Quero abordar agora a questão, para mim bastante séria, do idoso hospitalizado ou sujeito a internação hospitalar.
E começarei dizendo o óbvio. Como o idoso se sente mais seguro na casa ou no ambiente do lar e tende a rotina a hospitalização pode corresponder sempre a um evento bastante traumático.
Alguns inclusive podem concluir, por via de paranoia, que estão prestes a morrer ou que desejam mata-los.
Tanto pior caso ele esteja sozinho... O que por si só sugere a figura do cuidador. Todavia quando o idoso não possui cuidador creio que seja mais recomendada a companhia dos filhos, netos ou pessoas de seu convívio habitual.
Isto porque o cuidador de última hora ou contratado as pressas, por mais competente que seja, não conhece detalhadamente o idoso e seus problemas. Portanto caso venha a contratar um cuidador de última hora procure informa-lo sobre absolutamente tudo quanto diga respeito a condição rotineira do idoso e sua saúde, ou mantenha-se conectado com ele i é disponível em tempo real.
Quanto a companhia, devo insistir mais uma vez, que a companhia habitual trará mais segurança para ele.
Ademais, o direito a um acompanhante é reconhecido pela legislação.
A respeito do idoso que esteja só, devo dizer que, caso não possa alimentar-se por si só, terá de contar com o auxílio de algum enfermeiro. E alguns hospitais há um corpo de senhoras religiosas, as voluntárias, que costumam alimentar os pacientes que se encontrem em tais condições. Nos demais a comida é posta diante do enfermo e passado algum tempo depois recolhida - Jamais vi a equipe de enfermagem alimentar paciente impossibilitado.
Tanto pior para a condição do idoso internado cessar de alimentar-se. Uma vez que deteriora muito rapidamente. Sabemos no entanto que certos medicamentos, como antibióticos, podem induzir a inapetência. Daí a importância de uma pessoa querida insistir em que comam ou tomem alimento mesmo sem vontade e essa insistência pode ser essencial para a recuperação do paciente.
Via de regra a maior parte dos médicos e instituições hospitalares temem ser responsabilizados pelo perda de seus pacientes e processados pelos familiares. Do que resulta atualmente um controle bastante rigoroso ou mesmo excessivo.
Diante disso, tendo em vista reduzir ao máximo a ocorrência de derrames, infartos e demais intercorrências, entre os pacientes, estabeleceu-se a rotina de aferir-lhes os sinais vitais três ou quatro vezes ao dia e portanto de seis em seis ou de oito em oito horas, conforme o estado e gravidade de cada um.
Via de regra esses sinais correspondem ao nível da pressão arterial, da glicemia e da saturação. Também é costume perguntar o nome do paciente para verificar o nível de consciência, suas idas ao banheiro e, a noite, se costuma dormir.
E qualquer alteração ou anomalia aqui pode trazer sérios problemas como o prolongamento da internação e o risco de infecção hospitalar. Caso o paciente seja impedido de tomar assento e obrigado a guardar leito tanto pior, pois o ideal é que possa se movimentar, sentar o mesmo andar um pouco.
Com relação ao idoso esse rígido sistema de controle é ainda pior, na medida em que desenvolve paranoia ou delirium e que estes promovem o aumento da pressão arterial ou mesmo da glicose. E caso o paciente esteja com a pressão ou os nível da glicose demasiado altos não receberá alta.
No entanto, caso a pressão esteja apenas levemente acima da média e isso corresponda a um histórico, é bom que o acompanhante informe ao enfermeiro e ao médico assistente. Certo é que a presença de cuidador parental que passe segurança ao idoso seja capaz de conter a pressão e talvez a glicose em níveis toleráveis.
Outro o caso da falta de sono. Caso o doente seja insone, necessário informar os enfermeiros. Caso não durma porque se encontra num Hospital também é bom informar. No primeiro caso caberia uma investigação ou a aplicação de um sedativo indicado pelo médico assistente. Já no segundo caso, pode-se ou não aplicar o sedativo - Caso não haja outro enfermo e haja cuidador junto do paciente talvez não seja necessário aplicar sedativo, como no caso da minha mãe.
O problema do paciente insone que grita durante a noite e não conta com acompanhante é o risco de receber o que antigamente se chamava 'sossega leão' i é a dose de um sedativo qualquer por conta do enfermeiro (a) o que chegou a produzir tanto mortes como danos irreparáveis, mormente em idosos. Certamente se trata de algo proibido, mas que ainda se fazia há cerca de trinta ou quarenta anos passados.
Por vezes o apelo do cuidador, quando filho, neto ou cônjuge, pode induzir o idoso a dormir, ainda que levemente ou por breve tempo. Sempre bom evitar o sedativo, mesmo quando preceituado pelo médico.
Digo o mesmo quanto a pigarra e tosse episódica - Caso o enfermeiro não tenha a quem perguntar sobre elas poderá concluir por algum problema respiratório e entubar o paciente, mormente se a saturação estiver no limite. Portanto caso o paciente tenha esses sinais há muitos anos (Minha mãe tem essa pigarra há mais de quinze anos!) convém advertir o enfermeiro responsável de modo a serena-lo.
Outro o caso do xixi e das fezes do paciente, ao menos por um tempo, acamado. Podem ter alguma redução, sem que seja necessário introduzir a sonda urinária, pois esta, uma vez introduzida costuma ser uma fonte de outros tantos riscos. Caso seja autorizado pelo médico assistente o cuidador parental poderá ministrar sucos de melancia ou melão ou chás de quebra pedra e cabelo de milho, e, caso haja fluxo de urina, protelar por algum tempo o uso da sonda.
Também poderá tentar, com autorização do médico assistente, levar o paciente ao banheiro ou introduzir a comadre, no caso dos que se recusam a fazer na fralda. Pois é a fralda outra fonte de infecções.
Concluindo: Acalmar a pessoa ou passar segurança, acompanha-la ao banheiro, apelar para que coma, preparar um suco ou meramente informar o enfermeiro sobre uma condição habitual jamais será supérfluo, pois poderá significar significativa redução do tempo e internação e consequentemente de uma infecção que poderia via a ser letal.
Daí a relevância do acompanhamento parental com relação ao idoso: Manter os sinais vitais dentro dos padrões de normalidade e evitar, quanto possível, procedimentos invasivos. De fato alguns procedimentos invasivos podem ser protelados ou evitados a partir de uma simples conversa entre médico ou enfermeiro e responsável, com ganho significativo para o paciente.
Tal a estratégia adotada por mim. Enquanto minha mãe permaneceu internada não saí um instante do lado dela, exceto para vir a casa alimentar cães e gatos e tomar banho (Ocasiões em que era rendido pela cuidadora não parental.). Podia inclusive indagar sobre a medicação aplicada e verificar os diversos níveis de assistência, como nutricionista, reabilitação física, etc Pude comprovar por mim mesmo como a presença parental faz toda diferença...
terça-feira, 26 de setembro de 2023
A internação - A condição dos idosos nos hospitais...
segunda-feira, 25 de setembro de 2023
Hospitais privados - O terror da vida real (Relato vivido pessoalmente pelo Cronista na Baixada Santista)
Estou pronto...
Passados quase seis meses, estou preparado para escrever uma crônica minuciosa sobre o quanto vivenciei num dos grandes Hospitais da Baixada Santista - SP.
E posso garantir que foram momentos aterrorizantes. Dignos da vinheta - Impróprio para menores de dezoito anos.
Escrevo-o tendo em vista contrapo-lo aqueles que só sabem criticar o serviço público de saúde e endeusar o serviço privado, até chegar a tecer apologias a Privatização.
Direi que o SUS tem problemas, alguns até sérios, os quais devem ser corrigidos, sem que seu regime público e gratuito seja alterado. E recomendarei a implementação de uma lei que poria fim a todos os problemas do SUS e da escola pública: Obriguem todos os políticos, por lei, a fazerem uso dos serviços públicos e em menos de um mês, de um mês... a qualidade atingirá os níveis desejados.
Agora por que não aprovam e aplicam uma lei assim tão simples...
Porque desejam sucatear o serviço e desgostar o povo com o premeditado objetivo de privatizar tudo... Momento em que os pobres, os mais humildes, os desempregados, etc serão deixados para morrer na sarjeta, sem qualquer atendimento. Quando a saúde constituí direito essencial da pessoa humana.
Iniciemos porém, sem mais delongas, a crônica da vida real por mim vivenciada.
Como é sabido por muitos - Pois sou praticamente uma pessoa pública, ao menos na região em que vivo... - sou responsável por minha mãe, uma senhora de quase noventa e dois anos de idade, a qual via de regra goza de um bom estado de saúde.
Digo de modo geral porque a saúde de uma pessoa octogenária ou mesmo septuagenária por vezes falha. Como veio a falhar por volta de 09 ou 11 de Abril do corrente, pois não me recordo com exatidão do dia.
Apenas para que o leitor compreenda com exatidão o quanto vou relatar, devo observar, que, como minha mãe sempre foi uma pessoa autônoma, gerenciava ela mesma seu plano de saúde, o qual mantínhamos e mantemos para casos de internação. No mais, recorremos bastante ao SUS e sempre fomos super bem atendidos, com todo amor e carinho.
O plano é pago por meu irmão.
A princípio, i é há cerca de uns vinte anos atrás, era o da afamada Santa Casa de Misericórdia de Santos, do qual desligou-se ela alguns meses antes da morte de meu pai. Meu pai sempre manteve esse plano da Santa Casa, minha mãe porém desejou passar a outro plano. Ela mesma fez a mudança, acertou tudo e meu irmão pagava.
Posteriormente, mudou de plano mais algumas vezes conforme quis, jamais interferimos diretamente nisso. Até que há cerca de uns dez anos, creio eu, aconselhada por um amigo, mudou de plano pela última vez, aderindo ao plano da cloroquina (sic), o qual tinha também a péssima fama de liquidar idosos.
Devo observar ainda que esse plano não possui Hospital próprio no Litoral do estado, atendendo seus aderentes por meio de parcerias com alguns hospitais privados desta nossa região - O que só vim a saber após a hospitalização de minha mãe no final de Abril deste ano.
Feita essa observação retomo o fio da meada.
Em algum dos dias assinalados acordou minha mãe com uma forte diarreia ou desinteria, não sei ao certo, expelindo, desde o princípio água ou muco. Tomei todas as providências necessárias por se tratar de uma pessoa idosa, arriscada a desidratar. Um mundo de garrafas da isotônicos, leites vegetais, água de coco, etc Chás, sopas, bolachas, torradas, etc
O caso é que o quadro não melhorava e já se haviam passado três dias, então tivemos de ir ao tal Hospital parceiro - Que NÃO ERA A CASA DE SAÚDE. - i é ao PS desse Hospital, onde fomos razoavelmente bem atendidos. Alias conheço pessoalmente o diretor do PS, médico bastante responsável.
Foram realizados os exames iniciais e detectada uma infecção urinária ou cistite. E fiquei espantado por saber que tal quadro, diarreico, podia ser causado por cistite. Conversamos bastante com o médico, o qual me pareceu bastante apto e responsável, e optamos por não internar devido o perigo da infecção hospitalar e porque temos recursos suficientes para tornar ao Hospital diariamente e coloca-la no soro, caso necessário fosse. Receitou um antibiótico que não era demasiado invasivo mas absolutamente necessário para debelar a infecção (Que como se sabe pode ser mortal.), a Macrodantina.
Tornamos a casa, porém foi um calvário, pois esse medicamento causa reações bastante fortes como a falta de apetite e, pasme, diarreia ou desinteria e - Anote - coisinha mais, coisinha... Porém não se tinha mesmo o que fazer. Devia o medicamento ser usado por no mínimo uma semana.
Dia sim, dia não tínhamos de tornar ao PS para que ela tomasse soro e fosse arribada, pois não comia e mantinha o quadro diarreico. Em casa dava água de coco, chá, isotônico, etc Eram dias terríveis, pois apesar dos esforços ela emagrecia cada vez mais e ficava cada dia mais fraca.
Ao cabo dos oito ou nove dias, todos os sintomas da cistite tinham cedido, menos o quadro diarreico, que se agravava. Feitos os exames de praxe foi verificado que a cistite havia cedido e que a Macrodantina não era mais necessária. E no entanto minha mãe não melhorava e podia dizer que estava pior.
Achava que iria morrer e não queria retornar ao Hospital de maneira alguma. No entanto dois dias depois, tive de leva-la novamente com a ajuda de uma grande amiga da família. Feitos os exames foi constada a Hiponatremia i é queda de Sódio no sangue - Quadro que havia levado uma nossa vizinha (Com 79 anos) a morte alguns anos antes.
Nesse momento o médico do Plano de saúde dela veio falar comigo sobre os procedimentos a serem feitos, os quais, dessa vez, exigiam uma espécie de hospitalização. Mesmo porque não se pode repor o Sódio as carreiras. O clínico garantiu no entanto que em pouco mais de vinte e quatro horas ou no final do dia seguinte, a reposição teria sido completada e ela poderia retornar a casa.
Deixei uma parente cuidadora com ela na salinha de observação e tornei a casa para tomar um banho de gato e pegar algumas coisas necessárias.
Tornei ao Hospital por volta das dezenove horas e fui - Marque bem isso! - encaminhado (Na qualidade de acompanhante.) a um setor que naquele Hospital é chamado Retaguarda, nome que até agora me causa pavor.
Ousarei descrever esse espaço, ao menos com relação aos pacientes mais idosos e que não pertencem ao convênio daquele Hospital, como uma espécie de campo de concentração, açougue, matadouro ou sei lá o que. E foi assim que me referi a ele, em conversa com o médico do Plano, no dia seguinte.
A norma, que me pareceu sensata mas que até então ignorava, é que o ar condicionado ficasse no 20, o que provocava frio. Minha mãe recebeu apenas um lençol fininho, típico de Hospital. Como é friorenta pedi um cobertor, respondeu-me uma das mal encaradas funcionárias dizendo que infelizmente não havia, e nesse momento percebi que havia algo de errado ali. Pois uma pessoa idosa sensível ao frio pode contrair até pneumonia.
E é aqui que a narrativa começa a ficar mais séria, na medida em que comecei a observar aquele espaço com toda atenção. Como minha mãe estivesse com dores abdominais fortíssimas e o ventre bastante dilatado ou a barriga inchada, fui procurar o médico do plantão noturno daquele lugar para pedir ajuda.
Havia ali uma médica a qual relatei a condição, grave, de minha mãe. Essa médica é regular daquele Hospital. Respondeu-me ela dizendo QUE ERA MÉDICA DAQUELE HOSPITAL E NÃO DO PLANO DE SAÚDE DE MINHA MÃE OU DE QUALQUER OUTRO, PELO QUE NÃO ATENDIA OU PODIA ATENDER TAIS PACIENTES (O que descrevi ao médico do Plano, no dia seguinte pela manhã, COMO CRIME DE OMISSÃO DE SOCORRO que podia ter custado a vida de minha mãe.) e apontou para um jovem, que estava a seu lado, declarando que ele
e era o responsável por aquele plano... O rapaz era super simpático, atencioso, etc mas não era médico (Suponho-o técnico de enfermagem.) e dizia não poder medicar antes da chegada do médico do plano as sete horas da manhã.
O que estava preceituado ali era Buscopan de tantas em tantas horas, o que de modo algum eliminava uma dor que parecia lancinante. E até a troca de fraldas era realizada com displicência.
A condição era esta (Fixe bem): Não havia atendimento médico porque a responsável do Hospital naquela retaguarda se omitia e recusava a preceituar, enquanto que o rapaz não podia faze-lo. De minha parte estando só não achava prudente ir a polícia ou chama-la e tampouco podia remove-la ou retira-la dali porque estava fazendo a reposição do Sódio. Eu simplesmente nada podia fazer até que se completasse a reposição do Sódio as onze horas do dia seguinte. Porque interromper a reposição para levar a Santa Casa era perigoso e caso algo sucedesse eu seria o responsável.
Também não podia sair andando ou correndo atrás de médicos por aquele hospital e deixa-la sozinha por um instante - EU SIMPLESMENTE NÃO CONFIAVA e hoje confio ainda menos.
Passei aquela madrugada ouvindo-a berrar de dor como um animal. Afinal, como disse, Buscopan era água, e o rapaz, como dizia, não podia intervir. Mencionei a ele os exames feitos no PS do Hospital e ele replicou dizendo QUE NÃO TINHA ACESSO e que mesmo que tivesse não podia preceituar por não ser médico. Enquanto isso a médica do Hospital desvelava atender apenas os clientes do Plano do Hospital, sem atender os demais, que começavam a gritar, dentro de seus cubículos de borracha.
E como ali, de mistura com idosos, houvessem adolescentes e desequilibrados mentais agressivos (Como vim a testemunhar no dia seguinte.) as luzes permaneciam acesas a noite inteira. Tanto as luzes quanto as vozes altas dos adolescentes e os gritos de alguns idosos e desequilibrados tornavam impossível que um idoso estabilizado pregasse os olhos naquele espaço. E de fato duas idosinhas que conheci naquela mesma noite declararam querer ir embora dali pelo simples fato de não poderem descansar.
Minha mãe seja pela claridade ou barulho ou ainda pela dor passou a madrugada inteira gemendo e minha própria condição era agravada pelas luzes e barulho, algo inadmissível num ambiente hospitalar, particularmente no qual hajam idosos.
Concluí, e vim a sabe-lo mais tarde, que dificilmente um idoso em estado grave, sem cuidador ou parente presentes, ali sobrevive por mais de dois ou três dias. O que me foi dito por outros médicos, enfermeiros e parentes que conhecem o lugarzinho.
Continua

