segunda-feira, 8 de outubro de 2018

É Bolsonaro fascista?

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Faltando exatos vinte dias para as eleições presidenciais do segundo turno depara-mo-nos com diversas publicações em que o sr Jair Messias Bolsonaro, candidato do PSL, é apresentado como fascista, o que é repudiado tanto por parte de seus apoiantes como pelos fascistas em sua maior parte.

É que de modo geral, os brasileiros identificam os fascismo com o autoritarismo. A dar tal identificação por certa os Comunistas, que são igualmente totalitários - devido a doutrina da ditadura do proletariado e sua forma partidária - seriam fascistas e mais ainda dos fundamentalistas religiosos ou teocráticos, dos quais o Congresso Nacional converteu-se em província. A análise é superficial e injuriosa para com os autênticos fascistas, doutrinários, com os quais convivo e dialogo, em que pese minhas opiniões diametralmente opostas (sou pela democracia direta ou policracia).

O autoritarismo corresponde a um fenômeno psicológico e decorre das relações familiares estabelecidas durante a infância e de condições como a insegurança. Prescinde portanto de qualquer aparato teórico ou doutrinal, o Fascismo não, é um sistema doutrinário com pretensões intelectuais e, em que pese seus vícios, com uma excelente compreensão face ao problema da cultura. Bem definido não será de modo algum racista, mas culturalista, na medida em que a afirma a superioridade de uma dada cultura ou a identificação de um povo com determinada cultura.

Não entrarei em detalhes a respeito da doutrina Fascista uma vez que cada qual pode bem ir ao Bobbio. Mas é fato que no Brasil a doutrina fascista é muito pouco divulgada e conhecida, daí o número reduzido de seus partidários no pais. E a identificação apressada do autoritarismo ou do militarismo com o fascismo, pois também há entre nós um militarismo intuitivo e tosco, legado pela tradição. Mas nada disto é fascismo e dar o sr Bolsonaro por fascista seria de algum modo afirmar-lhe a intelectualidade, predicado a que não faz jus.

Bolsonaro mesmo disse nada saber a respeito de economia e temo que seus conhecimentos sejam ainda mais rasos no plano da Sociologia, da Psicologia, da Filosofia, da Doutrina política e de outros ramos do conhecimento que deve ter em conta de subversivos e ameaçadores. Portanto é seu autoritarismo um autoritarismo bronco...

Então que será ele?

Se ao autoritarismo bronco adicionarmos a fixação por armamentos, a apoio a tortura e a pena capital e sobretudo o racismo, chegamos facilmente a outra definição, ao Nazismo. Seria Bolsonaro um Nazista?

Tudo quanto posso dizer a respeito é que a doutrina nazista é infinitamente mais pobre que a Fascista, ignorando por completo os elementos da cultura e estabelecendo uma metafísica barata em termos de raça, pelo que se chega ao endeusamento da mítica raça ariana associado ao odinismo que é um apelo ainda mais insistente a força, a agressão, a violência...

De fato a doutrina de Hitler peca pela  miséria intelectual, a ponto de qualquer energũmeno poder ler o 'Mein Kampf' e professar a doutrina. Pois ela pouco ultrapassa o preconceito intuitivo e limita-se a tempera-lo com lendas e outras frioleiras. Qualquer retardado dá bom nazista e os testes de QI realizados em Nuremberg patenteiam-no...

Seja como for a mentalidade de Bolsonaro, a pesar quilombolas em arroba quais fossem peças de carne ou a declarar que seus filhos, bem educados, jamais namorariam moças negras, é tipicamente racista e portanto nazista. Caso consideremos os elementos odinistas de sua pregação, especialmente a sansão a tortura temos ai um novo Mengele, o Mengele dos trópicos. Nada mais que um Nazista ordinário ou medíocre.

E este nazista, que defende o armamento ostensivo, a tortura e a pena capital como soluções mágicas para nossos problemas sociais, conta com o apoio decidido de um vultoso número de Cristãos, majoritariamente protestantes é claro, mas também Católicos o que é ainda mais vergonhoso se temos em mente ou diante dos olhos o que os Católicos alemães tiveram de sofrer nas mãos dos nazistas. Pe Kentenich que o diga! Foram milhares de sacerdotes enviados a Dachau por questões de consciência i é por oposição ao Nazismo. A Igreja romana não sofreu pouco sob a dominação nazi mas pagou por não te-la travado quando podia.

Alias o discurso com que o matreiro Hitler seduziu e fisgou os Católicos ingênuos é o mesmo editado em nossos dias: O perigo do 'Comunismo' rsrsrsrs antes de tudo (Os pastores protestantes continuam reeditando estes discurso) e em seguida o moralismo ou puritanismo social. Assim questões tão delicadas quando divórcio, aborto e eutanásia... E os Católicos ingênuos ficaram encantados com a alta moralidade da Besta, e se venderam a ela... Alguns anos depois Faulhaber, Von Gallen e outros tantos tinha suas janelas apedrejadas, suas igrejas e mosteiros pilhados pelos partidários da moral e dos bons costumes. A Igreja e seus filhos conheceram o inferno e a porta foi o moralismo tosco, que os Católicos deveriam fixar em suas vidas e não num cenário político democrático ou laico marcado pela laicidade.

Tristemente os maus Católicos do Brasil de hoje mostram-se presos as mesmas ilusões de impor sua moralidade num contexto político laico, ao invés de limitarem-se a vive-la em suas vidas. Karl Rahner disse já há muito tempo a seus confrades: Inspirem a ação política ou esvaziem-na mas não tente controla-la. Bem os moralistas Católicos eram, são e sempre serão minoria no Brasil. Então para impor algo são obrigados a aproximar-se de outros grupos e negociar. Hoje cometem seu supremo erro, aproximando-se por via do ecumenismo, dos protestantes, pentecostais, calvinistas ou bíblicos, supremos adversários de sua fé. Os Católicos negociam a fé dos ancestrais, trocam-na por moralidades ou pelo puritanismo, exatamente como os protestantes desejavam que fizessem...

Hoje sobretudo, fazem uma política protestante, Que tende a assumir feições norte americanas, e assim nossa cultura é traída, pelo Bolsonaro é claro, uma vez que adota princípios e valores anglo saxônicos e norte americanos, e pelos pseudo Católicos que vão de carona, reforçando esta tendência absurda. No decorrer deste processo os Católicos vão mais e mais perdendo consciência quanto a especificidade de sua fé, a qual vai se diluindo, até que são engolidos pela outra fé ou cooptados. Alias quando a fé Católica perde noção dos mistérios e converte-se em moralismo banal ou puritanismo o Catolicismo esta morto, e o protestantismo calvinista vitorioso.

Tentando recuperar uma ilusão política de poder moral a igreja vende seu supremo tesouro - a fé...

Depois surgem as consequências. Como a perseguição nazi...

A conclusão é simples: Entre Catolicismo e nazismo não pode haver composição, são inimigos naturais e inconciliáveis. Nem pode a fé Cristã deixar-se contaminar por discursos políticos estruturalistas ou formalistas e ignorar que o conteúdo do nazismo é o mal supremo. A estrutura democrática conhece problemas e os socialismos naturalistas limitações, seja. O nazismo porém é a porta do inferno. Não queiram comparar problemas de democracia ou os defeitos do socialismo com racismo e tortura.

Não podemos sequer nos omitir face a abominação nazista. Todos terão de responder por sua conduta face ao nazismo perante o tribunal sagrado de Jesus Cristo, o qual nos perguntará: Que fizeste de teu irmão? Não devemos esperar o negro, o indígena, o homossexual, o dissidente político, etc ser levado ao cadafalso... pois o cadafalso chegará até nós mesmos. Por isso reforcemos a corrente do amor e do bem contra tantos quantos assumem tais valores corrompidos.

Afinal não é o nazismo uma doutrina com que se posse brincar distraidamente, é a negação dos direitos essenciais da pessoa humana, o repúdio a igualdade, a restrição arbitrária das liberdades, a negação da justiça, etc E observe que desta vez ele não vem só mas de braços dados com o liberalismo econômico ou com a servidão capitalista, um dualismo perverso que levará a extinção dos direitos do trabalhador, extinção com que acenou Mourão, vice de Bolsonaro, pronunciando-se contra as férias e o décimo terceiro salário, assim contra o regime específico do funcionário público; e a afirmação da reforma da previdência. Veja então leitor que eles conseguiram unir o inútil ao desagradável - os vícios horrendos e abomináveis do Nazismo aos vícios monstruosos do Capitalismo. Eis a obra acabada e perfeita do anti Cristo.

Portanto, como Cristão consciente jamais vota em nazista, repitamos como um só homem: Doutrina social SIM, Bolsonato NÃO!!!

terça-feira, 2 de outubro de 2018

"A comunidade dos homens" - Dialogando com os cristãos Laloup e Nelis ou Capitalismo, Comunismo e Social Catolicismo


Estou lendo "A comunidade dos homens" de Laloup Nelis, Herder SP 1965. Livro escrito por Católicos leais e honestos, fiéis a Doutrina Social de sua Igreja, alias patrimônio comum a todos os Cristãos Católicos e inclusive a nós Ortodoxos. O imprimatur foi dado pelo piedoso Mons Lafayette e não por Bukarin ou Bulganin como poderiam imaginar os comunofobos cujos cérebros foram lavados pela propaganda norte americana e protestante... Há ainda Nihil obstat apensado por Mons Magalhães e portanto, antes que qualquer neo católico ignorante e protestantizado vomite suas baboseiras, trata-se duma obra que nada sabia de Marxismo, Comunismo ou Teologia da Libertação.

É obra não apenas romana ou papista mas comum a toda tradição humanista Católica seja romana, anglicana ou Ortodoxa. Um padrão de pensamento assumidamente encarnacionista, que não se deixou contaminar pelo solifideismo protestante ou tocar pelo misticismo descarnado, neo platônico, idealista, espiritualizante... que sempre assombrou a Igreja de Cristo.

Sabem os herdeiros de Malines que, como disse Aquino: "Não se fala de Deus a quem tem dome.". Isto pelo simples fato do homem não ser um anjo ou espírito descarnado, mas ser material que se realiza no mundo físico, mundo em que seu Senhor e Deus encarnou-se, com o objetivo de socorre-lo.

Assim, confessam eles que, desprezar ou ignorar a dimensão material da existência é perder a consciência quando ao mistério central da nossa fé.

Não eles não são, por modo algum, Comunistas, embora reconheçam com justeza que Católicos e Socialistas possam colaborar em torno de alguns objetivos comuns e como nós mesmos temos repetido a exaustão, o critério desta possível colaboração, como da ação política Católica só pode ser  DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA, jamais - como pressupõem o 'podre' e falsário Paulo Ricardo - o moralismo, que é um critério protestante. Nem é para admirar-se que em sua vã Cruzada contra os 'Comunistas comedores de criancinhas este sacerdote mau associe-se precisamente aqueles que negam a presença do Senhor no Sacramento, que apresentam a Mãe de Cristo como mulher ordinária e que, fideístas, folguem não possuir  qualquer doutrina social...

São perfeitamente Católicos como todos os Católicos sociais ou conscientes desde décimo nono século, cujo número diminuto eles deploram. E assim buscam honrar o legado daqueles Católicos que jamais engoliram a poção liberal... E é exatamente aqui que o livro se torna interessante, denso e profundo. A medida que insinua um 'Mea culpa'...

E iniciando este 'Mea culpa' ou esta análise realista principia declarando que desde os 1700 e tantos ou desde os 1800 parte dos Católicos - certamente contaminados pelo solifideismo protestante, dizemos nós na esteira de J Maritain - buscou compromissos com o liberalismo econômico ou capitalismo. Não, não foram poucos os Católicos que souberam resistir a atmosfera tóxica do individualismo, do idealismo, do romantismo e do liberalismo econômico; apegando-se ao misticismo da religião DOMINICAL, individual ou famílias, praticada pela família no lar e sem qualquer consciência social em termos de solidariedade ou fraternidade. Associaram assim a fórmula evangélica do 'orar a portas fechadas' (Insuficiente se isolada do contexto) a certo formalismo cultual e mutilaram por completo o espírito totalizante do Catolicismo.

Foi um reducionismo aviltante. Durante certo lapso de tempo, apesar de Leon Harmel (cujo exemplo foi grandioso justamente pelo isolamento) e alguns outros heróis, os patrões e senhores Católicos procederam tal e qual os senhores protestantes, oprimindo, sem misericórdia, seus irmãos batizados e membros de Jesus Cristo em nome de uma lei natural que os moralistas de antanho haviam definido como AVAREZA... E diante disto que fez a autoridade eclesiástica? Nada... Nada fez a Igreja ou a hierárquia para contér a opressão odiosa! Não emprenhou-se a Igreja em punir e castigar aqueles dentre seus filhos que cometiam tão grande injustiça! E assim, apesar de advertências puramente verbais, quando feitas, a injustiça proliferou como a lepra. E desta grave omissão, face a Hidra Liberal, surgiram é claro, Comunismo e Anarquismo, além dos Socialismos naturalistas.

O Cristianíssimo N Berdiaeff, outro adversário implacável do marxismo, define a questão com absoluta precisão: O Comunismo veio para fazer o que nosso Cristianismo não havia feito! E por que não havia feito?  Porque parte de seus profitentes estabeleceu laços de compromisso com o Capitalismo, sistema materialista e economicista por definição. Sistema cujo éthos é a avareza...

Diante de um novo mundo que não era o seu e que não correspondia a seus planos, diante deste novo mundo protestante, diante deste mundo materialista, economicista e insano não soube a velha igreja o que fazer e ficou paralisada. Alguns Católicos, diz com razão o matreiro G Corção em 'O século do nada' fizeram muito. No entanto este muito foi pouquíssimo e a ação social Católica totalmente desproporcional. Era o papismo a única força mundial capaz de pela ação travar os avanços do liberalismo econômico e imprimir outros rumos a História da humanidade... Se houve uma força capaz de coibir os abusos do Mercado, de doma-lo e de submete-lo a si foi a Igreja Romana. O supremo escandâlo é que ela não o fez, aceitando uma ordem de origem protestante e infensa a seus valores. A causa disto é patente: Certos compromissos estabelecidos entre os neo Católicos e o Capitalismo nascente, um colaboracionismo incorente e monstruoso enfim.

A questão que se coloca não é alguns Católicos, como Kolping, Descurtins, Mermillod e Von Keteller adiantaram-se a Marx e Engels... A questão crucial é, quão poucos Católicos acompanharam a estes heróis e quão pouco apoio receberam das autoridades no sentido de reduzir os maus Católicos, como se sucede ainda hoje. A Igreja tem falhado sucessivamente em coibir os liberais infiltrados em seu seio, os quais alias, ousam apresenta-la como favorável ao sistema que abraçam... De fato a Igreja produz e edita Encíclicas (desde Rerum Novarum) cujo conteúdo anti liberal é manifesto. E no entanto que continuam fazendo, até hoje, os maus Católicos, obstinados e alheios a DSI? Livre examinam e livre interpretam as tais Encíclicas como querem, acomodando-as so sistema querido... e continuam vivendo como bons ateus ou protestantes, oprimindo seus irmãos. A miséria aqui é a inércia de uma Igreja que nada faz de concreto.

Assim um anarquista e mais de um comunista escreveram que caso a doutrina social de Igreja saísse do papel e fosse posta em prática haveria uma mudança colossal em termos sócio econômicos. Os mesmos autores no entanto alegam que a Igreja nada visa além de enganar ou iludir seus filhos, uma vez que não leva seus próprios decretos a sério e não os faz por em prática. Ela não obriga os Católicos a conhecerem e a porem em prática a DSI, alias dever e direito seu. A Igreja brinca ou se omite e os Comunistas, Anarquistas e Naturalistas levam vantagem. Apesar dos Católicos sociais, tudo isto tem sido uma leviandade... pelo simples fato de que eles jamais deixaram de ser uma ínfima minoria, embora bastante ativa. Ínfima minoria é o que não se espera da maior religião ou igreja do planeta. O que dela se espera e compromisso e engajamento. A DSI enquanto Ortopraxia, exigiria, por parte dos Católicos - em especial de seus líderes - um empenho tão grande e um compromisso tão firme quando o Credo ou a Ortodoxia doutrinal.

Lamentavelmente caiu a igreja, levada pela polêmica protestante, no vício intelectualista ou meramente doutrinal, o que - paradoxalmente - preparou-a para o solifideísmo e as formas descarnadas de fé. Se por um lado foi altamente meritório ela ter assumido a defesa da razão ou da capacidade intelectual do homem (Serviço inestimável por ela prestado) por outro foi uma grande miséria ter ela esquecido das obras em sua dimensão social tão cara aos apóstolos e as primeiras gerações que reformaram o mundo antigo. Em dado momento, após o advento da reforma protestante, olvidaram os neo Católicos o sentido de Lei de Jesus Cristo tão caro a seus ancestrais.

Naturalmente que quanto a forma professada é a religião assunto pessoal ou familar relacionado com a opção livre. Liberalismo religioso NÃO É NOVIDADE, mas preceito afirmado pelos apóstolos e padres da Igreja face as injunções indevidas do Império romano. Agora por ser opção pessoal e livre não deixa de injetar no profitente o sentido do convívio ou da fraternidade, enquanto parte do espírito do Catolicismo. Nem pode haver Catolicismo sem íntimo contato social, vital e espiritual; o qual converte seus membros e membros de uma grande família. Quem são os Cristãos? Pergunta um pagão na Apologia de Minúcio Félix - "São pessoas que estimam-se antes mesmo de se conhecerem umas as outras!" Enfim pessoas que tinham noção de alteridade e solidariedade, e que colocavam os irmãos acima do lucro e dos bens materiais... Cidadãos que se preocupavam concretamente com as almas e corpos uns dos outros e buscavam o autêntico bem comum. Por isso rezavam: Pai NOSSO, jamais Pai meu...

No entanto após a reforma sucede-se uma intelectualização que vai assumindo formad cada vez mais teóricas, meramente cradais, idealistas, até o misticismo descarnado, o isolamento, a indiferença e a alienação. Veja a miséria: O Egoísmo torna os neo Católicos insensíveis face aos sofrimentos dor irmãos... E passam a viver em cidades e num ambiente urbano, não apenas como se são se conhecessem, mas como se se estranhassem ou odiassem. E o apelo verbal ou teórico ao amor converte-se em voz no deserto... Fala-se em tradição. Mas você não pode transferir esta vida ou esta realidade para a Idade Média, a qual nada tinha de liberal... A Idade Média não podia conceber o que fosse auto regulação do Mercado ou este enfeudamente do setor econômico enfiado em sua torre de Cristal. Para os sábios medievos, herdeiros da tradição antiga e imemorial, era a econômia uma atividade humana - não rigorosamente exata ou calculada - e assim como a jurisprudência ou a política sujeita ao primado da Ètica. Este foi e é o pensamento e sentir da Igreja... Não o pensamento liberal.

Assim a questão não é material, como cogitaram Marx e seus críticos. Tudo isto é vão e ilusório e a crítica de Marx, se leva a algum lugar e eletriza, não é contudo a mais profunda ou a que coloca o dedo no fundo da ferida... Surpreendentemente a crítica mais profunda parte desta igreja 'leviana' servida por homens tão volúveis... Tomemos a definição, refinada, de Sombart - É o Capitalismo um éthos ou um espírito, uma forma de consciência enfim. E este é seu fundo como veremos, aquilo que o torna venenoso e intolerável ao Cristão. Marx, materialista não o pode aceitar... Para ele tudo é encontro de capitais com técnica, do que resulta a posse privada dos meios de produção e o regime assalariado, ficando este 'mau em si mesmo'. Os Marxistas condenam inexoravelmente a posse pirvada dos meios de produção e o regime assalariado, e para eles isto fica sendo capitalismo...

Ora, a Igreja, com Sombart, não vê as coisas desta maneira. Por isso infinitos autores Católicos bem intecionados, analisam as coisas por este ângulo e absolvem precipitadamente o Capitalismo, declarando que nada há de essencialmente mau na posse privada dos bens de produção e no regime assalariado. Os Católicos creem sinceramente que esses meios ou métodos materiais são Cristianizáveis ou que se tornam bons, desde que animados por uma Ética Cristã de respeito a pessoa, e chegamos ao citado Leon Harmel...

Mas a Igreja usou, paradoxalmente, o olhar de Marx, que é equivocado, e que não nos dá a essência do sistema. Temos de buscar por ela...

Que é o espírito animador do lucro máximo, do acumulo irrestrito de bens materiais, do capital, dos juros, da plus valia senão a já citada avareza, fruto do egoísmo, um pecado mortal enfim??? Damos ai com o espírito corrupto... Alias um sacerdote insuspeito - Meinvielle - já analisou este sistema em termos de matéria e forma, aplicando o método de Aristóteles. Sem endossar todas as suas teses, concluímos que o Capitalismo torna-se inaceitável face a perspectiva Católica, por sua forma ou impulso que é uma avareza que chega ao materialismo chão.

Neste sentido temos de admitir que o Capitalismo, cuja estrutura material é aproveitável é em si mesmo um pecado e uma execração. Não é o Capitalismo que resta, o que resta é um MERCADO, um Mercado RELATIVAMENTE livre - e portanto não Liberal nos termos clássicos - e voltado para as necessidades humanas. O Mercado existe em termos de natureza, se organiza, reorganiza e assume forças distintas, variadas, exóticas... que devem ser penetradas e animadas pelo espírito Cristão ou pela Ética da Igreja. Podemos falar sem temor não em qualquer conciliação com o Capitalismo - cujo éthos deve ser eliminado pela ética Católica em termos de solidariedade, fraternidade, alteridade - mas num Socialismo de Mercado ou num Mercado voltado para a qualidade de vida das pessoas.

Falando num Mercado relativamente livre e portanto, ao menos em parte regulado pelo corpo social estamos falando em Capitalismo ou em Liberalismo Clássico??? DE MODO ALGUM, pelo simples fato de que o Capitalismo ou o Ideal de Capitalismo implica a auto regulação, opondo-se seus teóricos a toda e qualquer medida - por ínfima que seja - de regulação externa, assim social e política. Para eles a econômia corresponde a um existir a parte, com suas próṕrias leis, a algo independente enfim, a algo em que não se deve mexer, para que funcione bem. Portanto, postulando não a eliminação do Mercado, mas um controle relativo, em benefício da comunidade, não estamos assumindo ou sancionando o discurso Capitalista. Tal o discurso da Igreja, expresso pela DSI e a primeira certeza que se nos manifesta ao examina-lo é que se não é Comunista, Liberal ou Capitalista não é.

De fato a Igreja sempre primou pela defesa das liberdades, a exceção daquela que visa julgar a fé - i é o livre exame protestante... E foi brava em seu combate ao determinismo teológico dos calvinistas. Assim ela não pode negar que certa medida de liberdade seja benéfica as relações econômicas. No mesmo sentido assume, e com razão, a defesa da propriedade como natural. O que é absolutamente certo em se tratando da propriedade pessoal - seja de consumo ou de produção (assim a pequena empresa familiar nos moldes chineses) - e funcional. Sem no entanto deixar de condenar o 'jus abutandi' e afirmar sua finalidade social, em conexão com o bem comum. A doutrina aqui é excelente e o vício é a falta de compromisso para com ela...

Seja como for não é a Igreja tola ou ingênua, e se a princípio mostrou certo pasmo face a nova realidade, por meio de Leão XIII na Rerum Novarum admitiu a necessidade de uma regulação externa ou política do Mercado tendo em vista a promoção humana, a justiça social, a erradicação da miséria, etc E admitiu, é claro, que esta intervenção partiria do Estado. O que ela não examinou aquele tempo é em que medida o estado, passando a ser dominado ele mesmo - como dizem Laloup Nelis na obra citada - pelo poder econômico (dos trustes e cartéis inclusive) cessando de ser uma instância neutra ou isenta para converter-se em órgão da plutocracia e cimento de uma ditadura completa. Essa crítica vale para todos os socialistas estatólatras ou dirigistas sejam fascistas, nazistas ou comunistas... Mas admitiu a regulação estatal, embora ela mesma desconfiasse daquele novo estado que se tornava liberal...

De fato a Igreja, ainda aqui as relações e doutrinas mostraram-se problemáticas e cheias de nuances. Pois se a um lado não podia admitir os pressupostos do liberalismo clássico sem atraiçoar suas tradições a outro temia favorecer já um Estado em vias de se tornar liberal que a havia despojado de suas instituições, já a proposta de Estado futuro e ditatorial dos Comunistas... Um e outro tipo de Estado assustavam-na seja porque não os podia controlar ou inspirar. Limitou-se ela a condenar, e era inelutável, o liberalismo crasso, sem deixar de fulminar, igualmente, o autoritarismo estatólatra, o dirigismo absoluto e o totalitarismo pagão... Nesta questão de política ela nada precisou de muito claro. Leão XIII, conciliou-se com as exigências da democracia - um progresso a seu tempo - mas de uma democracia liberal ou burguesa. Essa mesma democracia foi muito resistente, como parte dos neo Católicos, as novas orientações propostas pela DSI e houve mesmo quem se escandalizasse - como os grandes apologistas pagãos adversários do Cristianismo - face ao empenho 'leonino' para com as exigência da justiça.

Os neo católicos por sinal não só forcejaram por de lado qualquer sentido de justiça relacionado com a condição econômica, como falsearam a doutrina evangélica da caridade, supondo que esta fosse voluntária ou livre, quando é norma, regra e lei para os Cristãos. No entanto Von Keteller e o sínodo de Mayence já havia acenado com a demanda da justiça em 1848. E após a Rerum Novarum e os estudos sociais em torno do tomismo, realizados em Malines e Liége sob o empenho de Mercier (de que resultaram os soberbos Cadernos sociais) consolidou-se mais e mais esta posição em termos de DSI, tornando manifesta a falta de sinceridade dos neo católicos liberais.

A partir de algum tempo no século XX, especialmente após a abominação ecumênica ou o surto de protestantização - e consequentemente de individualismo e assunção da pseudo cultura americanista - puzeram-se os neo católicos liberais, em assomo de desonestidade, a atacar e agredir indiscriminadamente os demais Cristãos, herdeiros do Catolicismo social, e isto a ponto de trata-los por comunistas i é exatamente como preceitua a cartilha Norte Americana de inspiração protestante, logo descarnada, idealista, individualista e puritana... Claro que a Teologia da Libertação assumiu posturas equivocadas, a ponto de poder ser classificada como uma degeneração ou uma queda em termos de idealidade. O que não justifica, de modo algum, que os Católicos socias e fiéis a DSI sejam igualmente agredidos, atacados e insultados quando representam a consciência social da Igreja, consciência de que eles, liberais, apostataram a muito, opondo-se ao sentido da Encarnação do Senhor.

Escandalizaram-se com razão do autoritarismo bolchevista, e assim dos autoritarismos Fascista e Nazista. E reduziram toda e qualquer oposição ao liberalismo crasso ou ao capitalismo a tais formas de dirigismo estatal, editando e reeditando o falso dilema - Capitalismo/Comunismo, dilema a que a DSI tenta escapar... E por esta via chegamos aos Socialismos heterodoxos - heterodoxos para o Comunismo por terem absorvido elementos já liberais, já anarquistas, já Cristãos...

Num primeiro momento buscam os neo católicos, como todo liberal desonesto, fingir que ignoram a existência de tais ideias ou grupos. Supondo, como acabamos de dizer, que tudo se resuma no binômio maniqueísta - Capitalismo bom X Comunismo mau... Agora quando um Católico instruido e leal ousa pronunciar a odiada palavra 'Socialismos' fazem uma grande bulha declarando que o Católico não pode ser socialista, gritando e batendo o pé. E fazem uma tremenda guerra ou batalha com palavras... Afinal se não se pode ser Comunista ou Socialista só podemos ser Capitalistas, concluem triunfalmente sem sequer analisarem a possibilidade de uma solução puramente Cristã ou Católica.

Para nós toda essa questão de palavras, tão cara a eles, faz bem pouco sentido. Os Católicos do Século XIX chamavam a si mesmos de Sociais (o que já se opõem a individuais ou a liberais) ou mesmo de socialistas (apud Brunetière 1904). Assim na Bélgica durante as primeiras décadas do século passado com Verstraet e na Alemanha com H Martens (apud Laloup Nelis p 199). A condenação oficial foi editada a posteriori e tendo em vista os Socialismos Naturalistas que chegavam ao materialismo, ao ateísmo e ao anti clericalismo. Claro que os Católicos não podiam aderir a princípios naturalistas.

Seja como for os Católicos, ressalvando os direitos essenciais da pessoa humana, continuaram afirmando a primazia do corpo social, particularmente em seus campos, como política e economia. É irrelevante que tenham assumido diversos nomes ou títulos: Sociais, trabalhistas, humanistas, personalistas, solidaristas, comunitaristas, cooperativistas, distributivistas, etc, etc, etc Cada um destes termos encobria uma solução que se opunha as pretessões do liberalismo crasso, cada um deles era uma negação do Capitalismo, cada um deles representava uma afirmação do comum... pois todos comportavam restrições externas ao Mercado.

Agora, claro que apartando-se dos socialismos extremistas e virulentos, que se escoravam no despotismo - comunismo, nazismo e fascismo - os Católicos, em demanda por soluções cada vez mais práticas e concretas, só podiam aproximar-se destes socialismos heterodoxos tributários não apenas dos anarquistas e liberais mas também de uma herança cultural Católica ou duma tradição inconsciente. Esta fuga comum, tanto dos socialismos hetedoroxos quando da DSI face ao dirigismo estatizante foi o ponto de encontro entre as duas correntes. Não só os socialismos todos, desfigurados pelo liberalismo, reportavam (opus cit) a uma Ética Católica, como o Catolicismo compreendia um Socialismo religioso, como a totalidade das religiões antigas a exemplo dos antigos Sumérios ou dos antigos Incas.

Concretamente este ponto de encontro foram as cooperativas, os sindicatos, as sociedade de apoio mútuo ou caixas, as quais podemos adicionar corporações, montepios, etc Quanto a uma ordem mais ampla a democratização econômica ou ao 'múltiplo' gerenciamento de empresas e fábricas, o qual contava com a participação do governo local, dos empregados, dos administradores e consumidores. Todas estas diversas formas sugeridas por Herr, Jauŕes, De Man, Deat e muitos outros foram já inspiradas no passado comum, já apreciadas pela mãe Igreja.

Agora a propósito destas formas de Socialismos autoritários ou despóticos, sempre citadas pelos liberais e com o costumeiro azedume, devemos considerar que nem este autoritarismo é fruto do socialismo - uma vez que a monarquia absoluta, a ditadura, etc são anteriores a ele (quanto a suas formas modernas) - e tampouco o socialismo filho do autoritarismo, isto pelos simples fato dos socialismos heterodoxos sempre terem se mantido fiéis a alguns pressupostos essenciais dos liberalismos (do pessoal, do religioso, do político...) ou incorporado tradições anarquistas e Católicas. Podemos interpretar Socialismo e Autoritarismo como fenômenos históricos paralelos que num dado momento vieram a se encontrar, excluindo qualquer relação essencial ou ontológica. Alias Autoritarismo e Religião também se encontraram... Mesmo Liberalismo e Autoritarismo, produzindo plutocracia, imperialismo, opressão dissimulada, etc

Para encerrar esta longa e fastidiosa exposição gostaria de abordar um tema repisado por alguns autores mas que ainda não encontrei na obra de Laloup Nelis. Refiro-me a demolição da ordem social Católica pelo liberalismo triunfante. A Igreja sempre buscou beneficiar concretamente a pessoa humana, inclusive a igreja romana, e em seus piores momentos. O Catolicismo antigo ou Ortodoxo cobriu o mundo inteiro com Escolas, Asilos, Hospitais, dispensários a exemplo do Nozokomion de S Fabíola ou da Basiliada de Cesareia... O dilúvio islâmico no Oriente e germânico no Ocidente converteram esse esforço titânico em ruínas fumengantes! No Ocidente, ao menos desde Carlos Magno este esforço foi retomado e mais uma vez a Europa Ocidental foi coberta por escolas, asilos, hortas comunais, orfanatos, etc No entanto a desagregação da unidade política e a afirmação do feudalismo - com seus conflitos - fez reverter, mais uma vez, tudo isto...

Após as cruzadas e os renascimentos, mais uma vez, a Igreja assume a direção dos negócios e vai reedificando as antigas instituições, geralmente em torno de algum mosteiro. Mais uma vez as pontes, caminhos, albergues, escolas, bibliotecas, etc vão sendo reconstruídos. Em Bizâncio, o sistema de proteção social assume uma proporção e eficiência jamais vistas até então. No entanto Bizâncio é destruida pelos turcos enquanto a Reforma estoura no Ocidente. Cobett refere-se a destruição da rêde de proteção mantida pela Igreja romana na Inglaterra e a destruição das Bibliotecas, dispensários, escolas, hospitais, etc Doellinger faz um levantamento colossal dos estragos produzidos pela reforma na Alemanha e elabora um inventário das instituições tragadas por esse movimento. Os mesmos estragos reproduzidos na França, Bélgica e Holanda ainda não foram devidamente elencados e descritos, no entanto podemos dar por dezenas de milhares as instituições demolidas. Hipoteticamente, com a afirmação da reforma, o Estado ou a comunidade secular, assumiria tais cuidados, os cuidados sociais... Ao menos de imediato muito pouco foi feito e ao que parece o Estado secular moderno jamais conseguiu equiparar-se a igreja antiga... Ficando a maior parte dos homens socialmente desamparados, ao menos nas novas sociedades...

Quanto as sociedades que retornaram ao modelo católico ou papista as dificuldades não foram menores. Pois já o estado secular, apelando sempre a uma possibilidade de cisma ou reforma, impunha restrições a ação da Igreja. De modo que desta vez as instituições foram criadas muito lentamente, e consolidando-se, mais e mais, um deficit social. No entanto, o quanto fora criado e estava sendo novamente gerido pela Igreja foi novamente abalado, ao menos na França, pela grande Revolução e da destruição de toda essa rede de assistência monacal - já ineficaz - até a formulação das primeiras leis trabalhistas foram cem anos de miséria extrema (assim de 1850 a 1890) e temos de perguntar sobre o quanto ela beneficiou os paladinos do liberalismo. Quanto aos outros países europeus assistiu-se a uma espécie de campanha politica com o objetivo de despojar a igreja das antigas instituições de beneficência. O que temos a dizer sobre isto é que a transferência foi falaciosa e que parte das instituições antigas - que já eram insuficientes - foi mais uma vez eliminada, produzindo um deficit social imenso. Claro que todas estas catástrofes sociais resultaram num desamparo generalizado e criaram um exército de pessoas dispostas a trabalhar sob quaisquer condições... Então temos de perguntar sobre até que ponto a demolição do aparato social foi intencional e correspondeu a certos interesses - Interesses de quem???

Temos de perceber que a ação social da Igreja, antes fecunda foi travada sob todas as formas pelo liberalismo, o qual estava a criar o seu exércido de reserva ou sua hoste de párias a serem explorados. A igreja de modo ou de outro os protegera - Pau na Igreja... As críticas dos Comunistas e Anarquistas só se tornam e se fazem justas na medida em que os neo Católicos comprometidos com o novo modelo não estiveram a altura de seus ancestrais, descuidando de recriar as antigas instituições de proteção a pessoa e mostrando-se indiferentes e insensíveis face a nova realidade produzida pela política liberal. A nova ordem, do século XIX, já não encontrou Católicos dispostos a investir no homem ou para a vida eterna, mas Católicos avarentos e acomodados, dispostos a investir apenas ou especialmente no Mercado e a geri-lo tal e qual os protestantes i é explorando aquele grande exército de reserva e ignorando as mais elementares exigências da justiça.

E esta situação tornou-se tão dolorosa a ponto dos neo católicos apresentarem os sofrimentos que eles mesmos impunha, voluntaria ou livremente aos operários, como meritórios... Decretando que eles se conformassem com ser explorados por seus próprios irmãos e que depositassem suas esperanças apenas no além túmulo. Diante deste quadro terrível me pergunto sobre o quanto esta religião oportunista ou conveniente não favoreceu a revolta, a incredulidade, o materialismo e o ateísmo??? Pois uma coisa é declarar que os Cristãos devem aceitar os sofrimentos que sejam inevitáveis enquanto resultados de forças naturais e outra, anti cristã e monstruosa, consiste em declarar que devem aceitar ser explorados e oprimidos, por aqueles que deveriam ama-los e praticas a justiça i é por outros Católicos.

Na medida em que os proprietários e patrões Católicos achavam-se autorizados não só a oprimir como a exigir passividade por parte dos oprimidos, claro que a Sociedade apóstata cindiu-se em classes e que esta cisão, escandalosa, refletiu-se no clero! Laloup Nelis admitem-no honestamente.

Assim se a resposta do protestantismo foi nula a do Catolicismo foi vergonhosamente frágil, em que pese afirmar-se ele como uma religião de obras e em sintonia com a Encarnação de Deus. E da fragilidade desta resposta surgiram outras como o Comunismo, o Anarquismo e o Socialismo. Face ao liberalismo hipócrita que busca manipular e História e ocultar o problema, esses sistemas tiveram o mérito de denuncia-lo... Devo declarar por fim que ter de manter algo porque funciona - o Capitalismo - se me parece a mais miserável e estúpida das soluções e isto pelo simples fato do homem sempre ser capaz d aprimorar o que faz ao invés de contentar-se com o que tem. Por isso, esse contentamento artificial e artificioso, sempre nos lábios, dos defensores do sistema me parece essencialmente pernicioso, mais do que qualquer outra forma de comodismo. Ainda aqui temos de explorar outras possibilidades e a doutrina social da Igreja romana me parece bastante fecunda neste sentido.





quarta-feira, 26 de setembro de 2018

O critério da boa política 'sicut' Aristóteles

Segundo o pensamento contemporâneo é a forma que dá legitimidade a política, no caso a forma democrática. Para os teóricos da modernidade a democracia corresponde a uma espécie de estrutura 'Revelada' ou sagrada e sua negação, seja por via da aristocracia ou da monarquia equivaleria a uma heresia.

Claro que os ingleses que são um povo por temperamento tradicional, em dado momento de sua História formularam um sistema eclético chamado parlamentarismo. Por essa solução mantem-se a velha forma monárquica, esvaziada do poder e implementa-se uma democracia.

As demais Sociedades optaram por soluções mais drásticas. Baniram a monarquia ou a aristocracia, como se queira, e estabeleceram o que chamamos de República mas que é na verdade o presidencialismo, se bem que mais tarde tenham se produzido um sincretismo entre a República e o Parlamentarismo.

Os EUA adotaram o modelo republicano presidencialista, organizado-o a sua moda. E endossaram a fórmula de Rousseau segundo a qual a soberania parte sempre da vontade popular ou que todo poder pertence e parte do povo, ao qual cabe escolher representantes para si, efetuando a transferência de poder por meio do voto ou das eleições, o que em suma remonta a John Locke. J J Rousseau no entanto insiste na vontade popular enquanto critério de legitimidade. Parece que o genebrino jamais cogitou que a vontade popular pudesse optar conscientemente pela tutela do Rei, e pior, que uma vontade popular desorientada pudesse optar pela guarda de um déspota, tirano ou ditador. Claro que ele sequer podia cogitar na teoria Freudiana sobre o sentimento de culpa ou o masoquismo.

As coisas de fato são assim e nossos juízos incidem quase sempre sobre as formas políticas. Até certo ponto isto não é um problema e alguns tem ensaiado justificativas interessantes. O problema e o grande problema é que em matéria de democracia nos habituamos a identificar nossas formas e nossos juízos com os dos antigos gregos, falseando a História.

Claro que não havia um juízo unitário entre eles, mas opiniões divergentes.

No entanto mesmo sem ser predominante a de Aristóteles era certamente uma das mais conhecidas e discutidas.

Grosso modo podemos dizer que Sócrates, Platão e Aristóteles não partilhavam deste nosso fervor em torno da forma democrática. Eram bem mais realistas, ao menos o primeiro e o terceiro, e todos os três, certamente, muito bem intencionados.

Sem chegar a ser um anti democrático Sócrates destacou-se como crítico da democracia leviana. Por democracia leviana queremos dizer aquela em que os cidadãos não precisam de preparo algum para participar, e que franqueava tudo a todos. Para Sócrates a escolha devia se dar entre homens dignos e as candidaturas abertas a todos que buscassem dignificar-se pelo saber, pela habilidade, pela perícia... Temos aqui uma democracia responsável ou com condições e certamente um tema bastante atual. Afinal a inserção das massas na democracia - das massas incultas e despreparadas (sic) - sempre poderia degenerar em Oclocracia.

Platão como todo sabem não acreditava nas formas democráticas, e sim o ofício do ditador/educador, tendo inclusive chegado a crer numa organização social fixa e imutável conforme o modelo das formigas ou termitas. Nesta Sociedade desigual a chave seria a colaboração entre as castas.

Aristóteles não é nem democracista nem adversário a democracia. Mas ele não acredita que qualquer modelo de política deva ser julgado pela sua forma. Homem genial ele imaginava que cada cultura, povo ou nação haveria de identificar-se como determinada forma. Melhor dizendo - Acreditava que qualquer grupo social podia tentar compor e recompor as três formas ecleticamente e assim produzir uma forma adequada a sua realidade. E desconfiava das soluções tipo bula de remédio ou receita de bolo.

Quanto a julgar as formas ou estruturas a demanda por um critério fez com que ele conceitua-se o que chamamos de 'Bem comum'. Desde então a política de modo geral foi conectada com a doutrina do bem comum, em oposição ao interesse particular. Foi Aristóteles que acenou com uma distinção mais nítida entre o objeto da política ou o que chamaríamos de público - em latim 'res publica' coisa pública - e o que chamaríamos de privado e que posteriormente seria reservado a ação pessoal.

É o BEM COMUM aquilo que é útil ou benéfico a todos os habitantes de polis i é da cidade.

Conforme a doutrina do Filósofo existiriam três formas ou estruturas, ambas politicamente admissível ou aceitável e três formas corruptas ou adulteradas que corresponderiam a um desvio por parte das formas aceitáveis. O padrão que separaria umas das outras seria, como já foi dito, o bem comum.

Segundo aduzimos de seus escritos a Monarquia corresponderia ao governo de um só homem, tendo por objetivo O BEM COMUM. E este objetivo a faria legítima. A Aristocracia corresponderia ao governo de parte ou de alguns tendo em vista O BEM COMUM. Já a Democracia corresponderia ao governo de todos ou da maioria tendo em vista o mesmo BEM COMUM.

Em oposição a estas formas teríamos a Tirania, que seria o governo de um só tendo em vista seus interesses particulares. A Oligarquia seria o governo de alguns tendo em vista os mesmos interesses particulares. A Demagogia enfim seria o governo de muitos tendo em vista o mesmo fim, a saber, interesses particulares.

Por ai se vê que Aristóteles partilhava da crença de Platão quanto a possibilidade de um monarca, absoluto inclusive, interessar-se pelo bem estar ou pela qualidade de vida dos cidadãos. Como acreditava que um grupo qualquer fosse capaz de encarnar este ideal de abnegação.

Necessário dizer que partindo de semelhante juízo fica impossível estabelecer o dogma da necessidade absoluta da democracia. O máximo é que se pode chegar dentro da linha de raciocínio de Aristóteles é que a democracia, sem ser a única forma autorizada, seria a forma mais segura, eficaz ou excelente pelo simples fato de corresponder a um maior número de cidadãos pensantes, o que nos levaria ao adágio 'várias cabeças pensam melhor do que uma.'. Segundo esta perspectiva a democracia, sem corresponder a única forma ortodoxa, seria a que nos ofereceria melhores garantias. Isto é deduzível a partir do pensamento aristotélico, o jacobinismo radical ou democraticismo, de modo algum.







Carta a um entusiasta da lusitanidade e das letras portuguesas

I - A circulação da cultura, o cosmopolitismo e a distinção entre a cultura grega e a cultura latina

Trocas ou permutas culturais sempre existiram e são certamente o 'motor' da evolução humana. Por meio destas trocas diversos universos culturais entram em choque e se fazem opções e julgamentos, o que pode ser saudável. Se você adota uma linha de análise racional ou científica, embora isto não seja tudo.

Parece ou deve existir uma espécie de seleção natural da cultura. Nós, homens ou pessoas refinadas precisamos de padrões, princípios e valores para julgar as culturas. O curioso é que estes padrões já fazem parte de uma dada cultura. Penso que haja certa objetividade em algumas culturas e que possam, elas e seus elementos, ser organizados hierarquicamente.

Você mencionou a cultura romana. De fato, não poucos, confundem a cultura grega com a cultura romana. E já foi dito que ao conquistarem os gregos pelas armas foram os romanos conquistados pela cultura grega. Isto é verdade, mas apenas em parte. Uma elite, parte de outra elite bem maior, formada pelos melhores romanos, absorveram o pensamento ou como queiram, a cultura grega em sua puridade. No entanto de modo geral não foi assim e temos de compreender isto muito bem para saber o que é e porque é o nosso mundo.

Sim os latinos tem suas virtudes e dou-os, ou seu temperamento por muito superior ao nórdico ou anglo saxão, de cujo bojo saiu o americanismo que hora nos polui e contamina a todos, não só a nós mas a Europa, ao velho mundo, arrancado de suas tradições, cultura e raízes pela reforma e pelo capitalismo. Os latinos eram práticos e excelentes administradores, tinham certas criatividade técnica que faltava aos gregos e sua arquitetura é até mais bela.


II - Humanismos Grego, Romano e Renascentista - Modelos distintos



No entanto esses mesmos latinos eram mais ou menos toscos e impermeáveis a contemplação do espírito. Interessavam-se mais por jogos do que pelo teatro e mais por espetáculos de gladiadores do que por esportes, a ponto de encarar os gregos como um povo degenerado ou corrupto.

Em termos de humanismo os romanos não assimilaram tudo, e o quanto assimilaram obscureceram. Clássica é a exposição de Aulus Gelio sobre a Humanitas romana, retomada pela renascença, e a Humanitas grega ou helênica. Para os gregos o ideal humanista não se restringia a erudição ou as letras, enfim a nossos belos versos de Virgílio ou Stacio, mas comportava o desejou ou a aspiração de beneficiar todos os seres humanos, inclusive os bárbaros ou de, de algum modo, promover o homem, o humano e de promove-lo integralmente.

Os romanos eram neste sentido mais ou menos semelhantes aos Norte americanos, que tratavam seus escravos com mais dureza do que os nossos. Os gregos até onde nos é dado saber eram mais suaves para com seus escravos. Assim quando as batalhas e combates. Os romanos eram mais agressivos, mais insensíveis e mais violentos do que os gregos. Sem chegarem a ser uns individualistas consumados ou terem consciência ideológica disto, eram indiferentes aos sofrimentos e miséria alheias, ao menos durante o declínio do Império e foi este declínio de uma orientação basicamente egoísta ou hedonista.

Veja nobre Wilson que estes romanos, que este ilustri vir escandalizou-se do Cristianismo nascente e dele mofou justamente devido a seu conteúdo fraternalista ou solidário. Estas nova consciência social, que recordava o socratismo, foi muito mal avaliada pelos senhores da cultura latina. Luciano de Samosata, Fronton, Filostrato, Juliano, Porfírio, Jamblico... qual o teor de suas críticas a nova fé? Que os cristãos assistiam os pobres, os aleijados, os enfermos, os escravos, os encarcerados, etc Então já sabes porque o Nazareno foi cognominado Novo Sócrates ou Sócrates redivivo e não novo Cícero ou novo Terêncio, ou novo Plauto. Para os romanos Humanitas era escrever ou falar bem, amar as artes, brilhar nos salões. Eles esvaziaram e empobreceram o conceito grego retomado por Jesus.

Mas a Renascença, após a I Média, retoma o conceito romano, não o grego. E introduz, a parte de benefícios, como a liberdade, a racionalidade, o pensamento científico... uma certa doze de alienação face ao outro. Lamentavelmente, fora as exceções - como S Tomas Morus - este 'vir' renascentista que temos de admirar e aplaudir já não é homem completo ou perfeito, ao contrário do Santo medieval que embrenha-se no leprosário ou cria hospitais, ele se aparta das multidões sofredoras. Claro que a multidão ou a massa é sempre fastidiosa ao homem culto, mortifica-o e penso que até Jesus foi mortificado pelos apóstolos e pelo povo. Mas ele cumpriu seu dever e é nosso exemplo. O Santo medieval é mais sublime do que nosso 'Vir' porque mesmo não sendo instruído identifica-se e compadece-se. Reteve o bem ou a ética, a melhor parte. O homem renascentista ficou com a casca ou com a aparência, i é com a arte ou a beleza, no máximo com uma verdade 'fria', assumiu um legado dos antigos romanos e não dos gregos ilustres. O Kalokagathos é um homem mais completo...
 
III - Tentativas de síntese, afirmação do protestantismo e do capitalismo e a falsa civilização norte americana.


Por um instante dos admiráveis Jesuítas acenaram com este ideal completo de homem completo ou do Kalokagathos. Assumiram o que havia de eterno e sublime na grande Renascença e associaram a ética Evangélica ou Cristã, afirmando um humanismo Cristão. Passou-se isto em algum momento entre os séculos XVI e XVII. Mas, lamentavelmente, não foram estas sementes que desabrocharam e plasmaram a nova cultura. O estrago estava já feito pela reforma protestante e o mundo protestante ou anglo saxão, movido por um individualismo ideológico e consciente, a caminho da nova ordem capitalista. Aquilo foi o dobre de finados para o projeto Jesuíta e mesmo a 'grande portugalidade' ou a Hispanidade apartaram-se logo dele...

As tendências ancestrais ou romanas que definhavam e poluiam a Renascença foram categoricamente reafirmadas pela pseudo reforma e a própria igreja romana, que já chafurdava no pântano do agostinianismo, assumiu a perspectiva solifideista numa proporção cada vez maior. O espiritualismo descarnado ou idealismo, associados ao individualismo crasso produziram uma outra 'civilização' ou uma anti civilização, americanista e de matriz já protestante, já capitalista. Nesta cultura de morte o anti humanismo converteu-se em lei. Deus não foi substituído pelo homem como sonhavam tantos e tantos e sequer pela razão ou pela ciência, mas pelo que há de mais vulgar e rasteiro: O amor ao dinheiro, o capital, o lucro, pelo que chamam de mercado enfim.

Claro que diante deste novo padrão, mesmo o padrão romano ou lusitano, mostra-se infinitamente superior. Os franceses até certo ponto adotaram o programa Jesuítico. Aspiraram produzir um Cristianismo letrado e brilhante. Parte dos anglo Católicos do outro lado da mancha também. Na Inglaterra após a morte do grande W Laud e na França apesar de S Vicente de Paulo, a insensibilidade e a indiferença; senão o hedonismo é que associaram-se as letras, artes e ciências e já não havia consciência social ou humanidade. Nossos Católicos não se deram conta disto, produziram um monstro e prepararam a Revolução, mesmo com toda sua erudição clássica ou refinamento. E tudo isto já apontava para algo ainda pior e mais feio - A afirmação absoluta do individualismo economicista nos séculos XIX e XX.

É incrível mas mesmo parte das elites educadas pela Igreja, não se puderam manter a parte deste fluxo cultural. Os Católicos racionais, racionalistas ou semi racionalistas foram um refresco caso compare-mo-los aos Católicos 'positivistas' ou mancomunados com o cientificismo. Mas isto não era o pior, pois antes de surgiram os malsinados Católicos comunistas apareceram em cena - ideologicamente porque já eram 'velhos' - os Católicos capitalistas ou liberais economicistas que é o tipo mais escandaloso e irreverente pelo simples fato, de segundo J Maritain, relacionar-se com o solifideísmo protestante. Pois são Católicos que cessaram de investir nos irmãos, na caridade, na assistência social, etc para investir no tal mercado ou católicos que trocaram os irmãos pelas riquezas - Católicos materialistas!!! Avarentos! Idólatras!!! Agora diga-me como o Católico poderia deixar de por seu tesouro nos céus??? E de empenhar todas as suas energias na construção de um mundo melhor, mais justo e fraterno; conforma a ótica e ética do nosso Evangelho.

Tudo isto já prenunciava o triunfo fácil do veneno que nos mata e do mal que nos assola - O americanismo!


IV - Crise e conflito de Civilizações: Nossa herança grega X americanismo


A grande luta do século, do milênio, da Era e da civilização não toca ao latinismo ou mesmo ao lusitanismo e o americanismo; exceto quanto a Portugal e Brasil talvez, mas entre nossas fontes e raízes mais remotas - Nossa herança grega, o humanismo pleno (com Ética da alteridade), a Kalokagathia, a autêntica Arete e a pseudo civilização protestante, capitalista e Norte americana.

Advertência que já editamos diversas vezes: Não existe civilização ou cultura Ocidental. O que é vendido como tal é o projeto Norte americano, culturalmente imperialista é claro. Ele não corresponde nem ao projeto latino, nem ao projeto Cristão/Católico, ao projeto helênico ou a qualquer síntese feita a partir destes elementos. Não corresponde a nossa autêntica e legítima cultura. A Nossas tradições e raízes. A nosso legado ancestral... Mas a um elemento estranho, que introduziu a confusão. Vivemos um conflito de culturas, mais do que um conflito de classes talvez. Crise porque temos uma sobreposição de civilizações e culturas. Crise porque temos um agregado artificial de elementos conflitantes. Crise porque temos vivido um sincretismo irracionalista e tosco.

Temos duas culturas em choque ou conflito e temos de afirmar e de gritas e de divulgar isto. Não vivemos o projeto de Sócrates, Aristóteles, Platão ou Jesus... Através dos meios de transporte e comunicação, valendo-se do poder do dinheiro os Norte americanos tem divulgado um outro projeto e vendido como nosso ou como projeto comum do Ocidente - assim sem anti comunismo boçal... É gato por lebre. Nosso projeto é outro e distinto de ambos. É reacionário em grande parte por ser antigo, mas, paradoxalmente, revolucionário e progressista por opor-se a esta confusão ou a este mistifório a que vende por civilização europeia ou comum.

Que há de Dante, Cervantes, Camões ou Tasso nela??? Nada, absolutamente nada e até a arte foi corrompida e obscurecida por meio da arte psicologista ou moderna, santuário do subjetivismo e do relativismo reinantes, frutos de uma cultura ou de uma civilização deterioradas, assim como o ceticismo. Sem querer ser Spengleriano, tudo em nossa volta fala de crise, ruína, decomposição, morte...Vivemos o ocaso da cultura porque a cultura deteriorou em suas novas formas. O Comunismo leva estes germes de morte adiante... Porta os velhos germes de morte do positivismo e do tecnicismo.


V - Os fundamentos religiosos de nossa Civilização e a crise do 'Catolicismo' Ocidental

Certamente que a portugalidade como a romanidade religiosa, foram superiores ao anglicismo e ao protestantismo. Mas, Roma caiu, assimilou modos protestantes - Doutrinas, princípios e valores protestantes. E não podemos ter a ilusão de fazer algo a partir dela.

Portugal e Brasil, e Espanha, e França, e Itália, do passado foram o que foram graças a Igreja romana. Se você abstrai deste elemento nada se produz em termos de cultura.

Veja que estes povos já se tornam protestantes meu caro! Como não queres que ass
umam uma cultura alienígena e de origem protestante cujos elementos são a democracia indireta ou representativa e o capitalismo ou livre mercado? Como escapar a este Imperialismo cultural ou a artificialidade desta cultura sem algo como a Igreja papalina?

Impossível - It's impossible...

O resto da cultura não se sustenta sem o substrato religioso do qual depende. Não vejo esperança de resgatar a latinidade exatamente como era, a hispanidade ou a lusitanidade. Teremos de fazer outras reelaborações com o material a partir de algo mais antigo e seguro - a Igreja Católica Ortodoxa e o Socratismo/Aristotelismo (nossa herança grega). Temos de produzir outra síntese, como diria Toynbee, e opo-la ao americanismo e seus aparelhos e aparato. Teremos de rezar para que se efetue a Mimesis ou para que esta reelaboração seja aceita pelas elites intelectuais e chegue até as massas perpassando todo corpo social. É um desafio e tanto e por isto devemos estar conscientes dele.

Temos de pugnar pela cultura restabelecendo suas fontes, as quais, ao contrário do que disse K Marx, são religiosas. cf Coulanges, Dawson e Butterfield.


VI - O idioma e a poesia não nos salvarão


As linguas comunicam-se, transformam-se, alteram-se, evoluem, declinam, sofrem influxo de outras linguas e do mesmo modo a cultura. A lingua é como uma casca. Importante manter a norma culta para fazer-se compreender e evitar duvidas e conflitos. Mas a lingua não salvará a cultura. A salvação da cultura exige um elemento estável e o mais estável de todos que é a religião e a religião tradicional, especialmente a que afeta 'imutabilidade'. Ela sempre será o melhor suporte para a cultura e por isso precisamos é debruçar-nos sobre o terreno religioso. E decifrar o Cristo, e compreender o Evangelho, e conhecer sua ética, e encarar a crise da igreja romana, e saber o que significa protestantismo, e precisar quando e porque a crise começou. Isto é fazer diagnóstico.

Nem as armas e munições, nem a lingua, nem mesmo o Estado e as leis, produzem a cultura que lhes da suporte. Volte-se para o fenômeno religioso e a esfinge soltará a lingua e lhe falará e quem sabe você poderá fazer algo de grandioso e imortal pela pobre humanidade, assim como Paulo, Fócio, Aquino, Mohler, etc


quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Capitalismo - Posso questiona-lo?


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Quando indagamos se podemos questionar o capitalismo o que queremos saber é se podemos questiona-lo sem ser Comunistas?

Ao menos supostamente, é apanágio do pensamento livre e das instituições democráticas não apenas poder questionar qualquer coisa em foro íntimo como poder expressar tais questionamentos... aqui, chegamos a obviedade e ter de explicita-la já insinua a gravidade do problema.

Vivemos tempos em que o óbvio deve ser muito bem explicado e tempos assim não são dos melhores.

Há quem se julgue bom Ocidental - Civilizado, evoluído, 'moderno', vanguardista... E ignore pressuposto tão caracteristicamente liberal, tendo-o em conta de anarquista ou o que é ainda mais grave, de comunista!!! E no entanto estamos falando sobre um dos fundamentos da nossa civilização, o que basta para evidenciar quão frágeis são tais fundamentos...

Digo, o pressuposto ou o direito de duvidar de qualquer coisa.

Para muitos no entanto duvidar do Capitalismo ou seja de sua viabilidade, de sua dignidade, de sua perfectibilidade, ou de sua suposta eternidade sabe a heresia... O que nos remete ao conceito de Dogma. Para muitos a perfectibilidade do Capitalismo é crença que sabe a Dogma. E há que se ter fé nela para ser um bom cidadão ou homem de bem, ao menos em certos círculos. Do contrário serás um herético... quase nos termos da Idade Média. 

Há todo um misticismo chão em torno do sistema econômico vigente. O qual não condiz nem um pouco com nossos fundamentos liberais...

Após ter aluído o liberalismo político em diversas situações, o liberalismo econômico choca-se contra a mais fundamental de todas as expressões liberais - que é a liberdade de pensamento.

Para muitos pensar contra o Capitalismo ou questionar esta opção é algo intolerável, algo que deveria ser reprimido, punido, castigado... Como nos velhos tempos da inquisição genebrina... que o velho Mc Carthy tentou fazer reviver nos EUA do século XX, sem experimentar maiores dificuldades!

Claro que há quem, fiel a tradição liberal, reconheça aos contrários ou dissidentes, o direito, líquido e certo de duvidar de qualquer coisa, inclusive do Capitalismo. No entanto os que duvidam são sempre e necessariamente, Comunistas ou Bolcheviques.

Mesmo que semelhante dúvida parta do Dalai lama, do Papa Francisco ou de John Gray, eles ficarão sendo vermelhos... Aqui nos meios virtuais do Brasil José Bonifácio, D Pedro II e Getúlio Vargas já foram matriculados na KGB. Freud e - pasmem - Darwin foram os últimos a seres acusados de apoiar o 'Comunismo' e fila certamente conta com Platão, Sócrates, Buda, Confúcio, Jesus, Paulo, os Padres da Igreja, Aquino, Vitória, Morus, Campanella, etc Esperemos os cães de guarda do sistema tornarem-se mais atilados ou imbecis... Maritain, Mounier, Bloy, etc que se cuidem, pois o fanatismo liberal economicista não perdoa seus críticos... levantou dúvidas é comunista ou bolchevique.

Tal o sentido de nossa pergunta: Podemos questionar o Capitalismo ou ser céticos com relação a ele sem ser Comunistas?

Embora tudo nos indique que Sim, e de modo absolutamente claro, sonoro, translúcido e evidente, boa parte das respostas obtidas equivalerá a um sonoro Não. O que como já dissemos é alarmante. Venha donde venham as críticas, partam donde partam, procedam onde procedam, e embora inspiradas em valores diferenciados quais sejam o humanismo socrático, a fé búdica, a Ética católica ou considerações keynesianas em torno da economia pura, serão sempre classificadas como comunistas pelos desonestos.

Isto mesmo querido leitor. Para boa parte dos ocidentais resolvem a questão dualisticamente ou por meio de um dilema: Quem não é capitalista é Comunista e vice versa. E não enxergam qualquer outra possibilidade além destes dois sistemas hermeticamente fechados. É necessário conformar-se com um ou outro i é entrar na caixinha.

Terceira opção, via ou possibilidade é algo impossível, impensável, inconcebível... A este falso dilema acrescentam ainda - é claro - uma avaliação simplória, a que chamamos maniqueísmo: Capitalismo bom, Comunismo mau...

Eis julgada a questão e não se pode pensar doutro modo, fronteiras estão traçadas e limites postos! Quem discordar é comunista, logo mau...

Julgo que qualquer pessoa inteligente e ponderada seja capaz de concluir pela artificialidade, pela tacanhice e pela miséria deste quadro. 

Eis-nos diante de uma pintura distorcida da realidade formulada por pessoas francamente limítrofes senão desonestas. Mas há quem identifique-se com ele. Quiçá devido a sua pobreza absoluta... Nada mais fácil do que gritar como uma pega no cio: Comunistas, Comunistas... ao invés de pensar, discutir, pesar dos argumentos e dialogar como gente civilizada. Melhor rotular e permanecer eternamente girando em torno de um 'ad hominem'.

Caso você ofereça outros botões - digo outras opções ou horizontes mais amplos -  ao sujeito, os neurônios queimam... e o cérebro pifa.

A zona de conforto destas pessoas pede por uma concepção falaciosa e por uma avaliação maniqueísta. Fazer o que??? "Os homens desejam ser enganados, façamos sua vontade." reza o provérbio...

O que me espanta não é a existência deste tipo de visão. A existência da tolice ou da miséria intelectual é previsível. Digo mais: Semelhante tipo de visão é algo que até esperamos ver proliferar num espaço como o 'Belt bible'.

O que me espanta e atemoriza é ve-lo estender-se pelo mundo afora e contagiar outras tantas culturas, encontrando aderentes e repetidores.

Haja visto um número considerável de brasileiros que afetam ser patriotas e engolem esta xaropada americanista forjada pelos seguidores de João Calvino...

Curiosos estes brasileiros que melindravam-se do tal imperialismo russo ou soviético enquanto saudavam e saudam o imperialismo Monroe - o do destino manifesto.

A crítica é válida e aguda posto que originalmente o Capitalismo não pertence a nossa cultura. É elemento externo ou alienígena, tão alheio a nossa cultura quanto o Comunismo ou o Anarquismo. Mais, é elemento não de origem Latina ou Católica mas de origem Alglo saxã e protestante. Por mais que alguns 'católicos' ou melhor neo católicos, safados e vendidos, pretendam demonstrar o contrário, a crítica levantada por Max Weber permanece firme, forte e inabalável. É corroborada além do mais por uma hoste ou multidão de autores católicos de fidelidade indiscutível. Assim O Brien, Maritain, Fanfani... O que a Igreja criou ou produziu foi uma doutrina social destinada a combater este sistema pérfido e cujo sentido é obviamente, anti liberal.

Caso o liberalismo econômico ou a auto regulação interna do Mercado estivesse de acordo com o pensamento da Igreja não haveria qualquer necessidade de uma doutrina social inspirada numa ética religiosa e portanto externa ao Mercado. A Igreja romana e com ela todo o Cristianismo, tudo quanto seja Católica, a Ortodoxia Oriental, o Anglo Catolicismo... não compreendem que hajam necessidades humanas autônomas face ao que chamamos ética. Não reconhece de modo alguma a pretensão cientificista do positivismo, alardeando que também a ciência - outra ação ou produção humana - possuí limites igualmente ditados pela Ética. Como reconheceria as pretensões de um sistema economicista, cujo fim e o materialismo???

O protestantismo apenas poderia concordar com tais pretensões na medida em que postulou, como observa Maritain, uma salvação sem obras ou ética, desvinculada da imanência ou do mundo natural. O Catolicismo sempre vinculou a redenção a ação ou atuação dos fiéis no mundo natural, físico ou material; em suma ao comportamento, o que certamente engloba a produção da ciência e a administração da produção e distribuição de bens. Nada caí fora do primado da ética. Alegar que a Igreja ou a fé nada tem a ver com isto é distorcer a questão. Não é o Catolicismo uma fé teórica ou um sistema solifideísta, mas uma fé destinada a inspirar e regular as ações humanas e assim a ação econômica, que é humana. Portanto as pretensões do Catolicismo chegam ao Mercado sim e são pretensões reguladoras e limitadoras, alias de um vício que nossa tradição classificou como avareza!

Os padres da Igreja não deixaram a economia florescer livremente, nem os escolásticos, nem Francisco de Assis, nem S Antonio de Pádua, nem a tradição constante e imutável que vai de Morus e Campanella e Mably, Morelly, Meignam, Keteller, Mounier e Maritain, ou seja, ao Catolicismo social. E deste contesto surgiu um sistema dócil e colaboracionista que foi a reforma protestante, quiçá porque a Igreja antiga tivesse sido irredutível e se recusado a colaborar. Foi o protestantismo que batizou as primeiras aspirações economicistas com Calvino e seus sucessores e foi ele a instituição que mais colaborou - ao menos negativamente, por recuo ou omissão - para a afirmação da nova realidade, e isto a ponto de podermos descreve-lo como solidário. Ao contrário da igreja antiga ele não teve poder ou forças para resistir aos ímpetos do novo sistema. E disto surgiu um novo mundo ou uma nova sociedade, não apenas secularizada, mas materialista e economicista, embora teoricamente se apresentasse como Cristã. O que alias condiz com o éthos solifideísta do protestantismo.

Mas era quanto a prática ou quanto as obras Cristã esta Sociedade em que os homens não mais se reconheciam como irmãos? Uma Sociedade em que o amor fora substituído pelo sentido do lucro? Uma Comunidade em que a justiça fora sacrificada ao capital? Uma Sociedade onde o homem foi trocado dinheiro? Uma Sociedade em que irmãos converteram-se em rivais ou concorrentes??? Por mais exata ou correta que fosse esta fé, não vejo como semelhante sociedade pudesse fazer jus ao título de Cristã. O que temos aqui sequer é uma Sociedade pagã, mas uma Sociedade materialista, economicista, desumana, inumana e cruel. O cúmulo da degradação!

Agradeçam por isto o querido protestantismo a que incensam, não a igreja romana e menos ainda as antigas Igrejas Católicas, as quais reguladas pela tradição ancestral e se querem por uma tradição produzida numa cultura rural ou agrária, só podem pensar em termos de solidariedade, o que o capitalismo tem de menos característico. Segundo nossa tradição nem os pobres são vagabundos  - mas frequentemente oprimidos - nem a miséria diz respeito a caridade (mas a justiça cf Aquino) e nem é o exercício da caridade livre mas tão impositivo quanto o da justiça.

E se a fome e a morte resultam de uma má gestão ou de uma má distribuição dos bens produzidos é sobre o homem - que opera por meio da avareza ou da cobiça - que cai esta aberração monstruosa. De que haja fome e morte quando há suficiência de bens para todos. Corresponde isto, inclusive o esforço excessivo e a saúde precária do trabalhador, a um crime ou pecado horrendo e este pecado é pecado social. Praticamente todos somos co responsáveis na medida em que silenciamos ou cessamos de criticar. Caso não nos oponhamos a este regime de morte somos cúmplices. Pergunta o Cristo sobre as almas e corpos de nossos irmãos e não lhe podemos dizer: Que tenho eu a ver com meu irmão??? Porque batizados fomos inseridos num só corpo. Assim não convém quem um membro do corpo assista impassível a fome ou a enfermidade ser experimentada pelo outro. Ser membro de um só corpo implica sentir a dor do outro ou ser solidário.

O neo Católico prostituído no entanto observa os membros de Jesus Cristo, expoliados pela avareza e lançados a sarjeta, como vagabundos, e aparta-se deles, recusando-se a estender-lhes a mão. E caso o denunciemos esse ímpio ousará replicar gritando - Comunista! Se ser Comunista é servir aos pobres, censurar a avareza e indagar sobre as fontes da miséria humana, então é o Comunismo filho do Evangelho e perfeitamente evangélico! O que não é nem um pouco evangélica é a cobiça e a dureza de coração dos neo Católicos protestantizados. Afinal é dever do Católico Ortodoxo - e de quantos se consideram Católicos - considerarem sempre suas posições com relação ao próximo, que é seu irmão, buscando dignifica-los e resgata-los da miséria.

Assim o Católico é levado a promover o irmão ou a investir no homem e não no Mercado. Pois sua poupança ou bolsa de valores esta nos céus, no Reino de Jesus Cristo. Pois seu coração e seu tesouro estão no mundo invisível ou no paraíso. Porque suas economias consistem em servir. Em alimentar, vestir, medicar, visitar, confortar, etc Tal seu ofício e sua vocação. Tal a verdadeira religião, que consiste em socorrer os órfãos e as viúvas em suas necessidades. Se o Católico não trás este sentido quão miserável ele é...

Portanto não é só a experiência da realidade que nos convida a duvidar do sistema estabelecido mas a fé de nossos ancestrais, a qual plasmou nossa cultura, socialista para mim, se quiserem ou fizerem questão - Solidarista, corporativista, humanista, trabalhista, personalista, social, pouco se me dá. Podeis definir a nossa cultura ancestral como quiserdes menos como Capitalista ou liberal economicista e desafio qualquer Católico desonesto ou de má fé a demonstrar-nos a existência de Capitalismo na Antiguidade Cristã, na Alta e mesmo na Baixa Idade Média. Provem ou demonstrem que o Capitalismo afirmou-se em qualquer sociedade Católica antes do advento da Reforma protestante. Estou aguardando há duas décadas por esta demonstração. Do contrário continuarei repetindo com Weber - o liberalismo economicista ou capitalismo é filho ou irmão do protestantismo, nada trazendo em si de legitimamente Católico.

Mas para que levar o tema até ai???

Para demonstrar cabalmente que os defensores do modelo capitalismo estão na contra mão de nossa cultura ancestral - Católica, latina, lusitana e brasileira. Tanto pior caso adicionassem as fontes indígenas e africana. Nenhuma delas sabe a Capitalismo. Destarte temos de avaliar este sistema tão seguro se si, como algo tão estrangeiro e imperialista quanto o Comunismo e o Anarquismo. Ao criticar os Comunistas e ao berrar contra eles o capitalista brasileiro assemelha-se a alguém que busca tirar cisco da vista alheia, tendo um poste na sua. Nossas formas de opressão e dominação, sempre questionadas pela igreja - embora não com a devida intensidade - eram abertas. As formas de dominação capitalistas são ainda mais nocivas e perniciosas porquanto dissimuladas. Afirma-se que há chances ou igualdade de oportunidades a todos quando não há. E o resultado desta crença é a conformidade.

Claro que nosso passado não foi santo, perfeito ou paradisíaco, mas bem poderíamos ter tomado uma outra rota, no sentido do Evangelho ou da Ética proposta por ele. Lamentavelmente o rumo que nos foi imposto de fora para dentro foi bem outro... fortalecendo as cadeias da opressão e multiplicando os males. Certamente não temos mais escravos africanos. Mas temos multidões de descendentes seus 'exilados' num mundo a parte ou numa realidade paralela chamada favela. Quanto aos índios, quem ignorara o estado de penúria e indignidade em que vivem??? E não chegamos as multidões de trabalhadores urbanos assalariados cujos direitos se veem ameaçados dia após dia pelas necessidades econômicas ditadas pelo mercado. O quanto vejo é um povo ameaçado pela servidão e pela mais dura das servidões, ainda que disfarçada.

Diante disto o Socrático se pergunta - Posso criticar o Capitalismo??? E assim o Platônico, o Aristotélico, o Budista, o Confuciano e sobretudo o Cristão, o Cristão Católico e Ortodoxo... e só pode responder de um modo:

Não posso, DEVO. E se não colocar este sistema em dúvida como poderia afirmar-se como Católico.

Termino este breve ensaio concluindo que há mais motivos para questionar o sistema Capitalismo do que supõem o Comunismo.