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terça-feira, 23 de janeiro de 2018

O ateísmo, o agnosticismo, a Kalokagatia e a morte da estética III - O sentido e as aspirações frustradas

"A existência sem a música seria um equívoco." Nietzsche 



Ao tecer suas considerações sobre o 'ateísmo' militante ou proselitista o sensato John Gray - e não o bispo Fulton Scheen (mas bem poderia ter sido ele) - publicou um fragmento bastante curto mas nem por isso pouco extenso e profundo, pelo contrário seu significado é vasto, então 'Verbi gratia':

"A crença no progresso é uma relíquia da concepção Cristã da Historia... Um ateísmo intelectualmente vigoroso começaria por questiona-la." 2011 p 332

E por ser completo ou mostrar fundamento, remete-nos a leitura de uma obra tão clássica quanto insuspeita ( Seu autor é um irreligioso confesso. ), a "Towards the ligth..." de Grayling.

Por coerência meus amigos ateus deveriam principiar abraçando a única opção que parece estar de acordo com sua ideologia - O nihilismo. Por via de escolástica ou de coerência lógica o ateísmo conduz necessariamente ao nihilismo, ou a abdicação de qualquer sentido ou direção quanto a existência humana. Claro que nossos antagonistas sempre poderão dizer, com os anarquistas, que a lógica, a coerência, a racionalidade... são formas de controle ou de dominação rsrsrsrsrsrsrs de autoritarismo enfim. Começaram tentando demonstrar racionalmente que Deus inexiste, e agora refugiam-se na palhoça do irracionalismo...

No entanto se usam de argumentação racional com o objetivo de demonstrar que não existe deus algum - e é evidente que me refiro ao Deus dos filósofos e não ao Deus da fé ou da Revelação.  - por que raios não levam essa argumentação adiante? Por que abandonam-na no meio do caminho? Por que não fazem o trajeto em sua completude?

Simples - Porque sem uma mente ordenadora, um ente organizador, um legislador supremo, uma consciência transcendente em comunhão com a Imanência, não podemos falar em qualquer sentido, direção ou tendência histórica. Toda direção supõem necessariamente um objetivo a ser alcançado e este um plano. Mas como pode haver plano sem que haja Planejador, mente ou consciência???

Concordamos com os cientificistas, ateus, materialistas, etc Não se pode discutir e menos ainda impor o 'Design inteligente' em aulas de Biologia. Teoricamente as aulas de Biologia deveriam contentar-se com os 'fatos' em sua simplicidade. No entanto, se assim o é, por que raios o Biólogo Dawkins e tantos outros teem o direito de negar o sentido e portanto de fazer metafísica ateística em nome da Biologia e da ciência??? Eis a contradição... Pois há centos de Professores de Biologia vendendo metafísica ateística em nome da ciência em nossas salas de aula. Não deveriam interpretar ou especular em torno do fado evolutivo, mas o fazem e sem maiores cerimônias! Raramente nos deparamos com aulas verdadeiramente científicas, factuais e portanto agnósticas.... No entanto apenas a metafísica teísta tem levado a carga, não a de Mr Dawkins e seus companheiros, apóstolos do ateísmo.

Tudo bem removamos o design inteligente do campo da Metafísica e substitua-mo-lo pela nova moda, do Caos. Diante disto poderemos falar em tendência, direção ou sentido??? Certamente que não. Mas é díficil encarar a Evolução das espécies e a manifestação da auto consciência, da razão, da liberdade e da Ética sem dar com a tendência. Basta pensar, refletir, ponderar... por alguns instantes. Daí - Fuga pelo irracionalismo. Pera lá, mas não somos nós que até agora argumentávamos racionalmente contra a existência de Deus??? No entanto quando chegamos a contemplação do fenômeno humano em sua especificidade e o trajeto porque chegamos até aqui, fica difícil ignorar a questão do sentido.

A maior parte dos neo ateus no entanto teimam, obstinadamente, em apresentar a velha fé redentora assumida pelo positivismo e portanto transplantada da religião, alias Cristã, aos domínios da natura... E atribuem essa redenção, sob o nome de progresso, a ciência. O credo de Dawkins, Dennet, Hitchens, Amis, Pulmann e outros tantos apóstolos do neo ateísmo continua sendo o Progresso técnico oferecido pela divina ciência. Progresso diante do qual tecem as mais absurdas, desmioladas e idealistas conjecturas... a ponto de imaginarem-se compondo poemas Épicos, sinfonias e mesmo santuários a nova divindade Redentora que conduzirá a humanidade num paraíso, ou melhor que converterá nossa terra num paraíso de esplendor... O 'Hino' é cristão, mas a ideologia comum, ao Cristianismo e ao neo ateísmo com seu legado positivista totalmente ultrapassado...

De nossa parte o quanto fazemos é perguntar-nos sobre o pôrque dos ateístas não terem lançado as favas esse resíduo secularizado da fé e de uma fé redentora? Temos que questiona-los e de perguntar-lher sobre o pôrque de não terem canonizado o nihilismo e negado o sentido da existência. Possível é duvidar, questionar, silenciar... embora seja já doloroso. Agora concluir pela total falta de sentido ou pelo absurdo da existência, e, enfim, pela malignidade essencial da razão até aborrecer a auto consciência de si mesmo parece ser para poucos, muito poucos. Demandando alias a elaboração de um discurso eficaz destinado a impedir que homens convertam-se em lemingues. Camus teve de elaborar tal discurso para que o suicídio não se converter-se em epidemia. E no entanto os países agnósticos ou materialistas - que contam com o maior número de ateus, embora eles jamais constituam a maioria! - nos quais a sociedade atingiu os melhores índices em termos de condição humana, são os que apresentam os maiores índices de suicídio e isto a ponto de preocupar as autoridades.

Dir-se-a que em tais países as pessoas dão cabo da própria vida porque enfrentam uma condição de miserabilidade extrema. Em se tratando da Suécia, da Dinamarca, da Finlândia, da Noruega, da Holanda, etc a pressuposição acima é absurda, pois o estado de bem estar social cuida de todos. Então por que se matam? Afetando sabença, os apóstolos do ateísmo, apelarão certamente ao clima - Falta de luz solar, sombras, nuvens, frio... A explicação até parece boa, mas temos que considerar que a epidemia de suicídios é recente, tendo acompanhado a ascensão da irreligiosidade. Já o clima, como qualquer um sabe, é elemento constante, cujo 'tom' remonta há milênios...Diante disto qualquer um de nós pode perceber o tamanho da falácia. O clima não explica absolutamente nada... pois não sofreu qualquer alteração sensível no tempo presente.

Claro que a questão não sendo social - Já parou para pensar que nas favelas do Brasil ou nas 'Vilas' da América latina a taxa de suicídios é bem menos do que nos países acima citados? - conduz-nos a uma questão muito pouco agradável a nossos amigos ateus que é a questão existencial, i é, a questão já alardeada em torno do sentido da existência. Essa questão foi proposta inúmeras vezes sob diversas formas e temos as versões de - Marco Aurélio, Agostinho, Pascal e Kierkegaard, dentre outros...

Claro que há ateus valorosos. Os quais apresentando o fenômeno humano como um golpe de sorte ou um acidente provocado pelos átomos que giram eternamente (Hume), declaram não haver sentido ou finalidade alguma. E não podem fugir a conclusão segundo a qual a consciência de si, que pela negação do sentido implica frustração, equivale a uma aberração, enquanto que a razão chega a ser comparada a um verme que nos corrói por dentro e nos incomoda, e nos martiriza com essa busca utópica pelo sentido. Sentido, objetivo, direção, finalidade, tendência que nos remete sempre a um Deus.

Assim o tributo pago ao ateísmo, jamais poderia ter sido barato, e foi o nihilismo.

O que questiono aqui é a leviandade dos neo ateus que não estão dispostos a pagar o preço estipulado e que continuam a enganar a pobre humanidade a partir de uma fé seculariza e a anunciar, não menos que Karl Marx, que a ciência e a técnica nos abrirão as portas do paraíso na terra. Sendo assim comecem a pinta-lo e a publicar revistinhas como as testemunhas de jeová! De fato, sua ciência tecnicista até poderia (o fato é que não pode), eliminar todos os sofrimentos que o homem impoẽm ao outro homem (isto é tarefa precípua da Ética. Ética que o positivismo sempre negou). No entanto como declara Tasso da Silveira, jamais poderia eliminar a consciência de nossa finitude face a vastidão imensa do universo. Jamais poderia eliminar o drama existencial que nos persegue onde quer que estejamos.

Fato é que os ateus não são capazes de eliminar este drama cósmico e tampouco a busca do homem pelo sentido da existência em que foi lançado. Remetemos mais uma vez o amigo leitor a John Gray - "A religião não foi embora. Reprimi-la é como reprimir o sexo. Tentativa fadada ao fracasso." p 335. A bem da verdade, mesmo aqueles que não creem, continua o mesmo Gray - inspirado por um senso de realidade muito superior ao de S Freud - o que deveríamos tentar fazer é investigar quais sejam as formas menos evasivas e mais evoluídas em termos de religião, para tentar educar e moldar este impulso da melhor maneira possível. Comunicar-lhe formas mais amenas e humanas, deveria a ser a meta de todos nós, inclusive dos ateus mais inteligentes, que dispensam a existência de um Nous ou de uma revelação. Deixar tal impulso entregue a si mesmo ou descurado, implica uma total falta de responsabilidade pela qual pagaremos muito caro. Mas os ateus continuam adotando padrões irracionalistas - Combatem como Dawkins, as fés mais evoluídas - Que tendo assimilado algum elemento racional aspiram compor-se com a ciência e promover o homem - e apoiam, ao menos indiretamente as religiões atrasadas e rudimentares, declarando que as religiões devem ser necessariamente fundamentalistas e fanáticas. Em certo sentido odeiam mais ao espiritismo, aos catolicismos e ao budismo do que ao islã e ao pentecostalismo, os quais de modo algum temem.

Por que teci tantas conjecturas de o tema deste artigo é a estética ou a beleza?

Um amigo a quem muito prezo, alegou que há algumas almas fortes que apegam-se a religião tradicional devido a questão da estética, da beleza, da arte, etc Mas me parece que ele não consegue penetrar o porque desta petição estética ou deslinda-la, talvez porque creia, não o sei, que a beleza, ou seja relativa nos termos de um Kant e dos modernistas, ou seja supérflua.

É a questão que tentei responder neste três artigos, chegando a conclusão.

Na hipótese da escolástica ateística do nihilismo ou na total falta de sentido quanto a existência não nos deveríamos preocupar nem com a Beleza, nem com a Bondade... Bastar-nos-iam a verdade isolada. Feia ou isenta de beleza. Existiria apenas uma verdade dura e uma dura verdade, beleza e bondade seriam utopias ou ideias relativos construídos pelo homem em sua prisão ou cubículo universal. Temos uma ideal e uma fome de beleza, mas ela não existe fora de nós ou sequer existem em si mesma. Diga-se o mesmo da bondade...

Há muito que os ateus sacrificaram á estética, ignoro sérias reflexões em termos de estética feitas por ateus. No mais do mais contentam-se com as opiniões já expostas de Kant... A Ética foi oficialmente abandonada pelos próprios positivistas e todas as tentativas de produzir-se uma Ética - E ME REFIRO É CLARO A UMA ÉTICA HUMANISTA QUE PROTEJA E PROMOVA O SER HUMANO - em termos de biologismo evolucionista (Spencer - Darwinismo social e Kropotkin) ou de pragmatismo tem sido desastrosas, jamais atingido o fim a que se propuseram. Ateísmo e materialismo não tem sido bem sucedidos no sentido de produzir uma ética eficaz... Gray com absoluta razão refere-se a essas falhas terríveis, sobre as quais ateu algum gosta de refletir, em termos de Nazismo e Comunismo, e bem poderia adicionar o formalismo jurídico de Kelsen. Além disto tem o ateísmo em sua quase que totalidade tem pactuado com o liberalismo econômico ou Capitalismo que é outra cultura de morte e matriz das demais culturas de morte.

Já quanto a produção estética ainda não chegou o dia em que gênios ou ateus inspirados haverão de compor os magníficos dramas, loas, sinfonias, poemas épicos, catedrais, conjuntos esculturais, etc em homenagem a ciência. O ateísmo tem sido estéril em termos de produção artística, exceto quando ateus fazem petição a fontes de inspiração religiosas ou mesmo cristãs... Pior, quando produzem alguma arte é sempre a prostituída arte de Kant, psicologista, subjetivista, anárquica e sem regras... Fruto se sonhos caóticos e pesadelos tenebrosos. Coisa que qualquer moleque de dois anos bem podia fazer rabiscando sobre uma folha ou mesmo, acreditem, cagando! No setor do modernismo talvez encontremos os gênios do ateísmo, ineptos para traçar a perspectiva de um desenho, para misturar as cores com delicadeza, para fazer arranjos, para obter rimas preciosas, etc, etc, etc Claro que se não há regras ou normas objetivamente fixadas para a confecção da obra de arte, a avaliação de que é objeto só poder arbitrária, em termos de um 'gosto' sem qualquer justificativa plausível.

Bem o que eu quis e quero dizer que a busca pelo sentido, tal como fora compreendida pelos antigos gregos, compreende não apenas a verdade... pois a verdade sempre poderia ser 'Não ha verdade alguma' rsrsrsrsrs ou 'Não há sentido'. A verdade para esgotar plenamente o sentido da existência deve estar necessariamente acompanhada pela bondade e pela beleza. A bondade e a verdade devem ser belas. A beleza e a bondade devem ser verdadeiras e a verdade e a beleza devem ser boas. Assim se manifesta plenamente o sentido da vida que todos buscamos. O Bom, o belo e o verdadeiro foram uma Unidade inseparável ou uma Trindade ideal no dizer de Flaubert. Até podemos substituir a religiosidade pela contemplação estética a maneira de Gautier, o que não podemos fazer é substituir a contemplação estética por qualquer outra coisa sem mutilar-nos a nós mesmos. A dimensão estética da vida faz parte de nossa integralidade e, se a religião busca satisfaze-la e o ateísmo não - mostrando-se insensível - a questão esta revolvida - O ateísmo é bisonho por reduzir a dimensão da existência a uma verdade gélida e fria...

"Deus não existe." declara o ateu. Ótimo em que isto nos tornará melhores e como produzirá beleza??? Ah não estamos em posse de padrões essencialistas que nos tornem melhores em sentido unívoco pois a Bondade é relativa e o homem seu supremo critério (Excelente, então deixemos o torturados torturar e o estuprador estuprar e cessemos hipocritamente de condenar Hitler, Stalin ou Bush fundamentados em nossas opiniões individuais! ). Já quanto e beleza, podemos bem passar sem ela???

Mas eu sinto uma necessidade intrínseca pela beleza ou uma demanda pela estética e pela arte que o ateísmo jamais satisfez ou satisfaz e por isso julgo-o inadequado e suas dissertações em torno de uma verdade estéril, irrelevantes. Minha sensibilidade estética opõem-se ao ateísmo por ser improdutivo... Essa busca por um a beleza ideal é que conduz-me a um Fídias, a um Praxisteles, e um Polignoto, a um Parrásio, a um Tirtaeus, a um Terpandro, a um Homero, a um Sófocles, a um Ésquilo, a um Eurípedes, a um Vírgilio, a um Estácio, a um Dante, a um Camões, a um Cervantes, a um Tasso, a um Milton, a um La Fontaine, a um Shakespeare, a um Moliére, a um Bach, a um Mozart, a um Bethoveen, a um Dellacroix, a um Millet, a um Schaeffer, a um G Doré, a um Calixto, a um Pedro Américo, a um Meirelles, a um Bilac, a um Raimundo de Menezes, a um Martins Pena, a uma Anna Pavlovna, a um Nijinsky, a um Ray Conniff, etc Nenhum dos quais era ateu ou inspirou-se no ateísmo. Muito pela contrário a maior parte destes homens que buscaram saciar a sede estética de seus companheiros e que se esforçaram para tornar este recanto um pouco mais belo eram em sua quase que totalidade Cristãos e mais Católicos! Recomendo a leitura de 'O gênio do Cristianismo' de Chateaubriand. As almas insensíveis, superficiais e vulgares não compreenderão esta obra magnífica - Teve gente da igreja que não pode compreende-la (Os agostinianos é claro) - Sócrates, Platão, Aristóteles, Parmenides, Anaxágoras, Xenofanes, etc compreende-la-iam...

E as arrevezadinhas demonstrações ateísticas de Onfray ouso opor apenas as Catedrais francesas, alemãs, italianas e inglesas... ou o Partenon, mas falar no Partenon seria pura covardia. Esperemos enfim que os apóstolos do neo ateísmo possam o quanto antes brindar-nos com um Partenon ou com um Taj Mahal...

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

O ateísmo, o agnosticismo, a Kalokagatia e a morte da estética II

Continuação


"A beleza salvará o mundo" Dostoeffsky




Após Baumgarten ter retomado o tema da estética, foi Kant que pela primeira vez propôs sua revisão ou releitura à la 'Germânica' quero dizer, a moda alemã.

Não foi sem razão que I kant foi descrito por alguém como sendo o 'Copérnico' da Filosofia.

E já veremos que se trata de um Copérnico as avessas ou invertido. Afinal Copérnico avançou da terra ao Sol, desbancando o geocentrismo, o qual em última análise era apenas disfarce com que se ocultava o nosso insopitável antropocentrismo. Queríamos ser o centro das atenções. Queríamos que nossa terra constitui-se o centro do universo. O diácono polonês deslocou o centro do sistema para o astro rei, merecendo inclusive  os insultos de Martinho Lutero.

Non Kant...

Kant fez o percurso oposto no campo da Filosofia, ou melhor da epistemologia, colocando o homem ou sua vontade no lugar do Objeto ou da coisa, enquanto centro do processo cognitivo. O qual fica sendo precipuamente psicológico, subjetivo ou voluntarista, não sensorial, não racional e tampouco conceitual como supunham os helênicos em sua maior parte.

É verdade que parte dos críticos Católicos tendem a espinafrar com o francês Descartes e com o inglês F Bacon, buscando responsabilizados pela balburdia subsequente e futuro descrédito da Filosofia. Assim o Pe Leonel Franca, em seu curso de Filosofia editado pela Agir, assim Tasso da Silveira em diversas de suas obras de crítica literária.

Tampouco os Católicos, assim Jacques Maritain, no Humanismo integral e um Ortodoxo, Berdiaeff na Nova Idade Média abstiveram-se de assestar suas baterias contra o Renascimento. Afinal como poderia um agostiniano ou alguém influenciado pelo agostinianismo ou por qualquer tipo de antropologia negativa ou pessimista compreender o Renascimento, o dealbar do espírito científico ou mesmo a doutrina social da Igreja???

A respeito de Bacon e Descartes, tudo quanto tentaram dizer a seus contemporâneos é que a ciência empírica não podia sair da Metafísica. Não se tratou aqui de negar radicalmente a Filosofia, a especulação ou a razão e a formulação de conceitos; mas de criar-se um nicho específico para a ciência e de fornecer-lhe um aparato metodológico próprio assim a dúvida metódica, Descartes e Bacon jamais postularam a dúvida  metafísica ou invencível de Pirro, Timon, Carneádes, Enesidemo, Montaigne ou Hume. Mas dúvida construtiva e provisória no campo da ciência.

Grosso modo Descartes limita-se a tomar Agostinho quando elabora uma metafísica imanente a partir do eu e portanto psicologista, sem no entanto negar o valor da antiga. O 'Penso logo existo' e portanto a consciência de si como ponto de partida para a demonstração do mundo externo e de Deus já se encontra presente na obra de Agostinho e temos de admitir que é uma abordagem válida. Ademais Descartes desenvolve-a sempre segundo os princípios da razão - assim suas Meditações sobre a existência de Deus - jamais contestando os princípios da lógica formal (como o de contradição) ou pondo em dúvida as conclusões sacadas as premissas.Toda esta argumentação é escolástica ou metafísica e tradicional.

E Hume? Hume é uma reedição inglesa e tanto mais sofisticada de Pirro ou melhor de Enesidemo. Por Victor Brochard somos informados que quase tudo dele já estava lá, presente em Arcesilau, Carneádes, Enesidemo...

E Kant?

Kant não.

Kant faz uma metafísica cerrada em torno do irracionalismo e tenta demonstrar racionalmente a incapacidade da razão, ao menos para metafisicar.

É verdade que ele reconhece que nossa ciência é válida quando descreve fenômenos, sabendo que os fenômenos não passam de aparência. A ciência não toca a realidade íntima das coisas. Nada toca.... Ficamos conhecendo aquilo que ao menos em parte elaboramos uma vez que a realidade externa do ser é em parte ao menos elaborada por nossos sentidos ou por categorias impressas por nós. Fabricamos, ao menos em parte, a realidade externa do mundo. Nossos sentidos não nos informam sobre a coisa ou o objeto, alteram-nos, transtornam-no e portanto enganam-nos... O quanto podemos dizer sobre a ciência é que por vezes funciona e não que nos informa fielmente sobre o ser, o ser fica sempre oculto, misterioso e intangível.

Julgamos ter diante de nós um objeto externo que é o universo, mas temos apenas uma ideia ou uma elaboração da nossa vontade. Eis o sr voluntarismo ou idealismo, filho do psicologismo crasso ou da epistemologia subjetiva e antropocêntrica responsável pelo deslocamento do processo cognitivo do objeto ou da coisa conhecida para o elemento cognoscente. Foi de fato uma Revolução, uma Revolução germânica, uma Revolução individualista, filha legítima da Reforma protestante. Uma contra Revolução caso tomemos por parâmetros a escolástica ou a Filosofia clássica. As raízes de tudo isto remontam é claro a Agostinho, passam pelo sunitas Achari e Gazalli, confluem para Ockan e os franciscanos e chegam a Lutero, o qual toma Aristóteles por seu supremo inimigo após o papa romano e a racionalidade por uma prostituta louca. Afinal não fora este homem transtornado pelo pecado original? A ponto de assemelhar-se a um pedaço de pedra ou de madeira...

No entanto como se sustentarão a ética e a estética sem uma epistemologia objetiva ou realista que lhes sirva de suporte? Não se sustentarão. Pois o kantismo ou criticismo e o positivismo lançarão dúvidas cada vez mais sérias sobre tudo quanto não seja absolutamente empírico.

É sempre a aplicação dos mesmos princípios e reedição da mesma teoria irracionalista. A fonte da sensação estética nada tem a ver com a contemplação racional de formas definidas conforme determinado cânone estético. É subjetiva, irracional e portanto arbitrária. A fruição da beleza estética é puramente subjetiva ou melhor solipsista. Sou eu que julga algo belo ou feio com critérios psicológicos válidos apenas para mim. Resta nos perguntar por que a rebelião modernista demorou tanto tempo para ocorrer? Se as portas já estão abertas para o dionisíaco de Nietzsche i é para as emoções, os impulsos, os instintos, os desejos... enfim para tudo quanto seja psicológico ou oposto a razão, até que a uniformidade racional seja comparada a uma tentativa de controle ou a uma espécie de autoritarismo. Pois esta arte puramente psicologista não conhece quaisquer regras.

O mundo a ser reproduzido aqui não é mais o mundo externo reduzido a hipotéticas formas puras, mas o mundo interno da mente, do inconsciente, da fantasia, da imaginação desbragada, do sonho ou mesmo do pesadelo, onde cada um reformula a realidade externa e é regra absoluta para si mesma. Este mundo interno que a razão pretende controlar é emancipado por Kant, ao menos no terreno da arte e da estética. E nada mais existe de absoluto neste terreno, o feio e o belo são eternos relativos.

A pouco nos perguntamos sobre que evento teria impedido ou evitado um desabrochar do modernismo logo após Kant? Por que tivemos de esperar até Nietzsche? Por que a perspectiva, a rima e os arranjos não tombaram de imediato e saíram logo de cena ao cabo do século décimo nono?

Aqui, paradoxalmente, o positivismo recusou-se a seguir Kant ou a acata-lo. Mas como se deu isto? Aqui a estética foi mais feliz do que a Ética, pois esta carecia mais do que aquela de um fundamento superior ou invisível. E esses mesmos sequazes de Comte, que liderados por Litreé repudiam a ética essencialista e toda ética, apresentando-a como absolutamente relativa ou cultural, recusam-se a privar-se da beleza em sua expressão clássica definida, e sentem necessidade dela. Eles simplesmente tomam os cânones estéticos da civilização clássica e afirmam sua objetividade em termos universais, sem no entanto levar em consideração os fundamentos metafísicos desta elaboração clássica levada a cabo por Platão e Aristóteles. É como uma cabeça separada de um corpo ou um castelo desprovido de seus fundamentos, a estética  neo clássica dos positivistas tem sua base no ar ou no nada, e por isso tomba miseravelmente ao primeiro sopro da rebelião modernista com seu ideário psicologista.

E pensar que esses positivistas, cientificistas, ateus, agnósticos, materialistas... ergueram magníficos templos a 'religião da humanidade' nos mesmos moldes que os antigos templos pagãos e que as igrejas Católicas. E que elaboraram um ritual secularizado com que substituir as cerimônias pagãs ou a missa... Eles assumiram um aparato estético e não o fizeram a toa... Sabiam o que estavam fazendo. Embora o positivismo fosse um programa quase que completo - pelo simples fato de negar a dimensão ética da existência - tinha sérios defeitos estruturais e por isso veio a tombar após um efêmero esplendor.

Fora das velhas igrejas, ora convertidas em baluartes do quanto havia de clássico sobre a face da terra, o modernismo campeou triunfante. Em poucas gerações nosso homem fatigou-se da feiura oferecida e chegou a crer, e ainda cre, que a estética ou a contemplação da beleza é algo supérfluo ou dispensável. Cem ou quarenta mil anos após a elaboração das primeiras obras de arte no recôndito das florestas ou das cavernas, homens há que tem feito o caminho oposto. E eles até se vangloriam de estar em posse de altas Verdades, desvinculadas da ética e da estética, perdendo de vista o ideal da kalokagatia.

No próximo capítulo diremos o que pensamentos a respeito de tais ideologias, porque nos frustram e que esperávamos delas.

Continua -

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

O ateísmo, o agnosticismo, a Kalokagathia e a morte da Estética I


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 "Só é realmente belo o que não serve para nada. Tudo quanto é útil contém certa de fealdade." Theóphile Gautier


É a palavra Aesthetica/estética, que remete ao grego aesthesis (sensação), de origem germânica tendo sido concebida por A G Baumgarten em meados do século XVIII. Querendo designar a sensação relacionada com a contemplação/fruição da beleza.

Já a palavra Kalokagathia, era empregada pelos antigos gregos com o objetivo de expressar seu amor pelo quanto fosse Bom e Belo, naturalmente que o Bom e o Belo deviam ser Verdadeiros. Assim por extensão este vocábulo servia para designar um ideal de Bondade, Beleza e Verdade cultivados pela cultura helênica. Tal o tripé sob o qual repousavam todas as demais virtudes encomiadas pelo divino Sócrates e seu Pupilo Platão. Para nossos nobres e excelentes ancestrais o Bom, o Belo e o Verdadeiro eram como expressões da mesma perfeição divina. Compunham uma unidade que não podia ser fragmentada e que era expressa pela Ética, a Lógica e Estética.

Segundo Platão o ideal mais puro de beleza estaria relacionado com os tipos ideais ou isentos de acidentes, presentes na dimensão das ideias e não com os seres reais a que chamava de cópias. Toda cópia é imperfeita e imperfeita devido aos acidentes que produzem as variações. Neste nosso mundo há diversos tipos, no mundo ideal um tipo apenas. Temos então de remover os acidentes do ser concreto para atingir o ser ideal, e mesmo assim a tarefa não era muito fácil. Seja como for os gregos perseguiram-na...

Não se contentavam com a posse de verdades ou com o verdadeiro apenas e nem podiam conceber uma verdade que fosse feia ou isenta de beleza. Examinaram a si mesmo, olharam para dentro de suas almas e nelas descobriram uma sede perene de beleza. O Resultado disto foi o templo de Diana Efesina, o Partenon, o Fórum romano, o Maiseon Carré... A Vitória de Samotrakia, a Vênus de Melos, a Amazona ferida, o discóbulo, o Apolo Apoximenos e todo um novo mundo de bronze e mármore que revestiu a Hélade.

A música de Tirtaeus e Terpandrous, o estro de Homero, as Odes de Píndaro, as peças de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes; o dealbar de uma nova era!

Aristóteles sempre mais realista e prosaico que seu mestre, determinou estabelecer algumas normas ou regras concretas com relação a realidade da Beleza neste mundo, buscando objetiva-la.  E estabeleceu os critérios da Simetria, da Composição, Ordenação, Proposição e enfim do Equilíbrio. Logrando expressar aquilo que se achava não apenas no interior dos antigos gregos mas de todo ser humano, de toda criatura racional. Pois tudo isto está cheio de racionalidade.

Lamentavelmente após o declínio de Roma assomaram os bárbaros, primeiro ao Ocidente e em seguida aos Oriente, estes capitaneados por Mafoma.

Os belos templos em que a beleza era glorificada tornaram-se pastos das chamas. O Fórum juncou-se de ruínas. As telas e painéis converteram-se em cinzas. A glória de Zeuxis e Polignoto foi aniquilada, os bronzes derretidos e as delicadas estátuas de mármore partidas em pedaços com exceção de algumas poucas. Pois como diz Keneth Clark o homem primitivo, bárbaro e grosseiro em sua rudilidade não podendo dar com o sentido do Belo ou sentindo-se frustrado por não poder produzi-lo sente-se inquieto e incomodado diante dele. A beleza exaspera-o, porque reflete um ideal que como disse Platão, está além deste mundo das concretudes, o único mundo conhecido e amado pelo homem simples. Daí ele atirar-se sobre a obra de arte com um furor iconoclástico e com o objetivo de destruí-la.

Dominado por uma ideia elevada a respeito do bem e por certa noção vigorosa de verdade teve o homem Cristão que aproximar-se da beleza ideal ou da estética as apalpeladas, pois estava a princípio dominado pelos preconceitos da cultura judaica ou sêmita com seu eterno desprezo pela Imanência e consequentemente pelas artes plásticas, as quais jamais soube produzir em larga escala e com competência.

Judaísmo e islamismo, enquanto epifenômenos da cultura semítica mutilaram criminosamente a natureza divina, oferecendo a humanidade supostas verdades dissociadas da Beleza. Temeram que a beleza do mundo pudesse ser representada e por fim reverenciada pelos homens ignorando que a Beleza presente no universo e transplantada as obras de arte é atributo do ser divino. Nem podiam tais crenças insistir a respeito da Beleza presente numa Transcendência absoluta, incorpórea e separada do mundo que produziu. A própria divindade acabou sendo despojada da Beleza. É algo que jao ou ala não contém...

Tristemente o Cristianismo herdou tal vezo do judaísmo... Felizmente, devido ao dogma da Encarnação, que é um sinal da Imanência, não tardou a supera-lo e em 787 desta Era, o Concílio Geral, reunido mais uma vez em Nikaia, sancionou a tradição multi secular (A igreja com afrescos de Dura Europos - 240 desta Era é testemunha preciosa quanto a esta tradição bem como as Catacumbas romanas) do culto as imagens, especialmente das pinturas. Desde então as perspectivas da arte Cristã, em termos de pintura e de alguma escultura, tornaram-se ainda mais sólidas, amplas e profundas e a arte desenvolveu-se mais uma vez. Se bem que a puridade dos princípios estéticos greco romanos se houvesse perdido durante a grande calamidade.

O Renascimento artístico ocidental foi uma tentativa mais ou menos feliz de retomar esse ideal. Formalmente foi bastante feliz pois as obras produzidas por seus mestres são formalmente impecáveis e perfeitas, deliciando os olhos de toda gente sensível. No entanto, separado da tradição bizantina, perdeu seus fundamentos históricos ou concretos, mergulhando num mundo de imaginação e fantasia e laborando em monstruosos anacronismos com seus apóstolos e profetas, e soldados romanos trajados segundo a moda do tempo, i é das Idades média e/ou moderna.

Grosso modo a estética em sua puridade formal e a História só vieram a encontrar-se ao tempo do romantismo (chega a ser paradoxal) pelos fins do décimo oitavo século e ao cabo de praticamente todo século décimo nono, embora ao fim deste século já se prenunciasse o 'modernismo'. Foi um interregno bastante curto o do neo classicismo, perdurando por um século apenas, mas um século deslumbrante. Pois trata-se do século de 'La madaleine' de Paris... Quadra em que a Ortodoxia, o anglicanismo e o papismo recobriram mais uma vez a velha Europa com escrínios de mármore e estátuas de bronze agora dedicados a figuras de carne e osso, como Jesus Cristo, sua piedosa mãe, seus apóstolos, os mártires dos primeiros séculos, etc e tudo isto em meio a todo um simbolismo recuperado i é tomado ao paganismo antigo. Isto sem mencionarmos os painéis ou quadros, como os de Ary Scheffer, além é claro de Delacroix, Millet, tão entusiasticamente elogiado por Van Gogh em suas Cartas a Théo, Blake e Kramskoi. No entanto foi apenas um segundo renascimento, e nem neste nem no primeiro foram os fundamentos metafísicos desta produção recuperados. O espírito grego jamais foi completamente reassumido pelos Cristãos, e por um motivo bastante claro - Ali estava Agostinho com sua doutrina de degradação total da natureza, ali está a doutrina da existência pessoal de um Diabo, ali está a doutrina das penas eternas do inferno com seus tormentos tão sádicos quanto mitológicos. Há ali feiura e feiura eternizada. Então eles não podiam aplicar os canones clássicos a essa arte com fidelidade absoluta!

continua

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Porque sou metafísico...


Embora não tenha nada contra os ateus, especialmente aqueles que são oriundos de outro universo cultural ou conversos ao ateísmo, não partilho deste ponto de vista e já digo porque.

Impossível dissociar os diversos aspectos da realidade, que é orgânica ou integrada. Não podemos simplesmente declarar-nos ateus ou materialistas em metafísica ou teodiceia sem partir de pressupostos epistemológicos e tirar consequências no campo da Ética. Ora eu julgo tanto os tais pressupostos epistemológicos quanto as ilações Éticas como sumamente discutíveis senão problemáticas.

Como educador eu me preocupo antes de tudo com o problema do conhecimento humano i é com epistemologia e gnoseologia, em segundo lugar com o comportamento humano ou com a Ética. Certamente o tema de Deus vem em terceiro lugar, mas não o vejo desvinculado das questões principais e quanto penso em Filosofia penso num sistema orgânico, 'sistemático' rsrsrsrs, coerente e que tenha sentido. Minha perspectiva ou ponto de vista nada tem de pós moderno.

Fosse cético - Episteme - como Pirro, Timon ou Enesidemo e Hume enfim; ficaria em absoluto silêncio nada declinando sobre tais assuntos (cf Victor Brochard 'Céticos gregos'). Não poderia duvidar dos primeiros princípios e tecer juízos no campo da Filosofia.

Fosse empirista crasso ou meio cético como Kant ou Comte adotaria a solução de Huxley que é o agnosticismo, o qual afirma-se como inepto para decidir-se a respeito do tema da existência ou da inexistência de Deus a partir da experiencialidade pura e simples. A honestidade e coerência nesta postura. Suspensão de juízo quanto a tudo quanto possa estar além da pura e simples empiria. Nem negação, nem afirmação. Tal a postura de J S Mill e de H Spencer, dentre tantos.

Mas eu, seguindo a tradição humanista e otimista dos antigos gregos - temo que haja algo semelhante a pecado original ou agostinianismo em toda e qualquer epistemologia pessimista ou negativa, que nos remeta a uma antropologia negativa - sou pela validade da razão, da reflexão ou do raciocínio que esteja em íntima conexão com a empiria i é com a experiencialidade e que dela parta. Sou portanto, em matéria de conhecimento, 'dualista' cartesiano ou conceitualista, postulando ser ele um processo que envolve, num primeiro momento, os sentidos, a percepção ou a experiencialidade - e penso nossos sentidos como algo que informa e não como algo que engana ou distorce - e num segundo momento um processo reflexivo comum a todos os homens que produz conceitos; esta operação perceptiva racional capta e descreve objetivamente parte da realidade que nos envolve. Não a cria, descreve (realismo epistemológico).

Evidente que esta concepção tributária de Parmênides, Anaxágoras, Platão e Aristóteles, dentre outros, nos conduz a validade da metafísica, em que pese a metafísica racionalista anti racionalista (sic) do alemão Kant, o qual negou a capacidade natural da razão humana com o objetivo de exaltar a fé cega (fideismo) influenciado como era pela religião Luterana e pela epistemologia negativa e irracionalista luterânica, a qual reporta a Agostinho de Hipona. Kant foi o Filosofia portátil de Lutero e transplantou para o terreno da Filosofia um aspecto pessimista ou negativo de procedência religiosa, seja Luterana ou agostiniana como queiram. Os gregos naturalistas não conhecem qualquer limitação antropológica em termos de aquisição do conhecimento, o próprio Pirro, tomou sua tese ao budismo na ìndia enquanto acompanhava Alexandre. É paradoxal que a epistemologia empregada pelos ateus com o objetivo de remover o tema de Deus da Filosofia para a fé, seja de origem religiosa, o que em termos filosóficos implica contaminação, uma vez que a Filosofia é inteiramente distinta da religião, tomando por veículo a razão. A epistemologia fiel ao naturalismo, clássica não foge ao tema Deus i é a metafísica.

É verdade que Kant também tentou a um tempo corrigir Hume - salvando assim o conhecimento científico atinente aos fenômenos - e a um tempo dialogar com ele. Foi muito mal sucedidos em todos os sentidos e por isso após os delírios positivistas os pós modernos tornaram a Hume, chegando K Popper a reintroduzir sua perspectiva na Filosofia da ciência, resultando disto o triunfo do relativismo, do subjetivismo...

Seja como for, por mera conveniência, parte dos pensadores, apegaram-se a Kant como um Papa e a seus preconceitos anti metafísicos como a um dogma, o que até certo ponto corresponde a lei do menor esforço. Exige a metafísica segura, domínio de inumeros conceitos da mais alta complexidade: Axioma, princípio de identidade, princípio de causalidade, princípio de contradição, categorias, ato, potência, matéria, forma, etc o que exclui da reflexão os menos aptos ou esforçados i é os imbecis. Hoje todos podem discutir e opinar sobre qualquer coisa sem conhecimento de causa, e isto é fruto do irracionalismo reinante. É como a arte moderna, psicologia e sem regras, e sem normas e isenta de racionalidade - daí poesia sem rima e métrica, melodia sem composição e harmônia, pintura sem perspectiva, etc Tudo isto está inter relacionado e ligado ao irracionalismo. Que é a negação da objetividade das formas.

Ora eu me oponho a tudo isto e assumo-me metafísico, aderindo a metafísica teísta, em oposição a ateísta, por parecer-me mais consistente, coerente e conforme os princípios da racionais a que aludi. Cagando e andando para Kant, devo lembrar que seu pupilo Schopenhauer - o qual detestava o grande Hegel - definiu o homem como um ser metafísico que faz metafísica naturalmente, mesmo quando negam-na, como no caso dos ateus que ultrapassam os limites da demarcação empírica, julgando poder saber com certeza, o que segundo Kant, Comte e Huxley, esta para além do acesso dos sentidos e do conhecimento seguro. Mesmo após Schopenhauer diversos pensadores - como Lotze, Hartmann, Brentano, Scheller, etc continuaram a elaborar sistemas metafísicos nada desinteressantes. Foram continuados neste século por - James Jeans, Eddington, Samuel Alexander, Overstreet, Anscombe e sobretudo pelo brilhante A N Whitehead, filio-me a esta corrente cognominada panenteísta. Sou portanto panenteísta.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

O tabu do totem - Uma resposta a S Freud VII > O selvagem, a criança, o neurótico e o voluntarismo

Tendo nos seis artigos precedentes buscado apontar os pontos fracos e portanto discutíveis da obra freudiana 'Totem e tabu' somos levados, por uma questão de justiça, a apontar seus pontos positivos ou melhor seu ponto mais positivo, o qual a nosso ver diz respeito a identidade - Neurótico/primitivo ou selvagem e seu viés idealista/ voluntarista.

"Não nos devemos surpreender ao constatar que o homem primitivo transfere para o mundo exterior a estrutura de sua própria psique." p 122


"Assim a magia revela a intenção de impor aos objetos da realidade exterior as leis da vida psíquica." id ibd
Ao invés de adequar-se a realidade externa e objetiva do mundo, o homem primitivo, sempre que que se acha em conflito com ela, acredita poder altera-la ou controla-la por meio de determinados procedimentos técnicos a que chamamos magia. E, numa fase subsequente através do que chamamos feitiçaria. De um modo ou de outro ele se recusa a adaptar-se, evitando assim a frustração.

Esse homem acredita poder controlar os fenômenos naturais existentes ao redor de si, e nem por isso é considerado demente, louco ou desajustado pelo simples fato de que esta perfeitamente ajustado a cultura de seu grupo, que é uma cultura magico fetichista. Não se torna neurótico este homem, como o homem contemporâneo, pelo simples fato de que seu voluntarismo é coletivamente partilhado. Socialmente integrado ele não põem em dúvida os recursos de que dispõem, e destarte não surta... pois crê, pois tem esperança, pois esta fora da realidade.

É como se a fantasia partilhada ou a neurose partilhada e socialmente sancionada pelo grupo social adquirisse o 'status' de realidade.

Outra não é a condição do nosso neurótico, o qual, apesar do quanto foi constatado por nossa civilização 'científica' em termos de causalidade natural, continua a relacionar suas próprias ações com determinados acontecimentos felizes ou infelizes. Assim há quem chegue a conclusão de que se deixar de lavar as mãos de duas em duas horas fará com que sua mãe morra, como há quem creia que pronunciando determinada palavra ou fazendo tal gesto é capaz de provocar uma acidente e vitimar seu próprio filho... decorrendo de tais crenças a repetição de tal ato ou a iniciativa de evita-lo a qualquer custo e, consequentemente certo grau de desajuste pelo simples fato de que tais crenças não são socialmente partilhadas ou comuns a todos os membros do grupo.

Ao contrário do primitivo, o neurótico - ao menos a nível de consciência - sabe que suas crenças são absurdas, e que esta em oposição face a realidade externa e objetiva do mundo, o que torna sua situação ainda mais desagradável ou aflitiva. Seja como for ele não tem coragem suficiente para desafiar o absurdo... Nosso neurótico sabe estar em oposição ao grupo.

Tanto o selvagem quanto o neurótico estabelecem falsos vínculos entre a realidade externa do mundo e a vontade. Supondo que a realidade externa do mundo deva ceder aos imperativos da vontade.

Aqui a função de gerenciar a vontade ou de administrar sua fruição face aos imperativos da realidade externa não é desempenhada como deveria pelo Ego, de modo que a fantasia cobra elevado tributo...

Passemos agora ao terceiro elemento do triângulo voluntarista.

Por terceiro elemento ou terceira ponta deste triângulo queremos designar a criança. Levi Strauss foi quem chamou atenção para a similaridade existente entre o pensamento selvagem e o pensamento infantil. A dar por exatas as comparações feitas por Freud e Levi Strauss temos de concluir pela similitude entre o comportamento da criança e o comportamento do neurótico. Afinal de contas se A = B e B = C > C = A.

Freud por sinal, levando bastante a sério a 'filosofia ' alemã, tomou o Id por fonte do Ego, o qual desprende-se dele na medida em que ele, percebendo o mundo externo, percebe-se como algo distinto. A vontade ou o querer precede a consciência de si, e consequentemente qualquer tentativa de mediação. A princípio este homem é vontade pura ou melhor trieb - pulsão.

Sem endossar por completo as teses do psicanalista 'vienense' (sic) aqueles que estudaram o fenômeno da cognitividade humana Wallon, Piaget, Winnicot, etc concluíram que a consciência da criança é construída por 'exclusão' na medida em que ela entra em contato com o mundo externo. Por outro lado o padrão de pensamento lógico ou racional, bem como a formação de um construto ético ou moral, só são atingidos pouco depois da puberdade, após um processo tão lento quanto complexo, resultando disto uma situação de 'crise'. Afinal a percepção de uma realidade irredutível a fantasia jamais poderia deixar de ser dolorosa. A criança acalentou sonhos, o adolescente que não seja criado como Buda, conhecerá decepções...

A criança no entanto, segundo sua vontade, da largas a imaginação... Imagina e é levada a imaginar - por via da cultura - uma série de entidades fantasiosas, quais sejam deuses, demônios, heróis, duendes, anjos, fadas, trols, gnomos, monstros, etc aos quais atribui existência real, crendo inclusive que possam atuar neste mundo e produzir os fenômenos que sabemos ser puramente naturais. Para ela nada é mais natural do que o milagre e a realidade uma sucessão de maravilhas. Apenas graças a intervenção dos adultos mais esclarecidos e sobretudo da educação científica e a reflexão filosófica é que ela vai superando este padrão infantil e compreendendo a realidade tal e qual é, ou seja, como algo fora do alcance da imaginação i é como algo incontrolável.

É a fase do papai Noel, do coelhinho da páscoa, da cegonha e de tantas outras quimeras alimentadas pelos adultos inconsequentes. Afinal se a fantasia não deve ser reprimida, tampouco deveria ser alimentada. Apenas encarada com naturalidade e segundo as oportunidades problematizada... Afinal a criança continuara a imaginar outros tantos seres e a relacionar-se com eles, até atingir a fase racional... Assim imaginar faz parte do curso da vida e a criança imaginará, e imaginando reformulará o mundo e criará seu mundo. Não, não podemos adiantar as coisas ou queimar uma fase... seria danoso, quiçá em termos de afetividade. Daí a importância das fábulas com a dimensão ética do 'moral da estória'.

A passagem do padrão voluntarista para o padrão racional deve processar-se da maneira mais simples possível, afinal, como já foi dito implicará sempre numa crise. Aqui reprimir, e adiantar equivaleria exasperar, magoar, frustrar. Concedamos que nossas crianças atinjam a maturidade natural e suavemente, limitando-nos a orienta-las com carinho e compreendendo seu tempo e seu mundo. Assim a fantasia se esgotará... Já quem não pode ser criança a seu tempo tenderá a se-lo por toda vida...

Temos aqui que o neurótico, a criança e o selvagem são infensos a realidade externa e objetiva do mundo, a qual buscam controlar, fazendo com que prevaleça a vontade. Filosoficamente o selvagem, a criança e o neurótico são voluntaristas/idealistas. Sem que no entanto ousem revindicar o título de 'filósofos'. Já a Filosofia alemã é por assim dizer 'filosofia' de neuróticos, selvagens e crianças na medida em que questiona a existência deste mundo externo e objetivo que se opõem tão dramaticamente a nossa vontade e, mais ainda, na medida em que apresenta este mundo externo e objetivo como epifenômeno ou produto de nossa vontade (Fichte, Schelling, Schopenhauer, Nietzsche, Hartmann, etc)...Do mesmo modo como o racionalismo moderno, ignorando por completo a instância da vontade humana e dos sentimentos, tornou-se artificioso até o intelectualismo, o idealismo alemão - irmão gêmeo do romantismo - fez o caminho oposto. Resgatou assim a vontade, negando não apenas a capacidade do intelecto para deslindar o mundo externo, mas - como já assinalamos - a existência do próprio mundo externo, ora concebido como algo que 'é percebido' pelo homem ou como algo que esta em sua mente. Chegamos assim ao extremo do psicologismo e as fronteiras do relativismo, do subjetivismo e do solipsismo crasso; do idealismo enfim.

Resta-nos declarar, a contragosto até, que o pensamento contemporâneo, ou da moda - marcadamente irracionalista, senão emocionalista - acabou por nivelar-se a magia, a feitiçaria, a superstição, a fantasia, a imaginação, a selvageria, ao infantilismo... até precipitar-se nos abismos da neurose. É uma pseudo 'filosofia' neurótica e de neuróticos que recusam-se a reconhecer a realidade do mundo externo - com todas as suas mazelas - e a afronta-lo. Neste sentido é uma 'filosofia' tão cômoda, oportunista, frouxa e leviana quanto o ceticismo antigo; o qual por falta de padrão crítico, assumia o mundo como ele era, ficando com a realidade dada e negando o ideal... Como bem se vê, os extremos se tocam.

Importa assumir a realidade de um mundo 'ingrato' e buscar conhece-lo para poder tentar, em alguma medida, transforma-lo. É somente entrando na realidade do mundo que seremos capazes de muda-lo.

Cessemos pois de 'pensar' como selvagens, neuróticos ou crianças, crendo que a vontade 'por si só' alterará qualquer coisa e passemos a pensar como adultos ou como criaturas emotivas e racionais, as quais esperam - com esforço e dificuldade - conhecer um pouquinho e transformar algo, ou morrer tentando...






quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Fundamentos epistemológicos da crise contemporânea.

Mesmo admitindo, alias com mestre Sócrates,  que a Ética constituiu o primeiro e o mais importante domínio da Filosofia ou do esforço racional, não posso por de lado ou ignorar o domínio explorado por Platão e Aristóteles ou seja a epistemologia. Pois de algum modo ou maneira encontram-se associados.

Consideremos que na medida em que tiver uma epistemologia essencial, objetiva e forte; terei consequentemente uma Ética essencial, objetiva e forte.

Por outro lado, a partir de uma epistemologia cética, relativista ou subjetivista como atingirei uma Ética essencial e forte??? Que não seja sinônimo de opinião individual e consequentemente sempre discutível???

Serão o estupro, a tortura e o assassinato opiniões ou ponto de vista discutíveis???

Assim o genocídio, a opressão religiosa, a injustiça social???

E Nazismo??? Acaso não passará de uma dentre tantas e tantas interpretações igualmente válidas??? Assim o fascismo, o comunismo e todas as culturas de morte???

Se há apenas interpretação então tudo e permitido e se tudo é permitido... Que será do homem?

***

Fingindo que o mundo inexiste ou que não pode ser valida e verdadeiramente conhecido não eliminaremos seus problemas.
Caso um enfermo não reconheça sua própria existência e não aceite a realidade de seu corpo e de sua doença como poderá ser tratado e curado?
A partir de uma epistemologia individualista, subjetivista e relativista não chegaremos a lugar algum.
E seremos sempre incapazes de resistir ao nazismo, ao fascismo, ao comunismo, a teocracia... Jamais superaremos o capitalismo.
E não avançaremos moralmente.
Quando sacrificamos a noção de Verdade e afirmamos que tudo não passa de interpretação ou de opinião nivelamos todas as coisas e sancionamos todos os tipos de comportamento.
As raízes e fundamentos desta crise são epistemológicos.
No entanto a dor, o mal, o crime, o vício, a crueldade, a opressão, a negação do outro são fatos ou fenômenos reais.

***
Não se pode deter o fluxo de imensos cursos d água com represas de palha ou barragens de papel.
Para conter o fluxo de muitas águas é necessário dispor de uma estrutura feita com concreto e ferro, que são elementos resistentes.
Não se pode conter as culturas de morte - nazismo, fascismo, comunismo, fundamentalismo, anarco individualismo, capitalismo, machismo, homofobia, adultismo, etc - com epistemologias de palha ou papel i é com teorias relativistas e subjetivistas.
Pois se tudo é relativo aos individuos não existe melhor ou pior, bem ou mal, vício ou virtude.
Precisamos tornar urgentemente a epistemologia realista de Aristóteles e a Ética essencialista de Sócrates.
Ou nos reconciliamos com a Grécia antiga e resgatamos nossos princípios e valores ancestrais ou nos dissolveremos no Caos.
Alias, as culturas de morte são ácidas e dissolventes, palha, papel e madeira não são materiais aptos para conter o ácido.

***

Desde que perdemos o sentido da racionalidade, do realismo, do objetivismo e da empiria caminhamos para isto, para a afirmação da mediocridade ou da nulidade.

Precisamos tornar a Aristóteles, rever nossos conceitos epistemológ
icos, superar Kant e todas as formas de idealismo germânico.