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domingo, 19 de março de 2023

Psicologia, psicanálise, Freud e a questão da multiplicidade de existências - Reflexões sobre a obra de Hermínio C Miranda 'A memória e o tempo' Edicel 1984 - Parte VIII



 Parapsicologia e Epistemologia



            Agora imaginem os leitores - Se o advento da autêntica Psicologia (James E Dittes sequer precisou ser genial ao relacionar Thouless com Freud - Embora pudesse relaciona-lo do mesmo modo com Wertheimer, Kohler, Koffka e toda Psicologia profunda.) espantou os ideólogos materialistas, imaginem então a aparição de um conhecimento precipuamente empírico ou experimental... 

            Foi essa nova área do conhecimento cognominada Psicologia supranormal por Enrico Morselli, metabiologia ou psicobiofisica por F Cazzamali, Metapsíquica pelo prêmio Nobel Charles Richet e enfim Parapsicologia por Max Dessoir com o posterior Placet de J B Rhine. 

            
Vejamos agora em que circunstâncias surgiu. Pois por si mesma é a História da Parapsicologia bastante curiosa.

             Ao que parece o interesse por esse tipo de fenômenos e investigações foi acionado pelo  austríaco Franz Anton Mesmer um dos pioneiros quanto a exploração de certas técnicas de controle ou manipulação psicológica como a auto e a hétero sugestão, esta última por meio do sono hipnótico.
             

             Do quanto realizou esse Mesmer podemos dizer que parte dos fenômenos ou resultados obtidos eram reais e que a etiologia em questão veio a receber posteriormente o nome de Psicosomatose. Quiçá houvessem também alguns fenômenos parapsicológicos por assim dizer residuais. 

               Já em 1778 Mesmer solicitou que as curas por ele realizadas fossem verificadas pela Sociedade Real de Medicina de Paris, obtendo a negativa por meio de seu diretório. Contrariando o princípio científico do exame os sábios recusaram-se a examinar o que Mesmer - Supondo um fluído sutil. - cognominava Magnetismo animal. Mesmo assim ele recorreu a diversas outras instituições, obtendo sempre a mesma resposta: Os cientistas recusavam-se a ir contra os princípios admitidos e assumindo uma postura dogmática recusavam-se a investigar. Devo dizer que o mesmo se havia sucedido em Viena. 

                Afinal eram os tempos em que os materialistas De Holbach, Clothes, Helvetius, Cabanis La Metrie pontificavam na França. 

                Por fim a 18 de Setembro de 1780, a Faculdade de medicina de Paris, em sua Assembléia geral, repudiou as opiniões de Mesmer com animosidade e desdém, chegando inclusive a excomungar o Dr D'Eslon, por se haver discípulo seu. Redarguiram os apoiantes de Mesmer acusando os adeptos da medicina tradicional de terem condenado o curandeiro austríaco apenas porque ameaçava tirar os pacientes ou clientes que não conseguiam curar. Stengers, 1995 fala numa estratégia de desqualificação.

               Finalmente em 1784 uma Comissão da Academia de Paris, nomeada pelo próprio Rei e formada por Bailly, Sallin, Borie, D'Arcet, Le Roy, Bory, Lavoisier, Francklin e Guillotin repudiou a tese dos fluídos - Porque não era perceptível aos sentidos humanos, dizia Bertrand já em 1826 - Mas reconheceu a sugestão. Da mesma maneira a Comissão da Sociedade Real de Medicina - Composta por Poissonnier, Caillie, Mauduyt, Andry Jussieu
 repudiou a existência dos fluídos - O grande Jussieu o entanto admitiu as curas e relatou situações de hiperestesia ou mesmo de telecinesia corporal. 

                  Temos aqui que, por primeira vez na História das ciências, o reconhecimento oficial de um fenômeno psico somático produzido pela sugestão - Tal o veredito do redator Bailly: "É a imaginação, essa potência ativa e terrível, que opera os grandes efeitos que se observa com espanto nos tratamentos físicos." (1826/2004a ps 111 e sg)


               Por sinal o fato de que as origens mais remotas da Psicologia e da Parapsicologia remontem a figura controvertida de Mesmer - O qual, segundo algumas fontes, veio a tornar-se charlatão. - tem servido como motivo para os positivistas ou cientificistas argumentem contra ambas e repudiem a cientificidade delas. 

                Esqueceram-se esses péssimos estudantes de História que a origem da Astronomia foi a astrologia, que a origem da Química foi a Alquimia e que a origem da medicina foi o embalsamamento de caráter religioso ou o curandeirismo - Sem que qualquer uma delas deixe de ser Ciência, de modo que a origem de uma Ciência ou área do conhecimento é absolutamente irrelevante.

                 Tornemos porém a Mesmer. Pois os fenômenos obtidos por ele principiaram a ser estudados seriamente pelos idos de 1807 pelo Sr Mqs de Puysègur na monografia "Du magnétisme animal..." a qual se seguiram mais quatro publicações. 

                               Segundo o historiador Henri Hellenberger "Puységur foi um dos grandes contribuidores esquecidos para História das ciências psicológicas." (1970, p 72) Pois reconheceu como principal agente do mesmerismo a vontade do magnetizador. Ele estudou o sonambulismo juntamente com Deleuze, o qual testemunhou sua gratidão para com ele no prefácio de uma de suas obras editada em 1825 sic - (1826)

               Já em 1813 são editados as "História crítica do magnetismo animal" Mame, Paris - 2 Volumes do naturalista François Deleuze, o qual em 1834 editou umas memórias "Sobre a faculdade da previsão"  talvez o primeiro estudo sério sobre a pre cognição e portanto o primeiro estudo na área da Parapsicologia, matéria que até então - Por polêmica que era. - ficará a margem daqueles estudos.


               Em 1818 o Dr Martorelli, auxiliado pelo Barão Du Potet realiza a primeira extração dentária indolor em paciente hipnotizado e experimenta diversos outros procedimentos dolorosos sem que os pacientes sintam mínima dor.

               Já em 1821 são os estudos em matéria de Psicologia retomados com toda força pelo futuro presidente da Academia Real de Medicina, Henri. Marie Husson, Alexandre Bertrand J C Anthelme Recamier - Com Du Potet e Robouam - assistidos por outros trinta médicos. Esses relatos de experiências são frequentemente encontrados em diversos livros de Psicologia, destinados a exemplificar a psico somatose. Como resultado dessas pesquisas Bertrand publica, em 1823, o "Traité du sonambulisme et des différentes modifications qu'il presenté" foi este sucedido pelo "Êxtase" editado três anos depois i é em 1826. - Tais os primeiros estudos verdadeiramente científicos sobre esses fenômenos até hoje postos em dúvida por alguns opinões. 

                 Nas décadas seguintes Du Potet foi interessando-se cada vez mais pelos fenômenos estranhos ou pela Parapsicologia, isso a ponto de - A exemplo de muitos outros como: Nus, Mirville, Vesme, Figuier, Grasset, etc - propor uma História natural da magia. 

                  Em 1837 G P Billot publicou suas investigações e sua correspondência com o citado Deleuze. 

                   Aqui um importante aparte, pois convém observar que o arguto Schopenhauer opinou ter sido a descoberta de Puységur uma das descobertas mais importantes para a História das ideias humanas. 

                   Do outro lado do Reno tais investigações principiaram quando, em 1830, o médico alemão Justinus Kerner, publicou - No livro intitulado "Die Seherin Von Prevorst..." (A vidente de Prevorst.) - um estudo de caso (Feito desde 1825) sobre os fenômenos estranhos que acometiam a sonambula Frederica Hauff. Foi seguido pelo Barão de Riechenbach o qual publicou seu relatório sobre os fenômenos estranhos em 1845.

                    Até aqui a maior parte das explicações propostas eram de teor naturalista embora, não materialista e giravam em torno de um suposto magnetismo, da força Od ou ódica, etc 

                     Quase que imediatamente após a fase mesmérica ou magnética -E cerca de trinta anos após as primeiras investigações na área da Psicologia e da Parapsicologia. - inaugurou-se a assim chamada fase espírita, ainda que não doutrinária. (Pelo simples fato de ser anterior a Edmonds e a Kardec). Começou ela no ano de 1848, em Hydesville (EUA), com as irmãs Fox. A princípio eram apenas umas batidas que correspondiam a Sim ou Não. Posteriormente o sr David S Fox associou o alfabeto a tais batidas, o que corresponde a origem mais remota do tabuleiro de ouija.

                        Cerca de 1849, pelos idos de Novembro, principiam as mesas a dançar, dando início a uma nova fase a das 'Table moving' ou Tables tournantes', as quais não tardaram a ser investigadas por Mirville, Roubaud, Thury, Chevreul, Babinet, Faraday, Baragnon, Gentil, De Gasparin, Eugène Nus, Guldenstubbé, Forni, Pellegrini, D'Ourche, Mapes, Hare, R N Wallace, A Morgan, F C Varley, Barkas, Chambers, Gully, Chevillard, Vacquerie, Mme Girardin, Victor Hugo, Owen, Sardou, etc

                     
A esse tempo, apesar da atribuição de tais eventos a ação de espíritos desencarnados e da existência de mensagens, era o espiritismo adoutrinário. Principiando a doutrina a ser criada no ano de 1853, ocasião em que o juiz W Edmonds juntamente com T Dexter publicam a obra intitulada 'Spiritualism' em N Y. Apenas quatro anos depois (Em 1857) Allan Kardec publicou o seu 'Le livre des spirits.' em Paris. Na verdade tanto Edmonds quanto Kardec foram precedidos por Andrew Jackson Davis ('Livro dos espíritos' 1848) L A Cahagnet ('Vida futura, arcanos desvelados' 1848) - 

                      A partir daqui é importante estabelecer aqui uma preciosa distinção - Naturalmente que os pesquisadores ou investigadores: Sejam eles metapsíquicos ou espíritas estão de acordo quanto o óbvio i é quanto aquilo que é sensível, manifesto ou empírico: A realidade dos fenômenos ou se preferem - Na expressão de Amadou (Da parte dos parapsicólogos) - ao menos de alguns raros fenômenos que fogem ao que comumente chamamos normalidade. Divergem porém, via de regra, quanto a explicação etiológica ou causal dos mesmos, pois enquanto os espíritas postulam - Acriticamente - quase sempre a intervenção de um agente espiritual ou espírito desencarnado, os parapsicólogos - Por vezes, acriticamente, como o Pe Quevedo SJ - postulam a suficiência de poderes ou forças mentais i é a uma origem natural (Naturalista).

                         Há no entanto preciosas exceções -
                         

                         Assim o profo Whately Carrington de Cambridge, após ter realizado as primeiras investigações sobre telepatia com desenhos que demonstraram a realidade da pre cognição, veio a admitir, por inferência lógica, a sobrevivência post mortem. Assim o extremamente crítico e exigente Harry Price concluí pela mesma hipótese, sugerindo inclusive a possibilidade de que tais mentes possam possuam as mesmas capacidades que possuíam em vida, sendo portanto capazes de influenciar outras mentes e de atuar no mundo físico. Samuel Soal da Universidade de Londres chegou a mesma conclusão após examinar o som das vozes dos sensitivos incorporados. Por fim J F Rhine, que nos anos 60 havia opinado negativamente, em obra posterior - O Novo mundo da mente, acabou por admitir que ao menos alguns fenômenos demandam a existência ou ação de uma entidade extra corpórea consciente. 
                         
                         De minha parte, quero esclarecer que após ter examinado, ao cabo de trinta anos, as obras de Richet, Bozzano, Aksakoff, Sudré, Warcollier, Amadou, Heredia SJ, Silva Mello, Rhoden, Granja, Imbassahy, Rhine, Quevedo SJ, Lepicier, Sagan, etc além das memórias específicas de Flamarion (As casas mal assombradas A morte e seu mistério), G Delanne (Aparitions matérialisées des vivants et des morts - Paris 1909), Gurney, Myers e Podmore 'Phantasms of de living, London, 1882), etc assumi uma posição intermediária - De Rhine - a qual expressei já diversas vezes: A prevalência
 
majoritária - Mas de forma alguma absoluta. - de causas naturais ou mentais (Explicação), sem excluir no entanto, que ao menos alguns fenômenos, bastante raros (E de comprovação um tanto problemática.) tenham sido provocados por espíritos. 

                            Portanto, tal e qual alguns autores romanos e protestantes, considero que ao menos alguns dos fenômenos verificados e descritos não podem ter sido produzidos por humanos (Exceto se admitimos a doutrina aberrante do inconsciente coletivo ou da pan cognição absoluta.) sendo manifestamente sobrenaturais e portanto, segundo meu ponto de vista, causado por humanos desencarnados. 

                             Agora a questão principal não é esta, pertinente a interpretação ou a compreensão e a causalidade, e sim a questão atinente a realidade dos fenômenos ou a metodologia de pesquisa, a experiencialidade e o controle. Eis o ponto, por assim dizer, crucial. Pois implica optar por falsos princípios metafísicos ou ideologias queridas ou pela empiria i é a sensação, a a percepção, a observação, a experiência. 

                              "Contra fatos não há argumentos." é confissão que partiu do próprio pai do positivismo Auguste Comte. E assim o é - Lealdade absoluta a experiência e as favas com as opiniões, inda que emitidas por grandes cientistas, pois continuam sendo opiniões.

                               No caso a única via de escape para os cientificistas são o Kantismo ou o ceticismo, com os quais flertam já a um bom tempo - Criando mais uma mixórdia ou panaceia modernista. Nada animador... Haja visto que um deles acaba de fazer "Mea culpa" reconhecendo que essa beleza de ceticismo cientificista tem alimentado movimentos como o negacionismo vacinal...

                                Então o que temos de fazer e de honestamente fazer é muito, muito simples: Decidir entre o empirismo ou o materialismo i é entre fatos observáveis e uma Ideologia. E pouco importa caso esses senhores aleguem que parapsicologia não é ciência, pois pessoa alguma precisa ser parapsicóloga ou cientista para observar ou compreender a seriedade de um teste. 

                                 O quanto devemos saber é que temos três prêmios nobeis dedicados a esse tipo de investigação - W Croockes, Oliver Lodge Charles Richet, como se vê nenhum beato ou imbecil. E que seus críticos, os negadores da Parapsicologia, também costumam a impugnar a História, o Direito, a Filosofia, a Psicologia, a Sociologia... e tudo quanto ultrapasse a Química, a Física e a Biologia. Portanto não atribuamos maior valor a esse arremedo de Vaticano, cúria romana ou partido comunista...

                                   Principiam como sempre criticando a metodologia. Naturalmente...

                                   Porém se a metodologia de Croockes, Lodge, Richet, Kerner, Deleuze, Grasset, Gibier, Rhine, Soal, etc é defeituosa e falha quanto as pesquisas no campo da parapsicologia, por que não haveria de ser igualmente falha, displicente e ineficaz nos campos em que ordinariamente trabalharam e obtiveram tantos resultados e premiações... Afinal não são os mesmos agentes operatórios... Se foram tão ruins, idiotas ou ainda perfeitos imbecis quanto o controle das experiências metapsíquicas como poderiam ser sábios, prudentes, profícuos e bem sucedidos no controle das demais experiências que realizavam... Gostaria que alguma sumidade em cientificismo me explicasse isso...

                                    Acaso as balanças, medidores, etc não eram muitas vezes os mesmos...

                                    Ademais os observadores pertenciam a praticamente todas as áreas do mundo científico: Pois haviam psicólogos  e psiquiatras como Freud, William James, James Hyslop, Thouless, N Fodor, Cazzamali, Geley, Tamburini, Morselli, Srenck Notzing, Jung. Médicos como J R Buchanan, Osty, B Wiesner, Gurney, Roubaud, Th Bret, R Tischner, J Maxwell, Lombroso, P Baragnon, Paul Gibier, Richet, G Forni, Grasset, Baraduc, Kerner, etc Filósofos como Aksakoff, Hodgson, F Paronelli, Owen, Myers, E Boirac, Vezzani, E Bozzano, Carl du Prel, Ballou, Hartmann e Driesh. Biólogos como A R Wallace, J B Rhine Ochorowicz. Químicos como Robert Hare, Butlerov. Warcollier, Chevreul e W. Croockes. Físicos como Zollner, Finzi, M Thury, Ermacora Oliver Lodge. Astrônomos como Flammarion, Schiaparelli Gerosa. Matemáticos como Augustusde Morgan, Schepis, Dellane e De RochasPedagogos como Robert Tocquet. Literatos como Erny, Mirville V Sardou. Um nobre como o Barão de Guldenstubbé. O político Agenor de Gasparin.

               Apenas para ser suscinto cito aqui os nomes de quase sessenta intelectuais atuantes nos mais diversos campos do saber - O que é absolutamente relevante devido aos diferentes nuances de visão! - os quais, em que pesem as diferenças de compreensão, admitem todos, sem exceção, a realidade dos eventos que classificamos como paranormais ou metapsíquicos. 

                No entanto, para os cientificistas e positivistas, da escola dos srs Max Dessoir, Heuzé, Randi Dennett... Não passam, todos eles, de um bando de ingênuos ou tontos enganados por alguns espertalhões semi analfabetos.


                 Continua -  



sexta-feira, 17 de março de 2023

Psicologia, psicanálise, Freud e a questão da multiplicidade de existências - Reflexões sobre a obra de Hermínio C Miranda 'A memória e o tempo' Edicel 1984 - Parte VI

               Nada tenho contra o espiritismo prático e até gratidão tenho para com o espiritismo doutrinal ou kardecismo.

                Nascido protestante jamais o fui de coração, por isso lendo o antigo testamento perdi a fé, tornando-me agnóstico.

                Por estranhos caminhos conheci o papismo ou a fé apostólica romana e ainda jovem abracei-a com entusiasmo.

                No entanto a leitura dos clássicos, o conhecimento da Filosofia e juntamente com isso a leitura de diversas obras doutrinais do espiritismo (Eu havia sido convidado a refuta-lo pelo Vigário de minha paróquia.) plantearam-me inúmeros problemas em torno de Antropologia e Soteriologia, todos derivados da ideologia agostiniana assumida pela igreja romana. A leitura dos padres gregos encaminhou-me ao Catolicismo Ortodoxo, o qual ao menos naquelas duas áreas aproxima-se do espiritismo (Na verdade é o espiritismo que nessas duas áreas aproxima-se do Cristianismo antigo ou
 primitivo.)


                 Portanto, mesmo após ter repudiado as crenças na expiação, na soberania da graça, na predestinação e no inferno eterno (Praticamente todas agostinianas, alheias ao texto grego do Evangelho e indignas!) não apenas continuei sendo Cristão Apostólico como aprimorei minha fé, descobrindo o autêntico Catolicismo - Ortodoxo e afastando-me ainda mais da aberração protestante.

                  Por que raios não me fiz espírita doutrinal ou kardecista... Por diversos motivos. O principal porém é porque o espiritismo, repudiando a divindade de Cristo, repudia consequentemente o mistério da Encarnação de Deus, aproximando-se de uma corrente filosófica com que jamais simpatizei, a saber, o neo platonismo, com seu deus puramente espiritual e separado do mundo ao modo do javé judeu ou do allá maometano. No Catolicismo e no hinduísmo a relação com o mundo ou com a matéria, com a Imanência enfim é outra e corresponde perfeitamente a meu modo de ver as coisas.

                   Os espiritistas por sinal, chegam a aproximar dos ocultistas ou esotéricos ao apresentarem o divino Jesus como mera criatura ou simples profeta e colocarem-no ao lado de Moisés, Buda ou Maomé... Compreendo que comparem nosso divino Mestre com Buda ou Confúcio, os quais são mesmo como manifestações suas ou emissários seus. Agora comparar nosso Jesus com Moisés (No qual há muito de mítico como reconheceu Freud.) ou com o sanguinário Maomé, tenha santa paciência... Acho tudo isso asqueroso e revoltante e Jesus me parece mesmo um Ente deslocado em seu nicho, mais parecido com um Sócrates do que com um rabino embiocado...

                      Então não posso ser espírita. O que, como disse, não me faz odiar o espiritismo doutrinal mas apenas discordar dele, até de modo amistoso - Uma vez que a Ética espírita por vezes é mais lúcida que a nossa, i é, que a Ética eclesiástica (Por vezes muito judaica ou muito protestante, mesmo quando romana ou Ortodoxa - Um desastre.) Quanto ao espiritismo prático ou sem ilações doutrinárias ou supostas revelações religiosas nada tenho contra.

                      Tecerei então algumas críticas amistosas ao espiritismo sempre focado no âmbito da Revelação divina, tal e qual costumo fazer ao criticar os unitários e maometanos. Pois uns são por profetas e outros por espíritos, enquanto nós postulamos como veículo mais excelente a Encarnação de Deus ou a manifestação de Deus na carne.

                      Principiarei dizendo o óbvio - Que a comunicação da verdade demanda garantias de seguridade, o quanto possível as mais exatas e infalíveis. Admitindo a preciosidade ou importância da Revelação divina para nossas vidas, para nossa vida Ética, para nossa conduta, para nosso enriquecimento espiritual, etc temos o direito de concluir por um veículo perfeito e sem defeito.

                       Corresponde a tal exigência, tão sóbria quanto sensata, a mediação dos espíritos desencarnados que serviram de guias ao sr Hippolyte Leon Denizard Rivail, mais conhecido como Allan Kardec ou seus predecessores como o juiz Edmonds... Davis... Cahagnet.

                        Antes porém façamos um parênteses importante - Via de regra os críticos pouco informados sobre Kardec e suas obras ou o espiritismo de modo geral supõe muito naturalmente que o objeto das comunicações mediúnicas era o próprio Kardec, e que os espíritos do além o instruíam tal e qual a superna divindade teria instruído Moisés ou Maomé... 

                        A impressão é absolutamente equivocada - Quero dizer, não corresponde a verdade histórica, a princípio, pelos idos de 1856, os espíritos - Por meio de uma comunicação. - teriam comissionado Kardec para sintetizar as comunicações obtidas por um grupo composto por cerca de uma dezena de médiuns reunidos nas residências de Madame De Plainemaison e do casal Boudin, dentre outras. 

                         Via de regra eram tais grupos (A exceção da Sra De Plainemaison) formados por umas adolescentes ou mocinhas, algumas inclusive com cerca de quatorze anos de idade, a exemplo das senhoritas Caroline e Juline (Boudin), Aline Carlotti, Ruth Japhet e Ermance Dufaux - 

                           Tal a origem da primeira e mais afamada obra codificada por Kardec - 'O livro dos espíritos' 1857. A partir de então, e a cabo de uns dez anos apareceriam cerca de oito obras, dentre as quais 'O livro dos médiuns' 1861 e 'O céu e o inferno' 1865. Segundo se diz as comunicações chegam a dezenas de milhares e os médiuns. No entanto, nos idos de 1860, após ter recebido comunicações ou informações procedentes de cerca de quinze diferentes países, foi feita uma segunda edição, Revisada. 

                            Até aqui nosso precioso parentético, quiçá um tanto prolixo...

                            Tornemos agora a questão das garantias...

                                      Que nos pode dizer sobre isso o próprio espiritismo...

                             Lembremos primeiramente que certa vez estourou uma grande controvérsia no seio do espiritismo doutrinal - Não a da reencarnação com os anglo saxões, porém a de J B Roustaing. 

                             E teve nosso Brasil notáveis campeões roustainguianos, a ponto de levar as chamas do incêndio até a FEB... Não vou entrar no mérito de tais debates (Em que tomaram parte Leopoldo Cirne, Leopolo Machado, Imbassahy, Crysanto de Brito, etc) que cheiram a unitarismo e a monofisitismo. 

                                 Quis apenas refrescar as memórias de quantos esqueceram que no auge dessa amarga polêmica uma boa alma lembrou-se de que certa vez, Kardec, ao falar sobre os espíritos ignorantes, declarou que costumam eles levar seus preconceitos religiosos e ideias fixas para as plagas de além túmulo... Conclusão: Os espíritos do Roustaing eram 'romanos' ou como se diz católicos...

                                    Assim se há espíritos romanos - e diversos autores espíritas admitiram que sim! Então que barafunda ou confusão há no além, pois deve haver espírito ariano ou maometano (Como os de Kardec), protestante, judeu, budista, hindu, etc cada qual apegado a suas crençazinhas terrícolas e sem aquele acesso direto a divindade atribuído aos comunicadores de Kardec... E pela enésima vez surge a fé. No sentido de que os médiuns de Kardec eram diferentes, melhores ou especiais. 

                                      Ao contrário dos guias do juiz Edmonds, de Roustaing ou de Pietro Ubaldi, os quais emitiram opiniões ou considerações diferentes... 

                                      Ueh mas não é Revelação divina... Nesse caso como admitir a contradição... Dizendo que os demais foram enganados ou desorientados enquanto que Kardec - Ou melhor dizendo seus médiuns -  teve acesso privilegiado aos arcanos do além. 


                                        Lamento dizer que uma tal solução remete ao universo das seitas protestantes, nas quais cada uma declara estar na posse do espírito santo enquanto afirma que todas as outras são presas do capeta...


                                      Admitida essa explicação, dos espíritos fanáticos presos a determinadas crenças, quem nos pode garantir que as comunicações kardequianas opostas a fé Ortodoxa i é contrárias a divindade de Cristo, a Eucaristia, aos Sacramentos, a Sucessão apostólica, etc não procedem de espíritos protestantes, os quais no além continuam odiando a velha fé da Igreja antiga... Enfim, tudo fruto de um protestantismo invisível...

                                       Aqui meu amigo espírita, enojado, já pergunta: Acabou, já chegamos aos espíritos ruins ou impuros...

                                       De modo algum, ainda não, pois ainda há os espíritos levianos - 'Ignorantes, maliciosos, irrefletidos e zombeteiros... vulgarmente tratados por duendes, trols, gnomos, fadas, gênios, diabretes, etc" (L E 1936 p 44), os quais, segundo Sir Arthur Conan Doyle, sequer conhecem - Enquanto desencarnados - o princípio de reencarnação... in Evening standard, 07 de Junho de 1926

                                          A respeito desta outra categoria demos ainda a palavra ao notável escritor britânico:

                                         "A dificuldade desaparece, penso eu, quando percebemos que essas pessoas espirituais não são de forma alguma oniscientes, e que o assunto diz respeito ao seu futuro, que parece ser um assunto para debate entre eles, como é conosco."

                                           
E Kardec: "... os espíritos, do mesmo modo que entre os homens, ha-os muito ignorantes, de maneira que nunca serão demais as cautelas que se tomem contra A TENDÊNCIA A CRER QUE, POR SEREM ESPÍRITOS, DEVAM SAVER TUDO." L E 1936 p 33

                                           "Allan Kardec faz em 1863 uma análise geral das comunicações mediúnicas que lhe vinham as mãos de todas as partes. Diz então (R S Maio de 1863) que tem mais de 3.600 examinadas, das quais 3.000 (80%) são de uma moralidade irreprochável. Desse número , considera publicáveis menos de trezentas, embora apenas cem sejam de mérito excepcional (2%). Quanto aos trabalhos de grande fôlego que lhe remeteram, sobre trinta só achará cinco ou seis de real valor (15 a 20%). E ele comenta 'No mundo invisível, como na terra, não faltam escritores, mas OS BONS ESCRITORES SÃO RAROS." Wantuil e Thiesen II 1980 p 139

                                           
Ressalto aqui o ínfimo número de comunicações relevantes e o papel do classificador ou daquele que seleciona, papel totalmente subjetivo. 

                                           Quanto a essa questão, da Revelação divina ou da comunicação espiritual, os kardecistas aplicam a ela o dogma da Comunhão dos Santos criando uma espécie de corrente de informações. É o que se aduz do L E - 1936 pg 46 iten 113 onde após declarar que os espíritos Superiores ou iluminados - Que não mais reencarnam por terem atingido a perfeição, a inalterável bem aventurança e a posse de Deus. - São mensageiros ou ministros de Deus... e comandantes dos espíritos inferiores, aos quais instruem e guiam... "Podem os homens por-se em comunicação com eles, porém seria presunçoso aquele que pretende-se te-los constantemente a sua disposição." 

                                           
Conclusão: Parece que os espíritos instruem uns aos outros no que concerne as coisas divinas indo esta ordem do superior ao inferior i é dos espíritos por assim dizer perfeitos aos menos perfeitos ou imperfeitos, e que via de regra - Já pela simples quantidade - estamos em contato com os intermediários dos intermediários, sem que tenhamos acesso direto ao conhecimento divino, o que parece implicar em perda de qualidade, pelo simples fato dos espíritos imperfeitos não poderem assimilar tudo.

                                           Mesmo a propósito dos espíritos superiores - Que é como Kardec humildemente avalia seus guias - diz o codificador: "É erro crer que os espíritos tenha ciência infusa, o saber deles está, no espaço como na terra, subordinado ao seu grau de adiantamento, e há os que acerca de tais coisas, sabem menos do que os homens. Suas comunicações estão em relação com seus conhecimentos, e, por isso mesmo, NÃO PODEM SER INFALÍVEIS."  (R S 1866 - Abril)

                                         
Todavia se não são oniscientes, ao menos enquanto conhecedores das coisas sagradas, como podem ensinar-nos a respeito do Bom Deus com o grau de puridade a que aspiramos.

                                           Eternos céus, os espíritos desencarnados, confessam os próprios espíritas de renome, comunicam apenas suas próprias opiniões, impressões, suspeitas ou conjecturas i é o que 'acham', portanto nada de divino.

                                       Sem embargo o honesto Hermínio C Miranda, nas páginas 55 e 56 de sua obra ainda menciona os espíritos neuróticos e psicóticos, com seu acervo de complexos, traumas, agitações, transtornos, etc asseverando inclusive que são tão numerosos quanto os daqui, além de sujeitos aos mesmos mecanismos mentais ou vicissitudes...

                                      Percebem de onde surgiram tantas narrativas idiotas sobre a vida dos espíritos em Marte, Vênus ou Plutão... Da imaginação ou elaboração inconsciente dos próprios espíritos. Da fantasia fantasmal. Dos hospícios de além túmulo...

                                        Por fim em diversas, obras, pautadas por sinal nas comunicações dos espíritos Kardec confessa honestamente que há espíritos maus e mentirosos, desejosos de desencaminhar a humanidade ou apenas de aparecer - Adquirindo assim fama e glória. 

                                         Tomemos suas palavras ou as palavras de seus espíritos: "102 - Décima classe: Espíritos impuros - São inclinados ao mal, de que fazem o objeto de suas preocupações. Como espíritos dão conselhos pérfidos, sopram a discórdia e a desconfiança, E SE MASCARAM DE TODAS AS MANEIRAS PARA MELHOR ENGANAR." Livro dos Espíritos 1936 p 41


                             
                    No entanto, para que não fiquemos desorientados e assustados, os guias de Kardec tencionam fornecer-nos um critério seguro com que identificar a idoneidade moral dos espíritos e de suas comunicações - "Nas manifestações, eles se dão a conhecer por sua linguagem. A trivialidade e a grosseira das expressões nos espíritos, como nos homens, é sempre indício de inferioridade moral, senão também intelectual. " Id ibd

                               Quer aqui o sr Kardec ou seus espíritos iluminados, que tomemos a pessoa desencarnada e invisível por sua linguagem, querendo dizer que uma pessoa anti ética ou maldosa apresentará, necessariamente, uma linguagem vulgar. 

                                Que pensar sobre isso...


                                Admitimos francamente que a linguagem natural ou espontânea de uma pessoa má será vulgar, grosseira ou desbragada. Porém - No caso em que a pessoa má seja inteligente (O que sucede não poucas vezes.) e deseje enganar, não lhe faltará habilidade para tanto e pouca dificuldade terá para assumir outra linguagem, aparentemente nobre e elevada.

                                 Pessoas inteligentes simulam e simulam a ponto de tecer discursos encantadores, a exemplo de um Calvino ou de um Hitler, de um Bush, de um Trump, etc Simplesmente mudam de linguagem caso necessário seja, afetam outro linguajar, selecionam palavras, etc 


                                  De modo que a pura e simples análise de um discurso não nos pode garantir coisa alguma em termos de moralidade. E isso só seria discutível ou duvidoso caso todos os espíritos maus fossem igualmente ignorantes, o que Kardec naturalmente jamais disse... Logo, nada que os espíritos maus dotados de certa inteligência não possam burlar em se tratando dos humanos. 

                         Fácil portanto o humano ficar a mercê dos espíritos maus e enganadores.

                          Examinemos agora uma outra faceta não menos importante das comunicações.

                         
Pois como se não bastassem os espíritos fanáticos, ignorantes, neuróticos e maus, damos na obra do profo Erny - o qual por sinal foi letrado de renome, que as identidades de todos os comunicantes são inseguras, posto que não possuem certidão de nascimento, carteira de identidade ou mesmo de motorista com a devida fotografia.

                           Presumidamente apresentam-se como Maria, Paulo de Tarso, Agostinho, Tomás de Aquino, Tereza D Avilla, Lucius, André Luis, Meimei, Paraclito, Emmanuel, etc todavia quem sejam de fato, com certeza certa, não podemos saber. Pois são invisíveis...

                            Debalde assevera o sr Kardec pelos idos de 1858 "A experiência nos ensina a conhecer os espíritos, como nos ensina a conhecer os homens."

                             Pobre Kardec - Irmão gêmeo de Cândido e filho de Leibnitz . Pois parafraseando Confúcio bem poderíamos dizer: "Se não sabemos que é a vida, como saber o que é a morte..." 

                              De fato, se quase dois séculos após a criação da Psicologia, a intervenção de tantos sábios, tantas pesquisas, tantas publicações, etc sabemos tão pouco sobre o homem encarnado, vivo e visível como pretender que saibamos algo sobre entidades invisíveis e anônimas... Inclusive o homem do povo - Que nada sabe em termos de Psicologia profunda, inconsciente, personalidade, etc

                            Isso quanto os tipos ou categorias de espíritos e sua condição anônima...


                            Pois ainda que excluamos todas essas variedades de espíritos: Neuróticos, zombeteiros, ignorantes ou maldosos - Todos invisíveis e anônimos... continuamos num mato sem cachorro. Abandonados, perdidos e confusos...

                               Bastando para tanto saber que nem sempre são espíritos desencarnados... 

                               Mas como... 

                               Isso mesmo - basta saber que muitas vezes 'o espírito' em questão bem pode ser o inconsciente do próprio médium i é um entidade imaginada por ele e que é ele mesmo. Claro que a fantasia é inconsciente e não intencional. E no entanto há engano, mesmo sem a vontade de enganar.

                                Tal o fenômeno de múltipla personalidade.

                                Impossível... Claro que não.

                                Tal a hipótese contemplada por primeiramente, e de modo inadequado, pelo profo William Benjamin Carpenter ainda em 1853.

                                 Finalmente, em 1855, uma carta anônima, rompendo com a esquema puramente físico naturalista, postulou o desdobramento da personalidade do médium (Cuchet 2012 p 85 sgs) - Supreendentemente foi tal tese, retomada seriamente, trinta anos depois pelo Dr Pierre Janet (1903 p 377 sgs) notável adversário dos positivistas. 

                                  Ocioso dizer que Kardec conhecia perfeitamente essa opinião (Pois segundo Canuto de Abreu integrava o grupo de pesquisadores da Sociedade Mesmeriana coordenado pelo Barão Du Potet. cf  'O livro dos espíritos e sua tradição histórico lendária') - Elencada também por Blavatsky (O véu de Ísis) e Sir William Croockes, dentre outros - discutida, posteriormente, por todos os Parapsicólogos e avaliada como tese, que associada a hiperestesia, a telepatia e a pre cognição, tornaria, não impossível, porém extremamente difícil a comprovação direta da sobrevivência- Fato de que Kardec não se deu conta, tal e qual seus seguidores. 

                                    "Assim o médium tiraria de si mesmo, e por efeito de suas lucidez, tudo quanto diz, e todas as noções que transmite, mesmo sobre coisas que lhe sejam estranhas em seu estado normal." Kardec 1857 p 24 sgs Já em 1861 (p 39) o codificador admite que o desdobramento poderia bem ser a causa DE MUITAS DAS SUPOSTAS COMUNICAÇÕES ESPIRITUAIS. 

                                       Mais - Kardec admitia que mesmo nas comunicações mediúnicas autênticas, as informações fornecidas eram muitas vezes, UMA COMBINAÇÃO DE CONTEÚDOS ORIUNDOS DO ESPÍRITO COM DADOS INERENTES DO INCONSCIENTE DO MÉDIUM (Kardec 1865 a p 155 "O pensamento do espírito pode, ademais, ser alterado pelo meio que atravessa para se manifestar." (R S 1866 - Abril)

                                        Reflitamos por um instante sobre o que o sr Kardec está a dizer. Pois está a dizer que a pretenciosa terceira Revelação nada tem de divina ou transcendente não passando de dois elementos puramente humanos ou naturais misturados uns com o outro - O espírito desencarnado, que é humano e sempre falível e o espírito ou melhor o inconsciente igualmente falível do médium. Absolutamente nada de Sagrado, celestial ou infalível e perfeito. 

                                Nem mesmo as comunicações dos humanos desencarnados são puras ou isentas de influência por parte dos vivos, humanos e encarnados como nós!

                                                                  Passemos - Pois também pode, o suposto espírito, corresponder a manifestação da mente viva e encarnada de um outro médium qualquer em desdobramento, esteja ele na mesa ou nas proximidades. Como poderia ser produto de elaboração conjunta ou comum, com a intervenção de diversas mentes i é uma colcha de retalhos.

                                 A exemplo do que temos nas manifestações de 'fantasmas' de vivos... cf "Phantasms of the livings - Gurney, Myers e Podmore, London 1886 (Tradução francesa por L Marillier "Les hallucinations télépathique, Paris, 1889). As quais não se limitam a manifestar apenas imagens visuais estáticas (Supostos resíduo ou cascas.) mas inclusive algumas impressões visuais dinâmicas acompanhadas de impressões auditivas  dinâmicas. Naturalmente que o inconsciente de um agente vivo pode produzir impressões dinâmicas e não apenas estáticas. 

                                   Sequer preciso mencionar aqui o fenômenos a que dão o nome de viagens astrais ou saídas de corpos, as quais, sejam o que forem, sucedem durante o sono. cf Hector Durville "Le fantôme des vivants". As quais poderiam sempre terminar em incorporação ou simples ação sobre outro agente em transe, como as trocas de corpos ou de espíritos apresentadas em diversas comédias, sendo a mais conhecida 'Um espírito baixou em mim' 1984 com Steve Martin e Lily Tomlin como Edwina Cutwater.

                                     
   Tanto podemos ter o desdobramento imediato da mente do médium, de seus companheiros ou de algum membro do auditório como a intromissão de qualquer outro espírito vivo. 

                                 Em meio a tanta comunicação exótica e divergente quanta não é de vivo, seja no corpo ou fora dele...

                                  De modo que admitido mais esse raminho de joio no trigal abala-se ainda mais a garantia divina da Revelação ou da Religião, convertendo-se ela em algo essencialmente humano, imanente e natural, a exemplo do unitarismo com seus profetas - Como Maomé. - ou o protestantismo por meio do livre exame ou da especulação exegética...

                                    Tudo muito humano, demasiado humano.

                                     Após o incrível cipoal de espíritos acima descrito, a condição do anonimato e os fenômenos sonambúlicos de desdobramento mental chegamos já ao fundo do poço...

                                     Creio que não. 

                                     Pois restam ainda outras duas expressões da realidade: A fraude e a alucinação, individual ou coletiva. 

                                     A fraude foi admitida sem maiores problemas por Kardec e vinculada expressamente a muitas comunicações (1869 p 36) Limitando-se ele a objetar que nem tudo era falso, ou que havia um resíduo verdadeiro. (1866 p58 sgs). Amiúde vinculava o charlatanismo a cobrança (1869 p 89) e concluía dizendo que os verdadeiros médiuns só tinham a ganhar com a exposição dos impostores. (1859 p 96)

                                     Até que chegamos, por fim, a ilusão ou a alucinação, fenômeno psicológico amplamente demonstrado e sobre o qual não pairam quaisquer dúvidas. Apenas quanto as alucinações coletivas devemos tomar bastante cuidado tendo em vista os fatores predisponentes. Pois a exemplo do 'inconsciente coletivo' - Conceito amplamente discutível. - costuma ser usada como uma espécie de lugar comum ou panacéia pelos naturalistas.

                                     Seja como for Kardec não deixou de leva-la em consideração. Destarte concedeu, sem maiores problemas, que a ignorância, a superstição e a credulidade bem podia produzir alucinações confundidas com fenômenos mediúnicos. (1868 p 29) O quanto objeta, e com propriedade, é que a alucinação costuma ser estática e não dinâmica ou inteligente (1861 p 196) Insistindo mais uma vez que o acesso a informações desconhecidas por parte do instrumento, comprovaria a ação de um espírito guia. 

                                     Kardec ignorava por completo o fenômeno natural da clarividência associado a vida inconsciente ou a personalidade múltipla. Mas não a clarividência ou a profecia em si mesma associada ao sonambulismo puro e simples (1858 p 61). 

                                     Portanto temos bem de par com a 'terceira revelação' i é bem juntinho ou ao lado -  

* Quanto aos fenômenos:

                                      # Fraudes ou imposturas - Admitidas.
                                      # Ilusões e alucinações - Admitidas.
                                      # Forças puramente mentais e desdobramentos psíquicos - Admitidos.

* E quanto os espíritos comunicantes:

                                     # Espíritos neuróticos -
                                     # Espíritos fanáticos - Admitidos.
                                     # Espíritos ignorantes - Admitidos.
                                     # Espíritos malignos - 
Admitidos. 
                                     # Espíritos Superiores FALÍVEIS -Admitidos.

                                      Além das condições de invisibilidade e anonimato partilhadas por todos os espíritos sem exceção. 

                                      Conclusão 01: As autênticas comunicações espíritas não passam de um resíduo ou de mínima parte dentre o conjunto dos fenômenos abordados.  

                                       Conclusão 02 : As comunicações dos espíritos superiores não passam de resíduo ou de ínfima parte dentre a massa de comunicações obtidas pelos médiuns reais ou supostos.

                                         Conclusão 03: É a tal da terceira relevação resíduo de resíduo ou como se diz 'pepita de ouro' extraída a um mar ou oceano de lama. 

                                  Diante de tão imenso cipoal ou labirinto os
 kardecistas costumam vir a liça postulando não sei quais energias ou emanações do bem, uma proteção específica de deus ou de Jesus ou ainda dos espíritos de luz, etc quanto aos MÉDIUNS DE KARDEC - Em que pese as hostes de espíritos zombeteiros e enganadores, o desdobramento mental dos vivos e o anonimato... envolvidos por desdobramentos, capacidades mentais, alucinações e fraudes (Nenhuma das quais excluída por completo por Kardec).

                                     E o quanto assistimos é uma autêntica fuga ao naturalismo.


                                     Apesar das advertências feitas pelo Codificador: "Não há palavra sacramental alguma, sinal cabalístico algum, ou talismã ou ação que possa exercer influência sobre os espíritos (Ao contrário do que diz a querida Blavatsky) --- Mas não é exato que alguns espíritos TENHAM DITADO FÓRMULAS CABALÍSTICAS. Efetivamente, espíritos há que indicam sinais e palavras estranhas ou ainda prescrevem certos gestos por meio dos quais se fazem os assim chamados conjuros. Mas, ficai certificados que tais espíritos estão é a escarnecer e a zombar da vossa credulidade."

                                             
Lamento contrariar os amigos espíritas mas é Kardec quem adverte não haver qualquer seguro espiritual ou garantia de proteção face a essa imensa massa de fraudes, alucinações, desdobramentos e espíritos malignos, ignorantes, neuróticos, anônimos... que cercam o pequeno número de comunicações relevantes.

                                   E são esses mesmos espíritas, que afetando cientificismo, chegam a por em dúvida não apenas os supostos milagres ou intervenções sobrenaturais - Aqui com plena razão! - mas por vezes até mesmo os milagres do divino Jesus consignados no Evangelho Redentor.


                                               
Curioso ver como os kardecistas - Que tanto apreciam o positivismo, o naturalismo ou o cessacionismo (E o autor deste artigo é cessacionista convicto!) com seus temperos deístas. - tresandam e põem-se logo a falar em alguma ajuda providencial já aos médiuns de Kardec já ao próprio Kardec, a qual tornaria tais médiuns invulneráveis ou conferiria ao ilustre professor francês uma espécie de infalibilidade, quiçá arremedo da infalibilidade papal promulgada por Pio IX em 1870.

                                          Verdade seja dita - Impede o pudor que a maioria dos espiritistas, particularmente os mais instruídos, atribua tal prerrogativa a Kardec, mesmo quando admitem que ele selecionou as comunicações e que selecionando atuou falivelmente, como qualquer outro ser humano. 


                                          E é precisamente aqui e a partir daqui que todo esse edifício que se arvora em ciência, filosofia e revelação começa a desabar fragosamente... A desmanchar-se, a ruir e a dar por terra...

                                          A maioria deles prefere, com Canuto de Abreu 1957 p X "O resultado de sua redação só era incorporado ao texto depois de cuidadosamente revisado e corrigido, palavra por palavra, pelos Instrutores."

                                         
Tal o ping pong ou o jogo Tênis espiritual -

                                           As comunicações são, em seu conjunto duvidosas, bem como os espíritos em seu conjunto. 

                                           Como resolvemos isso...

                                           Dizendo que foram examinadas e selecionadas por Kardec.

                                           Reivindica Kardec a perfeição da infalibilidade como o Pio IX, o papa epilético... Certamente que não.

                                            Então...

                                            Recorre Kardec a um recurso especioso que não poucas vezes confunde ou entusiasma seus leitores a ponto de correr louros, aplausos e ovações.

                                             A todo instante Kardec opõem a fé supostamente cega da Igreja antiga a razão ou ao raciocínio. Aqui, paradoxalmente, não é nada 'sofisticado', positivista ou empirista, porém racionalista ou metafísico, tal e qual Leibnitz, Descartes, Voltaire, etc. 

                                              Como um protestante livre examinista falando sobre a bíblia ou o Evangelho (Sem ser o Evangelho ou a bíblia.) Kardec escreve sobre a razão e o raciocínio, a ponto de ser fastidioso citar. E a impressão que se tem é que ele Kardec encarna a razão ou seja o único mortal capaz de raciocinar - Mesmo quando confessa sua falibilidade.

                                                Importa dizer que é a razão um guia naturalmente seguro, mormente quando haja acordo entre os sábios a respeito das conclusões. Fica no entanto sendo, ainda hoje - Como nos tempos de Orígenes. - um recurso restrito e pouco acessível ao grosso do povo ou a gente medíocre e sem instrução. 

                                                  Outro o conceito de Revelação ou Religião, sobretudo quanto associada ao veículo mais adequado - que é a Encarnação de Deus, e ao recurso a autoridade, pelo qual se atinge a gente medíocre ou até mesmo as massas. 

                                                   Os próprios conceitos de Razão (Natural) e Revelação (Sobrenatural) parecem distintos - Ainda que não sejam opostos e destinados encaixarem um no outro, completando a comunicação divina e infalível as aquisições limitadas e apenas humanamente seguras da Razão. 

                                                     Admitido isto o quanto temos aqui não é Religião ou Revelação e menos ainda Ciência porém uma Reflexão ou uma especulação metafísica feita a partir de comunicações incertas e duvidosas i é um tipo de filosofia muito pobre, que pode partir de premissas equivocadas.

                                                      Caso Kardec, sendo humano, seja o critério ou padrão das comunicações, todo espiritismo é puramente humano e natural, mesmo quando houvesse alguma comunicação fidedigna incluída no conjunto.

                                                       Daí Canuto de Abreu... postular a revisão do quanto foi feito por Kardec pelos espíritos... Os quais bem podem ser fanáticos, neuróticos, ignorantes, malvados, etc e são sempre falíveis... 

                                                        Kardec no entanto confere o título de Superiores ou iluminados aos espíritos que assentem a seus juízos. Por que superiores ou iluminados... Porque concordam com ele. Kardec como que canoniza os espíritos que aprovam seu trabalho. Que seriedade há nisto...

                                                         Kardec aprova os espíritos que aprovam Kardec... Senhores isso é pura marmota. 

                                                                            Eternos céus - Imaginávamos uma auto comunicação divina, com garantias razoáveis, puridade, exatidão, etc E eis que os kardecistas, que se julgam cientistas ou filósofos, brindam-nos com possíveis fraudes, alucinações, fenômenos paranormais, comunicações de vivos e toda casta de espíritos: Fanáticos ou irredutíveis e espíritos neuróticos/psicóticos, ignorantes, zombeteiros, falíveis, anônimos (Para você se sentir no AlAnom), etc então me diz se isso não é um mercado ou uma feira... Labirinto sem fio de Ariadne!

                                                     E... no entanto... Apesar disso... Nosso cândido declara sereno e calmo que os espíritos que dirigiam os médiuns de Kardec eram os mais puros e elevados do universo, os melhores, a elite do mundo espiritual - Pois certamente havia ali uma operação divina ou uma ação providencial. 

                                               E incomodam-se nossos amigos quando dizemos que isso não passa de fé e de uma fé grandiosa, de uma fé colossal, duma fé imensa... Quiçá mais fé do que qualquer Ortodoxo que crê na divindade de nosso Senhor o Bom Jesus.

                                                                   Como ainda aqui e sempre quero ser justo, concedo que para as comunicações pessoais ou NÃO DOUTRINÁRIAS - Nas quais pessoas das mais diversas fés, buscam contatar algum ente querido para acertar alguma pendência, tais prevenções e garantias não venham ao caso. Bastando para tanto evocar o falecido no ambiente certo (E do modo correto) - Num ambiente de paz, serenidade, amor e boas energias, a luz do Evangelho e com recurso a prece. - e interagir com ele, deixando o mais a cargo da intuição... que é a meu ver a melhor forma de reconhecer alguém com quem convivemos. Se interage e comunica alguns de segredos ignorados pelo médium podemos dar por plausível a presença do defunto.

                                                                  Manifestamente outro e diverso o caso desse espiritismo doutrinário ou kardecista que pretende substituir os padrões mais seguros da Revelação divina - Que são a Encarnação e na sucessão apostólica na Igreja. - pela mediação de entidades invisíveis e anônimas  que não podem ser identificadas com seguridade. Sabendo que o universo espiritual é bastante similar ao nosso e que está densamente povoado por entidades problemáticas como atribuir-lhe a prerrogativa de informar-nos sobre as coisas santas e divinas...

                                                       Quiçá algum espírita frustrado, após ter lido estas linhas, julgue que queremos desencaminha-lo do espiritismo. Longe de nós. Apenas da doutrina ou do Kardecismo ou ao menos de certos aspectos dela... Quanto ao espiritismo basta dizer que também existe o NÃO doutrinal, perfeitamente compatível com a fé Ortodoxa ou mesmo com as práticas da igreja romana. Pois um romano, anglicano ou Católico Ortodoxo bem pode lá ir receber seus passes, ouvir alguma comunicação, etc sem deixar de ser Cristão. Como pode ir aos centros Kardecistas - Caso se sinta bem. - sem aceitar a doutrina ou aderir a ela. 

                                                    Por não acreditar que a condenação da evocação dos mortos por parte dos antigos judeus tenha qualquer coisa de sagrada ou de divina (É puramente cultural e não consta em nosso Sagrado Evangelho!) sou pela conciliação até onde for possível e não por qualquer ruptura dramática ou radical, mesmo porque o espiritismo possuí uma Ética admirável, filha desse Evangelho e a qual não posso desdenhar. 


                                                    Eis o que tenho a escrever sobre a doutrina de Kardec e suas garantias.

                                  


                           

                                 

sábado, 28 de janeiro de 2023

O acúmulo ilimitado de bens e a ilimitação econômica sob a ótica da Filosofia greco romana.




Faz parte das manobras da modernidade e do discurso americanista, urdido pelos pastores, classificar todos os opositores do capitalismo ou do liberalismo econômico clássico como comunistas, marxistas, bolchevistas, etc Falso dilema que ainda faz bastante sucesso entre as massas desorientadas produzidas pelo próprio capitalismo. 


No Brasil por sinal, o surto psicótico americanista, alimentado pelo sectarismo bíblico ou protestante, tem resultado em posturas para lá de bizarras - Posto que temos visto inúmeros personagens de nossa história e arquitetos de nossa cultura (Cristãos apostólicos inclusive!) apontados como comunistas ou marxistas mesmo quanto tenham vivido antes do nascimento de Marx ou ignorado supinamente o teor de suas obras... Tais os delírios a que temos assistido nos últimos anos. Indício seguro de que tudo sempre pode piorar... E de fato piora.

José Bonifácio de Andrada e Silva, patriarca de nossa independência; D Pedro II, monarca bragantino; Getúlio Dorneles Vargas, um dos maiores adversários da ideologia comunista; Goulart, Santiago Dantas, Jânio Quadros, Leonel Brizola, D Helder Câmara, dentre outros... foram ultimamente matriculados, pelos zumbis americanistas, como comunistas ou bolchevistas... pelo simples fato de que em maior ou menor grau cada um deles afastou-se do modelo capitalista, da mercadolatria ou do economicismo crasso, orientando a economia noutros sentidos possíveis. 

Nenhum deles no entanto combateu a legítima posse da propriedade pessoal ou mesmo a posse privada dos meios de produção... Eliminando tampouco a liberdade econômica em sua totalidade. De modo que nenhum deles foi Comunista ou aplicou soluções marxistas no contexto brasileiro - Embora seja exato que tenham dirigido e portanto limitado politicamente a economia, nos termos já enunciados por Leão XIII, papa romano, na Rerum Novarum - A situações de tal gravidade, no que tange a condição dos trabalhadores, que é não apenas lícito mas necessário que interfira o poder político... (Citação de memória!). 

Não aniquilaram ou exterminaram a liberdade do Mercado como preceituam os bolcheviques, porém inspirados por ideais tomados a Tradição Cristão ou ao Evangelho - E tenhamos sempre em mente o franciscanismo! - estabeleceram justos limites tendo em vista reduzir ou reprimir a proliferação da miséria. O que repito é ideal precipuamente Cristão ou antes humano e humanista, não marxista. 

Alias se há no comunismo algo de superior em comparação com o capitalismo ou com o liberalismo crasso é a sensibilidade para perceber que algo está errado face a tanta miséria ou face a tão grande desigualdade. Tem o marxismo pelo menos um ponto a seu favor, reconheceram diversos sacerdotes papistas - Anteriores ao Vaticano II com efeito: O fato de destoar do materialismo assumido e deitar um olhar crítico, logo ideal e idealista, sobre a realidade. Pois para os liberais economicistas é a miséria algo absolutamente comum... Para os positivistas nos devemos conformar com a realidade dada - O viés conservador é explícito - e abdicar de transforma-la ou de torna-la melhor.

Em que pesem seus defeitos, como a abominável Ditadura do Proletariado, o comunismo tem consciência de que algo não vai bem ou de que algo está errado numa sociedade em que alguns não tem pão ou leite para dar aos pequenos enquanto outros tomam banho de champanhe ou comem bife temperado com ouro em pó... O comunismo percebe o drama da miséria ou da pobreza e quiçá comove-se sinceramente. O capitalismo é absolutamente insensível face a tais situações de sofrimento até a crueldade e a indignidade humana não lhe diz absolutamente nada...

De fato essa inconformidade face a realidade dada, essa revolta, essa indignação produzida por um tipo ideal é comum ao autêntico Cristianismo, filho do Evangelho; e ao comunismo. É um vínculo que nos une e um laço que nos liga: A compaixão, associada a vontade de ajudar, de melhorar, de beneficiar, de mudar, de fazer algo enfim... Podemos até desfrutar do melhor sistema já elaborado - No entanto é esse 'melhor' demasiado miserável, insuficiente e deficitário; e sempre podemos avançar e melhorar mais a partir do que temos! Naturalmente que a partir dessa vontade magnânima, que consistem em mudar para melhorar as condições de parte da sociedade, podem resultar, como resultam, diversas situações de conflito provocadas por aqueles que temem a mudança de uma realidade que os beneficia... Aqui porém a responsabilidade é deles - Dos egoístas e acomodados, que pensam apenas em si mesmos.

Ora o Cristianismo nos ordena cuidar do outro, beneficia-lo ao máximo, resgatar a dignidade alheia e minorar o sofrimento humano - Por isso nossos ancestrais e avoengos sempre tiveram diante dos olhos, como autêntico fim da vida política o "Bem comum", pois tal é o sentido da palavra "República". Não foi de Marx, Engels ou Lênine que partiram eles mas do Evangelho, da tradição patrística e mais remotamente - Como patenteia a Teologia escolástica do Aquino. - de Aristóteles, o lógico, o peripato e 'Mestre consumado de todos aqueles que sabem algo.'

E no entanto há quem, diante da economia dinâmica vivenciada pela Hélade, ouse divisar nela o liberalismo econômico clássico ou algo semelhante ao capitalismo atual. 

Em que pese aquela espécie de Loas, registrada na Política de Aristóteles, o Theorikon de Péricles, os deveres do Corego, etc há quem nos deseje apresentar Atenas como uma plena economia de mercado. Eu no entanto, diante de tais leis e de outras tantas compendiadas pelo macedônio Craterus, o máximo que posso distinguir ai é um estado de Bem estar ou Welfare State, como as atuais repúblicas do Norte da Europa, cujo modelo é absolutamente diverso do modelo Norte americano, o mais próximo dos ideais postos pelo liberalismo clássico ou pelo neo liberalismo. 

Penso estarmos de acordo - Podemos não estar! - que o principal representante do pensamento Filosófico grego foi Sócrates de Atenas, filho de Sofronisco e Fenarete. 

Em diversos aspectos seguidor de Aristóteles e Antístenes ou Diógenes, devo confessar a primazia de Sócrates. 

Conhecida a apreciação de Rousseau, o qual situava o pensador ateniense imediatamente abaixo de Jesus Cristo, com o qual tantos pontos teve em comum - Assim com Buda e Confúcio, outros dois grandes mestres que viveram mais ou menos ao mesmo tempo que ele. 

Admiro Sócrates antes de tudo por ter enfrentado serenamente a morte para não abdicar de seus pontos de vista.

Poderia ter deixado a pólis que o viu nascer e ido viver com sua esposa e filhos noutras paragens - Não o admitiu...

Anaxágoras, Protágoras e Aristóteles, dentre outros, acharam por bem fugir... O que lhes era defeso e sequer merece reproche... 

Sócrates, como disse, recusou-se a fugir - E aceitou morrer em nome dos princípios e valores que acreditava serem seus. Não foi apenas um mártir da liberdade de pensamento - Foi convicto e acima de tudo corajoso.

Quiçá pudesse subverter a Atenas de seu tempo - Tal sua fama. - e tomar o poder... Como Jesus Cristo porém...

Além disso, ao contrário do que dizem, foi ele, Sócrates, o maior benfeitor da Democracia, por denunciar o mecanismo equivocado do sorteio indiscriminado ou incondicional e insistir na formação.  Caso Sócrates tivesse sido ouvido e suas críticas tivessem sido acatadas quiçá a democracia ateniense tivesse durado mais de mil anos...  Foi aquele olhar acurado e atento que pela primeira vez distinguiu o populismo ou a OCLOCRACIA (Degeneração política voltada para as baixas aspirações e vícios das massas!) - Mais tarde descrita por Aristóteles e Políbio! - e buscou advertir seus pares, em vão!

Platão (E Critias é claro e Alcebíades.) sobretudo, foi que entendeu suas críticas equivocadamente, e por rancor, opôs-se a qualquer tentativa democrática. Platão sempre alterando o pensamento de seu mestre... E que seria de nós sem um Xenofonte ou um Esquines...

Por fim foi Sócrates quem retirou a Filosofia das quatro paredes em que fora contida por seus predecessores - Em especial Pitágoras e seus pupilos, para os quais era uma espécie de Maçonaria. - para leva-la as praças, ao grande público ou ao homem comum! Sendo consequentemente apresentado por Melito como corruptor da juventude, pelo simples fato de levar o pensamento crítico ao jovem do povo. Pois o mesmo pensamento era já levado, a peso de ouro, pelos sofistas aos jovens eupátridas...

Alias palmas a Sócrates por ter criticado igualmente o tráfico da erística, copiosa fonte de renda para os sofistas de então. De fato nem todos os sofistas tinham o mesmo comprometimento com a educação e a democracia que um Protágoras. 

Agora o que pensava Sócrates sobre o acúmulo ilimitado de riquezas ou a avareza, i é sobre o espírito do que chamamos capitalismo...

Começarei citando o Alcebíades:

"Sócrates: Quem cuida de sua fazenda, não cuida de si mesmo ou de suas coisas, senão que muito está afastado delas.
Alcebíades: Assim o é.
Sócrates: O homem de negócios, portanto, não realizado o que há de mais importante, que é cuidar do que lhe é próprio." 

E mais além:

"Portanto não se escapa a desgraça acumulando riquezas, mas acumulando a sabedoria."

Passo agora ao Eutidemo:

"Demonstrado esta que não obteríamos vantagem alguma, em possuir, sem trabalho ou sem aperfeiçoar a terra, todo ouro do mundo. Poderíamos até saber tranformar rochas em ouro: E tal conhecimento não tería valor algum, porque se não sabemos tirar proveito do ouro, por si mesmo, já o sabemos, utilidade alguma nos trará ele..."

Poderia multiplicar as citações ao infinito. Mas não desejo ser fastidioso...

Arrematarei assim com a famosa crítica ao consumismo - Motor da economia progressiva. - transmitida pelo divino Laércio (Vida e doutrina dos Filósofos ilustres.) - 

Tinha Sócrates o costume de levantar-se bem cedo e dirigir-se ao grande mercado de Atenas, indo de barraca a barraca e contemplando os diversos produtos. Por fim, ao retirar-se sem nada comprar, explicava: Gosto de passear pelo Mercado para ter uma ideia precisa de quantas coisas não precisamos por serem inúteis.

Ora toda nossa economia exuberante, e consequentemente a explotação irracional dos recursos naturais bem como a produção de resíduos ou poluição, vive disso: Da comprar e venda de coisas que não são absolutamente necessárias. De fato preciso eu de um celular ou de um refrigerador, de um fogão e de um ar condicionado, de uma bicicleta e de um liquidificador (O que em si já é problemático pois somos oito bilhões de criaturas humanas!) mas não precioso trocar de celular, carro, ar condicionado, fogão, etc podendo utilizar os mesmos aparelhos por anos a fio ou até que quebrem sem maiores problemas. Os meios de comunicação ou a propaganda é que nos convoca a desfazer periodicamente dos aparelhos mesmo estando ainda bons e isso apenas em benefício do Mercado e consequentemente da explotação de recursos e da poluição ambiental...

Mais do que a temida Revolução comunista, uma simples mudança de postura, nos termos racionais de um Sócrates, seria algo ameaçador para essa máquina chamada mercado... Pois atingiria esse sinônimo de miséria interior ou de pobreza de alma chamado consumismo. O sistema em que vivemos não apenas produz pessoas enfermas ou neuróticas mas afirma poder cura-las fazendo-as depender de si pelo simples fato de consumirem ao máximo. 

Todas as pessoas que acumulam coisas: Das que acumulam tampinhas de garrafa ou alfinetes as que, como o tio Patinhas, acumulam imensas fortunas, moradias ou automóveis são pessoas doentes e neuróticas, pessoas frustradas, pessoas mal resolvidas... enfim pessoas interiormente mendicantes ou mendigas. São os mendigos do Ser - Pois floresce o SER  na proporção inversa do SER e, quanto mais se tem menos se é. Não podendo nos sobrepor aos outros ou supera-los na esfera do Ser, por meio da virtude ou da prática do bem, optamos - Quiçá inconscientemente. - por ter mais coisas do que eles.

E se oito bilhões de humanos é uma calamidade, oito bilhões de acumuladores é um flagelo... Portanto o resto, deve ser composto por despojados ou miseráveis - Até por questão de sobrevivência.

Passo a Antístenes - O mais genial, leal e sublime entre os discípulos de Sócrates.

Que nos diz eles sobre a posse ilimitada ou o acúmulo de riquezas...

Como Sócrates, Antístenes identificava a riqueza com a sabedoria. O que não é para surpreender.

No entanto o que ele diz concretamente sobre a posse das riquezas é imensamente precioso:

"Quanto ao sábio, seja o total de seu dinheiro, o que um homem de porte mediano possa levar ou transportar."

De Crates de Thebas ou Athenas sabido é que após ter lido as obras do divino Antístenes colocou todo seu ouro numa carroça e lançou-o no fundo do mar, após o que teria exclamado:   'Agora livre' - Assumindo, o que seu mestre chamava Autarquia ou autonomia. 

Tendo tomado conhecimento de sua atitude, um certo Diógenes, ao ser exilado de sua terra natal, Sinope, desfez-se igualmente de todas as suas posses limitando a portar uma túnica surrada, um bordão e uma cuia. Segundo diziam os antigos teria vivido, ao menos durante certo tempo, num enorme barril ou melhor dizendo numa imensa ânfora de vinho ou azeite. 

Sobre esse sábio, contam as anedotas que tendo Alexandre se aproximado dele, com o objetivo de ve-lo, foi atalhado com as seguintes palavras: Afasta-te um pouco porque me tapas o sol. E noutra oportunidade, tendo o homem mais importante e poderoso do mundo lhe perguntado se poderia conceder-lhe algum favor, ouviu estas outras: Nada me podes dar que já não tenha eu!

Mesmo Aristóteles, que costumava ser muito mais moderado em seus juízo e apreciações teria criticado a sugestão sobre o acumulo limitado de bem, com o declarar que tal era impossível num sistema finito. 

Mesmo Platão, que era de família aristocrática e rica e malquistava com o regime democrático, na sua conhecida República, determinou que o grupo mais importante, o dos guardiães, formassem uma comunidade tanto de bens quanto de filhos. Pois acreditava que os Filósofos reveriam dedicar-se a refletir sobre o poder político e concentrar-se na resolução de tais problemas sem se desviar. 

Que podemos inferir a partir da solução posta por Platão...

Que ele percebeu certa rivalidade entre a esfera do público e do privado, optando, diante disso, por eliminar o privado. Sobretudo intuiu, como pode ser observado por Arendt, que dentre os diversos setores do privado, o que mais tende a absorver os humanos é o econômico, a ponto de esvaziar o político e reduzir sua qualidade. De modo que também Platão, teme o economicismo. 

Continua



quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Notulas sobre o pensamento medieval

- Após as invasões germano/árabes, as simples escolas e instituições educativas clássicas desapareceram. Que dizer então de uma Filosofia agonizante? Doravante a reflexão Filosófica será posta a serviço da Teologia Católica ou Ortodoxa, enquanto tentativa de se compreender racionalmente os elementos da fé Cristã. Enquanto atividade autônoma, iniciada mil anos antes pelos gregos a Filosofia chega ao fim.

- Julgo jamais ter existido uma Filosofia escolástica. No entanto diversos problemas de ordem filosófica foram postos e examinados no contesto da Teologia escolástica, sem que a profundidade da reflexão ficasse comprometida.

- O primeiro teólogo Cristão a servir se largamente da Filosofia clássica foi S Clemente de Alexandria, a quem devemos a transcrição de cerca de trezentos fragmentos clássicos, doutro modo perdidos. Seu exemplo foi seguido por Orígenes, famoso escolarca alexandrino, por Eusébio de Cesárea e outros, até S João Damasceno, primeiro expositor a fazer uso de Aristóteles e guia, por assim dizer de Tomás de Aquino.

- Parte dos cristãos ocidentais ou latinos, mais afeitos a gramática ou a arte retórica bem como as instituições do direito romano, chegou a nutrir sérios preconceitos contra o manejo da Filosofia pelos crentes, do que temis exemplo no 'anti teológico' Tertuliano.

- A principio Agostinho assimilou o pensamento Oriental, chegando a compor uma obra contra os académicos, há muito comprometidos com o ceticismo. Posteriormente no entanto, toda sua concepção de mundo é sua teologia foram afetadas pela queda do Império Romano ou pela Invasão de Roma por Alarico. Desde então assumiu ele uma posição maniqueísta, deturpando o conceito de pecado ancestral, negando o livre arbítrio, afirmando a predestinação e construindo um sistema próprio chamado agostinianismo ou grafismo o qual serviu de base ao luteranismo e ao protestantismo de modo geral. Tal sistema é pessimista da antropologia a epistemologia, havendo alguma evidência disto ja nas Confissões. Com efeito está a Agostinho nas bases de - Al Achari, Al Gasali, Ockhan, Lutero, Montaigne, Jansenio, Pascal, dos 'tradicionalistas', de grande parte dos neo conservadores e de outros tantos irracionalistas.

- Devemos ao Cristianismo histórico, Católico, Ortodoxo, tradicional ou episcopal, em termos de literatura a conservação de parte significativa da produção clássica compilada pelos monges da Assíria a Irlanda. Em termos de Ética a retomada ou conservação do ideário humanista/reformista proposto por Sócrates e Platão, o que foi constatado tanto por um Nietzsche quanto por um Werner Jaeger. Em termos de gnoseologia realista um certo apego  velha tradição aristotélica bem como a metafísica grega tradicional. É o quanto nos liga ao mundo antigo, enquanto elemento de continuidade. Neste sentido a Igreja histórica ou antiga é como que um cordão umbilical que ainda nos liga a Cultura clássica.

- O falacioso conceito agostiniano de pecado original, com toda sua carga de pessimismo, remete nos a queda ou a morte do Homem grego romano enquanto ideal/padrão posto pela cultura, assim ao trauma ou impacto produzido por esta queda. A falência dos projetos Socrático e Aristotélica, ao cabo de quase mil anos, não podiam deixar de repercutir no ideário dos Cristãos iletrados do Ocidente produzindo um paradigma negativo.

- Não poderia nem pode o islã produzir qualquer contribuição ao pensamento Filosófico. No entanto, a princípio - Tal e qual os judeus a partir de Aristóbulo e Filon - Continuados no decorrer da Idade Média por Avicebrom e Maimonida - e os já citados padres Cristãos - não podiam os muçulmanos, instalados na orla do Mediterrâneo ou nos domínios do Império Persa, permanecer impermeáveis ao patrimônio cultural clássico. Ali instalados quase que de pronto foi o pensamento Filosófico introduzido por convertidos Cristãos (Ou mesmo por clérigos Assírios, Siríacos, Coptas e Bizantinos) ou Zoroastrianos resultando em duas vertentes rivais: A Mutakallim ou Alh al Kalãm e a Mutazila. A primeira, representada por Al Isfaraini 'Ostad' fazia uso da Filosofia com o objetivo de compreender ou justificar o sentido tradicional dos elementos da fé. A segunda, representada por Ibn Ubayd e pelo próprio Averróis (Ibn Rodh), adotou um posicionamento mais crítico, buscando soluções de compromisso bastante ousadas.

Ao cabo de três séculos foi a Mutazila condenada pelos líderes religiosos e teólogos ortodoxos do islã como uma contaminação ou poluição grega e classificada como heresia. Por fim no século XI, Al Achari e Gazali, usando de material grego fornecido pelo ceticismo ou pelo agostinianismo - E antecipando Ockhan, Lutero e Kant - atacaram já a percepção, já a razão em benefício da fé cega, assim dos livros e profetas. O que se seguiu após eles foi uma inquisição feroz... O remanescente dos Mutazilas refugiou-se em Al Andaluz junto aos últimos Umayas, onde em pouco tempo veio a extinguir-se cedendo espaço a estreita ortodoxia sunita. E como diz Reilly o pensamento racional e livre jamais tornou a renascer no seio do Islã, prova de que era de fato um elemento exógeno, em oposição a cultura árabe ou semita. Possivelmente Averróis foi o único Filósofo situado no contesto islâmico.

- A Teologia escolástica de modo geral não sufocou o exercício Filosófico, antes estimulou o mesmo quando o fazia convergir para outro fim e o subordinada à outra área do saber. Penso na Escolástica como um período de gestação ou ventre, em que foi gestada a Filofosia moderna, novamente senhora de si.  O próprio Descartes não foi capaz de romper por completo com esta tradição, embora como Filósofo da Natureza ou epistemologo científico buscasse já por um.novo critério ou padrão.