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sexta-feira, 20 de outubro de 2017

O tema da fuga...

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Como registrado foi em artigo precedente em posse do conhecimento da realidade assume o homem duas posturas características e antagônicas; a do afrontamento, que coaduna-se com o progressismo ou a da fuga, que corresponde a uma espécie de desespero invencível ou a um conservadorismo negativo nas palavras de meu grande amigo Douglas Eduardo Vaz.

Não se trata como bem poderia parecer de alternativas lineares. Não poucos progressistas, esquerdistas, trabalhistas, socialistas de modo geral após terem se dedicado por um longo tempo ao afrontamento e a militância (Tendo em vista a colossal dificuldade - já apontada com  peculiar lucidez por Freud - com que se transforma a realidade social) costumam costumam a passar por crises periódicas de angústia e desesperança até a ambivalência, alternando, em determinadas circunstância da vida, atitudes de afrontamento e de conservadorismo negativo ou desistência. Mauro Iasi caso não me falhe a memória, analisou detidamente esse problema numa de suas obras.

Temos de compreender estas pessoas ou melhor, temos de compreender a situação existencial experimentada por elas, as limitações do aparelho psíquico e a condição de cada um ao invés de sem mais classifica-las como vis traidoras ou inconsequentes. Do contrário nosso socialismo não terá valor algum. Ser humanista pressupõem no mínimo sincero esforço para compreender o outro, ao invés de te-lo em conta de conspirador malévolo.

Implica saber que a angústia não é em si mesma tolerável ou suportável, mas que corresponde mais ou menos a uma dor que se sente na alma...

Tanto mais intensa a dor, tanto mais a necessidade de ser estabilizada por meio de algum narcótico ou sedativo. No passado o ópio ou o clorofórmio... antes disto a Datura Stramonium, a Canabis Sativa, o Peyote, o Whisky... Homens e culturas sempre buscaram fugir a dor lancinante. Crendo-a radicada quase sempre no corpo. O homem moderno no entanto, objeto de tantos conflitos e frustrações, veio, mais do que qualquer um de seus remotos ancestrais a conhecer um outro tipo de dor não menos forte, a dor da alma ou a angústia.

Daí o já citado (apud artigo anterior 'Um pouco de arte) dramaturgo - Quem tem problemas tem conhaque... vodka, whisky, morfina... Afinal em situações de dor sedativo não é luxo, é necessidade.

E como a causa da angústia da-se inevitavelmente em termos de choque entre as instâncias mentais ou entre o Ego e o mundo externo, ao menos neste último caso, a única saída que se impõem é fugir deste mundo externo, cortar os vínculos com ele, separar-se...

Vindo a propósito a perda de consciência, por meio da qual temos acesso a outros estados de espírito, totalmente diversos da realidade.

No passado as multidões chegaram a crer que tais estados equivaliam a uma via de acesso aos seres divinos. Hoje multidões de homens irreligiosos continuam buscando-os não mais como forma de unirem-se ao sagrado ou ao numinoso, mas como forma pura e simples de romper com a realidade indesejável desde mundo ou enquanto fuga.

Apesar disto não é situação nem um pouco simples.

Fugitivos que recorrem a perda de consciência e a tão extravagantes fruições de prazeres costumam não poucas vezes a assemelharem-se aos marinheiros que bebem água do mar. E todos sabem muito bem o que se sucede com o infeliz naufrago que cede a esta forma de tentação...

Fugas bem planejadas e bem sucedidas podem se tornar recorrentes e incontroláveis; até que se perde por completo o nexo com a realidade vivida e se passa de vez para o outro lado, o lado da insanidade.

Pode sempre a fuga tornar-se compulsiva ou imperativa; e assim se perde o homem, não devido a angústia mas a fuga. Sempre bom após algumas fugas toleráveis buscar auxílio psicológico com que enfrentar a angústia em suas fontes e dribla-la. Fuga até pode acontecer como improviso, é compreensível. Urge no entanto, ir o quanto antes a raiz do mal e tentar estrai-la. Claro que num pais em que o custo do serviço psicológico é tão alto, as fugas podem se tornar ainda mais atrativas por serem menos onerosas, ao menos para o bolso...

Mas e se a substância empregada for nociva? E causar danos neuronais irreversíveis. E se os demais tipos de fuga ou compulsão tornarem-se incomodativos na medida em que se chocam com nossas necessidades vitais em termos de emprego, família, etc???

Não o tema da fuga não é nem um pouco simples. Na medida em que corresponde, não poucas vezes a um suicídio lento e inconsciente...

Assim se não se pode censurar o homem que sucumbiu ao peso tremendo da dor tampouco se pode deixar de orienta-lo no sentido de buscar por ajuda. Orientar é diferente de julgar e condenar. Como diria o Dr Frankl caso este homem não encontre um sentido mais profundo que o leve a apegar-se a vida mesmo com todas as suas dificuldades, quem poderá obriga-lo a viver? Se ele encara esta existência como um fardo doloroso, que podemos fazer? Como obrigar alguém a permanecer num navio que não o agrada ou a fazer uma viagem que não quer?

Como as dores da alma tendem a ser mais frequentes e continuas do que as dores do físicas, a intoxicação por meio excesso de sedativos ou por meio da fuga constitui uma ameaça real. Melhor tratar essa angústia já no começo... Após as primeiras fugas.

Bem, já enrolamos demais o amigo leitor. Urge finalizar este artigo. Arrolemos as possibilidades de fuga -

  • O fundamentalismo religioso, sempre associado a uma mentalidade magico fetichista ou seja crença em intervenções sobrenaturais e divinas. Tal a situação da gente simples ou ingênua sempre a espera de um milagre. Aqui sequer pressupomos qualquer explicação em termos de ocultação de causas ou de alienação, da qual o crente sempre pode prescindir. Descrevemos apenas a atitude vital daquele que abandonando mais e mais a vida refugia-se em templos e igrejas passando cada vez mais tempo assistindo a cultos religiosos, orando, consumindo literatura religiosa, etc Naturalmente que nos encontramos com um tipo de fuga plenamente justificado - O mundo é mal ou diabólico. Esta forma de fuga, que costuma ser total ou definitiva, tem seu principal risco quando a pessoa em questão acredita ser capaz de comunicar-se diretamente com a divindade, sendo estimulada neste sentido pelos líderes religiosos irresponsáveis. Assim por meio da via mística chegasse bastante facilmente a demência ou a esquizofrenia e não poucas vezes ao crime. Afinal não há pior opção do acreditar que tudo quanto pensamos, falamos, vemos ou ouvimos procede do próprio Deus.
  • Formas de hedonismo não substanciais ou químicas.
    Assim a compulsão sexual compreendida no sentido em que a busca pela fruição do orgasmo ou do prazer sexual converte-se em objetivo primário da atividade humana conflitando com as demais esferas da existência, assim com o trabalho por exemplo. Na medida em que essa busca vai trazendo mais e mais problemas, cumulativamente, caracteriza-se o problema. Trata-se aqui de um tipo de fuga bastante estimulado pema cultura e pela mídia tendo em vista certo nicho existente no mercado e evidentemente o lucro, situação que analisaremos em nosso próximo artigo sobre "A administração da alienação e da fuga ou do prazer pelo pode econômico."
    Outro tipo de compulsão diz respeito aos jogos de azar, estando nitidamente relacionada com a aspiração inconsciente pela emulação, pela auto afirmação ou pela realização pessoal, objeto de frustração. Aqui a relação com as finanças é ainda mais clara e perigosa, na medida em que uma pessoas viciada em jogos ou compulsiva pode vir a perder todos os seus bens muito rapidamente.
    Como variante deste temos a compulsão por jogos eletrônicos.
    Outra variante muito comum é a fuga por meio de uma realidade digital ou virtual paralela, inclusive produzida e comercializada. Tenho notícia de pessoas que por esta via chegaram rapidamente a alienação mental e irreversível por se terem hipostasiado com personagens e situações fictícias, cujo comportamento passaram a reproduzir socialmente. A derradeira variante é o esportivismo, no Brasil sob a forma do futebolismo e do clubismo, o qual não poucas vezes tem resultado em conflito armado e assassinatos. 
  • Chegamos por fim a menos crítica de todas as formas de fuga, se é que podemos dize-lo ou a que é mais apreciada pelo Sistema. Estamos nos referindo ao consumismo, em virtude do qual acreditamos poder saciar nosso vazio interior ou vazio de sentido e de perspectivas, adquirindo objetos, coisas ou mercadorias ou seja comprando, consumindo e aquecendo o Mercado. Aqui ainda a questão da auto estima, da realização pessoal, da auto afirmação... Pois não poucas pessoas sentem uma sensação indefinível de prazer, bem estar ou mesmo poder comprando coisas, o que em não poucas vezes reflete um estado psíquico análogo ao do misticismo, da auto sugestão ou mesmo do consumo de substâncias narcotizantes. Em tais circunstâncias além das dívidas o consume deve produzir certas substâncias glandulares ou endócrinas relacionadas com a sensação de prazer.
  • As formas de hedonismo químico resultante da introdução de certas substâncias no organismo seja por via bocal, nasal, venal, etc
    Temos aqui -
    A embriagues, definida como consumo de alcool na medida em que chega a alterar os níveis de consciências ou como consumo excessivo, o qual nada tem a ver com o consumo parcimonioso ou moderado (aqui C S Lewis). O problema imediato aqui são as situações em que o excesso conduz a perda total de consciência, assim o famoso caso do 'bêbado no banco da praça' ou o que é bem mais dramático, atirado inconscientemente sobre os trilhos de uma Ferrovia ou as margens de uma Rodovia, claro que todas estas situações traduzem certo grau de vulnerabilidade e comportando, riscos reais para a vida e a integridade física da pessoa. Afinal vivemos num pais em que índios e moradores de rua já foram incendiados pelo fato de estarem a dormir em alguma praça ou rua. A longo prazo todos sabemos que a embriagues implica sérios danos a saúde física, podendo resultar em cirrose ou câncer no fígado, para não falarmos noutras tantas moléstias 'comuns' como o AVC.
    Temos ainda aqui uma droga sintética extremamente forte e danosa, o Ecstasy, o qual é comercializado sob a forma de cápsulas ou pílulas. Associado a bebidas alcoólicas o Ecstasy tem seus efeitos potencializados podendo produzir facilmente uma parada cardio respiratória. O Ecstasy também pode conduzir os viciados a imbecilidade completa em curso prazo pelo esgotamento dos neurônios cerebrais.
    Chegados a via nasal temos toda uma gama de drogas inaláveis - Da cola e dos perfumes até o cigarro - que a bem da verdade não passa de uma droga legalizada - e o insidioso crack, i é as pedras de fumar feitas com cristais de cocaína (A qual também pode ser cheirada em pó). Ocioso dissertar a respeito dos riscos implicados no consumo continuo do tabaco descobertos há quase cem anos pelos médicos alemães do fuhrer. Igualmente ocioso mencionar os efeitos danosos do consumo de cocaína ou mesmo da inalação da maconha.
    Quanto a via venal temos a introdução de cocaína das veias. Aqui além de outros tantos riscos há o de contrair-se doenças transmissíveis devido ao uso comum da agulha e o de envenenar-se, haja visto que aqueles que manipulam tais implementos nem sempre estão conscientes do que fazem...
    O LSD pode ser consumido oralmente, inalado ou injetado, a vontade do freguês. É a dietilamida do ácido lisérgico produzida pela cravagem de um fungo do centeio desde 1943 por Albert Hofmann. A História do LSD constitui uma página a parte quanto ao consumo de entorpecentes pelo simples fato de ter produzido uma cultura, a cultura psicodélica (nos anos 60) relacionada com um grande número de artistas e intelectuais dentre os quais Aldous Huxley. É uma das drogas mais poderosas em termos de efeito, e relativamente segura. Sem consumo no entanto pode levar a psicose, inclusive crônica.
    Cumpre registrar a imensa popularidade da droga entre artistas e intelectuais, os quais tendo tomado consciência quanto a dura realidade da existência humana, e sua resistência a quaisquer tentativas de transformação deixaram-se dominar pela angústia e pelo desespero, resultando disto, obviamente a necessidade da fuga e consequentemente a droga. O trágico epílogo deste tipo de experiência todos conhecemos muito bem - A overdose e a morte... ou seja o suicídio, algumas vezes consciente, outras vezes não...

    FUGAS SAUDÁVEIS?

    Algumas fugas saudáveis tem sido relacionadas com a sensação estética produzida pela arte. Assim a fuga da realidade por meio dos livros de romance, ficção e fantasia. A fuga pela contemplação visual de um quadro ou duma exposição. A fuga pela poesia ou pela musica. A fuga pelo teatro. A fuga pela apreciação de cerimônias religiosas de caráter simbólico. A fuga moderada pela prática saudável de algum esporte. A fuga moderada pela apreciação sóbria do licor ou do narguilé. A fuga por um tipo de esforço pessoal agradável; como o artesanato. A fuga moderada pela arte culinária ou pela degustação de um bom prato. A fuga moderada pelo exercício da sexualidade, etc Em não poucas situações somos levados a perceber que a distinção entre o tolerável e o danoso esta apenas na intensidade da fruição a que chamamos fuga.


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quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Tópicos de Filosofia grega - Ética: a virtude e o prazer; em busca da síntese.

Exposição



Segundo Aristóteles o homem existe para a felicidade: "A felicidade é o bem para que tendem todos os outros atos e o impulso intencional de nossas motivações." .Esta doutrina recebeu o nome de Eudemonismo, pois toma a felicidade por fim.



Ora esta definição comum em nada nos satisfaz uma vez que os próprios hedonistas admitiam ser a Felicidade o bem maior ou a destinação final dos atos humanos. Importa saber o meio porque tal fim era atingido ou aquilo que tornava o homem verdadeiramente feliz.



Aristóteles, aqui seguindo a Platão e a Sócrates, classifica os atos aptos para produzirem a felicidade como VIRTUOSOS. Para Sócrates, Platão, Xenócrates, Aristóteles, etc a felicidade esta diretamente relacionada com a ARETÉ ou virtude.
Consideravam ainda que existiam diversos tipos de virtudes e procuravam organiza-las hierarquicamente. Sócrates e Platão ao que parece colocam a Justiça em primeiro lugar. Já Aristóteles colocava em primeiro lugar a contemplação da verdade pelo intelecto ou a posse do conhecimento. 

Crisipo, Seneca e Epicteto, estoicos, indicaram igualmente que o fim último da criatura racional fosse a posse da felicidade. A qual segundo o fundador da Escola era atingida pela prática da virtude ("O verdadeiro Bem pode consistir apenas na posse da virtude!"), compreendida por eles como qualquer ação empreendida em coerência com a natureza (Cleanto de Assos). Agir naturalmente ou segundo a natureza era para eles, agir virtuosamente. Enfatizavam no entanto a posse da serenidade ou impassibilidade, mesmo diante de situações dolorosas ou trágicas.

Os estoicos não podiam encarar a dor física como mal supremo ou mesmo como mal, mas como adiaphora ou coisa neutra. A respeito da saúde, da beleza, da glória, da riqueza, da doença, da fealdade, da obscuridade e da miséria i é dos bens/males naturais ou transmitidos, costumavam declarar a mesma coisa. Esta proposição foi ao que parece tomada a Platão Espeusipo. Xenócrates parece ter sido o primeiro a classifica-las como bens inferiores ou de segunda classe, isto na medida em que eram virtuosamente administradas em comunicação com os bens superiores.

Crisipo opinava que as pessoas vulgares e hostis a Filosofia tomavam tais dadivas naturais por bens preciosos, acrescentando que o sábio apenas deles se servia com moderação, subordinando-os a uma direção virtuosa ou que não se deixava afetar por eles. 

Os cínicos mantiveram a opinião de Platão ou Sócrates. 

Já os hedonistas sustinham que a felicidade tinha sua causa na fruição do prazer.



Mas não estavam de pleno acordo a respeito de qual gênero ou categoria de prazeres estava posto para a aquisição da felicidade.

Assim Arístipo de Cirene, pupilo de Sócrates, afirmou que a fruição dos apetites carnais ou sensitivos como comida, bebida e atividade sexual constituíam o sentido da vida humana e que a dor, incluindo a dor física, correspondia ao mal supremo. Teodoro de Cirene e Exegias também assumiram este ponto de vista.

Escolasticamente cumpria verificar quais fossem os prazeres mais intensos e duradouros.

Epicuro também afirmou o prazer como sumo bem a ser desejado pelos mortais. No entanto sua ideia de prazer parecer ser bastante afim da ideia aristotélica de Felicidade, de modo geral ele associa este prazer espiritual ou felicidade não apenas com a ausência da aponia ou dor física mas sobretudo com a ataraxia, definida como imperturbabilidade da alma adquirida por meio do auto controle. O sábio estabelecia uma espécie de hierarquia de prazeres, fruindo cada qual deles com certa moderação até que já não podia ser atingido pelas circunstâncias exteriores a si.

A princípio Epicuro parece ter dado bastante valor a saúde corporal, posteriormente no entanto parece ter colocado a amizade acima dela, o que ainda aqui reporta a Sócrates.

Já o estóico Cleanto de Assos parece ter chegado as vias do maniqueísmo, classificando a fruição do prazer como "Oposta a natureza" e "Nociva" 



Desenvolvimento

O primeiro aspecto que nos chama a atenção aqui é a convergência de sentido entre Felicidade e Prazer.

Nem podemos deixar de encarar a Felicidade como algo agradável ou prazeroso.

Tudo quanto podemos dizer é que a Felicidade corresponde a um tipo de prazer tanto mais complexo e refinado. Um tipo de aestesis ou sensação difusa na pessoa como um todo e presente tanto no intelecto quanto no corpo físico. Uma espécie de prazer considerado pelo intelecto e consequentemente ampliado e aprofundado, chegando a constituir um 'estado de espírito' ou modo de ser.

Podemos defini-la ainda como um bem estar ou consciência de bem estar.

Seja como for nenhuma destas definições afasta-se demasiadamente da noção de prazer ou deleite.

A felicidade é sempre algo deleitoso, agradável ou prazeroso e nem podemos pensar doutro modo ou maneira.

Assim se compreendemos felicidade como prazer, a tão decantada oposição entre eudemonismo e hedonismo perde toda sua força.

Examinemos agora a questão dos prazeres.

Para que não tomemos a felicidade pelo que não é.

Antes porém convém analisar a questão da conformidade das ações com a natureza.

Isto porque da satisfação de algum instintos parece quase sempre resultar uma sensação prazerosa.

De fato os instintos parecem estar voltados para determinados fins, grosso modo para a contemplação de certas necessidades imperiosas ditadas pela natureza, a qual para estimular esta contemplação, decretou que a satisfação de tais necessidades correspondesse sempre a uma sensação prazerosa.

Assim após a satisfação de cada apetite resulta uma sensação deleitosa ou certo bem estar.

Do ponto de vista da natureza é o prazer grande benefício. Pois sem este tipo de sensação os organismos em sua fase mais primitiva e inconsciente, quiçá não se sentissem impulsionados a satisfazer suas necessidades essenciais, de que resultariam graves consequências. Nem podemos deixar que reconhecer que a satisfação dos apetites é benéfica tendo em vista a manutenção da vida corporal ou física, e que esta é condição 'sine qua nom' para o exercício da virtude.

De tais relações resulta que ao menos remotamente o prazer apetitivo, sensório ou corporal é um bem enquanto ponto de partida necessário para a posse de outros bens. É bem relativo, secundário e remoto mas mesmo assim um bem como anteviu Xenócrates. Nem se pode, dentro do quadro geral da vida, classifica-lo como Cleanto, ou seja, como um tipo de mal.
No entanto quanto a criatura adulta, desenvolvida, racional e livre também não podemos encarar a fruição dos prazeres apetitivos como o bem supremo ou a chave da felicidade. Cumpre advertir no entanto que de certo modo a felicidade esta relacionada com os ideais acalentados pela pessoa ou com a mente.

Assim para a mente carnal, limitada, vulgar, grosseira, primitiva, etc o ideal de felicidade poderá consistir na fruição dos prazeres apetitivos ou sensoriais e resumir-se em comer, beber e procriar; isto pelo simples fato de ignorar outras possibilidades ou tipos de prazer, quais sejam os de categoria intelectual ou ética. Nem todas as pessoas, por uma questão de formação, são capazes de deleitar-se ao contemplar uma quadro ou escutar uma sinfonia. São incapazes de frui-lo ou de percebe-lo porque não foram educadas para isto... e isto não faz sentido para elas. Concentraram suas energias nos apetites e assim só são capazes de captar os prazeres produzidos pela satisfação dos mesmos.

Quero dizer com isto que alguns tipos de pessoas podem ser sentir felizes ou auferir uma sensação de bem estar apenas com o beber, o comer e o transar; e nem podemos declarar que a felicidade delas seja menor ou inferior a que é sentida por nós ao contemplar um edifício de linhas harmoniosas ou a assistir um espetáculo teatral. Não há um aparelho com que se possa mensurar a felicidade. O máximo que podemos dizer é que somos capazes que fruir uma gama maior de prazeres, parte dos quais ignorados por elas.

E como a felicidade fruída por elas não contempla todos os aspectos do ser ou da personalidade - ignorando o racional e o ético - podemos cogitar que a nossa seja mais vasta e constante. Quanto a dor já atinamos ser boa em algumas circunstâncias. No entanto é certo que dela fugimos e mais ainda da enfermidade, a qual sendo crônica ou incurável não pode ser classificada como algo bom. Tampouco podemos concebe-la como um mal absoluto, mas apenas como um mal relativo caso não nos leve a praticar voluntariamente uma ação prejudicial ou danosa.

Uma coisa parece certa: aquele que aprende a fruir outras formas mais refinadas de prazer como a contemplação do belo (música, teatro, poesia, etc) ou a amizade parece ter encontrado meios com que aliviar os tais males relativos procedentes do corpo físico. E quando o corpo físico declinar terá feito boa provisão... queremos dizer com isto que bem poderá consolar-se da insensibilidade do paladar, da frigidez ou da impotência sexual ouvindo belas canções, compondo poesias, pintando, desenhando, esculpindo, exercendo voluntariado, etc Assim não ficará exasperado, como aqueles que perdendo tais sensações ficaram privados de todo e qualquer tipo de sensações prazerosas.

Eis porque é proveitoso ampliar desde cedo o sentido do prazer.

Por outro lado não podemos deixar de reconhecer que mesmo a fruição dos prazeres apetitivos numa perspectiva natural comporta certos riscos ou perigos que devem ser considerados por ocasionalmente exigirem de nós a abstenção, a contenção e consequentemente o treino ou adestramento, caso desejamos evitar o mal maior da dor, o desastre ou a ruína. Nem sempre a criatura racional poderá satisfazer os apetites alheio a quaisquer circunstâncias de carater externo, o que nos encaminha mais uma vez a questão da hierarquia dos prazeres e da temperança ou sobriedade.

Caso nos tornemos escravos dos apetites por força do prazer e do bem estar podemos sempre estar entrando por um caminho áspero. Daí a necessidade de certo auto controle, resistência ou autonomia; enfim certa dose de liberdade. Na qual pode estar nossa redenção ou melhor preservação.

Todos precisamos de água para beber e devemos bebe-la de tempo em tempo sob pena de perecer. No entanto caso tenhamos acesso a algum tipo de água contaminada faz-se mister evita-la e buscar por qualquer outra reserva ainda que sejamos prezas da sede. Em tais conjunturas os que por hábito resistirem e forem capazes de esperar por outra provisão, no caso saudável; terão escapado a morte ou a algum tipo de enfermidade dolorosa... é sempre mais vantajoso esperar um pouco mais e ingerir água pura do que água suja, mas isto dependerá sempre do hábito.

O mesmo se dá com o alimento.

Aqueles que passarem por situações de fome ou privação por um tempo determinado após o qual haverão de receber alimentos bons, muito lucrarão de durante o tempo da privação abstiverem-se de alimentos venenosos, deteriorados ou contaminados pelas mesmas razões acima expostas.

Por fim quem de nós haverá de negar que é melhor abster-se de transar do que transar com pessoas enfermas sem preservativo??? Expondo-se a contrair AIDS ou Hepatite...

Mesmo em caso de dúvida seria melhor abster-se.

Tendo em vista futuras situações de dor e morte.

Concluímos certificando que nem sempre a fruição do prazer e a decorrente sensação de felicidade ou bem estar corresponderá a um verdadeiro bem, uma vez que deste bem decorrerão males muito maiores! No caso apenas a abstenção ou a privação equivaleria a um verdadeiro bem.

Epicuro foi quem intuiu tais coisas ao declarar que era melhor fugir a excessos ou exageros quanto a satisfação dos apetites e a decorrente fruição do prazer durante a juventude, tendo em vista a conservação da saúde por mais tempo, especialmente durante a velhice.

Este pensador parece ter percebido que a concentração na fruição do prazer pelo prazer, desvinculada dos fins naturais a que tendem e a satisfação da necessidade, parece parece estar relacionada com a deterioração precoce do corpo físico ou com a perda da saúde e a consequente manifestação da enfermidade e da dor. Inferindo que a fruição dos prazeres apetitivos devia ser exercida moderadamente ou em conexão com seus fins. Assim dizia Sócrates o que come deve ter em vista não apenas o sabor mas antes de tudo a satisfação da fome e o que bebe ter em vista não o gosto mas a extinção da sede. Classificava os que bebiam sem ter sede e os que comiam ser ter fome, jungidos pelo gosto ou pelo paladar como escravos dos sentidos.

Não se trata aqui de negar o prazer na perspectiva de Cleantes e dos maniqueus, mas apenas e tão somente de situa-los no contesto mais amplo da existência e do fenômeno humano. O que se contesta aqui é do comer, beber ou transar encarados como sentido da vida. Assim a gula, a embriaguez ou a lubricidade e não a alimentação ou a sexualidade.

Em tais casos é necessário manter uma visão sóbria e equilibrada. E contemplar o homem como um todo!

Importa saber que não podemos confundir - como Aristipo, Teodoro, Exegias e os modernos - a posse da felicidade em sua acepção mais ampla e profunda com a fruição descontrolada dos apetites ou o prazer sensorial.

Podemos admitir que no contesto de uma vida virtuosa, ela corresponda a um bem de condição inferior, mas não ao bem superior ou a virtude, uma vez que esta só existe no plano da liberdade ou da escolha. Aqui apenas o celibato tocaria a virtude, caso fosse posto a serviço das virtudes superiores como a causa da justiça por exemplo. Mesmo enquanto opção livre esta 'virtude' jamais deixaria de ser um meio para tornar-se virtude em si mesma.

E sempre alguém poderia cultivar a vida celibatária tendo em vista consagrar-se a atividades viciosas. Como aquele que se torna-se celibatário tendo em vista amealhar mais dinheiro e juntar fortuna superior a dos demais.

É o que temos por hora a declarar sobre o prazer, o bem, a virtude e a felicidade.

Resta-nos agora examinar a questão da utilidade.