebreu para com outro hebreu, o sentido de conexao ou de identidade, enfim a dimensao social da vida... Notorio que esse ideario tenha sido assumido pelo Cristandade e transmitido de geracao em geracao a todas as epocas e idades futuras ate o advento do protestantismo no Norte da Europa, o qual rompe com a autentica tradicao Crista, inventa ou cria um novo modo de ser e produz um outro padrao cultural cada vez mais assumido pela igreja papa e enfim pela ortodoxia, o que alias podemos descrever com uma simples palavra> Apostasia. 

Sr Cagos ou melhor Cogos, a infiltracao do principio espurio do egoismo ou do individualismo na Cidade de Deus ou na Republica Crista a partir da reforma protestante corresponde a Historia de uma apostasia, nem mais nem menos. Pois toda distorcao do ideal Cristao, qualquer abreviacao em torno do sentido Cristao ou ainda qualquer tentiva reducionista em termos de consciencia Crista devera ser definido em termos de apostasia essencial, e o protestantismo e seu comeco ou ponto de partida.

Foi do protestantismo que partiram absolutismo, jansenismo, capitalismo, kantismo (Subjetivismo e relativismo), moralismo puritanismo, etc enfim todas essas poluicoes. Dai o ecumenismo pratico e perverso dos tridenticolas em termos de cultura - Hipocrita, fingido e ainda mais grave que o ecumenismo teorico da TL. Ecumenismo de esquerda e de direita, tudo farinha do mesmo saco e anti papista ou anti Catolico. Ortodoxo ou papista jamais assume idearios, principios, valores, elementos ou projetos protestantes, como bem sabia o Duque de Guise ou Garcia Moreno. O Cristao apostolico jamais apoia uma politica inspirada no americanismo ou um presidemente associado a um bando de pastores parasitas e venais. Aqui nao ha aproximacao, negociacao ou acordo possivel.

Concedo aos romanos e quica a alguns ortodoxos o privilegio da neutralidade, do afastamento, da alienacao. Enfim o direito de nao se intrometer ou de nao opinar. Como ex protestante jamais cessarei, por um instante, de denunciar como falsos os romanos ou os ortodoxos que assumem pautas ou elementos da cultura protestante, uma vez que nos Cristaos temos nossa propria orientacao, nossa pauta e nosso ideario. Ou ja viram os srs misturar a agua com o oleo???




quinta-feira, 22 de julho de 2021

Minha mais recente entrevista - Extratos

Drops -

01) Economia?

Face ao mito positivista do progresso ilimitado, já denunciado por A C Grayling como secularização da escatologia Cristã, sou partidário decidido da Economia estacionária. Vivemos num sistema finito, portanto não dá mais para brincar com essa xaropada de desenvolvimento contínuo, nossos recursos são limitados e a reciclagem uma necessidade embora mesmo a reciclagem não passa de um paliativo. 

02) Anarco primitivismo?

Sim. Nesta altura do campeonato encaro com franca simpatia este ideal apontado por Nisbet como tributário do Cristianismo antigo, já por via do monaquismo beneditino, já por via do franciscanismo. Precisamos redescobrir nossa relação de dependência face ao mundo natural, restabelecer a comunhão com os demais seres e assumir uma perspectiva holística. Temos que nos redefinir como parte do ecúmeno, recriar as pontes que foram derrubadas, rever nossas necessidades e excluir o quanto não seja essencial. Enquanto vítimas de nosso próprio consumismo temos o direito de questiona-lo. 

Para mim, além de Freud, tenho por revolucionário a Scott Nearing, num nível de consciência bem mais profundo que um Blanqui, um Bakhunin, um Lênin ou um Sorel. 

Há quase cem anos foi constatado por V G Childe que a evolução social não se faz conforme o esquema linear adotado pelos marxistas 'ortodoxos' comportando crises ou recuos. Quem sabe não chegamos no momento de recusar conscientemente ou de planejar um retorno? 

Claro que não estou clamando contra o progresso científico. Creio todavia que deva este ser posto sobre bases humanas e humanistas e não sobre a falsa base da máxima lucratividade. 

Sempre que tornarmos ao consumismo irracional, ou ao consumo acelerado tornamos ao vomito. Criamos necessidades artificiais que devem ser revistas e temos de pensar que se cada um dos bilhões de seres humanos aspirarem a acumular o máximo de entidades materiais nosso planeta é que será consumido, nossa casa, nosso lar, nosso espaço.

Temos portanto de moderar o consumo e de limitar o acúmulo com o propósito de salvar o planeta e temos de faze-lo urgentemente, antes que seja demasiado tarde.

Não dá mais para tolerar os caprichos de um sistema econômico individualista, irracional e cego.

Nesse sentido é louvável sim um retorno ao campo, ao padrão agrícola, a uma economia natural, a um padrão de sobriedade... capaz de dizer: Não vou aquecer o mercado, não vou gerar emprego ou renda, não vou comprar isso, não quero aquilo, não preciso disso... Basta! Chega!

03) Tal a solução?

Não. No máximo parte dela ou, creio eu, mero paliativo.

Pois na base de nossos problemas temos um círculo monstruoso: Injustiça social, miséria e angústia a um lado e excesso de população a outro. Precisamos atacar dos dois lados, posto que a miséria parece instigar o instinto da geração. Precisamos tentar atenuar a miserabilidade crônica por meio de investimentos da área da educação, da proteção ao trabalho e da promoção humana. E precisamos, concomitantemente, tentar conter o crescimento da população mundial. Aqui Malthus se faz tão importante quanto Sócrates, Platão e Jesus. Pois qualquer crescimento mínimo quanto a densidade populacional põe em risco nossas conquistas no plano social. Puxa-se de um lado e encolhe-se do outro...

Não basta opor-se aos caprichos do liberalismo econômico, com seu exército de reserva inclusive. Não é suficiente. Pois faz-se mister implementar políticas de controle populacional a nível global, por meio de incentivos inteligentes. 

04) Crê o senhor que a solução esteja no Comunismo?

Jamais acreditei no comunismo, mas nos comunistas ou em parte deles. Cuidando que fossem humanistas e assumissem a causa humanista da justiça social. 

Sei que há comunistas e anarquistas, assim marxistas, de boa vontade e comprometidos com a Ética da pessoa. Oriundos de outros sistemas valorativos e ignorando a doutrina de Marx tem eles certo sentido humano. 

No entanto...

05)  No entanto???

No entanto por defeito essencial é o marxismo um sistema materialista, mecanicista e determinista ou como dizem entre eles etapista - O que põe tudo que é humano a perder. 

Há marxistas excelentes apesar do marxismo ou do comunismo e são os marxistas levianos ou incoerentes.

Assim que se tornam sérios i é que se põem a ler as obras de Marx e assimilar seu pensamento tornan-se os marxistas insensíveis e cruéis. Pois o ideal metafísico da Revolução acaba substituindo por completo aquele ideal de justiça social ou promoção humana acima citado.

A partir daí passam eles a condenar com inaudita ferocidade todas as formas de reformismo social (As quais tem em conta de socialismos heterodoxos ou utópicos.): Assim o ativismo parlamentar, a formação educativa da consciência... 

Pois crendo que a consciência seja absolutamente determinada pelo modo de produção, acreditam que estruturas e homens só serão modificados quando o modo de produção capitalista por transformado pela Revolução proletária. No entanto para que as condições da Revolução sejam dadas é necessário que o modo de produção capitalista se desenvolva livremente e em máximo grau. Portanto, para os comunistas fiéis a Marx, deve o capitalismo ser implantado e desenvolver-se livremente a nível mundial e não ser limitado, contido, precocemente combatido, repudiado, reformado, etc Até que o modo de produção se desenvolva em máximo grau devemos apenas observar ou ficar na expectativa, crentes de que o capitalismo trás em si mesmo, em seu organismo ou em seu bojo os gérmens de sua destruição. É dele, do capitalismo, que partirá sua ruína e a passagem para a redenção cósmica i é para o comunismo. 

É portanto o capitalismo passagem, caminho, porta ou via de acesso ao mundo futuro. Fase ou período necessário dentro daquele esquema evolutivo e linear traçado por Marx. Etapa a que não nos podemos furtar... Conter o capitalismo é conter a revolução, e ser reacionário da pior espécie possível.

Daí os maravilhosos comunistas desconfiarem já dos trabalhadores mais humildes i é dos que mais sofrem e dos camponeses, os quais costumam censurar muito frequentemente acusando de imediatismo, na medida em que se preocupam antes de tudo com seus salários e com a condição do trabalho ao invés de pensar na futura Revolução. 

E pelo mesmo motivo, surpreendem a muitos, quando se unem aos capitães da indústria e campeões do liberalismo contra os interesses dos trabalhadores e os socialistas parlamentares ou reformistas, implementando a política desumana e cruel do 'Quanto pior melhor' com o objetivo de - Pasme leitor ingênuo - impulsionar ainda mais e tornar ainda mais forte o Capitalismo. Vargas foi inimigo odioso porque sancionou leis de proteção ao trabalho que de algum modo coibiam ou continham o capitalismo. Odiaram-no os liberais, herdeiros da velha política. Mas, odiaram-no acima de tudo os comunistas para os quais o céu ou paraíso comunista dependia antes de tudo do inferno liberal. 

De fato todos os analistas marxistas, a começar pelo próprio Marx e sem seguida com Engels e Sorel, supuseram (Demonstrando o quanto eram fracos de espírito e o quanto ignoravam a dinâmica da cultura.) que o parto cósmico aconteceria na Inglaterra, na Alemanha ou nos EUA... Por outro lado não puderam prever que nos países latinos, a partir do liberalismo econômico desbragado, teríamos uma safra de ditaduras... O que foi percebido apenas pelo heterodoxo H J Laski. Surpreendentemente a tal da Revolução acabou vingando num país tão agrário quanto a Rússia, o que fugia por completo as predições e esquema etapista de Marx. Dos problemas planteados por essa estranha Revolução surgiram diversas seitas, correntes e partidos que culminaram em expurgos. Apesar da NEP e dos expurgos conheceu a mesma Revolução significativas idas e vindas, até que por fim tornou ela ao vinagre, após sete décadas de sofrimentos... Outra não foi a sorte das Revoluções Mexicana e Chinesa, igualmente implementadas em países agrários e é claro não protestantes. 

Nas sociedades protestantes, por uma questão de cultura, desenvolveram-se as forças capitalistas de produção, e se acaudalaram, e se avolumaram, e engrossaram de um modo tal sem que no entanto sequer manifestassem mínimos sinais de simples insurreição... 

Raymond Aron, após ter sido ele mesmo marxista, feito já marxólogo, decifrou por completo o enigma dessa esfinge. Portanto nada devemos esperar do Comunismo, pelo etapismo mecanicista, colaborador servil do capitalismo.

05) E quanto o anarquismo, que pensar?

Antes de tudo jamais devemos dizer anarquismo e sim anarquismoS.

Pois tal e qual o Renascimento, a Reforma protestante, o Liberalismo, a Revolução Francesa, o Socialismo (Aos quais bem cabe um S) temos diversas formas de anarquismo bem distintas. 

De fato temos basicamente dois anarquismos:

# O Oriental ou Russo de Tolstoi e Kropotkin, no qual há um elemento humano ou pessoal a par se um elemento estrutural. A partir dessa saudável corrente - Que bem poderia ser chamada de sócio anarquismo, social anarquismo ou mesmo de socialismo anarquista. - foi que parte dos anarquistas passaram a insistir bastante na educação e na formação da consciência e da cultura a par da transformação econômica e política.

# E o ocidental cujas raízes tocam a Godwin e a Stirner e que foi desenvolvido na Europa por Proudhon (Embora Proudhon possa ser classificado como pensador original ou a parte.) e Bakhunin e nos EUA por Tucker e Spooner. Ora esta última corrente embricou com o darwinismo social (Spencer) e com o liberalismo econômico (Bastiat, Molinari, Mises, Rothbard, Friedman, etc) dando origem a ideologia ANCAP, o que já diz tudo. Para nós essa corrente representa um ideal tão sinistro quanto o comunismo. E representa um desenvolvimento natural e orgânico do liberalismo econômico, na medida em que um liberalismo econômico forte tende a descartar a esfera do político sobre a qual até então se apoiará. O reverso desta ideologia é o neo liberalismo irracionalista de Hayek, rebento do velho absolutismo, por meio do qual os reis todo poderosos serviram como capachos a um liberalismo ainda frouxo e temeroso face a Igreja Romana.

Quanto ao anarquismo russo ou oriental, mesmo quando exportado para o ocidente e remodelado, reconhecemos nele diversos valores, assim a superação do materialismo grosseiro, mecanicista, fechado e etapista dos marxistas por um sadio realismo que considera a força do elemento ideal ou imaterial; assim o consequente apelo a formação da consciência, a dinâmica da cultura e a educação, assim um apreço pela estabilidade social e pela paz em maior ou menor nível, assim um vigoroso questionamento face ao mito positivista do progresso incessante, ao progresso tecnológico e ao desenvolvimento econômico, assim o consequente retorno a natureza, a retomada das questões ecológicas... Cada um desses itens corresponde a um valor a ser assumido pelo homem ético do futuro, isto se queremos de fato sobreviver como espécie. Sim, o anarquismo porta em si mesmo certos elementos que são preciosos para todos nós seres humanos. Não Bakhunin com seu pensamento tão raso quanto o de Marx e nem Sorel mas Kropotkin, Tolstoi, Thoureau, Nearing...


06) Portanto não crê no senhor no paradigma da Revolução?

Com e como Bernstein acredito na Evolução e do Evolucionarismo, embora não de maneria simplista ou linear. Não acredito noutro gatilho da cultura além da educação i é de um processo regular de transmissão e reelaboração. Tampouco acredito que um ato de força possa alterar a dinâmica cultura. E menos ainda que as estruturas econômicas um vez alteradas alterem radicalmente a cultura, embora julgue que na atual conjuntura a implementação de reformar econômicas possam beneficiar o processo educativo, bem como as estruturas políticas em termos de qualidade.

07) É o senhor contra Revolucionário?

Sou cético quanto ao sucesso das Revoluções tendo em vista as pretensões dos revolucionários, o que  não significa que seja contra revolucionário ao menos no sentido corrente ou vulgar, segundo o qual seja necessário conter as revoluções por meio da força. Sobretudo quando contam com o apoio da população ou das massas sou contra toda e qualquer tentativa de repressão. Toda tentativa de repreensão a uma Revolução feita 'a posteriori' é burra além de potencialmente cruel. Já disse a exaustão e ainda repito: A Revolução, de modo geral, deve ser contida 'a priori' i é em suas causas ou preventivamente por meio de sábias reformas sociais. Por isso falo sempre em profilaxia das Revoluções. O liberalismo econômico no entanto, sendo irracionalista e cego por natureza converte-se em motor natural de tumultos, distúrbios e revoluções.

Salvo algumas possíveis exceções tenho postulado uma neutralidade absoluta por parte dos autênticos Cristãos e dos humanistas, face a quaisquer Revoluções. Como Berdiaeff só posso encara-las como uma Penitência imposta aos Cristãos por sua escandalosa omissão e por seus pecados sociais, frutos dessa vergonhosa mancebia com o liberalismo.

08) Fascismo?

O fascismo tem uma compreensão mais realista sobre a cultura e o passado, todavia, por não saber maneja-la recorre - Exatamente como burgueses e revolucionários - ao padrão da força até chegar ao militarismo, ao autorismo e ao totalitarismo; tal sua grande miséria, chega perto da solução do problema mas não soluciona nada. Alias dependência de Sorel é manifesta: Tanto o carrasco Mussolini quanto o prisioneiro Gramsci eram leitores acríticos de Sorel e nisto iguais a Lênin. 

Para além disto a antropologia fascista é a mesma antropologia venenosa do integralismo, tributária do pessimismo agostiniano tal e qual a reforma protestante e o jansenismo, em oposição a certas correntes Dominicanas e a escola Jesuíta, o que é para lamentar-se. Devido a tal antropologia anti natural e maniqueísta (Alias abraçada por Sorel.) desconfiam eles do povo, da sociedade e consequentemente da Democracia julgando que a pessoa deva ser contida por essa igreja secularizada que é o Estado, com sua inquisição secular e autos de fé secularizados. 

Enquanto Sócrates fazia uma crítica construtiva não a democracia mas a qualidade dos democratas e a um estruturalismo formal que já se esboçava, os modernos partem para uma crítica ontológica ou essencial cujo fundamento mais remoto é esse tipo de antropologia jamais sancionada mesmo pela Igreja romana com a doutrina da graça forte ou capacitante. O que eu não consigo entender é como a Igreja romana tolera a presença de tais pessoas em seu seio ao invés de remete-las ao luteranismo, ao calvinismo ou ao jansenismo que é o lugar delas. No entanto bem conhecida é a tolerância do romanismo face ao agostinianismo, fonte de todas as nossas tragédias.

A partir de uma petição cega ao padrão da autoridade chegamos pelo militarismo a doutrina perversa da obediência cega, a qual ignorando os preceitos transcendentes da justiça, caí sob as críticas de Sócrates, Platão e Jesus. Pois pouca diferença há entre a doutrina do sacrifício patriótico e as doutrinas da Razão de Estado e da Vontade geral, uma após a outra adversárias do homem e do humano.

Todos esses vícios terríveis se acham presentes nessa cultura de morte.

09) Nazismo?

Abominação da desolação e a mais primitiva das culturas de morte.

10) Democracia?

Não é a democracia que temos a democracia que queremos e tampouco corresponde a nosso modelo grego que era direto mas a um modelo delineado na Inglaterra burguesa por J Locke. 

Temos assim uma estrutura formal bastante precária, que corresponde a um esvaziamento, restrição e perda de qualidade por parte do político, como foi observado por Arendt.

Ademais por ter surgido em tais condições e portar defeitos estruturais foi essa forma 'contemporânea' quase que de imediato cooptada pelo liberalismo economia. O que não significa que todas as formas de Estado, compreendido como forma de organização social e política, tenham tido o mesmo destino ao cabo da História. 

Agora por serem e terem sido tanto mais permeáveis ao gerenciamento econômico por parte da burguesia, foram as democracias contemporâneas denunciadas com veemência pelo anarquismo, até o iconoclasmo. 

Como os comunistas ao fim do curso ordinário das coisas postulam o fim das 'classe' sociais os anarquistas postulam o fim do Estado - Concordaríamos com eles em se tratando do fim da autoridade arbitrária ou abusiva, todavia em se tratando do fim da autoridade em si mesma somos completamente céticos. Para nós ambas as propostas não passam de propostas duvidosas quanto a um futuro incerto. Pois não conhecemos sociedades sem divisão social ou exercício da autoridade. 

Não acreditamos portanto na destruição da democracia burguesa ou formal por qualquer tipo de evento cósmico ou revolução, mas em sua transformação por dentro, a partir de reformas políticas que venham a amplia-la cada vez mais até converte-la numa democracia autêntica, popular e direta, conforme o modelo clássico. Julgamos portanto que a democracia burguesa corresponda a uma passagem institucional para a democracia direta. Claro que para não cairmos numa oclocracia ou num domínio das massas, como advertiu Ortega y Gasset, temos de secundar as reformas políticas com um maciço investimento nos domínios da Educação, assim de criar democratas para o exercício da democracia ou ainda de produzir homens e mulheres a altura das instituições. Jamais devemos dar as costas a formação e produção de consciência enquanto transformamos as estruturas, sob pena de tais transformações serem inúteis. 

11) Implica portanto uma ruptura com o formalismo/estruturalismo democrático de viés positivista?

Sem dúvida.

Impossível falar em democracia, e aqui partimos da França, sem falar em Liberalismo político, e aqui partimos da Inglaterra.

Democracia sem liberalismo político e Ética é como corpo sem espírito ou alma.

Podendo inclusive, a partir da doutrina da Vontade Geral de Rousseau, converte-se num autoritarismo disfarçado e ainda de assumir uma forma totalitária. 

Mesmo sendo direta a democracia continuará pertencendo a esfera do político e portanto a uma esfera por definição, limitada - Posto que pertencente as coisas que são comuns, em oposição ao gênero de coisas que são privadas e que se encontram fora de sua alçada.

Democracia sem liberalismo político torna-se demasiado ampla e indigesta, por ultrapassar seus próprios limites ou suas próprias fronteiras e degenerar. Portanto a primeira baliza conceitual é a do liberalismo econômico.

A segunda é a necessidade de um recheio ou conteúdo Ético portada pelos atores políticos ou pelos democratas. A democracia concede oportunidades políticas a todos. No entanto caso esses todos sejam em sua maior parte canalhas, como estrutura ou forma que é, a democracia não fará milagres. Portanto a par de manter as estruturas democráticas temos também de produzir cidadãos virtuosos ou éticos, comprometidos com princípios e valores humanistas. Sob pena de vermos nossa democracia vir abaixo. A advertência de Sócrates sempre será válida - Democracia para a aristocracia da virtude ou para que os melhores e mais excelentes tenham acesso ao poder. 

Caso não cuidemos do homem e de sua formação a democracia não nos salvará. Não nos enganemos, não nos iludamos. Melhor conhecer bem as limitações de nossa democracia para maneja-la com máxima habilidade. 

Estruturas não salvam ou salvarão a quem quer que seja, por terem de ser ocupadas por homens dignos. Em não havendo homens dignos tudo estará perdido.

12) E as 'cruzadas' ou expedições democráticas feitas pelos EUA?

Pura e simples continuação do espírito jabobino e revolucionário (Este espécie de ponte entre o primeiro modelo revolucionário, protestante, detectado por Sorel, e as revoluções contemporâneas.).

 Para nós é tal prática contraproducente. Posto que cada sociedade ou cultura deve fazer seu próprio caminho. Democracia é algo que deve partir de dentro da própria sociedade como que brotando da consciência e não algo a ser formalmente imposto por um poder externo. Alias nada mais contraditório e anti democrático que impor a democracia... O que chega a ser escandalosamente vergonhoso.

Impossível criar uma vida democrática onde não há espírito democrático. 

Alias a grande tragédia da modernidade já foi descrito por um acurado analista J M de Carvalho em termos de inversão. Na medida em que a criação das instituições e estruturas precedeu a formação do homem e a afirmação dos direitos. É isto criar umas casca ou crosta não conteúdo. 

Tanto pior quando nos EUA é o ideal democrático sordidamente usado com o objetivo de satisfazer necessidades econômicas, assim de pilhar ou parasitar outros países, o que já foi classificado como pirataria democrática. Nada mais comprometedor para o modelo democrático. Com suas agressões, ataques, invasões, etc os EUA, prestam imenso deserviço a vida e ao espírito democráticos.

13) As guerras?

São justas as guerras quando esforço de defesa contra um Estado ou uma Sociedade agressora.

Já as guerras agressivas ou de conquista são execráveis e deveriam ser rigorosamente proscritas e punidas por um tribunal internacional. 

Mesmo o emprego da violência racional e controlada por qualquer sociedade deve ser cuidadosamente ponderada de modo a se evitar possíveis excessos e abusos que porventura tornem ainda mais sofrida a condição do povo, posto que durante as situações de anomia parte dos indivíduos costumam a tirar proveito com o objetivo de praticar crimes, maldades, retaliações, vinganças, etc (Conferir D'Apchon 'O Irenophilo...' o que como disse acima deve ser evitado com máximo rigor.

O próprio Sorel reconheceu que a violência sempre pode sair do controle e o mais que fez foi conjecturar sobre um futuro incerto ou profetizar. De modo que o recurso a força ou a violência deve ser sempre o último a ser empregado, após terem sido esgotadas todas as outras possibilidades face a uma situação de injustiça e crueldade insuportável.  

Já disse, somos totalmente contra qualquer tipo de mística criada em torno da violência ou de qualquer entusiasmo face a seu emprego. É a violência semelhante a um veneno ou a uma droga que deva ser manipulada com todo cuidado e empregada meticulosamente.

14) Culturalismo?

Sem dúvida.

É a cultura que faz o homem pois o homem é prisioneiro da cultura. 

Uma visão realista de cultura considera tanto o poder da matéria ou da estrutura quanto a força do imaterial, do espírito ou das ideias. 

Julgo que tais estâncias sejam quase equivalentes. 

15) Quase...

Parece-me inquestionável  que a dimensão material exerça imensa influência sobre os seres humanos, cria possibilidades e firma condições. Parece alias que a maior parte dos seres humanos ou as massas ainda se movam apenas nesse nível.

Todavia, apesar disso, parece-me que as transformações, as rupturas, o progresso, o avanço, a mudança, a cultura, etc partam de um princípio dinâmico que é a mente, o pensamento, a criatividade, a racionalidade, a livre iniciativa... Assim ao imaterial, ideal ou espiritual, realidade que julgo ser mais forte e capaz de sobrepor-se a influência da materialidade; ao menos em alguns momentos. Momentos que correspondem as grandes transformações que marcam a História. Quando o meio oferece oportunidades ou condições é o ser humano que tira partido deles para supera-las e superar a si mesmo. 

16) Interacionismo...

Inclusive nos domínios da Educação por não ignorarmos o que é dado, e tampouco o fenômeno humano. Pois se admitimos portar um sistema operacional em termos de racionalidade e esquema de linguagem tampouco questionamos o papel do homem como sujeito do conhecimento. 


Continua -


sexta-feira, 16 de julho de 2021

As conquistas sociais do Bolsonarismo.


Enganam-se redondamente os que julgam que o Bolsonarismo nada fez crescer em nosso país.

Pois fez crescer:

# O índice do desmatamento e da degradação ambiental.

# O avanço da poluição e dos transtornos climáticos.

# O número de animais ameaçados de extinção.

# O grau de pobreza ou miserabilidade.

# As taxas de água e luz.

# O nível do desemprego.

# A inflação ou subida de preços, inclusive dos gêneros de primeira necessidade.

# O número de mendigos e sem teto.

# O grau de inabilidade quanto ao aparelho público de saúde - Demonstrado inclusive pelo manejo da epidemia do coronavírus. 

# O número de mortos por Covid.

# O índice da repressão a imprensa.

# A produção de fake news.

# O índice de violência policial.

# O índice dos crimes passionais.

# O índice de violência contra a criança.

# O índice de violência contra a mulher.

# O índice de violência contra os homossexuais. 

# O índice de violência e intolerância religiosa contra as minorias.

# O grau do negacionismo científico.

# O conteúdo ideológico da administração pública brasileira.

# A ignorância, já crônica entre as massas.

# O nível da corrupção que hipocritamente costuma denunciar e atribuir aos outros.

# A má reputação de nosso país em todo mundo civilizado.

# O número de militares na administração pública brasileira.

# Os lucros e consequentemente a fortuna dos pastores parasitas. 

# O número de ministros crentelhos.

# Os privilégios dos grandes empresários e multimilionários.

# Conjurações  e marchas anti democráticas.

# Crises institucionais.

# Ataques ao STF.

# Os insultos e baixarias advindos do Palácio do Planalto.

# Passeios de motocicleta.


"Contra fatos não há argumentos."



sexta-feira, 6 de março de 2020

Em tempo de coronavirus - Opção pelo homem ou pelo Mercado?

Vezo nosso criticar os medievais e os antigos... e endeusar, em tudo, o nosso tempo i é a 'Civilização', sob diversos aspectos, já o dissemos 'sifilização' em vias de colapso.

De fato os medievos e os antigos não tinham nem conhecimentos nem tecnologia médica capaz de fazer frente a vírus, bactérias e demais agentes patógenos como temos nós.

Mas é bastante provável que tivessem mais caráter, prudência ou mesmo respeito pela vida humana. Podiam achar belos os combates entre homenzarrões portando achas, machados, espadas e lanças. mas não achavam tão belo assistir idosos, crianças, mulheres e mesmo animais tombando vitimados pela peste... Tinham uma salutar medo da peste. Ao menos isto...

O homem de homem possui conhecimento e tecnologia capazes de elaborar uma vacina em menos de seis meses.

No entanto temos de considerar esses seis meses. Durante os quais o coronavírus bem pode espalhar-se e ceifar número considerável de vidas, especialmente entre idosos e vulneráveis i é pessoas cuja imunidade esteja baixa.

Temos sobretudo de ponderar que nos EUA estão faltando kits para testes. E que na Itália - país que conta com um bom serviço público de saúde - faltam aparelhos respiratórios... Temos de ponderar isto e de questionar se o SUS do Brasil esta preparado pra enfrentar uma pandemia... ou mesmo se a estrutura da saúde nacional - Incluindo orgs privadas - esta a altura deste desafio.

Alias estamos falando de mundo.

E então temos de pensar que há países e grupos bem mais vulneráveis do que o Brasil. Que dizer de Guatemala, Belize, Equador, Bolívia, Guianas, Gabão, Nigéria, Sudão, Myamar, etc, etc, etc de culturas e tribos africanas, asiáticas e ameríndias???

Não sou nem um pouco inclinado a conspiracionismos.  Porém o fato de tantos países terem notificado os primeiros casos da doença no dia seguinte ao Carnaval me parece muito mas muito estranho... Será que não esta havendo má vontade quanto as vidas humanas?

Tudo quanto quero dizer é que com todos os infinitos defeitos que a modernidade folga atribuir-lhes, aqueles receosos medievos muito provavelmente fechariam as fronteiras das cidades e feudos ao primeiro sinal da doença. Não eu não penso que eles hesitariam ou demorariam muito caso soubessem como se dá o contágio.

Nós sabemos. Nossos políticos... Nossos líderes. Eles sabem muito bem como o vírus se propaga em 'proporção geométrica' e como é 'distribuído' por pessoas que não sentem quaisquer sintomas... Ele gira assintomaticamente...

E mesmo assim a maravilhosa ONU, dois meses depois... Não decreta estado de pandemia. Do que resultaria um controle mais rígido em torno das fronteiras ou viagens internacionais e dos eventos que, a exemplo do Carnaval, envolvem aglomerações... Excursões distrativas por exemplo seriam desestimuladas ou mesmo proibidas, assim quaisquer eventos capazes de congregar multidões. Se tal já não é capaz de tratar a disseminação do vírus por incúria, ao menos, será capaz de diminuir o ritmo do contágio e de poupar muitas vidas, até que a vacina seja produzida.

Tenho certeza de que qualquer povo antigo ou primitivo em posse do conhecimento que temos já teria tomado todas as providências práticas e cabíveis no sentido de evitar a propagação deste flagelo.

Nossos governos porém, e a ONU, estão agindo levianamente i é a passo de lesma ou tartaruga. Com o desperdício de vidas humanas, quiçá pensando que sejam apenas velhos ou mesmo que a pandemia possa remediar o excesso de população mundial. Dando cabo dela pura e simplesmente... Sim há quem veja nas guerras e epidemias uma forma da 'natureza' controlar a superpopulação... ou mesmo de beneficiar os mais 'aptos'. Sim, há psicopatas chamamos darwinistas sociais.

Assim a pergunta que não quer calar é simples: Por que estão dizendo para as pessoas não se alarmarem se a letalidade da doença chega a 15% entre os idosos e vulneráveis??? Acaso eles não são pessoas ou cidadãos com os quais a sociedade deva preocupar-se??? Será que os 3% de cidadãos 'mortos' nada conta ou significa??? Enfim por que a ONU e os diversos governos ainda não tomaram as medidas necessárias para evitar eficazmente esta praga??? Por que estão a omitir-se quando qualquer sumeriano ou medievo agiria, tomando as medidas corretas, alias bastante simples - Impedir aglomerações e restringir a circulação de pessoas pelo mundo??? Sim, falo em restringir o turismo!

Talvez os noticiários de TV possam auxiliar-nos a compreender o que esta acontecendo conosco e quais sejam os fundamentos arenosos da nossa 'silifização', uma 'sifilização' que sacrifica o homem, simplesmente por não prioriza-lo.

Já perceberam que os articulistas e jornalistas falam vinte minutos sobre o coronavírus e outros tantos vinte minutos ou mais sobre o Mercado, a Economia, as Finanças, a Bolsa, Investimentos, Crise, etc??? Já notaram a insistência mórbida a respeito??? Isto é a crise humana e já a vivenciamos... Eis a profunda crise porque passamos justamente por igualar ou sobrepor o econômico ao humano. Chama-se materialismo ou economicismo, e estamos mergulhados até os pescoços nesse lodo ou nessa lama.

Por que não paramos de emitir gazes poluentes e de acentuar o aquecimento global???
Por que não cessamos de desmatar ou de massacrar a vida animal???
Por que sujamos o Planeta???
Por que ainda não controlamos a densidade populacional duzentos anos após Malthus???
Por que brincamos com a natureza e seus recursos???
Por que ainda nos recusamos a ouvir J S Mill e seu discurso sobre a economia estacionária???
Por que ainda acreditamos num progresso infinito e ilimitado num sistema finito???
Por que ainda adormecemos embalados pela cantilena de Condorcet???

POR QUE NÃO BRECAMOS OU DIMINUÍMOS O RITMO DE PROPAGAÇÃO DO CORONAVÍRUS???

POR QUE A ONU AINDA NÃO DECRETOU PANDEMIA???

POR QUE NÃO ADMITEM O FECHAMENTO DAS FRONTEIRAS E IMPEDEM A REUNIÃO DE MULTIDÕES???

Qual o verdadeiro e real motivo da nova peste não estar sendo levada a sério???

Quem serão os prejudicados?

Sinto muito pelos liberais economicistas sabichões mas tenho de registrar mais esta na conta do capitalismo!

Pois a questão dos eventos e das viagens é apenas questão de consumo e turismo, assim de lucro, de capital, de dinheiro, de economia ou de finanças - Apenas isto.

Não se restringe a circulação ou a reunião de pessoas porque diminui os lucros e ameaça a economia - Somente isto.

Não se tomam as providências cabíveis porque as necessidades do Mercado foram colocadas - Já há uns quatrocentos anos! - acima das vidas humanas e do bem estar humano.

É para preservar o ritmo da economia e salva-la de uma possível crise que nada ou pouco se faz! É pelas bolsas de valores...

Mesmo porque, caso a epidemia se alastre ou propague os milionários sempre poderão embarcar em seus jatinhos rumo a países mais 'limpos' ou seguros ou pagar por um tratamento de ponta. Poderão pagar internação no Albert Einstein ou no Samaritano quando não puderem migrar para a Suíça ou para a Bélgica... Terão acesso aos melhores médicos e terapias e certamente serão os primeiros a obterem as vacinas. Por isso não estão receosos pela própria saúde e muito menos pela sua ou pela minha. Por isso eles só se importam com a Bolsa, com o Mercado ou com seus lucros astronômicos.

O mais patético é que comprando os políticos ou 'representantes do povo' eles ditam a política em diversos países (Como EUA e Brasil) ou mesmo na ONU... Tal a força política do poder econômico!

E com isto vão anestesiando o povo - Dizendo: Não se preocupem, enquanto os avós vão morrendo! - e deixando de fazer o que deveria ser feito... E assim se arrasta a pobre humanidade: Brincando com pandemias que podem fugir a todo controle e aniquilar grande parte da humanidade!

Cessem portanto de falar em trevas medievais quando a verdadeira treva esta bem aqui, diante de nossos narizes!

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Em torno de um vídeo - Catolicismo Vs Capitalismo (Youtube)

Esta 'breve' defesa foi elaborada após termos iniciado a leitura da obra 'O século do nada' de Gustado Corção. Obra 'confusionista' em que o polemista atrabiliário busca desmerecer as figuras de grandes Católicos como E Mounnier e J Maritain, tal como já fizera com Tristão de Athayde.

Corção, como Vintila Horia e o Bispo Fulton Sheen, faz parte do seleto grupo dos comunófobos ou dos contra revolucionários do tempo presente, isto é claro numa perspectiva ingênua ou idealista. Afinal também nós, como Católicos, somos contra revolucionários. Não no sentido superficial e tosco de reprimir as revoluções 'a posteriori' ou pelo emprego da força, o que denota falta de inteligência. Mas no sentido realista ou profiláxico que leva a eliminar 'a priori' as potenciais causas que possam ativa-la. Nós somos por evitar as Revolução ou por sofre-las como quem sofre uma penitência (Berdiaeff).

Afinal que são as tais Revoluções senão a morte e dissolução de sociedades que estavam enfermas? Acaso um homem que deseje escapar a morte não procurará o médico, fará dieta, tomará os medicamentos receitados e se submeterá a quaisquer tratamentos, inclusive a uma cirurgia, se necessário for? Assim as Sociedades que aspiram escapar as Revoluções devem reformar-se, necessariamente. Nós somos pelo único caminho viável, a eliminação de todos os abusos que alimentam o espírito revolucionário.

Tornando agora a Corção, Horia e F Sheen, forçoso é declarar que ainda existem Católicos deste talhe no seio da igreja, a qual prestam imenso deserviço, não é claro por serem anti Comunistas, pois é evidente que o Católico não pode ser comunista, já porque não visa os mesmos exatos fins que o comunista, já porque não recorre nem poderia recorrer aos mesmos meios, ao menos de modo geral. Tal não é o caso. Importa declarar em alto e bom som que não basta ser anti comunista. Ser apenas anti comunista é ser parcial, injusto, arbitrário, oportunista e até mesmo canalha. É necessário ser bem mais do que anti comunista, já o veremos!

A bem da verdade a igreja sempre deu combate a todas as formas de naturalismo, exceto, em certa medida - que não vem ao caso agora - ao naturalismo político. Diante disto faz-se mister ser também e igualmente anti Capitalista, opondo-se tanto ao Comunismo quanto ao Liberalismo econômico, mormente quando Sheen, Horia e Corção são obrigados admitir que aquele é fruto ou filho deste. Foram os erros do liberalismo econômico que produziram o Comunismo e as diversas formas, naturalistas, de socialismo. Socialismo não é causa, é efeito, consequência, reação face as mazelas produzidas pelo Capitalismo. Ainda aqui, mais uma vez, faz-se mister ir as causas, as fontes e expor as raízes do mal. Afinal o machado da palavra de Cristo deve ser levado a raiz do mal, para extirpa-la sem maiores contemplações.

Ainda hoje há muito Católico mal orientado ou mesmo mal intencionado que reproduz este tipo de discurso posto em circulação pelo protestantismo. O protestantismo sendo lacaio do capitalismo será necessariamente anti comunista, somente isto e nada mais que isto. Pelo simples fato de que o âmago da questão, como perceberam Maritain e Mellawace, toca a velha questão da fé e das obras, e jamais saí disto. A questão da Doutrina social da Igreja é questão que toca diretamente a questão do homem, da graça, das obras e do mundo material. Não é algo dogmaticamente ocioso ou irrelevante. Daí a necessidade imperiosa do Católico refletir sobre ela numa perspectiva coerente, ao invés de adotar posturas que nada tem de Católicas. Os protestantes negando a regeneração interna do ser humano, renunciaram a possibilidade de transformar a Sociedade dos homens. O Catolicismo não pode renunciar a este ideal ético sem renunciar a si mesmo...

A arenga não é ociosa uma vez que Corção, ao contrário da quase totalidade dos neo Católicos, mergulhados na ignorância e no conformismo, conhecia detalhadamente o que chamamos - e ele também - Catolicismo social. Alias o próprio Corção busca traçar a genealogia deste movimento tão importante para a consciência Católica, e chega a Adolphe Thery, Bourgemont, Villermé, Buchez, Ozanam - Cf 'O século do nada' Record p 146 sgs - Albert de Mun, Le Play, Leon Harmel, La Tuor du Pin, etc quanto a França, e a Ketteler, Manning, Gibbons, Decurtins, Pottier, Verhaegen, etc no exterior. Temos outras narrativas preciosas - A de Luiz Francisco F de Sousa (Socialismo uma utopia Cristã), a de Francisco Nitti (Socialismo Católico), a de Brunetière, a de Guyau, a de Laloup Nelis - e outros tantos nomes como os de Mably, Morelly, Meignam, Lammenais, Bloy... Ireland... Wietling... De Amicis, Nitti... Alias o nome de Bloy é importante pelo simples fato deste personagem, citado por Corção no frontispício da referida obra, estar relacionado com Berdiaeff, Maritain, Mounnier e outros indevidamente incriminados pelo panfletário brasileiro.

Corção tem razão contra os comunistas, e até mesmo Polanyi e Hobsbaw o reconhecem - A igreja não deixou de atuar contra as forças tenebrosas do Capitalismo emergente, no entanto entre suas fileiras haviam dois tipos de mentalidades, as quais encaravam o problema da miséria de forma bem distinta. A primeira linha de pensamento, segundo a tradição de S Vicente de Paulo - o qual vivera no século XVII, num contexto tradicional e não num contexto capitalista -  situava a questão na esfera da caridade, da assistência ou do que chamaríamos hoje 'paternalismo'. Esta corrente, representada por Ozanam, incorporava não poucas vezes um conceito formalista de propriedade, associado a uma abordagem voluntarista (relacionado com o próprio conceito de caridade) e a um certo receio face a um estado interventor.

Crucial declarar que o ponto de vista acalentado por este grupo não está de acordo com a doutrina comum aos padres da igreja e menos ainda com o ensino corrente da escolástica, uma vez que seus membros ignoravam supinamente os ensinamentos de Tomás de Aquino. O estudo da obra de Tomás de Aquino só viria a ser sistematicamente retomado sob os auspícios de Leão XIII pelos idos de 188

Curioso observar que um estudioso brasileiro dedicado ao tomismo, o profo Jorge Boaventura, falecido em idade provecta na última década do século passado, após ter publicado inúmeras obras de polêmica contra os Marxistas - editadas pela Biblioteca do exército - chegou a conclusão, alguns anos antes de morrer, que o ensinamento de Tomás de Aquino era sem sombra de dúvida socialista ou ao menos incompatível com o que chamamos liberalismo econômico, o que alias sabe a obviedade. A conclusão a que chegou este pensador honesto e sincero, produziu, aquele tempo, imensa consternação entre os católicos incoerentes e protestantizados, os quais chegaram a declarar que o professor Boaventura estava caducando ou esclerosado. A bem da verdade ele limitou-se a constatar o que o grande Cardeal Mercier de Malines (+ 1926) e seu sucessor Von Royer, haviam constatado há muito: Que entre o ensinamento social da Igreja e as pretensões do liberalismo econômico há uma abismo intransponível e que por ser a igreja anti comunista não pode ser menos anti capitalista ou anti liberal.

Alias por qualquer outra via que se tome, chega-se sempre a mesmíssima conclusão. Veja que o Pe Hurtado ingressou nas fileiras do Catolicismo social a partir da leitura das obras de D Columba Marmion, o que aconteceu comigo mesmo, embora no meu caso ja tivesse lido os padres da Igreja. A leitura de Marx ou de qualquer ideólogo Comunista foi absolutamente desnecessária para a maior parte dos Católicos que perceberam a antinomia - Catolicismo - Capitalismo. Todos os grandes eclesiólogos e cristologistas da Católicos são obrigados a considerar a comunhão dos santos em seu vínculo, e a insistir sobre os laços de fraternidade, solidariedade, alteridade... existentes entre aqueles que são membros de um só e mesmo corpo, chegando a doutrina do amor, da justiça e das obras...  A ilação teológica conduz o Católico, necessariamente, aos braços do fraternalismo... em oposição ao individualismo e ao sistema econômico alimentado por ele. O próprio M Weber não pode deixar de compreender tudo isto, embora estivesse fora da igreja... As premissas do solidarismo Católico já estão em Sertillanges, K Adam ou qualquer outro grande teólogo que tenha buscado deslindar a vida íntima da Igreja.
 
COMO OS CATÓLICOS PROFESSAM UM IDEAL COMUNITÁRIO DE SALVAÇÃO, deduzem uma economia solidária ou humana. Como os protestantes afirmam uma salvação individual ou egoísta, deduzem uma economia individualista, marcada pela rivalidade ou pela concorrência.

Mas tomemos agora a segunda via de pensamento percorrida pelo Catolicismo social.

A qual reconhece que o sistema economicista liberal tem sido produtor de uma ordem social injusta, e portanto incompatível com os ensinamentos éticos do Catolicismo.

A importância desta constatação é amplamente fecunda. Pois caso situemos a gênese do problema no âmbito da caridade, ou de meros 'conselhos evangélicos', como doar todos os bens aos pobres... sempre poderemos fugir desonestamente a ele, apelando a liberdade... Embora estejamos obrigados em função da lei de Jesus Cristo a amar e a amar concretamente o próximo, sob pena de não sermos Cristãos. Isto no entanto suscitaria uma discussão enorme... E sempre fugiria a realidade e a verdade.

Não se trata aqui de negar ou de reconhecer uma luta ou conflito existente entre as classes sociais pelo simples fato de tal conflito ser oficialmente estimulado pelo credo liberal. O credo liberal, associado a uma visão darwinista da realidade, jamais encara os homens como irmãos, mas sempre como concorrentes ou rivais na 'luta' pela sobrevivência. Apresentando o patrão bem sucedido como apto e o proletário explorado como inapto, quando na verdade - na maior parte dos casos (aqui Max Nordau - Mentiras convencionais de nossa civilização) o primeiro limitou-se a herdar enquanto o outro nada herdou...

Naturalmente que semelhante tipo de ideologia acabaria produzindo uma Sociedade enferma ou em estado de conflito. Aqui a negação da existência do conflito exigiria do Católico o sacrifício de sua honestidade. Esta ele numa Sociedade em estado de conflito. O conflito é real, é histórico e independe da vontade do Católico - é dado ou fato empírico irredutível a vontade. E a honestidade exige que o Católico, como Berdiaeff fez, reconheça a existência do conflito.

Nisto o Cristão não se distingue do Comunista e sequer podería distinguir-se dele, exceto se viva numa sociedade tradicional ainda não infectada pelo virus do Laisez faire... Do contrário estará situado numa Sociedade dividida, pelo simples fato de uns explorarem outros ou viverem as custas do trabalho alheio e não do próprio. A existência de opressores e oprimidos é concreta e não produto de nossa imaginação!

Assim a questão posta, ao Católico e ao Comunista, não é de fato mas de valor.

Como o Católico avalia este conflito implementado e estimulado pelas forças Capitalistas de produção ou por seu éthos???

O Comunista dirá que o conflito é o motor da História e que portanto tal situação deverá ser intensificada. Ele aplaudirá e estimulará todas as situações de conflito, acompanhando a dinâmica do liberalismo econômico em seu desenrolar e 'excitando' os justos rancores do proletariado, com o objetivo de produzir uma consciência de classe estribada muitas vezes num ódio feroz.

Agora qual o posicionamento do Cristão???

Eis uma pergunta que é crucial e que toca ao âmago do problema!

Quanto a negar ou ocultar o conflito social, já vimos que não é uma solução honesta.

A outra postura, igualmente desonesta, consiste em exigir que ambas as partes, patrões e operários, façam as pazes e vivam em harmônia sem estipular quais sejam as condições em que tal convivência se dará. Pois aqui exigir a paz e a conciliação equivale a ordenar que os operários se conformem com sua situação, se resignem, e se deixem explorar passivamente como sequer uma ovelha procede com relação ao lobo, porque até mesmo a ovelha foge...

Usar o mandamento sagrado do amor com o objetivo de cimentar uma situação de injustiça é, permitam-me dizer sacrílego, senão diabólico.

Antes do amor, apresentam-se as exigências da justiça, e ninguém, nem mesmo a mãe igreja, a qual deve ser tão justa quanto seu esposo e mestre, pode ordenar a seus filhos que sofram injustiça! Antes é grave dever dela eliminar as situações de injustiça, de modo a suprimir o conflito e evitar, como já foi dito, a catástrofe da revolução, desejada por anarquistas e comunistas.

Nivelar a vítima com o agressor é e será sempre uma atitude iníqua. Por isso a voz da igreja deve se dirigir não aos proletários com o objetivo de conte-los ou apazigua-los mas aos ricos e poderosos.

Neste caso que deve fazer ela?


Simples - Conter, por força de sua lei a parte agressora ou opressora, advertindo-a a respeito de seus deveres e obrigações.

Numa situação em que os patrões exploram e oprimem os operários o único caminho a ser seguido é proibir aqueles dentre os patrões que se declaram Católicos, de explorar seus operários, sem sem importar com a praxis vigente entre os acatólicos sejam ateus ou protestantes, no caso subservientes as flutuações do deus Mercado.

O Católico tem obrigações sociais e econômicas que lhe são impostas pela doutrina social da Igreja - como o pagamento do salário família e de todos os demais direitos trabalhistas mesmo quando não tenham sido sacramentados pela lei - e as quais não pode fugir sob pena de excomunhão, devendo de fato ser posto fora da igreja caso teime em seguir as regras assentes pelo liberalismo econômico.
Tal o dever dos Bispos e clérigos, fazer valer a doutrina social da igreja e aliviar a situação do povo de Jesus Cristo. A menos que a doutrina social da igreja não passe de letra morta ou de algo para 'inglês ver' como insinuam os comunistas, o que seria insultuoso para a igreja - ter leis e não leva-las a sério. Agora se houve ou houver acomodação, é resultado da falta de fé...

A Igreja tem tradições e leis e elas consistem em reprimir a avareza, a cobiça, o amor as riquezas materiais... a exemplo do que era posto em prática e comumente executado por um S Antonio de Pádua, cuja defesa dos pobres e miseráveis face aos banqueiros é bastante conhecida de todos. Tal o modelo a ser seguido. Não Mises, Fridmann, Hayek e outros ateus que para a igreja nada são mas Asterius, Crisóstomo, Basílio, Antonio, etc os quais são nossos maiores e nossos refenciais.

Ora esta questão da justiça foi reconhecida e posta em relevo pelos Bispos alemães congregados em sínodo sobre a presidência de Immanuel Von Ketteler, Arcebispo de Maguncia, em 1848 ou seja no mesmo ano em que Marx publicava o seu manifesto ultrafamoso. Agora que diziam os Bispos, dignos representantes de toda uma tradição muito mais antiga que o Marxismo? Reconheceram publicamente a injustiça inerente ao sistema Capitalista de produção, e apontaram intrepidamente os fatores responsáveis por um semelhante estado de coisas -

  • O Caráter anti ético do economicismo.
  • A desvinculação da propriedade face a sua função social.
  • A recusa do estado em interferir (Dogma basilar do liberalismo econômico) e
  • A destruição das corporações medievais por uma legislação inspirada dos novos princípios do liberalismo.

Alias estes dois fatores, em especial o último foram salientados igualmente, por Leão XIII na Rerum Novarum, reconhecendo o chefe da igreja romana, a necessidade do estado interferir em favor dos operários em diversas situações, o que contraria, como já foi dito, a doutrina liberal da não intervenção ou da intangibilidade do Mercado.

Foi o ponto de partida para uma tomada de consciência ainda maior por parte dos Católicos mais dedicados. Embora a reação continuasse sendo desproporcional... A própria política nos países Católicos era dirigida por acatólicos, em sua maior parte alinhados com a ideologia liberal. Os próprios positivistas e cientificistas, após a morte de Augusto Comte e sob a direção de Litreé, tornaram-se subservientes face aos interesses do capital e buscaram 'modernizar' as Sociedades Católicas introduzindo nelas o modo capitalista de produção. Positivistas e liberais nutriam não menos horror que os comunistas a gente do campo e aos modelos tradicionais de organização social. O ideal Católico era considerado sempre ultrapassado quer fosse monarquista ou social... E o liberalismo, especialmente sob o viés econômico encarado como progressista.

O pior no entanto era a existência de um imenso número de Católicos formais e alienados. Os quais nada sabiam sobre a doutrina social da Igreja ou julgavam-na ociosa, raciocinando, é claro, como protestantes. O fundo do poço, como ainda hoje, eram os Católicos que acreditavam ser possível ser Cristão e Capitalista ou liberal economicista ao mesmo tempo, havendo dentre eles, inclusive, os oportunistas, que clamavam contra o comunismo anti Cristão enquanto cobiçavam por oprimir seus irmãos em Jesus Cristo membros do mesmo corpo místico. Já o Visconde de Inhomirim fustigava esses Católicos de fancaria que haviam compactuado com a chaga da escravidão. Eliminada a escravidão esta ralé de solifideistas pos-se logo em sintonia com o Mercado - Hora de contratar e oprimir imigrantes italianos ou de explorar a mão de obra nordestina corrida pela seca de sua terra Natal. Esses eram os principais problemas da igreja aquele tempo... E como nem todo Bispo ou prelado tinha virilidade suficiente para 'encarar o problema de frente'... A igreja era constantemente descrita por seus opositores socialistas, como uma instituição hipócrita. Reconhecemos que nem sempre tem sido regida por homens de valor, para cada Ambrósio, Atanásio ou Teodoreto há mil acomodados...

Felizmente, cerca de quarenta anos após o Sínodo presidido por Ketteler ter feito suas objeções ao liberalismo, Leão XIII publicou a já citada Encíclica, em sob a perspectiva tomista. E houve quem o levasse bastante a sério na Bélgica ou melhor dizendo na Lovaina. Foi nesta Universidade em que sob a presidência de Mercier, Arcebispo de Malines, resgatou-se a doutrina social tomista, centralizada no conceito aristotélico do 'bem comum'. Foi a partir de tais pesquisas que foi sendo formulada a doutrina social da Igreja e os Códigos sociais de Malines, dentre outros documentos. E no mesmo ambiente tomaram corpo o Sillon, a Ação Católica e o Jocismo de Cardjin, para sermos sucintos. Foi todo um florescer de consciência social autenticamente Católica fundamentada na doutrina de Tomás de Aquino, até então completamente ignorada pela corrente rival.


Afinal, teólogo medieval algum, disserta com maior propriedade, em termos de Ética Cristã, a respeito da distinção entre a ordem da caridade, que Aquino relaciona, até certo ponto, com a liberdade humana; e a ordem da justiça, que   Aquino apresenta como de estrita necessidade. Ora Aquino, situa todas estas questões atinentes ao trabalho, a produção de bens, a economia, etc não na ordem da caridade mas na ordem da justiça. E o próprio bem comum é situado por ele nesta ordem de bens, relacionados com a justiça, e portanto, estritamente necessários. Como se vê não é algo voluntário ou desejável, mas algo absolutamente necessário e a ser expresso por meio de leis obrigatórias ao povo de Jesus Cristo.

Desde então, todos os principais expoentes do Catolicismo, a começar por Maritain, tiveram de acompanhar os Dominicanos de Lovaina e Tomás de Aquino. Já não era possível encarar a questão social apenas sob o ponto de vista ou a perspectiva unilateral da caridade e adotar os meios postos por S Vicente de Paulo numa Sociedade tradicional. A situação criada pelo liberalismo econômico - foi bastante bem descrita na Inglaterra por Dickens e na França por Zolá - demandava por novos tipo de reflexão e ação. Era necessário que a Sociedade Católica reassumisse seu autêntico 'modus vivendi', rompendo com o éthos puramente naturalista do economicismo liberal, interferindo positivamente nos setor da economia, implementando a justiça social na mais larga escala possível, investindo na pessoa humana e erradicando a miśeria produzida pela injustiça.

Este programa só será esboçado com absoluta nitidez a partir das primeiras décadas do século XX devido as contribuições de diversos pensadores quais sejam - Bloy, Berdiaeff, Maritain e Mounnier. Tais pensadores constituem as vigas mestras por assim dizer do pensamento social Católico - alias Berdiaeff, é nosso i é Católico Ortodoxo - em construção, e nenhum deles, como veremos, estava sob influxo do marxismo, mas sob influxo da corrente de pensamento tomista e da tradição patrística. Lamentavelmente Corção permaneceu atrelado a primeira corrente de pensamento, delineada na França por Ozanam. Deixando de acompanhar o desenvolvimento suscitado pelos estudos tomistas iniciados na última década do século XIX e as possibilidades descortinadas pela Rerum Novarum... E isto a ponto de chegar a encarar os legatários desta corrente como inovadores influenciados pelo marxismo. Esta errado e basta dizer que estes teóricos estão todos relacionados com o círculo de Leon Bloy e que este estava muito bem a par do que ocorria na Lovaina. Foi um movimento comum, de convergência, fruto da própria consciência Católica voltada para sua tradição mais pura e para suas raízes mais profundas. evidente que hoje, mais do que nunca, precisamos resgatar tudo isto.

A Teologia da Libertação procede em parte doutra cepa. Tem, como os socialismos naturalistas - e Ozanam mesmo o reconhece - uma herança Católica comum, a par de diversos erros. Ao contrário de seus erros, em grande parte de origem protestante, vou insistir sobre os acertos! Não errou ao servir-se de Marx e dos teóricos marxistas com o objetivo de conhecer melhor a realidade produzida pelo Capitalismo e seus mecanismos internos de natureza econômica. Aqui um pouco de Gabriel Le Bras ou de Lallemant faz bem - Marx é um teórico como outro qualquer, podendo ber servir como ferramenta a crítica Católica e mais ainda Max Weber, e outros mais... Alias não foi ele quem produziu a situação que descreve! Materialismo já havia sido posto em circulação há muito tempo, pelos economicistas... A questão é que os adeptos da TL deixaram-se cooptar por certos ideais e métodos propriamente comunistas, além de adotarem um vocábulo de tal modo técnico que afastou-os do povo Católico afeito a um linguajar tradicional com que os comunistas jamais souberam lidar. A TL foi pelo mesmo caminho e cometeu os mesmos erros... Embora houvesse nela um princípio de justiça, como havia um princípio de lealdade entre os feudais.

Seja como for a libertação total da pessoa humana não é, como ordinariamente se crê, assunto relacionado meramente com a ética Católica ou com a doutrina social da igreja, mas assunto relacionado com a soteriologia e a antropologia Católicas exaustivamente debatido na ocasião em que foi levantando o problema da fé e das obras. A simples afirmação, sinergista, segundo a qual as obras são absolutamente necessárias a salvação, já nos encaminha a solução do problema social. Assim a doutrina da igreja visível, da comunhão dos santos e da ressurreição da carne apontam para a mesma perspectiva de uma salvação integral do homem, não quanto a um diabo ou a um inferno, mas quanto o mal e o pecado. A afirmação de uma graça capacitante por parte do Catolicismo não pode deixar de culminar com a elaboração da ideia de uma Redenção integral e portanto de fundamentar a tese da transformação do mundo a luz do Evangelho ou do triunfo da lei de Jesus Cristo numa perspectiva social. Por isso o Catolicismo sempre será um modo de vida ou uma lei, jamais uma fé somente e totalmente separada do mundo material. A fé Católica esta sempre em diálogo com o mundo buscando transforma-lo a luz da Encarnação e ampliar a presença do Cristo. A própria escatologia torna-se otimista e plena de esperança!



quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Uma breve leitura sobre os 'Demônios descem do Norte' de Délcio Monteiro de Lima

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Penso ser absolutamente normal que parte das pessoas direcione
seus bens tendo em vista algo em que acreditam.

E portanto que invistam parte de seus proventos em suas respectivas religiões e seitas.

Natural que as pessoas que acreditam na INSTITUIÇÃO JUDAICA do dízimo, paguem dízimos, o contrário por sinal seria incoerência...


Até aqui nada a objetar.

Embora eu mesmo não veja nada de Cristão ou de evangélico em tal instituição. Pelo simples fato de que Jesus jamais impôs quaisquer taxas aos que abraçaram o Santo Evangelho. Dízimo, insisto eu, é dogma judaizante, pentecostal, protestante, biblicista E DE MODO ALGUM CRISTÃO.

O Cristianismo estabeleceu o sistema de colaboração livre, descrito nas Epístolas do Apóstolo Paulo.

Tal minha visão das coisas.


Seguindo esta linha de raciocínio nada mais degradante do que imaginar a Santa divindade concedendo supostas graças ou favores em troca de contribuições... Acaso não teríamos aqui um deus vendedor ou traficante de indulgências???

Diante disto fica até fácil entender porque temos uma Sociedade que se vende cada vez mais, pessoas que negociam seus próprios valores e uma política essencialmente corrupta ou venal.

Caso a Santa divindade seja pintada como corrupta ou venal que nos restará???

Isto quanto aos dizimistas e o tráfico de coisas sagradas que a tradição ancestral batizou como simonia.

Agora quanto ao simples investimento, por parte dos crentes ou fiéis, em determinada instituição religiosa, já o disse encara-lo como absolutamente natural, pelo simples fato de que as pessoas tendem a valorizar, em todos os sentidos, o quanto seja significativo para elas.

Ficando claro que para algumas destas pessoas gastar com a fé equivale a uma devoção.

O que não posso encarar como normal ou natural é que EMPRESAS MULTI NACIONAIS E MULTI MILIONÁRIAS, INDÚSTRIAS E INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS, QUE LUCRAM EXPLORANDO AO MÁXIMO SEUS FUNCIONÁRIOS, financiem corporações religiosas...

Não o catolicismo, não o espiritismo, não o budismo, não o hinduísmo ou qualquer outra religião mas certamente as missões protestantes - born again ou pentecostais/fundamentalistas - nos países mais pobres...

Francamente falando, acho esse negócio muito estranho...

Instituições que vivem burlando a Ética do Evangelho, semeando a miséria e servindo a Mamon, financiando determinadas facções religiosas...

TEMOS DE REFLETIR E DE NOS PERGUNTAR SOBRE O PÔRQUE DESTE FENÔMENO...

Quais interesses ou objetivos tem levado O CAPITALISMO a patrocinar um tipo ou padrão de religiosidade predominante nos EUA, o centro mundial do capitalismo???

Por que essa aposta decidida do Mercado nas seitas protestantes???

Seria ingênua ou aleatória?

Não o creio...

Então temos de nos perguntar sobre o que tais empresas e instituições esperam deste tipo de religiosidade?

Segundo Délcio Monteiro de Lima em "Os demônios descem do Norte" a única resposta plausível implica admitir a aposta num modelo religioso que até certo ponto justifique o materialismo, o predomínio do Ser sobre o Ter ou a busca do acúmulo irrestrito de bens ou do lucro máximo num contesto 'cristão'; enfim num padrão de espiritualidade que preconize o sucesso financeiro ou o enriquecimento, as custas das exigências ou postulados éticos baixados pelo Cristo em seu Santo Evangelho, o que implica aceitar e abster-se de criticar a ordem capitalista com todas as suas mazelas suficientemente conhecidas por todos nós.

Implica pois uma adaptação ou conformação em termos de Cristianismo ou uma negociação em termos de princípios e valores. Pelo qual o Cristianismo ao invés de inoportuno torna-se conivente ou colaboracionista. 



E esta resposta sugere um segundo questionamento -

Até que ponto as seitas financiadas pelo poder econômico SÃO CONIVENTES OU MESMO FAVORÁVEIS A EXPLORAÇÃO DOS EMPREGADOS PELOS PATRÕES ou até que ponto santificam esta relação iniqua???

Até que ponto silenciam a respeito da injustiça e deixam de denunciar o poder do capital em nome do Evangelho???

Em que medida são elas mesmas compradas ou agenciadas pelo capital com o propósito de porém a favor dele e, contra o povo trabalhador?

A bem da verdade a maior parte das seitas protestantes não obedece a um programa consciente no sentido de favorecer ou beneficiar a ordem econômica vigente. Contentam-se em ser anti comunistas, embora via de regra, identifiquem toda e qualquer forma de socialismo com comunismo, bem a gosto dos EUA, cuja cultura e modelo de organização social folgam reproduzir.

Acontece que lá nos EUA a questão crucial para os Cristãos, que tais seitas costumam baralhar e disfarçar com apelos forçados ao antigo testamento, diz respeito, antes de tudo, ao imperialismo e a guerra de agressão e conquista; bem como a pena capital. A tônica lá gira em torno disto uma vez que a miśeria ainda não assomou aos índices vigentes no terceiro mundo ou nos países subdesenvolvidos, pelo simples fato de que estes não possem colônias como os EUA...

A realidade dos países latino americanos e demais repúblicas do hemisfério Sul tem sido marcada pela miśeria, agravada cada vez mais pela ingerência da política externa N Americana, cujo principal objetivo consiste em dar apoio a iniciativa privada ou a ação predatória das grandes multi nacionais.

Diante de semelhante quadro de miséria em que a malfadada luta de classes é potencializada ainda mais pelo modelo capitalista importado dos EUA e em que as lideranças nacionais inclinam-se por vontade própria ao modelo do estado mínimo enquanto as massas oprimidas clamam por intervenção, tem prevalecido um estado de tensão... Em que as democracias recentemente implantadas e manipuladas pelo poder econômico, tendem a omitir-se e o povo, em certas ocasiões a rebelar-se, e caudilhos a tomar o poder...

Prevaleceu esta situação confusa até o instante em que os panfletários anarquistas e comunistas instaram-se nos grande centros urbanos e principiaram a fazer suas propagandas arregimentando certo número e um número cada vez mais de cidadãos descontentes empenhados em criar algo como a "Comuna de Paris" ou a "URSS". De fato, a partir da segunda metade do século XIX, a maior parte das sedições operacionalizadas em países sub desenvolvidos assumiu uma orientação comunista ou socialista. O que implica um afastamento progressivo dos países da A latina quanto a órbita dos EUA e seu modelo social.

Desde então o lema "América para os (Norte) americanos" tornou-se controvertido do México para baixo...

Consideremos agora que até então, i é até meados de 1960, achava-se a igreja Romana, cindida socialmente em diversas vertentes e que a partir de 1960, todas estas vertentes, sob influxo da Teologia da Libertação, tendem a reforçar o direcionamento social pré existente e em convergir para soluções socialistas, quando não comunistas, mas, de um modo ou de outro, sempre anti imperialistas ou anti americanizantes.

Desde 1960 e a cabo de três décadas a igreja romana, cujo poderio na América Latina era considerável, juntou forças com os elementos descontentes ou dissonantes no sentido de denunciar as mazelas sociais legadas pelo sistema colonial que estavam a ser ampliadas e aprofundadas sob os auspícios o imperialismo Yankee e do capitalismo. Predispondo o cenário político a transformações dramáticas, de que temos exemplo no sandinismo da Nicarágua ou na guerrilha Colombiana.

Claro que os EUA não tardaram para perceber o perigo. Localizado num território que encaravam e ainda encaram como quintal seu. Relatórios foram elaborados por diversos setores da administração yankee e nenhum deles foi lisonjeiro para com a velha igreja romana, ora posta, quase que em sua totalidade, em favor da justiça social e da emancipação dos povos. A igreja romana, comprometida com uma teologia libertadora, foi classificada como não confiável no sentido de que equivalia a uma espécie de brecha feita na muralha da alienação. A cultura da opressão fora desertada culturalmente e corria um grande perigo...

Em tais conjunturas que fazer?

O governo Yankee, que desde 1940 renunciara a financiar ele mesmo as seitas bíblicas a partir o erário, em tese nada fez.

Além de é claro orientar as instituições financeiras... Convencendo-as de que a praxis cultural é via de regra, sancionada pela fé religiosa. Fazia-se mister sabotar a força da igreja romana no contexto da América latina ou de enfraquece-la substituindo-a por um modelo bem menos crítico. A sugestão das seitas protestantes, baluarte da cultura Norte americana, ficou implícita...

Basta dizer que o protestantismo fundamentalista comporta por assim dizer uma fermentação de seitas bíblicas, cada qual imaginando ter dado com a verdade eterna ignorada por todas as outras e portanto ser necessária a salvação de todos os seres humanos, ideal que em tais seitas tornasse obsessivo até a mania... Adotando moldes e assumindo necessidades empresariais - inclusive no plano financeiro - a grande prioridade de cada seita é aumentar seus quadros. Isto pelo simples fato dos protestantes acreditarem que o aumento ou sucesso numérico de determinada seita implica necessariamente no favor divino...

Adicione-se ao contexto acima descrito o elemento do individualismo, peculiar ao protestantismo. Desde Lutero, tem os protestantes negado o aspecto social, gregário ou comunitário da Redenção Cristã e apresentado uma salvação mágica e individualista ou seja sem mediação de obras éticas, que tenham por objeto o outro. Para os protestantes a salvação não passa pelo próximo ou pelo outro (o que conferiria a ela uma dimensão ética), dando-se em termos de comunhão entre o indivíduo e deus... e em termos invisíveis e espirituais de uma comunidade fantasmagórica (a igreja invisível).

Neste sentido podemos até falar numa luta pela salvação e numa vitória do mais 'bíblico', em famílias, clas, cidades, países, etc eternamente divididos por deus em réprobos e salvos... O fato é que o protestantismo jamais toma consciência social, estabelecendo vínculos espirituais e salvíficos entre todos os seres humanos. Tais laços de solidariedade é algo que não existe no contexto luterânico. Aqui seitas lutam com seitas, homens com homens e homens com anjos num combate generalizado...

Portanto o que importa aqui, ao indivíduo é escapar ele mesmo aos fogos ardentes do inferno sem cogitar em parentes, amigos ou companheiros. Importa furtar-se as chamas e torturas infernais inda que nossos filhos, pais ou amigos nelas caiam... Importa estar a salvo ou ser feliz, em que pese a eterna desgraça daqueles que amamos. Tal a exótica noção de paraíso protestante.

Neste sentido a vida só faz sentido quanto perseguimos uma única meta, a da salvação. Jamais compreendida no sentido Cristão, enquanto salvação da pessoa ou do homem todo ou ainda como verdadeira salvação do mal e do pecado. Aqui a salvação além de ser individual é maniqueísta, enquanto salvação da alma ou do espírito invisível e imortal no além túmulo. O corpo aqui jamais conta. Tampouco implica esta salvação em salvação real e efetiva do mal ou do pecado mas em salvação vicária, posto que o salvo continua sendo sempre um pecador derrotado, magicamente salvo das chamas do inferno, mesmo que venha a pecar sucessivamente... Aqui o arrependimento não significa ruptura ou transformação mas mero ato intelectual. Como se vê é um padrão de salvação precário em todos os sentidos  já por ser individual, meramente espiritual e aparente...

Seja como for, as seitas são extremamente hábeis e eficientes no sentido de comunicar este objetivo aos neófitos, i é de concentrar todos os seus esforços na salvação da alma i é no além túmulo, no outro mundo, no além no paraíso, etc em detrimento deste mundo, com o qual é sempre inútil preocupar-se, dizem eles, acrescentando que o Reino de Deus não é deste mundo, sem jamais se darem ao trabalho de perguntar se o Reino foi trazido a este mundo pelo Verbo que se fez carne ou Emanuel... O Reino, e portanto o objetivo do crente, esta sempre no paraíso o no mundo invisível, tendo por adversário o Diabo ou Demônio, um suposto anjo caído, cujo principal passatempo consiste em aliciar os seres humanos...

O fim de tudo isto é abdicar por completo da realidade do mundo material. A qual é supinamente ignorada pelas seitas salvacionistas e maniqueistas, parte das quais chegaram a reeditar o dogma farisaico do catastrofismo, ora batizado como apocalipticismo, o qual via de regra é precedido pelo dogma não menos espúrio e pessimista da apostasia. Aqui também damos com um conflito fictício entre supostos anjos caídos e a divindade e por uma vitória mágico fetichista tão a gosto dos fanáticos. Nada de concreto, nada de real... Nenhuma luta heroica contra a injustiça, o egoísmo, a maldade, a mentira, etc Apenas ideais quiméricos ou ilusórios.

Destarte o sectarismo protestante abandona o mundo real e abdica de sua transformação para alienar-se e refugiar-se nas nuvens. Inútil dar combate as situações de injustiça se deus punirá os injustos e recompensará oprimidos no além túmulo é tudo quanto sabem dizer. Quanto ao mais conformam-se com todas as situações de miséria, angústia, opressão, escravidão e sofrimento esperando por uma libertação espiritual após a morte, nos céus. Aqui na terra produzem escravos e servos conformados com seus grilhões e os quais recusam-se a lutar e a combater pela própria libertação.

Toda esperança é transportada para o além túmulo ou retirada deste mundo, no qual consolidam-se as situações de opressão, segundo a mentalidade do tal capeta, o qual para não poucos sectários é o senhor e deus que controla este mundo. Libertação verdadeira, repetem eles, só a de deus após a morte. 

Devemos portanto esperar que tais pessoas ou seus líderes contestem as situações de miséria ou de opressão aqui existentes?

Tolo seria quem esperasse por isto.

Face a realidade iniqua do mundo é o sectarismo protestante conformista ou situacionista por definição. Não menos do que o positivismo, com seu ideal meramente descritivo face a realidade, o protestantismo jamais se rebela contra aquilo que é, bem podendo conviver em paz com o racismo, com o odinismo, com o capitalismo e com o imperialismo; quando não se presta para alimentar tais ideologias.

Por isso o capitalismo empenha seus cobres nas missões protestantes, porque sabe ser o protestantismo uma fé omissa e covarde, alienada ou conformada que não costuma afrontar uma realidade social iniqua pugnando pela justiça e por um ideário de libertação integral para o homem. O capitalismo investe no protestantismo porque não o teme e porque sabe nada recear da parte dele.