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segunda-feira, 23 de julho de 2018

Ravachol, Sante Casério... e a propaganda pelo fato.

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Qual o preço a ser pago por ser justo?

Não sei...

Vai de um 'deslike' no mundo contemporâneo ou a um xingamento a cicuta que o grande ateniense teve de tragar.

É que hoje já não nos podem fazer tragar cicuta ou ameaçar com a corda fazendo correr a Calcis ou ao país mais próximo.

De alguns dizem que foram queimados vivos, como Pitágoras ou Moídos vivos num pilão gigantesco como Zeno.

Quanto aquele que disse 'Ai de vós que juntais casa a casa e somais campo a campo' dizem ter sido serrado ao meio por ordem do ímpio Manassés.

Carneades teve a sorte de apenas ter sido expulso da cidade eterna por Catão. Epicteto teve a perna quebrada, antes de ser exilado por decreto imperial. Petrônio o 'árbitro da elegância' teve de suportar os 'grunhidos' de Nero e Sêneca de abrir as veias. Helvídio Prisco foi mandado matar por Vespasiano.

S João Crisóstomo teve de morrer no exílio, S Máximo teve a lingua e o braço cortados, S Atanásio, S Hilário e muitos outros amargaram o exílio em terra estrangeira.

Conecto foi lançado as chamas. Edeline e De Lure foram encarcerados. Vieira processado pela Inquisição.

St Just, Robespierre e o próprio Babeuf supliciados.

Uma multidão de Católicos sociais, os filhos mais esmerados da Igreja, insultados e descritos como comunistas pelos traidores. D Lefevre e o abbe Georger de Nantes perseguidos incansavelmente pelos pedreiros livres. Emmanuel Mounier e Jacques Maritain caluniados pela ralé.

Também Kropotkin e Tolstoi, Ghandi e Thoureau, Blum e Nearing, dentre muitos outros, tiveram de conhecer as privações do cárcere, assim Hérzen, assim Lavrov... Chaplin teve de abandonar o EUA, que dizem ser a terra da liberdade!!!

Vargas foi assassinado da mesma maneira como Gabriel Garcia Moreno.

E sucessivamente os justos tem sofrido nas mãos do paganismo, do judaísmo, do papismo, do protestantismo, do capitalismo, do absolutismo régio, do comunismo, do nazismo, do fascismo e de todas estas culturas de morte abomináveis. Socráticos, Católicos, Policratas, Anarco socialistas e outros tantos amigos do homem tem sido sucessivamente oprimidos e suprimidos por terem ousado alça a voz em defesa da verdade.

Aqueles que se postam intransigentemente, ao lado da justiça e sem consideração de ideologias tornam-se odiosos!

Aqueles que afrontam os preconceitos sancionados pelo senso comum tornam-se detestáveis.

Aqueles que levantam-se contra a mediocridade dominante atraem numerosos desafetos.

Diante disto que fazer?

Calar-se e compactuar face quanto esteja errado ou afrontar?

Seguidores daquele que morreu suspenso no alto do calvário temos por imperiosa e imperativa a segunda opção!

No entanto por uma questão de prudência e para não dar ocasião de escândalo aos mais débeis queremos deixar bem claro qual seja nosso pensamento sobre a 'propaganda pelo ato' ou pela 'propaganda pelo fato' levada a cabo pelos bakuninistas radicais no último quarto do século XIX.

Sabemos muito bem quem foi o patife Nechyaev e quais foram suas relações com Bakunin, intelectualmente falando o menos afortunado ou mesmo pigmeu dos anarquistas. Face a Proudhon e Kropotkin Bakunin é para lá de medíocre...

Para nós a 'propaganda pelo fato' corresponde a algo de monstruoso, abominável, grosseiro e inadmissível sob qualquer pretexto ou alegação. Coisa de gente bárbara, cruel, vil e desumana; quando sã.

Afinal nós não pertencemos ao grupo daqueles que colocam a verdade ou a ideologia, seja ela qual for, acima da vida humana. Nós situamos a vida humana acima da verdade. E por isso não acreditamos que matar seja uma forma ou uma maneira de lutar pela verdade. Admitimos que a violência e a morte sejam justificadas face a opressão, a dominação, a miséria, a injustiça... Acreditamos que os homens possam reagir face a situações sociais de injustiça. Acreditamos na violência defensiva ou na guerra justa, mas de modo algum que se deva matar pela verdade ou em nome da verdade. A verdade é algo que se decide por meio da persuasão ou seja através de evidência e argumentação e não através de bombas, fuzis ou baionetas.

A menos que alguém, capaz de defender-se, opte por morrer por seus ideais ou que se auto sacrifique, é a verdade manchada. Honorifica-a o verdadeiro martírio, dos fortes. Polui-a o assassinato, o derramamento de sangue, a carniçaria, a matança... Matar será sempre matar, jamais defender a verdade. Assassinar será sempre assassinar, jamais promover o conhecimento. Educar jamais será sinônimo de ensanguentar.

Por isso condenamos a propaganda pelo fato da mesma forma que condenamos o terrorismo promovido pelos adeptos do califado; e antes de condena-los despresa-mo-los como o substrato mais baixo da ralé. Como bárbaros, rudes, grosseiros e inimigos da civilização. Não compactuamos com nada disto, e quem ousar declarar-nos partidários de tais recursos seja tido em conta de vil caluniador e mentiroso.

No entanto uma coisa é condenarmos o método empregado por Ravachol e seus companheiros, assim Vaillant e Sante Casério e outra condenarmos a eles como se não passassem de vis criminosos, sádicos, cruéis, etc sem quaisquer conexão com a sociedade em que viviam. De fato adotaram meios inadequados, no entanto nem por isso deixam de ser produtos do tempo ou da sociedade em que viveram ou melhor homens que sentiram todo peso dessa sociedade e não foram capazes de suporta-lo.

Não adianta dizer que havia algo de errado com Emilé Henry ou com Meunier. É da-los como seres a parte da Sociedade, da Sociedade que eles arrenegavam. Então o que temos de analisar, caso queiramos ser justos é se, em que pesem os meios de ação inaceitáveis a que recorreram, tinham lá alguma razão no sentido de repudiar aquele tipo ou padrão de sociedade. Não se trata de absolver a eles, mas de condena-los e absolver aquela sociedade; isto é que nos parece problemático. Alias a ideia que se passa é que eram homens maus ou cruéis em luta contra uma sociedade paradisíaca ou no mínimo aceitável aos olhos da criatura racional.

E já começamos dizendo que aqueles homens, condenados por terem agido equivocadamente, eram filhos de uma Sociedade condenável, cujos métodos ou recursos condenáveis reproduziam. Apenas não eram hipócritas e dissimulados como aqueles que matavam em nome do poder, do dinheiro ou do que chamam de ordem e eram condecorados quando não homenageados com uma herma em alguma praça...

Ravachol e Vaillant, franceses, viveram nas décadas de 60, 70 e 80 do décimo nono século e eram ambos de famílias paupérrimas ou miseráveis. Na França, do século XIX, nem havia algo semelhante a 'poor law' inglesa, nem havia mais um S Vicente de Paulo. De fato a Revolução francesa foi mais imprevidente do que a Coroa Inglesa ao cabo do décimo sexto século. Pois se esta abandonou os pobre por meio século, a contar da extinção dos mosteiros em 1838 a aprovação da primeira 'poor law' em 1898, aquela deixou-os completamente abandonados até a criação das primeiras leis trabalhistas, criadas de 1892 a 1900 e consolidadas em 1938. Portanto o estado francês, marcadamente liberal,, após ter usurpado parte dos bens eclesiásticos - a exemplo da reforma protestante - e secularizado as abadias e mosteiros, abandonou os pobres por mais de século e eles ficaram completamente, totalmente desamparados... A igreja, a seu tempo, envenenada pelo incredulidade e assolada pelo terror, tornou-se absolutamente dócil, na França do décimo nono século. Apenas os Católicos sociais, como Ozanam, lutavam arduamente no sentido de mudar tal situação. Eram no entanto poucos... E as condições políticas inadequadas.

Desde a Revolução, em que pese o Catolicismo social, podemos falar de um significativo vácuo, quanto ao socorro aos pobres, a promoção humana e a proteção do trabalho. Não menos que na vizinha Inglaterra, vigorava um liberalismo sufocante. Mas os ingleses, ao menos durante algum tempo, contaram com a ação social metodista, responsável inclusive, segundo alguns teóricos, por ter espantado o espectro da Revolução... A França, cética e em parte secularizada não contava com algo semelhante. Sua situação era dramática, digo a situação dos pobres, dos trabalhadores, dos camponeses e das classes superiores, os quais levavam uma existência miserável.

Tanto Ravachol quanto Vaillant referem-se amiúde não apenas as situações de fome porque passaram, mas o que é ainda mais dramático, as situações de fome porque passaram seus pais ou irmãos mais jovens sem que tivessem uma mísera códea de pão duro com que forrar o estomago. Mas há quem ache tudo isto comum, aceitável ou até mesmo belo; enquanto a mesma época um único banquete oficial com que as autoridades constituídas recebiam uma autoridade estrangeira consumia uma soma capaz de manter dezenas de milhares de famílias pobres por anos a fio... Tais banquetes, aquele tempo constituíam a prioridade orçamentaria, juntamente com as armas e munições destinadas a reprimir e massacrar os possíveis insurretos, que não se conformassem com tão indigna situação. Eram umas reuniões idílicas e aprazíveis em que algumas centenas de fidalgos degustavam canapês de caviar, trufas, salmão, foie gras, faisão, vinho do porto, etc enquanto milhões passavam dias inteiros com as barrigas vazias, inclusive crianças! Um estado policial, cujo único fim era manter a força semelhante condição, a que chamavam ordem...

Ordem na França do século XIX significava que, segundo o nascimento, uns tinham de conformar-se com pão amanhecido - quando havia - enquanto outros podiam consumir toda sorte de iguarias finas e delicadas, cujo valor bastaria para matar a fome daqueles... E quando morriam eram os nababos sepultados com suas joias de ouro e pedrarias. Carcaças putrefatas eram enterradas com joias cujo valor seria capaz de matar a fome de um vilarejo inteiro por anos a fio. Um só daqueles anéis bastariam para levar pão as bicas de centenas de crianças famintas. Mas... preferiam encerra-lo com uma cadáver num caixão apenas para mostrar 'status'... Então avalie o que era semelhante sociedade! Banquete para uns e agonia para outros, segundo o nascimento, não segundo a inteligência ou o mérito, os quais pouco contavam, exceto quando ornavam uns bajuladores sem caráter.

Segundo Max Nordau - nas 'Mentiras convencionais' - (De man alude a isto) a grande diferença entre os banquetes oferecidos pela França republicana e os não menos faustosos banquetes oferecidos por um Calígula, um Nero ou um Domiciano - capazes de consumir as rendas anuais de uma única Província imperial! - era que estes não apareciam nas primeiras páginas de revistas ou jornais. De fato aquele tempo as comunicações eram bastante precárias, de modo que tais excessos apenas por ouvir dizer chegavam aos ouvidos das massas, jamais aos olhos e com viva cor. A partir de um determinado momento a imprensa pos-se a ostentar ou a por debaixo dos olhos desta plebe ignara o faustoso banquete degustado por nossas elites, tornando-os assaz conhecidos do grande público. E semelhante ostentação da fortuna ao lado da miśeria ou da fome tinha mesmo de despertar a indignação e a repulsa de muitos.

Não era apenas questão de gula ou fome, de excesso ou privação, de riqueza ou miséria, mas acima de tudo de ostentação. A sem cerimônia com que esses ricos esbanjavam o que facilmente ganhavam foi logo interpretada como um tapa na cara. Nós não apenas exploramos o pobre e o fazemos passar fome, não é suficiente - Humilha-mo-lo e tiramos sarro dele. Foi esse tipo de humor negro, já presente na fábula dos 'brioches' de M Antonieta, que exasperou os mais inteligentes e sensíveis dentre os pobres tornando sua miséria ainda mais dolorosa ou internalizando-a.

Além do mais, as pesquisas nos fazem saber que a fome enlouquece. Eu mesmo testemunhei como um de nossos assistidos - pessoa demasiado tímida para revindicar qualquer coisa - quase surtou durante o período em que ficamos doentes e não pudemos socorre-lo. Veja o senhor o que é a fome! Imagine então ter de dormir sabendo que sua mãe passa fome por ter dividido a única fatia de pão com os pequenos, que os pequemos talvez não tenham leite no dia seguinte ou que a sua irmã menos tenha de vender o que chamavam 'pureza' em troca de alguns pobres para ajudar nas despesas da casa... Tais as situações porque passaram Vaillant, Ravachol, bem como o italiano Casério.

Dickens nada inventou do quanto escreveu. Descreveu com fidelidade a crônica de seu tempo, a 'idade de ouro' do liberalismo econômico...

Mas perguntará nossa 'cinderela' ou nossa 'branca de neve': Por que tais homens não trabalhavam ou deixavam-se imolar, como outros tantos, pelo deus mercado??? Havia aquele tempo, mais do que hoje, um colossal exército de reserva composto por desempregados. De modo que conseguir emprego não era tão simples ou fácil quanto se pensa. Tanto pior nas Vilas espalhadas pelos campos em que o trabalho era sazonal. Havia com que viver durante o tempo da semeadura e da colheita, no entanto, durante o resto do ano... Sim, sempre se podia executar alguma coisa ou algum servicinho mas a remuneração era irrisória, ínfima... e o preço dos gêneros, elevadíssimo.

Parece inacreditável ao homem de hoje mas cenas como as que atualmente só se sucedem nos confins da Etiópia ou que ocorreram na Ucrânia do Holodomor, repetiam-se anualmente nos cantões da França caso a colheita sofresse alguma alteração imprevista e o valor dos alimentos subisse. Dezenas de pessoas morriam de inanição... Sem que o Estado fizesse qualquer coisa. O governo policial nada fazia além de recorrer as baionetas e reprimir os insurretos. Por que vocês acham que o anarquismo mais virulento fez sua primeira aparição na França, identificando o estado como o mal absoluto ou metafísico??? Por que durante quase um século, o estado francês inspirado por uma ideologia econômica liberal, omitiu-se por completo face ao problema da inanição, disto resultando a morte de muitos... Para não mencionarmos a fome, a miséria, o trabalho; que eram outros tantos problemas.

De fato viver naquela França 'doce' apenas para uns poucos privilegiados era literalmente enlouquecedor. De modo que Ravachol, Vaillant e outros tantos acabaram surtando e colocando em prática a solução inconsequente formulada por Nechyaev. Exasperados puzeram-se a estourar bombas aqui e ali julgando que exerciam vingança contra aquele estado imoral, insensível e cruel. E se bem que, via de regra, explodissem apenas espaços frequentados pela alta burguesia debochada, sabiam que corriam os risco de ferir ou matar os inocentes que por necessidade ali trabalhavam. Tampouco pararam para considerar a condição peculiar das crianças, dos alienados mentais ou dos idosos, para eles todos os que pertenciam ao 'meio burguês' eram igualmente culpados e como disse Emilé Henry não havia inocentes no seio da burguesia. O marxismo, visando ser mais humano, deu a entender que também o burguês ou ao menos alguns deles, podiam ser vítimas da alienação... Estes jovens aterrorizados no entanto, compreenderam que todos os burgueses eram insensíveis, sádicos, cruéis e culpados face ao calvário percorrido pela gente simples.

Seja como for fica difícil entender de que modo explodir um bebê burguês torna-se revolucionário. Me parece mais um ato irrefletido, face da revolta e da insanidade produzidas pela fome. Trata-se antes de tudo de um ato de sadismo, mas de um sadismo produzido no seio de uma sociedade sádica, por uma sociedade em que todos, inclusive os que protestam contra ela, acham-se anestesiados. Tal o sadismo dos que sepultam seus queridos com tesouros, bem como daqueles que devoram diariamente salmão, pernil, caviar... sabendo que seus irmãos não tem o que comer! De fato o sadismo assume diversas formas... Como cobrir-se com um vestido de seda, tafetá, chamalote, rendas, laços, fitas e pedrarias... com que se poderia saciar a fome de milhares de bocas. Não, não se trata numa insensibilidade ou duma frieza presentes apenas nos anarquistas ou terroristas, mas de uma insensibilidade difusa, socialmente partilhada e que num determinado momento voltou-se contra a própria sociedade.

Antes de julgar tais homens ou tais criminosos - que tenho em conta de mentalmente instáveis ou afetados e aos quais certamente absolveria - acho que devemos procurar conhecer melhor a Sociedade em que viveram e julga-la. Nem preciso dizer que tais homens eram vítimas da Sociedade. Que uma sociedade individualista e egoísta faça vítimas é uma obviedade...  Contento-me por dizer que faziam parte daquela sociedade e que eram expressão dela, não algo a parte... Eu tive honestidade suficiente para ler os depoimentos deixados por estes homens e sacar algumas conclusões. Diferentemente de Paul Adam não direi que tais homens fossem mártires ou santos - embora Ravachol tenha jurado jamais tornar a roubar galinhas de uns pobre camponeses magricelas para dar de comer a irmã menor - mas tampouco direi que eram uns alienígenas ou mesmo uns celerados sem coração. Tudo quando direi é que eram homens de seu tempo e de seu lugar, e que aquele tempo e aquele lugar certamente não eram muito bons.

Pronto falei ou melhor escrevi e aguardo já pelas pedradas, afinal o -

"Diga a verdade e saia correndo." ainda parece ser a regra vigente...

Enfim estamos diante de homens descristianizados, membro de uma sociedade descristianizada ou o que é ainda mais chocante, de uma Cristandade aparente. Pois como pode o Cristão, o Cristão Católico, permanecer acomodado e indiferente face ao irmão que passa por privação e fome??? Como pode o Católico encarar a fome, num ambiente em que a produção de alimentos é suficiente para saciar a todos, como algo aceitável ou comum??? Admitido isto, só posso dizer que há algo de muito estranho ou de muito errado com este Catolicismo e que não se parece nem um pouco com o Catolicismo dos Apóstolos, de Justino, Clemente, Ambrósio, Astério, Basílio, Crisóstomo, etc 

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Comunistas, anarquistas e humanistas e a Revolução ou Revolução, Ética e Liberdade.

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Um dos problemas postos por Jonh Gray em torno da Ética, que não crê ser universal, mas relativa é a suposta incompatibilidade existente entre as exigências da paz e as exigência da justiça. A argumentação do autor, aparentemente ao menos, justifica-se tendo em vista duas opções extremistas e excludentes - A do pacifismo crasso, assumida por certo número de Cristãos de boa vontade, e a do revolucionarismo atrabiliário, professado por diversas correntes sociais de vanguarda.

Assim se os primeiros sempre sacrificam as exigências da justiça em troca duma paz não gloriosa e tampouco digna os demais fazem muito pouco caso da paz e da vida. O que segundo Gray, aponta-nos soluções éticas antitéticas, excludentes e inconciliáveis... A situação - ao menos para ele - é esta, e não há solução.

Diante disto a questão proposta por nós assume a seguinte forma - Será possível, do ponto de vista ético, conciliar os interesses da paz com os interesses da justiça? Até quando será possível manter a paz? Quando será necessário sacrificar a paz em nome da justiça ou melhor quando uma virtude deverá ceder espaço a outra? Como pugnar por uma luta ou por uma revolução ética? Será isto possível? Adotada a solução policrática, como conciliar a estrutura de uma organização revolucionária com as exigências da liberdade humana?

Num primeiro momento devemos ter consciência, e mesmo o homem pacífico e bem aventurado, de que a paz é um bem desejável, mas relativo. Na hierarquia de valores há valores superiores a ela e um deles é a justiça. E não é possível aconselhar a alguém que suporte a injustiça em nome da paz. A paz só assume a conotação de um valor absoluto quando identificada com a 'não agressão'. Da mesma forma o pacifismo consistente deve significar sempre 'não agressão', é filho da paz aquele que podendo atacar opta livremente por não faze-lo, como é filho da paz aquele que se defende ou que recorre a violência defensiva. É tão inimigo da paz aquele que ataca quanto aquele que comete qualquer injustiça.

Por isso Ihering define a injustiça como uma profanação da dignidade humana. Todo injustiçado é de alguma forma profanado...

Diante disto como exigir deste homem violado no mais íntimo de seu ser que se conforme???

Apesar disto milhões de Cristãos, mal orientados, declaram que a injustiça é coisa que se deva suportar. Uma vez que o Mestre de todos disse: "Aquele que te bate numa face dá a outra face."

Querendo dizer que jamais é lícito defender-se ou exercer a violência defensiva; e que nos devemos deixar esmurrar em quaisquer circunstância.

Antes de tudo devemos compreender que aquele que é agredido ou esbofeteado repentinamente perde o controle e que ao perder o controle foge-lhe a razão. Ele voa sobre o outro, o outro voa sobre ele, começa ai uma briga e não poucas vezes destas brigas resulta uma morte ou dano mais grave. Já aquele que ao ser subitamente agredido ou atacado logra controlar-se adquire um bem relativamente valioso - O auto controle ou controle de si mesmo, o qual lhe permitirá avaliar a situação com serenidade, e tomar a melhor decisão possível.

É significativo que esse texto seja precedido pela fórmula de talião - Olho por olho, dente por dente. O que nos levaria a concluir que o vício condenado por Jesus é a vingança e não a defesa. Ademais está Jesus referindo-se a conflitos pessoais que sucediam amiúde nos ermos da Judeia, degenerando em brigas... com as consequências que acabamos de descrever acima. Neste caso por que colocar a própria vida ou a vida de outro em risco devido a posse de uma túnica? Se a vida de qualquer homem vale mais do que uma túnica???

Diversa é a situação em que o agredido que logrou controlar-se, deduziu ter sido injustiçado e chamou a polícia ou recorreu a lei - assim em Roma, na Grécia ou nas atuais nações civilizadas. Vinganças, brigas, linchamentos, explosões irracionais de violência, etc parece ser tudo quanto Jesus quisera condenar. Não a busca da justiça por meio das leis numa sociedade civilizada ou o recurso a violência defensiva em casos premeditados.

Claro que a solução dada por Jesus refere-se a conflitos pessoais ocorridos em sociedades demasiado arcaicas ou primitivas. Não a conflitos sociais ou impessoais sucedidos em sociedades civilizadas, e que correspondem a uma demanda pela justiça. Claro que tais situações fogem a 'cena' descrita pelo Mestre e assumem outra conotação.

Aqui importa uma única coisa - O sentido mais profundo da paz enquanto não agressão. Antes de ser aquele que em tese suporta qualquer tipo de agressão como um cordeiro, é o Cristão cordeiro que jamais agride. Assim caso existam Cristãos que agridam a outros Cristãos ou mesmo aos não Cristãos É DEVER DA IGREJA REPRIMI-LOS DURAMENTE, ATÉ A EXCOMUNHÃO. Não é ao agredido ou ao que sofre violência que a igreja deve dirigir sua voz para apaziguar, mas ao agressor, para condenar! E não se trata de reprimir apenas o mais comum dos tipos de agressão, a agressão física, mas de reprimi-la sob todas as formas, inclusive a econômica. A igreja não pode tolerar agressores em seu seio.

Por outro lado a sociedade pluralista não é guiada pela lei ética dos Cristãos. Tolerará ao menos a agressividade sútil, que atingirá cristãos e não cristãos, colocando-os num mesmo plano. Deve aqui a igreja condenar os Cristãos que juntamente com os não Cristãos pugnam pela justiça? Certamente que não, como não pode condenar a guerra justa. Assim, o máximo que a igreja pode e deve fazer é gerenciar essa luta ou essa guerra fornecendo uma diretriz ética que exclua a vingança e a tortura; é o quanto bastará por merecer os aplausos da humanidade. Uma vez que os guerreiros após terem pelejado como leões no campo de batalha, devem tratar os vencidos e prisioneiros com cordialidade e doçura.

Importa que numa crise social todos os recursos possíveis sejam empenhados no sentido de manter a paz sem sacrificar a justiça. Todavia esgotados os recursos, a guerra torna-se justa e enquanto justa boa, e enquanto boa desejável. O Cristão não deve avaliar a violência, a guerra ou a revolução enquanto tais ou fins em si mesmas - a violência pela violência será sempre inaceitável já dizia Sorel - mas como meios ou instrumentais para superar uma situação insuportável de injustiça. A injustiça é que fará delas algo absolutamente necessário. Devemos compreender que os conflitos bélicos e as revoluções acontecerão e fornecer uma critério ou padrão ético porque o Cristão possa julga-las. Este padrão é a justiça.

Em certos casos abster-se é colocar-se ao lado dos iníquos e fortalece-los. O Cristãos sempre combaterá ao lado dos atacados, dos agredidos, dos injustiçados, dos oprimidos, dos explorados, etc Sem se preocupar com as facções ou bandeiras ideológicas. Caso a sociedade em que vive agredir ou atacar alguma outra, então poderá não apenas abster-se de lutar em favor dela mas combater tal guerra por meio da pena e da palavra, exercendo oposição ideológica. Nenhuma guerra de conquista deverá contar com o apoio dos Católicos.

Quanto a própria comunidade o critério mais seguro face a uma Revolução - daí o termo violência defensiva - é a quebra da ordem democrática por meio de um golpe, como acabou de acontecer no Brasil, em 2016, com a deposição da presidente legitimamente eleita. O que equivale a uma situação de agressão e injustiça, justificando a resistência ou a sedição. Quanto a tais situações, chamadas golpe de estado, julgo que haja suficiente clareza, uma vez que se trata de eventos de ordem política. Outras situações não são tão claras, na medida em que envolvem a conjuntura econômica ou negação de direitos por meio de massacres e tortura.

Claro que mesmo uma situação de guerra justa ou revolução, inda que desejável, não basta para despertar o que chamam de entusiasmo. Se as crises correspondem a situações anômalas - como as enfermidades ou doenças na vida de um ser humano normal - as revoluções e guerras só podem corresponde a remédios amargos, cauterizações ou cirurgias... Situações relativamente necessárias, não idílicas. Por isso estamos tão longe do contra revolucionarismo tosco quanto da mística revolucionária. Quando esgotadas todas as outras possibilidades aceitamos as situações de Revolução sem nos deixar iludir ou entusiasmar e sem esperar demais... Não cremos que da Revolução ou de qualquer guerra surgirá uma nova sociedade totalmente diversa da anterior ou um paraíso sobre a terra. Não nutrimos sonhos futuristas ou milenaristas em torno das Revoluções, tudo quando esperamos é uma ordem menos iníqua ou suportável.

Por fim enquanto policratas e simpatizantes com aqueles poucos anarquistas bem informados que sabem ser o anarquismo uma luta pela democracia direta  -  acima de tudo a nível de micro estado ou municipalismo - e pela esfera intangível da liberdade pessoal (mencionada por Rousseau nas primeiras páginas do 'Contrato') temos de nos perguntar a respeito de como será a guerra justa ou a revolução. A pergunta se faz necessária porquanto os nazistas, fascistas e comunistas e todos os demais liberticidas acham-se em seu terreno e os amigos da liberdade política não, quando falamos em militarismo ou em algo do tipo militar, como supõem uma revolução ou uma guerra bem sucedida.

Observemos antes de tudo os conflitos gerenciados pelos anarquistas. Primeiramente aquele tipo individualista chamado propaganda pelo fato. De que resultou uma tempestade repressora por parte do estado burguês. Colocando em risco a causa socialista como um todo e alienando não apenas as massas mas o bom povo quanto a tão justa causa. Caso passemos as conjurações, que os anarquistas tomaram ao jacobinista e totalitário Blanqui através de Proudhon, temos o exemplo malfadado da comuna de Paris. Enfim quanto a Revolução espanhola temos um federação de guerrilhas ou conjurações muito mal coordenadas, cada uma atuando a seu modo... Claro que nenhum desses tipos de 'revolução' poderia dar certo.

As guerras e as revoluções que acontecem no cenário de um macro estado unificado exigem um nível mínimo de coordenação, de um comando centralizado e o que é pior de obediência mecânica ou de submissão, sem os quais não podem sair vitoriosas. No entanto esta obediência mecânica, num nível maior, choca-se tanto com os princípios anarquistas quanto com os princípios cristãos ou humanistas de larga tradição filosófica. As relações militares durante uma guerra são em certo sentido arbitrárias, intuitivas e irracionais... As massas incultas conformam-se com elas sem questionar. O Filósofo dificilmente. Não foi por acaso que Carnéades e seus companheiros foram corridos da Roma militarista pelo grande Catão... De modo geral os belicosos romanos, senhores do mundo, encaravam os gregos, com seu apego a arte e a filosofia, como um 'povo' degenerado.

Amigo algum da liberdade, Cristão, anarquista ou humanista, consciente de sua dignidade pessoal, pode deixar de sentir este dilema como a um espinho na carne. Pois dificilmente estará disposto a curvar-se face ao que julgar não passar de caprichos de seu superior... E no entanto a tática da guerra parece depender disto, deste deixar-se controlar por um superior que conhece melhor o conjunto. O sucesso da Revolução ou da guerra parece depender do mando e da submissão e de um cérebro que esteja acima de todos coordenando tudo... Face as este cérebro os mais deveriam estar paralisados, passando a agir como braços e pernas. É exatamente aqui que surgirão conflitos de consciência e tumultos no caso dos Cristãos... Caso se lhe peça que torturem ou massacrem já prisioneiros, já civis inocentes, coisa que ele não poderá fazer em hipótese alguma. Julgo que alguns anarquistas de boa vontade e humanistas concordarão com eles. Formarão objetores de consciência... Isto terá de ser discutido previamente. De modo a obter-se algum tipo de acordo. Não sendo assim a Revolução ficará comprometida.

Mesmo em alguns outros casos surgirão problemas entre os amigos da liberdade. Pois certamente haverá quem se recusará a massacrar animais. Como quem se recusará a comer carne... O anarquista, o católico, o humanista, dificilmente se deixará padronizar. Já as operações de guerra bem sucedidas parecem depender das massas ou dos homens padronizados e sem vontade própria. Levantemos a hipótese segundo a qual tais homens se deixem controlar caprichosamente apenas durante o período em que durar a Revolução - a qual pode prolongar-se por alguns anos ou mesmo décadas. Quem garante que esta situação não servirá como um treino destinado a amestrar homens livres tendo em vista a instauração de uma ordem despótica ou totalitária. Neste caso não estaríamos a nos adaptar antecipadamente, sacrificando nossos ideias, princípios e valores???

Não quero dizer que as Revoluções devam ser contidas.

Estruturas econômicas, religiosas, políticas, etc entrarão em colapso e criarão situações potencialmente revolucionárias para as quais devemos estar preparados. Daí a necessidade de levantar a discussão, inclusive em torno de uma ética revolucionária. E de indagar sobre como seria o futuro post revolucionário e a distribuição dos poderes... Temos de saber antes de tudo que uma Revolução bem sucedida não ocorre as vésperas, exige tempo, planejamento, armamento, técnica, disciplina pessoal, treino, etc, etc, etc Supõem um corpo de guerrilha preparado... Quase todo discurso revolucionário feito pelos místicos de hoje tem sido leviano e espontaneísta. Nada muito sério. O que nos faz nutrir séria reservas quanto a viabilidade de tais revoluções mais parecidas com as grotescas conspirações blanquistas criticadas por Engels em 1895. Não se faz revolução com drinques, pizza, cigarro, maconha, etc Não se faz mesmo... Os profetas da revolução atual bem fariam ler a vida de Marighela.

As revoluções acontecerão. Mas também poderão abortar ou ser sufocadas por falta de seriedade e comprometimento.

Como poderão dar vezo a surtos de psicopatia e crueldade; assim como resultar em totalitarismo e barbárie...

Comportam riscos.

Por isso dissemos - Elas só serão viáveis em situações de injustiça extrema após esgotados todos os outros meios: Ação parlamentar, greves, protestos, marchas, desobediência civil... Só serão aceitáveis como respostas a um golpe ou a um massacre. Será respostas a determinadas situações ou conjunturas históricas, jamais receitas de bolo ou bulas de remédio.

Certamente a mística revolucionária que anima o Comunista, o nazista ou o fascista não deverá contagiar o Cristão ou o humanista; mesmo o anarquista, na esteira de um Kropotkin ou de um Tolstoi acalentará maior ou menos nivel de reserva face a ela.

Ps.: Reservamos outro artigo para dialogar com G Sorel.