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sábado, 2 de dezembro de 2023

Apresentação do Cristianismo Histórico não deturpado pelos Ocidentais ou latinos (Protestantes e romanos)


- Jamais existiram quaisquer Adão e Eva, criado a partir do barro ou magicamente feito a partir de uma costela.
Como jamais existiram árvores do bem e do mal, serpentes com asas ou patas ou ainda um jardim do Éden.
Tudo isso não passa de um relato mitológico produzido a partir do 'Enumah Elish', um relato babilônico ancestral. Alias nesse relato é o homem feito a partir do barro de modo a significar seu alto valor posto que do solo barrento da Mesopotâmia eram feitos os tijolos com que se construíam as cidades, os potes de cerâmica e até mesmo as tabuinhas com que se escrevia.
Em sua ingenuidade os antigos hebreus copiaram o relato ancestral, o que se enquadrava perfeitamente em sua mentalidade era mágico fetichista ou pré científica.
Forçoso declarar que nada há de histórico ou real em tal relato. No máximo teríamos uma ilustração alegórica sobre a presença do mal no mundo ou ainda sobre a ação organizadora do espírito sobre a matéria, ainda que muito mal compreendida. O mais provável é que o elemento material seja eterno e que o elemento Imaterial ou divino atue eternamente sobre ele produzindo uma infinidade de mundos.


- E no entanto o mal moral ou ético está presente no mundo dos humanos desde seus primórdios e representa uma infidelidade a própria consciência, testemunha de uma Lei superior e divina.

- Naturalmente que o mal moral faça pressupor, naqueles homens, consciência ou conhecimento e livre vontade. Embora o raio dessa consciência dependa das circunstâncias histórico sociais. Nem precisa ser sua extensão idêntica a nossa.

- A própria doutrina Ortodoxa declara e admite que esse mal, não metafísico ou essencial, perpetuou-se pelo exemplo, i é, através da educação, da cultura, etc Não se trata portanto um mal juridicamente imputado a pessoas inocentes e menos ainda a uma 'massa' de seres humanos. Pois não é próprio da justiça infinita transferir a culpa do criminoso aos inocentes e isso é sempre aberrante.

- Tampouco corrompeu ele por completo a natureza humana, a ponto de afetar a racionalidade e a livre vontade ou as capacidades para conhecer e decidir, limitando-se a feri-la ou debilitada. Nem poderia qualquer ação humana destruir por completo a 'Imagem e semelhança' de nosso bom Deus.

- Disto resultou a alienação da espécie com relação ao Sagrado ou uma ruptura. Noutras palavras: Perdeu o ser humano sua comunhão com Deus e com o todo ou o universo e, a partir daí, fragmentou-se ainda mais. E por esse caminho chegamos a ambivalência e ao conflito interno.

- Para sanar, recuperar, purificar e educar esse ser fragmentado e decadente, a Trindade consubstancial e indivisível, assumiu a natureza humana e se manifestou na carne.

- Nem as pessoas divinas se separaram - Qual fossem diferentes deuses. - e deram morte uma a outra ou pagou a excelsa divindade qualquer coisa a quem quer que fosse. Pois não há poder superior a ela nem é ela masoquista.
Quis a divindade partilhar da nossa condição e padecer na cruz para manifestar sua solidariedade ou seu amor e ser nosso companheira na jornada da dor e do sofrimento. E tal é um ato de infinita nobreza, gentileza, benevolência e filantropia. Embora seja Deus impassível em si mesmo, tornou-se nosso camarada por meio da natureza humana a que se uniu.
Imolou portanto a si mesmo apenas para nos atrair a si.

- Por fim todos os humanos, mesmo após a morte e sem dúvida alguma até o dia do juízo final, tem a possibilidade de se unirem a Jesus Cristo ou de abandonar o mal e passar ao bem. E alguns de nós tem a esperança de que tal possibilidade se estenda para além do juízo final e de que todos sejam recuperados ou restaurados no Deus encarnado Jesus Cristo.

Tal a versão original, legítima e correta do Cristianismo - Sem Triteísmo, expiação, predestinação ou penas eternas. - não deturpada pelos papas romanos, reformadores protestantes e sobretudo Agostinho. A Ortodoxia oriental é testemunho histórico disto.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Pecado ancestral, tentação, Super ego, Freud e o Evangelho... Por uma nova compreensão em torno do Super ego (Ensaio de semi pelagianismo)


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É a doutrina Ortodoxa do pecado ancestral uma versão bastante mais atenuada do pecado original proposta por Agostinho de Hipona do século IV. A qual pode ser entendida inclusive naturalisticamente e em conexão com a doutrina de Freud sobre o Super ego. É antes de tudo a experiência do mal no homem uma experiência humana e natural.

Admitido que Freud metafisicou bastante em torno de suas constatações - editando-as como generalizações nem sempre bem fundadas - podemos relaciona-lo com Agostinho, o qual do mesmo modo metafisicou a respeito de coisas que não podia compreender a seu tempo, chegando aos confins do maniqueísmo.

Para os naturalistas ingênuos ou otimistas como Rousseau, é o homem uma criatura perfeita ou melhor harmoniosa. A Sociedade no entanto contamina-o ou infecta-o e nele introduz o mal. Temos de admitir que Rousseau, o otimista, estava absolutamente correto, ao identificar a Sociedade ou seu produto a cultura, como fonte do mal ou do pecado. Seu erro consiste em imaginar o homem, em qualquer tempo ou fase de sua vida separado da Sociedade, pois é este homem um ser social, social do berço ao túmulo. Social porque assim que nasce deve ser limpo, alimentado, aquecido, protegido... por outros seres humanos ou por um pequeno grupo social chamado família. E nem as famílias vivem isoladas umas das outras. Sendo o homem ao nascer um ser familiar, é concomitantemente um ser social, que pela família entra em contato com outros homens.

Uma vez que a sociedade ou a cultura estão impregnadas pelo pecado - mas não só por ele - o homem, gerado, nascido e criado em contato com a sociedade e a cultura terá sua mente preenchida em parte com memórias, recordações ou elementos pecaminosos. Temos assim no pecado ancestral uma potência que pelo pecado atual ou pessoal converte-se em ato.

Evidencia-se com prístina claridade a genialidade da doutrina do alexandrino, repetida por S João Damasceno na 'Fé Ortodoxa' é o pecado ancestral transmitido pelo exemplo humano, pela sociedade e pela cultura enfim. E assimilado pelos sentidos e pela memória - pela mente enfim - desde a vida infra uterina. Assim antes que atinjamos o estágio operatório formal, lógico ou racional - estágio em que nos tornamos aptos para julgar e decidir - temos já um substrato pecaminoso ou maligno em nossa mente.

Podemos então falar, quanto a diversos casos, num super ego pecaminoso, fonte das tentações com que o inconsciente opõem-se, diversas vezes, a deliberação racional. Dando lugar ao tão conhecido estado de combate ou ambivalência porque chegamos, não poucas vezes a neurose. Mas não estou a falar a lingua de S Freud, i é, em sexo ou sexualidade. Cristão Ortodoxo, não maniqueu ou judaizante, estou a falar em verdadeiros pecados ou dilemas éticos - postos pelo Santo Evangelho - e assim em princípios divinos como honestidade, justiça, solidariedade, amor, lealdade, etc é disto que estou a falar, numa concepção autenticamente Cristã ou Católica de pecado ou virtude e não em baboseiras puritanas ou moralistas.

Somos capazes de armazenar em nossas mentes, segundo o ambiente em que fomos criados, uma massa de princípios anti éticos. Noutras palavras um inferno interior ou um Diabo interior e todos conhecem a clássica imagem do anjo e do diabinho. E no entanto a composição do homem interior ou da mente jamais será totalmente má mesmo majoritariamente má. Tudo dependerá do ambiente, da educação, da formação, dos valores concretamente manifestados pelas pessoas com quem entramos em contato... O que nos faz avançar na direção da tese a respeito de um super ego majoritariamente ético ou bom, harmonizado com o aparato consciente ou racional.
Por meio de um super ego majoritariamente pecaminoso, face a uma deliberação racional saudável impoẽm-se o cenário de um drama - o drama do homem enquanto ser dividido ou fragmentado. Cindido entre o consciente ou o aparato racional e um inconsciente pecaminoso. Este drama, percebido por Agostinho e antes dele por Paulo é um drama real e vivo. Com que sentimentos não registrou o apóstolo: Faço o mal que desejo e o bem que desejo não faço. Que significa isto senão a luta ou a guerra entre o homem exterior, cônscio de seu dever e o homem interior dominado por instintos atávicos e más memórias?

Admitida esta compreensão podemos dar por desnecessária e fútil a ação externa de um suposto diabo. É o homem, e algumas parcelas do Novo Testamento já o sabiam, tentado por si mesmo e não por qualquer agente exterior, embora possa também ser sugestionado por outros homens. Claro que uma tentação que parte do interior ou de dentro será sempre mais intensa e incomodativa, afinal é difícil ao homem fugir de si mesmo. Outra constatação é a de que inexiste qualquer transmissão mágica em torno deste pecado... e tampouco qualquer tipo de culpa ou pena, pelo simples fato de não haver assentimento e portanto 'pecado' propriamente dito. Semente não é fruto. Pecado ancestral não é pecado pessoal ou atual, e portanto não implica culpa, e por não implicar culpabilidade não serve de obstáculo entre nós e o sagrado.

O que ele faz é predispor-nos ao pecado pessoal e desde então cindir por assim dizer, a pessoa humana, convertendo-a num campo de batalha, disputado por forças diametralmente opostas; as impressões maléficas e a deliberação racional ou consciência. Eis uma realidade a que não podemos fugir e mesmo os naturalistas são obrigados a encara-la no terreno da Psicologia. Todo homem que aspirar viver conforme os ditames da consciência e deliberação racional encontrará dificuldades e experimentará conflitos interiores.

Freud topou com mentalidades dominadas por conflitos de ordem sexual porque exerceu sua atividade num contexto saturado de puritanismo ou maniqueísmo. Noutros contextos sociais, em que a sexualidade, por não ser demasiadamente reprimida, não se tornava obsessiva, daria com outros problemas, inclusive com dilemas éticos. Assim as relações que descobriu e a que chamou complexas foram produtos de determinadas situações culturais.

Destarte poderíamos supor um outro tipo de Super ego, tanto mais próximo da consciência ou em harmonia com ela. Claro que isto implica a adoção de uma determinada lei ou padrão e de um padrão ético por parte dos educadores, dos pais, das famílias e mesmo da sociedade. Um contexto social em que predomine a ética da pessoa produzirá um substrato mental ou um super ego virtuoso e portanto em sintonia com a deliberação racional. Do que resultará uma vida equilibrada.

Claro que a pergunta que se faz é se além dos bons exemplos que se fixam na memória por meio do esforço cultural a que chamamos educação existe algo de bom imanente no próprio homem. E é claro que estamos invertendo a doutrina de Agostinho e postulando a presença de um bem metafísico. Se em termos de intelecto nossa resposta é um sonoro ou rotundo não, no sentido de que não há conteúdo de virtude ou de ética que anteceda a experiência vivida ou a operação sensorial (empirismo), em termos de uma vontade informe, intuição ou atração podemos dizer que sim e que este homem, possuindo elementos bons e mais em sua mente, identifica-se com os bons, tendendo ao bem. Por isso mesmo o homem natural com experiências de pecado continua sendo atraído pelo bem e realizando coisas excelentes, apenas violando a si mesmo, a sua natureza, a sua condição, o âmago de sua consciência, transforma-se num monstro.

Neste caso, se o homem contém algo de bom em si e tende ao que é bom para que a graça i é a Unidade de Jesus Cristo.

No plano natural por mais que aspire pelo bem, pela virtude e pela perfeição não pode este homem deixar de cometer o mal ou de pecar ao menos episodicamente, devido a ação deste super ego, no qual, em maior ou menor medida existe o mal. Do estado de combate contínuo a que esta exposto, ao menos em algumas ocasiões, resultará a derrota deste homem e, do ponto de vista puramente natural, um afastamento com relação ao Sagrado ou uma profanação. Outro seria o caso se os primeiros homens aos quais coube a deliberação racional tivessem sido fiéis a suas consciências e repudiado o que estavam habituados a fazer. Ao que parece não fizeram isto, cederam livremente a fragilidade e cometeram o primeiro pecado atual e após este alguns outros... até que o mau exemplo contaminou a todos e pelo exemplo fixou-se em todas as mentes, tornando o ideal da impecabilidade impossível.

Por isso manifestou-se o Verbo eterno Jesus Cristo, nosso Legislador e Mestre com o duplo objetivo: De fixar um padrão absoluto de ética por meio de sua Lei, o Evangelho ou o Sermão do monte e de auto comunicar-se a todos os homens de boa vontade, ou que se sentiam desconfortáveis face as situações de pecado. Por auto comunicar-se compreenda-se: Agregar-nos espiritual e intimamente a si, ligar-nos a sua Unidade e oferecer-nos a sua amizade que é a graça.

No entanto não é esta graça elemento neutro ou de enfeite mas um elemento ativo ou capacitador, o qual vem em socorro de nossa boa vontade ou do bem que há em nós reforçando-o contra as tentações. Coadjuvados pela ação da graça podemos resistir heroicamente as tentações internas e vence-las, podemos resistir ao pecado e romper concretamente com ele, podemos cessar de pecar e nos tornar santos, podemos cumprir o mandamento de Jesus Cristo: Sede perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito. Isto é a conversão, 'Metanoia' ou mudança, não de opinião ou crença, mas de vida.

Podemos assim, por meio de uma educação ética, conforme os princípios do Evangelho, produzir super egos cada vez mais puros e diluir o drama do conflito. Como podemos com o auxílio da divina graça superar o conflito e assumir uma vida de santidade e perfeição. Uma mente nutrida do Evangelho desde o berço e posta em contato com a graça do Senhor trilhará a passos largos a senda do bem, do amor e da justiça. Uma memória impregnada por bons exemplos e socorrida pelos Sacramentos não poderá deixar de frutificar abundantemente e de dar bons frutos cem por um.

sábado, 6 de maio de 2017

O sentido da Encarnação: Como Deus sendo absolutamente perfeito torna-se livre e solidário


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Como dissemos no artigo anterior Criação e Encarnação não implicam impossibilidades. Antes implicam uma necessidade interna ditada pela própria essência divina. Donde concluímos que se são absolutamente necessárias é que enriquecem a Deus, antes Deus só é absolutamente perfeito porque produz criaturas e faz-se criatura entre as criaturas... E como não pode ser imperfeito é constrangido por sua própria condição a criar e a fazer-se homem. Deus não podería deixar de faze-lo sem empobrecer-se e tornar-se 'inferior' o que é absolutamente impossível.

Resta saber se de algum modo pode Deus tornar-se livre de alguma maneira e como isto se dá.

Uma vez que corresponde a perfeição do ser criado ser livre ou optar conscientemente pelo bem ou o mal, segue-se que a natureza humana e criada é 'livre' por definição.

Despojado do componente de sua liberdade cessa o homem de ser humano e converte-se em alguma outra coisa qualquer.

Ser livre é parte integrante de nossa condição finita.

Consequentemente ao fazer-se verdadeiro homem e lançar-se no mundo dos homens, Deus torna-se livre ou capaz de experimentar concretamente situações de liberdade no complemento da natureza humana que assumiu e incorporou a si.

Por isso da mesma maneira como atribuímos a necessidade absoluta a natureza divina tendo em vista sua natureza interna coerente e sua perfeição, afirmamos em alto e bom som a existência de vontade dinâmica ou livre arbítrio verdadeiro na natureza humana de Cristo.

Se foi questão de desafio ou curiosidade não diremos. Nós nos contentamos em afirmar que ele aceitou esta nova experiência movido antes de tudo pelo amor, pela bondade, pela generosidade, pela filantropia, pela piedade, pela solidariedade enfim...

Foi - Aqui L Chestov - movido por tão nobres sentimentos que Deus optou por sair de si mesmo, por abandonar a estabilidade, a bem aventurança, o conforto o comodismo, e experimentar aquela situação de desconforto, sofrimento, dor e drama representada pela Cruz. Afinal como observou Raskolnikoff todos os mortais nascem já sob este signo.

O fato é que diante do drama de nossa existência não quis a divindade omitir-se ou permanecer na platéia observando e aplaudindo. O Deus dos Cristãos e aqui esta sua beleza ímpar, o Deus da Igreja Ortodoxa e da fé Católica não é Deus insensível as situações de miséria e por isso quis irmanar-se e identificar-se ao máximo conosco. Quis se Emanuel ao invés de ficar tudo observando de oitiva como o tal ser absolutamente transcendente dos judeus e muçulmanos...

Nada mais cruel do que assistir impassivelmente o drama de nossa condição sem fazer-se participante ou ator. O deus semita permitam-me dizer francamente é mero espectador. Esse fantasma descarnado não sofre e furtando-se de sofrer não é capaz de consolar os sofredores. No Deus encarnado entre os homens apenas, no Deus que assume o encargo de caminhar conosco, no Deus do Evangelho, neste apenas temos um companheiro. Um Deus companheiro, coisa maravilhosa esta!

Este Deus lança-se no mundo dos homens e aceita o desafio de ser livre em sua natureza humana.

Aceita o desafio da liberdade.

Como não pretendo discorrer sobre meandros de alta teologia, furtar-me-ei de abordar as decorrências da liberdade da pessoa única de Cristo Jesus. É assunto de alta teologia, indigesto e enfadonho para muitos e incomodo alias para a maior parte dos Cristãos, ao menos inconscientemente docetas, maniqueus, monofisitas, monotelistas... Sempre tentados a mutilar, reduzir ou obscurecer a natureza humana de Cristo. Sabemos no entanto que é verdadeiro homem e se não levamos esta certeza até o fim destruímos o padrão de nossa fé que é a Encarnação. Deus só se encarna de fato caso se torne integralmente homem, sem restrições.

Homem em tudo semelhante a nós menos no pecado.

Portanto homem quanto ao corpo físico com seus processos e necessidades e homem quanto a liberdade com seus dramas mais íntimos.

Temos de assumi-lo, é necessário.

Não da mais para manter a piedosa farsa, oriunda da mitologia, a respeito de natureza pré adâmica ou pré pecado diferenciada com seu corpo de luz ou impassível. Tudo isto não passa de um delírio insano!

Tudo quanto pretendo aqui, por meio deste breve ensaio, é deixar bem claro e bastante claro é que o Deus Cristão mergulhou de cabeça no grande drama de nossa existência, a qual consiste em optar entre o bem e o mal, o perfeito e o imperfeito, o melhor e o medíocre, o superior e o inferior... Encarnado teve a natureza de Jesus que tomar decisões, as quais certamente não foram nem um pouco fáceis.

Segundo o critério da fé e piedade teve de abster-se do mal e do pecado. Sendo homem entre os homens não pecou... O que certamente toca ao heroísmo. E mais uma vez revela-nos a 'ponta' deste drama. Podia pecar, certamente foi solicitado ou tentado (Ser tentando sem consentir não é pecar!), mas não cedeu e não pecou. Tomou as decisões mais certas e convenientes convertendo-se em ideal utópico de perfeição para os mortais e ensinando-nos sobre como devemos agir e viver. Ministrou-nos as mais elevadas lições de éticas não apenas com os lábios ou com a boca, mas sobretudo com aquele amor que converteu-o num exemplar vivo do Evangelho que pregava e num compêndio ambulante de todas as virtudes!

Não era boneco ou marionete, vazio de espírito e controlado pela divindade. Era ser livre que livremente aceitou morrer e sofrer na Cruz obedecendo a um desígnio eterno: Atrair, persuadir, convencer e recuperar o ser humano através da manifestação de seu carinho infinito. Aspirou morrer para demonstrar o amor, que nos amava, que estava junto conosco, que se preocupava conosco, com nossa situação e condição. Cruz é isto - Não punição absurda e sádica imposta por qualquer outro poder superior (Segundo a fórmula blasfema - deus mata deus para aplacar deus) - símbolo ou prova de amor e cuidado. Caso o martírio não fosse livremente aceito onde ficaria o amor? Caso não fosse voluntario mas imposto por um poder supremo como conservaria seu profundo sentido?

A natureza Humana sempre pode furtar-se a solução final e por isso pouco antes de ser suspensa - No exercício da liberdade e esmagada pela dor - rogou a natureza Divina: Aparta de mim este cálice, emendando-se logo depois: Conformo esta minha vontade com a tua! Mas instante antes havia hesitado e manifestado desconformidade (Provocada do medo causado pela experiência da dor), justamente porque era livre e não manipulado ou controlado pela divindade.

A natureza humana conserva-se sua integralidade e autonomia e Jesus sobe o calvário por livre decisão. Optou por tomar a Cruz ao invés de recebe-la. Não foi imposição foi decisão e esta decisão deve ter sido mais dolorosa do que a própria Cruz ou ao menos igual. Pela contemplação do futuro a experiência dolorosa da Cruz já se antecipa a mente do mártir e até podemos dizer que desde o primeiro instante em que se fez homem sentiu a presença e o travo da cruz antecipadamente e que sua vida foi em certo sentido um martírio lento e uma subida paulatina ao monte do Gólgota.

Mais a natureza humana deve ser abandonada a si mesma e ao sofrimento não para que pague qualquer coisa ou aplaque qualquer coisa, mas apenas e tão somente para chegar as últimas consequências do amor e mostrar para os homens mortais que amar concretamente jamais e fácil, que implica decisões, limitações, sofrimentos, dores, sacrifícios e o que é pior - Tudo livremente aceito e racionalmente considerado.

Adianta-se Jesus e dá um passo a frente face ao drama de uma existência livre posta entre o bem e o mal, a abnegação e o egoísmo, o comodismo e o sacrifício. Mas como podemos fazer o que é certo se estamos sós? Como obedecer a lei eterna ou ao imperativo divino? Como exercer a virtude? Olhando para a cruz e contemplando o exemplo dado pelo próprio Deus que se faz companheiro. Nada impossível, absolutamente impossível ou utópico se a brecha dessa senda foi aberta por Jesus. Se ele tomou a dianteira e foi a frente. Não, o Deus Cristão apenas, e tão somente ele não exige de nós algo que não tenha ele mesmo feito. Por isso assumiu a livre vontade e submeteu-se a lei eterna da consciência. Não se trata de um deus demagogo, que muito exige sem nada fazer... Mas de um Deus educador e presente.

Resta-nos por fim esclarecer como e porque este Deus se manifestou visível e fisicamente na carne, uma vez que estava já presente no mundo, não ausente e separado. Então temos de saber como e porque já estava presente no mundo!

O que deslindaremos no último artigo desta série.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Instruir ou educar?

Não sou radical.

As vezes radicalismo é necessário.

Devemos ser radicalmente justos...

Na maioria das vezes porém os radicalismos são maléficos.

Em educação há dois extremos bem distintos. Alias em educação há diversos extremos.

Um deles no entanto diz respeito ao instruir e ao educar.

Reflexo da velha e decantada 'oposição' entre teoria e prática.

Há vertente que opõem-se a instrução. Há até vertente que se opõem a existência da Escola e do professor...

Não sou contra a instrução, a escola, o professor...

Penso no entanto que tais realidades devam ser repensadas.

Aprofundadas, ampliadas, redimensionadas...

Classificar o ato de instruir como mau parece-me aberrante.

Mesmo no 'mundo da informação' instruir continua sendo necessário.

A carga de informação é tanta e tão grande que o homem moderno precisa aprender a lidar criticamente com ela.

O que exige a assimilação de certo elemento teórico.

A própria formação do hábito exige pressupostos teóricos.

Ser crítico é hábito que alimenta-se de teoria, que lida com teorias, que exerce juízo sobre teorias.

De fato quando o preceptor limita-se a instruir executa um trabalho incompleto e quiçá superficial.

Importa plasmar comportamentos e criar hábitos. Educar.

Toda instrução deve ser superada, completada ou ultrapassada pela educação.

Não se trata aqui de comunicar ou transmitir conteúdos; mas de fazer-se imitar, de contagiar com o exemplo, de revelar a possibilidade da auto educação enquanto processo que se perpetua durante toda vida.

Para além de ensinar a ler, escrever, contar, calcular, etc o educador de verdade deve fazer com que seus alunos gostem de aprender. Professor realizado é aquele que conseguiu despertar nos educandos o amor pelo saber!

Ser professor é aspirar por ser desnecessário e ficar contente por ter se tornado desnecessário. Que o filho aprenda a caminhar sozinho é o supremo desejo dos pais... que o educando aprenda a instruir-se, a obter as informações, a refletir, a julga-las, a posicionar-se criticamente, a exercer sua autonomia deve ser a meta do educador humanista...

"Que ele cresça e eu desapareça." deve ser nosso leme.

Educar é educar para a autonomia, para a independência, para igualdade.

Instruir ou informar é ato que por si só poderia prolongar-se por séculos sem jamais esgotar-se. Produzindo assim um laço de dependência. Educar é estimular a aquisição de posturas, de princípios, valores, habilidades, competências, etc que nortearão o processo educativo pelo resto da vida...

Instruir por si só não liberta a quem quer que seja. Educar é ato essencialmente libertador.

Instruir é comunicar conceitos ou teorias via de regras por meio da palavra oral ou escrita. Implica despejar em maior ou menor medida. Implica orientar, guiar, corrigir, etc o que não deixa de ser necessário, especialmente nas séries iniciais.

Educar é coisa que se faz antes de tudo pelo exemplo.

Caso esperemos que nossos alunos amem a justiça, não basta declamar poesias ou fazer belos discursos a respeito dela. Mas praticar a justiça e ser inflexivelmente justo em sala de aula; jamais compactuando com a injustiça.

Caso desejemos que amem a leitura, temos de ler em sala de aula com eles e diante deles, temos de leva-los a Biblioteca, temos de estimular e favorecer de todas as formas possíveis a leitura dos livros distribuídos na Escola, temos de tentar produzir gibis e livros com a turma... e não de sermoar.

Esperamos que nosso aluno apresente-se asseado na escola; antecipe-mo-nos e apresente-mo-nos sempre muito bem asseados em nossas classes.

Esperemos que nossos pupilos sejam corteses. Comecemos praticando a cortesia com eles e esbanjando fórmulas como: Bom dia! Com licença! Por favor! Muito obrigado! Nem posso crer que um educador de verdade sinta-se humilhado por ser amável e cortes com seus alunos! Antes julgo que se não é fácil ao menos tentar sorrir para eles, a causa esta perdida...

Problemático é educar com a cara feia...

Ninguém sabe disto melhor do que o governo.

Para o qual é sempre bom negócio transformar escolas em Val de lágrimas ou calvários estudantis... em espaços opressores, em que os alunos se sentem mal, e em que encontram dificuldades para aprender.

Se há alegria, felicidade ou prazer o educador esta a meio passo de consumar sua tarefa...

Educar é tarefa a que muito facilita o contentamento e a que muito atrapalha o desconforto.

Assim se o aluno encara a escola como um espaço triste, desagradável ou chato nossa tarefa fica seriamente dificultada.

Sabem-no como registramos a pouco governos como o de São Paulo (estado) e Paraná. Daí buscarem dificultar ao máximo as vidas de seus educadores, restringir seus direitos, tornar suas jornadas penosas, humilha-los em sessões de HTPCs, esbordoa-los publicamente; em suma desvaloriza-los e desmotiva-los ao máximo até torna-los bárbaros, cruéis e insensíveis.

É o estado liberal responsável pela falência do processo educativo na mesma medida em que tira do professor a satisfação de ensinar, que mata nele o gosto pela educação, que priva-o das condições necessárias para amar e encarar seu aluno com carinho, que sobrecarrega-o com preocupações inúteis, que onera-o com tarefas desnecessárias, que transforma sua carreira num 'inferno' profissional...

Desampara o docente, permite que a estrutura material se desmantele, recusa-se a produzir as alterações espaciais necessárias... IMPLEMENTA - POR MEIO DUMA GESTÃO DESASTROSA - A FALÊNCIA DO ENSINO PÚBLICO, para em seguida propor sua privatização!

Para além disto, como já dissemos, o aluno aprende muito menos neste tipo de Escola... Não consegue sair da caverna, permanece preso as velhas e ultrapassadas formas de pensamento, e... impossibilitado de ultrapassar os preconceitos, fecha-se em seu mundinho para sempre.

É um tipo de educação que raramente produz qualquer sentido social, político, econômico... mais profundo, qualquer tipo de consciência mais refinada... qualquer tipo de questionamento mais sério. É educação falsa, que não produz ruptura, reflexão, posicionamento crítico, compreensão de mundo.

Num ambiente seletivo como este que pode fazer o bom professor, o educador consciente, o preceptor honesto???

Não quero ser pessimista e declarar que ele nada possa fazer.

Jamais desesperei do amor, do carinho, da justiça, da justiça, do bem, da virtude... mesmo que as condições materiais sejam dramáticas e as estruturas opressoras.

Mas também não posso crer que tais esforços possam alterar sensivelmente a dimensão social desta triste realidade.

Não possuímos um exército de mártires ou monges a serviço de uma educação humana.

Por outro lado não é desprezível o número de educadores que premidos pelas forças do currículo e da equipe gestora limitam-se a reproduzir mecânica e acriticamente o que é decretado, havendo também certo número de individualistas e carreiristas, os quais buscam manter seus cargos sem maiores preocupações.

Nem vejo como alguém possa 'educar' numa perspectiva ética sem sentir-se incomodado pela seletividade arbitrária do sistema.

Diante disto, que fazer?

Abandona-lo???

A educador algum que acalente o bom idealismo de inserir-se para fazer oposição ao sistema, direi que não o faça o que não valha a pena. Direi que será um grande desafio, que se aborrecerá, que sofrerá, que padecerá... mas de modo algum direi que não o faça ou que não vá.

"O coração tem lá suas razões que a razão desconhece."

Apesar de ter chegado a meus limites e de - ao cabo de quase dez anos - ter desistido posso dizer que tenho bons motivos para alegrar-me pelo pouco que pude fazer no contexto do Ensino público do Estado de S Paulo. E até posso crer que o pouco que fiz foi muito. Valeu pelas almas que da caverna retirei. Não sei e talvez jamais venha a saber quantas foram... mas valeu por elas.

Importa ter comunicado algum amor pelo saber, algum sentido de alteridade, alguma consciência de justiça, alguma estima pela cultura científica...

Sempre que necessário informei, corrigi, orientei mas, acima de tudo busquei educar por meio do exemplo.

Busquei levar a meus queridos alunos atitudes que perdurem no decorrer de suas vidas.

'Aprender a aprender', 'Aprender a ser' e acima de tudo 'aprender a conviver' foi o quanto busquei despertar neles. Enfatizando sempre a importância da prática, sem ignorar o valor da teoria. Busquei fazer ponte entre os extremos e indicar um meio termo.

Pensei sobretudo em formar pessoas solidárias.

Não intelectuais que fabriquem bombas e venenos...

Prefiro a ignorância dos que amam e buscam beneficiar seus semelhantes.

Prefiro uma lavadeira compadecida, que saiba compadecer-se de um animalzinho qualquer, a um doutor diplomado que chute um cão ou um gato.

Apesar dos diplomas, títulos, condecorações, medalhas, etc não confio em pessoas que torturam e matam animais, que maltratam os mais humildes, que tem preço por alto que custe.

Precisamos de homens ou mulheres que tenham valor, não preço.

De seres verdadeiramente humanos que não se vendam, não se prostituam e não negociem.

Que saibam se opor ao que esta errado e resistir.

Do contrário repetiremos os velhos erros do nazismo e do comunismo.

Nem me refiro ao outro sistema: que sobrepõem o TER ao SER!

Não podemos permanecer atrelados a estas culturas de morte.

Temos de educar para a justiça, o amor, o ser, a liberdade, a vida, o bem, a paz, etc E de educar por meio da linguagem mais poderosa que há: o exemplo.

Professor, professora: fale menos, viva mais. Sua melhor e maior lição é sua vida, não se iluda, não se equivoque, não se engane! Confie mais em suas ações do que em suas palavras!

Menos sermões e discursos fastidiosos; mais carinhos, sorrisos, abraços, beijos, afeto, cortesia, respeito!

Não tenha medo de construir vínculos afetivos respeitosos e saudáveis, pois como alerta Wallon, são eles que tornarão o ensino significativo para nossas crianças.

Se o aluno gostar de você não terá dificuldade em interessar-se pelos conteúdos ministrados. Se ele desgostar de você as chances de transferir tal desgosto para os conteúdos são enormes...

Então faça-se gostar, seja amável, jovial, entusiasmado! Apesar do Estado, dos problemas, do salário, etc se é a profissão que escolheu busque desempenha-la da melhor maneira possível. Pense sempre no professor que queria que seus filhos e netos tivesse e torne-se digno desta meta.

Não desista, não se acomode, não desanime; lute, lute como um leão.