Tendo nos seis artigos precedentes buscado apontar os pontos fracos e portanto discutíveis da obra freudiana 'Totem e tabu' somos levados, por uma questão de justiça, a apontar seus pontos positivos ou melhor seu ponto mais positivo, o qual a nosso ver diz respeito a identidade - Neurótico/primitivo ou selvagem e seu viés idealista/ voluntarista.
"Não nos devemos surpreender ao constatar que o homem primitivo transfere para o mundo exterior a estrutura de sua própria psique." p 122
"Assim a magia revela a intenção de impor aos objetos da realidade exterior as leis da vida psíquica." id ibdAo invés de adequar-se a realidade externa e objetiva do mundo, o homem primitivo, sempre que que se acha em conflito com ela, acredita poder altera-la ou controla-la por meio de determinados procedimentos técnicos a que chamamos magia. E, numa fase subsequente através do que chamamos feitiçaria. De um modo ou de outro ele se recusa a adaptar-se, evitando assim a frustração.
Esse homem acredita poder controlar os fenômenos naturais existentes ao redor de si, e nem por isso é considerado demente, louco ou desajustado pelo simples fato de que esta perfeitamente ajustado a cultura de seu grupo, que é uma cultura magico fetichista. Não se torna neurótico este homem, como o homem contemporâneo, pelo simples fato de que seu voluntarismo é coletivamente partilhado. Socialmente integrado ele não põem em dúvida os recursos de que dispõem, e destarte não surta... pois crê, pois tem esperança, pois esta fora da realidade.
É como se a fantasia partilhada ou a neurose partilhada e socialmente sancionada pelo grupo social adquirisse o 'status' de realidade.
Outra não é a condição do nosso neurótico, o qual, apesar do quanto foi constatado por nossa civilização 'científica' em termos de causalidade natural, continua a relacionar suas próprias ações com determinados acontecimentos felizes ou infelizes. Assim há quem chegue a conclusão de que se deixar de lavar as mãos de duas em duas horas fará com que sua mãe morra, como há quem creia que pronunciando determinada palavra ou fazendo tal gesto é capaz de provocar uma acidente e vitimar seu próprio filho... decorrendo de tais crenças a repetição de tal ato ou a iniciativa de evita-lo a qualquer custo e, consequentemente certo grau de desajuste pelo simples fato de que tais crenças não são socialmente partilhadas ou comuns a todos os membros do grupo.
Ao contrário do primitivo, o neurótico - ao menos a nível de consciência - sabe que suas crenças são absurdas, e que esta em oposição face a realidade externa e objetiva do mundo, o que torna sua situação ainda mais desagradável ou aflitiva. Seja como for ele não tem coragem suficiente para desafiar o absurdo... Nosso neurótico sabe estar em oposição ao grupo.
Tanto o selvagem quanto o neurótico estabelecem falsos vínculos entre a realidade externa do mundo e a vontade. Supondo que a realidade externa do mundo deva ceder aos imperativos da vontade.
Aqui a função de gerenciar a vontade ou de administrar sua fruição face aos imperativos da realidade externa não é desempenhada como deveria pelo Ego, de modo que a fantasia cobra elevado tributo...
Passemos agora ao terceiro elemento do triângulo voluntarista.
Por terceiro elemento ou terceira ponta deste triângulo queremos designar a criança. Levi Strauss foi quem chamou atenção para a similaridade existente entre o pensamento selvagem e o pensamento infantil. A dar por exatas as comparações feitas por Freud e Levi Strauss temos de concluir pela similitude entre o comportamento da criança e o comportamento do neurótico. Afinal de contas se A = B e B = C > C = A.
Freud por sinal, levando bastante a sério a 'filosofia ' alemã, tomou o Id por fonte do Ego, o qual desprende-se dele na medida em que ele, percebendo o mundo externo, percebe-se como algo distinto. A vontade ou o querer precede a consciência de si, e consequentemente qualquer tentativa de mediação. A princípio este homem é vontade pura ou melhor trieb - pulsão.
Sem endossar por completo as teses do psicanalista 'vienense' (sic) aqueles que estudaram o fenômeno da cognitividade humana Wallon, Piaget, Winnicot, etc concluíram que a consciência da criança é construída por 'exclusão' na medida em que ela entra em contato com o mundo externo. Por outro lado o padrão de pensamento lógico ou racional, bem como a formação de um construto ético ou moral, só são atingidos pouco depois da puberdade, após um processo tão lento quanto complexo, resultando disto uma situação de 'crise'. Afinal a percepção de uma realidade irredutível a fantasia jamais poderia deixar de ser dolorosa. A criança acalentou sonhos, o adolescente que não seja criado como Buda, conhecerá decepções...
A criança no entanto, segundo sua vontade, da largas a imaginação... Imagina e é levada a imaginar - por via da cultura - uma série de entidades fantasiosas, quais sejam deuses, demônios, heróis, duendes, anjos, fadas, trols, gnomos, monstros, etc aos quais atribui existência real, crendo inclusive que possam atuar neste mundo e produzir os fenômenos que sabemos ser puramente naturais. Para ela nada é mais natural do que o milagre e a realidade uma sucessão de maravilhas. Apenas graças a intervenção dos adultos mais esclarecidos e sobretudo da educação científica e a reflexão filosófica é que ela vai superando este padrão infantil e compreendendo a realidade tal e qual é, ou seja, como algo fora do alcance da imaginação i é como algo incontrolável.
É a fase do papai Noel, do coelhinho da páscoa, da cegonha e de tantas outras quimeras alimentadas pelos adultos inconsequentes. Afinal se a fantasia não deve ser reprimida, tampouco deveria ser alimentada. Apenas encarada com naturalidade e segundo as oportunidades problematizada... Afinal a criança continuara a imaginar outros tantos seres e a relacionar-se com eles, até atingir a fase racional... Assim imaginar faz parte do curso da vida e a criança imaginará, e imaginando reformulará o mundo e criará seu mundo. Não, não podemos adiantar as coisas ou queimar uma fase... seria danoso, quiçá em termos de afetividade. Daí a importância das fábulas com a dimensão ética do 'moral da estória'.
A passagem do padrão voluntarista para o padrão racional deve processar-se da maneira mais simples possível, afinal, como já foi dito implicará sempre numa crise. Aqui reprimir, e adiantar equivaleria exasperar, magoar, frustrar. Concedamos que nossas crianças atinjam a maturidade natural e suavemente, limitando-nos a orienta-las com carinho e compreendendo seu tempo e seu mundo. Assim a fantasia se esgotará... Já quem não pode ser criança a seu tempo tenderá a se-lo por toda vida...
Temos aqui que o neurótico, a criança e o selvagem são infensos a realidade externa e objetiva do mundo, a qual buscam controlar, fazendo com que prevaleça a vontade. Filosoficamente o selvagem, a criança e o neurótico são voluntaristas/idealistas. Sem que no entanto ousem revindicar o título de 'filósofos'. Já a Filosofia alemã é por assim dizer 'filosofia' de neuróticos, selvagens e crianças na medida em que questiona a existência deste mundo externo e objetivo que se opõem tão dramaticamente a nossa vontade e, mais ainda, na medida em que apresenta este mundo externo e objetivo como epifenômeno ou produto de nossa vontade (Fichte, Schelling, Schopenhauer, Nietzsche, Hartmann, etc)...Do mesmo modo como o racionalismo moderno, ignorando por completo a instância da vontade humana e dos sentimentos, tornou-se artificioso até o intelectualismo, o idealismo alemão - irmão gêmeo do romantismo - fez o caminho oposto. Resgatou assim a vontade, negando não apenas a capacidade do intelecto para deslindar o mundo externo, mas - como já assinalamos - a existência do próprio mundo externo, ora concebido como algo que 'é percebido' pelo homem ou como algo que esta em sua mente. Chegamos assim ao extremo do psicologismo e as fronteiras do relativismo, do subjetivismo e do solipsismo crasso; do idealismo enfim.
Resta-nos declarar, a contragosto até, que o pensamento contemporâneo, ou da moda - marcadamente irracionalista, senão emocionalista - acabou por nivelar-se a magia, a feitiçaria, a superstição, a fantasia, a imaginação, a selvageria, ao infantilismo... até precipitar-se nos abismos da neurose. É uma pseudo 'filosofia' neurótica e de neuróticos que recusam-se a reconhecer a realidade do mundo externo - com todas as suas mazelas - e a afronta-lo. Neste sentido é uma 'filosofia' tão cômoda, oportunista, frouxa e leviana quanto o ceticismo antigo; o qual por falta de padrão crítico, assumia o mundo como ele era, ficando com a realidade dada e negando o ideal... Como bem se vê, os extremos se tocam.
Importa assumir a realidade de um mundo 'ingrato' e buscar conhece-lo para poder tentar, em alguma medida, transforma-lo. É somente entrando na realidade do mundo que seremos capazes de muda-lo.
Cessemos pois de 'pensar' como selvagens, neuróticos ou crianças, crendo que a vontade 'por si só' alterará qualquer coisa e passemos a pensar como adultos ou como criaturas emotivas e racionais, as quais esperam - com esforço e dificuldade - conhecer um pouquinho e transformar algo, ou morrer tentando...
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quarta-feira, 29 de novembro de 2017
O tabu do totem - Uma resposta a S Freud VII > O selvagem, a criança, o neurótico e o voluntarismo
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sexta-feira, 24 de novembro de 2017
O tabu do totem - Uma resposta a S Freud VI O COMPLEXO DE LAIO
Em nosso último artigo buscamos identificar as fontes sociais do incesto ou do complexo edipiano e, a guiza de fator predisponente, apontamos a separação precoce dos filhos do sexo masculino com relação a mãe nas culturas primitivas. Admitindo que a alienação precoce filho/mãe impede a consolidação do 'apego' definido como laço afetivo estável e duradouro, deixando consequentemente, de impedir a construção de uma tendência erótica ou sexual.
Sem embargo disto, admitimos que este fator por si só não seja suficiente para consolidar tal tipo de construção, qual seja a aspiração pelo incesto ou o complexo edipiano. Nem vemos que parta ele da criança ou do bebê e tampouco da mãe. Sem negar que certas atitudes assumidas por algumas mães possam reforça-lo ou consolida-lo. Seja como for nós não enxergamos nem a mãe, nem o bebê como possíveis fontes deste complexo.
Sendo assim qual o fator predisponente ou a fonte do complexo edipiano?
Para chegarmos a uma resposta satisfatória qualquer consideremos antes de tudo a relação marido mulher antes da gravidez e particularmente após o nascimento do bebê.
Temos aqui uma relação dual de cumplicidade em que a totalidade das atenções da mulher ou da esposa são para o marido.
Até o dia em que a mulher é fecundada e acha-se grávida.
Entrando nesta relação um terceiro elemento, que é o bebê.
Consideremos agora a ação dos hormônios e o estado da mulher grávida.
Desde a fecundação todas as atenções e cuidados da mulher convergem para o bebê. Na medida em que aflora um instinto de maternidade. Instinto que segundo Winnicott faz com que a mãe recapitule psiquicamente sua experiencialidade enquanto bebê e que a partir daí adapte-se as necessidades do novo ser que veio ao mundo e que dela depende.
Consideremos ainda que - e nossa fonte aqui é Montagu 1969 p 63 - que nossa gestação, a gestação dos humanos, é dupla, completando-se apenas cerca de dez meses após o parto - período que leva o nome de Gestação externa - quando a simbiose e a própria identificação do bebê com a mãe, vai cedendo espaço a autonomia. Autonomia que é paulatinamente reforçada na medida em que a mãe vai cometendo 'falhas' e se desadaptando, até que a criança apegue-se a outros objetos pertencentes a realidade externa e construa sua identidade.
Quanto a período de gestação externa ou simbiose a 'mãe suficientemente boa' (Winnicott) é, sem sombra de dúvida, a que melhor de adapte as necessidades do bebê, o que não deixa de ser, até certo ponto, complexo. Implica isto o que chamamos 'dedicação integral', concentração, atenção, fixação... E portanto desprendimento quanto aos demais objetos externos, inclusive o marido. Não deixando a natureza de colaborar neste sentido. Pelo simples fato de que os hormônios responsáveis pela ativação da libido são drasticamente diminuídos. Durante esta fase a mulher cessa de ter interesse pelo sexo.
Agora imagine só, leitor inteligente e atilado, a situação do homem i é do marido.
O qual de uma hora para outra cessa de ser o centro das atenções da esposa. Na mesma medida em que estas desviam-se para o bebê.
A questão aqui não se restringe a sexualidade apenas, mas certamente a afetividade também. A qual não deixa de ser atingida e alterada pelas circunstâncias, por mais que a mulher busque administrar tal situação com sabedoria. Afinal os cuidados, a atenção e o afeto terão de ser divididos.
Diante disto é praticamente natural que a quase totalidade dos homens passe a encarar o recém chegado filho como uma espécie de intruso ou rival, ao menos inconscientemente. Os casos em que esta 'construção' mental atinge a consciência e aflora são vultosos e não poucas vezes dramáticos. Chegando o progenitor a odiar a prole.
Tanto pior caso o bebê pertença ao sexo masculino. Em tais condições a alegria ou satisfação da mãe ao alimentar o filho - Tendo o seio sugado por ele - ou a simples higienização da genitália do bebê levam o pai a misturar as coisas, conferindo a tais atos um sentido sexual ou erótico que inexiste. O pai, privado do exercício sexual, tira conclusões fantasiosas e passa a nutrir ciúmes pelo próprio filho, chegando a encara-lo como amante da esposa. É ele, o pai, que constrói em sua mente, a relação incestuosa ou edipiana.
Construído este tipo de relação fantasiosa nos domínios da mente, impossível que não passe a ser, de um modo ou de outro, expresso pelo comportamento, pelas palavras, pelo gestual, pelas atitudes - alias hostis com relação ao bebê - etc Extrojetado enfim...
Dentre as inúmeras situações possíveis que podem resultar deste tipo de relação temos de considerar novamente o recurso, contraproducente, a ama de leite ou babá. Aparentemente o recurso a babá parece ser perfeito na medida na medida em que alivia a situação da mãe possibilitando que possa, atender, o quanto antes, as solicitações do marido ciumento ou inseguro. A bem da verdade a inserção da babá ou ama de leite entre mãe e filho, reduzindo o contato entre ambos e impedindo a consolidação de laços afetivos estáveis e duradouros tende a alimentar e a reforçar quaisquer tendências incestuosas introjetadas pelo menino, o qual assumirá o caráter que lhe foi atribuído pelo pai, passando a desejar sexualmente sua própria mãe. Temos aqui a tragédia do complexo edipiano.
Já nas famílias pobres temos a situação da mãe que deixa o filho pequeno com a avó, a tia ou irmã mais velha - Com a qual construíra laços de afeto ou apego inibidores - para ir trabalhar. A situação da mãe que deixa o filho no berçário da creche, etc Em todos estes casos em que os laços de afeto são transplantados para outro objeto, abre-se espaço para a expansão ou consolidação do tipo incestuoso introjetado pelo pai ciumento na mente do filho.
Ao contrário do que se pensa e julga, em tais situações, a melhor solução é a manutenção da convivência mãe e filho durante estes primeiros anos - se possível até os seis ou sete anos de idade - e a decorrente construção e consolidação de um laço de afeto inibidor. Vindo o pai, a ser, necessariamente incluído, nessa nova categoria de relações, a partir do décimo mês de nascimento da criança. Na medida em que a criança vai se desprendendo da mãe e desenvolvendo sua personalidade - enquanto ser distinto que é - faz-se mister que o pai recobre seu posto de esposo, passando a receber parte do afeto da esposa, resultando disto, naturalmente, o restabelecimento da vida sexual do casal. Quero dizer que as coisas devem acomodar-se, se preciso for com o auxílio de um bom psicólogo ou terapeuta.
Importa que o vínculo mãe e filho não seja bruscamente quebrado sucedendo a alienação e indiferença por imposição do pai ciumento. Por outro lado a recusa da mãe em desapegar-se gradativamente do filho não seria menos danosa, na medida em que sua atitude possessiva e dominadora, sempre poderia ser interpretara equivocadamente pelo esposo e consequentemente pelo filho, reforçando a longo prazo todas estas fantasias. Aqui, o desenrolar subsequente da personalidade do filho poderia ser afetado seriamente. Afinal a mãe suficientemente boa deve criar o filho para a liberdade e a autonomia, orientando-o para elas. Aqui o desapego, sabiamente administrado nas fases ulteriores, é tão importante quanto ao apego afirmando e mantido durante a fase da gestação externa. Afinal não é nem pode ser o filho uma eterna simbiose de sua mãe.
Nem deve a mãe suficientemente boa, deixar-se impregnar pelas fantasias do marido a ponto de efetivamente substituí-lo pelo filho. O filho precisa de afeto, atenção, cuidado, dedicação... precisa ser acolhido, protegido, amado, etc Mas nem por isso é o marido. Ainda aqui é melhor saída é tentar administrar atenções e afetos com sabedoria e permanecer aberta a 'restauração' do marido em seu posto ou lugar.
Penso que nossa opinião tenha sido expressa com suficiente clareza. A confusão entre amor filial e amor conjugal tem seu princípio mais remoto na personalidade fragilizada do marido ou pai que se sente abandonado ou enciumado. É Laio que introjeta suas fantasias na mente de Édipo e as vezes ma mente da própria Jocasta. Temos portanto um 'complexo de Laio' na base do complexo edipiano, o qual para afirmar-se dependerá das circunstâncias ulteriores ou de 'como' o casal em questão administrará a situação, se quebrando bruscamente os laços afetivos em construção entre a mãe e o filho - pela introdução de uma ama de leite ou babá - ou consolidando-os. Consolidando os laços de afeto ou o apego teremos por consequência o 'efeito Westermarck' i é a total ausência de aspirações incestuosas. Quebrados os laços de afeto, teremos o terreno amanhado e pronto para o florescimento das fantasias introjetadas pelo pai na mente do filho, enfim o que Freud classificou como complexo de Édipo e ao qual conferiu uma dimensão universal inexistente.
Neste sentido podemos e devemos definir o apego, a presença e os laços de afeto como elemento responsável pelo bloqueio da construção das relações edipianas, as quais certamente, indicam certa ruptura quando a estabilidade afetiva ou mesmo ausência de conteúdo afetivo. Noutras palavras, o afeto é que imunizaria a criança face a aspiração incestuosa.
Resta declarar que numa Sociedade qualquer em que as necessidades econômicas restrinjam arbitrariamente o contato entre mãe e o filho durante seus primeiros anos de vida tende a potencializar a construção de relações nos moldes edipianos e os efeitos decorrentes em termos de neuroses... Uma Sociedade qualquer que sobreponha as necessidades do lucro ou do capital as necessidades afetivas das pessoas jamais poderá deixar de ser essencialmente neurótica.
Sem embargo disto, admitimos que este fator por si só não seja suficiente para consolidar tal tipo de construção, qual seja a aspiração pelo incesto ou o complexo edipiano. Nem vemos que parta ele da criança ou do bebê e tampouco da mãe. Sem negar que certas atitudes assumidas por algumas mães possam reforça-lo ou consolida-lo. Seja como for nós não enxergamos nem a mãe, nem o bebê como possíveis fontes deste complexo.
Sendo assim qual o fator predisponente ou a fonte do complexo edipiano?
Para chegarmos a uma resposta satisfatória qualquer consideremos antes de tudo a relação marido mulher antes da gravidez e particularmente após o nascimento do bebê.
Temos aqui uma relação dual de cumplicidade em que a totalidade das atenções da mulher ou da esposa são para o marido.
Até o dia em que a mulher é fecundada e acha-se grávida.
Entrando nesta relação um terceiro elemento, que é o bebê.
Consideremos agora a ação dos hormônios e o estado da mulher grávida.
Desde a fecundação todas as atenções e cuidados da mulher convergem para o bebê. Na medida em que aflora um instinto de maternidade. Instinto que segundo Winnicott faz com que a mãe recapitule psiquicamente sua experiencialidade enquanto bebê e que a partir daí adapte-se as necessidades do novo ser que veio ao mundo e que dela depende.
Consideremos ainda que - e nossa fonte aqui é Montagu 1969 p 63 - que nossa gestação, a gestação dos humanos, é dupla, completando-se apenas cerca de dez meses após o parto - período que leva o nome de Gestação externa - quando a simbiose e a própria identificação do bebê com a mãe, vai cedendo espaço a autonomia. Autonomia que é paulatinamente reforçada na medida em que a mãe vai cometendo 'falhas' e se desadaptando, até que a criança apegue-se a outros objetos pertencentes a realidade externa e construa sua identidade.
Quanto a período de gestação externa ou simbiose a 'mãe suficientemente boa' (Winnicott) é, sem sombra de dúvida, a que melhor de adapte as necessidades do bebê, o que não deixa de ser, até certo ponto, complexo. Implica isto o que chamamos 'dedicação integral', concentração, atenção, fixação... E portanto desprendimento quanto aos demais objetos externos, inclusive o marido. Não deixando a natureza de colaborar neste sentido. Pelo simples fato de que os hormônios responsáveis pela ativação da libido são drasticamente diminuídos. Durante esta fase a mulher cessa de ter interesse pelo sexo.
Agora imagine só, leitor inteligente e atilado, a situação do homem i é do marido.
O qual de uma hora para outra cessa de ser o centro das atenções da esposa. Na mesma medida em que estas desviam-se para o bebê.
A questão aqui não se restringe a sexualidade apenas, mas certamente a afetividade também. A qual não deixa de ser atingida e alterada pelas circunstâncias, por mais que a mulher busque administrar tal situação com sabedoria. Afinal os cuidados, a atenção e o afeto terão de ser divididos.
Diante disto é praticamente natural que a quase totalidade dos homens passe a encarar o recém chegado filho como uma espécie de intruso ou rival, ao menos inconscientemente. Os casos em que esta 'construção' mental atinge a consciência e aflora são vultosos e não poucas vezes dramáticos. Chegando o progenitor a odiar a prole.
Tanto pior caso o bebê pertença ao sexo masculino. Em tais condições a alegria ou satisfação da mãe ao alimentar o filho - Tendo o seio sugado por ele - ou a simples higienização da genitália do bebê levam o pai a misturar as coisas, conferindo a tais atos um sentido sexual ou erótico que inexiste. O pai, privado do exercício sexual, tira conclusões fantasiosas e passa a nutrir ciúmes pelo próprio filho, chegando a encara-lo como amante da esposa. É ele, o pai, que constrói em sua mente, a relação incestuosa ou edipiana.
Construído este tipo de relação fantasiosa nos domínios da mente, impossível que não passe a ser, de um modo ou de outro, expresso pelo comportamento, pelas palavras, pelo gestual, pelas atitudes - alias hostis com relação ao bebê - etc Extrojetado enfim...
Dentre as inúmeras situações possíveis que podem resultar deste tipo de relação temos de considerar novamente o recurso, contraproducente, a ama de leite ou babá. Aparentemente o recurso a babá parece ser perfeito na medida na medida em que alivia a situação da mãe possibilitando que possa, atender, o quanto antes, as solicitações do marido ciumento ou inseguro. A bem da verdade a inserção da babá ou ama de leite entre mãe e filho, reduzindo o contato entre ambos e impedindo a consolidação de laços afetivos estáveis e duradouros tende a alimentar e a reforçar quaisquer tendências incestuosas introjetadas pelo menino, o qual assumirá o caráter que lhe foi atribuído pelo pai, passando a desejar sexualmente sua própria mãe. Temos aqui a tragédia do complexo edipiano.
Já nas famílias pobres temos a situação da mãe que deixa o filho pequeno com a avó, a tia ou irmã mais velha - Com a qual construíra laços de afeto ou apego inibidores - para ir trabalhar. A situação da mãe que deixa o filho no berçário da creche, etc Em todos estes casos em que os laços de afeto são transplantados para outro objeto, abre-se espaço para a expansão ou consolidação do tipo incestuoso introjetado pelo pai ciumento na mente do filho.
Ao contrário do que se pensa e julga, em tais situações, a melhor solução é a manutenção da convivência mãe e filho durante estes primeiros anos - se possível até os seis ou sete anos de idade - e a decorrente construção e consolidação de um laço de afeto inibidor. Vindo o pai, a ser, necessariamente incluído, nessa nova categoria de relações, a partir do décimo mês de nascimento da criança. Na medida em que a criança vai se desprendendo da mãe e desenvolvendo sua personalidade - enquanto ser distinto que é - faz-se mister que o pai recobre seu posto de esposo, passando a receber parte do afeto da esposa, resultando disto, naturalmente, o restabelecimento da vida sexual do casal. Quero dizer que as coisas devem acomodar-se, se preciso for com o auxílio de um bom psicólogo ou terapeuta.
Importa que o vínculo mãe e filho não seja bruscamente quebrado sucedendo a alienação e indiferença por imposição do pai ciumento. Por outro lado a recusa da mãe em desapegar-se gradativamente do filho não seria menos danosa, na medida em que sua atitude possessiva e dominadora, sempre poderia ser interpretara equivocadamente pelo esposo e consequentemente pelo filho, reforçando a longo prazo todas estas fantasias. Aqui, o desenrolar subsequente da personalidade do filho poderia ser afetado seriamente. Afinal a mãe suficientemente boa deve criar o filho para a liberdade e a autonomia, orientando-o para elas. Aqui o desapego, sabiamente administrado nas fases ulteriores, é tão importante quanto ao apego afirmando e mantido durante a fase da gestação externa. Afinal não é nem pode ser o filho uma eterna simbiose de sua mãe.
Nem deve a mãe suficientemente boa, deixar-se impregnar pelas fantasias do marido a ponto de efetivamente substituí-lo pelo filho. O filho precisa de afeto, atenção, cuidado, dedicação... precisa ser acolhido, protegido, amado, etc Mas nem por isso é o marido. Ainda aqui é melhor saída é tentar administrar atenções e afetos com sabedoria e permanecer aberta a 'restauração' do marido em seu posto ou lugar.
Penso que nossa opinião tenha sido expressa com suficiente clareza. A confusão entre amor filial e amor conjugal tem seu princípio mais remoto na personalidade fragilizada do marido ou pai que se sente abandonado ou enciumado. É Laio que introjeta suas fantasias na mente de Édipo e as vezes ma mente da própria Jocasta. Temos portanto um 'complexo de Laio' na base do complexo edipiano, o qual para afirmar-se dependerá das circunstâncias ulteriores ou de 'como' o casal em questão administrará a situação, se quebrando bruscamente os laços afetivos em construção entre a mãe e o filho - pela introdução de uma ama de leite ou babá - ou consolidando-os. Consolidando os laços de afeto ou o apego teremos por consequência o 'efeito Westermarck' i é a total ausência de aspirações incestuosas. Quebrados os laços de afeto, teremos o terreno amanhado e pronto para o florescimento das fantasias introjetadas pelo pai na mente do filho, enfim o que Freud classificou como complexo de Édipo e ao qual conferiu uma dimensão universal inexistente.
Neste sentido podemos e devemos definir o apego, a presença e os laços de afeto como elemento responsável pelo bloqueio da construção das relações edipianas, as quais certamente, indicam certa ruptura quando a estabilidade afetiva ou mesmo ausência de conteúdo afetivo. Noutras palavras, o afeto é que imunizaria a criança face a aspiração incestuosa.
Resta declarar que numa Sociedade qualquer em que as necessidades econômicas restrinjam arbitrariamente o contato entre mãe e o filho durante seus primeiros anos de vida tende a potencializar a construção de relações nos moldes edipianos e os efeitos decorrentes em termos de neuroses... Uma Sociedade qualquer que sobreponha as necessidades do lucro ou do capital as necessidades afetivas das pessoas jamais poderá deixar de ser essencialmente neurótica.
sexta-feira, 17 de novembro de 2017
O tabu do totem - Uma resposta a S Freud V (Nos domínios do incesto)
No artigo anterior demonstramos que S Freud, a exemplo de K Marx, fez uma importante descoberta a respeito da condição psicológica dos europeus ou ocidentais contemporâneos, a qual batizou como complexo edipiano. Marx havia posto a limpo ou exposto a condição economicista da mesma sociedade, europeia, do décimo nono século. Tanto a mais valia e a distribuição de bens, quanto o completo edipiano correspondem a fenômenos essenciais, dos quais abrindo mão ou fazendo vistas grossas jamais chegaríamos a compreender este homem 'moderno' ou esta sociedade em que nos achamos inseridos.
E no entanto tanto um quanto outro cometeram o mesmo erro deplorável, projetando tudo quanto verificaram em todas as culturas e sociedades humanas ou no curso da História como um todo. Assim os marxistas tendem a enxergar classes, conflito, supremacia do poder econômico, etc mesmo nas idades Primitiva, Antiga e Média - distorcendo a realidade histórica - como Freud e seus seguidores tendem a situar o complexo edipiano na primeira página de nossa História. Assim se um e outro mostraram-se geniais ao deslindar nossa História, a História atual das Sociedades Ocidentais, nem por isso deixaram de errar e de errar feito na medida em que cederam a tentação de conferir a suas respectivas descobertas um caráter metafísico, abstraindo do tempo e do espaço.
Tanto os moldes capitalistas de produção e distribuição de bens - Em termos de Mercado - quanto o complexo edipiano são fenômenos característicos do nosso tempo e não constantes que perpassam a História humana como um todo.
Sobremodo curioso que Ch Darwin e H Spencer tenham feito o caminho oposto. Assim Darwin e os famigerados darwinistas sociais, após terem identificado um dos fatores responsáveis pela evolução biológica - a 'Seleção natural que é um fator negativo - ousaram aplica-lo, hipoteticamente, ao curso de nossa evolução social. Projetando no futuro o que haviam localizado no passado. E sem considerar as peculiaridades do fenômeno humano.
Seja como for Freudianismo, Marxismo e Darwinismo 'Ortodoxos' constituíram-se em metafísicas contemporâneas, destinadas a substituir o positivismo, da mesma maneira como aquele havia substituído o espírito do Catolicismo. O problema crucial aqui é que tais ideologias jamais assumem-se como metafísicas apresentando-se antes como científicas. Científicos são apenas os fenômenos que uns e outros identificaram por meio da observação ou da reflexão. Especulativa a generalização que fizeram a partir do que identificaram seja na direção do futuro ou do passado.
Assim quanto a questão do complexo edipiano faz-se necessário apontar suas fontes ou sua gênese partindo dos seguintes dados:
1 - O 'Efeito Westermarck' definido como insensibilização sexual por parte de pessoas que foram criadas juntas durante a infância. Essa hipótese foi levantada pelo antropólogo finlandês Edvard Westermarck, em sua obra prima 'A História do casamento humano' (1891) com o objetivo de explicar o tabu do incesto.
Curiosamente Westermarck, que era um evolucionista de carteirinha, também adotou o modelo gorila como protótipo das primeiras Sociedades humanas, se bem que atribuindo-lhe uma organização familiar em moldes monogâmicos e estáveis, e nem sei porque não escolheu o gibão... Seja como for para ele a organização familiar monogâmica e estável não havia sido invetada pelos primeiros humanos mas tomada a algum antropoide. O modelo familiar grupal ou promiscuo associado a paternidade difusa - tal e qual observam,os nos chimpanzés - desconsertava-o certamente, por mais que malquistasse a fé 'cristã' (enquanto reduto de uma cultura judaica)...
Já dissemos que quanto as sociedades chimpanzés o efeito Westermarck tem se mostrado válido, ao menos no que tange as relações mãe e filho, a ponto de Bowlby, a partir dele, ter formulado a teoria do apego. Embora a teoria do apego seja bem mais rica do que a teoria freudiana clássica, devemos ter em mente que ela não basta para desbancar totalmente a esta tendo em vista a complexidade das determinações sociais. A questão não é substituir uma pela outra uma vez que podem coexistir perfeitamente.
2 - A existência de um tabu bastante disseminado entre as diversas culturas com relação ao incesto. Freud dá tal tabu como universal em 'Totem e tabu' e Levy Strauss pretendeu ter demonstrado sua universalidade em que pesem os exemplos aparentemente contrários do Egito antigo, do antigo Peru e do Hawai. Seja como for não podemos deixar de admitir que se trate de fato do tipo mais disseminado de tabu, e que seja quase que universal.
Em tese Freud não deixou de ter razão quando, contra Westermarck, apelou aos raciocínios elaborados por Frazer. Segundo Frazer, a existência de uma aversão natural ao incesto tornaria incompreensível, por inútil, a existência do citado tabu. Afinal que sentido faria a elaboração de uma lei que nos obrigasse a respirar ou a que nos abstivéssemos de colocar a mão no fogo? Aquilo que é impulsionado pela natureza ou instintivo, como comer e beber, dispensa o reforço da lei.
Sendo assim, somos obrigados a concluir que a aparição deste tabu, o tabu do incesto, implica que num determinado momento da História ou da cultura, os seres humanos sentiram-se tentados a cometer relações incestuosas. Como o não matarás supõem a possibilidade concreta do assassinato e o não roubarás a possibilidade concreta do roubo, o tabu do incesto supõem a possibilidade do incesto.
3 - Nas sociedades chimpanzés, a ocorrência do incesto entre mãe e filho jamais foi verificada enquanto que a ocorrência do incesto fraternal é raríssima. Tampouco há qualquer evidência a respeito de um complexo edipiano entre os indígenas das Ilhas Tobriand, analisados por Mallinowski ou entre as tribos sul africanas analisadas por Margareth Mead.
4 - Já quanto a Sociedade por ele, Freud, analisada não somos autorizados a duvidar que o complexo de Édipo, definido como desejo inconsciente de ter relações íntimas com a própria mãe e como tendência generalizada a encarar o pai ou mesmo o irmão mais velho como um rival, estivesse bastante disseminado entre as crianças e adultos neuróticos.
Podemos no entanto supor que este complexo não fosse como queria Freud, universal ou absoluto mesmo em termos de Sociedade europeia contemporânea, mas típico de pessoas desajustadas. Neste caso seria são ou normal - em tese, mesmo porque existem outros tantos fatores, sexuais e não sexuais, relacionados com a gênese da anormalidade - não o indivíduo que tivesse superado o tal complexo edipiano, mas aquele que não o tivesse desenvolvido ou sido contagiado por ele, cultivando apenas relações afetivas de apego sem conotações de caráter sexual, as quais em si mesmas implicariam desajuste.
A crítica é absolutamente válida caso consideremos que Freud e seus colaboradores analisaram apenas pessoas enfermas ou desajustadas i é histéricos e não pessoas normais. A pŕopria teoria psicanalítica subjacente, segundo Levy Strauss supõem que não existam pessoas sãs ou normais, pelo simples fato de que Freud e seus colaboradores analisaram apenas pessoas anormais, nas quais deram inevitavelmente com o dito complexo edipiano, como um oncologista examinando cancerosos dá necessariamente com nódulos. Não podendo supor todavia, que todos os homens sejam cancerosos ou tenham nódulos.
A simples tese segundo a qual podemos compreender perfeitamente a normalidade a partir da anormalidade, a sanidade a partir da enfermidade ou saúde a partir da doença parece em si mesma bastante discutível. Talvez a condição normal seja bem mais complexa do que a simples ausência de anormalidade. Claro que naqueles que chegaram a ser impregnados por ele, o complexo edipiano, deve ser superado. Sabendo que em termos de mentalidade a superação equivale a cura. Nada nos entanto obriga-nos a admitir sua onipresença. Como Diágoras de Melos perguntou aos religiosos a respeito dos naufragos que não haviam tido suas preces atendidas pelos deuses, somos levados a nos perguntar a respeito de toda gente normal jamais examinada por Freud.
Após termos exposto os dados, problematizemos -
Embora haja controvérsia, daremos por assente e válido o efeito Westermarck, mormente após pesquisa realizada nos Kibutz israelenses durante os anos 80. cf Sepher J 1983 e quanto ao matrimônio chinês Shim-pua.
A baliza do convívio entre a mãe e a criança, os irmãos ou mesmo estranhos, vai até os seis anos de idade. Portanto não vem ao caso as relações sucedidas entre pais que não criaram seus filhos ou entre irmãos que não foram criados juntos, vindo-se a conhecer-se mais tarde. A própria narrativa edipiana enquadra-se nestas circunstâncias, pelo simples fato de Jocasta não ter convivido com seu filho até a idade de seis anos. Destarte a ausência já do apego, já do conhecimento, possibilitou a construção de um outro tipo de relação. Então temos de nos perguntar se um Édipo criado por uma Jocasta até os seis anos de idade construiria uma relação pautada no apego afetivo ou na sexualidade? Sou pelo primeiro tipo de relação, a qual de pronto impossibilitaria a segunda, mesmo em termos de inconsciência.
Outro aspecto a ser levantado é o aspecto da ama de leite ou da babá. O próprio Freud até onde sabemos não apenas teve uma ama de leite durante estes anos cruciais de sua existência, como passou parte significativas dessa quadra entregue aos cuidados dela (s). O que nos ajudaria a compreender porque na falta de um apego mais consistente a mãe biológica o próprio pai da psicanálise teria desenvolvido o complexo edipiano. Haveria a possibilidade de Freud ter influenciado ou contagiado ao menos alguns de seus pacientes, introjetando seus sentimentos neles e fazendo-os declarar o que queria ouvir???? 'Ignorabimus' mas não podemos negar aprioristicamente esta possibilidade.
Quando sabemos o que Nero disse após ter descoberto o cadáver de sua mãe Agripina e contemplado seus seios e quando como historiadores observamos um recrudescer de relações incestuosas na antiga Itália - durante os últimos séculos da I Média e os primeiros séculos da I Moderna, em que a exemplo da antiga Roma a instituição das amas de leite ou babás foi reabilitada após ter sido objeto de tantas críticas - não podemos nos deixar de perguntar a respeito de quantos pacientes de Freud teriam sido cuidados e alimentados por babás ou amas de leite durante a infância. Claro que estamos numa linha de mão única - pois se a criança em formação pode vir a apegar-se a babá e a criar laços de afeto com ela, uma babá sem escrúpulos poderia manipular os órgãos sexuais do bebe (as vezes até sem maldade) produzindo outra situação de conflito... Aqui porém, o problema crucial dirá respeito a uma mãe jovem e bela com que o pequenino pouco conviveu e com a qual não criou laços estáveis de afeto. Temos ainda o caso - hoje bastante raro mas não no passados - das avós que cuidavam dos netos, chegando inclusive a amamenta-los, enquanto as jovens mães debutavam com os esposos... Evidente que, suposta a validade do efeito Westermarck ou da teoria de Bowlby, teríamos aqui - na interferência de uma ama de leite, tia ou avó - uma abertura para a construção de outro tipo de relação entre mãe e filho, suficientemente descrita por Freud.
Claro que as decorrências advindas deste tipo de relação seriam conflituosas e portanto de modo algum saudáveis.
Temos de salientar ainda que tal e qual Freud seus pacientes advinham das classes médias e abastadas de Viena e não das classes pobres, haja visto que os honorários cobrados por ele e seus colaboradores não eram nada modestos. Diante de tais conjunturas não constitui absurdo algum supor que certa parcela dos pacientes analisados pelo pai da psicanálise tivessem construído relações de afeto com suas amas de leite ou babás e relações edipianas com relação a suas próprias mães, devido, como já dissemos, a certo grau de alienação ou afastamento. O próprio exemplo de Freud - por sinal alegado por Steven Pinker em'Como funciona a mente humana' - autoriza-nos a fazer tais suposições, indicando por sinal uma possível linha de pesquisa.
Claro que a possível interferência das babás não basta para explicar a totalidade das ocorrência do complexo de Édipo. Pelo que devemos acrescentar algum outro fator (na verdade dois outros, os quais se completam) quiçá mais generalizado ou presente. Claro que em certo sentido tomamos a direção oposta de Freud, indo da Psicologia para a Sociologia ou do fato Psicológico para um fato Social.
Tendo em conta que nossos parentes mais próximos os chimpanzés - E muito provavelmente nossos ancestrais mais remotos - numa situação de contato pessoal intenso, construíam laços de afeto suficientemente estáveis e duradouros a ponto de impossibilitar a construção de relações incestuosas entre mãe e filhos e que tais relações incestuosas aparecem já na aurora dos tempos como objeto de tabu e consequentemente como uma possibilidade real, somos levados a nos perguntar sobre o que teria sucedido neste meio tempo no sentido de conduzir nossa espécie a relações incestuosas? Que teria acontecido? Que teria mudado???
Creio que o leitor inteligente deu com nossa resposta contida na pergunta.
Diante de tudo quanto temos compendiado a analisado só podemos compreender o afloramento de aspirações incestuosas em nossos ancestrais enquanto resultado de um enfraquecimento do contato social entre mãe e filho antes dos sete anos de idade. O que nos levaria intuitivamente a divisão social do trabalho, a qual pautando-se no gênero institucionalizou a relação - Homem/caçador - Mulher/coletora, a qual observamos ainda hoje em diversas culturas primitivas.
Conforme o homem e a cultura foram evoluindo e a caça, tanto quanto a coleta, se tornando mais e mais complexas - esta devido a uma quantidade cada vez maior de vegetais comestíveis conhecidos, de suas estações e habitats e aquela devido a estratégias e armas cada vez mais elaboradas - tornou-se necessário que o grupo criasse as primeiras instituições educativas, sempre tomando por critério a divisão social do trabalho por gênero. O que nos leva a instituição mais primitiva de que temos notícia entre as culturas primitivas: A casa dos homens e a casa das mulheres. Totem e tabu p 185 O tema da casa dos homens, foi abordado primeiramente por Hienrich Schurtz em 1902.
A já citada advertência de Lang a respeito do dinamismo da cultura primitiva, deve precatar-nos de ver nas atuais associações ou confrarias de homens e mulheres existentes nas comunidades primitivas as instituições originais. Atualmente, na maior parte das culturas, meninos e meninas passam a ter acesso as respectivas casas quando atingem a puberdade, o que entre eles sucede aos onze ou mesmo dez anos de idade. A partir de então os jovens em especial, abandonam o lar e o convívio materno.
Como no entanto a própria noção de puberdade, dificilmente estaria presente na cultura de nossos ancestrais mais primitivos, podemos cogitar que a separação dos sexos ocorria não muito depois do desmame, o que nos povos primitivos chega a durar três ou quatro anos. Quiçá nos tempos primitivos as crianças formassem grupos de lobinhos a partir dos quatro ou cinco anos na casa dos homens. Seria possível que esta redução de 1/3 ou menos quanto o tempo de convívio do menino com a mãe seria suficiente para desencadear uma atração incestuosa? Seja-nos permitido dizer que ela no mínimo favoreceria a construção desse tipo de relação ou que tornaria o menino acessível ou disponível a ele.
Portanto, além da alienação precoce, temos de avançar e procurar um segundo fator, mais forte ou poderoso do que o predisponente.
E no entanto tanto um quanto outro cometeram o mesmo erro deplorável, projetando tudo quanto verificaram em todas as culturas e sociedades humanas ou no curso da História como um todo. Assim os marxistas tendem a enxergar classes, conflito, supremacia do poder econômico, etc mesmo nas idades Primitiva, Antiga e Média - distorcendo a realidade histórica - como Freud e seus seguidores tendem a situar o complexo edipiano na primeira página de nossa História. Assim se um e outro mostraram-se geniais ao deslindar nossa História, a História atual das Sociedades Ocidentais, nem por isso deixaram de errar e de errar feito na medida em que cederam a tentação de conferir a suas respectivas descobertas um caráter metafísico, abstraindo do tempo e do espaço.
Tanto os moldes capitalistas de produção e distribuição de bens - Em termos de Mercado - quanto o complexo edipiano são fenômenos característicos do nosso tempo e não constantes que perpassam a História humana como um todo.
Sobremodo curioso que Ch Darwin e H Spencer tenham feito o caminho oposto. Assim Darwin e os famigerados darwinistas sociais, após terem identificado um dos fatores responsáveis pela evolução biológica - a 'Seleção natural que é um fator negativo - ousaram aplica-lo, hipoteticamente, ao curso de nossa evolução social. Projetando no futuro o que haviam localizado no passado. E sem considerar as peculiaridades do fenômeno humano.
Seja como for Freudianismo, Marxismo e Darwinismo 'Ortodoxos' constituíram-se em metafísicas contemporâneas, destinadas a substituir o positivismo, da mesma maneira como aquele havia substituído o espírito do Catolicismo. O problema crucial aqui é que tais ideologias jamais assumem-se como metafísicas apresentando-se antes como científicas. Científicos são apenas os fenômenos que uns e outros identificaram por meio da observação ou da reflexão. Especulativa a generalização que fizeram a partir do que identificaram seja na direção do futuro ou do passado.
Assim quanto a questão do complexo edipiano faz-se necessário apontar suas fontes ou sua gênese partindo dos seguintes dados:
1 - O 'Efeito Westermarck' definido como insensibilização sexual por parte de pessoas que foram criadas juntas durante a infância. Essa hipótese foi levantada pelo antropólogo finlandês Edvard Westermarck, em sua obra prima 'A História do casamento humano' (1891) com o objetivo de explicar o tabu do incesto.
Curiosamente Westermarck, que era um evolucionista de carteirinha, também adotou o modelo gorila como protótipo das primeiras Sociedades humanas, se bem que atribuindo-lhe uma organização familiar em moldes monogâmicos e estáveis, e nem sei porque não escolheu o gibão... Seja como for para ele a organização familiar monogâmica e estável não havia sido invetada pelos primeiros humanos mas tomada a algum antropoide. O modelo familiar grupal ou promiscuo associado a paternidade difusa - tal e qual observam,os nos chimpanzés - desconsertava-o certamente, por mais que malquistasse a fé 'cristã' (enquanto reduto de uma cultura judaica)...
Já dissemos que quanto as sociedades chimpanzés o efeito Westermarck tem se mostrado válido, ao menos no que tange as relações mãe e filho, a ponto de Bowlby, a partir dele, ter formulado a teoria do apego. Embora a teoria do apego seja bem mais rica do que a teoria freudiana clássica, devemos ter em mente que ela não basta para desbancar totalmente a esta tendo em vista a complexidade das determinações sociais. A questão não é substituir uma pela outra uma vez que podem coexistir perfeitamente.
2 - A existência de um tabu bastante disseminado entre as diversas culturas com relação ao incesto. Freud dá tal tabu como universal em 'Totem e tabu' e Levy Strauss pretendeu ter demonstrado sua universalidade em que pesem os exemplos aparentemente contrários do Egito antigo, do antigo Peru e do Hawai. Seja como for não podemos deixar de admitir que se trate de fato do tipo mais disseminado de tabu, e que seja quase que universal.
Em tese Freud não deixou de ter razão quando, contra Westermarck, apelou aos raciocínios elaborados por Frazer. Segundo Frazer, a existência de uma aversão natural ao incesto tornaria incompreensível, por inútil, a existência do citado tabu. Afinal que sentido faria a elaboração de uma lei que nos obrigasse a respirar ou a que nos abstivéssemos de colocar a mão no fogo? Aquilo que é impulsionado pela natureza ou instintivo, como comer e beber, dispensa o reforço da lei.
Sendo assim, somos obrigados a concluir que a aparição deste tabu, o tabu do incesto, implica que num determinado momento da História ou da cultura, os seres humanos sentiram-se tentados a cometer relações incestuosas. Como o não matarás supõem a possibilidade concreta do assassinato e o não roubarás a possibilidade concreta do roubo, o tabu do incesto supõem a possibilidade do incesto.
3 - Nas sociedades chimpanzés, a ocorrência do incesto entre mãe e filho jamais foi verificada enquanto que a ocorrência do incesto fraternal é raríssima. Tampouco há qualquer evidência a respeito de um complexo edipiano entre os indígenas das Ilhas Tobriand, analisados por Mallinowski ou entre as tribos sul africanas analisadas por Margareth Mead.
4 - Já quanto a Sociedade por ele, Freud, analisada não somos autorizados a duvidar que o complexo de Édipo, definido como desejo inconsciente de ter relações íntimas com a própria mãe e como tendência generalizada a encarar o pai ou mesmo o irmão mais velho como um rival, estivesse bastante disseminado entre as crianças e adultos neuróticos.
Podemos no entanto supor que este complexo não fosse como queria Freud, universal ou absoluto mesmo em termos de Sociedade europeia contemporânea, mas típico de pessoas desajustadas. Neste caso seria são ou normal - em tese, mesmo porque existem outros tantos fatores, sexuais e não sexuais, relacionados com a gênese da anormalidade - não o indivíduo que tivesse superado o tal complexo edipiano, mas aquele que não o tivesse desenvolvido ou sido contagiado por ele, cultivando apenas relações afetivas de apego sem conotações de caráter sexual, as quais em si mesmas implicariam desajuste.
A crítica é absolutamente válida caso consideremos que Freud e seus colaboradores analisaram apenas pessoas enfermas ou desajustadas i é histéricos e não pessoas normais. A pŕopria teoria psicanalítica subjacente, segundo Levy Strauss supõem que não existam pessoas sãs ou normais, pelo simples fato de que Freud e seus colaboradores analisaram apenas pessoas anormais, nas quais deram inevitavelmente com o dito complexo edipiano, como um oncologista examinando cancerosos dá necessariamente com nódulos. Não podendo supor todavia, que todos os homens sejam cancerosos ou tenham nódulos.
A simples tese segundo a qual podemos compreender perfeitamente a normalidade a partir da anormalidade, a sanidade a partir da enfermidade ou saúde a partir da doença parece em si mesma bastante discutível. Talvez a condição normal seja bem mais complexa do que a simples ausência de anormalidade. Claro que naqueles que chegaram a ser impregnados por ele, o complexo edipiano, deve ser superado. Sabendo que em termos de mentalidade a superação equivale a cura. Nada nos entanto obriga-nos a admitir sua onipresença. Como Diágoras de Melos perguntou aos religiosos a respeito dos naufragos que não haviam tido suas preces atendidas pelos deuses, somos levados a nos perguntar a respeito de toda gente normal jamais examinada por Freud.
Após termos exposto os dados, problematizemos -
Embora haja controvérsia, daremos por assente e válido o efeito Westermarck, mormente após pesquisa realizada nos Kibutz israelenses durante os anos 80. cf Sepher J 1983 e quanto ao matrimônio chinês Shim-pua.
A baliza do convívio entre a mãe e a criança, os irmãos ou mesmo estranhos, vai até os seis anos de idade. Portanto não vem ao caso as relações sucedidas entre pais que não criaram seus filhos ou entre irmãos que não foram criados juntos, vindo-se a conhecer-se mais tarde. A própria narrativa edipiana enquadra-se nestas circunstâncias, pelo simples fato de Jocasta não ter convivido com seu filho até a idade de seis anos. Destarte a ausência já do apego, já do conhecimento, possibilitou a construção de um outro tipo de relação. Então temos de nos perguntar se um Édipo criado por uma Jocasta até os seis anos de idade construiria uma relação pautada no apego afetivo ou na sexualidade? Sou pelo primeiro tipo de relação, a qual de pronto impossibilitaria a segunda, mesmo em termos de inconsciência.
Outro aspecto a ser levantado é o aspecto da ama de leite ou da babá. O próprio Freud até onde sabemos não apenas teve uma ama de leite durante estes anos cruciais de sua existência, como passou parte significativas dessa quadra entregue aos cuidados dela (s). O que nos ajudaria a compreender porque na falta de um apego mais consistente a mãe biológica o próprio pai da psicanálise teria desenvolvido o complexo edipiano. Haveria a possibilidade de Freud ter influenciado ou contagiado ao menos alguns de seus pacientes, introjetando seus sentimentos neles e fazendo-os declarar o que queria ouvir???? 'Ignorabimus' mas não podemos negar aprioristicamente esta possibilidade.
Quando sabemos o que Nero disse após ter descoberto o cadáver de sua mãe Agripina e contemplado seus seios e quando como historiadores observamos um recrudescer de relações incestuosas na antiga Itália - durante os últimos séculos da I Média e os primeiros séculos da I Moderna, em que a exemplo da antiga Roma a instituição das amas de leite ou babás foi reabilitada após ter sido objeto de tantas críticas - não podemos nos deixar de perguntar a respeito de quantos pacientes de Freud teriam sido cuidados e alimentados por babás ou amas de leite durante a infância. Claro que estamos numa linha de mão única - pois se a criança em formação pode vir a apegar-se a babá e a criar laços de afeto com ela, uma babá sem escrúpulos poderia manipular os órgãos sexuais do bebe (as vezes até sem maldade) produzindo outra situação de conflito... Aqui porém, o problema crucial dirá respeito a uma mãe jovem e bela com que o pequenino pouco conviveu e com a qual não criou laços estáveis de afeto. Temos ainda o caso - hoje bastante raro mas não no passados - das avós que cuidavam dos netos, chegando inclusive a amamenta-los, enquanto as jovens mães debutavam com os esposos... Evidente que, suposta a validade do efeito Westermarck ou da teoria de Bowlby, teríamos aqui - na interferência de uma ama de leite, tia ou avó - uma abertura para a construção de outro tipo de relação entre mãe e filho, suficientemente descrita por Freud.
Claro que as decorrências advindas deste tipo de relação seriam conflituosas e portanto de modo algum saudáveis.
Temos de salientar ainda que tal e qual Freud seus pacientes advinham das classes médias e abastadas de Viena e não das classes pobres, haja visto que os honorários cobrados por ele e seus colaboradores não eram nada modestos. Diante de tais conjunturas não constitui absurdo algum supor que certa parcela dos pacientes analisados pelo pai da psicanálise tivessem construído relações de afeto com suas amas de leite ou babás e relações edipianas com relação a suas próprias mães, devido, como já dissemos, a certo grau de alienação ou afastamento. O próprio exemplo de Freud - por sinal alegado por Steven Pinker em'Como funciona a mente humana' - autoriza-nos a fazer tais suposições, indicando por sinal uma possível linha de pesquisa.
Claro que a possível interferência das babás não basta para explicar a totalidade das ocorrência do complexo de Édipo. Pelo que devemos acrescentar algum outro fator (na verdade dois outros, os quais se completam) quiçá mais generalizado ou presente. Claro que em certo sentido tomamos a direção oposta de Freud, indo da Psicologia para a Sociologia ou do fato Psicológico para um fato Social.
Tendo em conta que nossos parentes mais próximos os chimpanzés - E muito provavelmente nossos ancestrais mais remotos - numa situação de contato pessoal intenso, construíam laços de afeto suficientemente estáveis e duradouros a ponto de impossibilitar a construção de relações incestuosas entre mãe e filhos e que tais relações incestuosas aparecem já na aurora dos tempos como objeto de tabu e consequentemente como uma possibilidade real, somos levados a nos perguntar sobre o que teria sucedido neste meio tempo no sentido de conduzir nossa espécie a relações incestuosas? Que teria acontecido? Que teria mudado???
Creio que o leitor inteligente deu com nossa resposta contida na pergunta.
Diante de tudo quanto temos compendiado a analisado só podemos compreender o afloramento de aspirações incestuosas em nossos ancestrais enquanto resultado de um enfraquecimento do contato social entre mãe e filho antes dos sete anos de idade. O que nos levaria intuitivamente a divisão social do trabalho, a qual pautando-se no gênero institucionalizou a relação - Homem/caçador - Mulher/coletora, a qual observamos ainda hoje em diversas culturas primitivas.
Conforme o homem e a cultura foram evoluindo e a caça, tanto quanto a coleta, se tornando mais e mais complexas - esta devido a uma quantidade cada vez maior de vegetais comestíveis conhecidos, de suas estações e habitats e aquela devido a estratégias e armas cada vez mais elaboradas - tornou-se necessário que o grupo criasse as primeiras instituições educativas, sempre tomando por critério a divisão social do trabalho por gênero. O que nos leva a instituição mais primitiva de que temos notícia entre as culturas primitivas: A casa dos homens e a casa das mulheres. Totem e tabu p 185 O tema da casa dos homens, foi abordado primeiramente por Hienrich Schurtz em 1902.
A já citada advertência de Lang a respeito do dinamismo da cultura primitiva, deve precatar-nos de ver nas atuais associações ou confrarias de homens e mulheres existentes nas comunidades primitivas as instituições originais. Atualmente, na maior parte das culturas, meninos e meninas passam a ter acesso as respectivas casas quando atingem a puberdade, o que entre eles sucede aos onze ou mesmo dez anos de idade. A partir de então os jovens em especial, abandonam o lar e o convívio materno.
Como no entanto a própria noção de puberdade, dificilmente estaria presente na cultura de nossos ancestrais mais primitivos, podemos cogitar que a separação dos sexos ocorria não muito depois do desmame, o que nos povos primitivos chega a durar três ou quatro anos. Quiçá nos tempos primitivos as crianças formassem grupos de lobinhos a partir dos quatro ou cinco anos na casa dos homens. Seria possível que esta redução de 1/3 ou menos quanto o tempo de convívio do menino com a mãe seria suficiente para desencadear uma atração incestuosa? Seja-nos permitido dizer que ela no mínimo favoreceria a construção desse tipo de relação ou que tornaria o menino acessível ou disponível a ele.
Portanto, além da alienação precoce, temos de avançar e procurar um segundo fator, mais forte ou poderoso do que o predisponente.
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Totem e tabu
quinta-feira, 16 de novembro de 2017
O tabu do totem - Uma resposta a S Freud IV (As fontes de 'Totem e tabu' Robertson Smith)
No artigo anterior procuramos demonstrar que Ch Darwin equivocou-se ao tomar a organização social vigente entre os gorilas como ponto de partida para os primeiros grupos humanos e que equivocando-se levou consigo Atkinson e finalmente o pai da psicanálise.
Sem maiores contemplações podemos dar por falsa a primeira premissa tomada por Freud a Atkinson e afirmar que o modelo mais próximo dos primeiros hominídeos foi certamente o modelo chimpanzé, modelo de uma sociedade promiscua e não patriarcal.
Analisemos agora, de passagem a segunda premissa de 'Totem e tabu' tomada a Robertson Smith.
Como é de praxe principiemos dando a palavra ao próprio Freud:
"W Robertson Smith, expoẽm em sua obra sobre a 'Religião dos semitas', publicada cinco anos após sua morte, em 1899, a opinião de que uma cerimônia singular, a chamada 'refeição totêmica', formou, a princípio, parte integrante do sistema totêmico." p 173
"Expõem Robertson que o sacrifício sobre o altar constituía parte essencial do ritual DAS RELIGIÕES ANTIGAS." p 174
Chegando a este ponto fica difícil saber se Freud de fato leu, e se ao ler compreendeu ou se, falseou consciente ou inconscientemente a opinião do exegeta escocês cuja obra em questão, cujo próprio título dá a entender, havia limitado sua exposição aos povos semitas, i é aos aŕabes e aos hebreus, e estendido sua teoria aos povos circo mediterrânicos do segundo milênio a C, sem jamais ter esboçado a pretensão de estendê-la a aurora dos tempos enquanto fundamento de praticamente todas as culturas. Se há uma cousa bastante clara na obra de Smith é o cuidado com que balizou o tempo e o espaço. Freud ao estender a opinião do autor, sem quaisquer evidências concretas por sinal, a História primitiva, acabou deturpando-o.
O pai da psicanálise certamente tinha o direito conferir a hipótese do escocês uma abrangência maior, sem no entanto atribuí-la a ele, fazendo dizê-lo o que jamais pretendeu dizer. Atribuir sua própria constatação ou conclusão ao outro implica desonestidade.
E Freud tem plena consciência a respeito do que fez. Ouça-mo-lo:
"Robertson Smith esta muito distante quanto a nossa opinião a respeito do sacrifício corresponder ao grande evento da História primitiva da humanidade." p 197
De modo que a hipótese sobre o fundamento sacrifical e thiásico da religião primitiva deve ser creditava unicamente a Freud, o qual, ao contrário do exegeta escocês nada demonstrou em termos de concretude ou de evidências arqueológicas.
Foi sem sombra de dúvida a rivalidade existente entre pais e filhos em contexto específico que levou Freud a ver, gratuitamente, na base de toda religiosidade e de toda cultura o parricídio. Projetou assim, o complexo de Édipo, nos albores da História humana e o fruto dessa projeção arbitrária, de teor subjetivo é 'Totem e Tabu'. A distorção ou ampliação da teoria de Robertson Smith possibilitou que o professor judeu/alemão visse apenas o que desejava ou queria ver. Curioso Freud ter visto projeções por todos os lados, menos em suas teorias...
Teria Freud mais mérito caso relacionasse a teoria de Smith com a formação dos primeiros Thiasios ou banquetes comuns oferecidos por uma corporação ou pela cidade como um todo aos deuses oragos. Neste sentido sua análise poderia somar-se a de Fustel de Coulanges. O qual empresta imenso valor em termos sociais aos rituais e sacríficos fúnebres, atendo-se no entanto as instituições indo europeias ou caucasoides, e portanto balizando sua tese, embora com menos rigor e precisão do que o escocês.
Sintomático que Kroeber, em sua crítica, tenha registrado que a filiação dos povos sêmitas a um padrão de cultura totêmico não estava devidamente demonstrada, ao menos até 1920. Curiosamente Kroeber reproduziu aqui uma das conclusões publicadas por Frazer em 1910 (Vol IV de "Totemismo e exogamia"). "Não encontramos traços de totemismo nas antigas religiões semíticas... assim o totemismo se nos parece uma instituição peculiar a algumas das culturas mais primitivas da humanidade." p 14
O próprio F Boas, raramente citado por Freud, e por razões mais do que óbvias, também classificou a doutrina segundo a qual o totemismo corresponderia a uma fase comum a toda espécie humana em termos de cultura - na perspectiva de uma evolução linear (Bem a gosto de Freud) - como fantasiosa. Podemos ler toda esta crítica na 'Sociedade primitiva' de R Lowie, editada precisamente em 1920.
Um dos chavões prediletos de Freud quanto as culturas primitivas consiste em dizer que para eles a família não é nada ou que praticamente inexiste. Mais uma vez Malinowski, orientado por Westermarck, demonstra a existência da família entre os aborígenes africanos, apontados pelo próprio Freud como constituindo o modelo mais primitivo de Sociedade observável em nossos dias (The family among the australian aborigenes). Esta publicação, a primeira de Malinowski em inglês, data de 1913, um ano após a publicação de 'Totem e tabu'.
Lamentavelmente as publicações de um Malinowski, de um Westermarck, de um Kroeber ou mesmo de um Frans Boas jamais chegaram ao conhecimento do público em geral como as de Freud. "Freud elaborou a versão mais imaginativa do totemismo, a qual foi também a mais influente no mundo intelectual como um todo a longo prazo." diz Kuper 2008 (A reinvenção da Sociedade primtiva...) p 150 "A fama e influência destes dois livros - de Freud e Durkheim - veio a rivalizar e talvez até superar o 'Ramo de ouro' de Frazer." id ibd
Convém salientar que o próprio patriarca da antropologia Tylor (1899) após ter mantido silêncio por um bom tempo, ousou declarar que "O totemismo havia sido exagerado desproporcionalmente quanto a sua relevância religiosa. A importância dos animais totens enquanto amigos ou inimigos do homem é insignificante se comparada com a dos espíritos ou demônios, para não falarmos nas divindades superiores.""O totemismo não passa de um fenômeno 'sui generis' ou mesmo de um caso particular, dentro do quadro geral de relações entre o homem e os elementos do mundo natural.". Eis a conclusão a que chegou Firth p 398
Outro aspecto tendencioso de Totem e tabu diz respeito a relação 'essencial' entre totem e exogamia. Quando sabemos que a exogamia é um entre inúmeros tabus. A Kroeber. Aparentemente a relação teria sido tomada por Freud a Frazer (Tometismo e exogamia 1910), a Durkheim (cf "A proibição do incesto e suas origens" 1898) ou ao inglês Rivers, quando já se acha inclusa na definição de Mac Lennan (1869) - "Totemismo é fetichismo mais exogamia e filiação matrilinear." Levy Strauss p 26. Curioso que Freud tenha passado a largo das conclusões a que Frazer chega no volume quarto de sua obra ao reconhecer que havia uma "Distinção radical entre totemismo e exogamia." p 10. O já citado Tylor havia registrado: "Exogamia pode existir e existe sem totemismo e tudo quanto sabemos é que foi originalmente independente dele... a combinação existem em 3/4 das culturas examinadas." Remarks on tomemism ps 144 e 148 Boas declara que a exogamia é anterior ao totemismo, sem pretender no entanto que este seja resultado daquela, como faz observar Levy Strauss - Fondo de Cultura, esp. 1965. Introdução p 24
Claro que estes 3/4 de Tylor bastam para lançar por terra uma teoria que exige identificação absoluta.
Meio século após Goldenweiser ter publicado sua obra (1960), Levy Strauss repassando toda bibliografia e todo problema, assim se exprimiu quando ao Totem e ao totemismo: "O suposto totemismo tem se mostrado irredutível a qualquer esforço de definição em termos absolutos." Levy Strauss - Introdução p 15. Paradoxalmente Freud embarcara numa canoa que havia sido por assim dizer furada por Goldenweiser dois anos antes. E acreditava que a psicanálise, descoberta por si, seria capaz de tapar este furo, fazendo pelo 'totem' ou elo totemismo o que a antropologia ou a etnologia não haviam podido fazer. Paradoxalmente o próprio Rivers fora obrigado a admitir que era impossível formular uma definição satisfatória para totemismo. id p 20
Apenas para terminar é igualmente falacioso o dogma segundo o qual o animal totêmico fosse sempre cultuado pelo grupo ou que apenas pudesse ser morto por ocasião do banquete festivo comunal. Vou citar a título de exemplo o povo Ojbiwa dos quais tomamos a expressão 'otetaman' i é 'Aquele que pertence a minha parentela.' Strauss p 33. Ora, os ojbiwa não creem ser descendentes do animal totêmico e tampouco fazem dele objeto de culto, a exemplo dos aborígenes do interior da Austrália, a saber, os mais primitivos segundo Freud e seus mentores. Por fim "Ao totem se dava a morte e se comia com toda liberdade... e eles afirmavam inclusive que um animal se oferecia com a melhor boa vontade as flechas de um membro de seu clã." id, idbResta-nos finalizar esta exposição assinalando a desconstrução do conceito totemismo já pelo próprio Levy Strauss já por Raymond Firth, na esteira dos já citados Boas e Goldenweiser.
Sem maiores contemplações podemos dar por falsa a primeira premissa tomada por Freud a Atkinson e afirmar que o modelo mais próximo dos primeiros hominídeos foi certamente o modelo chimpanzé, modelo de uma sociedade promiscua e não patriarcal.
Analisemos agora, de passagem a segunda premissa de 'Totem e tabu' tomada a Robertson Smith.
Como é de praxe principiemos dando a palavra ao próprio Freud:
"W Robertson Smith, expoẽm em sua obra sobre a 'Religião dos semitas', publicada cinco anos após sua morte, em 1899, a opinião de que uma cerimônia singular, a chamada 'refeição totêmica', formou, a princípio, parte integrante do sistema totêmico." p 173
"Expõem Robertson que o sacrifício sobre o altar constituía parte essencial do ritual DAS RELIGIÕES ANTIGAS." p 174
Chegando a este ponto fica difícil saber se Freud de fato leu, e se ao ler compreendeu ou se, falseou consciente ou inconscientemente a opinião do exegeta escocês cuja obra em questão, cujo próprio título dá a entender, havia limitado sua exposição aos povos semitas, i é aos aŕabes e aos hebreus, e estendido sua teoria aos povos circo mediterrânicos do segundo milênio a C, sem jamais ter esboçado a pretensão de estendê-la a aurora dos tempos enquanto fundamento de praticamente todas as culturas. Se há uma cousa bastante clara na obra de Smith é o cuidado com que balizou o tempo e o espaço. Freud ao estender a opinião do autor, sem quaisquer evidências concretas por sinal, a História primitiva, acabou deturpando-o.
O pai da psicanálise certamente tinha o direito conferir a hipótese do escocês uma abrangência maior, sem no entanto atribuí-la a ele, fazendo dizê-lo o que jamais pretendeu dizer. Atribuir sua própria constatação ou conclusão ao outro implica desonestidade.
E Freud tem plena consciência a respeito do que fez. Ouça-mo-lo:
"Robertson Smith esta muito distante quanto a nossa opinião a respeito do sacrifício corresponder ao grande evento da História primitiva da humanidade." p 197
De modo que a hipótese sobre o fundamento sacrifical e thiásico da religião primitiva deve ser creditava unicamente a Freud, o qual, ao contrário do exegeta escocês nada demonstrou em termos de concretude ou de evidências arqueológicas.
Foi sem sombra de dúvida a rivalidade existente entre pais e filhos em contexto específico que levou Freud a ver, gratuitamente, na base de toda religiosidade e de toda cultura o parricídio. Projetou assim, o complexo de Édipo, nos albores da História humana e o fruto dessa projeção arbitrária, de teor subjetivo é 'Totem e Tabu'. A distorção ou ampliação da teoria de Robertson Smith possibilitou que o professor judeu/alemão visse apenas o que desejava ou queria ver. Curioso Freud ter visto projeções por todos os lados, menos em suas teorias...
Teria Freud mais mérito caso relacionasse a teoria de Smith com a formação dos primeiros Thiasios ou banquetes comuns oferecidos por uma corporação ou pela cidade como um todo aos deuses oragos. Neste sentido sua análise poderia somar-se a de Fustel de Coulanges. O qual empresta imenso valor em termos sociais aos rituais e sacríficos fúnebres, atendo-se no entanto as instituições indo europeias ou caucasoides, e portanto balizando sua tese, embora com menos rigor e precisão do que o escocês.
Sintomático que Kroeber, em sua crítica, tenha registrado que a filiação dos povos sêmitas a um padrão de cultura totêmico não estava devidamente demonstrada, ao menos até 1920. Curiosamente Kroeber reproduziu aqui uma das conclusões publicadas por Frazer em 1910 (Vol IV de "Totemismo e exogamia"). "Não encontramos traços de totemismo nas antigas religiões semíticas... assim o totemismo se nos parece uma instituição peculiar a algumas das culturas mais primitivas da humanidade." p 14
O próprio F Boas, raramente citado por Freud, e por razões mais do que óbvias, também classificou a doutrina segundo a qual o totemismo corresponderia a uma fase comum a toda espécie humana em termos de cultura - na perspectiva de uma evolução linear (Bem a gosto de Freud) - como fantasiosa. Podemos ler toda esta crítica na 'Sociedade primitiva' de R Lowie, editada precisamente em 1920.
Um dos chavões prediletos de Freud quanto as culturas primitivas consiste em dizer que para eles a família não é nada ou que praticamente inexiste. Mais uma vez Malinowski, orientado por Westermarck, demonstra a existência da família entre os aborígenes africanos, apontados pelo próprio Freud como constituindo o modelo mais primitivo de Sociedade observável em nossos dias (The family among the australian aborigenes). Esta publicação, a primeira de Malinowski em inglês, data de 1913, um ano após a publicação de 'Totem e tabu'.
Lamentavelmente as publicações de um Malinowski, de um Westermarck, de um Kroeber ou mesmo de um Frans Boas jamais chegaram ao conhecimento do público em geral como as de Freud. "Freud elaborou a versão mais imaginativa do totemismo, a qual foi também a mais influente no mundo intelectual como um todo a longo prazo." diz Kuper 2008 (A reinvenção da Sociedade primtiva...) p 150 "A fama e influência destes dois livros - de Freud e Durkheim - veio a rivalizar e talvez até superar o 'Ramo de ouro' de Frazer." id ibd
Convém salientar que o próprio patriarca da antropologia Tylor (1899) após ter mantido silêncio por um bom tempo, ousou declarar que "O totemismo havia sido exagerado desproporcionalmente quanto a sua relevância religiosa. A importância dos animais totens enquanto amigos ou inimigos do homem é insignificante se comparada com a dos espíritos ou demônios, para não falarmos nas divindades superiores.""O totemismo não passa de um fenômeno 'sui generis' ou mesmo de um caso particular, dentro do quadro geral de relações entre o homem e os elementos do mundo natural.". Eis a conclusão a que chegou Firth p 398
Outro aspecto tendencioso de Totem e tabu diz respeito a relação 'essencial' entre totem e exogamia. Quando sabemos que a exogamia é um entre inúmeros tabus. A Kroeber. Aparentemente a relação teria sido tomada por Freud a Frazer (Tometismo e exogamia 1910), a Durkheim (cf "A proibição do incesto e suas origens" 1898) ou ao inglês Rivers, quando já se acha inclusa na definição de Mac Lennan (1869) - "Totemismo é fetichismo mais exogamia e filiação matrilinear." Levy Strauss p 26. Curioso que Freud tenha passado a largo das conclusões a que Frazer chega no volume quarto de sua obra ao reconhecer que havia uma "Distinção radical entre totemismo e exogamia." p 10. O já citado Tylor havia registrado: "Exogamia pode existir e existe sem totemismo e tudo quanto sabemos é que foi originalmente independente dele... a combinação existem em 3/4 das culturas examinadas." Remarks on tomemism ps 144 e 148 Boas declara que a exogamia é anterior ao totemismo, sem pretender no entanto que este seja resultado daquela, como faz observar Levy Strauss - Fondo de Cultura, esp. 1965. Introdução p 24
Claro que estes 3/4 de Tylor bastam para lançar por terra uma teoria que exige identificação absoluta.
Meio século após Goldenweiser ter publicado sua obra (1960), Levy Strauss repassando toda bibliografia e todo problema, assim se exprimiu quando ao Totem e ao totemismo: "O suposto totemismo tem se mostrado irredutível a qualquer esforço de definição em termos absolutos." Levy Strauss - Introdução p 15. Paradoxalmente Freud embarcara numa canoa que havia sido por assim dizer furada por Goldenweiser dois anos antes. E acreditava que a psicanálise, descoberta por si, seria capaz de tapar este furo, fazendo pelo 'totem' ou elo totemismo o que a antropologia ou a etnologia não haviam podido fazer. Paradoxalmente o próprio Rivers fora obrigado a admitir que era impossível formular uma definição satisfatória para totemismo. id p 20
Apenas para terminar é igualmente falacioso o dogma segundo o qual o animal totêmico fosse sempre cultuado pelo grupo ou que apenas pudesse ser morto por ocasião do banquete festivo comunal. Vou citar a título de exemplo o povo Ojbiwa dos quais tomamos a expressão 'otetaman' i é 'Aquele que pertence a minha parentela.' Strauss p 33. Ora, os ojbiwa não creem ser descendentes do animal totêmico e tampouco fazem dele objeto de culto, a exemplo dos aborígenes do interior da Austrália, a saber, os mais primitivos segundo Freud e seus mentores. Por fim "Ao totem se dava a morte e se comia com toda liberdade... e eles afirmavam inclusive que um animal se oferecia com a melhor boa vontade as flechas de um membro de seu clã." id, idbResta-nos finalizar esta exposição assinalando a desconstrução do conceito totemismo já pelo próprio Levy Strauss já por Raymond Firth, na esteira dos já citados Boas e Goldenweiser.
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O tabu do totem - Uma resposta a S Freud III (As fontes de 'Totem e tabu' - Darwin e Robertson Smith))
Segundo Kroeber duas são as principais fontes de 'Totem e tabu'. Acompanhe-mo-lo:
"Antes de tudo a simples hipótese emitida por Darwin e Atkinson... Assim a escolha do gorila como modelo de organização dos primeiros homens é puramente arbitrária pelo fato de excluir os demais hominídeos."
"Segundo ponto. A alegação de Robertson Smith sobre o sacrifício de sangue se o centro de um antigo culto restringe-se as culturas do Mediterrâneo durante um período muito bem definido pelo autor - O qual situou-o nos últimos dois milênios antes desta Era - e nas culturas subsequentemente influenciadas por elas. Trata-se portanto de uma hipótese que não se aplica a religiões de outros lugares e a esfera de outras culturas." Diante de tais 'defeitos' de fabricação somos autorizados a declarar que o 'filho' de Freud é aleijão que capenga de ambas as pernas.
Examinemos agora a crítica levantada pelo antropólogo estado unidense.
Quando a primeira fonte:
"A conclusão que nos parece mais provável, é a de que os homens viveram primitivamente em pequenas sociedades, tendo cada um deles uma só mulher, e as vezes, quando possuía um alto grau de poderio, várias; as quais defendia zelosamente contra todos os demais homens. Pode o homem não ter sido um animal social e ter vivido, sem embargo, COMO O GORILA, com várias mulheres de sua exclusiva propriedade. NOS GRUPOS DESTES ANIMAIS se a constatado sempre a presença de um único macho adulto. Quando o gorila jovem chega a um certo estado de crescimento, luta com os demais pelo controle absoluto do grupo e após te-los matado ou expulsado, se faz chefe supremo.... Os jovens machos assim eliminados e errantes de lugar em lugar consideram a seu tempo um dever, quando chegam a conquistar uma fêmea, impedir quaisquer uniões co sanguíneas demasiado íntimas entre os membros de sua família. Atkinson parece ter sido o primeiro a reconhecer que as condições que Darwin atribui a horda primitiva implicam a exogamia dos machos jovens. Cada um destes desterrados podia fundar horda análoga, no interior da qual ficava assegurada e mantida, por ciúmes, a proibição das relações sexuais. Deste modo, acabaram tais restrições por transformarem-se na regra que hoje em diase nos mostra como lei consciente, ou seja, a proibição das relações sexuais entre os membros da mesma horda. Após a introdução do totemismo assumiu esta proibição o caráter que conhecemos e que proíbe as relações sexuais entre os membros do mesmo totem." p 165
Em que pesem as conclusões de Atkinson - em 'Primal law' 1903 - a temática do gorila como um todo remonta ao teórico evolucionista Ch Darwin (The descendent of man).E nem podemos duvidar de que as conclusões sacadas por Freud dependem prioritariamente dela, e que toda sua teoria caí ou permanece de pé com ela.
De fato o grupo dos pongídeos compreende Orangotangos, gibões, chimpanzés e gorilas. Não apenas gorilas.
Darwin por sinal costumava observar bastante de perto a orangotango Jenny, primeiro exemplar deste animal levado ao Zoológico de Londres. Chegando a declarar inclusive que o Orangotango era como que uma espécie de janela para as origens da humanidade.
No entanto, apesar disto, como Hanon de Cartago, deu o gorila como sendo nosso parente mais próximo e até, em certo sentido, nosso proto tipo sócio cultural. Pelo simples fato de poder vincula-lo, ainda que remotamente, a sua doutrina da seleção natural - "Os jovens machos, sendo expulsos e vagueando por outras plagas, fugiriam, quando bem sucedidos na procura por um parceiro, o intercruzamento próximo dentro dos limites da família." Darwin 1874 p 901 Claro que isto favoreceria a variedade das formas sexuais ou numa releitura contemporânea a variabilidade genética.
Quanto a Freud e sua teoria, a escolha de Darwin, veio a calhar pelo simples fato de que o macho dessa espécie vaga solitário pelas florestas enquanto que a fêmea costuma cuidar sozinha do único filhote, tornando impossível a viabilização do 'complexo edipiano'. Por outro lado Atkinson já havia, de certo modo, aplainado o caminho na medida em que sugerira que num dado momento a mãe recusou-se a permitir que o filho caçula fosse expulso da horda - teria se baseado no mito de Zeus e Cronos? - até que conseguiu manter todos os filhos adultos junto a si. Diante disto o patriarca teria sido impelido a formular uma lei contra o incesto... Kuper 2008 p 151 Quem não percebe que nos achamos na 'soleira' de 'Totem e tabu'??? Atkinson no entanto, como bom cidadão vitoriano que era, prefere resolver toda essa questão de família gorila nos termos de Blackstone i é nos termos da lei ou civilizadamente. Aduzindo daí o tabu generalizado a respeito do incesto...
Freud no entanto era, ao menos culturalmente, germânico e pupilo de Nietzsche. Daí o 'drama' da efusão sangrenta com que finaliza sua versão do conto...
Evidentemente que não podemos responsabilizar Ch Darwin por uma escolha feita numa época em que genética praticamente inexistia.
Hoje no entanto, esta suficientemente demonstrado que Ch Darwin - e consequentemente Atkinson e Freud - equivocou-se, e que nosso parente mais próximo é sem sombra de dúvida o Chimpanzé. Em termos de genética nossa identidade com o chimpanzé é maior... Ponto e basta...
Agora que pensar em termos de cultura? Será que a cultura vai de encontro as constatações da genética ou afasta-se delas?
Até onde podemos saber a arqueologia tem, cada vez mais, coletado evidências no sentido de confirmar a proximidade da nossa organização cultural mais primitiva - australiopitecidea - com a organização social dos chimpanzés.
Tentarei ser sucinto.
Gorilas, sem serem completamente vegetarianos - alimentam-se ocasionalmente de larvas e insetos - não caçam. Daí a organização familiar observada por Savage, Schaller, Fossey, etc e descrita por Darwin e Atkinson. Já os chimpanzés caçam, inclusive pequenos macacos, o que supõem, como no lobo e no leão, estratégia de caça e portanto um grupo mais amplo. E de fato os grupos de chimpanzés agregam inúmeras famílias e clans, chegando a abarcar cem indivíduos.
Freud no desenvolvimento de sua teoria chega a fazer alusão a tecnologia de implementos. Sem no entanto declarar que se tratavam de implementos de caça, os quais, segundo o testemunho da arqueologia, destinavam-se a caçar. Estudos de rádio carbono efetuados em 1992 e 1994 evidenciaram o consumo de carne por parte dos australiopithecus.
Não ignoro a questão do dimorfismo quanto a altura dos machos e fêmeas deste grupo. O qual nos primeiros humanos ( H erectus e H Habilis) aproximava-se dos 20%, também aqui análogo ao existente entre os chimpanzés. Devemos considerar no entanto que os primeiros representantes do gênero Homo eram mais acentuadamente caçadores do que seus ancestrais australiopicídeos... isto a ponto de caçarem grandes mamíferos, o que nos leva mais uma vez, e decididamente a grande comunidades de caçadores e não a pequenas famílias de coletores.
Se algo no Australiopitecus reportava ao gorila, deixando alguma dúvida pairar no ar, isto já não ocorria com os primeiros representantes do gênero Homo. O Homo habilis é caçador, talha seus implementos e alimenta-se inclusive de australiopitecídeos... A simples indústria lítica basta para sugerir a formação de um grupo social mais amplo que a simples comunidade familiar.
A arqueologia apoia decididamente a tese segundo a qual Homo Habilis, Homo Ergaster e Homo Erectus viviam em grupos constituídos por diversas famílias ou clans a exemplo dos chimpanzés e não em pequenas comunidades patriarcais. Não basta reconhecer com Freud que semelhante modelo social - análogo ao do gorila - JAMAIS PODE SER OBSERVADO EM PARTE ALGUMA QUANTO AO 'HOMO SAPIENS SAPIENS' p 185. É necessário deixar bem claro que se sua identificação com o regime de vida dos Australiopiothecus é duvidosa, sua identificação com o regime de vida dos primeiros representantes do gênero Homo é insustentável.
Não estamos mais diante de vegetarianos ou coletores que vivem em famílias e tampouco de caçadores episódicos como os chimpanzés, mas diante de comunidades de caçadores especializados e já se disse que a caça plasmou o homem e acelerou sua evolução. Ora a caça é por definição uma atividade social em termos de estratégia. Agora adicionem a este quadro uma indústria lítica e a hipótese da indústria lítica cai por terra.
Seja como for seria bastante ousado postular a existência, nos homens de hoje, de agregados psíquicos persistentes ( apenas parodiando, num bom sentido Wilfredo Pareto ) que remontem a hominídeos que floresceram há dois milhões de anos e meio. Temos de lembrar que o primeiro representante do gênero Homo, o Habilis, extinguiu-se a cerca de oitocentos mil anos. E que o Homo Erectus passou a História a não menos de trezentos mil anos. Aqui a transmissão consciente de cultura, em tese possibilita a transmissão de fragmentos ou vestígios agregados a mente do homem atual.
O próprio cérebro não deixou de evoluir durante todo este tempo em que o homem consumiu gordura e por fim a carne assada dos grandes mamíferos em quantidade cada vez maior. Foi justamente esta evolução da base somática ou física de nossos ancestrais que possibilitou a elaboração de um aparato psíquico tão complexo quanto o nosso, acompanhando a mente a evolução do corpo, e transformando-se com eles.
Diante deste quadro supor alguma herança ou legado psíquico de simples hominídeos, quiçá anteriores ao Australiopithecus, é exercício altamente especulativo, que Etnólogo, Antropólogo ou Sociólogo algum jamais aventurou-se a fazer, por mais imaginativos que tenham sido.
A simples tese - bem parecida com o monogenismo bíblico por sinal - segundo a qual um evento sucedido no interior do primitivo tronco (leia-se aqui horda ou o que quiser) plasmou a direção psíquica ou cultural de toda espécie, exige para ser validade, que esse evento - quanto ao Homo Habilis - tenha ocorrido a dois milhões de duzentos mil anos, e quanto ao Homo Erectus, que tenha sucedido a um milhão e oitocentos mil anos! Por outro lado se devemos situar tal evento a aparição do Sapiens Sapiens, devemos situamo a no mínimo trezentos e cinquenta mil anos.
Sucede no entanto que o Neanderthal apareceu cinquenta mil anos antes e constitui cultura própria. E que parte dos Sapiens Sapiens 'cruzou' com eles... além é claro de terem trocado experiências em termos de cultura.
Problematizemos ainda mais.
A simples existência de raspadores de pele numa época tão remota quanto 780 mil a C nos faz deduzir a existência de roupas de pele. O uso do fogo remonta a quase dois mil anos e seu controle efetivo a um milhão de anos. É provável que o abrigo tropical preceda a descoberta do próprio fogo e o uso de cavernas na Zona temperada remontando a mais de um milhão de anos. A indústria lítica parece ter surgido com o H Habilis a cerca de dois milhões de anos. Assim a própria caça... De modo que os principais elementos da cultura procedem o aparecimento tanto do H neandertalensis quanto do H Sapiens. Resultando disto ser absolutamente falso que o evento incestuoso ou o complexo de Édipo estejam na base de todas as nossas conquistas culturais e por assim dizer da Religião e da Moralidade.
A menos que tal experiência remonte no mínimo a um milhão e oitocentos anos, numa fase que nosso aparelho cerebral ainda esteva em formação e sujeito a determinadas transformações. Semelhante baliza temporal torna as hesitações expressar por Freud nas últimas páginas de seu Ensaio - justamente quanto ao modo porque essa experiência foi transmitida a posteridade - ainda mais consistentes. Tanto pior se levarmos em conta não apenas a inexistência da escrita mas o próprio caráter rudimentar da linguagem naquela fase da evolução cultural... Quando a precariedade do aparato cerebral em desenvolvimento já nos referimos.
Se o simples conceito de consciência ou alma coletiva, alias aduzida por Jung, já é discutível em termos de cultura atual ou como algo formado nos últimos milênios ou dezenas de milênios, faze-lo remontar a um ou dois milhões de anos parece-nos ainda mais ousado do que as especulações dos etnólogos, antropólogos e sociólogos apontadas por Freud.Tomada primeiramente a genética, a arqueologia e por fim a própria antropologia cultural; a evidência de que os primeiros gêneros do Homo, assemelhavam-se mais aos chimpanzé do que ao gorila, só nos resta admitir que a administração ou fruição da vida sexual era similar e inferir com toda verossimilhança, que o Habilis e o Erectus não viviam isolados em comunidades familiares poligâmicas a semelhança de um sultão, mas em regime de promiscuidade, em que as fêmeas férteis estavam disponíveis a todos os machos, em que pese, sem dúvida, a preponderância do macho alfa, a qual nem de longe implica posse exclusiva ou controle.
Segundo os primatólogos Waal e Goodall uma jovem chimpanzé acaba sempre transando com outros machos além do macho alfa ou com diversos membros do grupo. A própria 'vastidão' do grupo impede que o macho alfa consiga controlar esta tendência.
Consideremos agora que as chimpanzés ignorem o instante em que concebem de determinado macho... ou que mesmo tendo ciência disto (!!!) não possuam um calendário para marcar tal evento ou um Diário para registra-lo. Por fim que ignorem essa 'coisa maravilhosa de deus' que é o exame de DNA.
Que aduzir daqui?
Que cria alguma pode saber quem é seu pai!
O que destrói pelo fundamento a metafísica freudiana ou a formulação de um complexo edipiano a parte de determinada formação cultural. Nem estamos dizendo que o complexo edipiano não exista em determinada realidade espacial e temporal... Limita-mo-nos a negar sua amplitude e presença universal, o quel por sinal já foi suficientemente demonstrado por M Mead quanto a primitiva cultura africana e por Malinowsky quanto aos habitantes das Ilhas Tobriand.
Sem que haja paternidade definida, como é próprio da organização sexual grupal, o tão decantado Complexo de Édipo vai-se pelo ralo abaixo. Impossível formula-lo em termos de paternidade difusa... bem a gosto da "República" do velho Platão... Onde todos os machos são pais das crias.
Devo acrescentar ainda que o incesto filha/ pai e irmão/irmão é frustrado em função das jovens chimpanzés migrarem para outros grupos. Estabelecendo-se em cada grupo, quanto ao macho que ali permanece, uma organização matrilinear, a qual parece corresponder da mesma maneira a organização dos primeiros grupos humanos. Freud como conhecedor de J J Bachofen e L Morgan, esta perfeitamente ciente disto p 140/142. O próprio matriarcado e a existência das divindades femininas, como a grande mãe, se lhe apresentam como algo um tanto enigmático. p 194 Evidente que a matrilinearidade supõem a ignorância quanto a pessoa do genitor, e a formação promiscua dos primeiros grupos humanos.
Resta-nos indagar a respeito das relações mãe e filho na Sociedade promiscua dos chimpanzés. Aqui mais uma vez os primatólogos são terminantes - jamais puderam observar chimpanzés machos copulando com suas mães biológicas em estado de liberdade ou natureza. Quanto a isto é necessário ter em mente a constatação basilar de Wolfgang Kohler segundo a qual um chimpanzé enjaulado e isolado, privado com contato com o grupo, não é um chimpanzé de verdade, uma vez que se tratam de animais caracteristicamente gregários.
Seja como for em estado de natureza, o incesto mãe/filho jamais foi verificado nas Sociedades chimpanzés.
Outro aspecto não menos interessante da relação mãe/filho entre os chimpanzés é a estabilidade ou durabilidade dos vínculos afetivos, os quais supostamente impedem a ativação das relações sexuais ou mesmo do próprio desejo. O que nos levaria a hipótese de Westermarck - Efeito Westermarck - a ser discutida noutro artigo.
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quarta-feira, 15 de novembro de 2017
O Tabu do totem - Uma resposta a S Freud II (O significado de Totem e tabu)
a análise de Kroeber (opus cit) é a obra de Freud uma obra piramidal uma vez que após discorrer sobre as premissas durante nove décimos dela, saca as conclusões nas últimas vinte páginas.
E com Kroeber até podemos dizer que há ali premissas muito mais interessantes do que a conclusão, tal e qual a relação ambivalência/tabu analisada no capítulo II e de capital importância para compreendermos a personalidade do homem primitivo e a gênese de sua cultura.
Quanto as exóticas conclusões, demos a palavra ao próprio Freud, o qual, por sinal, expressa-se bastante bem.
"A psicanálise nos mostra que o animal totêmico, é, na realidade, uma representação do pai, fato com que harmoniza-se a contradição de que estando proibida sua morte numa época normal qualquer, se celebre com uma festa seu sacrifício, e que depois de mata-lo se lamente e chore sua morte. A atitude afetiva ambivalente, que ainda hoje caracteriza a relação com o pai em nossos meninos, e perdura, não poucas vezes na vida adulta, se estenderia portanto ao animal totêmico, considerado aqui como um substituto do pai." p 185
"Todo supõem a existência de um pai violento e ciumento, o qual reservaria pata si mesmo todas as fêmeas e expulsa os filhos conforme vão crescendo. Semelhante estado social jamais foi observado em parte alguma. A organização mais primitiva que conhecemos e que ainda subsiste em algumas tribos reporta as associações de homens... Os irmãos expulsos reuniram-se certo dia, MATARAM O PAI E DEVORARAM SEU CADÁVER, pondo fim a existência da horda paterna. Unidos levaram a cabo o que individualmente lhes teria sido impossível. Pode supor-se que o que inspirou-lhes tal sentimento de superioridade FOI O PROGRESSO DA CIVILIZAÇÃO, COMO O DISPOR DE UMA ARMA NOVA. Tratando-se de selvagens canibais era natural que devorassem seu cadáver. Ademais, o violento e tirânico pai constituía seguramente um modelo odiado e temido por cada um dos membros da associação fraternal, os quais devorando-os passam a identificar-se com ele e a apropriar-se de parte de sua força. O banquete totêmico, talvez quem sabe a primeira festa da humanidade, seria a reprodução comemorativa deste ato criminoso e memorável PONTO DE PARTIDA DE TODAS AS ORGANIZAÇÕES SOCIAIS, DA MORALIDADE E DA RELIGIÃO." 185 sgs
"Assim a proibição do incesto apresenta uma grande importância prática. A necessidade sexual, ao invés de unir os homens, divide-os. Os irmãos unidos com o objetivo de assassinar o pai, haveriam de converter-se em rivais ao tratar-se da posse das fêmeas. Cada um deles haveria de querer todas apenas para si mesmo a exemplo do pai, e a luta geral daí resultante haveria de trazer consigo o naufrágio da nova organização social. Afinal não havia nela individuo algum superior aos demais por seu poder, ao qual tivesse sido possível assumir com êxito o lugar o pai. Portanto, se os irmãos quisessem viver juntos, não havia outra solução senão instituir... a proibição do incesto, por meio da qual renunciavam todos a posse das mulheres cobiçadas, alias móvel do parricídio. Destarte salvavam a organização que os havia feito fortes a qual talvez repousasse sobre sentimentos e práticas homossexuais." 187
"A horda fraterna rebelde abrigava com relação ao pai os mesmos desejos contraditórios que formam o conteúdo ambivalente do COMPLEXO PATERNO EM NOSSOS MENINOS E EM NOSSOS DOENTES NEURÓTICOS. Odiavam aquele pai que tão violentamente se opunha a sua necessidade de poderio bem como a suas exigências sexuais, e ao mesmo tempo amavam-no e admiravam-no. Assim depois de o terem chacinado e consumado seu ódio tinham de sobrepor-se neles sentimentos carinhosos, até então dominados pelos hostis. Como consequência deste processo afetivo surgiu o remorso e por fim a consciência de culpa com ele confundida, desde então o pai morto adquiriu prestígio ainda maior do que gozava em vida... Aquilo que o pai havia tornado impossível enquanto vivia por seu próprio poder, proibiram-se a si mesmos os filhos em virtude de uma obediência retrospectiva... desautorizaram assim seu ato, proibindo a morte do totem que substituía o pai e renunciaram colher os frutos de seu crime, recusando o contato sexual com as fêmeas do grupo, então acessíveis para eles. Deste modo a culpabilidade do filho... COINCIDE COM OS DESEJOS REPRIMIDOS DO COMPLEXO DE ÉDIPO." 187
"Podemos assim concluir que no COMPLEXO DE ÉDIPO coincidem os começos da religião, da moral, da sociedade e da arte, coincidência que se nos mostra perfeitamente de acordo com as descobertas da psicanalise, quando sabemos alias que este complexo constitui o fundamento de todas as neuroses." 203
Freud acreditava no modelo do gorila e portanto que nossos ancestrais mais remotos viviam em pequenas comunidades familiares de caráter poligâmico - o primeiro grupo hipotético recebeu o nome de horda - organizadas em torno de um macho dominante ou alfa, de duas a quatro fêmeas, e os filhos mais jovens do 'patriarca'.
Na medida em que os jovens do sexo masculino atingiam a puberdade eram expulsos do grupo, muitas vezes a força, de modo a não se tornarem rivais sexuais seus.
No entanto, a provável invenção dos implementos líticos ou das ferramentas/armas de pedra, possibilitou que os filhos expulsos da horda, juntassem forças matassem e devorassem o 'patriarca', afinal o canibalismo estava em moda.
O resultado ou efeito natural da morte do pai teria sido a posse das fêmeas por parte dos filhos/irmãos vencedores, estes no entanto, acabaram renunciando a tal posse por dois motivos:
a) O remorso ou a consciência culposa quanto a morte do pai, fruto da ambivalência.
b) A situação de conflito generalizado resultante da disputa das fêmeas pelos irmãos.
Desta renúncia as fêmeas i é as mães e irmãs teria resultado o tabu do incesto.
Ainda segundo Freud os animais com que os clans passaram a identificar-se - segundo um esquema bastante comum a mentalidade infantil - também representavam igualmente a figura do pai assassinado. Daí a consciência culposa levar tais clans a proclamar a vida deste animal um tabu. A exceção de um dia ao 'ano' ficavam os indivíduos proibidos de caçar, matar ou maltratar este animal. Num determinado dia porém, o clã inteiro não dó podia como devia mata-lo e devora-lo. Segundo Freud esta festa ou comemoração periódica perpetuaria a memória do parricídio ancestral ponto de partida de nossa civilização.
Como o fundamento da co fraternidade posterior a extinção da horda primordial seria a proibição do incesto ou do contato sexual com a própria mãe, objeto de um desejo inconsciente universal, temos no complexo de Édipo - nome dado por Freud a esse desejo - ou em sua renúncia o protótipo de todas as renúncias posteriores que deram origem a cultura.
Concluindo: Todas as nossas instituições culturais, morais e religiosas resultariam de um parricídio ancestral. As religiões de modo geral prestaram-se perfeitamente a perpetuar essa dinâmica da substituição do 'deus pai' pelo deus filho, assim na mitologia grega quando Cronos assassina Urano e quando Zeus depõem Cronos; assim no Cristianismo quando o Deus Filho encarnado suplanta a Deus, o Pai. Elas também dariam ressignificação a culpa original explorando de diversas formas a ideia de sacrifício expiatório e alimentando-se dessa consciência mítica de culpa.
O tabu do totem - Uma resposta a S Freud
Preliminares
Em que pese 'Totem e tabu' ter sido escrito há mais de um século são poucos os críticos - desde Alfred Kroeber (1920) - dispostos a lê-lo com independência de espírito, apontando os desacertos e fazendo as devidas ressalvas.
No entanto, após termos lido o pequeno ensaio de Kroeber, fomos como que constrangidos a assumir este 'encargo'.
O próprio Freud nas últimas linhas do trabalho recusou-se a tirar conclusões definitivas (Madrid 1988 - p 209). Poucas páginas antes havia registrado: "Nós não desejamos ocultar, de modo algum, as incertezas inerentes a nossas premissas e as dificuldades com que tropeça a aceitação de nossas conclusões." p 203. Somos portanto, autorizados a descrever sua obra como uma 'tentativa' Psicológica.
Mas a que vem ao caso aqui uma 'tentativa Psicológica'?
Para compreendermos devidamente o 'porquê' de semelhante tentativa temos de compreender a situação da Antropologia e da Etnologia pelos idos de 1900... Bastando-nos para tanto acompanhar o próprio Freud. 142 Isto a propósito do Totemismo, isto é, de sua origem.
Tentemos colocar a questão do modo mais claro possível.
É o totemismo fenômeno social presente em determinado número de culturas primitivas, como os Arunta da Austrália além de diversas tribos Americanas e africanas. Tal instituição foi simplesmente detectada nas citadas culturas sem que elas mesmas fossem capazes de esclarecer qualquer coisa a respeito de seu surgimento. Para complicar ainda mais a questão desde Mac Lennan (1869) mais e mais evidências tem sido aduzidas a respeito de um passado totêmico para além das grandes civilizações mediterrânicas ou europeias. Sem que no entanto topemos com qualquer esclarecimento a respeito das fontes do totemismo.
Consideremos agora que as culturas da Idade da pedra eram iletradas, ou seja, que não possuíam códigos escritos, tal e qual as culturas primitivas a que nos referimos. Em tal conjuntura é absolutamente natural que tenham surgido lacunas a respeito de diversos aspectos da Idade da pedra e lacunas que decorrem do próprio método arqueológico. Neste caso como completa-las?
Em Louis Figuier 1883 damos com a tese, ventilada por Lord Avebury (Sir John Lubbok), segundo a qual devemos buscar tais informações suplementares - a respeito da Idade Primitiva - no regime de vida e instituições dos povos primitivos e portanto da Etnologia ou da Antropologia cultural. Muito do que topamos nas Origens da civilização, no Homem antes da História e no Homem pré histórico procede desta fonte.
Passado menos de meio século, já Andrew Lang (em 'O segredo do Totem' p 27) aditava as seguintes ressalvas, alias reproduzidas por Freud - "Tampouco os povos primitivos tem conservado as formas originais das instituições existentes entre eles ou as condições de sua formação." 143 Querendo dizer com isto que mesmo as culturas que ora encaramos como primitivas passaram certamente por algumas transformações ao cabo de tantos e tantos milênios, e que a condição delas não é estática ou idêntica a das culturas que floresceram na Idade da Pedra. Logo explicar a Idade de pedra a partir das culturas primitivas sempre poderá conduzir-nos ao anacronismo.
Diante disto que fazer?
Em termos de Etnologia e de Antropologia cultural, diz Lang "Nós nos vemos obrigados a completar as lacunas advindas da observação direta por meio das CONJECTURAS." P 143
Disto decorre a situação de 'divisão' teóricas alardeada e explorada por Freud: "Sendo assim soará estranho a nossos leitores que tendo em vista responder a tantas questões os investigadores assumiram diferentes pontos de vista e que seus resultados mostram grandes divergências." p 143 Em seguida, apelando a autoridade de Goldenweiser, certifica que um número cada vez maior de pesquisadores tem dado tal questão - da origem do Totem - por insolúvel. p 144
No entanto, após termos lido o pequeno ensaio de Kroeber, fomos como que constrangidos a assumir este 'encargo'.
O próprio Freud nas últimas linhas do trabalho recusou-se a tirar conclusões definitivas (Madrid 1988 - p 209). Poucas páginas antes havia registrado: "Nós não desejamos ocultar, de modo algum, as incertezas inerentes a nossas premissas e as dificuldades com que tropeça a aceitação de nossas conclusões." p 203. Somos portanto, autorizados a descrever sua obra como uma 'tentativa' Psicológica.
Mas a que vem ao caso aqui uma 'tentativa Psicológica'?
Para compreendermos devidamente o 'porquê' de semelhante tentativa temos de compreender a situação da Antropologia e da Etnologia pelos idos de 1900... Bastando-nos para tanto acompanhar o próprio Freud. 142 Isto a propósito do Totemismo, isto é, de sua origem.
Tentemos colocar a questão do modo mais claro possível.
É o totemismo fenômeno social presente em determinado número de culturas primitivas, como os Arunta da Austrália além de diversas tribos Americanas e africanas. Tal instituição foi simplesmente detectada nas citadas culturas sem que elas mesmas fossem capazes de esclarecer qualquer coisa a respeito de seu surgimento. Para complicar ainda mais a questão desde Mac Lennan (1869) mais e mais evidências tem sido aduzidas a respeito de um passado totêmico para além das grandes civilizações mediterrânicas ou europeias. Sem que no entanto topemos com qualquer esclarecimento a respeito das fontes do totemismo.
Consideremos agora que as culturas da Idade da pedra eram iletradas, ou seja, que não possuíam códigos escritos, tal e qual as culturas primitivas a que nos referimos. Em tal conjuntura é absolutamente natural que tenham surgido lacunas a respeito de diversos aspectos da Idade da pedra e lacunas que decorrem do próprio método arqueológico. Neste caso como completa-las?
Em Louis Figuier 1883 damos com a tese, ventilada por Lord Avebury (Sir John Lubbok), segundo a qual devemos buscar tais informações suplementares - a respeito da Idade Primitiva - no regime de vida e instituições dos povos primitivos e portanto da Etnologia ou da Antropologia cultural. Muito do que topamos nas Origens da civilização, no Homem antes da História e no Homem pré histórico procede desta fonte.
Passado menos de meio século, já Andrew Lang (em 'O segredo do Totem' p 27) aditava as seguintes ressalvas, alias reproduzidas por Freud - "Tampouco os povos primitivos tem conservado as formas originais das instituições existentes entre eles ou as condições de sua formação." 143 Querendo dizer com isto que mesmo as culturas que ora encaramos como primitivas passaram certamente por algumas transformações ao cabo de tantos e tantos milênios, e que a condição delas não é estática ou idêntica a das culturas que floresceram na Idade da Pedra. Logo explicar a Idade de pedra a partir das culturas primitivas sempre poderá conduzir-nos ao anacronismo.
Diante disto que fazer?
Em termos de Etnologia e de Antropologia cultural, diz Lang "Nós nos vemos obrigados a completar as lacunas advindas da observação direta por meio das CONJECTURAS." P 143
Disto decorre a situação de 'divisão' teóricas alardeada e explorada por Freud: "Sendo assim soará estranho a nossos leitores que tendo em vista responder a tantas questões os investigadores assumiram diferentes pontos de vista e que seus resultados mostram grandes divergências." p 143 Em seguida, apelando a autoridade de Goldenweiser, certifica que um número cada vez maior de pesquisadores tem dado tal questão - da origem do Totem - por insolúvel. p 144
A partir daí passa Freud a elencar as principais matrizes explicativas do fenômeno - A nominal ou funcional de H Spencer, Max Muller, Lang e Avebury, A Sociológica de S Reinach, Durkheim, Haddon e Frazer e a Psicológica de Wilcken, Fr Boas e finalmente Wundt, um dos pais da psicologia e autor da Psicologia dos povos (1912). Buscando editar as críticas de cada um ou lança-los uns contra os outros, declarando - "E como sucede amiúde cada um destes autores mostra mais acerto quanto as críticas que dirigem aos demais, do que na parte positiva de seus trabalhos." 144
Curiosamente o próprio Kroeber (cf Totem e tabu na psicanalise etnológica) havia chamado a atenção para a demasiada liberdade com que os diversos etnólogos, antropólogos e sociólogos, haviam formulado suas conjecturas.
Seja como for Freud não apenas concluí pela impossibilidade de tais disciplinas - Assim a etnologia, a antropologia e a sociologia - chegarem a qualquer conclusão mais consistente sem o auxílio da Psicologia (o que é perfeitamente admissível), como dispara: "Somente a psicanálise projeta alguma luz em meio a tantas trevas." p 166
Assim de sua Psicanálise 'Fiat lux'...
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