domingo, 17 de junho de 2018

De vera doctrina - Fragmentos da Encíclica "Graves de communi re" por Leão XIII > Contra os monarquistas/integralistas e CAPITALISTAS

Resultado de imagem para leão XIII pope











1 - O tecnicismo nada resolve:

"As mudanças, também, que as invenções mecânicas da época introduziram, a rapidez da comunicação entre os lugares e os dispositivos de todo tipo para diminuir o trabalho e aumentar o ganho, todos adicionam amargura ao conflito." I 


2 - O remédio é a doutrina pura do Santo Evangelho:

"
Tornamos evidente que os remédios que são mais úteis para proteger a causa da religião, e para terminar a disputa entre as diferentes classes da sociedade, deveriam ser encontrados nos preceitos do EVANGELHO." II



3 - Sugestões concretas em favor dos mais humildes:

"
Na ordem de ação, muito tem sido feito em favor do proletariado, especialmente naqueles lugares onde a pobreza era pior. Muitas novas instituições foram estabelecidas a pé, aquelas que já foram estabelecidas foram aumentadas, e todas colheram o benefício de uma maior estabilidade. Tais são, por exemplo, os escritórios populares que fornecem informações aos não instruídos; os bancos rurais que fazem empréstimos a pequenos agricultores; as sociedades para ajuda mútua ou alívio; os sindicatos de operários e outras associações ou instituições do mesmo tipo. Assim, sob os auspícios da Igreja, uma medida de ação unida entre os católicos foi assegurada..." III 

4 - Se os pobres são explorados pelos ricos?

"
bem como algum planejamento na criação de agências para a proteção das massas que, de fato, são tão freqüentemente oprimidas pela astúcia e exploração de suas necessidades como por sua própria indigência e labuta." III 

5 - O nome Socialismo Cristão foi adotado pelos Católicos embora, segundo o Papa, seja ambíguo ou dúbio:

"
O nome do socialismo cristão, com seus derivados, que foi adotado por alguns, foi muito bem permitido cair em desuso." IV 

6 - O nome 'Cristãos sociais' ou 'Católicos sociais' teve voga:

"
Nos países mais preocupados com este assunto, há alguns que são conhecidos como cristãos sociais. Em outros lugares, o movimento é descrito como a Democracia Cristã e seus partidários como Democratas Cristãos, em oposição ao que os socialistas chamam de Democracia Social. Não é dada muita exceção ao primeiro desses dois nomes, isto é, cristãos sociais, mas muitos homens excelentes consideram o termo "democracia cristã" censurável." IV 


7 - O que o Papa considera equivocado no Socialismo ou na Social Democracia são o materialismo e o naturalismo:

"
O que é a social-democracia e o que a democracia cristã deve ser, certamente ninguém pode duvidar. O primeiro, com a devida consideração pela maior ou menor intemperança de seu enunciado, é levado a tal excesso por muitos a ponto de sustentar que não há realmente nada existente acima da ordem natural das coisas, e que a aquisição e desfrute de corporalidade e externa bens constituem a felicidade do homem." V


8 - A Justiça é preceito sagrado. E o direito a propriedade pessoal:

"
Portanto, para a democracia cristã, A JUSTIÇA É SAGRADA; deve sustentar que o direito de adquirir e possuir propriedade não pode ser impugnado..." VI9 - CONDENAÇÃO DO INTEGRALISMO MONÁRQUICO OU DA MONARQUIA DIVINA:

"
Pois, as leis da natureza e do Evangelho, que por direito são superiores a todas as contingências humanas, são necessariamente independentes de todas as formas particulares de governo civil, enquanto ao mesmo tempo estão em harmonia com tudo o que não é repugnante à moralidade e justiça." VII"São, portanto, e devem permanecer absolutamente livres das paixões e das vicissitudes dos partidos, de modo que, sob qualquer constituição política, os cidadãos possam e devam respeitar as leis que os ordenam a amar a Deus acima de todas as coisas, e a seus vizinhos como eles mesmos. Esta sempre foi a política da Igreja. Os Pontífices Romanos agiam de acordo com esse princípio, sempre que lidavam com países diferentes, independentemente do que pudesse ser o caráter de seus governos. Portanto, a mente e a ação dos católicos devotados a promover o bem-estar das classes trabalhadoras nunca podem ser acionadas com o propósito de favorecer e introduzir um governo no lugar de outro." VII
10 - O TRABALHISMO não pode ser condenado sob qualquer alegação:
"
que ninguém condene aquele zelo que, de acordo com as leis naturais e divinas, visa fazer a condição daqueles que trabalham mais toleráveis; permitir-lhes obter, pouco a pouco, os meios pelos quais podem prover o futuro; ajudá-los a praticar em público e em particular os deveres que a moralidade e a religião inculcam; para ajudá-los a sentir que não são animais, mas homens, não pagãos, mas cristãos, e assim capacitá-los a se esforçar mais zelosamente e mais ansiosamente pela única coisa necessária; ou seja, aquele bem final para o qual nascemos neste mundo." X11 - A questão social não é meramente econômica (ERRO POSITIVISTA) diz respeito a Ética e a Religião (conexão com a religião):

"
Nós projetamos especificamente aqui a virtude e a religião. Pois, é opinião de alguns, e o erro já é muito comum, que a questão social é meramente econômica, enquanto na verdade ela é, acima de tudo, uma questão moral e religiosa, e por essa razão deve ser estabelecido pelos princípios da moralidade e de acordo com os ditames da religião." XI12 - O mandamento do amor fraternal abarca o que é necessário para o bem estar desta vida ou para a vida do corpo físico e não apenas o espiritual - CONDENAÇÃO DO ESPIRITUALISMO MANIQUEÍSTA:

"
estar atento ao que Cristo tão amorosamente disse aos Seus:" Eu lhes dou um novo mandamento: que vocês se amem uns aos outros, como eu os amei, que vocês amem-se uns aos outros. Por isso todos os homens saberão que são meus discípulos, se vocês se amam um pelo outro. "(7) Este zelo em vir ao resgate de nossos semelhantes deve, é claro, ser solícito, primeiro para o eterno bem das almas, mas não deve negligenciar o que é bom e útil para esta vida." XIII
"
Ele declarou que levaria em conta especialmente a caridade que os homens exercitavam um para o outro. E nesse discurso há uma coisa que excita especialmente nossa surpresa, a saber, que Cristo omite aquelas obras de misericórdia que confortam a alma e se referem apenas àquelas que consolam o corpo, Ele as considera como sendo feitas a Si mesmo: estava com fome e me deste de comer, estava com sede e me deste de beber, eu era um estranho e tu me acolheste, nu e me cobriste, doente e me visitaste , estive na prisão e viestes a mim. " XIV

13 - As antigas instituições sociais criadas pelos antigos com o objetivo de aliviar o sofrimento humano obedecem a LEI da caridade:


"
Esta lei da caridade que Ele impôs a Seus Apóstolos, eles da maneira mais sagrada e zelosa colocada em prática; e depois deles aqueles que abraçaram o cristianismo originaram aquela maravilhosa variedade de instituições para aliviar todas as misérias pelas quais a humanidade é afligida. E essas instituições continuaram e aumentaram continuamente seus poderes de alívio e foram as glórias especiais do cristianismo e da civilização de que ela era a fonte, de modo que os homens de mente certa nunca deixam de admirar essas fundações, conscientes de que são da tendência dos homens se preocupar com os seus próprios e negligenciar as necessidades dos outros." XV14 - Buscar o BEM COMUM e não apenas o pessoal:

"
Assim, a justiça e a caridade estão tão ligadas umas às outras, sob a lei suave e doce de Cristo, que formam um admirável poder coesivo na sociedade humana e levam todos os seus membros a exercer uma espécie de providência em cuidar dos seus próprios e em procurar o bem comum também. XVI"Pois ninguém vive apenas por sua vantagem pessoal em uma comunidade; ele também vive para o bem comum, de modo que, quando outros não podem contribuir com sua parte para o bem geral, aqueles que podem fazê-lo são obrigados a compensar a deficiência. A própria extensão dos benefícios que eles receberam aumenta o fardo de sua responsabilidade, e um relato mais rigoroso terá que ser prestado a Deus que concedeu essas bênçãos sobre eles. O que também deve exortar todos ao cumprimento de seu dever a esse respeito é o desastre generalizado que eventualmente cairá sobre todas as classes da sociedade se sua assistência não chegar no tempo; e, portanto, é que aquele que negligencia a causa das massas angustiadas está desconsiderando seu próprio interesse, bem como o da comunidade." XIX
15 - Instituições permanentes de auxílio:


"
No que diz respeito não apenas ao auxílio temporário concedido às classes trabalhadoras, mas ao estabelecimento de instituições permanentes em seu favor, é de louvar que a caridade as realize." XVII16 - A caridade e a solidariedade não caem na esfera da liberdade, mas da ESTRITA OBRIGAÇÃO:


"
Faríamos com que eles entendam que eles não são de todo livres para cuidar ou negligenciar aqueles que estão abaixo deles, mas que é um dever estrito que os vincula." XIX

Resultado de imagem para christ legislator icon


quarta-feira, 13 de junho de 2018

É o Evangelho produto do judaísmo antigo?

A Claudio Machado



Cristãos, mas antes de tudo homens e homens dotados de sentidos e racionalidade, admitimos, sem maiores problemas, que o 'ritmo' deste universo é progressivo ou que ele se desenvolve de fase em fase, de período em período, de era em era... aumentando em complexidade ou evoluindo. Esta Evolução, incontestável, é a um tempo física, química, biológica, psicológica e social. Sem ser 'simples' ou linear, mas complexa e sujeita já a recuos, já a variações, nem por isso deixa esta dinâmica de ser perceptível ou constatável.

Para nós a teoria sintética ou o que chamam de darwinismo mitigado é 'teoria' destinada a explicar um 'fato', este fato a Evolução. A Evolução não é apenas um esquema conceitual ou teórico elaborado pelo intelecto, foi e é algo real, algo que aconteceu e que acontece, em termos chãos - Um fato... Reconheço que a expressão é defeituosa, mas didaticamente aceitável.

A História do homem em Sociedade - porque jamais damos com o homem de Rousseau isolado dos demais como uma 'ilha' - segue a mesma trajetória, a qual não sendo linear - mas sujeita a crises e recuos em sua assunção cultural - nem por isso tornasse brusca no sentido de que os acontecimentos sucedem-se sem qualquer conexão ou relação, ou dependência face aos precedentes i é como algo totalmente insólito.

Há quem a partir de marcianos e atlantes ou mesmo 'magos' sustente o insólito. Deveriam no entanto começar pela demonstração da existência dos magos ou dos atlantes; ou da vinda dos marcianos a este mundo para carregar pedras... Dão por certo que as grandes construções legadas por Incas e Egípcios foram erguidas pelos extra terrestres, quando por meio da pesquisa séria e sóbria sabemos como, por que e para que nossos ancestrais edificaram tais monumentos - De modo que a navalha de Ockham acaba cortando os Ets ou tornando sua presenta absolutamente inútil... Afirma-los obstinadamente entra pelos domínios da antropologia filosófica, pois implica presumir muito pouco dos homens, digo, de nossos ancestrais. Puro pessimismo infundado.

Claro que a História humana conhece enigmas a serem melhor decifrados, e não são poucos. A escrita de Harappa é um deles, a escrita etrusca ou toscana é outro, o eclipse da civilização Maia, o povoamento das Américas, a trajetória de nossos primeiros ancestrais pela Europa e Ásia, etc São alguns destes enigmas a serem decifrados ou melhor resolvidos. Enigma humano ou ser humano por assim dizer 'deslocado' de seu sítio ou nicho há um só Jesus de Nazaré...

Apesar daqueles que aspiram por fazer de Jesus, numa perspectiva natural ou evolutiva, uma rabino convencional ou um bom judeu em perfeita sintonia com o judaísmo, ele continua deslocado e incompreendido, diria, empregando suas palavras, que ele converteu-se no escândalo da História, justamente por ir na contracorrente do universo natural em que nos movemos, e representar algo insólito.

Grosso modo o insólito não é aceitável do ponto de vista natural ou científico, como não são aceitáveis Ets, atlantes e magos... Mas Jesus ainda ai esta sendo cultuado, de um modo ou de outro, por bilhões de pessoas e quiçá levado mais ou menos a sério por algumas centenas de milhões, o que vem a ser impressionante se o tomamos por Mito. Quero dizer que para alguns cientificistas a única solução possível é negar sua existência afirma-lo como uma construção social feita 'a posteriori' - Compreenda-se um grupo de homens ou de seres humanos de uma época futura (mais evoluída) e certamente muito bem preparados em termos de cultura foram os responsáveis por construir sua 'estória' ou sua farsa...

O 'mito' de Jesus parece não ter sido um mito comum ou ordinário, de elaboração espontânea ou natural com seus defeitos, mas um mito muito bem construído, e por isso, segundo muitos - produto de uma ficção intencional. Jesus só pode ter sido uma falsificação elaborada por um grupo fora do tempo e ambiente natural em que esta situado. Em Jesus parece haver algo do extremo Oriente, associado a algo do pensamento greco romano mais refinado... Mas este Jesus viveu numa das regiões mais remotas e atrasadas do planeta e dentro de uma das culturas mais fechadas do tempo - Na Galileia, entre hostes de fariseus e essênios profundamente ciosos de sua cultura (até a arrogância) e respirando ódio face a tudo quanto fosse politeísta, idólatra ou pagão...

Jesus ficaria um pouco menos enigmático entre os sofisticados judeus de Alexandria, onde floresceu Fílon. Apresentando como poliglota, frequentante diário da Biblioteca de Alexandria e leitor compulsivo. Mas nada indica que tenha frequentado tal estabelecimento ao menos por uma ou duas décadas...

As grande rotas internacionais de cultura passam bem ao Norte, pelo Norte da Síria, outras, menos importantes, descem pelo litoral da Palestina, habitado pelos descendentes dos antigos pagãos fossem filisteus ou fenícios, até chegarem ao Egito. A cultura internacional não flui pelo meio da Palestina por ser pagã ou politeísta e portanto repudiada como má pelos senhores de Jerusalém. Suponhamos Jesus no Khumran, que encontraria ele em termos de literatura grega? Apenas a República ou algum outro livro de Platão... Será que todos os 'monges' essênios tinham acesso franqueado a este tipo de literatura gentílica parcamente representado? Podemos supor seu conteúdo restrito inclusive.

Por ser muito difícil conceber a figura de um Galileu do século I lendo a Darmapada em aramaico ou folheando as obras de Anaxágoras em grego clássico, a figura de Jesus foi lançada aos domínios do mito e sua existência negada desde os tempos de Emílio Bossi. Afinal tudo quanto não podemos compreender perfeitamente em termos de natureza causa espanto e assusta. A negação arbitrária só faz destacar ainda mais as dimensões deste vulto.

Ademais julgo que por mais genial que este homem tenha sido, caso se tivesse limitado a tecer eruditos comentários sobre a Tanak, a compor uns diálogos filosóficos em torno do Ser, a deduzir novas fórmulas que convulsionassem as matemáticas ou a inventar algum instrumento socialmente impactante... não teria sua existência negada. Creio que tentariam compreende-lo ou situa-lo, mas... Jesus foi Mestre de Ética. E que Mestre! Aquele que ensinou-nos a amar o próximo como a nós mesmos, a abster-nos de julgar e condenar, a cultivar a paz, a sobriedade e a misericórdia, a colocar-se no lugar do outro, a ajudar concretamente nossos semelhantes... Diante de tudo isto fica até fácil saber porque sua existência deveria e deve ser negada. Além de ser 'insólito' Jesus nos incomoda a partir de seus ensinamentos Éticos. Ainda hoje não estamos preparados para aceitar o outro, nos incomodamos dele e nos fazemos de vítimas... Se uma mulher se veste como homem ficamos indignados e enfurecidos - se mente, fofoca, agride fisicamente, tortura, mata, etc não nos indignamos!!! Se um homem coloca um vestido ou uma peruca nos mostramos melindrados - caso deixe de pagar pensão ao filho pequenino, nos limitamos a sorrir... O ano 2018, e como ainda estamos próximos do pensamento daqueles 'homens de bem' que mandaram crucificar Jesus após terem-no apontado como imoral, como ainda carregamos alegremente o jugo dos fariseus hipócritas! E mesmo assim, parte de nós paga seu tributo ao fingimento declarando-se Cristão. Poucos estão dispostos, como o Dr Binet Sangleé, a declarar que Jesus era louco ou a classifica-lo como canalha ou positivamente mau.

Claro que aqui a negação apresenta-se como a atitude mais oportuna ou conveniente. Admitir sua existência ou leva-lo a sério e refletir escolasticamente sobre o tema até a derradeira conclusão seria assaz perigoso. Caso admitamos que este homem existiu de fato e consideremos racionalmente sua existência como deixar de concluir com o já citado Rousseau que se a morte de Sócrates foi a morte do maior de todos os mortais, a morte do Nazareno foi como a morte de Deus??? O perigo esta posto e a negação é a melhor saída...

No entanto este Jesus não é um marciano vindo de Órion ou das Plêiades numa nave espacial... Nem cobre seu túmulo uma lápide como a de Pakal, rei de Palenque... Tampouco é este Jesus uma espécie de missionário Atlante como Quetzalquoatl ou Kon tiki Viracocha, ou Tonapa, ou Sumé... o qual evapora-se na direção do mar oceano. Nem é uma espécie de Merlin a mover as pedras de Stonehange com sua varinha de condão... Tampouco apresenta maiores semelhanças com os deuses 'tarados' do paganismo antigo... Afortunadamente ele não se identifica com Hórus, com Tamnouz ou com Mitras como asseveram todos esses panfletários que pouco ou nada sabem sobre mitologia antiga, ignorando seriamente o caráter de tais deidades... Mas eles vão garimpando por ai e a gente simples lhes dá ouvidos.

Evidências Históricas a respeito da existência de Jesus há diversas - O original de Josefo, reconstituído pela soviética e ateia Dra Irina Sventsitskaia, o Talmude dos hebreus, Paulo, Tácito, Plínio, Suetônio... No mínimo.

Assim a negação da existência de Jesus até pode ser um recurso prático e fácil, o que de modo algum supõem é honestidade. Se Jesus não existiu personagem alguma do nosso passado existiu, afinal o que dele se exige, num contesto peculiar inclusive, não é exigido por mais ninguém e pouquíssimos dos grande homens de Roma ou Atenas passariam pela 'prova' arbitrária dos positivistas...

Agora, admitido que este Jesus tenha existido, como teria pensado sua relação com o judaísmo???

Pensou-a ele???

Exprimiu-a???

E com que palavras, luminosas e claras -

"O vinho novo não cabe nos odres velhos - Se você tentar colocar o vinho novo dentro dos odres velhos, os odres se rompem."

Ao que parece Jesus tinha plena consciência de que sua mensagem transcendia os limites estreitos da fé judaica ou da lei de Moisés ou da Tanak. Sabia que estava ultrapassando e superando a religião de seus ancestrais. Estava perfeitamente cônscio quanto a Revolução que suas palavras acalentavam. Sabia muito bem que não era um rabino beócio ou conformado com o judaísmo rabínico. Jesus não apenas contestava, questionava e criticava o que os demais consideravam sagrado ou tabu - sabia que contestava e compreendia o valor da contestação.

Leiam o Sermão do Monte e depois me digam se face uma religião REVELADA como judaísmo ou islã, não temos ai uma declaração de guerra???

Vocês sabem o que foi ensinado aos ancestrais declara Jesus, e adiciona ou acrescenta 'sacrilegamente' (sic): Eu porém vos digo! Ele opõem seu próprio EU, sua autoridade (sic) as tradições religiosas do povo, a Tanak, a Torá, a Moisés, aos Sacerdotes...

É exatamente aqui que manifesta-se a desonestidade, surpreendentemente arquitetada não pelos ateus ou materialistas de nossos tempos, mas por clérigos 'cristãos', pastores protestantes de modo geral, mas também alguns padres (como a besta do Pe Murillo), todos judaizantes. Pois bem que dizem estes senhores? Dizem que Jesus não esta, de modo algum, a criticar ou a contestar Moisés, a Torá, a Tanak ou ao que chamam de Velho testamento, mas as tradições orais dos fariseus que posteriormente vieram a formar o que chamamos Mixná e Guemara... As quais, acrescentam maliciosamente tais homens, haviam corrompido o judaísmo ou a lei de Moisés. De modo que Jesus esta pura e simplesmente removendo a impureza talmúdica e combatendo para restaurar a pureza da lei de Moisés ou para reformar o judaísmo; não para demoli-lo.

Estarão certos?

Basta analisarmos tanto mais de perto cada parcela do Sermão do Monte para constatar indubitavelmente que não. Que Jesus não esta a contestar o rabinismo, o farisaismo, o talmudismo, mas as próprias leis de Moisés, a fonte mais remota do judaísmo antigo e tida em conta de sagrada ou divina. É a ela, a lei de Moisés, que Jesus golpeia sem misericórdia, declarando que estava errada! Por isso contesta a medula por assim dizer daquela lei, que era a doutrina de Talião ou 'Olho por olho - dente por dente'... Mas semelhante expressão não se encontra na lei mosaica, declaram os desonestos. De fato tal expressão não se encontra literalmente presente na Tanak, sem que por isso deixe de ser seu princípio operatório e presente em diversos de seus preceitos, assim 'Aquele que matar será morto'... Poderás odiar tem adversário i é o princípio da vingança ou da justiça com as próprias mãos, de que resultou a instituição dos locais de refúgio... Jesus diz que tudo isto é grosseiro, bárbaro, inaceitável... Não se pode odiar ao inimigo, exercer vingança, perseguir, matar como autorizava expressamente o judaísmo antigo em nome de Deus! É mister amar, estar sempre disposto a perdoar, confiar na justiça divina, abster-se de matar, cultivar a paz, etc Como negar que estamos diante de uma outra lei, a lei do Evangelho, verdadeira lei dos céus, autenticada pelo que há de melhor em nós???

A lei dos judeus autorizava a vingança e a matança. Jesus nos proíbe até mesmo de ultrajar os contrários (dizendo louco) e nos manda dar a outra face quando atacados! Decreta que estejamos perpetuamente abertos ao perdão (perdoai setenta vezes sete). Declara que devemos amar os inimigos, sim amar os inimigos! Você pode buscar por esse amor universal no judaísmo antigo e não o encontrará e menos ainda pelo amor aos inimigos, o qual, como observa S Freud, não existe no judaísmo e nem poderia existir por ser, declara Freud - absurdo.

Quanto ao amor ao próximo ou a todos os homens poderá aventar, com certa plausibilidade, que Jesus tenha plagiado o chinês Mo Tse, que viveu cinco séculos antes dele e a mais de dez mil kilometros - Ah, e cuja doutrina já estava esquecida há muito entre os antigos chineses ao tempo de Jesus. Saberia Jesus ler ideogramas chineses? Teria ido a Chine e voltado? Haviam os escritos de Mo Tse sido traduzidos ao aramaico ou ao grego??? Busquem pelas evidências... Agora uma coisa é absolutamente certa: No contesto do judaísmo estamos diante de uma novidade que não é nem um pouco lisonjeira face a antiga religião - Favorável ao etno centrismo e a vingança.

Mas, dirá algum afoito - Jesus mesmo declarou que traço ou pingo algum da Lei passaria e que não havia se manifestado para demolir a Lei e as profecias.

Claro que não podia demolir as profecias, cujo objetivo era anuncia-lo previamente, mas concretiza-las. E também não podia demolir a essência da verdadeira Lei positiva, expressão da mesma Lei natural, manifestação da vontade de Deus e portanto de sua vontade. O cerne da questão implica em saber qual seja esta Lei divina e é exatamente aqui que Cristãos e judaizantes separam-se definitivamente. Pois os judaizantes como os judeus imaginam que Jesus esta a falar na permanência ou divindade de toda Torá ou mesmo da Tanak, que ora chamam Bíblia. Enquanto nós Cristãos compreendemos que esta Lei divina ou Revelada restringe-se ao DECÁLOGO ou aos assim chamados dez mandamentos, que eram a versão da lei natural corrente entre os antigos judeus. Para nós esta é a Lei divina e inviolável e não a totalidade da Torá ou da Tanak, elemento puramente natural e não revelado que identificamos com a cultura judaica. Essa cultura judaica para nós é puramente humana, nada tendo de sagrada. Assim o restante do código judaico ou as normas e regras que estão para além do Decálogo, as quais puderam ser livremente criticadas e contestadas por Jesus.

Isto é tão certo que atualmente os próprios judeus, em sua maioria, abriram mão de tais leis, reconhecendo-as como puramente humanas, porquanto também entre eles a lei evoluiu e já não podem viver como seus bárbaros ancestrais. Alias os judeus não costumam lançar objeções demasiado sérias a respeito e sentem-se muito pouco apegados a seus mitos, fábulas e leis; a exceção de algumas poucas que são exequíveis. Aqui os judaizantes mostram-se sempre muito mais obstinados... E no entanto, tal e qual os judeus modernos, nem mesmo eles podem viver a Torá em sua totalidade como os antigos judeus; enfim eles defendem uma solução que não colocam em prática porque de modo geral vestem-se e alimentam-se como os demais... Apenas um grupo de protestante peruanos ousou restaurar, em pleno século XX, o modo de vida dos judeus ao tempo de Cristo substituindo calças e camisas por túnicas e automóveis por cavalos e camelos... Nem preciso dizer que habitam em tendas e usam madeira e fogueiras para cozinhar, enquanto suas mulheres manuseiam o tear e o moedor de grãos. Felizmente, esta espécie de menonismo ultra ancestral, é fenômeno isolado. Os demais judaizantes não são tão sérios e contentam-se apenas com discursos pomposos em torno da tal lei de Moisés concentrando seus fogos nos Catolicismos, a que chamam de idolatria e no espiritismo, a que chamam de magia...

Os judaizantes não se mostram menos profanadores do que nós na medida em que, após terem afirmado a integralidade da Lei dos judeus ou da Torá como revelada ou divina, põem-se a selecionar o que vale e o que não vale como se Deus e as coisas divinas pudessem variar, mudar ou sofrer alteração. Por isso estão divididos em tantas e tantas seitas conforme aceitam ou repudiam este ou aquele regulamento da lei dos judeus. Assim há entre eles que retorne a dieta dos antigos judeus como os adventistas do sétimo dia, há quem repudie a transfusão de sangue como as jeovistas, há quem condene o uso de tatuagens como certas seitas pentecostais, há quem condene a moda unisex, há quem condene o corte da barba por parte do homem, etc, etc, etc Cada seita faz seu talho e escolhe seu corte ou pedaço da lei dos judeus, o qual canoniza... Desprezando todos os outros rsrsrsrsrsrs Tal a cegueira deles, porquanto esta escrito: Quem pecar contra um regulamento da lei pecou contra a lei toda! Assim selecionando profanam a totalidade da Lei que teimam em declarar como sagrada; mas que de modo algum vivem ou põem em prática.

Por isso Jesus procedeu liberalmente com relação as demais partes da Lei dos judeus tornando-se Herético para eles - O grande herético do judaísmo. Porque declarou sua dietas e distinções alimentares absolutamente vãs. Porque avaliou suas abluções como inúteis. Porque opôs-se a guarda supersticiosa do Sábado. Porque violou todos os seus preconceitos de natureza moral estabelecendo contado com - Prostitutas, publicanos, homossexuais, pagãos, crianças, leprosos, pescadores, etc tudo quanto era desprezado ou odiado pelo farisaísmo azedo. Deixou-se tocar por leprosos... E conversou a sós com uma mulher - samaritana e pecadora - junto ao poço!!! Para nós, aquele que nós fez o bem, foi santo e impecável, mas para os judeus foi um grande pecador. Pois violou conscientemente a lei que teem por divina.

Jesus foi tão contestatório para os judeus de seu tempo quanto os anarquistas e comunistas de hoje para os conservadores. Não que ele tenha sido anarco individualista ou comunista, as perspectivas de Jesus eram outras e ele não dos parece nem individualista, sob qualquer aspecto, nem autoritário ou totalitário. Postulou a autoridade, no caso divina, sem - a modos de jave - eliminar por completo a esfera da liberdade humana. Postulou a justiça e uma igualdade relativa sem endeusar a autoridade humana ou recomendar métodos violentos como uma bula de remédio. De modo geral exerceu a paz e foi pacífico; mas quando teve de erguer o chicote não hesitou, parece ter sido moderado ou equilibrado em todas as circunstâncias, quando por via de regra são os homens exaltados e amigos do extremismo.

Não me parece que se opusesse as solução democrática ou policrática ou a uma igualdade relativa em termos sócio econômicos - O Evangelho diz que ele pura e simplesmente não levava em consideração as distinções sociais de que tanto fazemos caso, e que tratava a todos, grandes e pequenos, da mesma maneira - Sem fazer acepção de pessoas... Não posso deixar de classifica-lo como socialista. Não é claro como um socialista naturalista, materialista ou economicista do século XIX - sobre o qual pesa a condenação da Igreja - mas como um Socialista Religioso dos tempos pretéritos a maneira de Urukagina de Lagash ou dos antigos profetas (Como aquele que disse: Amaldiçoado seja o que adiciona casa a casa, campo a campo...). Tornou-se vanguardista até nossos dias por ter condenado categoricamente o acumulo ilimitado de riquezas ou bens materiais: 'Não acumuleis bens neste mundo em que a traça e a ferrugem destroem, juntai bens no mundo celestial' foi ordem sua a que muitos ainda hoje se fazem moucos, fingem ignorar ou o que é pior falseiam descaradamente. E para que não pudesse haver escapatória ou alternativa aos desonestos, adicionou: Não podeis servir a Deus e as riquezas. Ai daquele que cogitar 'ganhar o mundo inteiro' - expõem-se a apartar-se de seu destino espiritual... "Mais fácil é uma corda passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos céus."... Em Mateus cap vigésimo quinto, determina que sejamos solidários e atentos as necessidades de nossos semelhantes - Tive fome e me destes de comer... tive sede... - com os quais identifica-se. Retira a caridade da esfera da livre vontade e converte-a em lei > Amai-vos uns aos outros e sereis meus alunos... Como resultado disto temos que os primeiros Cristãos vendiam seus bens e adotavam vida regular e comum, de modo a não existir necessitados entre eles. Pobres certamente existiram durante todo tempo em que viveram os santos apóstolos, fabricados pelo judaismo e paganismo antigo, não pelo Cristianismo, cuja regra de vidas era a partilha. Paradoxalmente os Cristãos acreditavam que quanto mais partiam seus bens materiais com os irmãos, mais ricos se tornavam porquanto investiam nos céus ou no mundo espiritual.

A bem da verdade a Lei dos judeus era muito interessante neste sentido, e como o amigo Carlos Seino, não posso deixar de admirar as instituições da reforma agrária, dos jubileus, da colheita, cobrança de jurus, etc Sabendo que ao tempo do Senhor tais leis já não eram postas em prática há séculos e que, curiosamente, judaizante ou sectário algum tentou restabelece-las (também nenhum deles cogitou cortar a pele do pênis ou restabelecer a circuncisão)... O que quero dizer é que tais reflexões, semelhantes aos do velho Sócrates, em torno da vida sóbria, moderada, regular ou temperante, deve ter chocado bastante os nababos fariseus... Como atualmente choca os neo fariseus 'cristãos'...

Aos que aspiravam pela perfeição recomendou que vendessem todos os seus bens e dessem aos pobres... Se queres ser perfeito... E da perfeição fez uma exigência para os seus: Sede perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito...

Alias mesmo sendo de origem divina - Não podemos deixar de chegar a esta conclusão - Jesus reconheceu a livre iniciativa humana, daí ter deplorado a opção dos habitantes de Jerusalém, os quais recusaram-se a tomar seu jugo... E dizem ter chorado a triste sina da cidade.

Não apenas chocou os antigos judeus. Continua a chocar, perpetuamente os judaizantes de toda casta... Os autoritários, os capitalistas/materialistas, os maniqueus, os puritanos... Enfim a toda essa gente...



terça-feira, 12 de junho de 2018

Pitadas de literatura e sociologia - Bancas de jornal, gibis, internet e as três 'Eras' de H P Lovecraft (Diálogos com um Livreiro)

Resultado de imagem para bancas jornal x internet




Mais no passado não muito distante, mas em certa medida mesmo ainda hoje, os sebos ou casas onde se compra e vende livros usados (antigos) sempre foram um local bastante favorável a troca de ideias, a tertúlia amistosa, ao diálogo... enfim um ponto de encontro entre a intelectualidade. Assim na Briguet ao tempo de Rui Barbosa... Assim no Sebo de Olyntho de Moura, onde meu saudoso mestre Jaime de Mesquita Caldas, dizia ter tido acesso ao convívio de Yan de Almeida Prado, Viana Moog, Alfonso de Taunay, Tito Lívio Ferreira e outros notáveis memoristas, historiadores e literatos...

Quando eu era rapazote, no final dos anos 80, e surrupiava uns cobre do papai, logo ia correndo a primeira e mais farta banca sebo de Santos, a Banca do Habib, situada na Praça dos Andradas e onde se comercializada calhamaços do século XIX, verdadeiras raridades, a granel... E por lá garimpando achavamos a profa Maria Aparecida Franco Pereira, a profa Conceição das Neves Gmeiner, Sá Porto, Laudo e muitos outros 'monstros sagrados' cujos nomes ignorávamos. O Brizolinha, recentemente falecido, tinha sua Banca, pequenina, na primeira esquina da Itororó, que sai nos fundos do convento do Carmo. O sebo e livraria Antiquária, do desditoso Ivo, já era antigo e o Ivo muitas vezes recusava-se a vender o que julgava ser raridade rsrsrsrsrs. Dizia: Não, não esta a venda. E não vendia por preço algum. Esperávamos o dia em que ele saía para pagar as contas e deixava seu velho Pai, o sr Joaquim (Alias bem mais educado do que ele) no balcão, tomávamos o mesmo livro (as vezes raro) e pagávamos uma ninharia!

As Bibliotecas públicas estavam apinhadas de livros raríssimos e valiosos. A da ASL, a da Humanitária, a do Centro Português, a do Centro Espanhol, a da Societá Italiana (alias comprada pelo Ivo), etc A fama de algumas Bibliotecas particulares como as de Edgard de Cerqueira Falcão, Sá Porto, seo Frazão, etc corria de boca em boca... Outras tantas eram despejadas mensalmente nos sebos, e garimpadas pela categoria professoral. E entre um livro e outro trocavam-se ideias e telefones, estabelecia-se diálogos, discutia-se e até 'brigava-se'...

Mas não eram só os Sebos não. Recuando aos anos 80 i é ao começo dos anos 80 ou mesmo final dos 70, quando eu era um menino e até onde chegam minhas primeiras memórias as Bancas de Jornal constituiam farto arsenal de cultura face ao que hoje, praticamente nada são. Meu falecido pai, Deus o tenha, adquiria jornais portugueses aqui em S Vicente, na tradicional Banca do Walter e lembro-me de que em 82/83 ainda circulavam jornais japoneses e árabes por estas regiões (recordo-me perfeitamente dos sinais estranhos) além de jornais ingleses ou norte americanos, portugueses, franceses, espanhóis e italianos; era possível encontrar cada um deles nas principais bancas do centro de Santos. Ora eu mesmo nasci ou melhor fui criado, dentro duma dessas enormes Bancas de que meu pai era proprietário pelos idos de 1975/76. Meu tio Domingos era proprietário de outra imensa Banca na Cons Nébias... e os jornaleiros abasteciam-se nos depósitos da Magalhaẽs, ao lado do antigo Presídio da R S Francisco de Paula ou da Castellar, nas proximidades do Fórum; o quanto não era vendido nas Bancas ou as sobras eram levadas para tais depósitos e vendidas a preços econômicos... O que sobrava era quase sempre o melhor... Podia-se fazer grandes compras, e lá estavam os garimpeiros e toda gente que amava gibis e revistas. Sim senhor, aquilo era um mundo.

Alias cada banda Era um mundo na cultura não digital dos anos 80, a derradeira década antes da Net! Haviam gibis e revistas de todo tipo. Recordo especialmente do Zagor, do Fantasma e do Tex que eu a princípio folheava, depois lia e enfim devorava com fervor... Sem falar nas revistas 'preto e branco' eróticas ou de terror ilustradas pelo divino Rodolfo Zalla e Eugênio Colonnese, mestres insuperáveis... Eu não podia nem pensar em folhear as revistas eróticas uma vez que minha mãe era protestante rigorosa, e eu... pobre de mim, tinha de segui-la e temia as 'terríveis chamas do inferno' rsrsrsrs Assim andava a carruagem. Minha mãe não queria mas meu pai não apenas consentia, mas estimulava-me a ler revistinhas de horror como Cripta e Calafrio, cujos exemplares ainda hoje tenho e coleciono. Naquele tempo eu sequer sabia ou imaginava que as ilustrações dos livros de ciência que pegara no Ferro Velho (Minha mãe não permitia que comprasse ou recebesse livros de presente de meu pai pois acreditavam que o excesso de estudos me deixaria louco - acho que ela acertou rsrsrs) e de que tanto gostava haviam sido feitas pelo Zalla, bem como as do livro de História do Julierme, meu preferido e cujas tirinhas sobre sumérios, egípcios, gregos e romanos levavam-me ao delírio.

Apesar de meus medos e limitações podia perceber facilmente a extensão em que todo aquele material circulava. Sem contar com os livrinhos de faroeste, os livrinhos Corin Tellado, os romances da Barbara Cartland, alguns dos quais li, etc Havia um imenso conteúdo etno antropológico em algumas daqueles publicações como Zagor, Fantasma, Calafrio, Barbara Cartland, etc Tudo aquilo fazia reportar a Salgari, Maine Reid, C S Foerester, Karl May, Hall Caine e em última instância a Júlio Verne, cujas 'estórias' eram reproduzidas em não poucos gibizinhos. Haviam encantadores livrinhos para crianças com estórias de Êsopo, La Fontaine, Ch Perrault, Grimm, Verne, etc A Bíblia ilustrada da Abril, a Iliada, a Odisséia, a Távola redonda, Êsopo, La Fontaine, etc

Lembro-me de que os mais idosos não cessavam de falar numa tal EBAL... cujas publicações enfim vim a conhecer 'de visu' - Série Sagrada, Histórias maravilhosas e uma infinidade de super heróis como Homem aranha, Super homem, Homem de ferro, Namor, o príncipe submarino, Flash Gordon, etc Eram tantas publicações que ficava dificil escolher o que ler e podia-se ficar lendo pelo resto do dia que não esgotava o stock daquelas Bancas. E em cada esquina havia uma delas...

Hoje ao sair de uma repartição pública passei no Sebo do amigo Marcos, onde por vezes é possível achar alguns amigos, como o Jorge Alves e formar uma tertúlia... Meu irmão, até pouco tempo, ia semanalmente ao Sebo do falecido Brizolinha para prosear. Conheci algumas pessoas fascinantes ali mas em geral frequentava os velhos Sebos do Centro velho de Santos, cujo número vai se reduzindo dia após dia ou ano após ano. Já não temos o grande Sebo do Habib, mas temos as banquinhas do Marcelo e do Marcos Noriega, o de as vezes 'faço ponto' exercitando a verborragia ou o diletantismo. Então como disse, dei uma passadinha por lá. Sempre se aprende com a maior parte dos sebistas. Brizolinha era um erudito e o Marcos Noriega pessoa sumamente bem informada e inteligente... O Jorge do Sebo S Jorge ou da Dna Cecília é meio rabugento, mas homem de farta ou vasta leitura.

Conversamos justamente sobre o quanto acima escrevi - Os antigos Sebos, Bancas, Bibliotecas... anos 50... anos 80 e ficamos a pensar se a cultura entrou em declínio após os anos 80 ou se passamos por uma crise intelectual. Refletimos juntos e chegamos a uma conclusão paradoxal. A Internet de algum modo, substituiu tudo isto como a imprensa, pelos idos de 1470, substituíra grande parte dos manuscritos. Não é que a cultura acabou, minguou ou entrou em crise porque as Bancas de Jornal se acabaram ou empobreceram. A cultura assumiu outra forma, forma digital. Alias a maior parte desse material antigo mais algum material novo não só é produzido ou reproduzido nos meios virtuais como alcança uma circulação bem mais ampla. É ilusório imaginar que a cultura mingou com relação ao último meio século, apenas deixou de ser impressa no papel e de circular materialmente. Mas transplantou-se para as redes de computadores e acha-se presente nelas. A cultura hoje é digital e o acesso certamente mais democrático e fácil, ao menos para as novas gerações.

Claro que as gerações anteriores a Net e habituadas com aquele universo de papel, tão colorido, belo e sobretudo físico ou material sentiram-se deslocadas ou frustradas, pois assimilaram ou assumiram o hábito de manipular a cultura com as mãos ou de folhear - Hoje não se folheia mais, simples assim... Mas nem por isso a cultura entrou em crise ou acabou, passou a outro meio, mais dinâmico. A Banca se tornou desnecessária face ao PC e o Jornal desnecessário face a Net e aos meios virtuais... Inclusive aqueles imensos calhamaços chamados Enciclopédias, instrumentos essenciais ao estudo até o final dos anos 80 tornaram-se obsoletos. Do 'Speculum' de Beuvais ou da Enciclopedie de Diderot e D Alambert, a 'Trópico' e a 'Conhecer', passando pela Espasa Calpe tudo isto tornou-se supérfluo por ocupar espaço e certamente não será reeditado em tempos de Wikipedia. Para quem podia gastar os olhos da cara adquirindo tantos e tão luxuosos volumes tal transformação corresponde a uma catástrofe, bem como para nós, meninos, que adorávamos folhear as ditas Enciclopédias (cresci folheando a 'Trópico' da Ed Maltese), fazer o que??? Reconheçamos que nem todos podiam arcar com semelhante despesa!

Ah antes que me esqueça - Juntamente com os brinquedinhos de metal ou plástico, que cederam lugar aos dinâmicos jogos eletrônicos, haviam os álbuns de figurinha, que eram colecionados por quase todo jovem ou criança. Lembro de inúmeros - Da Sara Key, dos Bichinhos fofos, da Xuxam do Fofão, da Menina Moranguinho, do Amar é, etc A geração anterior a nossa conhecerá os álbuns históricos ou científicos da EBAL...

Ao fim da prosa a referência feita a Calafrio, levou-nos a Lovecraft H P, o grande gênio do terror. A Calafrio continha estórias de todo tipo ou origem - Havia muito de Edgar A Poe, assim A queda da casa de Usher... Havia terror europeu e conheci a deliciosa narrativa da 'Vênus de Illé' por meio dela... E havia muito terror brasileiro, adaptação de primeira. E é claro havia muito, mas muito Lovecraft. Havíamos falado sobre Conan e a Era Hiboriana, cujos principados representam nossas antigas civilizações. Meu amigo livreiro comentou que Conan era o mundo de Lovecraf por assim dizer anterior a este nosso em que se passam suas narrativas. Daí a presença da magia, dos demônios, dos deuses antigos, etc nas aventuras do cimério. Completei dizendo que Thundar the barber, era a projeção de Lovecraft no futuro, para daqui a dois mil anos... daí magia, demônios, deuses, etc - Afinal os autores de Thundar - e Mad Max entre aqui - partiram de Conan enquanto Howard era amigo e correspondente de Lovecraft...

Há um pouco de Lovecraft em Conan e um pouco em Thundar, tudo bastante diluído é claro; mas reflete o pensamento de H P.

Após ter entretido tão proveitosa conversação com o nobre sebista corri até este PC, responsável pela derrocada das bancas de jornal com seu mundo de papel, ansioso por registrar o quanto fosse possível e partilhar com meus queridos amidos, sempre tão curiosos quanto aquela boa gente dos anos 50 e 80 com a qual tivemos o grato prazer de conviver quando meninos e da qual tomamos o hábito de folhear e de cultuar os livros, revistas, gibis... O que em parte faz de nós cidadãos de outra Era senão de outro mundo.

Catolicismos, judaísmo e paganismo antigo




Resultado de imagem para icon of incarnation


 


Ao nobre e excelente Claudio Machado.



A pedido de um amigo a que altamente consideramos editamos esta reflexão em torno do Cristianismo, sub entendido é claro como Católico, o judaísmo, com que amiúde tem sido confundido e o paganismo antigo, nossa herança ancestral.

E principio esta reflexão endossando a afirmação de um líder integralista brasileiro - O islamismo é um judaísmo árabe (Ahmina, mãe de Maomé era judia, logo...) o itálico é nosso... O protestantismo é um judaísmo (a predileção dos protestantes pelo Antigo Testamento - apud Maurois 'História da Inglaterra' - certifica-o) e o neo catolicismo, com seus padres cantando em hebraico em torno de uma Menorá, fez-se igualmente judaico. Até aqui o que foi dito pelo líder integralista brasileiro, e cujo conteúdo subscrevemos.

Diante disto urge perguntar - Existirá Cristianismo que não seja propriamente judaico ou judaizante?

E antes de responder a esta pergunta, achamos prudente deixar bem claro que nada temos contra o judaísmo, especialmente quando praticado por judeus. É uma opção credal, que como todas as outras, respeitamos e uma cultura a que em parte admiramos. Os judeus, a exemplo do Senior Abravanel (Silvio Santos) tem chegado a questionar seus próprios mitos e fábulas ancestrais... Merecem nosso respeito e aplauso. O que não aceitamos é a definição do Cristianismo como uma seita ou ramo do judaísmo. Judaísmo e Cristianismo - reconhecem os judeus e cristãos honestos - são fés ou religiões não apenas distintas mas opostas. Não se misturam nem confundem. Moisés será mito ou figura apagada para os servos de Cristo do mesmo modo que Jesus é o grande herege do judaísmo, cujos líderes mandaram crucificar.

Para os judeus será o Cristianismo um sistema politeísta e idólatra tendo em vista dos dogmas centrais da Trindade Excelsa e da Encarnação. E o judaísmo, para os Cristãos a concepção mais pobre e rasteira do monoteísmo... São campos diferentes ou melhor antagônicos, embora devam exercer a tolerância mútua, que é apanágio da civilização.

Melhor dizendo - nossa questão é com os judaizantes ou com os falsos judeus que sustentam ser o Cristianismo uma facção ou seita derivada do Cristianismo, os quais consequentemente tem editado diversas doutrinas ou teorias tomadas ao antigo testamento ou ao farisaísmo - sabatismo, iconoclasmo, anti marianismo e unitarismo...

Claro que nada teríamos a ver com tal gênero de pessoas, os heréticos, caso eles, em sua arrogância insopitável, não tivessem a audácia de apontar o paganismo antigo como fonte do Dogma Católico, cuja pureza e legitimidade negam. Afetam os sectários ser judeus 'espirituais' e folgam em apresentar os cristãos como cananeus i é como pagãos, pelo simples fato de odiarem tudo quanto seja pagão, tal e qual os antigos escribas e fariseus ou os judeus do tempo de Cristo.

Por pagão ou gentílico os sectários protestantes querem dizem mau ou impuro; desprezando tudo quanto não seja judeu e presumindo que tudo quanto seja judeu ou judaico seja divino. Os judaizantes, em oposição aos próprios judeus, tomam a cultura judaica ancestral por Revelada e canonizam todos os mitos e fábula que os antigos judeus tomaram aos sumérios, assírios, babilônicos, egípcios, persas, fenícios e gregos.

Nós afirmamos o contrário: Que o Catolicismo Ortodoxo, niceno e atanasiano foi historicamente Revelado pelo Deus Encarnado Jesus Cristo, identificando-se por completo com o próprio Cristianismo, com o Cristianismo autêntico, legítimo e fiel; transmitido tradicionalmente, de geração em geração. Afirmamos que a perspectiva apostólica, sacramental, pedobatista, presencial, mariana, dominical, iconófila, etc corresponde a piedade ancestral e legitimamente Cristã ou aos ensinamentos transmitidos aos apóstolos pelo próprio Nazareno.

E diante disto reconhecemos sem maiores problemas que a 'verdade' não estavam nem com o judaísmo, nem com o paganismo; mas com ambos ou melhor dizendo, com o pensamento filosófico ou secular dos antigos gregos, dos quais nossa teologia tomou as formas porque se exprime. Há portanto muito de verdade no paganismo antigo e por isso nós Cristãos não o odiamos ou repudiamos 'in totum' como os antigos fariseus.

Não que a doutrina da excelsa Trindade tenha sido conhecida ou formulada pelo paganismo. O paganismo jamais concebeu algo tão refinado como a doutrina de UM DEUS em TRÊS PESSOAS. Conheciam muito bem a doutrina politeísta, de diferentes deuses com vontades e operações distintas, agregados segundo a forma familiar: Pai, Mãe e Filho ou Filha, divinos. Eram três entidades ou seres distintos agregados num esquema familiar formal, i é sem unidade íntima ou orgânica, sem vontade ou essência comum. Portanto, ver Trinitarismo aqui é uma prova, cabal, de improbidade intelectual... Os Cristãos Ortodoxos a seu tempo não são triteístas (como parte dos ocidentais) uma vez que não atribuem vontades ou essências distintas ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, convertendo-os em deuses em conflito, tipo um Pai colérico ou vingativo e um Filho redentor bonzinho... OS CATÓLICOS ORTODOXOS NÃO PROFESSAM A FALSA DOUTRINA DA EXPIAÇÃO, SEGUNDO A QUAL, DEUS MATA DEUS PARA APLACAR DEUS... Nós professamos a doutrina da vontade comum, oriunda de uma essência comum, a essência divina. Afirmamos a Unidade da divindade e a multiplicidade das pessoas que nela subsistem. UM DEUS em TRÊS PESSOAS e aqui não há qualquer contradição formal. Não cremos num só deus em três deuses e tampouco numa pessoa em três pessoas; mas em Um Deus em Três pessoas...

É portanto a Trindade uma doutrina peculiarmente Cristã, ignorada pelo paganismo antigo e nem por isso judaica posto que os judeus além de afirmarem a unidade da essência, afirmavam com a mesma tenacidade a unidade da personalidade divina e não podiam conceber ou aceitar que a unidade divina contivesse uma pluralidade de pessoas, o que tomam levianamente por contradição. A bem da verdade eles confundem a Unidade com a Essência divina porque sua teologia é bastante pobre. Nós Cristãos, afirmamos com os judeus a Unidade divina e com Jesus de Nazaré, o supremo Instrutor vindo dos céus, afirmamos igualmente a pluralidade pessoal existente nesta unidade essencial, a saber a existência de uma Trindade.

Alguns desejam tomar a Trindade por uma síntese sublime do Judaísmo e do Paganismo. Nós a tomamos por uma doutrina divinamente revelada ou auto comunicada por Deus.

Totalmente outra é a questão da Encarnação de Deus, pela qual o Cristianismo, afastando-se decididamente do judaísmo - e a principal diferença entre as duas religiões é exatamente esta e acima de tudo esta - aproxima-se do que havia e há de sublime e magnífico no paganismo antigo uma vez que este concebida a possibilidade de que seus deuses se encarnassem ou fizessem homens assumindo a natureza que eles mesmos haviam planejado e criado.

Por mais genial e admirável que seja a doutrina da Trindade Excelsa, a divindade por assim dizer, ficaria sempre distante do mais sublime ideal de perfeição caso não se tivesse feito carne mostrando-se solidária, assumindo as vicissitudes, dores, necessidades, etc dos seres que criou. Pela doutrina da Encarnação aquele que é Perfeito, aquele que é Sublime, aquele que é Pai torna-se um de nós e se faz companheiro. É Emanuel, Deus que caminha conosco, descendo ao palco ou a arena da vida... ao invés de lá ficar, no 'camarote' observando. O que torna a doutrina da Encarnação atraente é seu conteúdo solidarista ou fraternal - Deus sendo Pai, se faz irmão... adotando a natureza e a condição comum. Deus não nos contempla da eternidade apenas, vive e sofre, e morre conosco... Para retomar sua vida como Deus encarnado e subir aos céus, antecipando o futuro comum do gênero humano porque morrera.

Apenas e somente o Cristianismo apresenta-nos este Deus presente e solidário, e fraterno até as últimas consequências...

Diante deste ato de amor e compaixão que é a Encarnação que dizem os judeus, os muçulmanos e seus repetidores, os unitários???

Embora seus livros testifiquem que Deus é o Deus do impossível e eles atribuam-lhe os milagres e prodígios mais absurdos, seus líderes e mestres declaram que é IMPOSSÍVEL que Deus se faça homem. Mas como não pode ser fazer homem aquele que fez o homem? Perceba o leitor a idiotice contida no argumento deles. A princípio em seus livros afetam ser Deus Todo poderoso... ai, quando dizemos que por isso se pode fazer carne, objetam que isto é IMPOSSÍVEL. Cadê a lógica??? Cadê a sobriedade???

Há de fato coisas impossíveis ao Todo Poderoso?

Grosso modo a piedade nos obriga a declarar (em oposição aos judeus ortodoxos, muçulmanos e calvinistas) que o Deus Santo faça o mal. É impossível que Deus faça o mal, não porque lhe falte poder mas porque lhe falte vontade. Não porque não possa faze-lo, mas porque não queira, uma vez que sua vontade, esta imutavelmente fixa no bem. Deus por ser Perfeito é imutável e imutavelmente fixo no bem, não podendo aspirar ou querer o mal e tampouco mudar, pois aquilo que muda não é perfeito.

Por outro lado, tudo quanto seja bom e Deus possa querer certamente dispõem de forças para executar.

Assim a única objeção séria que se poderia fazer a sentença segundo a qual Deus pode fazer-se homem ou encarnar-se seria demonstrar que fazer-se homem é uma ação má. O que só se pode suster e afirmar caso admitamos que o homem, criado por Deus é essencialmente maligno em sua natureza... No entanto como este homem ou esta obra poderia ser essencialmente má se procede de Deus mesmo, o qual é bom??? Como poderia o Deus benevolente fabricar uma criatura intrinsecamente má, sem ser ele mesmo mau??? Claro que o homem, sendo uma criatura de Deus, é essencialmente bom em sua natureza e mal apenas circunstancial e provisoriamente pela vontade livre e mutável. Portanto se a natureza humana é boa, nada há que impeça Deus de assumi-la caso tal seja conveniente ou exigido por sua perfeição.

Pode Deus encarnar-se porque pode e pode encarnar-se porque a natureza humana não é essencialmente má. O quanto de fato Deus não pode fazer, é cometar maldades ou pecar e isto certamente não fez nem faz, uma vez que a Encarnação não determina que ele peque. Quanto a auto limitar-se e não pecar, claro que não pode faltar semelhante poder ou força a Deus, pelo simples fato de ser Todo poderoso.

Chegando ao dogma da Encarnação, do padrão niceno ou atanasiano, fielmente conservado pelo Catolicismo Ortodoxo podemos responder positivamente a pergunta sobre a existência de um Cristianismo não judaico, e a resposta já esta dada acima. Um Cristianismo trinitário pouco terá de judaico e um Cristianismo reconciliado com a Imanência, que não assume o erro da transcendência absoluta, nada terá de judaico. Será repudiado pelos hebreus ou até odiado por eles, e não nutrimos qualquer rancor por eles neste sentido. Eles não podem alcançar a doutrina da Transcendência/Imanência e é exatamente aqui que nosso paganismo ancestral se mostra superior e divino.

Parte dos antigos pagãos nossos ancestrais, guiados pelos filósofos e pensadores da Jônia e da Hélade e não pelos mitos dos sacerdotes, jamais perderam de vista o dogma da ilimitação ou da infinitude divina pela qual Deus transcendendo o universo abarca-o ou contem-no. Se Deus é informe e ilimitado e o universo 'formal' e limitado, é necessário admitir que Deus não esta no universo ou em qualquer lugar (espaço), mas que todos os espaços e locais, o universo enfim e todos os seres criados estão em Deus como uma esponja imersa num Oceano. Deus é o Oceano e o Universo a pequenina esponja. Esta Deus no universo, mas não é contido ou limitado por ele... Sua presença é difusa e ele não esta localizado ou situado em qualquer lugar, pelo simples fato de ser espiritual, incorpóreo e ilimitado...

A conclusão é óbvia - Os judeus erraram feio ao postular um deus ou um ser transcendente totalmente separado da natureza criada, porque se ele é separado é limitado e se é limitado esta localizado em algum espaço fora deste universo, assim Deus tem um espaço ou lugar, algo maior, superior a ele. Daí alguns terem imaginado a Eternidade como lugar ou espaço de Deus, enquanto a eternidade não passa de um atributo que subsiste em sua essência. Supor um Deus separado ou transcendente será supor sempre um Deus limitado e localizado em algum lugar, o que é monstruoso... Pois Deus, caso exista, será necessariamente infinito, ilimitado, informal, não localizado e espaço ou lugar de todos os seres, de todos os universos, de todas as coisas... Os judeus jamais pensaram deus deste modo mas com um homenzinho de carne e ossos sentado num trono material sobre nuvens materiais num céu material. Este deus folclórico, ainda hoje pintado pelos ateus, certamente não existe - Ele é o escárnio de Deus!

Agora se as coisas criadas, os objetos, seres, universos já estão em Deus e Deus neles; se o Espírito Supremo e Consciência infinita quis relacionar-se eternamente com a matéria, organiza-la, conduzi-la a perfeição e corooa-la; qual problema há em que aproximando ainda mais intimamente dela, ele se encarne e faça homem na posse de um corpo físico? Nenhum... Só a problema aqui, quando imaginamos o velho deus transcendente, limitado, localizado, corpóreo, sentando sobre nuvens, rodeado por cortesãos alados, etc Caso imaginemos um Deus de fato espiritual, o paradoxo aduzido a partir da existência da matéria... é que ele possa encarnar-se sem maiores problemas. Pois sempre esteve ou sempre desejou estar associado a ela. Do contrário não a teria organizado ou produzido.

Os judeus e os semitas de modo geral jamais puderam compreender este tipo de visão. Já os pagãos, encaminhados pela mitologia e instruídos na Filosofia não tinham qualquer motivo sério para repudia-la, melhor dizendo já estavam familiarizados com ela e isto foi um grande benefício para o Cristianismo antigo, Católico, Apostólico, Ortodoxo... O Catolicismo antigo a seu tempo - com tristes exceções, especialmente no Ocidente sempre meio bárbaro - jamais encarou o paganismo antigo como algo totalmente mau, diabólico ou demoníaco, inda de consciente de suas limitações e equívocos. Nossos apóstolos e elderes sabiam que tal e qual o zoroastrismo, o budismo e o hinduísmo o paganismo ocidental foi uma busca pelo sagrado ou uma tentativa - falha é clara, mas nem por isto dsonesta! - de se atingir o numinoso. Por isso os sucessores dos apóstolos e teóforos Justino, Clemente, Orígenes e Eusébio, dentre outros, apresentaram este paganismo antigo, que o judaísmo satanizara, como precursor do nosso Cristianismo e parte dos antigos Filósofos como 'profetas'... E digo mais, os primeiros Cristãos, os mártires nossos ancestrais, folhearam as síbilas com não menos fervor do que folhearam os profetas dos judeus.

Ainda hoje nas alturas do Monte Atos, no interior de nossas igrejas e santuários, estão pintadas as figuras excelsas de Homero, Hesíodo, Sócrates, Platão e Aristóteles ao lado dos profetas hebreus que previamente anunciaram o Cristo Instrutor de todos.

Concluo dizendo a tantos quantos aspiram e demandam por um Cristianismo peculiar, consciente, cristão e não judaico que este tipo de Cristianismo deverá ser necessariamente Trinitário, encarnacionista, sacramental, eucarístico, mariano, dominical, iconófilo e tradicional - Será o Catolicismo Ortodoxo, ainda hoje florescente no Oriente, ou não será!

Há portanto uma opção Cristã para Cristãos - uma opção Católica, tradicional e Ortodoxa, cujos contatos e similaridade com o paganismo antigo analisaremos com maior cuidado ainda no próximo artigo.


sábado, 26 de maio de 2018

Malthus e os Maias ou o que Toynbee teria vislumbrado...

Foi o Rev Malthus um destes gênios supremos que a humanidade só vê surgir de cem em cem anos e não temo compara-lo a Marx, Lamarck, Freud, Weber, Newton e alguns outros poucos...

Graças ao positivismo, ao tecnicismo e ao capitalismo nós acreditamos ter invalidado os prognósticos do homem.

Hoje é Malthus, ao menos para a maioria das pessoas ou para o homem comum, sinônimo de um homem ingênuo, que não contava com a marcha ou o progresso da tecnologia, cujo ritmo é bem mais acelerado que o ritmo da natureza.

E lemos em diversas publicações como Malthus foi desmentido pelos fatos e nos pudemos multiplicar para muito além do quanto ele preveu. Afinal os progressos no âmbito da agricultura, multiplicaram a produção de alimentos e asseguraram a subsistência de uma humanidade que acomodada não para de crescer e de explotar os recursos fornecidos pelo meio ambiente numa escala sem precedentes.

Tenho para mim que a vitória dos adversários do reverendo inglês foi nossa vitória de Pirro pelo simples fato de ter produzido uma fé. Uma fé propositalmente alimentada ou impulsionada pelos modelos positivista, tecnicista, capitalista, comunista... com o ideal comum de um progresso ascendente e ilimitado. Uma fé quimérica e um ideal irracionalista...

Como duzentos anos após Malthus ainda nos alimentamos e sobrevivemos, além de crescermos e multiplicarmos, arraigou-se a crença irresponsável e absurda segundo a qual podemos continuar não apenas crescendo e multiplicando num sistema finito como expandindo a exploração dos recursos existentes ou nos desenvolvendo economicamente.

Ao tempo de Malthus os religiosos, digo os religiosos fetichistas, não lhe deram a mínima atenção. Convencidos de que deus interviria em favor dos que cumprissem o sagrado mandamento de crescer e multiplicar, quiçá inflando a terra, continuaram a despejar suas crias sobre a face da terra... Tampouco os que acreditavam ser a poligamia uma instituição sagrada fizeram qualquer caso de suas opiniões. Outros, mais astutos, recusaram a aplica-lo devido a cálculos de natureza 'política'...

Seja como for, para grande parte dos religiosos, o planejamento familiar e o controle da natalidade humana continuaram sendo tabus...

Mas não apenas para eles! Façamos justiça! Pois também a produção econômica, a regulação dos salários... dependia da superpopulação para manter um Exército de reserva, sicut a conhecida lei da oferta e da procura. Nações e culturas também preocupavam-se em ocupar terras e manter exércitos... De modo que o controle populacional chocava-se com diversos interesses: Religiosos, econômicos, políticos e até mesmo culturais...

Os quais não foram totalmente resolvidos. Assim se a população esclarecida da Europa adota uma política de planejamento e declina, as populações islâmicas dos arredores multiplicam-se, inserem-se nas socs europeias e produzem um grave desiquilíbrio cultural que não pode ser ignorado. Não é nem um pouco normal assistir a islamização daquilo que foi o berço da ideologia democrática, bem como o cenário em que fermentaram um bom número de doutrinas socialistas ao cabo dos últimos séculos... Como não me parece natural assistir a inserção da teocracia, da murtad, da djazia, da jihad, etc numa sociedade secularizada... É apenas um aspecto do problema...

Seja como for ele deve ser abordado.

E não temo dizer, repetindo a J Stuart Mill, em termos de uma economia estacionária, a qual reconhece seus limites e a impossibilidade de expandir-se. E caso mais se expandir-se não poderia garantir sequer uma igualdade ou um equilíbrio econômico relativo, aumentando cada vez mais a desigualdade, a miséria, a violência e os estados de conflito e tensão...

De fato nos expandimos e permanecemos. Mas consideremos a extinção de diversas formas de vegetais e animais no decorrer dos últimos dois séculos. A diminuição de recursos essenciais quais sejam a água - o grande problema do futuro - e os combustíveis. A poluição do meio ambiente, inclusive do ar. E a ocupação dos espaços já com objetivos habitacionais, ja com objetivos produtivos...

Certamente nos conseguimos manter até agora, é fato. Mas a que custo ou a que preço... Em escala universal a terra se mostra exausta e da mostras de ter atingido seus limites. Temos causados danos irreversíveis ao ambiente... Estamos destruindo nosso habitat e comprometendo a qualidade de vida de nossos descendentes... O clima já se mostra exasperado e catástrofes e mais catástrofes de origem antrópica já se manifestam. Ir além seria desaconselhável... Mas continuamos a nos multiplicar por crer que a ciência, o novo deus, oferecerá alguma solução a curto prazo... Os vestígios do positivismo, estimulados pela Lei do capitalismo, iludem-nos ou vendam-nos os olhos a beira do abismo...

Mas o espectro de Malthus ressurge de sua fria cova e nos quer falar...

Nosso primeiro desafio é a produção sintética de alimentos ou de comida. E parece estarmos muito longe de consegui-lo. Ainda dependemos de animais e vegetais para sobreviver, tal e qual nossos mais remotos ancestrais. Ainda não nos desprendemos, mas, somos parte de um todo que pretendemos destruir...

Suponhamos no entanto que passemos fabricar alimentos em laboratórios da noite para o dia, de modo a poder aniquilar todos os animais e vegetais existentes, ocupando seu lugar - O que confirmaria nosso caráter de parasitas ou feras...

Teríamos de lidar ainda com inumeros outros problemas, assim:

--- O suprimento de água potável. A menos que também possamos fabricar água em larga escala.

--- O fim de recursos naturais como os combustíveis. Teríamos de descobrir  outros. Mas também precisamos de bauxita, madeira, borracha, etc

--- A eliminação de resíduos ou da poluição. Se a frota de automóveis continuar aumentando...

--- A administração do espaço. Quanto mais gente há aumenta a demanda por espaço. Assim as cidades teriam de crescer horizontalmente em detrimento das florestas e habitats naturais ou verticalmente, produzindo estruturas cada vez maiores ou colossais. Cidades teriam de cobrir e recobrir cidades... O que nos leva a problemas de planejamento, transportes, etc E enfim teriam de crescer horizontalmente caso não cessamos de crescer e controlassemos nossa população.

Nenhum destes problemas parece ser solúvel a curto prazo...

E no entanto nos multiplicamos como se não existissem ou fossem irrelevantes.

Simplesmente porque encaramos Malthus como a um tolo ou imbecil. E porque, se não acreditamos mais num deus interventor, continuamos acreditando na capacidade infinita da ciência e da tecnologia para resolverem o problema. Continuamos positivistas inveterados, e por isso nos recusamos a planejar racionalmente nosso futuro num sistema finito cujos recursos são limitados. O capitalismo declarara a todo instante que devemos nos desenvolver ou nos expandir, ou crescer, ou superar... E acreditamos ou queremos acreditar. Assim para muitos, a pauta conservadora da economia estacionária, proposta por J Stuart Mill, cheira a comunismo... E com tais palavras vão transtornando a razão e apavorando os tontos...

A bem da verdade, ao menos quanto a este ponto, a mentalidade comunista, jamais apartou-se da capitalista ou mostrou-se sensivelmente diversa - pelo simples fato de ser tecnicista e derivar do positivismo, com sua escatologia Cristã secularizada e sua esperança quimérica de produzir um paraíso na terra. Claro que podemos fazer deste mundo uma ante sala do paraíso ou um lugar melhor para viver. Todavia para tanto é necessário considerar as coisas racionalmente e sobretudo encarar a realidade do espaço em que vivemos - O qual é manifestamente finito ou limitado. Devendo comportar, necessariamente, um número limitado de pessoas e um fluxo finito de atividades humanas... O que nos conduz novamente a economia estacionária de Mill e antes de tudo ao planejamento familiar e ao controle populacional.

Nada mais urgente e qualquer projeto socialista pecará pela base caso, ao contrário de Aristóteles, não considere este aspecto. Pois antes de produzir, administrar e gerir as riquezas numa perspectiva ética, devemos estabilizar o crescimento de uma dada sociedade. Do contrário as desigualdades tornarão a surgir, tal e qual as cabeças da Hidra após terem sido cortadas... De modo que o planejamento das famílias é tão importante quanto a fruição das riquezas; estando na base do que chamamos bem comum ou justiça social. Quanto mais uma população crescer descontroladamente, mais dificil será promover o bem comum ou consolidar socialmente a justiça. Em tais condições os conflitos tenderão a generalizar-se e inclusive a despejar-se sobre outras comunidades (aqui a genesis do imperialismo). Numa escala mundial porém, será o fim... A exemplo do Império romano, o qual tendo atingido as fronteiras exequíveis em seu tempo, entrou em crise e desmantelou-se.

O atual processo de globalização fez com que nossas fronteiras atingissem os limites do mundo. A partir daí a posse de recursos que escasseiam ou de espaço, associada ao crescimento desmedido de uma determinada população poderá dar origens a um número cada vez maior de conflitos, alias estimulados pela religião ou pela cultura, e levar a guerra de todos contra todos numa escala mundial, como jamais foi vista. Este cenário já foi delineado por Huntingthon e nos parece provável...

De minha parte, após ter lido algumas publicações recentes sobre os Maias e o declínio de sua civilização, lembrei-me de Toynbee... cujo método e visão sempre admirei, bem mais que a Spengler.

Ao tempo em que Toynbee vivia, e ainda hoje, a maior parte dos historiadores ou pesquisadores. Partindo sempre o falso paradigma da monocausalidade, buscavam, cada qual deles, uma chave ou solução para o fim do império Maia, e construíam hipóteses mirabolantes. Quando rapaz, folheando uma publicação dos anos vinte, cheguei a ler um artigo, muito bem elaborado, sobre as febres - em especial a febre amarela - que teriam dizimado aquelas populações e posto fim aquele glorioso império com suas cidades magníficas. Afinal alguns arqueólogos, ao escavar junto as ruínas de Tikal, Palenque, Uxmal, Pedras negras e outras metrópoles daquela civilização haviam dado com algumas estelas ou painéis que representavam, o que parecia ser, um homem vomitando junto a uma jarro... Desde então, alguns foram levados a crer que aquele Império fora desmantelado pelas febres e, jamais pude deixar de crer que elas tinham algo a ver com aquilo, embora por si só, a hipótese das febres me parece insuficiente, para tudo explicar.

Parecia a peça de um quebra cabeças... As quais foram se adicionando outras tantas...

Afinal aquele tempo a linguagem ideográfica dos Maias ainda não havia sido perfeitamente compreendida e seus textos traduzidos. Hoje podemos ler suas inscrições, mas ainda não fomos capazes de ordena-las, o que levará séculos... pesar disto, lemos já alguma coisa. Para além disto nossos recursos tecnológicos são bem mais eficazes, permitindo que enxerguemos além da floresta...

Há além disto um imenso trabalho de pesquisa realizado em diversos campos, quais sejam: Antropologia, Geologia, botânica, Arquitetura... Os quais em seu conjunto nos dizem algo e parecem apontar para uma realidade bem mais complexa ou multi fatorial. Adianto todavia, que o elemento decisivo, quanto a eclipse da civilização Maia - pasmem - parece ter sido o desenvolvimento ou o crescimento populacional propiciado pela própria civilização... Tería a civilização se convertido numa maldição ou numa cilada para os antigos Maias???

Já o veremos.

Até bem pouco tempo tinhamos uma visão, por assim dizer 'clássica', da antiga cultura Maia e imaginávamos um cenário rural do qual as grandes praças cercadas por pirâmides descomunais, eram por assim dizer, o centro de diversas comunidades agrárias esparsas pelo entorno e por assim dizer, diminutos centros, cercados por algumas palhoças de barro e entremeados por campos de cultivo. Para mim este cenário sempre me pareceu estranho tendo em vista as dimensões de tais monumentos... E hoje, ao menos quanto a grande cidade de Tikal (E toda Peten guatemalteca) semelhante concepção esta prestes a ser revista graças a leituras aéreas realizadas pela National Geographic Explorer através do projeto LIDAR (Th Garrison).

O que encontraram foi simplesmente uma megalópole colossal que se estendia debaixo da floresta, com estradas pavimentadas, açudes, muralhas, casas de pedra e inclusive, é claro, outras tantas pirâmides descomunais... O mais interessante é que ao que parece Tikal não contava com 40 ou 50 mil habs como se conjecturava até então mas com cerca de 200 ou 250 mil, e toda região das terras baixas, ocupadas pelo antigo império Maia, não por um ou dois milhões de pessoas, mas por cerca de vinte milhões de pessoas, praticamente a metade da população europeia daquele tempo, num espaço sessenta vezes menor.

Resulta disto que uma tal população não podia sobreviver recorrendo a caça, a pesca ou a agricultura de subsistência. Felizmente o LIDAR, revelou igualmente, a existência de imensas terras de cultivo intensivo, ora ocupadas por pântanos... Assim os Maias drenavam, irrigavam e cultivavam em larga escala, tendo em vista a sobrevivência de uma população tão grande...

Até aqui problema algum...

O problema se nos apresenta quando consideramos que os Maias, muito provavelmente, não estavam preocupados com o planejamento familiar ou com o controle populacional. Estariam entusiasmados pela civilização? Levando em conta as enormes pirâmides que ergueram, os belos trabalhos feitos com o jade, a invenção de um elaborado sistema de escrita, o domínio da escultura e da pintura... não podemos deixar de supo-lo.

Os Maias no entanto empregavam o fogo em seus campos, o que demandava repouso por parte da terra e portanto um espaço efetivamente cultivado cada vez maior, tomado a floresta. Isto apenas para o cultivo. Mas os Maias dependiam da floresta para extrair madeira, já para seus móveis e utensílios, hora inexistentes, já para queimar pedra e produzir a cal necessária para construir as grande pirâmides, o que nos leva, necessariamente, a hipótese do desflorestamento. No auge de sua civilização, contando com vinte milhões de habitantes e centenas de cidades com dezenas de pirâmides, muitas em construção, os Maias praticamente deram fim ao entorno ou seja a floresta.

Richard Hansen da Universidade de Utah declara que para cobrir com gesso a grande pirâmide de El Mirador os Maias tiveram de abater 600 hectares de terra, e se tratava de um único edifício, haviam milhares e mais colossais inclusive. Chegaram a um estádio em que o reflorestamento, sem fora concebido, sequer era possível. Diante disto seguiram-se as secas, já que o ciclo da água e as chuvas dependiam das árvores e estas haviam sido cortadas...

O futuro é fácil de imaginar-se - As secas afetaram as colheitas e num cenário com dezenas de milhões de pessoas, o resultado foi a fome! Não apenas a destruição de espécies vegetais em larga escala tem sido demonstrada por Botânicos, e a seca demonstrada pelos geólogos como a fome e a desnutrição - nos séculos VIII e IX - tem sido igualmente verificadas pelos antropólogos e médicos a partir dos restos humanos encontrados.

É onde entra a peste ou as febres. Pessoas desnutridas e fracas embrenharam-se nas selvas e pântanos, cheios de mosquitos, em busca de alimentos... transportando as febres aos grandes centros urbanos. As pessoas devem ter começado a morrer, de fome ou febre, em larga escala; mas ainda havia um refúgio ou uma esperança, raramente posta a prova em escala social, e a qual nos explica perfeitamente, como, porque e donde, veio o golpe final sobre aquela antiga civilização.

Como todos os povos e culturas antigas eram os Maias fetichistas ou seja, tal e qual os nossos fundamentalistas, eles acreditavam que suas divindades deveriam interferiam concretamente no meio material ou físico por meio de milagres. Estavam convencidos de que seus deuses controlavam diretamente o mundo ou a ordem cósmica e a seu tempo que podiam controlar ou influenciar os deuses por meio de oferendas e sacrifícios. Os sacerdotes, muito provavelmente, haviam dito ao povo que a seca, a fome e a peste eram castigos enviados pelos deuses ofendidos, os quais deveriam ser aplacados...

Havia pois uma esperança: A religião, a magia, o milagre... Urgia alimentar os deuses famintos, sedentos e mau humorados com sangue, segundo o costume imemorial. O cenário que apresentou-se apenas se vislumbra nos painéis de Bonampak (792) - Cada rei ou comunidade pegou em armas e atacou a comunidade vizinha com o objetivo de obter prisioneiros e oferece-los aos deuses, de que resultou um conflito generalizado entre as antigas metrópoles.

A bem da verdade os Maias sempre conheceram batalhas religiosas em que os reis, nobres e sacerdotes das cidades vizinhas eram abatidos, sequestrados, torturados e mortos. Os antigos Maias acreditavam que os homens foram criados com o sangue dos deuses (daí os homens serem pintados com vermelho vivo) que por ele se sacrificaram. A contra partida é que os deuses controlavam os astros, o clima, a fertilidade dos seres, etc... assim o equilíbrio cósmico era mantido a preço de sangue, o alimento dos deuses.

O primitivo jogo de futebol revivia um evento cósmico em que os deuses do inframundo havia sido derrotados pelos gêmeos que se converteram no Sol e na Lua... Assim os que jogavam e eram derrotados eram oferecidos ao Sol e a Lua. O sangue era uma espécie de fluído sagrado que movia os deuses e através destes o cosmo...

Muralhas e fortalezas edificadas durante este período são um claro sinal de que as violências e agressões, instigadas pelo desespero aumentaram... Como nas Gálias do século III os habitantes de 'Dois pilares' demoliram seus templos e palácios e converteram sua cidade numa pequena fortaleza amuralhada.

E no entanto o fim ainda não havia chegado. Pois a gente das cidades, apinhava os templos, massacrava os prisioneiros, feria o próprio pênis ou a própria lingua, lançava seus filhos aos poços, sacrificava jaguares e joias... Sem que as chuvas se regularizassem e as colheitas tornassem a ser abundantes. Pelo contrário as campanhas expansionistas, que visavam obter recursos e prisioneiros, pioraram ainda mais a situação. Porque na medida em que executavam multidões de prisioneiros e empilhavam crânios nos centros cerimoniais faltavam braços para cultivar uma terra já estéril e seca... De modo que a fome, a subnutrição e as enfermidades aumentaram...

As próprias cidades, que com seus vistosos templos, tornaram-se alvos para as expedições guerreiras que obstinavam-se em obter vítimas para sacrifícios rituais. De modo que seus derradeiros habitantes acabaram internando-se nas poucas florestas que restavam, com a esperança de poder viver da caça, da pesca e da subsistência...

Enfim, como intuiu Soustelle, os Maias perderam toda esperança e cessaram de acreditar nos sacerdotes e reis que os haviam feito construir as antigas pirâmides. A ideologia fetichista, após ser socialmente testada, desabou e deu lugar ao ceticismo, e a outros tantos distúrbios... Os reis e sacerdotes -  guardiães da escrita, das artes e da cultura. - caso não tenham sido mortos por seus próprios concidadãos encolerizados, acabaram sendo capturados e mortos pelos invasores, até que a sociedade como um todo desabou e as grandes cidades arruinadas foram invadidas pela selva. Sumindo do cenaŕio, a velha civilização Maia após dois mil anos de existência e um fluxo de progresso contínuo e ascendente...

No entanto, tal e qual a antiga Roma, quando esta cultura chegou a seus máximos limites e explotou os recursos de que dispunha, seguiu-se o caos. E quando a ideologia fetichista ou religiosa, que servia como base a cultura, foi testada e falhou, seguiu-se o fim... Pois já não havia esperança.

O cenário esta posto. Restabelecido ou recuperado. Façam as comparações com o período em que estamos vivendo. Afinal deveríamos ser mais humildes e aprender com as lições do passado...