Mostrando postagens com marcador professor. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador professor. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Ensino - Entre criticismo e essencialismo\Ojetivismo



Num mundo cada vez mais complexo é cada vez mais difícil instruir as gerações futuras.

No passado, cerca de cinco, dez, vinte ou vinte e cinco séculos, educar era antes de tudo comunicar o que parecia ser a essência das coisas ou mostrar como as coisas eram em si mesmas.

No entanto, há cerca de cinco séculos, passou o Ser, a ser cada vez mais utilizado com uma finalidade lucrativa e desde então quase todas as coisas se converteram como que em meios para se obter dinheiro. Desde então as pessoas tem se interessado mais pelo uso que se faz das coisas do que pelas próprias coisas, até o ponto de certas opiniões - Ora predominantes. - certificarem que não podemos conhecer as coisas como tais e que isso é ociosidade inútil. Sempre podemos usa-las (rsrsrsrs), sai de cena a Ontologia ou a Metafísica, e entra em cena, com grande gala a Dona Economia... Senhora de nossos tristes tempos economicistas (Foi o Católico T S Elliot e não os comunas que os declararam tristes e eu concordo plenamente com ele.). 


Ao mesmo tempo em que as coisas principiaram a ser cada vez mais usadas com finalidades econômicas, também foram - As coisas. - usadas para ocultar, disfarçar ou obscurecer a realidade vivida por aqueles que ao invés de lucrar ou auferir benefícios por parte do sistema vigente, apenas trabalhavam e continuavam penando ou acumulando miséria. Na medida em que parte das coisas ou dos seres passaram a ser usados, por quem aspirava permanecer no comando, com o objetivo de alienar os mais humildes da realidade por eles vivida ou melhor dizendo de suas causas mais íntimas e remotas, foram surgindo oponentes cujo ofício passou a ser revelar ou tornar pública a grande burla que é a Sociedade liberal economicista ou capitalista, em Educação, essa vertente recebeu a alcunha de crítica.

O Educador crítico tem assumido, em maior ou menor grau a tarefa de demonstrar como a realidade das coisas tem sido manipulada pelos detentores do poder econômico, noutras palavras, tem concentrado seus esforços em expor as mentiras do capitalismo - E o capitalismo mente a não poder mais (O que não quer dizer que as Ideologias que se lhe opõem, disputando a Hegemonia, não mintam.). 

Então qual é o problema do Criticismo ou dessa Revelação a propósito da grande farsa do Capitalismo...

Que ficamos apenas na crítica ao uso que o capitalismo faz das coisas, no marketing, na instrumentalização, no engano, na aparência ou melhor dizendo nas relações existentes entre os seres, criadas pela produção. E jamais chegamos as coisas, ao ser, a verdade mais íntima e profunda... Em Geografia olvidamos por completo os fenômenos físicos... Em História colocamos de lado os personagens, fatos, datas, etc - Além de abandonar o passado mais remoto, tão interessante e fecundo... Em Arte esquecemos a fruição intuitiva do belo (Estética) ou o significado estético da produção pessoal - E tudo isso vai sendo relegado a segundo plano e deixado para trás.

A crítica é quiçá necessária, e isso é angustioso! Porém a educação ou a formação se vai mutilando e empobrecendo. A ponto de tornar-se alvo de contra criticas justamente por parte dos prestidigitadores economicistas. Não sou contra a crítica ou o criticismo, reconheço sua relevância num mundo de aparências e intencionalidades viciosas, mas quero estabelecer uma crítica honesta face a certos abusos ou excessos do Criticismo, pois temos que tornar a falar sobre as coisas e a verdade, para que a Ética não fique desamparada de seus fundamentos, passando a ser apresentada como mero discurso, como uma perspectiva, como uma interpretação ou como algo absolutamente relativo.

Quando falo na realidade da dor provocada no sujeito por um situação de injustiça tenho que aprofundar metafisicamente minha predicação, conceituar que seja dor, que seja ser humano, que seja justiça, etc e demonstrar que haja algo real, para que essa dor e essa justiça não sejam relativizadas.

Curioso falar em crítica, criticidade, criticismo, etc sem pensar I. Kant.

No qual já esta presente o grande efeito ou sintoma da brincadeira iniciada pelos sistemas modernos face ao conceito de verdade - Seja natural\racional ou Revelada, não importa... Esse sintoma doentio é a negação da Verdade ou o total desinteresse por ela. E nem se pode dizer que o positivismo, o cientificismo, e outras ideologias modernas, ainda quando impulsionaram o anarquismo e o comunismo, começaram prestando imenso serviço ao Capitalismo, pelo simples fato de negarem a Metafisica e consequentemente Ontologia, Estética e Ética (Litreé). Após a demolição da fé, precipitaram-se as mentes não no precipício da economia, com seu prosaísmo vazio, mas nos braços da Metafisica e sob os auspícios da Filosofia clássica. 

Kant prosseguiu a demolição da Verdade, pois a um tempo contemplou a burla iniciada pelo Capitalismo e a outro o significado mortal do Libre examinismo no plano religioso > Pois se haviam apenas interpretações (A expressão é de Nietzsche) não havia verdade e menor ainda Revelação divina - O único padrão de veracidade para os Evangelhos e o Novo Testamento é a Tradição alardeada pelas antigas igrejas Apostólicas, sem a qual o livro se converte num labirinto sem saída. E no entanto esse mesmo Kant forcejou por estabelecer um Ética objetiva por meio de imperativos categóricos e não podia imaginar o viver sem Ética de Litreé.

Comte, outro bravo demolidor, busca abater toda Metafísica e exaltar a Ciência empírica até imaginar uma ditadura de cientistas. Litreé põem de lado a ditadura de cientistas para conciliar-se com a democracia formal, porém 'avança' no sentido de repudiar a Ética e é claro a Estética, como emboloradas lucubrações metafísicas... E exalta até onde pode essa ciência que se deleita em deslindar aparências ou fenômenos... Após ele Durkheim e Lévy Bruhl levam adiante a batalha contra a essencialidade Ética nos domínios da Sociologia e postulam um relativismo absoluto, a partir do qual Sócrates é morto e não resta critério algum pelo qual possamos acordar em torno do certo e do errado...

Foram uns belos discursos positivos ou científicos em torno da Ética ser mero resíduo cultural, produto intragável da fé religiosa ou pura fantasia arbitrária (Metafísica) engendrada pela mente... Até que os alemães parecem te-los lido e levado bastante a sério, a ponto de produzirem duas grandes guerras mundiais nas proximidades do paraíso capitalista ou do coração da civilização, convertendo-o por duas vezes em ruínas fumegantes... E no bojo dessa cruzada contra o direito natural ou o jus naturalismo (Em que Antígone era pintada como idiota e Creonte como...) surgiu nazismo, e tortura, e assassinato, e roubo... E toda aquela carniçaria e miséria - Afinal não havia qualquer padrão objetivo ou essencial de Ética.

Recordo-me de ter lido algumas palavras escritas por alguém que viveu num desses campos de concentração - Nos quais Ética era certamente encarada como palavra vazia ou discurso sem sentido: Ali haviam diplomados e técnicos que assassinavam... e respeitáveis cientistas que praticavam tortura, exterminando crianças, grávidas e idosos com requintes de crueldade... Adquiriram com sucesso os conhecimentos de suas respectivas disciplinas, a calamidade aqui é que não aprenderam a ser bons... Essas pessoas, antes de aprender matemáticas, física, química, etc deveriam ter assimilado princípios e valores saudáveis. 

Nada que Sócrates, Jesus ou um Buda já não tenham dito antes... Esses pobrezinhos... > Segundo Litreé, Durkheim e Bruhl... não passavam de umas criaturinhas toscas, privadas de espírito positivo ou científico... Desde então teve a Europa ou o Ocidente, que aprender com a dor e que reformular seu discurso...

Após a segunda grande guerra a palavra Ética - E o velho Sócrates ou Aristóteles. - parece ter sido reabilitada, tornando-se novamente popular, ao menos aparentemente ou superficialmente, pelo simples fato de que os céticos, positivistas, relativistas, ateístas, etc servidores do Capitalismo, não podem admitir ou conceber, que a dimensão ética da pessoa seja inculcada nos mais jovens com toda seriedade a que faz jus. Problema não é o comunismo ou anarquismo repudiarem uma Ética essencial - Nada que o amiguinho querido, chamado positivismo (E o cientificismo que com ele se confunde.) já não tenha feito... Problema é o Mercado insinuar a meia boca que esta acima da Ética ou os representantes da bela ciência (Como se fossem arremedo do colégio cardinalício.) exigirem neutralidade...

Por isso digo que pior do que negar a Ética é muito menos prejudicial e danoso que brincar com ela.

Pois onde mais falta Ética em nossos dias é nas relações econômicas, cada vez mais desumanas e intoleráveis, assim nas relações políticas com essas guerras totais que envolvem a população civil de cada pais e seus animais inocentes. O mundo da economia, da política e da guerra continuam visceralmente irredutíveis a Ética...

O próprio Ch Dawson em seu inútil livro sobre Deus ou contra a existência de Deus, ainda que imbuído por um venenosa ideologia cientificista em momento algum decantou contra a Ética, limitando-se a declarar que até então o ateísmo querido tem sido de todo inútil para produzi-la i é para criar um sistema de Ética. A bem da verdade, a crítica foi injusta, pois o ateísmo ou o materialismo encontra-se na gênese do utilitarismo ou pragmatismo 'ético', com suas repercussões estéticas... E foi outro desastre clamoroso, pois por ser nulo em termos de princípios e valores, o pragmatismo (Como a ciência positiva) fica sempre sujeito a ser utilizado por qualquer ideologia ainda que oculta...

O mesmo Dawson não se lamenta menos de que no campo da estética a querida ciência nada tenha produzido de relevante, como uma peça de Teatro ou uma sinfonia.

Agora por não produzir Ética - Não produz sequer estética! - ou princípios e valores próprios, como poderia a querida ciência deixar de servir como lacaio dedicado ao Capitalismo... Como servirá o Nazismo na Alemanha e o Comunismo na URSS. Bela deusa essa que se partilha seu leito com Comunismo, Nazismo ou Capitalismo. No Ocidente é acrítica e manipulável, não devendo o homem esperar dela qualquer redenção. Descobertas, conquistas tecnológicas, verdades fenomenológicas, etc mas não a mais leve crítica ao sistema. Entre nós a ciência esta conectada aos poderes políticos e econômicos - E por isso, enquanto os europeus deploravam a desconstrução da Ética pelas beldades positivistas, os cientistas instalados nos EUA faziam o que lhes era ordenado, produzindo Bombas que seriam lançadas sobre uma população civil inocente.

Protestantismo, capitalismo, positivismo, cientificismo, ceticismo, pragmatismo, modernismo, etc se entrelaçam e misturam nessa sopa indigesta e nauseabunda. Merecendo cada qual ser criticado com toda propriedade e responsabilizado pela demolição da Ética essencial, da estética essencial e sobretudo da Metafisica, sem a qual tudo se relativiza e perde o sentido.

Comunismo e anarquismo também deveria ser julgados e criticados e julgados com toda liberalidade, enquanto reprodutores acríticos das ideologias acima citadas e de seus vícios. Não são inocentes e nem mesmo a Igreja romana ou o papismo é inocente - Embora eu a encare como a menos culpada, paradoxalmente a mais responsável (Por não ter condenado o agostinianismo.) e a menos culpada (Devido as condições históricas e sociais do Ocidente medieval.).

Por isso considero que calcar as críticas na velha igreja papalina como se fosse a principal responsável por todos os nossos transtornos e padecimentos, equivale a um erro imperdoável e tanto Engels, quanto Weber, e Tawney, Fanfani, O'brien, etc apresentaram o protestantismo como sendo o principal sustentáculo ou aliado ideológico do capitalismo.

Seja como for estabelecer uma crítica tão completa na escola é intencionalmente impossível... Digo mais: Concentrar-se numa crítica ao Capitalismo e suas mazelas tampouco é possível, e esgota-la menos ainda. 

Necessário ao professor de História apresentar a seus pupilos outros períodos em que não havia capitalismo e nos quais o poder econômico não era tão poderoso e forte. Necessário a esse educador referir a personagens, eventos, locais e datas, não apenas a processos de produção e as estratégias empregadas com o objetivo de oculta-las.

Necessário ao professor de Geografia apresentar a seus alunos não apenas a 'Guerra fria' mas antes dela a forma do planeta, os acidentes geográficos, a relação meio, homem e sociedade, etc 

Tampouco o professor de arte poderia concentrar-se apenas no uso da arte como dominação ou na contra propaganda sem apresentar as turmas a História das representações artísticas e alguma mínima noção de teoria Estética, sempre intermeada pela produção concreta da arte, quiçá seu aspecto mais relevante tendo em vista seu aspecto psicológico e formativo; o simples trato prático com a arte é humanizador e terapêutico.

Um bom professor terá, necessariamente, que conciliar a crítica ou o criticismo com um saudável realismo ou essencialismo que reporte as coisas ou ao ser, e a pessoa. De maneira que seu criticismo não se torne árido e insípido. Ocioso dizer que por admitirmos uma justa crítica ao Capitalismo e aos danos por ele causados em praticamente todos os setores da vida humana, não endossamos qualquer apologia ao Anarquismo, ao Comunismo ou a qualquer outro sistema sócio, político e econômico em sala de aula. Compreendemos perfeitamente que todos esses sistemas devam e possam ser livremente abordados e discutidos pelas turmas e professores nas aulas de Filosofia, Sociologia ou mesmo em certos tópicos de História, mas não admitimos que as nossas aulas devam converter-se numa doutrinação catequética sistemática. 

E já declaramos que, salvo quando uma tal temática seja introduzida pelo currículo, sua discussão deve partir sempre dos alunos ou da turma e jamais do professor, a guisa de proselitismo. Salvo quando os alunos suscitarem determinadas questões - As quais sempre deveriam ser acolhidas e levadas a discussão pelo professor. - deve o docente seguir a ordenação curricular e ministrar os conteúdos estipulados. 

Exerçamos portanto um criticismo crítico, sóbrio, dosado, etc e não um criticismo cego e sectário que redunde em contra críticas maliciosas em favor da manutenção da realidade dada. 






segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

J. J. Rousseau, o pedagogo.

Poucos sabem que é na verdade este Blog. O qual não passa de um Diário íntimo, bloco de anotações ou resenha de leituras. O qual escrevo antes de tudo para mim mesmo, tal e qual as madames D Stael e Swetchine.

Como um culinarista, perfumista ou decorador tudo vou misturando de modo a produzir novos pratos, coquetéis ou ambientes. Por isso vou combinando o que leio com o que já li e busco salientar os elementos comuns que existem nos diversos autores. De fato associar e comparar os componentes de toda esta bagagem é meu passa tempo predileto.

E cá vou misturando Tasso, Afrânio Peixoto, Humberto de Campos, Brito Broca, Rodó, S Hipólito, Orígenes, Diógenes Laércio, Dielz, Mondolfo, Sciacca, Bloy, Mounier, Maritain, Berdiaeff, Belloc, Laski, V G Childe, Woodlock, Gray, Kirk, Dawson, Van Paasen, R B Downs, Nisbet, Q Skinner, Papini, A Piccarollo, Munford, Ashley Montagu, Calmon, Crane Brinton, De Rugiero, etc Platão, Aristóteles, Agostinho, Erigena, Aquino, Marsiglio, Vitória, Las Casas, Erasmo, Descartes, Bodin, Cervantes, Shakespeare, Hobbes, Spinosa, Defoe, Swift, Beccaria, Moliere, Verri, Voltaire, Browson, Herbart, Mill, Spencer, Marx, Wundt, Droysen, Wellhausen, Darwin, De Vries, Freud, Jung, Otto, etc E vejam que sopa ou salada...

Hoje o prato do dia é o merecidamente celebre genebrino J J Rousseau, a respeito de cujas opiniões políticas escrevemos já inúmeras vezes.

Recordo ter lido o primeiro ensaio sobre Rousseau logo após minha conversão a Igreja de Roma e portanto pelos idos de 1992 ou 93, quando tinha dezessete ou dezoito anos, curiosamente dizia respeito a Educação e ao psicologismo, assim as correntes pedagógicas contemporâneas, traçando paralelo com o freudianismo. Focava ainda no tema dos castigos e punições, assim dos castigos físicos, havendo um nítido ranço agostiniano que já me causará mal estar. A insistência no falso conceito de pecado original, em seu sentido ontológico ou metafísico era marcante e sabia aquela pedagogia jansenista descrita por Hubert na História da Educação...

Em seguida i é alguns anos depois, li um artigo sobre o mesmo tema composto por um autor espírita, este bem mais equilibrado. Seja como for não retenho mais os nomes de tais críticos ou expositores. Os demais artigos - De Nisbet, Piccarollo, Mosca, etc eram antes de tudo políticos e consagrados ao Contrato social e conceito de vontade geral, pouco havendo ali de propriamente pedagógico.

Li menos Rousseau do que Voltaire. Afinal li "Deus e os homens" em sua totalidade. De Rousseau havia lido apenas o primeiro capítulo do Contrato, o Ensaio sobre as artes as ciências e o progresso da humanidade e alguns capítulos do Emílio, isto porém em meus tempos de universitário. Desconhecendo quase que por completo as obras de Pestalozzi, Claparede, Ferriere, Piaget e outros, assim o significado do escolonovismo, como poderia avaliar tão importante obra?

E no entanto faz-se mister ler o Emílio em sua inteireza. Embora antes talvez seja bom ler um manual de História da Educação como os de Luzuriaga ou F Mayer. Isto para fazer as devidas conexões - Não é por acaso que J. Piaget e P. Viver eram suíços e Claparede e A. Ferriere eram genebrinos. O que remete a tradição pestalozziana, de Yverdon, a mesma Yverdon por onde passará Rousseau então perseguido.

Da simples leitura do Emilio ressaltam os fundamentos mais remotos do escolonovismo com sua insistência na empiria ou no modelo científico experimental.

Assim a ideia tão cara aos piagetianos de que errar faz parte do processo e que a forma ou hábito do conhecimento se da sempre por acerto e erro. Ideia está atrelada aquela segundo o qual o verdadeiro educador não deve despejar o conhecimento teórico no aluno a faze-lo decorar fórmulas ocas mas gerenciar ou produzir situações problemas, que estimulem a curiosidade do educando e o façam refletir. Aqui o papel é mais orientar do que fornecer ou discursar.

É bastante provável inclusive que este tipo de postura reflita a postura do grande Sócrates, o qual duvidava bastante da formação teórico discursiva oferecida pelos sofistas e propunha um método dialético que considerasse a bagagem do educando e sua capacidade racional para compreender. Alias Rousseau destacou se justamente por, a exemplo de Sócrates e Platão, ter compreendido o papel fundamental do processo educativo para qualquer tomada de consciência. E é claro que estamos falando duma educação ativa e não bancária (Freire).

Da mesma maneira pode Rousseau perceber que a cognitividade humana conhece determinadas fases naturais, posteriormente classificadas por Decrolly, Wallon, Piaget e Vigotsky.

Continua.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Instruir ou educar?

Não sou radical.

As vezes radicalismo é necessário.

Devemos ser radicalmente justos...

Na maioria das vezes porém os radicalismos são maléficos.

Em educação há dois extremos bem distintos. Alias em educação há diversos extremos.

Um deles no entanto diz respeito ao instruir e ao educar.

Reflexo da velha e decantada 'oposição' entre teoria e prática.

Há vertente que opõem-se a instrução. Há até vertente que se opõem a existência da Escola e do professor...

Não sou contra a instrução, a escola, o professor...

Penso no entanto que tais realidades devam ser repensadas.

Aprofundadas, ampliadas, redimensionadas...

Classificar o ato de instruir como mau parece-me aberrante.

Mesmo no 'mundo da informação' instruir continua sendo necessário.

A carga de informação é tanta e tão grande que o homem moderno precisa aprender a lidar criticamente com ela.

O que exige a assimilação de certo elemento teórico.

A própria formação do hábito exige pressupostos teóricos.

Ser crítico é hábito que alimenta-se de teoria, que lida com teorias, que exerce juízo sobre teorias.

De fato quando o preceptor limita-se a instruir executa um trabalho incompleto e quiçá superficial.

Importa plasmar comportamentos e criar hábitos. Educar.

Toda instrução deve ser superada, completada ou ultrapassada pela educação.

Não se trata aqui de comunicar ou transmitir conteúdos; mas de fazer-se imitar, de contagiar com o exemplo, de revelar a possibilidade da auto educação enquanto processo que se perpetua durante toda vida.

Para além de ensinar a ler, escrever, contar, calcular, etc o educador de verdade deve fazer com que seus alunos gostem de aprender. Professor realizado é aquele que conseguiu despertar nos educandos o amor pelo saber!

Ser professor é aspirar por ser desnecessário e ficar contente por ter se tornado desnecessário. Que o filho aprenda a caminhar sozinho é o supremo desejo dos pais... que o educando aprenda a instruir-se, a obter as informações, a refletir, a julga-las, a posicionar-se criticamente, a exercer sua autonomia deve ser a meta do educador humanista...

"Que ele cresça e eu desapareça." deve ser nosso leme.

Educar é educar para a autonomia, para a independência, para igualdade.

Instruir ou informar é ato que por si só poderia prolongar-se por séculos sem jamais esgotar-se. Produzindo assim um laço de dependência. Educar é estimular a aquisição de posturas, de princípios, valores, habilidades, competências, etc que nortearão o processo educativo pelo resto da vida...

Instruir por si só não liberta a quem quer que seja. Educar é ato essencialmente libertador.

Instruir é comunicar conceitos ou teorias via de regras por meio da palavra oral ou escrita. Implica despejar em maior ou menor medida. Implica orientar, guiar, corrigir, etc o que não deixa de ser necessário, especialmente nas séries iniciais.

Educar é coisa que se faz antes de tudo pelo exemplo.

Caso esperemos que nossos alunos amem a justiça, não basta declamar poesias ou fazer belos discursos a respeito dela. Mas praticar a justiça e ser inflexivelmente justo em sala de aula; jamais compactuando com a injustiça.

Caso desejemos que amem a leitura, temos de ler em sala de aula com eles e diante deles, temos de leva-los a Biblioteca, temos de estimular e favorecer de todas as formas possíveis a leitura dos livros distribuídos na Escola, temos de tentar produzir gibis e livros com a turma... e não de sermoar.

Esperamos que nosso aluno apresente-se asseado na escola; antecipe-mo-nos e apresente-mo-nos sempre muito bem asseados em nossas classes.

Esperemos que nossos pupilos sejam corteses. Comecemos praticando a cortesia com eles e esbanjando fórmulas como: Bom dia! Com licença! Por favor! Muito obrigado! Nem posso crer que um educador de verdade sinta-se humilhado por ser amável e cortes com seus alunos! Antes julgo que se não é fácil ao menos tentar sorrir para eles, a causa esta perdida...

Problemático é educar com a cara feia...

Ninguém sabe disto melhor do que o governo.

Para o qual é sempre bom negócio transformar escolas em Val de lágrimas ou calvários estudantis... em espaços opressores, em que os alunos se sentem mal, e em que encontram dificuldades para aprender.

Se há alegria, felicidade ou prazer o educador esta a meio passo de consumar sua tarefa...

Educar é tarefa a que muito facilita o contentamento e a que muito atrapalha o desconforto.

Assim se o aluno encara a escola como um espaço triste, desagradável ou chato nossa tarefa fica seriamente dificultada.

Sabem-no como registramos a pouco governos como o de São Paulo (estado) e Paraná. Daí buscarem dificultar ao máximo as vidas de seus educadores, restringir seus direitos, tornar suas jornadas penosas, humilha-los em sessões de HTPCs, esbordoa-los publicamente; em suma desvaloriza-los e desmotiva-los ao máximo até torna-los bárbaros, cruéis e insensíveis.

É o estado liberal responsável pela falência do processo educativo na mesma medida em que tira do professor a satisfação de ensinar, que mata nele o gosto pela educação, que priva-o das condições necessárias para amar e encarar seu aluno com carinho, que sobrecarrega-o com preocupações inúteis, que onera-o com tarefas desnecessárias, que transforma sua carreira num 'inferno' profissional...

Desampara o docente, permite que a estrutura material se desmantele, recusa-se a produzir as alterações espaciais necessárias... IMPLEMENTA - POR MEIO DUMA GESTÃO DESASTROSA - A FALÊNCIA DO ENSINO PÚBLICO, para em seguida propor sua privatização!

Para além disto, como já dissemos, o aluno aprende muito menos neste tipo de Escola... Não consegue sair da caverna, permanece preso as velhas e ultrapassadas formas de pensamento, e... impossibilitado de ultrapassar os preconceitos, fecha-se em seu mundinho para sempre.

É um tipo de educação que raramente produz qualquer sentido social, político, econômico... mais profundo, qualquer tipo de consciência mais refinada... qualquer tipo de questionamento mais sério. É educação falsa, que não produz ruptura, reflexão, posicionamento crítico, compreensão de mundo.

Num ambiente seletivo como este que pode fazer o bom professor, o educador consciente, o preceptor honesto???

Não quero ser pessimista e declarar que ele nada possa fazer.

Jamais desesperei do amor, do carinho, da justiça, da justiça, do bem, da virtude... mesmo que as condições materiais sejam dramáticas e as estruturas opressoras.

Mas também não posso crer que tais esforços possam alterar sensivelmente a dimensão social desta triste realidade.

Não possuímos um exército de mártires ou monges a serviço de uma educação humana.

Por outro lado não é desprezível o número de educadores que premidos pelas forças do currículo e da equipe gestora limitam-se a reproduzir mecânica e acriticamente o que é decretado, havendo também certo número de individualistas e carreiristas, os quais buscam manter seus cargos sem maiores preocupações.

Nem vejo como alguém possa 'educar' numa perspectiva ética sem sentir-se incomodado pela seletividade arbitrária do sistema.

Diante disto, que fazer?

Abandona-lo???

A educador algum que acalente o bom idealismo de inserir-se para fazer oposição ao sistema, direi que não o faça o que não valha a pena. Direi que será um grande desafio, que se aborrecerá, que sofrerá, que padecerá... mas de modo algum direi que não o faça ou que não vá.

"O coração tem lá suas razões que a razão desconhece."

Apesar de ter chegado a meus limites e de - ao cabo de quase dez anos - ter desistido posso dizer que tenho bons motivos para alegrar-me pelo pouco que pude fazer no contexto do Ensino público do Estado de S Paulo. E até posso crer que o pouco que fiz foi muito. Valeu pelas almas que da caverna retirei. Não sei e talvez jamais venha a saber quantas foram... mas valeu por elas.

Importa ter comunicado algum amor pelo saber, algum sentido de alteridade, alguma consciência de justiça, alguma estima pela cultura científica...

Sempre que necessário informei, corrigi, orientei mas, acima de tudo busquei educar por meio do exemplo.

Busquei levar a meus queridos alunos atitudes que perdurem no decorrer de suas vidas.

'Aprender a aprender', 'Aprender a ser' e acima de tudo 'aprender a conviver' foi o quanto busquei despertar neles. Enfatizando sempre a importância da prática, sem ignorar o valor da teoria. Busquei fazer ponte entre os extremos e indicar um meio termo.

Pensei sobretudo em formar pessoas solidárias.

Não intelectuais que fabriquem bombas e venenos...

Prefiro a ignorância dos que amam e buscam beneficiar seus semelhantes.

Prefiro uma lavadeira compadecida, que saiba compadecer-se de um animalzinho qualquer, a um doutor diplomado que chute um cão ou um gato.

Apesar dos diplomas, títulos, condecorações, medalhas, etc não confio em pessoas que torturam e matam animais, que maltratam os mais humildes, que tem preço por alto que custe.

Precisamos de homens ou mulheres que tenham valor, não preço.

De seres verdadeiramente humanos que não se vendam, não se prostituam e não negociem.

Que saibam se opor ao que esta errado e resistir.

Do contrário repetiremos os velhos erros do nazismo e do comunismo.

Nem me refiro ao outro sistema: que sobrepõem o TER ao SER!

Não podemos permanecer atrelados a estas culturas de morte.

Temos de educar para a justiça, o amor, o ser, a liberdade, a vida, o bem, a paz, etc E de educar por meio da linguagem mais poderosa que há: o exemplo.

Professor, professora: fale menos, viva mais. Sua melhor e maior lição é sua vida, não se iluda, não se equivoque, não se engane! Confie mais em suas ações do que em suas palavras!

Menos sermões e discursos fastidiosos; mais carinhos, sorrisos, abraços, beijos, afeto, cortesia, respeito!

Não tenha medo de construir vínculos afetivos respeitosos e saudáveis, pois como alerta Wallon, são eles que tornarão o ensino significativo para nossas crianças.

Se o aluno gostar de você não terá dificuldade em interessar-se pelos conteúdos ministrados. Se ele desgostar de você as chances de transferir tal desgosto para os conteúdos são enormes...

Então faça-se gostar, seja amável, jovial, entusiasmado! Apesar do Estado, dos problemas, do salário, etc se é a profissão que escolheu busque desempenha-la da melhor maneira possível. Pense sempre no professor que queria que seus filhos e netos tivesse e torne-se digno desta meta.

Não desista, não se acomode, não desanime; lute, lute como um leão.



quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Como afirmar o evolucionismo perante seus alunos! I

Nada mais desagradável do que um ambiente hostil. Nada mais desagradável do que ter de dizer verdades duras a uma platéia que não deseja ouvi-las. Nada mais desagradável do que ter de dialogar com fanáticos e sectários.

São coisas que ninguém gosta de fazer.

Mas que no entanto precisam ser feitas, devem ser feitas.

Poucos de nós gostam de passar suas próprias roupas ou de lava-las ou ainda de preparar a própria refeição. No entanto caso não possuamos os recursos necessários teremos de faze-lo e pronto. É algo necessário, que se deve fazer...

No curso da vida sempre nos depararemos com coisas que não gostamos de fazer.

Mas que precisarão ser feitas.

No curso da vida não desejaremos fazer muitas coisas.

Mas deveremos faze-las.

Afinal não são nossos gostos que definem a realidade ou fixam as leis.

Quantas vezes somos incapazes de satisfazer nossos gostos e desejos...

Menos mal...

Coisas há no entanto as quais não nos podemos furtar.

É imperativo categórico, dever, necessidade.

Assim construir um mundo melhor, assim lançar os fundamentos duma sociedade mais tolerante, assim redirecionar o que esteja mal direcionado, assim auxiliar as pessoas a redefinir seus valores, e por ai vai.

Nem sempre poderemos passar a mão da cabeça das pessoas e declarar que estão agindo corretamente.

Nem sempre poderás concordar, aprovar e aplaudir.

Nem sempre poderás ignorar e desculpar.

As vezes terás de ter coragem suficiente para afrontar, denunciar, corrigir, resistir, discordar...

Terás de ter ousadia. A ousadia de contrariar ou ser do contra.

Especialmente no ambiente escolar.

Onde temos mentes e carácteres sendo formados.

Onde temos de educar em termos de reorientar, redirecionar e corrigir.

Onde temos de afirmar certos princípios.

Mas o que tem tudo isto a ver com o ensino do evolucionismo.

No momento presente, em que mais e mais um certo ideário religioso importado dos EUA, consolida-se entre nós, tudo. No momento em que as religiões de caráter mágico fetichista tornam a expandir-se em níveis nacionais e globais, tudo. No momento em que o criacionismo passa da defensiva ao ataque em nossas escolas públicas, tudo!

Raro o professor - de ciências, biologia ou mesmo de história, geografia ou filosofia - que já não foi rudemente questionado ou mesmo atacado por algum aluno em nome da tal inerrância bíblica e do criacionismo??? Quem de nós já não ouviu frases como esta:

"Nossa professor, o senhor acha mesmo que o homem veio do macaco?"

ou

"Quer dizer que o senhor prefere acreditar nesse tal de Darwin a acreditar na Bíblia?"

ou ainda:

"Esse negócio de evolução é uma teoria de origem humana."

Etc, etc, etc

Não poucas vezes a abordagem dos pequeninos chega a ser insidiosa.

Diante disto não poucos professores optam por silenciar.

Tendo em vista uma falsa compreensão da liberdade religiosa.

Outros até chegam a concordar, o que é pior ainda.

Já ouvi professor acuado declamar: Cada um tem sua verdade, para mim é a ciência ou a evolução, para você a fé ou a Bíblia; e cada um fica com a sua!!!

Nada mais especioso, nada mais venenoso...

Diante de tantos desfalques decidimos fornecer ao educador crítico, reflexivo; que não pretende nem se omitir nem concordar, uma série de estratégias pedagógicas destinadas a ensinar a teoria da evolução em sala de aula dirimindo todas as possíveis objeções levantadas pelo fundamentalismo.

1 - Se seu aluno perguntar: E se desejar crer na Bíblia e rejeitar a doutrina da evolução?

De fato você pode escolher acreditar no que quiser: numa vaca voadora, no coelhinho da páscoa, no drácula, etc e nem por isso muda a realidade.

Pode negar a existência do Sol e ele não deixará de brilhar. Sua opinião ou sua crença não incomoda o universo nem o comove.

Milhões de pessoas creem na existência de Ganesha, mesmo assim você nega a existência desta entidade e percebe que não existe. Pois as crenças não alteram a realidade do mundo.

Claro que você pode crer que existe um conteúdo científico na sua Bíblia, isto no entanto não torna sua crença verdadeira. E posso sempre insistir que sua fé esta equivocada!

Clado que pode crer no mito judaico da criação, o que lhe dará um visão de mundo cientificamente inexata.

O que você precisa fazer é investigar as coisas detidamente e sem preconceitos.

Investigar primeiro e julgar depois.

Assim se estudar detidamente a teoria da evolução e depois chegar a conclusão de que esta errada, merecerá ao menos o título de homem honesto!

2 - Meu pastor disse que a evolução não é verdadeira.

Resposta: Será que seu pastor já leu algum livro sobre evolucionismo?

Se leu será que compreendeu?

Ou será que limita-se a ensinar o que ouviu de outros pastores?

Será que ele investigou o assunto?

Do contrário a opinião dele valeria tanto quanto a de um boato.

Fulano disse, que disse, que disse e ninguém investiga nada... vai ver e o boato é falso. Oh coisa feia.

Para dizer que uma coisa é verdadeira ou falsa deve-se antes de tudo conhece-la.

Se quiser poderá acrescentar: eu li diversas partes do antigo testamento e cheguei a conclusão de que aquilo não poderia ter sido real. Pode citar o exemplo dos anjos tendo relacionamento com as filhas dos homens, o dilúvio, a morte de Golias por três personagens diferentes, a fábula da burra de Balaão, a narrativa de Jonas no ventre de um peixe, etc


CONTÍNUA

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Como abordar a questão religiosa em sala de aula - Subsídios aos professores laicistas

É de todo inutil ignorar a questão religiosa.

Alias é danoso ignora-la.

Por mais que os propagandistas do ateísmo esforcem-se - através de manchetes estrondosas e mirabolantes - por demonstrar que o mundo esta mais ateu, isto não passa de pura falácia. O ateísmo jamais conseguiu atrair mais do que oito porcento de adeptos mesmo em países como a Holanda ou regiões do a Escandinávia.

Mesmo quando as pesquisas por pura inabilidade associam ateus com agnósticos, a cifra raramente atinge mais de 20% (exceções França, Inglaterra e Uruguai). Como o número de agnósticos é sempre bem maior não se sai dos 8%. A média pelo mundo é de míseros 2,4% e em poucos países apresentados como ateus chega a 5%...

Na verdade quando os ateus alegam que um pais é majoritariamente ateu estão incluindo por conta e risco: os agnósticos (cuja cifra indubitavelmente cresce e cresce) e até mesmo os indiferentes a religiosidade institucional (cuja cifra cresce ainda mais) mesmo sabendo que são quase todos deístas, panenteístas, panteístas, etc e que afirmam a existência de uma energia, alma ou espírito universal, o que os ateus, obviamente negam.

O que estamos assistindo hoje não é de maneira alguma a 'arrancada do ateísmo' e sim a afirmação de uma espiritualidade pessoal ou marginal, i é, fora dos moldes tradicionais e alheia as instituições formais. Religiosidade desvinculada de qualquer instituição religiosa definida.

É O QUE CHAMAM INDEVIDAMENTE DE ATEÍSMO. Trata-se no entanto de uma ruptura com a religião (i é de indiferentismo ou deísmo) e não de uma negação absolutamente segura a respeito da inexistência de um deus.

Por via alguma a irreligiosidade  (indiferença religiosa) e da dúvida sobre a existência de Deus (suspensão de juízo ou agnosticisno cf Th Husley 'Ciência e Religião' 1893) , devem ser confundidas com a metafisica ateística, pois comportam visões de mundo específicas e pontos de vista contraditórios.

Juntar tudo no mesmo saco e rotular como ateísmo só pode satisfazer mesmo aos pastores fanáticos e ateus fanáticos i é os extremistas. Mas continua sendo uma abordagem cientificamente desonesta e superficial.

Quanto aos agnósticos e deístas, seu número parece ser considerável em alguns países como Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, França, Holanda, Suécia, Suíça, Noruega, Finlândia, Dinamarca, Uruguai, etc

No entanto apesar disto, apenas nuns poucos países civilizados chegam a constituir maioria absoluta (50 + 1%). Em todas as demais sociedades humanas - mesmo civilizadas e inseridas no contesto europeu - o número de crentes ou religiosos ainda é majoritário. Importa que a religião dominou tais sociedade até bem pouco tempo e que a cultura por ela plasmada permanece em parte vida e influente.

Vai-se a fé, mas as relações entre os signos, o imaginário coletivo, os elementos da cultura, as ações, intencionalidades e comportamentos permanecem sendo ditados pelo costume, a tradição ou o hábito. E pouquíssimos espaços, como EUA, Inglaterra, Alemanha e França, ocorreu a produção de uma outra cultura ditada pelo materialismo ou pela irreligiosidade. Mesmo sem que os elementos da cultura antiga fossem totalmente eliminados (embora alguns tenha passado por um processo de resignificação).

O que Édouard Laboulaye registrou há quase século e meio nas páginas da 'Liberdade religiosa' (charpentier - Paris, 1875 p 77) permanece mais ou menos válido até hoje:

"... Assim continuamos a guiar-nos por esta fé recebida na infância mesmo após te-la perdido. Nossa lingua, nossas ciências, nossas artes, nossos costumes... estão impregnados de Cristianismo. Nós nos dizemos assim incrédulos mas ainda que remotamente inspiramos nossas ações no Evangelho..."
Substitua-se Cristianismo ou Evangelho por religião ou espiritualidade e não fará muita diferença.

No sentido de que as diversas crenças continuam plasmando personalidades e influenciando a dinâmica social tal e qual na idade primitiva quando habitávamos em cavernas ou palafitas. Isto porque a fé tem o condão de introjetar e extrojetar ideias produzindo tipos de comportamentos e praxis sociais específicas.

Nem podemos compreender bem qualquer sociedade, como enfatizaram Fustel de Coulanges, Max Weber, e outros, sem examinar e compreender as crenças dominantes.

No entanto é forçoso compreender o que desejamos transformar e aprimorar. Daí a necessidade de estudar seriamente os credos religiosos, seus dogmas e sua História. É dever a que não devem se furtar aqueles que não creem. Não preciso crer em algo para reconhecer sua influência sobre os demais. Aos crentes e devotos, a fé ao sociólogo como Marcel Mauss o estudo das formas religiosas.

Especialmente a criança - por ser acrítica - e o jovem - por ser idealista e ingênuo - tendem a ser religiosos, embora posteriormente; quando amadureçam possam perder a fé. Cogitou-se já inclusive que a adolescência seja uma fase religiosa, em que a fé torna-se um ponto de apoio importante para a personalidade em conflito ou crise. Mesmo descrendo o educador precisa ter sensibilidade suficiente para perceber que a dimensão da fé pode ter significado vital para nossos alunos, enquanto suporte de sua vida mental.

Neste caso não se trata já da questão da verdade, i é do verdadeiro e do falso, e sim da conveniência. É prudente privar aquela criança ou jovem de sua fé neste momento? Que consequências poderiam decorrer disto? Como ficaria a mente daquela pessoa??? Tenhamos sempre Camus e o jovem Wether diante de nós! Sempre poderemos sugerir sutilmente e influenciar delicadamente... no entanto é necessário que cada qual faça seu caminho por si mesmo, tire suas constatações e amadureça.

Neste sentido a imposição do ateísmo, ou mesmo da simples indiferença religiosa por um professor autoritário pode ser tão devastadora para um jovem quanto a adesão a um credo fundamentalista. Nestes casos, em se tratando duma religião qualquer, i é não fundamentalista como o islã e/ou o pentecostalismo é sempre melhor: 'Deixar estar, deixar passar'...

Agora em se tratando de uma fé fundamentalista... que traga em seu bojo germes de intolerância, arrogância, violência, etc é melhor intervir sabiamente, sempre que as oportunidades surjam e problematizar. Toda e qualquer tentativa de proselitismo executada por alunos em classe ou no recinto escolar deve ser imediatamente problematizada pelo educador.

Há dois tipos de alunos que apreciam fazer perguntas sobre religião ou fé: os duvidosos ou indiferentes e os demasiadamente religiosos ou fanáticos.

Ao receber de chofre uma pergunta como esta: Qual sua religião professor?

Existem diversas possibilidades de intervenção, as quais devem ser tomadas levando em consideração as necessidades da turma.

Caso se sinta pressionado ou coagido o educador sempre poderá declarar:

"Como a fé é assunto de natureza pessoal, preferiria não responder a esta pergunta. Alias o espaço escolar existe para tratarmos apenas do que nos une ou do que é comum."

E concluir:

"Há tantas coisas interessantes nos seres humanos. Julgar as pessoas em termos de fé religiosa é quase sempre posicionar-se contra elas. É uma questão que só diz respeito a própria pessoa, então vamos respeitar e deixar de se preocupar com isto."

Neste momento podem aparecer outras duas perguntas (quase sempre aparecem!):

O senhor é ateu?

Neste caso o educador por aproveitar a oportunidade para problematizar e fixar o sentido de ateísmo e indiferença religiosa a que aludimos acima.

Mas o que é ateu?

......................

E daí mostrar a diferença (numa turma de E médio) entre quem dúvida ou suspende o juízo - agnóstico - o que afirma a existência de Deus mas não tem religião ou fé - deísta - o que segue determinado credo religioso - teísta ou crente - e o que afirma a inexistência de Deus (ateu). E arrematar a discussão dizendo que cada qual tem direito de fazer e de expressar a sua opção, merecendo todo respeito pelo simples fato de ser livre.

Caso algum aluno insista em perguntar se é ateu, o educador poderá responder:

Sim sou, e acrescentar; no entanto encaro com profundo respeito os que pensam de modo diverso ou é fruto de minhas reflexões e tenho direito de expressa-las.

ou

Não, no entanto, nem por isso posso deixar de respeitar o posicionamento dos ateus, agnósticos, deístas, etc

Um caminho possível é assumir discretamente sua posição e afirmar o respeito pelo posicionamento do outro, na perspectiva da liberdade.

A segunda pergunta, muito mais especiosa e comum é:

O senhor acredita na Bíblia?

Aqui o professor pode mais uma vez recorrer ao esquema da problematização, respondendo com uma outra pergunta:

Mas o que é a Bíblia?

Mostrando a partir daí que o conceito de Bíblia unitária é construção histórica e cultural e salientando a diferença cabal entre antigo e Novo Testamentos ou no plano do Novo Testamento entre as cartas de Paulo e os Evangelhos.

Caso tenha amplo conhecimento sobre a matéria (infelizmente lacunoso entre os não crentes) explorar a diversidade de tempo, locais, linguas e culturas em que foram produzidos os diversos textos bíblicos, insinuar contradições, etc

É algo que leva tempo, exige habilidade, mas é sempre compensador.

Importante é procurar, com bastante cuidado, remover da mente do aluno a ideia de inerrância absoluta ou infalibilidade plenária característica do modelo fundamentalista e anti científico, sempre por meio de uma crítica cerrada e questionamento contínuo.

Isto é claro sem tirar a liberdade do educando e permitindo que contra argumente a vontade.

Sem demonstrar impaciência, hostilidade, irritação, etc

Conservando ares de sã jovialidade.

Poderá se quiser responder como respondo: Tenho imenso amor e respeito pelas palavras de Jesus contidas no Evangelho, que é uma parte do Novo Testamento e até penso que constituam uma excelente orientação para a vida, agora com relação aos escritos de Paulo ou o antigo testamento (ou seja as demais partes do que voce chama de Bíblia) não posso encarar como palavra de Deus ou como fontes inquestionáveis.

Se o aluno perguntar porque não acredita em Paulo ou no antigo testamento poderá apontar para os preconceitos afirmados por aquela apóstolo: machismo, escravismo, estatolatria, homofobia, etc apresentar os mitos, lendas e fábulas do antigo testamento como correspondendo a cópias de material anterior de origem pagã (Sumeriana, Assíria, Babilônica, Egipcia, Fenícia, Persa, Grega, etc) ou explorar as inumeras contradições internas deste registro, além de seus erros em matéria científica é claro.

O importante aqui é:

1 - Jamais tomar a iniciativa de abordar qualquer tema religioso ou abster-se.

A atitude dos professores fanáticos e proselitistas que consiste em tomar a iniciativa de abordar qualquer tenha religioso, de impedir dos dissidentes de se manifestarem e de impor autoritariamente seus pontos de vista, caracteriza exercício de proselitismo O QUAL SENDO LEVADO A CABO EM ESCOLA PÚBLICA OU SALA DE AULA CONSTITUI CRIME.

Professores que atuam como pastores ou mullás ousando pregar em sala de aula devem ser denunciados as autoridades policiais e administrativas como criminosos!

É atitude que não deve nem pode ser tolerada sob quaisquer pretextos!

2 - Esperar que o assunto surja espontaneamente e, neste caso apreciar se deve ou não explora-lo naquele momento.

3 - Intervir positivamente diante de qualquer tipo de atitude proselitista apresentada no contesto escolar pelos alunos e problematizar.

4 - Sempre que possível responder com perguntas visando problematizar o assunto ou desconstruir os argumentos que considerar inadequados.

5 - Manter sempre um clima de liberdade permitindo que o aluno contra argumente e que todos participem expondo seus pontos de vista e ideias.

6 - Exigir atitude de respeito e tolerância.

7 - Manter o bom humor e a jovialidade. Jamais perder a paciência, mostrar irritação ou agredir os educandos.

8 - Procurar desde logo apresentar aos alunos o conceito de 'demarcação' e buscar familiariza-los com ele.

Estamos aqui diante de um conceito chave, de um padrão ou de um critério que deve nortear a atuação do professor crítico reflexivo, face a abordagem religiosa.

Grosso modo não deve o professor cogitar no que creem seus alunos em termos de transcendência.

Quanto mais a fé ou religiosidade dos alunos concentrar-se no além, no céu, no paraíso, no imaterial ou no invisível, menos problemática será para nós.

Posso não crer em Ganesha, Jupiter, Iemanjá, Jesus, etc no entanto se tais entidades não atuam magica ou miraculosamente no mundo material, posso dizer a meu aluno:

Não, não creio em Ganesha mas se você cre nele não me importa nem um pouco, desde que saiba que ele não faz chover, não cura cancerosos e não produziu o mundo em sete dias literais... Sendo assim estamos em paz.

Perceba aqui que o deus ou os deuses e entidades não são o problema da educação científica. Trata-se cientificamente de assunto neutro ou escuso; bom para a Filosofia, mas ocioso em termos de ciência.

O problema aqui da-se em termos de COMO qualquer dessas entidade (e não importa nome ou número) relaciona-se com o mundo em termos de fetichismo ou naturalismo. Se o aluno ou a pessoa crer que seu deus ira salva-lo no além ou ressuscita-lo podemos dar de ombros... agora se o aluno cre que seu deus faz chover mijando ou lançando baldes dágua ou ainda que ele mexe nas placas tectônicas provocando terremotos, então temos um sério problema.

Se este deus o entidade atua por meio de leis naturais de causa e efeito (caso dos espíritas e de parte dos Católicos)... se podemos situa-lo antes da grande explosão ou como causador (produtor) dela; enfim se ele atua DE ACORDO COM O RITMO DA CIÊNCIA, não temos o que discutir. O problema é sempre a ideia de um deus interventor, miraculoso ou taumatúrgico, que a todo instante 'aperfeiçoa' de improviso o universo, provocando diretamente o surgimento da vida, um dilúvio, sucessivos terremotos, fomes, guerras, etc, etc, etc

Até que essas intervenções multiplicam-se ao infinito, ocorrendo diversas vezes ao dia.

Aqui temos um problemão e devemos explora-lo ao máximo no sentido negativo, afirmando em alto e bom som o primado ou primazia das explicações científicas em termos de imanência e o direito exclusivo de serem ministradas em sala de aula.

Caso o aluno questione sobre o porque deste monopólio científico não devemos exitar em responder-lhe que os religiosos estão divididos em termos de modelo criacionista, mesmo porque cada grupo tem seu livro sagrado com narrativas e concepções diferentes. Eis porque nenhum destes livros pode servir para ministrar explicações gerais a todos os alunos... pois um cre no Antigo Testamento, outro nos Vedas, outro no Corão e assim por diante...

Na escola de todos temos de apelar a elementos comuns como a experiência e a razão, as quais encontram-se na base de nosso modelo científico.

Resumindo cumpre inculcar por diversos modos e maneiras, na mente dos nossos alunos, que a imanência é terreno que pertence a explicação científica e não a fé ou a religião, cujo campo restringe-se ao espiritual, imaterial ou invisível. Bom explicitar que não tem prevenção alguma contra a religião desde que ela se mantenha em seu terreno ou campo: o celestial ou divino, abstendo-se de invadir o terreno da ciência que é o mundo natural.

É necessário aproveitar todas as oportunidades para justificar este esquema até a exaustão. Aqui repetir é o melhor veículo!

Papai do céu ou deus cuida de deus anjos ou dos falecidos lá no além... A terra em que vivemos no entanto Deus quis regula-la por meio das leis naturais adrede fixadas desde o princípio.

Se o aluno indagar:

O sr crê na grande explosão ou na evolução das espécies, responda resolutamente:

Os religiosos creem no que não veem. Eu abraço as teorias da grande explosão e da evolução porque fazem sentido, porque me ajudam a compreender o mundo, porque estão fundamentadas no raciocínio e da experiência e sobretudo porque apoiam-se sobre um imenso número de fatos.

Não creio, constato aquilo que percebo ou melhor percebo com os pesquisadores.

Aqui não se trata de fé mas de bom senso.

9 - Jamais perder a consciência a respeito de sua liberdade de cátedra.

10 - Tenha esperança! Parte de seus alunos assimilarão os ensinamentos por si ministrados e com certeza ao menos alguns haverão de sair da caverna do fetichismo!

Procuramos aqui assumir uma posição intermediária entre ateísmo e fundamentalismo, exercendo critica face a fé apenas quando suas pretensões conflitam com as da ciência em seu terreno, o da imanência. E deixando as questões puramente metafísicas ou espirituais que não conflitam com o modelo científico ao alvedrio dos educandos.

Pois pensamos que a demanda da sociedade presente deva concentrar suas críticas face aos fundamentalismos ou a ideia de que livros integralmente infalíveis possuam uma autoridade ilimitada ou universal.

Esperamos que estas reflexões possam servir como embasamento para uma praxis mais segura e livre, e é claro eficiente.

Neste momento crucial não é o ateísmo, o agnosticismo ou o deísmo que precisam de bons advogados mas o modelo científico naturalista, a liberdade, a tolerância, o pluralismo, etc

No próximo artigo publicaremos uma série de estratégias pedagógicas evolucionistas para professores de ciência ou bilogia.

Mestres hajam com consciência, dignidade e desenvoltura; sem medos ou receios!




domingo, 8 de fevereiro de 2015

Uma aula de filosofia no Shopping Center






O protagonista de nossa história será um professor de história e de filosofia, mas antes de começar a narração quero descrevê-lo para o(a) leitor(a) que não o conhece.

Nosso protagonista tem 1,70 m. de altura, é ligeiramente obeso, tem ascendência europeia direta, o pai era português, muito parecido com um mouro, e, o filho saiu a cara do pai cuspido e escarrado, não, não usemos esta expressão pois ela está errada, esta expressão sofreu uma deturpação por pessoas que tinham pouca cultura, a verdadeira expressão é: saiu a cara do pai esculpido em carrara (mármore carrara), os ouvintes desta expressão ou porque não ouviam bem ou porque tiveram educação deficitária transformaram o dito numa outra coisa que não faz o menor sentido. Perdoem-me a digressão e voltemos ao nosso protagonista, como eu havia dito, ele é ligeiramente obeso, tem 1,70 m. de altura a pele bronzeada, cabelos negros e compridos, um cavanhaque igualmente negro e um bigode semelhante ao de Nietzsche que ele tanto odeia, odeia Nietzsche e não o próprio bigode. Seu nariz é pequeno e fino num rosto enorme, rosto oval, com olhos grandes, negros e faiscantes, seu lábio inferior é carnudo, o que faria a alegria de muitas mulheres, daquelas que adoram lábios carnudos. O personagem em questão é uma figura exótica, sim exótica. Ele veste bermudas floridas, bem ao estilos dos surfistas, calça sapatos mocassins e veste camisas sociais e anda com uma pequena bolsa à tiracolo onde carrega sempre um ou dois livros, bolsa jeans, velha e desbotada, que recorda aquelas bolsas que as crianças da antiga pré-escola carregavam. Nessa bolsa ele amarra um lenço que pode ter mil e uma utilidades. Ele sempre anda com um boné inglês ou outro chapéu estranho. É uma figura que se destaca entre aqueles que vestem-se de forma uniforme e seguem as tendências da época, poderia dizer que ele é um ser atemporal, mas não posso porque assim como nós, ele é mortal.

A história que narrarei a seguir poderia ser um conto, mas não é, não é um conto, não é uma ficção, é um fato ou melhor foi um fato presenciado por umas 50 ou 60 pessoas, salvo engano.

Era uma noite quente mas não tão quente que fosse sufocante, estava um calor agradável para sair, para passear. Céu limpo, sem nuvens, portanto sem ameaça de chuvas torrenciais tão comum ao período.

Então, o nosso protagonista, que é meu irmão de consideração convidou-me para comermos algo bom na praia, as palavras que despertaram meu interesse foram: "eu pago". Incontinenti, larguei tudo o que fazia e fui, pois já estava de banho tomado e com roupas trocadas e fomos.

Pedi que antes de chegarmos à praia passássemos no Shopping Brisamar para ver o que estava passando no cinema. Ao chegar naquele lugar havia ali alguns bate-estacas, seguranças em seus ternos pretos e a maioria deles, parda e negra, barrando a entrada adolescentes de periferia, não por causa do rolezinho, mas porque não tem dinheiro para consumir e Shopping não é lugar para passeio mas para consumir e pobre ou consome muito pouco ou não consome nada.

Vi um jovem de 14 ou 15 anos mirrado, com camisa pólo desgastada, calça jeans e que calçava um tênis de marca não sei se era ou não original e ele foi barrado por um segurança, o Domingos Pardal Braz, este é o nome do nosso protagonista, logo se revoltou e tomou as dores do rapaz e disse:

- Por que ele não vai entrar? Por que você está proibindo a entrada dele?

- Senhor - disse o segurança - não se intromete, ele sabe o que fez.

- Vocês não deixam ele e outros como ele entrarem porque são pobres, porque são garotos da periferia.

- O senhor é o que dele? O senhor é alguma coisa dele?

- Eu sou professor, ele é meu aluno e ninguém vai impedi-lo de entrar, ele vai entrar comigo.

- Se ele aprontar qualquer coisa lá dentro o senhor será responsabilizado.

- Eu assumo a responsabilidade.

Ele abraçou o aluno, e triunfantemente entraram no shopping, o garoto não se continha de felicidade, ele não acreditava que o seu professor o defenderia dos brutamontes e nem que conseguiria adentrar no shopping. Já dentro do shopping o professor o alertou que não fizesse nada de errado. O shopping estava apinhado de jovens da periferia. Ele despediu-se do aluno e seguimos para o quarto piso e filmes bons, nada. Como não tinha nada interessante deixamos aquele lugar. Ao sair do shopping vimos muitos adolescentes pobres, alguns brancos mas a maioria parda e negra discutindo com os seguranças. Então o homem sanguíneo (assim o considero de acordo com a teoria dos 4 humores de Hipócrates), tomou a defesa desses meninos, e começou a bater boca com os seguranças sem ter medo deles e sem ter vergonha do povinho de classe média falida. E ele deu uma aula de filosofia e de sociologia que nunca dera na sala de aula, e essa foi sua melhor aula. Falou contra a discriminação e contra o preconceito racial e questionou porque jovens brancos com roupas novas e de marca original podiam entrar e os jovens de periferia não. Questionou a falta da justiça e da igualdade e sendo ofendido pelos seguranças ameaçou voltar e meter-lhes um processo. Ele causou um alvoroço, os jovens gostaram e comemoraram e dali fomos embora entre vaias e elogios.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Eu exonerei do meu cargo de professor de geografia




Algumas pessoas ficaram surpresas com a minha declaração de exoneração do meu cargo de professor de geografia do estado de São Paulo. Eu exonerei por vários motivos: baixa remuneração, muita cobrança, pouco ou nenhum reconhecimento, alunos que não querem aprender, isto é, em sua maioria, alunos mal-educados e uma categoria totalmente desunida que é a categoria dos professores.

Passei no último concurso para professores do estado de São Paulo, fui  convocado fiz o curso da EFAP e uma segunda prova, assumi meu cargo como professor, trabalhando por 4 meses, numa carga de 24 aulas, fora as aulas que eu tinha que preparar em casa, preparar provas e correção das provas. Uma verdadeira escravidão, só quem está em sala de aula sabe. São salas superlotadas, os professores tem que fazer chamada quase berrando porque os alunos conversam ao mesmo tempo em que os professores, tem que chamar a atenção dos alunos, enfim se aborrece muito e se aborrece de tal forma que chega em sua residência esgotado.

Como o senhor desgovernador do estado de São Paulo não deu aumento e nem melhorou as condições de trabalho, e, como eu não quero destruir minha saúde física, nem minha sanidade mental, achei por bem me exonerar, até porque na escola não estou fazendo um papel de professor mas de palhaço, de babá, de carcereiro, de psicólogo dentre outras funções que não fazem parte dos deveres da docência.

Não sou professor para aturar má educação de alunos ou para aturar comportamentos inadequados, não. Sou professor para ensinar o que aprendi, sim, transmitir conhecimentos, e, desculpem-me os pedabobos que não gostam desse discurso, mas é muito fácil falar quando se é um teórico, quando se faz palestras, se escreve livros sem nunca ter pisado numa sala de aula. Deixo claro que aqui não estou falando dos grandes teóricos como Piaget, Vigotsky, Wallon, Freinet entre outros, estou falando dessa gente que ganha dinheiro às custas da educação, ensinando os professores serem professores sem que estes escritores tenham sido professores ou se o foram não mais o são.

Minha saída do estado tem vários motivos e o principal deles é dizer um NÃO contra os desmandos do Geraldo Alckimin e de seu partido demagogo, fascista e mentiroso, sim mentiroso pois nas propagandas diz que o PSDB investe na educação, é isso.


sexta-feira, 2 de março de 2012

A educação em Praia Grande



Após quase um mês trabalhando como professor na escola municipal Professora Maria Clotilde Lopes Comitre Rigo, avisei hoje a diretora que eu estava deixando as aulas, depois me despedi dos ex-colegas de trabalho e me dirigi à SEDUC de Praia Grande e fiz minha recisão de contrato como vocês podem ver logo acima.

Mas ninguém exonera nem pede recisão de contrato sem um motivo (princípio da razão suficiente: todo efeito tem uma causa). O meu motivo foi, ou melhor meus motivos foram a impunidade, a negligência e a má educação da clientela praiagrandense. Um aluno, se é que pode ser chamado de aluno, de um nono ano já vinha atrapalhando minha abordagem pedagógica desde os primeiros dias de aula. Como existem regras de convivência da unidade escolar que é a mesma em toda a rede de ensino municipal, é proibido usar boné em sala de aula, proibido usar celular ou quaisquer aparelhos eletrônicos e os professores são obrigados a fiscalizar isso. Desde o primeiro dia eu proibia o uso de quaisquer aparelhos eletrônicos dentro da sala de aula assim como o uso de boné. Mas um desses "alunos" além de ser mal-educado é também um desajustado às boas normas de convivência na sociedade, uma espécie de "bad boy". Uma vez pedi que desligasse o celular, então essa criatura disse: "peraí, tô ligando".
- Me dá o celular.
- Não vou dar ( e escondia o aparelho).
Então comecei a ler as regras de convivência da escola e ele disse
- Já sei, não precisa ficar falando.
- Me entrega o aparelho que eu te devolvo no fim da aula.
- Não vou entregar.
- Se eu chamar a inspetora ela vai tomar o seu aparelho e levá-lo para a diretora.
O sujeitinho deu de ombros, pedi a um aluno que chamasse a inspetora, quando ela chegou narrei-lhe o ocorrido e ela pediu que o desrespeitador das normas de convívio lhe entregasse o aparelho, ele não entregou nem para a inspetora, uma senhorinha de idade, muito simpática. Então a inspetora me instruiu sobre o que deveria ser feito, disse que eu deveria fazer a ocorrência dos atos desrespeitosos e da insubordinação do sujeito, foi o que fiz, mas ele disse que não tinha medo daquelas folhas pois já tinha levado várias ocorrências e nunca aconteceu nada e disse que não tinha medo da diretora.
Outros dias que eu dei aulas as mesmas falas (as dele e as minhas) se repetiram como se fosse uma espécie de eterno retorno. Cada vez que eu aparecia na sala de aula que ele estava não para estudar é claro, mas para "causar", ele se tornava mais arrogante e mais petulante na mesma medida em que é ignorante, pois os professoras me disseram que ele não sabe nada nem de matemática nem de língua portuguesa.
Esta semana ainda eu estava em outra sala, sala em que a namoradinha dele estuda, não é que o tal invadiu a sala sem pedir licença, agiu como se estivesse dentro da casa dele. Eu nem quis advertí-lo porque já tinha percebido que se trata de potencial psicopata. E por falar em psicopatia, minhas ex-alunas praiagrandenses disseram-me no dia seguinte após esse incidente que ele havia batido em sua própria namorada dentro da escola, fora o que a diretora, e os professores me contaram a respeito desse exú.
Ontem quando eu tive aula com esse frango de macumba ele me mandou calar a boca na sala de aula, sua lógica foi a seguinte a aula dura uma hora, já era 16:02 e eu continuava a explicar um texto quando o espírito de porco começou a gritar: "cala a boca, vai embora, sai, sai, sai, vaza, sai sai". Eu falei pra ele que a aula termina quando o professor sai da sala de aula e não quando ele quer. O sujeito me aborreceu tanto que senti vontade de esmurrá-lo e tive que me afastar o mais distante que eu pude para não chegar as vias de fato com um sujeito que não vale a pena se sujar. Comuniquei a senhora diretora que apenas conversou com ele, mas não tomou nenhuma providência, então tomei eu as providências cabíveis, eu pedi minha recisão de contrato. Porque se vocês não sabem Praia Grande está com falta de professores de geografia, são mais de 60 aulas na rede para serem preenchidas (segundo a rádio peão, isto é, segundo os professores  que tem contatos com outros colegas) e não tem professores de geografia nem mesmo os ruins. E os bons que eles conseguem  não tratam bem, não dão o devido apoio...
Mas exoneração e recisão de contrato é uma coisa muito comum em Praia Grande e mais fácil recindir contrato e exonerar do que ser contratado e/ou efetivado.

Praia Grande é um município que paga bem aos professores todavia os professores tem que se sujeitar a todo tipo de humilhação e pressão. Eu recindi meu contrato como uma forma de protesto, porque não admito ser pisado por um ser boçal; recindi meu contrato porque eu sei o meu valor e o dinheiro não é o mais importante na minha vida; recendi meu contrato porque não tive o respaldo da direção para punir o infrator, e não punindo esse infrator, ele continuará a fazer as mesmas coisas e os professores estarão de mãos amarradas.  Infelizmente grande parte da rede age assim com os professores, razão pela qual muitos professores fogem de Praia Grande assim como o diabo foge da cruz, e eu também fugi.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Professor de matemática dá aula de criminalidade

Saiu hoje no jornal A Tribuna que um professor de matemática da Escola Estadual João Octávio dos Santos, no Morro do São Bento em Santos lecionou matemática usando como exemplo o tráfico de drogas, prostituição e porte ilegal de armas.

Fico me perguntando o que leva um professor que é funcionário público, pago pelo estado (tudo bem que o salário não é lá grandes coisas) com o dinheiro dos impostos do povo a incitar a criminalidade em filhos de trabalhadores. Por que fez isso? Por se tratar de uma área carente? Por ser uma escola estadual? Por não acreditar no potencial de seus alunos? Será que lecionaria do mesmo modo numa escola particular de elite?

Esse caso só vem mostrar como está baixa a qualidade do ensino público em São Paulo e por conseguinte em todo o Brasil. Mas isso é culpa tão somente desse mau caráter que foi colocado em sala de aula? Evidente que não. Com baixos salários, com violência por parte de certos alunos, com burocracia, sem plano de carreira, sem cursos de reciclagem e massacrados por seus superiores, os melhores professores tendem a sair da rede pública e migrar para as escolas particulares ou procuram fazer mestrado e doutorado para que possam lecionar em faculdades ou prestam concursos públicos para outras áreas que ganham mais e se estressam menos.

Se o governador desse aumento de salário digno para os professores, se proporcionasse cursos de capacitação reciclagem os bons professores não precisariam migrar para redes privadas ou para outros empregos do funcionalismo público. Os maiores prejudicados são os pais dos alunos que não podem pagar por um ensino de qualidade.

Pergunta que fica no ar: Esse é um caso isolado ou é apenas a ponta do iceberg? Jamais saberíamos desse caso se uma das alunas desse educador professor não mostrasse o caderno aos pais denunciando esse péssimo profissional.

Não menos culpados por essa situação são os pais que não sabem votar, pois caso soubessem votar não deixariam o estado de São Paulo na mesmice do PSDB que já está há dezesseis anos no poder sem dar a merecida valorização ao profissional da educação.

Com a valorização do educador, os maus profissionais não terão chances de exercer tão nobre profissão que é o ato de lecionar. Todas as desgraças que ocorrem no ensino público são apenas o efeito da política desastrosa do governo e da assembleia legislativa. Enquanto o povo não se conscientizar que educação é um ato político, o ensino continuará a ser o que é: lixo! Não quero dizer que não haja bons professores nas redes públicas de ensino, sim há, mas são poucos e cada vez menos por causa das condições humilhantes a que são submetidos.

Se os professores fossem valorizados teríamos um sujeito desses pervertendo nossos jovens?

Em tempo:
Assista a reportagem clicando aqui.