Caso esteja você a ler estas linhas saiba antes de tudo que foram escritas por um Cristão consciente e convicto. Por um Cristão atanasiano ou niceno, alias um dos poucos Cristãos atanasianos pertencentes aos altos meios acadêmicos. Por alguém que acredita piamente não apenas na divindade de Jesus mas também na Virgindade perpétua de sua mãe. Por alguém que lê o Evangelho todos os dias, que estuda a Tradição patrística, que julga ser estritamente Ortodoxo, que exerce um apostolado e estima a doutrina. Por alguém que recita as horas, faz a Páscoa e tem a seu encargo a instrução dos fiéis... Seja portanto mais rápido no ler do que no julgar. Pois certamente ficará bastante surpreendido com o que tenho a lhe dizer.
Afinal tenho quase 110% de certeza de que 99% dos cristãos que iniciarem esta leitura deste artigo julgarão que acusarei o citado grupo de comediantes ameaçando-o não apenas com os fogos eternos do inferno mas também com a violência do poder temporal... Por isso digo que vocês ficarão surpreendidos ou mesmo exasperados. Alguns ficarão indignados com o que estão por ler e da mesma forma como desejaram o câncer para os atores da porta, deseja-lo-ão para mim. E praguejarão... amaldiçoarão, etc
Sei que será assim porque nasci e fui educado como protestante. Porque tendo passado pela igreja romana conheço o que há de melhor e de pior nela. Enfim porque me tornei Católico Ortodoxo... Estando habituado a ouvir ameaças e escutar pragas por parte daqueles que deveriam antes de tudo ouvir, abster-se de julgar e abençoar; sim abençoar, pois Ele disse: "Abençoai os que vos maldizem!". Como disse: "Sereis perseguidos.", jamais: "Sereis perseguidores ou algozes." - Logo há algo de muito estranho neste novo cristianismo feroz, dos perseguidores e dos que amaldiçoam.
Partindo do princípio de que o programa humorístico em questão levou a paródia e assim ridicularizou a adorada figura de Jesus.
Não é a primeira vez que ouvimos semelhantes rumores - Caio Fábio fez-nos o favor de trazer-nos a memória 'Jesus Cristo super star'. Recordei algumas tiradas de Monty Phyton, outras tiradas bem mais agressivas do Charlie, o polêmico filme 'A última tentação de Cristo'... outras tantas personagens passaram-me pelos miolos: O Dr Binet Sanglé, Leon Tolstoi, Kazantzakis, M Mastroianni, etc De modo que bem poderia eu citar: "Nada há de novo debaixo dos céus." ou ainda "A História se repete primeiro como tragédia e em seguida como comédia."
Tudo quanto vemos e pensamos porém, em termos de distorção, blasfêmia, sacrilégio, irreverência, etc nada tem de original. Tudo 'palha' em comparação com o que tem feito os cristãos nominais no decurso dos últimos séculos. De fato a Porta nada fez ou faz além de devolver o presente confeccionado pelos cristãos nominais nas oficinas a que chamam igrejas. E já vou dizendo que não há maior nem melhor fábrica de blasfêmias e sacrilégios do que elas, e que todos os dias a humanidade tem sido levada a maldizer a pessoa de Jesus Cristo graças a tais organizações sectárias.
Nenhum Jesus mais falso do que este apresentado pelos neo Cristãos, no decurso do último século, por esta Escola de ateísmo chamada 'Teologia da prosperidade'.
Que pensar, com efeito, daqueles que pintam o Deus que aniquilou a si mesmo, despojando-se de sua glória, a semelhança de um nababo ou milionário?
Leem que seu Senhor nasceu numa manjedoura ou gruta e imaginam ter nascido ele num palácio ou berço de ouro...
Ouvem a exortação sagrada: Não junteis tesouros neste mundo... e utilizam-se de sua palavra com o objetivo de amealhar tesouros.
Escutam dia após dia: Não podeis servir a Deus e as riquezas. E acumulam riquezas em nome de Deus!
Recitam a todo instante: O que de graça recebestes, de graça dai. E cobram, e vendem, e traficam... em nome Dele.
Ouvem que Lázaro, o rico egoísta, foi lançado as chamas, e imitam-no.
Fingem acreditar ser mais fácil uma corda ou um elefante passar pelo fundo de uma agulha do que o rico entrar no paraíso celestial e tomam posse de imensa fortuna.
Sabem que ele deseja misericórdia, não sacrifício e declaram que ele deseja dinheiro! Cônscios de que ele demanda pelos corações dos homens ocupam-se apenas das bolsas e cofres...
Testemunham o Redentor conflitante com os escribas e fariseus, e cobram dízimos...
Observam o Justo ser suspenso nu, no alto de um madeiro, como espetáculo as nações; e declaram ter sido ele bem sucedido....
Percebem-no expulsando os vendedores do santuário e apresentam-no como empreendedor.
Ouvem-no proclamar Felizes os desapegados e proclamam que a verdadeira bênção é a prosperidade.
Duvidam de que Deus derrubara os poderosos de seus tronos e exaltara os pequeninos. Buscam as grandezas da terra...
Embora ele não tivesse uma pedra sobre a qual depor sua fronte cansada eles habitam em castelos.
E não tendo nascido num castelo é sepultado num túmulo emprestado.
Em sua maldade tem ousado comparar a jumenta com que entrou em Jerusalém a uma Ferrari, ignorando que seja um puro sangue árabe...
É até se esforçam por demonstrar que este nosso Jesus foi um milionário ou avarento.
Todas as bem aventuranças exaltadas pelo Senhor eles substituem pela posse de bens materiais e para eles o Mestre até Poderia ter sido um banqueiro ou Senhor de escravos.
Avançado pela senda da iniquidade autorizam a venda de toda sorte de amuletos e bugigangas, estabelecem taxas e proclamam feliz ou bendito o comprador.
Por fim, completando todas as medidas, afirmam que Deus ama e recompensa aquele que paga ou oferece dinheiro com sinais e prodígios; assim que o Santo comercializa seus dons e vende suas graças; embora ele diga e repita - NÃO FAÇO EU ACEPÇÃO DE PESSOAS.
Mas eles assegura que este Jesus favorece o rico e prefere o milionário.
Oferecem a pobre humanidade um Jesus que se vende, um Jesus corrupto, um Jesus venal, um Jesus avarento e prostituido!!! Eis o ídolo podre que tem eles oferecido aos tolos nestes últimos cem anos! Eis a paródia... Substituíram Jesus por Tetzel, o traficante de indulgências desmoralizado por Lutero, e este que seu mestre apresentou como ímpio e vil transformaram em Deus.
Que tem de concreto, histórico e real este novo Jesus 'empreendedor' e financeiramente bem sucedido, concebido a imagem e semelhança dos pastores avarentos? Nada.... Absolutamente nada.
Tendo recebido a oferta desse Jesus estranho, como uma espécie de tapa ou bofetada, a humanidade - insultada pelo pentecostalismo - revida por meio da Porta dos fundos...
Recebemos por paga uma paródia da paródia que fizemos. A nossa no entanto foi feita por supostos homens de fé...
Julgo que a paródia do Gregório seja depurada ou menos maliciosa e grosseira.
Esperneia agora esse mesmo 'bom cristão' ou cidadão exemplar que há mais de século assiste Jesus ser apresentado como vendilhao sem jamais ter pensado em protestar...
Pelo menos dos Católicos o protesto chega com atraso.
Acaso não tem eles engolido essa teologia podre da prosperidade... Sem soltar um suspiro ou dar um grito....
Verdadeira blasfêmia não é a porta dos fundos apresentar o Redentor como um homossexual, que isto não muda coisa alguma nem o atinge....
Verdadeiro sacrilégio é você Ortodoxo ou romano 'devoto' sem obras - é portanto de alma protestantizada - sair da liturgia ou da Igreja e passar pelo pobre ou pelo mendigo, batizado, membro de Cristo e irmão seu, sem sequer olhar para ele ou dar-lhe a esmola de uma palavra... Julgando ser ele um parasita ou vagabundo.
Se isso não é capaz de choca-lo ou de sensibiliza-lo julgo que Nosso Senhor poderia apontar para si e dizer aos atores - Maior pecado tem quem finge ou afeta crer em mim e NÃO crê ou NÃO vive...
Vivemos assim num tempo em que fariseus batizados continuam a coar elefantes e no qual os vendilhões, expulsos pelo Senhor do templo, parecem ter se refugiado na Igreja ou no corpo da cristandade nominal...
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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020
A paródia da Porta dos fundos e a Paródia de Jesus...
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sexta-feira, 23 de dezembro de 2016
A desnatalização do Natal
Naturalmente que Jesus não nasceu no dia 25 de Dezembro e não é preciso ser um Sherlock Holmes para sabe-lo.
Como Jesus não Era rei ou filho de rei mas filho de um humilde carpinteiro lá das bandas da Judeia seu nascimento passou em branco e nós não temos como saber o dia exato em que nasceu o personagem mais importante da História.
No entanto como era necessário lembra-lo e reverenciar o mistério da entrada de Deus no mundo, a igreja Ocidental ou latina escolheu o dia do Sol Invicto, que era uma festividade muito apreciada pelos antigos pagãos.
Quis significar com isto que Jesus Cristo é o 'Sol triunfante' ou sempre vencedor do mundo espiritual.
Desde então, Era o século IV desta Era, a data passou a representar o nascimento de Cristo, ao menos para os Cristãos ocidentais.
Não era ao astro rei deste sistema que nossas ancestrais pretendiam adorar ou cultuar no 25 de Dezembro de cada ano mas o Jesus dos Evangelhos, nascido da Santa Virgem numa manjedoura, reverenciado pelos seres espirituais, saudado pelos pastores e presenteado pelos magos da Pérsia com ouro, incendo e mirra.
Cristão algum jamais teve a intenção de cultuar o sol no dia 25 de Dezembro mas a Jesus Cristo, o qual ensinou-nos a julgar os atos humanos através das intenções. Os fanáticos e sectários que me perdoem mas para que nossos ancestrais tivessem cometido o pecado de adorar o Sol, deveriam ter tido a intenção de faze-lo, o que obviamente não tiveram. Era a Jesus Cristo que se reportavam seus afetos e sentimentos e não ao Sol...
E Jesus Cristo que sempre julga segundo as intenções que animam o coração humano deve ter acolhido de boa vontade este tributo de amor.
Tampouco sabemos em que ano Jesus nasceu. Não ele não nasceu no ano hum (10). Dionísio o pequeno calculou erradamente a data e hoje sabemos que Jesus deve ter nascido no mínimo cerca de cinco anos antes do ano hum (01) desta Era uma vez que Herodes, o tirano, faleceu no ano 04 a C...
Há quem cogite ter ele nascido no ano 06 ou mesmo no ano 07 a C e não temos como decidir a questão sendo ocioso transcrever as diversas opiniões.
Seja como for o Natal, até bem pouco tempo, ainda remetia as consciências a natividade do Mestre dos Mestres e reportava os pensamentos a Jesus.
Durante toda idade Média foi uma festa ou cerimônia espiritual comemorada liturgicamente na Igreja e a tais eras remonta o 'Adeste Fidelis'.
Em certos lugares a Festa do Natal chegou a eclipsar as festas da Paixão e da Páscoa que são as mais importantes do calendário Cristão e as vezes a ideia um tanto romântica de um Deus menino e indefeso envolto nas palhas e aquecido pelos animais falava demasiado alto aos corações dos crentes e arrebatava as multidões mais do que a morte e a ressurreição de Deus...
Em certas paragens outros símbolos de origem pagã como o pinheiro - adorado pelos germânicos foi incorporado a festa. Pois S Winefrido (Bonifas) havia podido observar a consternação dos pagãos após a derrubada do carvalho dedicado a Thor. E passou a ser visto como simbolo de Jesus Cristo.
Segundo o costume a árvore sagrada era enfeitada com guirlandas e com oferendas ou presentes ofertados aos deuses. Desde então os enfeites e guirlandas foram substituídos por símbolos Cristãos como a estrela anunciadora, a cruz, medalhas de santos, etc E os falsos deuses da gentilidade substituídos pelo presépio ou lapinha onde Jesus nasceu com Maria Santíssima, S José, os seres espirituais, os pastores, os animais, etc Ficando este a sombra do pinheiro. Os presentes continuaram a ser pendurados ou depositados aos pés do pinheiro e do presépio mas destinados aos pobres ou aos familiares.
Eu, particularmente acho o presépio (sua ícone) suficiente e a árvore desnecessária. Não é de fato essencial a piedade Cristã.
No entanto há quem aprecie, fiquem com ela. Mas não percam de vista os símbolos da nossa fé ancestral e em especial o presépio que é a memória do aniversariante do dia, Jesus Cristo!
Durante séculos as coisas transcorreram deste modo e sem maiores alterações.
Em alguns lugares também a memória do abençoado Nicolas Bispo de Mira também era reverenciada e consagrada aos pobres e as crianças que ele em vida costumava socorrer com donativos. Daí a pia fraude segundo a qual S Nicolas visitaria e presentearia as crianças virtuosas e obedientes no dia da natividade do Senhor. Lamentavelmente noutras paragens foi a figura do Santo Bispo associada a de uma figura mitológica: o pai Natal ou pai Noel com seu carro guiado por renas... E aos poucos esta criatura híbrida foi substituindo a figura do meigo nazareno e tomando seu lugar.
Aqui, se a igreja merece ser censurada por ter tolerado o culto tributado a esse personagem, é justo dizer e declarar que ela jamais santificou ou abençoou o tal papai noel ou pai natal. Mostrou-se simpático ao culto popular tributado ao Bispo de Mira com suas vestes de Bispo ou túnica, não ao homem de calças vermelhas e gorro conduzido por renas. Não a igreja não canonizou o papai noel!
Canonizou-o o Mercado ou o Capital porque Jesus Cristo não rendia lucros!
De fato é o mistério do Natal potencialmente revolucionário caso tenhamos em mente que o Deus do Universo munificente e rico fez-se homem pobre desejando nascer num estábulo, quando poderia ter se manifestado aos ricos e poderosos num palácio suntuoso!
Aos homens cobiçosos, avarentos e sempre dispostos a acumular riquezas o Deus Todo Poderoso manifesta-se como pobre entre os pobres. Pois nasce duma fiandeira e adotado por um artesão e torna-se ele mesmo artesão de madeira segundo Justino na "Apologia".
E não apenas nasceu como cidadão humilde ou remediado - não rico - como assim viveu ao cabo de prováveis quarenta anos. A ponto de dizer que não possuía uma pedra sobre a qual reclinar a fatigada fronte. Não foi num corcel branco que entrou na cidade santa para padecer mas numa jumenta ou como diríamos hoje num carro velho ou num fusquinha! E nem mesmo tumba possuía tendo sido inumado num túmulo emprestado pelo Senador Jose de Arimateia. Até a mirra e os aloes com que foi embalsamado aquele santíssimo corpo martirizado foram ofertadas por outro Senador Nicodimos Ben Gorion. Tudo quanto Jesus teve como seu foi a túnica inconsútil e a cruz em que morreu como pobre.
Como homem humilde nasceu, viveu e morreu, cercado por pescadores galileus!
Penso que tudo isto tenha sido mais do que suficiente para desiludir dos senhores do capital e da mídia.
Não a figura do Deus que se faz pobretão jamais foi interessante ou produtiva para o sistema e por isso Jesus tinha de ser posto de lado e a festa esvaziada de seu sentido para converter-se na apoteose do mercado e do capital.
O aniversariante do dia tinha de ser esquecido e seus ideais de serem ocultados para que a comemoração de 25 de Dezembro se tornasse lucrativa.
Era necessário obscurecer o sentido espiritual da festividade para converte-la em festa do ventre, do bucho ou do estomago.
Urgia encontrar uma figura capaz de destronar o nazareno pobre dos corações dos seres humanos e a figura escolhida foi a do gordo pai natal... o qual distribui presentinhos a quem por eles pode pagar e jamais se lembra dos pobres.
Jesus jamais receberá quaisquer presentes além daqueles que lhe haviam sido ofertados pelos magos da Pérsia. E tampouco era ele um distribuidor de presentinhos. Os únicos presentes que ele distribuía eram de natureza interior ou imaterial: o sentido da vida e a paz da consciência. Nada mais.
De fato ele jamais exigiu quaisquer contribuições, taxas, prebendas, ofertas, pagamentos, dízimos, tributos em troca das benesses que a todos dispensava, mas disse: De graça recebestes, de graça daí!
Não ele não cobrava qualquer coisa, não buscava lucros, não capitalizava, não corria atrás da fortuna e seu único investimento era o Ser humano, a criatura racional e livre que convocava para uma vida mais elevada e nobre.
Tudo quanto pedia aos que o cercavam era a dádiva do coração.
Corações a serem enriquecidos, eis tudo quando o divino Mestre Jesus pedia aos homens!
Então para o capitalismo, sistema que sobrepõem o TER ao SER, Jesus não era uma figura atraente e expressiva.
Não, essa figura era o pai Natal bebendo coca cola...
Substituída a figura do aniversariante foram substituídos os princípios e valores.
Na Idade Média, ao menos na Alemanha, durante a ceia de Natal uma das cadeiras em volta da mesa eram deixada vazia com prato e talheres. Era o lugar reservado ao pobre! Porque segundo acreditavam eles o Salvador poderia bater-lhes a porta na figura de um pobre faminto cabendo alimenta-lo. Noutras paragens ofereciam-se banquetes aos pobres tanto no Natal quanto na Páscoa e por ocasião de Batizados, Crismas e matrimônios... Pois os pobres eram os embaixadores ou representantes do Cristo. "Aquilo que fizestes a qualquer um destes pequeninos foi a mim que fizeste!"
No entanto da perda do referencial resultou a perda da consciência.
E de festa dos pobres e humildes o Natal converteu-se na festa de aniversário do Papai Noel e portanto em festa de ricos, de industriais, de empresários, de banqueiros e de burgueses, esvaziando-se de seu conteúdo original. Jesus foi esquecido e seu nascimento obscurecido...
Desde então compra-se, vende-se, presenteiam-se, empanturram-se e embriagam-se no dia de seu nascimento. Porque não se trata mais de reverenciar a entrada de Deus na História como excluído, mas de reverenciar a vaidade, a glutonaria, o luxo, a avareza; enfim o ego.
Hoje o espírito do Natal é espírito do economicismo materialista, espírito de ostentação, espírito de lucro enfim. É aniversário de Mamon, não mais de Jesus Cristo. É espírito arqui mundano e não espírito de amor, fraternidade, justiça, bondade, serviço, compromisso, benignidade pois este sistema iníquo de coisas tudo contaminou, poluiu e profanou, e não mais nos lembramos do pobre, do faminto, do sedento, do nu, do encarcerado... Não nos sensibilizamos mais face a dor e o sofrimento alheio e nossos corações estão completamente endurecidos.
Natal foi profanado pelo espírito do lucro, da avareza, da ambição, da cobiça e desnatalizado. Perdeu seu sentido, seu referencial, sua conotação religiosa. E tornou-se data de vendilhões e traficantes, os quais dominaram o templo e instalaram-se no santuário de Deus tudo corrompendo e fomentando os maus costumes.
Desnatalizou-se o Natal desde que converteu-se em Natal ou festividade dos shoppings, das lojas, dos comércios, dos objetos, das coisas, das peças... dos enfeites exteriores, dos brilhos exteriores e das falsas luzes que não procedem do coração.
Apesar disto não nos desesperemos! Sempre é possível fazer um Natal Cristão e verdadeiro com o retrato do presépio, com as preces tradicionais, com liturgia (onde há liturgia), com disponibilidade, com esmolas, com doações, com ofertas... Com o coração cheio de amor voltado para o mistério de Jesus Cristo e papa o próximo.
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segunda-feira, 2 de novembro de 2015
Riqueza, conforto e miséria; luxo, sobriedade (temperança) e ascese.
Também este artigo tem em vista distinguir certos estados ou regimes de vida que o vulgo tende a confundir. Implica definir cada coisa com exatidão, fixar os limites e apontar as diferenças. O que tende a facilitar o diálogo e o esclarecimento.
Por riqueza definimos o acumulo exagerado de bens. O rico possuindo além do que é necessário tendo em vista a sobrevivência e dignidade detém o supérfluo.
Por conforto definimos o uso moderado dos bens. O confortável contenta-se em reter para si apenas o que é necessário a sobrevivência e a dignidade, abrindo mão do que é supérfluo.
Por miséria definimos a carência do quanto seja necessário a sobrevivência e a dignidade.
O supérfluo pode ser igualmente relacionado com o luxo ou a suntuosidade. O conforto com a sobriedade ou a temperança e a miséria ou a ascese.
Importa não confundir sobriedade ou temperança com ascese.
Sócrates, Jesus, Buda e Confúcio; sem condenar a ascese, não foram ascetas e jamais recomendaram ascese mas a sobriedade. A respeito de Sócrates contamos com o testemunho de Ésquines de Aesfeatum, o qual no "Telauges" apresenta o Filósofo a reprovar tanto os excessos de ascetismo de Telauges quanto a vã ostentação ou luxo de Critóbulo filho de Criton e argumentando a favor da vida sóbria ou moderada.
Antes porém recordemos o que cada um destes grandes mestres ensinou a respeito da riqueza, da fortuna, do acúmulo irrestrito de bens, do supérfluo, do luxo, da suntuosidade...
Sócrates num de seus diálogos transmitidos por Xenofonte (Memorabilia) refere que "Sabes assim que o ouro e a prata não tornam os homens melhores do que são, ao passo que as sentenças dos sábios tornam mesmo o pobre rico em virtude." já Platão memora o passeio de Sócrates pelo Mercado de Atenas e seus comentários sobre as inutilidades ali dispostas... e noutro passo declarou que a única utilidade das riquezas era a possibilidade de serem divididas com os amigos possibilitando o convívio ameno entre os amantes da virtude.
Quanto a Jesus foi ainda mais insidioso a ponto de declarar que era impossível cultuar a Deus e as riquezas, de fechar os ricos as portas do reino celestial e de aconselhar seus seguidores a juntarem tesouros imateriais ou espirituais no mundo celestial e não coisas materiais destinadas a corrupção.
Paulo, aqui fiel interprete seu, conjecturou com propriedade que a raiz de todos os males humanos estava no amor ao dinheiro, no desejo pelo lucro, na cupidez ou na avareza. Que a igreja antiga classificou como um dos grandes pecados.
A respeito de Sidarta Gautama conhecido também por Çakia Muni, Buda ou Tatagata é sabido que tendo nascido filho de Régulo (Sudodana era o nome de seu pai) imensamente rico, abriu mão de todas as riquezas para viver moderadamente e que impôs voto de sobriedade aos membros da sanga.
Os budistas de modo algum - e isto vale para os Católicos - fazem apologia da MISÉRIA ou da POBREZA, mas do contentamento ou contenção dos desejos, o que podemos traduzir sem medo de errar por conforto ou sobriedade.
Importa saber que ele também condenou tacitamente o acumulo ilimitado e o apego aos bens materiais.
Ele considera o monge ou o laico que se contenta com o necessário para viver dignamente como um pássaro que voa e toma a direção que deseja, sendo por isso mesmo livre.
Faz recordar Sócrates quando declarou que o homem apegado as riquezas ou escravizado pelos apetites sensoriais era inferior a um escravo porquanto escravo dos apetites, dos desejos ou do corpo. Para Sócrates era livre apenas aquele que fosse capaz de controlar seus apetites e desejos.
Limitar-me-ei por tomar esta citação: "Uma é a senda que conduz as riquezas, outra a que conduz ao Nirvana."
Outro não é o parecer do grande Mestre da China, Confúcio:
"O homem vulgar só cuida de comprar e vender."
Nenhum deles mostrou-se simpático ao acumulo ilimitado de bens materiais, 'nuvem conquistada por meios injustos.' id Mas também não inclinaram-se para o ascetismo - Jesus, Buda e Confúcio sem condena-lo jamais abraçaram-no ou recomendaram-no a seus seguidores - enquanto busca pelo sofrimento ou por situações desconfortáveis.
Sócrates apenas parece ter recomendado uma dose mínima dele e por uma razão bastante compreensível, a frequência das guerras, o exemplo dado pela sociedade militar e ascética formada pelos espartanos - guerreiros invencíveis - e a decorrente necessidade de conte-los. Efetivamente o ascetismo afirma-se no tempo de Sócrates mais por via militar do que por via filosófica ou religiosa. O ascetismo foi até certo ponto sancionado por Sócrates devido a sua relação com a disciplina.
Posteriormente, durante as perseguições promovidas pelo Império romano, também a igreja Católica recomendou o ascetismo, por uma questão de funcionalidade. Posteriormente no entanto, graças a teoria herética do maniqueísmo, logrou o ascetismo fixar-se ontologicamente no seio da comunidade Cristã, embora o clero sempre tenha invocado razões funcionais ou de natureza prática com que justifica-lo.
Nem podemos fugir totalmente a tais razões caso concebamos os Bispos e padres como homens destinados a múltiplas e dificeis tarefas como: ministrar os sacramentos, sustentar o direito dos pobres, instruir os broncos, evangelizar os infiéis, dar exemplo de abnegação e virtude, etc Ora toda esta vida de dedicação e disponibilidade implica disciplina rigorosa, o que de algum modo nos conduz ao ascetismo ou a certa familiaridade com o desconforto, como diria Sócrates.
Cuidava Sócrates que uma certa medida de ascetismo ou de contato esporádico com o sofrimento, funcionava como uma espécie de vacina ou contraveneno predispondo o homem a enfrentar futuras situações de desconforto ou sofrimento com maior firmeza de alma. Daí a necessidade de eventualmente, o soldado, passar por uma experiência de sofrimento, como ainda hoje nossos jovens aspirantes realizam testes de sobrevivência.
As fileiras do clero Cristão ou das hierarquias Católicas tomaram por exemplo ou norma de vida, a disciplina do exército ou um regime espartano. Constituindo o exército espiritual de Cristo ou milícia Cristã. Daí a afirmação do ascetismo entre o clero e os religiosos, porquanto favorecia a disciplina ou a vida regular. Aos fiéis no entanto foi sempre permitido levar uma vida morigerada, sóbria, temperante, equilibrada ou mediana.
Não enriquecer no sentido contemporâneo ou acumular riquezas ilimitadamente, que isto sempre foi visto pelos elderes e doutores do passado como pecado de avareza ou materialismo. A antiguidade Cristã jamais abençoou ou sancionou o regime de vida contemporâneo cultivado pelos ocidentais. Como jamais fez apologia da miséria, mas da vida sóbria ou morigerada nos mesmíssimos termos que Buda, Confúcio, Sócrates, Epicuro, Bion, etc
Julgo que a confusão efetuada no período moderno, entra vida sóbria e ascetismo foi artificialmente criada e promovida com o intuito de batizar e crisma o que os antigos sempre classificara como avareza. A Cristianização de Mamon ou seja das riquezas fundamenta-se amiúde neste falso dualismo tecido em torno de dois extremos: o da riqueza e o da miséria. Inconsciente ou conscientemente houve sempre certo emprenho em eliminar uma possível terceira via construída em torno da sobriedade, vida média, caminho do meio, etc
A justificativa do materialismo economicista em termos Cristãos não pode apartar-se deste padrão de pensamento superficial e binário em torno do acumulo ilimitado ou da privação, e tem se mostrado sempre incapaz de postular uma posse limitada ou relacionada com a satisfação das necessidades pessoais/familiares.
Henry George no entanto demonstrou cabalmente que ainda aqui os extremos continuam a tocar-se e que do luxo procede a miséria, da riqueza a pobreza, do acumulo a falta, da suntuosidade a indigência... Diante disto só nos restar inclinar-se diante daquela sabedoria ancestral que recomendou a vida média, sóbria ou confortável face aos que vivem do supérfluo e aqueles aos quais é negado o necessário a manutenção da vida....
Nós no entanto nos acostumamos a viver entres extremos e aprendemos a tolerar tanto situações de esbanjamento, quanto situações de privação ou carência.
E assim nos fizemos traidores de Sócrates, de Jesus Cristo, de Buda, de Confúcio, os quais com os lábios reverenciamos mas que de modo algum estamos dispostos a imitar reformulando nosso modo de vida materialista, insensível e cruel.
Não sei em que o ascetismo nos transformaria nem posso sabe-lo. Mas sei que a avareza tornou-nos vulgares, grosseiros e cruéis; degeneramos porque inclinando nossos corações as riquezas perecíveis e ilusórias e acumulando ouro, prata, jóias, dolares, ações, etc não melhoramos em nada deixando de acumular as riquezas verdadeiras, imateriais e incorruptíveis, em termos de princípios e valores, méritos, hábitos saudáveis, conhecimento, instrução, educação...
Não sou partidário do ascetismo em termos essencialistas ou ontológicos, o que a meu ver não passa de maniqueísmo. Compreendo no entanto seu papel funcional em determinadas conjunturas sociais. O ascetismo é uma espécie de treino ou adestramento que produz determinados hábitos para a vida, como a disciplina ou a regularidade e mesmo a resistência a dor ou ao desconforto, o que em certas situações sociais é extremamente vantajoso.
A riqueza ou a suntuosidade, como apontou já Agostinho na 'Civita Dei', tende a tornar os homens escravos dos apetites, a amolecer os corpos, a indispor para o trabalho, a malquistar com o esforço e o sacrifício; isto em tempos em que as guerras e batalhas eram decididas mais por homens do que por máquinas. E nem preciso dizer quem é que em estado de guerra levaria vantagem... Segundo o já citado Agostinho, seguido por Ibn Khaldun quando um povo qualquer acumulava riquezas em excesso, olvidando por completo a vida sóbria ou ascética dos ancestrais, tornava-se mole e prestes a ser dominado por qualquer outro povo mais rude, grosseiro, sóbrio, resistente e valoroso.
Em termos de antiguidade e i Média tal explicação parece conter certa parcela de verdade.
Naqueles tempos belicosos o ascetismo agrade-nos ou não parecia contemplar uma função social.
Sócrates, Agostinho, Kaldhum e muitos outros parecem ter tido esta percepção.
Os sábios, como já dissemos, permaneceram equidistantes tanto do acumulo irrestrito de bens, quanto do ascetismo ou da miséria, amiúde fruto da opressão. Face a ambos os extremos recomendaram as massas o exercício da vida sóbria ou moderada, definida por Buda como caminho do meio.
Nós nos desviamos por outras sendas e caminhos.
Apenas não tivemos sinceridade suficiente para classificar Sócrates, Jesus, Buda ou Confúcio como tolos.
Por riqueza definimos o acumulo exagerado de bens. O rico possuindo além do que é necessário tendo em vista a sobrevivência e dignidade detém o supérfluo.
Por conforto definimos o uso moderado dos bens. O confortável contenta-se em reter para si apenas o que é necessário a sobrevivência e a dignidade, abrindo mão do que é supérfluo.
Por miséria definimos a carência do quanto seja necessário a sobrevivência e a dignidade.
O supérfluo pode ser igualmente relacionado com o luxo ou a suntuosidade. O conforto com a sobriedade ou a temperança e a miséria ou a ascese.
Importa não confundir sobriedade ou temperança com ascese.
Sócrates, Jesus, Buda e Confúcio; sem condenar a ascese, não foram ascetas e jamais recomendaram ascese mas a sobriedade. A respeito de Sócrates contamos com o testemunho de Ésquines de Aesfeatum, o qual no "Telauges" apresenta o Filósofo a reprovar tanto os excessos de ascetismo de Telauges quanto a vã ostentação ou luxo de Critóbulo filho de Criton e argumentando a favor da vida sóbria ou moderada.
Antes porém recordemos o que cada um destes grandes mestres ensinou a respeito da riqueza, da fortuna, do acúmulo irrestrito de bens, do supérfluo, do luxo, da suntuosidade...
Sócrates num de seus diálogos transmitidos por Xenofonte (Memorabilia) refere que "Sabes assim que o ouro e a prata não tornam os homens melhores do que são, ao passo que as sentenças dos sábios tornam mesmo o pobre rico em virtude." já Platão memora o passeio de Sócrates pelo Mercado de Atenas e seus comentários sobre as inutilidades ali dispostas... e noutro passo declarou que a única utilidade das riquezas era a possibilidade de serem divididas com os amigos possibilitando o convívio ameno entre os amantes da virtude.
Quanto a Jesus foi ainda mais insidioso a ponto de declarar que era impossível cultuar a Deus e as riquezas, de fechar os ricos as portas do reino celestial e de aconselhar seus seguidores a juntarem tesouros imateriais ou espirituais no mundo celestial e não coisas materiais destinadas a corrupção.
Paulo, aqui fiel interprete seu, conjecturou com propriedade que a raiz de todos os males humanos estava no amor ao dinheiro, no desejo pelo lucro, na cupidez ou na avareza. Que a igreja antiga classificou como um dos grandes pecados.
A respeito de Sidarta Gautama conhecido também por Çakia Muni, Buda ou Tatagata é sabido que tendo nascido filho de Régulo (Sudodana era o nome de seu pai) imensamente rico, abriu mão de todas as riquezas para viver moderadamente e que impôs voto de sobriedade aos membros da sanga.
Os budistas de modo algum - e isto vale para os Católicos - fazem apologia da MISÉRIA ou da POBREZA, mas do contentamento ou contenção dos desejos, o que podemos traduzir sem medo de errar por conforto ou sobriedade.
Importa saber que ele também condenou tacitamente o acumulo ilimitado e o apego aos bens materiais.
Ele considera o monge ou o laico que se contenta com o necessário para viver dignamente como um pássaro que voa e toma a direção que deseja, sendo por isso mesmo livre.
Faz recordar Sócrates quando declarou que o homem apegado as riquezas ou escravizado pelos apetites sensoriais era inferior a um escravo porquanto escravo dos apetites, dos desejos ou do corpo. Para Sócrates era livre apenas aquele que fosse capaz de controlar seus apetites e desejos.
Limitar-me-ei por tomar esta citação: "Uma é a senda que conduz as riquezas, outra a que conduz ao Nirvana."
Outro não é o parecer do grande Mestre da China, Confúcio:
"O homem vulgar só cuida de comprar e vender."
Nenhum deles mostrou-se simpático ao acumulo ilimitado de bens materiais, 'nuvem conquistada por meios injustos.' id Mas também não inclinaram-se para o ascetismo - Jesus, Buda e Confúcio sem condena-lo jamais abraçaram-no ou recomendaram-no a seus seguidores - enquanto busca pelo sofrimento ou por situações desconfortáveis.
Sócrates apenas parece ter recomendado uma dose mínima dele e por uma razão bastante compreensível, a frequência das guerras, o exemplo dado pela sociedade militar e ascética formada pelos espartanos - guerreiros invencíveis - e a decorrente necessidade de conte-los. Efetivamente o ascetismo afirma-se no tempo de Sócrates mais por via militar do que por via filosófica ou religiosa. O ascetismo foi até certo ponto sancionado por Sócrates devido a sua relação com a disciplina.
Posteriormente, durante as perseguições promovidas pelo Império romano, também a igreja Católica recomendou o ascetismo, por uma questão de funcionalidade. Posteriormente no entanto, graças a teoria herética do maniqueísmo, logrou o ascetismo fixar-se ontologicamente no seio da comunidade Cristã, embora o clero sempre tenha invocado razões funcionais ou de natureza prática com que justifica-lo.
Nem podemos fugir totalmente a tais razões caso concebamos os Bispos e padres como homens destinados a múltiplas e dificeis tarefas como: ministrar os sacramentos, sustentar o direito dos pobres, instruir os broncos, evangelizar os infiéis, dar exemplo de abnegação e virtude, etc Ora toda esta vida de dedicação e disponibilidade implica disciplina rigorosa, o que de algum modo nos conduz ao ascetismo ou a certa familiaridade com o desconforto, como diria Sócrates.
Cuidava Sócrates que uma certa medida de ascetismo ou de contato esporádico com o sofrimento, funcionava como uma espécie de vacina ou contraveneno predispondo o homem a enfrentar futuras situações de desconforto ou sofrimento com maior firmeza de alma. Daí a necessidade de eventualmente, o soldado, passar por uma experiência de sofrimento, como ainda hoje nossos jovens aspirantes realizam testes de sobrevivência.
As fileiras do clero Cristão ou das hierarquias Católicas tomaram por exemplo ou norma de vida, a disciplina do exército ou um regime espartano. Constituindo o exército espiritual de Cristo ou milícia Cristã. Daí a afirmação do ascetismo entre o clero e os religiosos, porquanto favorecia a disciplina ou a vida regular. Aos fiéis no entanto foi sempre permitido levar uma vida morigerada, sóbria, temperante, equilibrada ou mediana.
Não enriquecer no sentido contemporâneo ou acumular riquezas ilimitadamente, que isto sempre foi visto pelos elderes e doutores do passado como pecado de avareza ou materialismo. A antiguidade Cristã jamais abençoou ou sancionou o regime de vida contemporâneo cultivado pelos ocidentais. Como jamais fez apologia da miséria, mas da vida sóbria ou morigerada nos mesmíssimos termos que Buda, Confúcio, Sócrates, Epicuro, Bion, etc
Julgo que a confusão efetuada no período moderno, entra vida sóbria e ascetismo foi artificialmente criada e promovida com o intuito de batizar e crisma o que os antigos sempre classificara como avareza. A Cristianização de Mamon ou seja das riquezas fundamenta-se amiúde neste falso dualismo tecido em torno de dois extremos: o da riqueza e o da miséria. Inconsciente ou conscientemente houve sempre certo emprenho em eliminar uma possível terceira via construída em torno da sobriedade, vida média, caminho do meio, etc
A justificativa do materialismo economicista em termos Cristãos não pode apartar-se deste padrão de pensamento superficial e binário em torno do acumulo ilimitado ou da privação, e tem se mostrado sempre incapaz de postular uma posse limitada ou relacionada com a satisfação das necessidades pessoais/familiares.
Henry George no entanto demonstrou cabalmente que ainda aqui os extremos continuam a tocar-se e que do luxo procede a miséria, da riqueza a pobreza, do acumulo a falta, da suntuosidade a indigência... Diante disto só nos restar inclinar-se diante daquela sabedoria ancestral que recomendou a vida média, sóbria ou confortável face aos que vivem do supérfluo e aqueles aos quais é negado o necessário a manutenção da vida....
Nós no entanto nos acostumamos a viver entres extremos e aprendemos a tolerar tanto situações de esbanjamento, quanto situações de privação ou carência.
E assim nos fizemos traidores de Sócrates, de Jesus Cristo, de Buda, de Confúcio, os quais com os lábios reverenciamos mas que de modo algum estamos dispostos a imitar reformulando nosso modo de vida materialista, insensível e cruel.
Não sei em que o ascetismo nos transformaria nem posso sabe-lo. Mas sei que a avareza tornou-nos vulgares, grosseiros e cruéis; degeneramos porque inclinando nossos corações as riquezas perecíveis e ilusórias e acumulando ouro, prata, jóias, dolares, ações, etc não melhoramos em nada deixando de acumular as riquezas verdadeiras, imateriais e incorruptíveis, em termos de princípios e valores, méritos, hábitos saudáveis, conhecimento, instrução, educação...
Não sou partidário do ascetismo em termos essencialistas ou ontológicos, o que a meu ver não passa de maniqueísmo. Compreendo no entanto seu papel funcional em determinadas conjunturas sociais. O ascetismo é uma espécie de treino ou adestramento que produz determinados hábitos para a vida, como a disciplina ou a regularidade e mesmo a resistência a dor ou ao desconforto, o que em certas situações sociais é extremamente vantajoso.
A riqueza ou a suntuosidade, como apontou já Agostinho na 'Civita Dei', tende a tornar os homens escravos dos apetites, a amolecer os corpos, a indispor para o trabalho, a malquistar com o esforço e o sacrifício; isto em tempos em que as guerras e batalhas eram decididas mais por homens do que por máquinas. E nem preciso dizer quem é que em estado de guerra levaria vantagem... Segundo o já citado Agostinho, seguido por Ibn Khaldun quando um povo qualquer acumulava riquezas em excesso, olvidando por completo a vida sóbria ou ascética dos ancestrais, tornava-se mole e prestes a ser dominado por qualquer outro povo mais rude, grosseiro, sóbrio, resistente e valoroso.
Em termos de antiguidade e i Média tal explicação parece conter certa parcela de verdade.
Naqueles tempos belicosos o ascetismo agrade-nos ou não parecia contemplar uma função social.
Sócrates, Agostinho, Kaldhum e muitos outros parecem ter tido esta percepção.
Os sábios, como já dissemos, permaneceram equidistantes tanto do acumulo irrestrito de bens, quanto do ascetismo ou da miséria, amiúde fruto da opressão. Face a ambos os extremos recomendaram as massas o exercício da vida sóbria ou moderada, definida por Buda como caminho do meio.
Nós nos desviamos por outras sendas e caminhos.
Apenas não tivemos sinceridade suficiente para classificar Sócrates, Jesus, Buda ou Confúcio como tolos.
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sexta-feira, 3 de outubro de 2014
A política do quanto pior melhor
Tive o desprazer de conhecer comunistas e anarquistas que desejam a todo custo fazer uma revolução armada no Brasil e para isso pregam o quanto pior melhor. Esses senhores acreditam piamente que um governo que provoque recessão, que deixe as massas num estado de indigência, provocará revolta nessas mesmas massas e essa revolta se transformará numa revolução que implantará a ditadura do proletariado para os comunistas e para os anarquistas insensíveis surgirá o mundo sem Estado onde todos sem líderes viverão fraternalmente. Tanto comunistas como anarquistas partidários dessa ideologia nefasta dizem que sua tese é científica, isto é, que pode ser verificada. Será?
Se a pobreza e a miséria como advogam esses inimigos da humanidade (sim, inimigos da humanidade porque desejar a fome e a miséria para que daí advenha a revolução, é algo monstruoso, maquiavélico) traz a revolução por que não vemos surgir na África negra várias revoluções? Se o desemprego em massa, a miséria e a fome provocam revoltas que desembocam em revoluções por que não vemos revoluções surgirem na Índia entre a casta dos sudras e entre os párias que são os grupos que mais sofrem na Índia? E, ao que parece esses grupos estão bem conformados com suas misérias porque entendem que seus estados atuais de sofrimentos são dívidas cármicas que estão pagando.
Será que segundo esses teóricos do quanto pior melhor veriam uma revolução no Brasil se o país estivesse à beira da miséria? Respondo: Não. Porque milhões de pessoas que vivem na pobreza e na miséria são cooptadas pelas seitas neo-pentecostais e nessas seitas elas são ensinadas a esperar um milagre ou de acordo com a teologia da prosperidade, elas estão na pobreza porque não colaboraram com a obra de deus (leia-se: não deram dinheiro suficiente para os pastores) e por conseguinte não tem fé e deus não abençoa quem não tem fé. Essas pessoas vivem em suas misérias com a esperança de que um dia deus as tire da miséria por isso não se revoltarão. Isso para não falar nos padres e pastores que dizem que o pecado de Adão é que criou a desigualdade e que deus quer que a ordem do mundo permaneça do jeito que está e que se um pobre se revolta com a sua condição este se revolta contra deus que o colocou nessa condição e que ele (o pobre) se resignar depois desta vida de sofrimento irá para uma eternidade de glória. Enfim, se a maioria das pessoas passassem pela miséria não teríamos revolução, teríamos apenas o óbvio: fome, miséria e fanatismo religioso. Por essas razões aqui expostas a teoria do quanto pior melhor é uma falácia e deve ser descartada uma vez que não passa pelo crivo da experiência.
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
Um cenário de terror
Imagine o leitor uma montanha de lixo, agora imagine pessoas paupérrimas: crianças, adolescentes e adultos envelhecidos antes do tempo. Não é o cenário perfeito para um filme de terror? Não é uma paisagem perfeita para os contos fantásticos de Edgar Allan Poe?
Há mais ou menos uma década vi o que era viver abaixo da linha da pobreza. Não foi trabalho de campo de geografia nem de sociologia. Fui com meu irmão (irmão de consideração mas nem por isso menos irmão, irmão que a natureza não quis me dar) para o lixão à cata de livros em meio aos catadores de papéis. Fomos para comprar livros, sim livros bons também param no lixo. E o que vimos lá? Coisas que olhos não viram - parafraseando São Paulo apóstolo -que os ouvidos não ouviram, que os narizes não cheiraram e que a mente não imaginou.
Fomos para comprar livros e compramos, perguntamos aos catadores quanto lhes pagavam por quilo e não acreditamos ou melhor não quisemos acreditar no que ouvimos: 2 centavos, o quilo. Sim, leitor os catadores de lixo reciclável, ganhavam 00,2 R$. Para ganhar R$ 2,00 por dia precisavam catar 100 quilos de lixo! Eles estavam muito além da exploração e nem sei que nome Marx daria a esse tipo de hiperexploração econômica, seria talvez mais-valia hiperinflacionária? O mais espantoso de tudo é que se você oferecesse para alguns deles que lhe trouxessem livros de 200 ou 300 gramas ou mais 0,20 centavos ainda ficavam agradecidos com a generosidade! E se desse R$ 1,00 você se torna um deus! Mas isso não seria bom negócio para os donos do lixão, pois pessoas dispostas a pagar mais se tornariam concorrentes e logo incômodas para aquele imundo sistema.
No lixão de São Vicente, no Sambaiatuba, hoje desativado, vi crianças trabalhando, pessoas com ferros que mais pareciam lanças para catar papéis, sem quaisquer proteção para os pés, cabeça ou braços. Poderiam se cortar com vidros, pregos enferrujados, se contaminar com líquidos puterfatos ou quaisquer outros materiais. Não eram escravos pois não tinham uma senzala onde descansar nem tinham comida mesmo da pior qualidade lhes esperando, estavam numa condição pior do que as dos escravos do século XIX. Eram pessoas sem esperança, sem identidade, sem futuro, viviam por viver. Com a desativação do lixão não sei o que foi feito delas. O lixão foi destivado para preservar o meio ambiente de São Vicente, mas de que adianta preservar o meio ambiente se se trata o outro como um objeto?
Ver coisas como essas creio eu, superam e muito os romances saídos da imaginação, o que eu vi gostaria que fosse um pesadelo, ou pura imaginação mas era real, tão real quanto você que me lê. É por isso que sonho com um mundo melhor porque o mundo real é um pesadelo sem fim.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Milícia talebã e milícia pentecostal
As seitas cristãs fundamentalistas já tem certa influência na sociedade brasileira. Pode-se dizer sem medo de errar que o pentecostalismo constitue o quarto poder (os outros três são: o executivo, legislativo e judiciário). O fenômeno pentecostal anda de mãos dadas com a extrema pobreza: falta de saúde, de educação e de segurança. Como os mais explorados da sociedade não recebem a assistência do governo, eles só tem duas opções: o mundo do crime ou o pentecostalismo. Essas pessoas já não acreditam na justiça humana e então ficam à espera da justiça divina.
Geralmente os pentecostais são pessoas que vivem à margem da sociedade, vivem em favelas, são negros, desempregados ou trabalham num emprego informal e não tem estudo, ou seja, são cidadão de 2ª classe. Não são assistidos pelo Estado, e aí é que a porca torce o rabo. A razão pela qual sendo tão paupérrimos e ainda assim contribuem financeiramente com suas igrejas é porque lá, eles podem sentir-se cidadãos. Porque o Estado é injusto Deus vai abençoar o dizimista, etc...
Então o fenômeno pentecostal é um fenômeno da pobreza no sentido máximo da palavra, pois se vivêssemos num Estado justo, muitas igrejas neopentecostais já teriam caído. "Num estudo de 2007, a Fundação Getúlio Vargas mostrou que a transferência de renda e a diminuição da pobreza, proporcionadas pelo Bolsa-Família, assim como o aumento da aposentadoria e do emprego, estavam contribuindo para um crescimento na proporção de católicos, o que não ocorria em mais de um século" (O Estado de São Paulo página A 13 - Domingo 10 de outubro de 2010).
Com todas as reservas que tenho com o catolicismo romano faz-se mister confessar que esta religião é infinitamente melhor do que o fundamentalismo pentecostal. Pois os católicos romanos são mais tolerantes, tem mais cultura, não poucos dentre eles aceitam a teoria da evolução e tem uma visão da vida mais aberta ao mundo. Melhorar a renda das pessoas é um modo de combater o fanatismo religioso, visto que este é via de regra fruto das desigualdades sociais.
Silas Malafaia ao declarar seu apoio a Serra deixa bem claro sua posição que é: a de não querer que seus fiéis sejam instruídos. E a posição de Serra ao apoiar os evangélicos outra não é: implantar o neoliberalismo para que as pessoas se alienem cada vez mais na religião e possam ser exploradas sem protestos.
Para a burguesia quanto mais ignorância melhor, pois a ignorância leva às religiões fetichistas e estas ao fanatismo e o fanatismo à obediência cega e um senso não crítico.
Antes de terminar o texto, adoraria muito que o bispo Dom Luis Gonzaga Bergonzini, lesse esse texto e agradecesse ao Lula pelo crescimento de sua igreja e do seu rebanho.
Geralmente os pentecostais são pessoas que vivem à margem da sociedade, vivem em favelas, são negros, desempregados ou trabalham num emprego informal e não tem estudo, ou seja, são cidadão de 2ª classe. Não são assistidos pelo Estado, e aí é que a porca torce o rabo. A razão pela qual sendo tão paupérrimos e ainda assim contribuem financeiramente com suas igrejas é porque lá, eles podem sentir-se cidadãos. Porque o Estado é injusto Deus vai abençoar o dizimista, etc...
Então o fenômeno pentecostal é um fenômeno da pobreza no sentido máximo da palavra, pois se vivêssemos num Estado justo, muitas igrejas neopentecostais já teriam caído. "Num estudo de 2007, a Fundação Getúlio Vargas mostrou que a transferência de renda e a diminuição da pobreza, proporcionadas pelo Bolsa-Família, assim como o aumento da aposentadoria e do emprego, estavam contribuindo para um crescimento na proporção de católicos, o que não ocorria em mais de um século" (O Estado de São Paulo página A 13 - Domingo 10 de outubro de 2010).
Com todas as reservas que tenho com o catolicismo romano faz-se mister confessar que esta religião é infinitamente melhor do que o fundamentalismo pentecostal. Pois os católicos romanos são mais tolerantes, tem mais cultura, não poucos dentre eles aceitam a teoria da evolução e tem uma visão da vida mais aberta ao mundo. Melhorar a renda das pessoas é um modo de combater o fanatismo religioso, visto que este é via de regra fruto das desigualdades sociais.
Silas Malafaia ao declarar seu apoio a Serra deixa bem claro sua posição que é: a de não querer que seus fiéis sejam instruídos. E a posição de Serra ao apoiar os evangélicos outra não é: implantar o neoliberalismo para que as pessoas se alienem cada vez mais na religião e possam ser exploradas sem protestos.
Para a burguesia quanto mais ignorância melhor, pois a ignorância leva às religiões fetichistas e estas ao fanatismo e o fanatismo à obediência cega e um senso não crítico.
Antes de terminar o texto, adoraria muito que o bispo Dom Luis Gonzaga Bergonzini, lesse esse texto e agradecesse ao Lula pelo crescimento de sua igreja e do seu rebanho.
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