Mostrando postagens com marcador ateismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ateismo. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

O ateísmo, o agnosticismo, a Kalokagatia e a morte da estética III - O sentido e as aspirações frustradas

"A existência sem a música seria um equívoco." Nietzsche 



Ao tecer suas considerações sobre o 'ateísmo' militante ou proselitista o sensato John Gray - e não o bispo Fulton Scheen (mas bem poderia ter sido ele) - publicou um fragmento bastante curto mas nem por isso pouco extenso e profundo, pelo contrário seu significado é vasto, então 'Verbi gratia':

"A crença no progresso é uma relíquia da concepção Cristã da Historia... Um ateísmo intelectualmente vigoroso começaria por questiona-la." 2011 p 332

E por ser completo ou mostrar fundamento, remete-nos a leitura de uma obra tão clássica quanto insuspeita ( Seu autor é um irreligioso confesso. ), a "Towards the ligth..." de Grayling.

Por coerência meus amigos ateus deveriam principiar abraçando a única opção que parece estar de acordo com sua ideologia - O nihilismo. Por via de escolástica ou de coerência lógica o ateísmo conduz necessariamente ao nihilismo, ou a abdicação de qualquer sentido ou direção quanto a existência humana. Claro que nossos antagonistas sempre poderão dizer, com os anarquistas, que a lógica, a coerência, a racionalidade... são formas de controle ou de dominação rsrsrsrsrsrsrs de autoritarismo enfim. Começaram tentando demonstrar racionalmente que Deus inexiste, e agora refugiam-se na palhoça do irracionalismo...

No entanto se usam de argumentação racional com o objetivo de demonstrar que não existe deus algum - e é evidente que me refiro ao Deus dos filósofos e não ao Deus da fé ou da Revelação.  - por que raios não levam essa argumentação adiante? Por que abandonam-na no meio do caminho? Por que não fazem o trajeto em sua completude?

Simples - Porque sem uma mente ordenadora, um ente organizador, um legislador supremo, uma consciência transcendente em comunhão com a Imanência, não podemos falar em qualquer sentido, direção ou tendência histórica. Toda direção supõem necessariamente um objetivo a ser alcançado e este um plano. Mas como pode haver plano sem que haja Planejador, mente ou consciência???

Concordamos com os cientificistas, ateus, materialistas, etc Não se pode discutir e menos ainda impor o 'Design inteligente' em aulas de Biologia. Teoricamente as aulas de Biologia deveriam contentar-se com os 'fatos' em sua simplicidade. No entanto, se assim o é, por que raios o Biólogo Dawkins e tantos outros teem o direito de negar o sentido e portanto de fazer metafísica ateística em nome da Biologia e da ciência??? Eis a contradição... Pois há centos de Professores de Biologia vendendo metafísica ateística em nome da ciência em nossas salas de aula. Não deveriam interpretar ou especular em torno do fado evolutivo, mas o fazem e sem maiores cerimônias! Raramente nos deparamos com aulas verdadeiramente científicas, factuais e portanto agnósticas.... No entanto apenas a metafísica teísta tem levado a carga, não a de Mr Dawkins e seus companheiros, apóstolos do ateísmo.

Tudo bem removamos o design inteligente do campo da Metafísica e substitua-mo-lo pela nova moda, do Caos. Diante disto poderemos falar em tendência, direção ou sentido??? Certamente que não. Mas é díficil encarar a Evolução das espécies e a manifestação da auto consciência, da razão, da liberdade e da Ética sem dar com a tendência. Basta pensar, refletir, ponderar... por alguns instantes. Daí - Fuga pelo irracionalismo. Pera lá, mas não somos nós que até agora argumentávamos racionalmente contra a existência de Deus??? No entanto quando chegamos a contemplação do fenômeno humano em sua especificidade e o trajeto porque chegamos até aqui, fica difícil ignorar a questão do sentido.

A maior parte dos neo ateus no entanto teimam, obstinadamente, em apresentar a velha fé redentora assumida pelo positivismo e portanto transplantada da religião, alias Cristã, aos domínios da natura... E atribuem essa redenção, sob o nome de progresso, a ciência. O credo de Dawkins, Dennet, Hitchens, Amis, Pulmann e outros tantos apóstolos do neo ateísmo continua sendo o Progresso técnico oferecido pela divina ciência. Progresso diante do qual tecem as mais absurdas, desmioladas e idealistas conjecturas... a ponto de imaginarem-se compondo poemas Épicos, sinfonias e mesmo santuários a nova divindade Redentora que conduzirá a humanidade num paraíso, ou melhor que converterá nossa terra num paraíso de esplendor... O 'Hino' é cristão, mas a ideologia comum, ao Cristianismo e ao neo ateísmo com seu legado positivista totalmente ultrapassado...

De nossa parte o quanto fazemos é perguntar-nos sobre o pôrque dos ateístas não terem lançado as favas esse resíduo secularizado da fé e de uma fé redentora? Temos que questiona-los e de perguntar-lher sobre o pôrque de não terem canonizado o nihilismo e negado o sentido da existência. Possível é duvidar, questionar, silenciar... embora seja já doloroso. Agora concluir pela total falta de sentido ou pelo absurdo da existência, e, enfim, pela malignidade essencial da razão até aborrecer a auto consciência de si mesmo parece ser para poucos, muito poucos. Demandando alias a elaboração de um discurso eficaz destinado a impedir que homens convertam-se em lemingues. Camus teve de elaborar tal discurso para que o suicídio não se converter-se em epidemia. E no entanto os países agnósticos ou materialistas - que contam com o maior número de ateus, embora eles jamais constituam a maioria! - nos quais a sociedade atingiu os melhores índices em termos de condição humana, são os que apresentam os maiores índices de suicídio e isto a ponto de preocupar as autoridades.

Dir-se-a que em tais países as pessoas dão cabo da própria vida porque enfrentam uma condição de miserabilidade extrema. Em se tratando da Suécia, da Dinamarca, da Finlândia, da Noruega, da Holanda, etc a pressuposição acima é absurda, pois o estado de bem estar social cuida de todos. Então por que se matam? Afetando sabença, os apóstolos do ateísmo, apelarão certamente ao clima - Falta de luz solar, sombras, nuvens, frio... A explicação até parece boa, mas temos que considerar que a epidemia de suicídios é recente, tendo acompanhado a ascensão da irreligiosidade. Já o clima, como qualquer um sabe, é elemento constante, cujo 'tom' remonta há milênios...Diante disto qualquer um de nós pode perceber o tamanho da falácia. O clima não explica absolutamente nada... pois não sofreu qualquer alteração sensível no tempo presente.

Claro que a questão não sendo social - Já parou para pensar que nas favelas do Brasil ou nas 'Vilas' da América latina a taxa de suicídios é bem menos do que nos países acima citados? - conduz-nos a uma questão muito pouco agradável a nossos amigos ateus que é a questão existencial, i é, a questão já alardeada em torno do sentido da existência. Essa questão foi proposta inúmeras vezes sob diversas formas e temos as versões de - Marco Aurélio, Agostinho, Pascal e Kierkegaard, dentre outros...

Claro que há ateus valorosos. Os quais apresentando o fenômeno humano como um golpe de sorte ou um acidente provocado pelos átomos que giram eternamente (Hume), declaram não haver sentido ou finalidade alguma. E não podem fugir a conclusão segundo a qual a consciência de si, que pela negação do sentido implica frustração, equivale a uma aberração, enquanto que a razão chega a ser comparada a um verme que nos corrói por dentro e nos incomoda, e nos martiriza com essa busca utópica pelo sentido. Sentido, objetivo, direção, finalidade, tendência que nos remete sempre a um Deus.

Assim o tributo pago ao ateísmo, jamais poderia ter sido barato, e foi o nihilismo.

O que questiono aqui é a leviandade dos neo ateus que não estão dispostos a pagar o preço estipulado e que continuam a enganar a pobre humanidade a partir de uma fé seculariza e a anunciar, não menos que Karl Marx, que a ciência e a técnica nos abrirão as portas do paraíso na terra. Sendo assim comecem a pinta-lo e a publicar revistinhas como as testemunhas de jeová! De fato, sua ciência tecnicista até poderia (o fato é que não pode), eliminar todos os sofrimentos que o homem impoẽm ao outro homem (isto é tarefa precípua da Ética. Ética que o positivismo sempre negou). No entanto como declara Tasso da Silveira, jamais poderia eliminar a consciência de nossa finitude face a vastidão imensa do universo. Jamais poderia eliminar o drama existencial que nos persegue onde quer que estejamos.

Fato é que os ateus não são capazes de eliminar este drama cósmico e tampouco a busca do homem pelo sentido da existência em que foi lançado. Remetemos mais uma vez o amigo leitor a John Gray - "A religião não foi embora. Reprimi-la é como reprimir o sexo. Tentativa fadada ao fracasso." p 335. A bem da verdade, mesmo aqueles que não creem, continua o mesmo Gray - inspirado por um senso de realidade muito superior ao de S Freud - o que deveríamos tentar fazer é investigar quais sejam as formas menos evasivas e mais evoluídas em termos de religião, para tentar educar e moldar este impulso da melhor maneira possível. Comunicar-lhe formas mais amenas e humanas, deveria a ser a meta de todos nós, inclusive dos ateus mais inteligentes, que dispensam a existência de um Nous ou de uma revelação. Deixar tal impulso entregue a si mesmo ou descurado, implica uma total falta de responsabilidade pela qual pagaremos muito caro. Mas os ateus continuam adotando padrões irracionalistas - Combatem como Dawkins, as fés mais evoluídas - Que tendo assimilado algum elemento racional aspiram compor-se com a ciência e promover o homem - e apoiam, ao menos indiretamente as religiões atrasadas e rudimentares, declarando que as religiões devem ser necessariamente fundamentalistas e fanáticas. Em certo sentido odeiam mais ao espiritismo, aos catolicismos e ao budismo do que ao islã e ao pentecostalismo, os quais de modo algum temem.

Por que teci tantas conjecturas de o tema deste artigo é a estética ou a beleza?

Um amigo a quem muito prezo, alegou que há algumas almas fortes que apegam-se a religião tradicional devido a questão da estética, da beleza, da arte, etc Mas me parece que ele não consegue penetrar o porque desta petição estética ou deslinda-la, talvez porque creia, não o sei, que a beleza, ou seja relativa nos termos de um Kant e dos modernistas, ou seja supérflua.

É a questão que tentei responder neste três artigos, chegando a conclusão.

Na hipótese da escolástica ateística do nihilismo ou na total falta de sentido quanto a existência não nos deveríamos preocupar nem com a Beleza, nem com a Bondade... Bastar-nos-iam a verdade isolada. Feia ou isenta de beleza. Existiria apenas uma verdade dura e uma dura verdade, beleza e bondade seriam utopias ou ideias relativos construídos pelo homem em sua prisão ou cubículo universal. Temos uma ideal e uma fome de beleza, mas ela não existe fora de nós ou sequer existem em si mesma. Diga-se o mesmo da bondade...

Há muito que os ateus sacrificaram á estética, ignoro sérias reflexões em termos de estética feitas por ateus. No mais do mais contentam-se com as opiniões já expostas de Kant... A Ética foi oficialmente abandonada pelos próprios positivistas e todas as tentativas de produzir-se uma Ética - E ME REFIRO É CLARO A UMA ÉTICA HUMANISTA QUE PROTEJA E PROMOVA O SER HUMANO - em termos de biologismo evolucionista (Spencer - Darwinismo social e Kropotkin) ou de pragmatismo tem sido desastrosas, jamais atingido o fim a que se propuseram. Ateísmo e materialismo não tem sido bem sucedidos no sentido de produzir uma ética eficaz... Gray com absoluta razão refere-se a essas falhas terríveis, sobre as quais ateu algum gosta de refletir, em termos de Nazismo e Comunismo, e bem poderia adicionar o formalismo jurídico de Kelsen. Além disto tem o ateísmo em sua quase que totalidade tem pactuado com o liberalismo econômico ou Capitalismo que é outra cultura de morte e matriz das demais culturas de morte.

Já quanto a produção estética ainda não chegou o dia em que gênios ou ateus inspirados haverão de compor os magníficos dramas, loas, sinfonias, poemas épicos, catedrais, conjuntos esculturais, etc em homenagem a ciência. O ateísmo tem sido estéril em termos de produção artística, exceto quando ateus fazem petição a fontes de inspiração religiosas ou mesmo cristãs... Pior, quando produzem alguma arte é sempre a prostituída arte de Kant, psicologista, subjetivista, anárquica e sem regras... Fruto se sonhos caóticos e pesadelos tenebrosos. Coisa que qualquer moleque de dois anos bem podia fazer rabiscando sobre uma folha ou mesmo, acreditem, cagando! No setor do modernismo talvez encontremos os gênios do ateísmo, ineptos para traçar a perspectiva de um desenho, para misturar as cores com delicadeza, para fazer arranjos, para obter rimas preciosas, etc, etc, etc Claro que se não há regras ou normas objetivamente fixadas para a confecção da obra de arte, a avaliação de que é objeto só poder arbitrária, em termos de um 'gosto' sem qualquer justificativa plausível.

Bem o que eu quis e quero dizer que a busca pelo sentido, tal como fora compreendida pelos antigos gregos, compreende não apenas a verdade... pois a verdade sempre poderia ser 'Não ha verdade alguma' rsrsrsrsrs ou 'Não há sentido'. A verdade para esgotar plenamente o sentido da existência deve estar necessariamente acompanhada pela bondade e pela beleza. A bondade e a verdade devem ser belas. A beleza e a bondade devem ser verdadeiras e a verdade e a beleza devem ser boas. Assim se manifesta plenamente o sentido da vida que todos buscamos. O Bom, o belo e o verdadeiro foram uma Unidade inseparável ou uma Trindade ideal no dizer de Flaubert. Até podemos substituir a religiosidade pela contemplação estética a maneira de Gautier, o que não podemos fazer é substituir a contemplação estética por qualquer outra coisa sem mutilar-nos a nós mesmos. A dimensão estética da vida faz parte de nossa integralidade e, se a religião busca satisfaze-la e o ateísmo não - mostrando-se insensível - a questão esta revolvida - O ateísmo é bisonho por reduzir a dimensão da existência a uma verdade gélida e fria...

"Deus não existe." declara o ateu. Ótimo em que isto nos tornará melhores e como produzirá beleza??? Ah não estamos em posse de padrões essencialistas que nos tornem melhores em sentido unívoco pois a Bondade é relativa e o homem seu supremo critério (Excelente, então deixemos o torturados torturar e o estuprador estuprar e cessemos hipocritamente de condenar Hitler, Stalin ou Bush fundamentados em nossas opiniões individuais! ). Já quanto e beleza, podemos bem passar sem ela???

Mas eu sinto uma necessidade intrínseca pela beleza ou uma demanda pela estética e pela arte que o ateísmo jamais satisfez ou satisfaz e por isso julgo-o inadequado e suas dissertações em torno de uma verdade estéril, irrelevantes. Minha sensibilidade estética opõem-se ao ateísmo por ser improdutivo... Essa busca por um a beleza ideal é que conduz-me a um Fídias, a um Praxisteles, e um Polignoto, a um Parrásio, a um Tirtaeus, a um Terpandro, a um Homero, a um Sófocles, a um Ésquilo, a um Eurípedes, a um Vírgilio, a um Estácio, a um Dante, a um Camões, a um Cervantes, a um Tasso, a um Milton, a um La Fontaine, a um Shakespeare, a um Moliére, a um Bach, a um Mozart, a um Bethoveen, a um Dellacroix, a um Millet, a um Schaeffer, a um G Doré, a um Calixto, a um Pedro Américo, a um Meirelles, a um Bilac, a um Raimundo de Menezes, a um Martins Pena, a uma Anna Pavlovna, a um Nijinsky, a um Ray Conniff, etc Nenhum dos quais era ateu ou inspirou-se no ateísmo. Muito pela contrário a maior parte destes homens que buscaram saciar a sede estética de seus companheiros e que se esforçaram para tornar este recanto um pouco mais belo eram em sua quase que totalidade Cristãos e mais Católicos! Recomendo a leitura de 'O gênio do Cristianismo' de Chateaubriand. As almas insensíveis, superficiais e vulgares não compreenderão esta obra magnífica - Teve gente da igreja que não pode compreende-la (Os agostinianos é claro) - Sócrates, Platão, Aristóteles, Parmenides, Anaxágoras, Xenofanes, etc compreende-la-iam...

E as arrevezadinhas demonstrações ateísticas de Onfray ouso opor apenas as Catedrais francesas, alemãs, italianas e inglesas... ou o Partenon, mas falar no Partenon seria pura covardia. Esperemos enfim que os apóstolos do neo ateísmo possam o quanto antes brindar-nos com um Partenon ou com um Taj Mahal...

domingo, 11 de outubro de 2015

Como afirmar o evolucionismo perante seus alunos! III

Conclusão geral -



O que se espera de um educador consciente é uma atitude sóbria e equilibrada.

Que argumente honestamente buscando convencer seus alunos sobre a excelência do modelo evolucionista.

Não se trata aqui de exigir que o educando abandone sua tradição ou fé religiosa.

Mas que admita o critério da demarcação.

Reservando para a ciência um espaço em sua visão de mundo.

E admitindo que a imanência (natureza) esteja no acesso dos sentidos e da razão.

Ao contrário da fé cega a ciência não pode pretender absorver a vida do ser humano como um tudo.

Cumpre distinguir perfeitamente entre visão científica e mística cientificista.

Esta pretende impor o ateísmo e o materialismo a clientela nos mesmos termos que visão fundamentalista.

Pelo que ambas violam os direitos da pessoa humana.

O educador humanista reconhece a seus alunos o duplo direito de cultivar uma espiritualidade e de receber uma educação científica, conciliando as duas áreas ou partes por meio do critério da demarcação.

Não se discute aqui se tem ou não direito de apresentar-se como ateu o materialista caso seja instado por seus alunos; mas sim o direito de impor seu modo de pensar ou de exigir que seus alunos rompam com a fé.

Importa que as partes em conflito abstenham-se de invadir o terreno alheio.

O ideal aqui seria que as religiões se abstivessem de estabelecer dogmas como o criacionismo - em torno da origem do universo material e que os cientistas se abstivesse de apresentar suas constatações metafísicas em torno do ateísmo e do materialismo como científicas.

No entanto o que podemos observar no plano da concretude é que ambas as ideologias: criacionista e ateística, contam com defensores fanáticos.

Daí a praxis impositiva...

E criminosa!

Pois não é dado a qualquer professor seja fundamentalista ou ateu, impor sua visão de mundo ou orientação ideológica a turma.

A questão aqui diz respeito apenas ao Criacionismo enquanto padrão mágico fetichista de pensamento e ao critério da demarcação; em torno dos quais o professor consciente deve argumentar com habilidade.

Diz respeito a como este mundo foi constituído por Deus ou sem ele e não se Deus existe ou não existe. Uma vez que a questão da imaterialidade ou do que esta para além dos sentidos não pertencem aos domínios da ciência.

Agora se esta ou aquela organização religiosa obstinasse em ignorar a demarcação e em invadir o terreno da ciência; a responsabilidade não é nem da ciência, nem do cientista, nem do professor...

Nem se pode exigir que em pleno século XXI a ciência ou o magistério professoral curvem-se docilmente as exigências de líderes religiosos imbecis que jamais examinaram a fundo a questão, cedendo a pressão exercida pelo padrão mágico fetichista de pensamento.

Tal era viável no israel do século IV ou III a C... não no contexto da civilização moderna, em cuja base esta o padrão greco romano ou científico de pensamento. Padrão a que não podemos sacrificar sem que de tal sacrifício resulte um recuo civilizacional de amplas dimensões. Uma vez que o criacionismo, correspondendo a uma crença apriorística, destrói pela base a solidez do pensamento científico.

Quanto a este problema ou impasse não se trata de negar por completo a fé ou de romper radicalmente com  o paradigma religioso mas apenas e tão somente de substituir a fé cega por uma fé mais madura e esclarecida, que reconheça o critério da demarcação e o espaço - a imanência - que cabe por direito ao modelo científico.

Neste sentido não há como fugir a questão. Mais cedo ou mais tarde o fundamentalista, após ter investigado honestamente todos os lados, terá de decidir se pretende de fato encarcerar a própria mente dentro das páginas de um livro ou se pretende ficar com o testemunho fornecido por seus sentidos e sua racionalidade. Ou sacrificara o fundamentalismo e aceitará o desafio de - para além da fé (que sempre poderá manter) nas coisas invisíveis - sentir e pensar o mundo em que vive; ou sacrificará a si mesmo, sua percepção, sua racionalidade, sua natureza...

Conciliar as exigências totais e descabidas do fundamentalismo ou da fé cega com a realidade do mundo externo não poderá. Ou será forçado a negar uma ou outra...

A tarefa do educador consciente outra não é que orientar o educando, buscando mostrar os pontos fracos do 'pensamento' mágico fetichista e argumentar habilmente sobre a excelência do padrão científico, sem no entanto exigir o sacrifício integral da espiritualidade ou da ideia de Deus. Importa como esse Deus e a espiritualidade são encarados e se concedem espaço a ciência... neste caso serão elementos irrelevantes.

Importa que o educador científico jamais reproduza os erros ou crimes perpetrados pelo educador fundamentalista. Que jamais recorra a imposição, que jamais argumente desonestamente, que jamais impeça o outro de contra argumentar, que jamais perca o bom humor a jovialidade, que jamais recorra a qualquer tipo de violência, etc

Deverá ser firme sim, mas dentro de sua área que é a imanência.

Abstendo-se de pontificar sobre as demais áreas da existência.

Deverá concentrar sua atividade em termos de processo evolutivo, buscando expor as evidência e problematizar.

Sem jamais abordar assuntos propriamente religiosos ou metafísicos, exceto se a iniciativa partir dos educandos.

Neste caso convém esclarecer sempre que se tratam de opiniões pessoais e permitir que os alunos contraponham suas próprias opiniões e crenças, num clima de mútua compreensão e tolerância.

Importar lutar para por cada coisa em seu lugar: a fé na transcendência e a experiência na imanência.

Abstendo-nos de exercer um fundamentalismo invertido e termos de irreligiosidade, materialismo e ateísmo.

E de tornar as verdades científicas amargas e desagradáveis para as massas.

Evitemos associações artificiais e arbitrárias. Abstendo-nos de metafisicar em torno de ideologias.

Fixemos a atenção apenas e tão somente nos fatos e teorias verdadeiramente científicos.

Tomando por guias as palavras do Filósofo: "Os extremos quase sempre de tocam e a verdade esta quase sempre no meio."

Sejamos cautelosos sem ser medrosos e firmes sem ser intolerantes, exercitando a paciência com os mais jovens!







sábado, 3 de outubro de 2015

O mal estar da civilização

Há uma espécie de mal estar difuso entre os membros da Sociedade Ocidental Contemporânea.

O qual parece remontar a primeira metade do século XIX ou seja a afirmação do sistema capitalista.

E parece igualmente ter sido agravado ou intensificado pelo americanismo.

Aspira o homem por realidades amplas e profundas, mas, a cultura produzida nos EUA oferece-lhe apenas profanidades. Superficial, meramente tecnicista e consumista, é este novo padrão cultural de todo impotente para satisfazer as mais legítimas inclinações do coração humano.

Ademais os elementos da cultura ancestral, profundamente implantados em nossas consciências não foram de todo eliminados, especialmente nos rincões em que a americanização ainda não foi de todo consumada, assim nos campos e nas vilas do Sul da Europa e da America Latina.

Esta luta entre o que é ou deve ser e o que deveria ser é uma das possíveis fontes deste mal estar. Pelo que ainda retemos de humano e pelo que assimilamos ao materialismo economicista somos uma civilização contraditória e incoerente, cujos elementos acham-se em estado de oposição.

Temos plena consciência de que devemos por o homem, a vida, a justiça, a liberdade, a igualdade, a paz... em primeiro lugar e acima de tudo. Todavia tudo em nossa volta e em torno de nós afirma a primazia do capital ou do lucro.

Diante disto somos levados a crer ou ao menos a imaginar que as gerações do passado mais ou menos distante eram mais felizes do que a nossa ou que a Sociedade era melhor.

A bem da verdade, parece que em todas as épocas, parte das pessoas tiveram suas vistas postas no passado buscando uma mítica idade de ouro e julgando que as gerações do passado eram de fato mais prósperas e felizes.

A diferença aqui é que no passado ou nas épocas anteriores e nossa este passado obscuro era idealizado pela imaginação das massas, porquanto a História propriamente dita inexistia. Não lhe havia sido dado um método rigoroso... nem as ciências auxiliares estavam devidamente constituídas. Sobrando bastante espaço para a fantasia correr solta e produzir mitos.

Hoje no entanto além de conhecermos relativamente bem nossa própria época podemos revindicar um conhecimento mais consistente e real a respeito do passado. Olhando para trás somos mais ou menos capazes de distinguir alguns vultos sinistros como o fascismo, o nazismo, o comunismo, o liberalismo, os golpismos sangrentos, os genocídios, etc Mesmo assim, a maior parte das pessoas não consegue encarar este nosso tempo como melhor ou superior. O mal estar prevalece!

Mas por que prevalece se uma terceira guerra mundial ainda não explodiu?

Porque em certo sentido estamos vivendo uma guerra surda, mas continua e quase que mundial contra o ser humano. Embora as frentes sejam diversas - fundamentalismos, comunismo, nazismo, fascismo, individualismo, CAPITALISMO, etc - todas tem em mira o rebaixamento do homem, a restrição da liberdade, a negação da igualdade, a relutância em cumprir a justiça, o ódio a paz, o instinto da maldade, a afirmação do egoísmo...

Não é decerto um tempo de violências físicas.

Mas é certamente um tempo de fermentação...

Em que a tempestade ou a borrasca esta se formando e se preparando para varrer nossa civilização até seus fundamentos mais remotos. Do que talvez resulte uma nova alta Idade Média ou algo ainda pior e mais sinistro!

O fato é que nossa consciência social ou nosso imaginário coletivo DÓI e essa dor é uma dádiva divina enquanto alerta de que algo vai mal, e muito mal.

Enquanto há dor, sabemos que o corpo esta enfermo e ainda podemos buscar a cura.

Quando não sentirmos mais dor ou mal estar, quando estivermos conformados e em 'paz', a enfermidade terá se tornado inconsciente... pois os elementos da nova ordem terão aniquilado os elementos da antiga ordem, e a contradição essencial.

Quando a crise se tornar imperceptível é justamente porque foi assimilada em sua plenitude, sem deixar de ser crise.

Nem poderá deixar de ser crise enquanto subsistirem a fome, a nudez, a miséria, a injustiça, o morticínio, a mentira, etc Poderá ser introjetada na cultura e institucionalizada mas será sempre crise. Poderá ser afirmada e reconhecida oficialmente como ordem, mas jamais deixará de ser desordem!

Verdade que temos ciência, técnica e poder para transformar o mundo.

Então por que ainda não o transformamos num lugar melhor para viver?

Afinal o que estamos assistindo é o extermínio de diversas espécies constituídas ao largo dum lento processo evolutivo, a alteração acelerada do relevo e do clima graças a extração imoderada de riquezas naturais ou matérias primas, ao envenenamento progressivo dos mares, da terra e do ar; enfim a um suicídio lento imposto por necessidades artificiais ditadas pelo Mercado econômico, esse deus terrível ou novo Hades!

Nem percebemos que após o fim da guerra fria, o desaparecimento do comunismo e a consequente e oportunista retomada do liberalismo clássico ou implantação do neo liberalismo tenham as sociedades feito qualquer progresso considerável em termos de organização social. Antes percebemos a retomada das contradições nos mesmos termos do século XIX ou do período ante guerras! Problemas e patologias sociais avolumam-se mais uma vez como no passado...

Diante disto como impedir que as velhas e falsas soluções, como comunismo, fascismo, nazismo e agora os fundamentalismos religiosos, sejam retomadas numa escala maior?

Sequer podemos apelar a uma ética objetiva capaz de condena-las em termos de essência...

O capitalismo como sempre mostra-se cego face as angústias que produz.

A angústia no entanto tem medida.

É coisa com que não se brinca.

Mais uma vez o capitalismo esta a desumanizar o homem e a barbarizas as massas.

Do que resultará uma devolutiva.

Na posse da mesma técnica e da mesma ciência que teriam feito nossos ancestrais?

É uma pergunta que faço a mim mesmo todos os dias.

Ao que parece nossa técnica não nos tornou mais humanos, não ampliou nossa sensibilidade, não alimentou nossa solidariedade...

Ao que parece nossa ciência não aprofundou ou ampliou nosso estado de consciência.

Perdemos o sentido do homem porque colocamos qualquer outra coisa em seu lugar: a fé, o lucro, o partido, o estado, a raça, o ego, etc

Lançamos os fundamentos de uma cultura inumana ou desumana e deflagramos um processo de auto destruição ou suicídio coletivo!

Sabemos que deveríamos ter resistido a este novo espírito Capitalista mas traímos a nós mesmos, a nossos ancestrais, a nossa cultura, a nossa espiritualidade! Negociamos com a idolatria mais sórdida que há, a idolatria do Capital e assim nos tornamos plenamente profanos! Afastamos o próximo de nossas vistas, passamos a encarar o semelhante como concorrente, nos acostumamos a encarar os irmãos como rivais e assim nos alienamos do Cristo!

Passamos a viver de mentiras e a cultivar uma vida de aparências! A ouvir a leitura do Evangelho nos Domingos e nas festas e a profana-lo de feira a feira, dia após dia!

Ingerimos o veneno do fideísmo e tombamos no conformismo!

Nos inclinamos diante dos juízes no fórum e fazemos juramentos e juramos em falso! Nos inclinamos perante o rico que vive de mais valia explorando seus empregados! Nos curvamos diante dos políticos corruptos e venais! Nos curvamos diante das espadas e metralhadoras dos militares! Nossos ancestrais enfrentaram a máquina mais mortífera de todos os tempos: o Império romano.... nós não temos pingo de virilidade e só sabemos negociar comodamente!

Degeneramos amigo leitor! Degeneramos!

Pois já não sabemos resistir ao mal! Não ao mal físico que massacra nossos corpos, mas as ideias más que contaminam o espirito, as falsas crenças que destroem a alma, aos pensamentos corruptos que ditam um comportamento corrupto!

Consentimos que esta ideologia materialista e grosseira construída em torno do lucro tomasse posse de nós. Nós mesmos lhe oferecemos parte de nosso ser! Negamos algo a Cristo, concedemos algo ao capital! Separamos a realidade! Imaginamos setores impermeáveis a ética! Produzimos uma nova cultura, uma cultura de morte... Cedemos, negociamos, falhamos e impedimos o Reino de Jesus Cristo de acontecer e florescer neste mundo!

Desde então, desde que o Capitalismo impôs sua nova ordem e desde que americanismo contaminou nossas Sociedades podemos dizer com Jacques Ellul que o Cristianismo, esse Cristianismo dócil, tornou-se uma traição imperdoável!

Sim, querido leitor, pois o Cristianismo antigo dos cinco primeiros séculos jamais foi dócil face a riqueza, ao acumulo, a cobiça, a avareza, os pressupostos do materialismo! O que os darwinistas sociais aclamaram como vencedor o Cristianismo histórico classificava como ímpios! Leiam o Crisóstomo e depois Basílio, Astério, Gregório Nisseno, Ambrósio, Jerônimo, etc Decretou nosso Cristianismo, nosso Cristianismo histórico, nossas fontes, nossas raízes, que o burguês é um tipo indesejável e fiel ao pensamento de Cristo proclamou que não entrará no reino dos céus!

E este eco no Ocidente ou na Igreja Latina prolongou-se até Fernando de Bulhões, o Santo Antonio de Pádua, cuja parte substancial dos sermões constitui uma Filipica contra os ricos, os banqueiros, os poderosos!

Mesmo durante os tempos da pseudo reforma estava esta consciência viva, a ponto de um único dentre os reformadores Dr Hugo Latimer, ter condenado inexoravelmente o acumulo de bens materiais. Limitando-se a repetir o que encontra-se escrito no Santo Evangelho: Não acumuleis bens neste mundo!

Agora se acumula bens neste mundo como obedece a Jesus Cristo????

Responda-me quem puder e for capaz!

Então nem me falem de Karl Marx. Foi bom crítico das estruturas capitalistas em termos materiais; mas não precisamos dele! Nossa consciência histórica, nosso passado, nossa memória, da manjedoura ao advento da pseudo reforma, é sentença de condenação ao capitalismo!

Não é possível associar o Cristianismo ao materialismo como não é possível misturar azeite e água ou juntar o Oriente com o Ocidente, ou prender os céus a terra...

Quem pretendeu ocultar esta antinomia foi que lançou as sementes da crise porque ora passamos!

Nem se esgotam aqui as fontes da crise porque são muitas.

O Cristianismo foi posto de lado...

Mas o maniqueísmo perfeitamente conservado e já o veremos!

Deseja todo homem conhecer e conhecer a realidade que o envolve.

Tanto isto é verdade que aborrece a ignorância e o mistério, e incomoda-se deles como do escuro e da morte.

Pois instintivamente sabe que a ignorância não é seu estado natural e que não existe para ela.

A laranjeira não aspira produzir laranjas, mas é fiel a sua natureza...

O homem aspira pelo saber.

Os profetas da modernidade no entanto disseram que seu aparelho cognitivo é completamente inepto e que a realidade chega a ser falseada pelos sentidos!

Proclamaram que essa antipatia para com a ignorância é absurda e que a inclinação para o saber é ilusória.

Que o homem encontra-se cercado pelas densas trevas duma noite eterna! E que nada do quanto crê ser verdadeiro o é!

Verdade não passa de quimera e a razão de um câncer ou de um verme a corroer lentamente nossas entranhas e a provocar uma agonia insuportável.

Assim como já dissemos tudo foi tirado ao homem: a fé, a razão, a experiência... até que não restou verdade alguma, conhecimento algum...

Só nos resta concluir com Camus que a vida é desprovida de sentido!

Não há qualquer propósito ou sentido superior para a existência humana!

Assim a única coisa a fazer é cogitar se devemos ou não sair de cena.

Afinal por que raios estaríamos obrigados a suportar até o fim uma vida que sendo sempre tormentosa carece de qualquer sentido?

Admira-se o leitor de que aqueles que não tenham coragem suficiente para por fim a própria vida descambem numa sexualidade desenfreada, no alcoolismo ou na droga??? Buscando ampliar a ilusão ou fugir ao tédio reinante??? Quem ousará condena-los??? Esta filosofia prostituída que proclama ter aniquilado não só a fé mas a razão, a ética, a ciência e o sentido sem nada deixar aos mortais???

Justifica-se aqui plenamente a fuga da realidade porque é de fato uma realidade indesejável, ou uma péssima nova esta trazida pela escolástica nihilista!

Quem não tiver a audácia do jovem Werther, invista na imaginação, na fantasia, na alienação desta realidade tenebrosa!

Bem se vê que não há qualquer necessidade absoluta de um Agostinho, de um Lutero, de um Calvino ou de um deus qualquer para proclamar o homem limitado ou incapaz.

Um Hume, um Kant, um Litreé, um Huxley, um Heiddeger, um Deleuze, um Camus, um Foulcault, etc bem podem faze-lo sem deus algum.

E pode lá o agnosticismo ou o ateísmo incoerente reproduzir acriticamente as mesmas crenças.

Grego algum ousou negar a metafísica. Pois como ignoravam supinamente a doutrina maniqueísta não se lhes podia ocorrer a negação ou restrição capacidade cognitiva do homem.

Tudo quanto vem após Agostinho, Lutero e Kant trás consigo este travo maniqueísta, alias arbitrário.

Muito revisaram, reformaram, refizeram; mas ficaram com a pior parte...

Lançaram fora o amor, a paz, a justiça, a sacralidade da vida, a veracidade, etc

E mantiveram, secularizado, o velho pessimismo de Manes, Agostinho, Montaigne, Lutero, Kant...

Diante disto já sabemos porque o ateísmo nega ser uma metafísica, apesar dos teóricos do agnosticismo...


sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Ateísmo, materialismo e ética II - O problema

II O problema


Um dos temas tidos em conta de mais relevantes pelo homem contemporâneo é certamente a Ética.

Subministrou-nos o Cristianismo Papista uma Ética 'religiosa' até meados do século XVI quando abalado pela Revolução protestante.

Desde então passaram a existir duas éticas religiosas em conflito e devemos desde já reconhecer que nenhuma delas era perfeita ou plenamente satisfatória. A própria ética papista havia se deixado contaminar por elementos judaicos, pagãos e muçulmanos no decorrer do processo histórico, adquirindo uma forma problemática.

Tanto pior a ética protestante que associada aos interesses imediatos das elites que apoiaram a reforma nasce já problemática.

Desde Maquiavel há uma busca por uma ética naturalista ou secular em termo racionais, a qual se prolonga até o século XVIII e busca sua expressão mais completa no deísmo dos iluministas, quando alguns sistemas são esboçados. 

A esse tempo buscaram os primeiros ateus e materialistas produzir a sua. Pelo que De Holbach e La Metrie brindaram-nos com o utilitarismo individualista hedonista! Primando pela coerência!

As decorrências no entanto tornaram tal sistema inadmissível para a maior parte dos filósofos, a ponto de nem mesmo os ateus e materialistas estarem dispostos a resgata-lo.

Sempre foi hábito enterrar a carniça e ocultar a podridão.

Apenas alguns psicopatas como M Stirner e Ayn Rand ousaram levar a frente um sistema tão desumano e insensível. 

Ao tempo que os deístas construíam seus sistemas naturalistas tomando por guia o racionalismo, I Kant iniciou suas críticas racionalistas a razão ou ao racionalismo, decretando a inutilidade da metafísica. Num primeiro instante os ateus, que eram poucos mas não menos fanáticos e pretenciosos, vibraram pois Kant havia 'desmantelado' as famosas provas em torno da existência de Deus... Já num segundo momento derramaram amargas lágrimas pois o mesmo Kant genial, afirmava que a existência de Deus é absolutamente necessária no campo da ética ou dos valores.

Por simples questão de opinião e vontade o Kant da primeira crítica passou a ser considerado um pensador de primeira grandeza, enquanto que o Kant da razão prática passou a ser encarado como um simplório!!! Desde então os ateus principiaram a repetir que a metafisica era inutil, sem jamais se preocuparem com as reflexões kantianas em termos de ética.

Aos agnósticos e positivistas estava reservado levantar a outra ponta do véu e denunciar os ateus como metafísicos por terem ultrapassado a barreira traçada por Kant. Se os deístas pretendiam conhecer o que estava para além de nossas capacidades os ateus não menos...

Durante todo este tempo, optaram os ateus por não por a mão no vespeiro.

Tampouco fizeram-no os primeiros positivistas ou positivistas ortodoxos fiéis a Comte. Os quais incluiam a moral ou a ética em sua classificação científica. Litreé no entanto fez escola ao perceber na ética certa qualidade metafísica ou aspecto imaterial e decreta-la igualmente inutil. Desde então foi ela substituída pela biologia, coroando o sistema cientificista. E ficou a ciência entronizada como suprema forma de conhecimento humano, acima da qual não há qualquer outra.

Em termos históricos foi a Ética defenestrada - pelos positivistas - pelos idos de 1860.

Foi justamente neste ambiente completamente vazio em termos de ética e em que já não havia qualquer elemento unificador e coordenador em termos objetivos (Comte já havia descrito deste modo o cenário cultural de seu tempo 1840) que afloraram os sistemas Comunista, Nazista e fascista. Nem eram o ceticismo, o subjetivismo e o relativismo reinantes capaz de condena-los como viciados e desumanos. Adormecido neste berço esplêndido o liberalismo econômico e formal prolongou sua dominação até 1914, buscando convencer as massas de que viviam no melhor dos mundos possíveis...

Foi quando o grande Cataclismo da guerra destruindo as ilusões todas com o liberalismo fascinara os povos, preparou a afirmação e triunfo daqueles pavorosos sistemas anti humanos. Os quais no entanto haviam sido concebidos e nutridos no contexto de uma sociedade fortemente influenciada pelos pressupostos do segundo positivismo e portanto numa ordem sem ética, bem a gosto do ateísmo e do materialismo crasso.

Não havia espírito de humanidade ali porque o ateísmo e o materialismo haviam banido o espírito e se negado a reconhecer sua existência mesmo em conexão com o elemento material. Assim os elementos unificadores passaram a ser compreendidos em termos de classe, raça ou estado e estes elementos não podiam ser julgados em termos de bem ou mal porque o bem e o mal passaram a ser tido em conta de relativos aos indivíduos.

Em meio a todas estas convulsões não foram os paladinos geniais do materialismo e do ateísmo capazes de propor qualquer tipo de solução efetiva em termos de elemento unificador capaz de coordenar as ações humanas ou de uma ética objetiva! Eis uma demanda que jamais puderam satisfazer. Antes nos mesmos termos do velho e ultrapassado liberalismo continuaram a sustentar como verdades absolutas as anti verdades do ceticismo, do subjetivismo e do relativismo...

Nem podia o materialismo por defeito de essência fornecer-nos um elemento unificador qualquer.

Somos todos materiais! E daí??? Que relevância tem isto em termos de Ética? Afinal também as pedras e pranchas de madeira são materiais...

Da materialidade constituitiva dos seres não podemos inferir quaisquer princípios ou valores.

Alias sendo a materialidade fragmentária e compósita como poderia fornecer-nos um elemento unificador e coordenador?

Acaso não é fragmentado o universo dos elementos ou substâncias?

Grosso modo podemos dizer que em termos de princípios e valores a materialidade é impotente para oferecer qualquer elemento comum. Sendo assim fragmenta os homens e produz indivíduos tão alienados uns dos outros quanto os átomos. O materialismo atomiza o pensamento e a vontade, dispersa e separa os seres humanos, aliena e isola os mortais; é de todo incapaz para produzir uma Unidade...

Nega a imaterialidade, nega a cultura imaterial, nega a relevância da idealidade e portanto a possibilidade de construirmos uma ética objetiva. Enfim jamais poderá ultrapassar as barreiras fixadas pela lógica positivista!

Kant ousa propor uma ética fundamentada no teísmo ou deísmo... os neo kantianos dão-lhe as costas...

Comte e os ortodoxos concedem foros de cidade a moral... Litreé e seus seguidores abatem-nos.

Marx esboça certa inclinação humanista e um certo viez de moralidade (tomado ao Cristianismo)... Weber denuncia-o como metafísico e Lênin 'chuta o pau da barraca'.

Um após o outro os apóstolos do positivismo, do materialismo e do ateísmo foram negando a dimensão ética da condição humana...

Pelo que as ciências humanas tornam-se meramente descritivas, limitando-se a determinar como a Sociedade é e não como deveria ser. Mesmo Weber que não era estritamente positivista, não pode deixar de tecer esta fina observação sobre as pretensões acalentadas por Marx no sentido de transformar a Sociedade. Do ponto de vista do materialismo coerente só podemos dizer o que é, jamais decretar o que deva ser!

Nem é possível tecer qualquer crítica a realidade existente ou questiona-la sem resvalar no subjetivismo e por-se fora do terreno da ciência.  A qual de certo modo justifica o que descreve...

Percebem como o materialismo é de todo impotente para engendrar uma ética em oposição ao economicismo liberal ou capitalismo, pelo simples fato de te-lo gestado???

Assim se o positivismo ortodoxo ousa faze-lo (com Comte não Litreé) até certo ponto é porque não passa de um Catolicismo secularizado, cuja moralidade reproduz quase que integralmente. Buscais a doutrina social da Igreja Romana? Dareis com ela nas obras de A Comte...

Assim se o marxismo de Marx ousou faze-lo, é porque incorporou princípios metafísicos ou éticos de origem Cristã tomados a Weitling, o qual tendo sido educado na igreja romana, tomou seus princípios ao Pe Lammenais, ou seja, ao Catolicismo social.

Tanto Comte quanto Marx beberam direta ou indiretamente nas fontes éticas do papismo, enquanto Kant fazendo volta ao parafuso tornou ao teísmo ou a fé protestante...

Uma vez que em termos de materialismo crasso a elaboração de um sistema objetivo de ética faz-se sempre impossível.

Nem mesmo Bentham e Mill com seu utilitarismo SOCIAL, fogem a esta regra. Pois o que constrange-nos a buscar o bom ou o útil para o MAIOR NÚMERO DE PESSOAL ao invés de busca-lo apenas para nós mesmos? Stirner e Rand não só fizeram esta bela pergunta como elencaram diversos argumentos plausíveis - do ponto de vista deles materialistas e ateus - em sentido oposto ou seja em favor da utilidade meramente individual. Nada do ponto de vista material ou natural obriga-me a pensar no outro ou a respeita-lo... Nada em absoluto- se não há vontade externa e superior a minha - pode obrigar-me a abdicar de meus interesse e de minha comodidade ainda que estejam em oposição ao interesse ou a comodidade geral.

Nada na natureza do mundo tem o condão de fazer-me optar pela espécie ou o gênero humano ao invés de optar por meus próprios interesses! Nada em absoluto!

Direis com Kropotkin que o apoio mútuo obriga-me a tanto! Confesso que o apoio mútuo ou a solidariedade natural entre os animais seja um fato! Devemos apreciar no entanto o outro lado da moeda e ter em mente que o apoio mútuo ocorre apenas em situações normais ou comuns, em que os suprimentos bastam a todos. Do contrário, como percebeu Darwin e após ele Spencer, em faltando suprimentos os animais devoram-se literalmente, como combatem as vezes mortalmente até, no período do acasalamento...

Além disto possui o homem outras ambições, como a aspiração imoderada pelo lucro, que o apoio mútuo ou a tal solidariedade natural não destrói como nem mesmo logra conter.

Direis que devemos identificar-nos uns com os outros. Direi que nada na materialidade dos elementos ou na ordem natural do mundo constrange-nos a fazer.

Nada na natureza obriga-nos a pensar sempre em termos de sociedade ou a identificar-nos com o outro.

Exata e precisamente por isso o materialismo não pode deixar de encontrar sua mais rematada expressão ética em Stirner e Rand ou seja na 'ética' do egoísmo.

Agora que resta para além disto em termos de ética?

Nada, nada, nada...

Pois na esteira dos positivistas os materialistas consequentes dirão que tudo quanto há para além disto é puramente subjetivo e relativo. Assim o bem, a justiça, a paz, a vida, etc nada de objetivo ou de universalmente válido e verdadeiro há aqui e 'Fora Sócrates' é o grito de guerra!

O materialismo e o ateísmo, em que pesem os geniais esforços de alguns de seus defensores, não podem sair disto ou fornecer-nos algo mais consistente.

Agora nem pode essa ética aberrante conter a arrancada do Comunismo, do Fascismo e do Nazismo COMO NÃO PÔDE, NEM PODE 'A POSTERIORI' condena-los como essencialmente maus! Então condenamos os nazistas, fascistas e comunistas e denunciamos seus crimes contra a humanidade em nome do que??? De meras opiniões subjetivas e relativas???

Caro leitor se uma ética não pode suster a essencialidade objetiva dos direitos humanos ou da dignidade da pessoa estamos diante de uma ética miserável!

Se não podemos condenar os sistemas acima citados como essencialmente vis e criminosos qualquer cidadão se sentirá plenamente livre para abraça-los amanhã!

E de fato ressurgem estes três espectros tenebrosos na mesma medida em que o discurso cético, subjetivo e relativista é insistentemente retomado não só pelos ateus e materialistas, mas até mesmo pelos neo católicos!

Afinal se cada qual pode ter sua verdade por que o nazista não pode ter sua verdade nazista, e quem somos nós para critica-lo???

E se cada qual tem o direito de definir o que é bom por que ao fascista é negado o direito de ter o fascismo em conta de bom???

E se o critério de beleza é o indivíduo apenas por que raios o Benedito não pode achar beleza no comunismo?

Amigo leitor condenar relativamente o mal, o vício ou o crime é condena-lo muito levemente.

Atinge apenas a aparência das coisas não a essência delas.

Não é em nome da Sociedade, nem da opinião comum, nem da vontade individual que devemos condenar a cultura de morte. Ou vibramos sobre ela uma condenação essencial, objetiva e transcendente ou renascerá mais uma vez como as cabeças da Hidra cortadas por Hércules.

É em nome de um elemento unificador e coordenador da ação humana que devemos anatematizar tais monstros! É em nome de uma cultura imaterial comum que devemos esconjurar tais fantasmas! É em nome de um espírito, de uma consciência, de um ideal que devemos exorcismar tais espectros! E não em nome de vontades individuais e flutuantes...

Agora não haveis de pedir tais recursos ao materialismo crasso ou ao ateísmo que ele não vos pode conceder. E este 'não poder', esta reserva, esta impotência face a gravidade do mal, é sua falência e sua suprema miséria!

Percebem como Kant não foi estúpido?

Como Marx e Comte foram 'incoerentes'...

E como Litreé, Lênin e sobretudo Stirner e Rand foram absolutamente lógicos...

Já ouço dizer algum ateu gritando:

E no entanto há ateus bons!

Como não muçulmano ou não pentecostal como haveria de nega-lo???

Claro que a ateus bons, até santos ateus.

A propósito de que vem tal existência?

Qual o nexo?

Qual a relação em termos de essência?

Foi o ateísmo que tornou tais pessoas boas? São produtos duma escolástica ateística ou dum ateísmo ruminado, digo refletido? Nasceram num ambiente ateu? São elementos constituintes de uma cultura ateia?

Na maior parte das vezes não.

São ateus convertidos, ex espíritas, ex judeus, ex católicos, ex deístas, etc que continuam vivendo como viveram, segundo os princípios e valores determinados pelas velhas crenças ou pela convivência, ou pela cultura. A que o ateísmo ou teoria ateia nada acrescenta...

Produziu o ateísmo algum impacto ético na vida de alguém tornando tal pessoa mais solidária ou aumentando sua consciência social?

Ignoro supinamente que tal tenha ocorrido.

Via de regra o ateísmo herdado, transmitido a gerações, cultivado e portanto raciocinado e levado escolasticamente até as últimas consequências (a pondo de produzir uma nova cultura) mostra-se quase sempre solidário com o liberalismo econômico, quando não assume plenamente os pressupostos desumanos do darwinismo social, chegando a Stirner, Rand e a 'moral' do egoísmo...

Isto é o que tenho testemunhado no decurso da vida.

A exceção é claro do credo marxista com seu conteúdo ético tomado ao Cristianismo... Credo no entanto é credo, sendo a força do marxismo ortodoxo dogmática e coercitiva. Agora se deixassem nosso comunista raciocinar livremente sobre seu materialismo e seu ateísmo... lá chegariam eles ao Stirner e a Rand. Único fim a que materialismo e ateísmo podem levar-nos por via de inferência lógica.

Há por fim a solução radical de Camus, que é o nihilismo absoluto, a respeito do qual discutiremos noutra oportunidade.

Aqui os problemas e são tantos...

Fico aqui esperando algum profeta do ateísmo delucida-los para mim...

Afinal para eles tudo são flores...

Ateísmo, materialismo e ética I Preâmbulo

I Buscando remover os preconceitos ateísticos!


Ora pretendo abordar um assunto que esta já se convertendo em tabu... na medida que envolve os novos 'dogmas' do ateísmo e do materialismo.

Nem duvido que ao cabo de alguns anos, a simples ousadia de se questionar a nova fé ateística, seja classificada como fascismo.

A bem da verdade foram os comunistas que iniciaram a moda de rotular seus adversários como pequenos burgueses, utópicos, renegados ou conspiradores... fabricando um excelente espantalho ideológico, capaz de intimidar a muitos.

Deitaram pedras a velha fé que classificava os dissidentes como hereges... e substituíram o termo herege por reacionário (usado pelos liberais), pequeno burguês (comunistas), fascistas (anarquistas e esquerdopatas estúpidos - sou esquerdista crítico não esquerdopata estúpido pois não abandonei o hábito sudável de pensar e de tirar minhas próprias conclusões!), etc

Atualmente basta criticar o islamismo, o pentecostalismo, os fundamentalismos religiosos, o comunismo, o relativismo cultural, etc para ser rotulado como fascista!

Cago e ando para os imbecis que assim me classificam!

Rótulos e espantalhos ideológicos não me atemorizam!

Não tenho medo do bicho papão e sei muito bem o que seja fascismo, doutrina pela qual nutro verdadeiro asco. Nem por isso direi que os fascistas erraram em tudo...

Como os não alinhados de 30, digo não ao Capitalismo, ao positivismo, ao comunismo, ao anarco individualismo, ao nazismo, ao fascismo...

Nem por isso direi que capitalistas, positivistas, comunistas, anarco individualistas... erraram em tudo quanto disseram...

Reservo-me o direito de analisar criticamente todos os sistemas e doutrinas ao invés de estigmatiza-los 'in totum' sem jamais os ter examinado!

Repudio o conteúdo individualista do liberalismo econômico (capitalismo) e anarco individualismo; como repudio o totalitarismo presente no comunismo e no fascismo. Denuncio a negação da ética pelo positivismo cientificista como denuncio o racismo presente no nazismo.

Para mim: individualismo, totalitarismo, fanatismo, utilitarismo, racismo, economicismo, apologia a violência, etc são elementos da mesma cultura de morte. É a estes elementos presentes num ou noutro sistema que repudio e não os sistemas 'in totum', os quais repito tenho não só o direito mas o dever de examinar numa perspectiva dialética.

Fato é que parte dos ateus e materialistas encaram toda e qualquer crítica dirigida a seus sistemas de metafísica como uma espécie de ataque pessoal.

Vociferam contra as diversas religiões, em especial é claro contra os Catolicismos, mas não conseguem se abster de falsear a História e de produzir novos mitos!

Basta folhear alguns panfletos ou circular por alguns sites 'chateus' para certificar-se quanto a desonestidade reinante: Ora é Copérnico queimado vivo, ora Galileu torturado e morto, ora países em que a população é indiferente em matéria de religião ou irreligiosos, apresentados como ateus (embora a maioria quase absoluta afirme a existência duma energia transcendente, espírito ou alma da natureza!), ora toneladas de cientistas agnósticos ou mesmo deístas apresentados como ateus, e por ai vai a imaginação sem peias...

Não vejo pois em que o ateísmo aprimore o caráter do homem ou que o homem deixe de se tornar fanático, passional e caprichoso por estar convencido sobre a inexistência de Deus. Jamais pude observar que a adesão do ateísmo tenha tornado alguma pessoa melhor do que era antes! Não percebo nem de longe que os ateus sejam como pretendem ser, um estamento moralmente superior! Antes estou convencido do contrário: que o ateu leva consigo a cultura em que foi criado, com seus vícios e virtudes. Assim se é fanático e desonesto - como grande parte dos fundamentalistas - leva tais defeitos ou vícios consigo... SAI DA RELIGIÃO MAS A RELIGIÃO, OU MELHOR O FANATISMO, NÃO SAI DELE...

Alguns desejam explicar a mística do neo ateísmo, ou a religião dos sem deus por meio da fitra ou de um sentido religioso (Pe Gratry) presente no homem. Tendo a encarar este fenômeno como um transbordo cultural do fundamentalismo para o ateísmo por via dos neófitos ou conversos... assim Deus é negado mas não a atitude sectarista e arrogante.

Pude já observar os neófitos dos Catolicismos, do espiritismo, do mormonismo e do budismo assimilarem novos hábitos, mais polidos e civilizados e julgo isto relevante em termos de concretude. Senhas como ateu, pentecostal, comunista, nazista, individualista, etc incapazes de atingir a vontade humana e de produzir alterações significativas no caráter da pessoa parecem-me irrelevantes!

Comte, que foi um grande conhecedor da condição humana e da dinâmica social e que era agnóstico não pode deixar de perceber como a crença religiosa é capaz de atingir a vontade humana e de produzir alterações em larga escala numa medida de tempo relativamente curta. E por não poder deixar de considerar semelhante impacto como relevante em termos de produção de cultura, criou uma religião sem deus que é a religião da humanidade ou positivismo ortodoxo.

Ignorou a existência de um Deus mas não pode ignorar a existência da fitra ou do sentido religioso no homem e de tentar coloca-lo a serviço da organização social. Detectou uma força assaz poderosa e jamais resignou-se a abrir mão dela para poder atuar na base mesma da cultura.

Ademais, ele e Litreé são provas vivas de que um intelectual honesto é capaz de reconhecer valores até mesmo nas instituições que se opõem a suas crenças. Pois sendo agnósticos jamais deixaram de conhecer o papel singular dos Cristianismos Católicos para a formação da cultura européia. Temos assim o que juridicamente folgamos classificar como testemunho insuspeito ou que não podia ser ditado por interesses ideológicos!

Nem precisou F Engels ser Católico ou simpatizante para classificar o protestantismo como a única religião essencialmente burguesa! O que passado algum tempo foi magistralmente confirmado por M Weber, o qual tampouco era Católico!

Enfim não é preciso ser católico, protestante, liberal, comunista ou fascista para negar o testemunho das fontes históricas. Qualquer ateu casmurro faz a mesmíssima coisas sem maiores cerimônias!

Para em seguida apresentar-se como emancipado e superior a todos os seus concorrentes!

Tal e qual o religioso fanático o ateu acredita que sua ideia ateística é o quanto basta para fazer dele alguém especial...

Como se Aristóteles, Galileu, Newton, Weber, Eistein, Plank... tivessem sido todos ateus. Ou imbecis...

Já habituei-me ao ver parte dos ateus apresentando Aristóteles como absolutamente genial em lógica, política, botânica, zoologia, sociologia, teoria científica... até chegarmos a metafísica, quando não só ele mas os antigos gregos 'in totum' - Parmenides, Anaxágoras, Sócrates, Platão, Zeno, etc - convertem-se em energúmenos por não terem dado com a pérola preciosa do ateísmo! E por não serem ateus mas partidários decididos do panteísmo ou do deísmo ficam sendo imbecis...

Perdoem-me os ateus mas para mim o ateísmo cheira a arrogância. Isto pelo simples fato de que os partidários desta nova crença tendem a imaginar que foram os primeiros homens a pensar genialmente, e que as gerações anteriores a afirmação do ateísmo - na segunda mensagem do século XVIII - estavam privadas desta nobre capacidade.

Assim Erasmo, Bacon, Descartes, Leibnitz, Locke e até mesmo o kantinho querido; todos uns rebotalhos em termos de pensamento humano.

E já os vejo gritar que estamos recorrendo ao sofisma da autoridade; LOGO ELES QUE GOSTAM DE PUBLICAR LONGAS LISTAS - furadas em sua maior parte! - COM OS NOMES DE AUTORIDADES ATEÍSTICAS E DE LANÇAR-NOS em face os nomes de Freud, Marx, Mayr e alguns outros gatos pingados, se bem que gordos...

Lista por lista não posso deixar de avaliar a dos deístas e depois a dos agnósticos como muito mais significativas.

Nem por isso pretendo tecer críticas essencialistas a metafísica ateística mas apenas e tão somente problematizar em torno da Ética.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Mitos em torno da afirmação das liberdades da Sociedade Moderna

O objetivo deste artigo é analisar diversas hipóteses produzidas enquanto tentativas de compreender a afirmação ou ressurgimento das Liberdades no contesto das Sociedades moderna e contemporânea. A parte deste tema investigaremos também a gênese dos pensamentos irreligioso e laico.

Para tanto iniciaremos nossa abordagem apresentando as hipóteses ou teorias mais sugestivas:


  • Segundo diversos autores protestantes e liberais, os reformadores promoveram CONSCIENTEMENTE a retomada das liberdades merecendo serem tidos em conta de pioneiros nos campos dos liberalismos religioso, intelectual, político e pessoal.
  • Por outro lado, certo número de escritores papistas, tem atribuído aos mesmos reformadores o propósito CONSCIENTE de fragilizar a instituição Cristã e promover a incredulidade.
  • Outro grupo de teóricos tem buscado estabelecer relações mais amplas ou menos amplas entre a reforma protestante e as revoluções modernas. Alguns limitam-se a postular uma similaridade em termos de método, enquanto outros avançam sugerindo certas afinidades ideológicas.
  • Laurent, acompanhando Voltaire; sustenta que sem Reforma Protestante não haveria Revolução Francesa. Esclarece no entanto que esta jamais seria realizada pelos protestantes e sugere que o papel do protestantismo ou da disputa religiosa neste contesto foi produzir uma cultura religiosamente indiferente ou incrédula matriz da grande Revolução.
  • Van Loon e certo número de autores 'insuspeitos' sugerem que a Liberdade surgiu como um nicho ou espaço neutro devido a disputa travada entre a Igreja antiga e as novas facções, em torno do poder.
  • Inúmeras foram as ilações sugeridas em termos do livre exame, de sua secularização e da afirmação do relativismo, do subjetivismo e da incredulidade.

Cada uma dessas teses ou hipóteses é por si só muito interessante.

Estabelecer um estudo sistemático, minucioso e sobretudo comparativo auxiliara o estudioso a conhecer e reconhecer a complexidade do processo histórico e predisporá o mesmo a evitar tanto as generalizações infundadas quanto as fórmulas ocas usadas pelos panfletários com fins proselitistas.

1 - No que diz respeito as liberdades políticas é sempre bom frisar que cento e trinta anos antes da Reforma protestante o Bispo Genebrino, Adhemar Fabri publicou uma carta em que pela primeira vez, no contexto europeu, as liberdades políticas (forma republicana) são oficialmente reconhecidas.

Já a congregação da primeira assembléia cantonal ou landsgemeinde - de Uri - remonta a 1231. Quando não havia sombra de protestantismo na Europa. A bem da verdade os cantões papistas como Schwyz, Uri, Zug, Appenzell interior, Unterwalden é que conservaram as formas democráticas até o tempo do Sonderbund, quando foram atacados e  submetidos pelos cantões protestantes. Desde então, sob pressão dos cantões urbanos e protestantes, foram paulatinamente abrindo mão de suas liberdades democráticas, de suas tradições ancestrais e consequentemente as assembleias cantonais.

Segundo Van Paasen, João Calvino foi responsável por converter a República de Genebra no primeiro campo de concentração moderno. Stefan Zweig da-se por satisfeito com registrar que Calvino transformou a República dos genebrinos numa teocracia ou seja num regime totalitário de inspiração religiosa.

Donde concluímos que a na Suíça a reforma protestante foi responsável pela abolição das antigas liberdades políticas.

Quanto a Inglaterra, é sempre bom lembrar que a Carta Magna de direitos civis remonta igualmente a Idade Média papista, quando ainda não havia sombra de protestantismo e que o protestantismo foi implantado com o apoio do absolutismo sob Eduardo VI, o rei menino.

2 - A respeito da liberdade de consciência convém registrar jamais ter sido ela CONSCIENTEMENTE defendida por qualquer reformador!

Nem por Lutero, nem por Calvino, nem por Zwinglio ou por qualquer um outro.

Lutero amaldiçoou em diversas ocasiões aqueles que interpretavam as escrituras de maneira oposta a sua. Apelou repetidamente ao podre do braço secular com o intuito de intimidar os dissidentes, decretando que houvesse um só sermão apenas! Por fim, a semelhança de Maomé, mandou exterminar os desgraçados anabatistas.

"Além disso, os Anabatistas separam-se de igrejas e estabelecem um ministério e congregação próprios, que é também contrário à ordem de Deus. De tudo isso, se torna claro que as autoridades seculares estão compelidas a infligir punições corporais nos ofensores. Também quando é um caso de apenas defender alguns princípios espirituais, como o batismo de crianças, pecado original e separação desnecessária, e então, nós concluímos que os sectários teimosos devem ser postos à morte.  LUTERO in Janssen, X, 222-223; panfleto de 1536).

Melanchton, seu secretário, inclusive, assinou diversas sentenças de morte contra eles!

Lutero ficava satisfeito com a expulsão dos católicos. Melanchthon era favorável à imposição de penas corporais contra eles [. . .]" (Janssen, V, 290)

Calvino mandou supliciar Servet a fogo lento por ter cometido o 'crime' de negar que a doutrina da Trindade estivesse contida na Bíblia. Já seu púpilo Th Beza, descreveu a liberdade de consciência como sendo uma 'doutrina diabólica' e justificando exaustivamente a necessidade que exterminar todos os dissidentes religiosos.

A defesa mais habilidosa de perseguição durante o século 17 veio do presbiteriano escocês Samuel Rutherford (A Free Disputation Against Pretended Liberty Of Conscience, 1649).” (Chadwick, 403)

Outro inimigo declarado da liberdade de consciência foi o também calvinista Thomas Edwards, autor da Gangraena.

Já U Zwinglio decretou uma Fatwa contra todos os anabatistas de Zurich fazendo com que os infelizes fossem atirados aos rios com grades amarradas a seus corpos.Além disto “...chegou a declarar que o massacre dos bispos era necessário ao estabelecimento de um Evangelho puro. . . Em 4 de maio de 1528, ele escreveu: ‘Os bispos não desistirão de sua fraude... até um segundo Elias aparecer para fazer chover espadas sobre eles. . . É mais sábio arrancar for a um olho cego do que deixar o corpo todo corromper-se.’” (Janssen, V, 180; Zwingli's Works, VII, 174-184)

Além de a semelhança de um segundo Maomé morrer com a espada nas mãos no campo de batalha de Kappel, após ter invadido com suas hordas os cantões Católicos.

Se alguém ainda abriga o preconceito tradicional que os primeiros protestantes eram mais liberais, ele deve ser desenganado. Salvo por algumas palavras esplêndidas de Lutero, confinadas aos primeiros anos, quando ele era impotente, não há quase nada a ser encontrado entre os principais reformadores a favor da liberdade de consciência. Assim que eles detinham o poder de perseguir, eles perseguiam.” (Smith, Preserved (S), The Social Background of the Reformation, Pg. 177 - New York: Collier Books, 1962)

Por onde se concluí que jamais pretenderam sancionar a liberdade de consciência!

3 - Igualmente absurda a tese segundo a qual os reformadores protestantes fossem incrédulos ou pretendessem favorecer a incredulidade, quando - assinala com razão Laurent - colocavam a fé cega acima de tudo.

Ninguém mais crente do que aquele que é capaz de excluir a razão - Lutero - e apresenta-la como uma doida varrida.

Ninguém mais crente do que aqueles que excluem a liberdade e a colaboração humanas tudo atribuindo magicamente a graça (monergismo) a ponto de construírem dogmas monstruosos como a predestinação.

Nada mais crente do que acreditar na veracidade da Bíblia - digo antigo testamento - de capa a capa com todas as lendas e mitos judaicos.

Em tudo foi o protestantismo um excesso ou abuso: do livro, da graça, da fé... em tudo uma hipertrofia... uma apoteose da credulidade.

Neste sentido ousamos proclamar em alto e bom som a excelência do espírito Católico ou mesmo da igreja romana cuja teologia sempre reconheceu as capacidades da razão e da liberdade!

Buscando tudo atribuir diretamente a deus, o protestantismo estava mesmo destinado a converter-se em paladino do criacionismo.

Nem se pode imaginar nada mais oposto a incredulidade.



4 - Neste caso qual seria o elemento comum existente entre protestantismo, Revolução Francesa e por extensão a Revolução russa?

O único elemento comum entre a Revolução Protestante e as revoluções subsequentes encontra-se no nível da forma ou do método.

Uma vez que os reformadores foram os primeiros homens modernos a atacar violentamente - em termos físicos e materiais - seus adversários, no caso a igreja romana ou os Bispos Católicos, recorrendo a autoridade secular, as armas e a guerra aberta.

Historicamente a Reforma protestante constitui um marco. Pois foi nela que pela primeira vez uma categoria ou grupo de cidadãos (no caso os burgueses e citadinos) pegaram em armas com o objetivo de alterar as instituições sociais. Neste sentido, puramente externo ou formal, a Reforma é mãe de todas as revoluções modernas.


É por esse motivo que pastor algum tem o direito de condenar as Revoluções Francesa, Russa, Mexicana ou quaisquer outras manifestações sociais de violência porque sua querida reforma deu-se exatamente nos mesmos termos ou seja enquanto uma irrupção de violência sem precedentes!

Não foi ao redor de uma mesa apreciando finos licores e petiscos que a reforma foi decidida, mas em campos de batalha como Kappel... ao fragor das armas! 


E nem se pode negar que ainda no berço a maravilhosa reforma tombou no vício da igreja romana e no erro do islã, impondo o novo Evangelho a ferro e fogo!

Neste sentido negativo foi revolução e matriz de todas as revoluções subsequentes!

A filosofia ensinou-nos que todas as questões podiam e deviam ser resolvidas racionalmente. O Cristianismo antigo que quase todas as questões podiam e deviam ser resolvidas pacificamente.

A reforma além de ter sacrificado a razão e a liberdade, sacrificou também o dom da paz.



5 - Tudo quanto podemos dizer a respeito das liberdades modernas é que foram produto da rivalidade e luta travadas entre a igreja antiga e a igreja nova.

Assim o que Voltaire e Laurent declaram a respeito de Lutero e Calvino, dizendo que sem eles a Revolução Francesa teria sido impossível, podemos dizer igualmente a respeito do papado:

Caso o papado não tivesse resistido e feito oposição a reforma protestante revolução alguma teria sido possível.

A bem da verdade os nichos de incredulidade, laicismo e liberdade, surgiram apenas onde as forças das duas comunhões anularam-se uma a outra ou onde as diversas seitas protestantes estavam em luta pelo poder.

São dois os fatores que devemos levar em conta ao analisar a questão do surgimento das liberdades modernas:

  1. A fragilização da até então onipotente igreja romana
  2. A impossibilidade de qualquer seita protestante assumir seu lugar ou substituí-la numa dimensão continental

A bem da verdade o que os reformadores pretendiam não eram fragilizar a igreja romana, mas destruí-la por completo e ocupar seu espaço.

Concretizada tal aspiração teríamos a Bíblia no lugar o papa e uma inquisição bíblia implantada em larga escala a semelhança do que ocorreu na Genebra de Calvino, a nova Jerusalém dos reformados.

Eis o modelo de 'sociedade' ou república que os protestantes esperavam poder implantar na Europa como um todo, algo bem mais rigoroso e intransigente do que o modelo papista!

Em que pese o juízo de Laurent, tanto Montaigne quanto Rabelais não tardaram a perceber porque sendas pretendia a reforma guiar os povos, pelo que o último aproximou-se decididamente da igreja romana, cujos ensinamentos Montaigne jamais questionou.

Moralmente falando a reforma, com seu puritanismo de duvidoso talhe, tinha diante de si um modelo bem mais rígido, quase monacal ou ascético.

Cumpre indagar que espaço estaria reservado a liberdade num cenário destes???....

Não é da reforma que surgem nossas liberdades e sim da frustração do projeto social delineado pelos reformadores. Os quais não tiveram folego suficiente para ocupar como desejavam os espaços deixados pela igreja antiga.

Temiam sobremodo que as massas fizessem a eles o mesmo que eles haviam feito aos Bispos e rejeitassem de imediato qualquer tipo de instituição ou culto religioso. Pelo que tiveram de limitar ou nivelar suas pretensões.

Em suma a reforma jamais esteva altura da tarefa a que se propôs: substituir a igreja antiga ou por-se no lugar dela.

Assim em poucas gerações, aqueles que haviam trocado de religião, concluíram que bem podiam passar sem qualquer uma.

Ao fim de dois séculos ou século e meio parte dos protestantes chegou a conclusão de que a nova igreja era tão inutil quanto a antiga.

Já no plano político não tinha a igreja nova como suster suas pretensões autocráticas. Por mais que lhe sobrasse vontade não tinha poder para tanto.

A velha igreja como já dissemos saíra abalada desde o começo. Temia acima de tudo que qualquer rei ou príncipe imitasse os exemplos de Lutero ou Calvino... tendo de conter parte de suas exigências.
Este conflito entre as instituições religiosas modernas e a igreja antiga desgastou ambos os lados. Fazendo com que limitassem mais e mais suas pretensões.

Sem qualquer um dos lados não haveria Revolução Francesa.

A criação de uma sociedade 'Bíblica' em escala continental com a posse dum aparelho inquisitorial, bastaria para amedrontar príncipes e reis e atrasar por séculos a ulterior evolução política do Ocidente.

Assim se devemos a reforma a anulação do poder papal, devemos a igreja romana a anulação do novo poder que pretendia afirmar-se: o poder bíblico.

É a Sociedade moderna produto de duas forças religiosas que anularam-se mutuamente.


6 - E quanto a afirmação da incredulidade, deísmo, materialismo e ateísmo; colaboraram as duas comunhões: romana e protestante na mesma proporção?

Se em termos políticos e sociais podemos analisar com segurança o rumo das coisas e perseguir seus caminhos, o mesmo não se dá a nível de pensamentos e crenças. Aqui estamos diante de um fenômeno tanto mais complexo.

Pois nem todos os que aderiram aos pressupostos laicistas ou secularizantes, do século XVI ao século XX eram necessariamente irreligiosos. Assim se haviam anti clericais virulentos nos países 'católicos' também havia um grupo igualmente forte de 'católicos' modernistas, ou seja, em maior ou menos grau favoráveis a liberdade de consciência e a democracia. Alias este grupo só veio a ser penalizado em meados do século XIX, por Pio IX, o papa reacionário, inspirador do ideário integralista.

Até Pio IX os católicos democráticos, laicistas e ou socialistas sempre haviam feito parte da vida de igreja. A par dos anti clericais virulentos e dos legitimistas, uns e outros faziam parte de um cenário social bastante variado. Isto já nos séculos XVIII e XIX.

Pio IX foi o primeiro papa moderno a romper a barreira estabelecida desde os séculos XVI/XVII e a aspirar por um poder semelhante a dos grande papas da Idade Média. Antes dele os papas e mais ainda os Bispos estavam muito mais preocupados com a pureza da fé. De certo modo ele intensificou ainda mais o conflito existente entre a Igreja e o principado secular, na medida em que nutria pretensões aparentemente teocráticas.

Uma coisa porém é certa: tendo em vista a existência de dogmas muito bem definidos, a igreja romana jamais cogitou em negociar sua fé com quem quer que fosse. Impôs os limites de sua ortodoxia e lanço fora os que não se conformavam com eles. Tal a origem do partido anti clerical!

Implica admitir que a incredulidade jamais foi capaz de infiltrar-se profundamente na corpo da igreja antiga.

Já o mesmo não se dá com o protestantismo.

Em função do princípio do livre exame.

Santificado o princípio do livre exame, que é um princípio meramente formal e portanto vazio, fica impugnada a pretensão de uma verdade objetiva que transcenda os indivíduos.

É verdade que o protestantismo nascente associou ao método do livre exame, a doutrina mágico fetichista da inspiração direta do espírito santo, ainda hoje sustentada pelos pentecostais.

Bastante cedo porém, a diversidade de interpretações e seitas, fez com que os protestantes da Europa substituíssem a tal inspiração mágica do espírito santo pelo princípio natural da razão humana. Desde então ficou o livre examinismo naturalizado...

Convertendo-se a fé cristã em opinião individual.

Ou melhor em inúmeras opiniões uma vez que cada qual tem a sua...

Por volta do século XVIII era tal o número de interpretações que pouquíssimos protestantes cogitavam estar em posse da verdade.

Assim enquanto uns convencionaram que não havia verdade alguma outros convencionaram que todas as opiniões ou interpretações eram verdadeiras e; nem por isso, tais pessoas; sem fé, cogitavam em não ser protestantes. Transformando-se, ao cabo de três ou quatro séculos a igreja do fideísta Lutero num clube de incrédulos, deístas, materialista e até mesmo ateus.

Chegamos forçosamente a conclusão de que o princípio formal do protestantismo ou melhor sua naturalização culminou em tornar a comunidade protestante num repositório de incredulidade e irreligião. Sem que houvesse qualquer ruptura brusca ou mesmo negação do protestantismo devido a continuidade do método. Assim a instituição protestante, ao contrário da papista, não só acomodou-se as novas ideologias irreligiosas como chegou a promove-las ativamente. A ponto de seus teólogos conceberem a teologia da 'morte de Deus'. Nem preciso dizer que Nietszche foi filho de um dos principais doutores do luteranismo.

Além disto a própria proposta de exerce fé na Bíblia toda de capa a capa - ao menos após o século XVIII e a afirmação do padrão científico de pensamento - com seus mitos, fábulas e dogmas absurdos (antigo testamento) agravou ainda mais a situação, aumentando a crise da fé. Neste sentido a igreja romana e demais igrejas Católicas com seus trinta e poucos dogmas objetivamente definidos e por consequência limitados saiu-se e ainda hoje se sai muito melhor.

Eis a razão porque certo número de ateus e materialistas fanáticos nutrem franca simpatia pelo sistema protestante - em que pese o pentecostalismo e o criacionismo - e assestam suas baterias contra a igreja antiga, quiçá por esta ser ainda hoje mais resistente.