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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O convidado que chegou atrasado ou dialogando com Roger Scruton (Como ser um conservador) I - Como me defino eu> Um sócio conservador kkkk







Após ter lido Russel Kirk e a "Anatomia" de John Gray eis que estou a ler o recentemente falecido Roger Scruton (Como ser um conservador, 12 Ed, Record, 2020) e consequentemente a dialogar com ele, posto que toda leitura crítica é um diálogo e a única leitura reverente ou acrítica que faço é a do Evangelho (Não disse bíblia ou antigo testamento ou mesmo Novo Testamento, mas apenas e tão somente Evangelho i é as palavras de Jesus Cristo). 

No entanto antes de iniciar meu dialogo com o sr Scruton desejo fazer algumas observações bem humoradas sobre mim mesmo e sobre o conservadorismo, assim sobre o conservadorismo brasileiro.

Principio registrando que a sociedade brazundanga adora falsos dilemas, radicalidades inúteis, extremismos tolos, etc 

De modo que faz eco das inanidades 'made in EUA' (E de Scruton)> Quem não é capitalista é um comunista ou bolchevista e quem não é bolchevista deve ser, necessariamente um entusiasta do liberalismo econômico (Nome científico do Capitalismo - Afinal os cientistas não dizem 'Limão' porém 'Citrus limonum' e tampouco 'gato' mas 'Felix catus'). Para nossos 'civilizados' brazundungas, encantados pelos pastores yankees, não há socialismos, ou anarquismo ou mesmo algo próximo de uma doutrina social da igreja, porém apenas liberalismo econômico e comunismo diabólico e se você se recusa a admitir o batismo e canonização do lib. econ. naturalmente que está do lado do capeta...

Naturalmente que não me enquadro nesse esquema simplório e dualista, fruto de mentes rasas e infantis. 

Comunista não são por diversos motivos, especialmente devido a tal ditadura do proletariado. Quanto a isto tenho é - Ainda que leves e críticas. - tendências anarquistas (Lamentavelmente Scruton não preparou capítulo com o título: 'A verdade no anarquismo') e consequentemente repudio todo e qualquer tipo de ditadura, tirania, despotismo, etc  seja de direita, esquerda, centro, etc E concordo com Scruton e outros quanto a liberdade corresponder a um valor essencial e inegociável que nos foi legado pela civilização. E quando me refiro a liberdade no seu contexto político me refiro a democracia e ao liberalismo político, com as decorrentes limitações éticas impostas pelos direitos essenciais da pessoa humana.

Nem creio que possam, a justiça ou a liberdade, serem outorgadas, dadas ou concedidas por qualquer elite, grupos, quadros, etc 

E tampouco creio em qualquer tipo de Revolução iconoclástica capaz de alterar a dinâmica da cultura por meio da violência ou da força. Admito sim a aplicação controlada da violência, atrelada ao conceito de sedição, ou na eliminação de uma ordem insuportável e cruel. Não a mística de uma violência desbragada com poderes mágicos quanto as estruturas culturais estabelecidas, e quanto a isto sou um cético absoluto. As revoluções são todas falaciosas - Desde a revolução primordial, i é, o protestantismo, até as mais recentes, i é, o comunismo. - já devido ao montante humano sacrificado (Vejam só o Paul Pot citado por Scruton) já porque revertem. Portanto a questão do custo benefício é especiosa, mesmo quanto as mais bem sucedidas, como a francesa e a russa.

O que não quer dizer que não venham a acontecer. Sendo quase que inevitável sua afirmação. Não por culpa dos revolucionários malévolos, como talvez suponha o sr Scruton, e sim por culpa da ordem precedente e de seus vícios insuportáveis. De modo que se, como dizem foi a dita reforma protestante (Eu discordo) uma resposta a condição do papismo na Europa ocidental, com mais razão foi o comunismo uma amarga resposta a uma ordem ainda mais amarga i é a do liberalismo econômico em seu auge. (E aqui eu concordo).

Por não crer na Revolução não sou anti revolucionário no sentido de fazer oposição ou dar combate violento a qualquer revolução. Creio na profilaxia social, toda a revolução se evita com sábias e oportunas reformas - Já dizia o sábio chinês Confúcio... Outras até merecem adesão e apoio, não porque se creia em seus objetivos gerais, certamente utópicos, mas apenas por se oporem a uma ordem excessivamente injusta e cruel. Há quem aqui prefira a neutralidade, eu no entanto me recordo da lei grega de Sólon sobre os que não assumem facção ou tomam partido.

Seja como for não creio em Revoluções e as tenho por trágicas, assim a guerra de modo geral, embora não a possamos evitar tendo em vista as exigências da justiça.

Outro aspecto que me põem em acordo com Scruton é que essas místicas sociais ou ideologias, adotam um modelo social geométrico, com propósitos demasiado abstratos e uniformes além de planos que implicam uma hierarquização e centralização excessivas ainda quando pretendem das combate a alguma tirania e até mesmo conquistar certas liberdades. Tudo muito burocrático e metódico, a parte da estrutura ou da realidade social e na dependência de um futuro aparelho repressor.

É o quanto me basta para incompatibilizar com o comunismo, mesmo quando alguns de seus membros aspirem sinceramente pela redenção do homem, i é, pela erradicação da injustiça social, pela supressão da miséria, pelo fim da exploração assassina, contra a desumanização, a alienação, a massificação, etc Ainda que nosso objetivo fosse similar, como declara o profo Lizandro de la Torre, nossos métodos seriam sempre distintos, senão opostos. É o que diz Scruton sobre os esquerdistas companheiros de seu pai: "As queixas de meu pai eram reais e bem fundamentadas, mas as suas soluções eram fantasiosas." Op cit pag 13.

É exatamente isto que distingue e separa as inúmeras correntes socialistas (O termos remonta a Owen ou Leroux) - Entre as quais me situo no plano da economia ou da produção e distribuição de bens. - do comunismo, por mais que a opinião pública desleal e o próprio Scruton busquem oculta-lo ou mesmo nega-lo, tudo lançando debaixo da senha 'esquerdista'.

É por isso que gosto de Dietrich Von Hildebrand, o qual dissertou magnificamente sobre quão vaga é a senha direita e esquerda. Naturalmente que há quem se encaixe perfeitamente na caixinha, se adapte e fique contente. Todavia bem pode o homem superior ser de direita aqui e de esquerda acolá, e em diversos nichos variar de posição... Tal o meu caso. E já o veremos.

Analisemos brevemente a questão econômica que cinde a humanidade em dois campos> Liberalismo econômico ou capitalismo e Socialismos. 

Analisemos isto com a seriedade que bem merece.

E o façamos a partir dos pressupostos teóricos do liberalismo econômico, cujos fundamentos foram lançados - Ainda que doutro modo (Diz Scruton na abertura do capítulo II, intitulado 'Começando de casa' aludindo a obra mal querida de Smith "Teoria dos sentimentos morais")  - por Adam Smith e, posteriormente por Ricardo, Petty, Bastiat, Molinari, etc Qual a linha condutora, o primeiro princípio, a ideia geradora, etc nesses teóricos... A ideia da não intervenção social e\ou política nas operações econômicas, dando espaço ao que chamam de livre iniciativa.

Naturalmente que os primeiros teóricos, como Smith, tiveram em mira aquele amplo conjunto de regulamentos arbitrários e caprichosos legados já pela idade média ou pelas monarquistas absolutas, que de fato travavam uma saudável iniciativa social no plano da produção e distribuição de bens. No entanto desde logo surgiram reivindicações e propostas no sentido de que não houvesse limitação ou controle algum desse setor ou seja em torno de uma ilimitação ou de um descontrole absolutos, como seja a produção econômica constituísse um setor a parte da sociedade ou mesmo da humanidade.

Nem temo dizer que o ANCAP é decorrência ou desenvolvimento natural deste tipo de pensamento.

A ideia aqui, e o ideal de sociedade perseguido, era o de uma não interferência absoluta por parte da sociedade ou do poder político no setor da economia e de uma independência total. O que de pronto se situa nos termos de uma utopia, como o comunismo, o anarco individualismo. 

Podemos portanto, ao menos teoricamente, e com toda justiça, definir como Socialismo, qualquer ideologia ou proposta que exerça oposição ao ideal acima descrito, que admita qualquer nível ou grau de interferência externa no plano econômico e a simples existência de leis destinadas a regular o Mercado (Como por exemplo a Lei antitruste - No Brasil n 12.529 - 2011), o recolhimento de impostos ou as relações de trabalho, ainda que de número bastante reduzido. 

A própria existência de um ministério da economia ou de um Banco central, com decorrente emissão de moeda, choca-se com o ideal livre economicista em sua puridade.

Destarte a simples concepção de um liberalismo econômico ou de um capitalismo controlável externamente em qualquer medida é antitética ou contraditório. 

Propor um capitalismo externamente controlável pelo poder político ou pela sociedade, como capitalismo ou como terceira via é algo inteiramente desonesto. As expressões terceira via ou Estado de bem estar social, cunhadas para batizar as soluções derivadas do Keynesianismo são de fato falaciosas. O que temos na doutrina de J M Keynes é também socialismo, gostem ou não os defensores do salvador do 'capitalismo'. Keynes nada salvou na medida em que foi contratado pelo Estado mais próximo do modelo liberal economicista tendo em vista um plano de intervenção estatal e decorrente legislação, que salvasse o monstro agonizante> E o que Keynes fez, foi justamente criar regras tendo em vista uma ação externa manobrada pelo Estado.

Conclusão: Tudo quanto foge a utopia liberal economicista da ilimitação absoluta não pode ser visto como capitalismo ou liberalismo econômico, mas como um tipo de socialismo, variando apenas o nível, o grau ou a forma de intervenção. 

É o que se sucede desde os tempos das reformas sociais implementadas desde Urukagina de Lagash, há quase quarenta e cinco séculos, passando por Faléas da Calcedônia (Citado por Aristóteles na Política), até chegarmos aos padres romanos Mably e Morelly no século XVIII, sem falar em S Tomás Morus e no Padre Th Campanella. Tais os socialismos sagrados ou de matriz religiosa, totalmente alheios a cepa materialista criticada pelos papas romanos e outros líderes religiosos.

No entanto é tudo, repito e insisto, o mesmo socialismo: O modelo bizantino, o modelo ocidental controlado pela igreja romana (Que proibia por Lei a cobrança de juros), o modelo inca, o modelo dos padres franceses acima citados, os modelos que os comunistas ferretearam como 'utópicos' e os de 'água benta' iniciados por Von Ketheller de Magúncia e continuados por Darboy de Paris, Daens, E Mc Glynn, Ireland, Mercier de Malines, Mother Jones... até as doutrinas de fundo tomista, pautadas na noção aristotélica de Bem Comum, legadas pelos escolásticos da Idade Média, em particular por Aquino e que inspiraram a Rerum novarum de Leão XIII, a qual, por sua simples existência, implica em categórica negação das pretensões liberais economicistas. Aos quais se juntaram mais tarde a proposta de Maritain, a de Bastos de Ávila, com o solidarismo, o comunitarismo, o cooperativismo, o distributivismo de Belloc e Chesterton, o já citado georgismo de Henry George, o personalismo de Mounier, etc 

Quanto a outras propostas de vária inspiração temos as de Leroux, J Jaurés, L Herr, Nitti, L Blum, De Gaulle, Marcel Deat, etc, O fabianismo dos Webb, que contou com o apoio de Shaw, Wells, Lodge, Ellis, Russel, etc Todas são socialismos, a começar por Keynes ou passando por ele. Pois o que há de comum a todos esses pensadores é que há algo de profundamente errado com o conceito de ilimitação e sua prática - O que alias, o próprio Sidwyck observou e constatou.

Portanto lançar todas essas ideias riquíssimas, destinadas a combater uma efusão de injustiças e crueldades agravadas pelo novo modelo econômico a cabo de mais de século, na mesma sarjeta que o comunismo, com sua ditadura do proletariado e mística revolucionária, me parece o cúmulo da desonestidade intelectual, coisa digna apenas de pastores ignorantes ou fanáticos que buscam satanizar o outro. Declarar que é tudo o mesmo 'esquerdismo' de inspiração residual anarquista é algo que não se pode dar por sério ou aceitar.

Neste sentido - Face a repulsa pelo modelo capitalista ou pela ideologia do liberalismo econômico (Não de um mercado relativamente livre> Regulado porém livre.) posso declarar-me socialista, ou social democrata, ou socialista religioso, ou socialista humanista, ou, caso o termo aterrorize alguém, posso declarar-me fabianista, georgista, solidarista, comunitarista, distributivista, etc

Não porque defenda a extinção da propriedade privada pessoal (A qual considero de direito natural e portanto sagrada) e sim porque questione sua origem, uso, acumulo, limite... (Quanto a posse dos bens de produção, considero a questão neutra, assim quanto a questão do regime assalariado). De modo a que possa, esse modelo de propriedade (Pessoal) ser democraticamente ampliado e consolidado ou porque busque sua disseminação.

Mas sobretudo porque seja partidário decidido da regulação do trabalho por um Estado cada vez mais democrático. Isto por considerar indesejável o quanto sucedeu na Inglaterra na Idade de ouro do que chamamos liberalismo (O que sabemos ter sido o mais próximo possível do ideal da não interferência) e foi descrito pelo talentoso e honesto Ch Dickens, o qual, até onde sabemos, não tinha qualquer relação com o partido comunista ou com a revolução bolchevique. Basta dizer que alguns escritores avaliaram a situação dos trabalhadores de Manchester e dos principais núcleos industriais ingleses daquele período (1830 a 1880) como pior ou sensivelmente mais grave do que a dos escravizados africanos no Brasil. 

O que não logro entender é porque tantos conservadores tardam em perceber ou jamais percebem (Deveriam ter lido "A grande transformação" de Karl Polanyi) que tudo quanto dizem amar intensamente: A micro sociedade, a paróquia, a piedade religiosa, a arte, o artesanato, o patrimônio histórico, o folclore, a família e até mesmo a própria natureza, a puridade dos ares, águas, etc a vida dos animais e vegetais, foi destruído sem misericórdia ou melhor triturado por esse poder econômico que se queria colocar acima de todas as leis e que por isso mesmo transformou-se num outro padrão cultural, chamado economicismo, no qual, como diz Scruton, nada tem valor intrínseco porque tudo tem preço e etiqueta para se comprar ou vender. 

Grande a cegueira dos ditos conservadores em sua maior parte, quando a esse aspecto da ação de um mercado todo poderoso e descontrolado, até alterar o ritmo ou a dinâmica das relações sociais e destruir aquela cultura ancestral que todos amamos - Eu em primeiro lugar, aquela cultura dos quadros de Paul Nash que nos preservava do tédio, da angústia e da depressão.

Amigo Scruton, esteja onde estejas, devo dizer-te> Aquele mundo foi votado a morte antes de tudo pela reforma protestante, mas, sobretudo pelo modelo capitalista. 

Foi ele que removeu os camponeses de suas terras, onde bem ou mal viviam em certa proximidade com a natureza e junto aos túmulos e relíquias de seus ancestrais, mesmo quando faziam suas manufaturas ou bordavam seus panos. 

Antes de tudo, em todos os lugares a que chegou a ideologia de mercado, onde quer que existissem terras comunais, sejam egidos ou rocios, foram estas terras vistas como fontes de renda e sujeitas a especulação para que servissem como pastos ou granjas modelos em que animais fosse criados intensivamente para serem devorados pelas massas empobrecidas, aumentando ao máximo o lucro dos granjeiros - Isto a custa dos pobres que foram expulsos a força, da natureza que foi destruídas e dos animais torturados e mortos, sobrando a terra poluídas pelos resíduos, muitas vezes venenosos dessa produção que objetivava ter por ter...

Para o conforto dos empreendedores, os quais instalaram suas fábricas nas proximidades das minas, foram os operários i é os co produtores da riqueza, instalados em 'cidades' não planejadas a parte do mundo natural e desumanizados ou despersonalizados tanto pelo contato prolongado com as máquinas quanto pela separação forçada dos animais e vegetais que até então formavam seu entorno e tornava a rotina da vida menos penosa. Nem puderam mais pescar algum peixinho, a sombra de uma macieira, junto a ribeirões de água cristalinas, passando a viver cercado por fétidos canais cheios de esgoto.

Presos a máquina por um período de tempo não regulado e sujeitos ao controle mecânico do relógio, passaram essas multidões a ser de tal modo drenadas pela dura rotina de trabalho que só lhes sobravam mínimo tempo para dormir. Como poderiam dedicar-se ao artesanato, ao lazer ou mesmo as atividades da paróquia, acabaram-se portanto, para esse homem apanhado pelo mercado livre, os feriados, as diversões, as tradições e a vida religiosa ou paroquial. Foi o operário e ainda hoje o é - Apartado da vida paroquial: Das confrarias, das procissões, das rezas e ofícios, etc chegando a empobrecer e alterar tremendamente a vida espiritual da Igreja.

E nem mesmo a família, como constataram Le Play e seus sucessores, escapou inume a sanha das máquinas e de seus proprietários sedentos por mais e mais lucro. Pois sendo o chefe ou pai da família remunerado apenas para sobreviver e inexistindo o que ora chamamos 'salário família' (Uma conquista dos rebeldes socialista e não um presente dos simpáticos empreendedores.) tanto a esposa\mãe, quanto os avós e os filhos, todos enfim, deviam fazer turno da fábrica para complementar a renda doméstica. Ficando alienados uns dos outros durante a maior parte do tempo e só se encontrando no momento de dormir, quando estavam em frangalhos e tomados pelo sono. Então deveria ser excelente e estimulante convívio...

Agora imagine o sr Scruton, que com razão, repito com razão, ficou horrorizado com as condições de vida no Leste europeu, controlado pela URSS, por serem infensas a liberdade de pensamento e de expressão, a condição de seus conterrâneos ingleses de cem anos passados, os quais não tinham leis, logo não tinham justiça e por não terem justiça não tinham pão - Quero dizer, o mínimo para viverem com dignidade e pensarem nas maravilhosas liberdades inglesas. Pois ali, entre os operários ingleses que viviam sob a nova realidade ('promissora') da liberdade do mercado, o que faltava não era algo abstrato (Concedo, essencial, porém abstrato) como a liberdade (Pela qual certamente devemos lutar e morrer!) mas comida, roupa limpa, espaço, saúde, distração, normalidade mental... enfim absolutamente tudo. Sendo aquele mundo áureo do liberalismo econômico ou do capitalismo um mundo de miséria e crueldade como raramente foi visto na história humana (Digo, quanto a ação intencional dos seres humanos.).

Onde penetrou esse poder ou essa força de uma economia descontrolada ou soberana todo esse idílio do sr Scruton em torno das pequenas comunidades em comunhão com o meio e dotadas de vida espiritual acabou-se, dando lugar ao cenário de horror, descrito com precisão e vivacidade pelo renomado autor de "Um conto de Natal". Pois não pode a bela 'Lei comum' fazer frente aos Scrooges da vida, e não houve final feliz. E de fato não puderam as leis antigas e tradicionais fazer frente a esta catástrofe ou diluvio de calamidades pelo simples fato de não poderem oferecer qualquer resposta a um fenômeno social (O liberalismo econômico) que até então inexistia - Não preciso ler Cujas ou Savigny para saber que a Lei não pode solucionar um problema a seu tempo inexistente. E é exatamente por isso sr Scruton que precisamos de novas leis, para solucionar os problemas causados pelos novos fenômenos sociais que simplesmente surgem. 

As leis tradicionais podem nos fornecer pressupostos para as novas leis, porém se mostram inevitavelmente inoperantes face a qualquer novo modelo social que venha a surgir. Daí a necessidade de que aparecesse - Não os comunistas ou a tropa revolucionária de Marx e Engels ou melhor de Lênin. - desde Davi Ricardo (Possivelmente ele próprio) ou Leroux, essa turba multa de intelectuais de classe média, religiosos ou racionalistas, que movidos por algo a que ora chamamos empatia ou alteridade, se compadeceram do operariado e, assumindo o nome de socialistas, combateram politicamente nos parlamentos para que tal condição fosse radicalmente alterada, digo a condição do trabalho - Lançando ao vinagre as pretensões dos empreendedores e seus fâmulos (Os teóricos) em torno do dogma da não intervenção ou do caráter 'imexível' da produção e distribuição das riquezas.

Acontece, nobre escritor, que até hoje, os paladinos do livre mercado, ainda não se conformaram com a realidade da restrição externa (A Tatcher foi um perfeito exemplo disto) jamais cessando de tentar reverte-la, inclusive financiando a eleição de agentes políticos (Por meio do Lobby) ou comprando-os, enquanto simultaneamente continua a destruir nossos maiores tesouros: O patrimônio histórico (Por meio da especulação imobiliária > Veja o triste exemplo da Avenida Paulista na capital do Estado de S Paulo em que as mais belas construções do Brasil foram criminosamente demolidas apenas para serem substituídas por horrendas caixas de sapatos!), o patrimônio cultural (Rezas, procissões, confrarias, etc) e por fim o patrimônio ecológico ou natural (Escuso dar eu a lista de animais e vegetais extintos devido a explotação!)... 

Ao contrário da maior parte dos conservadores não posso encarar o liberalismo econômico ou o capitalismo como algo inocente ou como algo menos perturbador do que a objeção comunista. Do contrário o que teria de mim seja um tonel de Danaides...

Caso de fato queremos manter ou conservar o patrimônio estético, tradicional ou cultural e ecológico legado por nossos ancestrais tendo em vista fruição de nossos descendentes não há como deixar de analisar criticamente a ideologia economicista da ilimitação, jamais posta de lado pelos teóricos do sistema, alias açulados pela ideia nada racional ou melhor bastante passional de um progresso científico ou econômico ilimitado (Uma das místicas mais destrutivas já produzida por nós). Pois há espectros do positivismo ou do cientificismo cercando-nos, apesar de J S Mill e sua economia estacionária, único modelo realista e racional de que dispomos.

Por todas essas razões por mais que tenha os mesmos sentimentos de conservação que os conservadores quanto a todas essas coisas, não me encaro como um e não posso deixar de ser, antes e acima de tudo, um socialista de água benta ou 'pequeno burguês' saudosista, como dizem os sectários comunistas. E assim o é. De fato os radicais até me classificam como 'conservador', posto que estou com vocês conservadores quanto a questão da cultura e o repúdio ao relativismo cultural, criado ou concebido não pelos comunistas, mas por liberais ou semi anarquistas como Boas, Benedict e Herskovits. Como estou com vocês e até os ultrapasso quanto a questão da objetividade estética e a repulsa ao modernismo, o qual encaro (Não menos que os odiosos e odiados nazistas) como uma degeneração. E estou ainda com vocês contra o relativismo metafísico ou contra toda essa pseudo filosofia contemporânea de procedência Alemã, e assim ao primado do subjetivismo, do solipsismo ou do ceticismo, posto que partidário decidido da Filosofia clássica ou perene da escola de Sócrates e enfim da do estagirita. E naturalmente que estou com os mais ajuizados de vocês quanto a sociedade secular ou quanto a objeção a qualquer forma de teocracia (islâmica ou protestante\calvinista) como fundamento pétreo da civilização.

Temos muitas, muitas coisas em comum, em que pese minha adesão ao socialismo e repúdio decidido ao liberalismo econômico, por encara-lo com destruidor do quanto amamos e desejamos conservar tendo em vista o deleite das gerações futuras.

É como disse, junto com um mundo livre, aspiro também, como Sócrates na República e contra Trasímaco, por um mundo justo, e limpo, e belo, e digno... Liberalismo é importante, necessário, fundamental, porém insuficiente. 

Termino este artigo confessando que para mim Conservador é um termo ainda mais vago que socialista ou esquerdista.

Conservar o que de que época ou de que lugar...

Conservar tudo ou a sociedade paralisada, sabemos ser impossível.

Então que valerá a pela ser conservado e transmitido. Que selecionar para ser conservado.

Aqui nos separamos talvez.

Pois acho banal um brasileiro, lusitano ou latino querer adotar ou conservar qualquer coisa de inglês ou pior de Norte americano, dada a diversidade da cultura.

Sem constrangimento algum encaro alguns aspectos da cultura europeia como objetivamente superiores face a aspectos de qualquer outra cultura e assim a Filosofia clássica ou perene de um Aristóteles ou a Ética socrática ou ainda o ideal estético grego, assim o direito romano, assim o que chamamos de Cristianismo apostólico. 

Outro o caso da cultura Norte americana derivada da rebelião individualista protestante e do liberalismo econômico, que é sua extensão. E não vejo, por coerência, como um brasileiro se possa dizer conservador de um modelo cultural que não é seu e que não lhe pertence.

Não vejo pingo de coerência em ser um conservador brasileiro e adotar um repertório iankee ou mesmo inglês.

De fato capitalismo não faz parte de nossa cultura ou pensamento social e econômico, protestantismo ainda menos.

Teríamos aqui, por força da coerência tornar as fontes e valorizar o que é nosso. 

Naturalmente que nem tudo é possível ou mesmo desejável, como a atrocidade do escravismo ou as agressivas relações que estabelecemos com os povos originários. Naturalmente que tais equívocos devem estar fora da pauta e devemos tornar a noção essencialmente cristã e católica de um direito natural inerente a pessoa humana (Segundo a forma de Francisco de Vitória). Temos que direcionar nosso conservadorismo as fontes humanas e humanistas de nossa cultura, o que nos separará do iankee e de sua cultura.

Para mim esse conservadorismo de improviso focado na 'American way of life' que incluí o modelo yankee do século XX com o imaginário calvinista de uma guerra fria (Alias tendo a Rússia, não mais comunista, como vilã) e o universo capitalista não tem sentido algum no Brasil. Pois não faz parte de nossa experiencialidade histórica ou de nossa realidade. Outro tipo de conservadorismo pelo qual tenho vivo horror é o modelo moralista individualismo ou puritano, frequentemente associado ao fundamentalismo religioso, uma vez que aderindo a corrente de pensamento Cristão sistematizada, em certo sentido por Vitória e desenvolvida até os teóricos do iluminismo, adiro firmemente os direitos essenciais da pessoa humana em sua escala mais amplas. Por fim deploro igualmente qualquer padrão político ingênuo de conservadorismo como o daqueles monarquistas que julgam poder mudar radicalmente a sociedade ou faze-la retroagir por meio de uma solução monárquica. Hoje nada tenho a objetar quanto a uma monarquia constitucional desde que esclarecida e progressista, porém não acredito em qualquer possibilidade de alteração cultural significativa e encaro essa postura dos monarquistas como algo bastante próximo do misticismo revolucionário dos comunas e anarcos.

Como disse as vezes o termo conservador me parece vago e movediço, tipo qualquer um decide conservar o que deseja ou o que quer. Portanto um conservadorismo acrítico sempre poderia ser portador de valores exógenos a nossa cultura, como o modelo iankee e quanto ao que tem de pior: O Capitalismo, ou até mesmo o protestantismo. 

Talvez por isso, apesar de ser progressista no campo da moralidade e da ciência e conservador no campo da arte ou da estética e mesmo da epistemologia, quiçá no campo da política (Com a policracia ou democracia direta e do socialismo) prefira dizer que sou reacionário. Fujo a banalidade. Escapo a caixinha em que tantos estão fechados ou ao sectarismo. Assumo-me como eclético - Não como sincrético e quiçá seja não uma metamorfose ambulante porém certamente um mosaico ambulante no qual existe uma presença objetivista, realista e conservadora bastante forte, e eu me orgulho dela. Há em meu peito ou em minha alma um conteúdo conservador, mas não coaduna com o que percebo no conservador brasileiro médio, antes conflita com ele conflita.


quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Ainda a questão da posse e da riqueza segundo as Escolas Filosóficas e o Cristianismo antigos - Que pensar sobre o capitalismo...



Foi, esta reflexão, suscitada pela leitura do manual de John Sellars "Lições de estoicismo", bem como pelas reflexões de Massimo Pugliucci, Jorge Cano Cuenca, etc Já me referi as aulas do Dr Gual, magistrais por sinal, sobre o Epicurismo, etc Também assisti aulas e cursos sobre o cinismo, o socratismo, o platonismo, o aristotelismo, o ceticismo, o neo platonismo, etc e todas foram bastante gratificantes para mim contribuindo, como já disse, para ampliar meus pontos de vista sobre determinados temas.


Darei início ao texto fazendo uma abordagem típica do capitalismo, embora de minha parte seja honesta e sincera. Anti capitalista ou adversário do liberalismo econômico CRASSO por questões de ordem religiosa, ética, estética, ecológica, etc sou, sem embargo disso a favor do Mercado. Não da mercadolatria ou de qualquer proposta economicista (Inclusive Comunista!) em torno do falso princípio da ilimitação, mas sim da existência de uma liberdade limitada ou controlada por estâncias externas a si. 

Creio ainda menos na ideologia delirante - E mística alias (cf Grayling) - do progresso tecnológico incessante e infinito. A crítica implícita em Malthus remonta a Aristóteles e toma sua forma a partir do mestre Liberal John Stuart Mill - Meu querido Mill, sempre tão lúcido. 

Claro que a afirmação que acima fiz, presente tanto no Pe Júlio Menvielle, quanto nas Encíclicas dos papas romanos e num grande número de pensadores qualificados como socialistas heterodoxos (Tragtenberg) ou humanistas, ou ainda Cristãos, soa absurda aos olhos de qualquer comunista ou marxista posto que o Comunismo é um tipo de materialismo. 

Por diversas vezes aludimos a crítica radical de Marx em torno da estrutura capitalista que ele aspirar demolir até os alicerces por meio da tão esperada Revolução. Marx de fato não acredita em reformas ou em reformismo porquanto encara a estrutura do capitalismo > Propriedade privada dos meios produtivos, salário, capital, lucro e portanto o Mercado como a essência - Monista! - do Capitalismo. 

Outra a compreensão dos que como Sombart não partem do materialismo mas do idealismo, ou como nós, de um realismo muito próximo do aristotélico (A Análise é do Pe Menvielle.) Estes divisam no Capitalismo dois aspectos: Uma material ou estrutural que corresponde ao acidente, e outro essencial que corresponde a essência mesma do sistema - A esse último aspecto Sombart deu o nome de Espírito do Capitalismo. 

Para todos nós e escolas citadas, apenas esse espírito do Capitalismo i é, a aspiração pelo lucro ilimitado, a cobiça, a avareza, etc é incompatível com a Ética, devendo ser extirpado - Assim qualquer ideia de progresso infinito ou de ilimitação econômica que dê suporte a uma visão de mundo ou ordem economicista das coisas. Lembrando os religiosos deslocados, os espiritualistas incoerentes e os críticos hipócritas do marxismo que economicismo é materialismo. Ora, nós nos opomos consciente e resolutamente ao materialismo e por isso incriminamos o capitalismo, enquanto fonte de todos os materialismos contemporâneos. 

Quanto ao aspecto acidental ou estrutural do capitalismo i é Mercado, salário, lucro, capital, etc, temos que poderia ser conservado desde que eliminado aquele espírito acima descrito ou desvinculado dele e associado a uma Ética humanista i é posto a serviço da humanidade ou do grupo social, o que supõem planejamento, controle e limitação - Nas palavras do insuspeito, mas genial, J M Keynes: Postulamos no mínimo um capitalismo enjaulado ou castrado; um liberalismo econômico não economicista. Mesmo por que os conceitos de humanismo e economicismo são teleologicamente excludentes.

Claro que uma reforma puramente econômica e radical nos termos de Marx, desde que não resultante de uma Revolução inútil, seria possível. - Embora suscitando dificuldades e obstáculos muito mais sérios. 

Por isso apostamos séria e honestamente num Capitalismo enjaulado ou num Mercado controlado por uma Legislação política voltada para o bem comum ou como se diz hoje para a qualidade de vida. Honestamente não creio que seja uma terceira via mas, a velha via do Socialismo > Palavra criada por Leroux que ainda assusta muita gente, principalmente os de cultura e formação protestante. Permitam-me dizer que existem apenas dois modelos: Capitalismo, i é, o paradigma da ilimitação (Nos termos do individualismo.) ou do descontrole social e político posto pelos 'clássicos' ingleses> Smith, Ricardo, etc e os Socialismos, que postulam uma limitação em maior ou menor grau. Se admite qualquer índice de controle ou limitação não pode ser capitalismo na acepção leal ao termo. Por isso temos que encarar o papa, os católicos sociais, os padres da igreja, os filósofos gregos, os reformadores sociais do antigo Oriente, Keynes, Galbraith, Giddens, Chesterton, Belloc, fabianos, etc todos, sem exceção, como socialistas. 

Se o termo ainda escandaliza algumas almas assombradas pela cultura protestante calvinista, podemos empregar quaisquer outros criados pelos padres: Fraternalismo, comunitarismo, solidarismo, cooperativismo, coletivismo, etc dá no mesmo, pois a essência de todas essas correntes ou escolas consiste em submeter o econômico ao político e consequentemente ao social numa perspectiva ética. Os métodos e modelos são diversos porém o fim consiste em inviabilizar a ilimitação e barrar acesso a um economicismo materialista pelo qual o ser humano seja esmagado...

Logo, para mim, o terror da palavra é irrelevante e sinal de infantilismo. Passo...

Faço com o capitalismo o que ele costuma a fazer com diversas religiões e escolas filosóficas - As quais ele aplica uma análise realista dualista, esvaziando-as de seu espírito ou consciência e assumindo-as como técnicas. 

Vou exemplificar: O predador economicista atua a semelhança do cozinheiro ou culinarista que após ter esvaziado a caixinha de leite, reaproveita-a colocando massa de bolo ou de pudim...

Mas por dizer predador ocorrem-me as vespas, as quais após sedarem suas presas nelas inocula seus ovos. Eclodindo os ovos da vespa o inseto hospedeiro se transforma numa casca ocupada por uma chusma de larvas... Parece inseto mas não passa duma casca,

Em que pese a aparência de exagero é exatamente o que a ideologia capitalista tem feito com diversos sistemas na modernidade medíocre. 

Toma os acidentes do sistema e insere-se a si mesmo enquanto essência, ditando princípios e valores a uma técnica ou estrutura.

Dentre os sistemas cooptados ou colonizados por essa ideologia materialista temos o nosso Cristianismo, o Budismo, o Estoicismo, etc

Começarei pelo Budismo. 

Todos conhecem muito bem o 'budismo' Mindfulness, que é um budismo não Budista. Vá a página do Instituto Filipe de Souza e lerá: "Para praticar Mindfulness... não precisamos acreditar em Karma, reencarnação, iluminação do Buda, etc". Pode crer inclusive que Buda seja um perverso ou réprobo...

A apropriação consiste em tomar técnicas próprias do Budismo, desvincula-las do Budismo - assim de suas crenças e princípios, e coloca-las a serviço do Mercado ou da gerência do Mercado. Apossa-se da técnica do Budismo com o propósito de negar ou destruir a essência do próprio Budismo, a qual levaria o profitente a questionar o acúmulo ilimitado de riquezas ou o sucesso financeiro. 

Agora pasme - Há quem praticando tais técnicas se apresente como Budista!!! Budista do mercado!!! Apóstolo do liberalismo econômico ou do capitalismo...

Sim senhores...

Ocorre o mesmo com o Neo Cristianismo Ocidental ou protestante ou americanista, de matriz calvinista. Foi em tal organismo que fermentou essa coisa chamada Teologia da prosperidade que tanto sucesso faz no Brasil. E há 'cristão' que se incomode com a Teologia da Libertação (Devido a seus vícios e desvios!)... Minimizando a Teologia da prosperidade. Teologia que colocou certos meios, supostamente religiosos e cristãos, a serviço do mercado ou da aquisição de riquezas - A ponto de converter seitas em Empresas ou Emprejas, voltadas primeiramente para o acumulo de bens materiais neste mundo! E leem  no Evangelho: Não junteis riquezas nesse mundo... Não podeis servir a Deus e as riquezas...

De fato, temos na T P, o supremo monumento erguido a incoerência ou leviandade dos seres humanos!

Mas esta aí, um novo Evangelho, uma nova Teologia, uma nova Graça submissa a um poder econômico e posta a serviço de uma ideologia materialista. Nem Arístipo de Cirene logrou subverter de tal modo o socratismo como o sectarismo protestante - Com a manobra do livre exame! - logrou submeter e esvaziar o Cristianismo...

Mais assustador ainda: Católicos Ortodoxos, apostólicos romanos e anglicanos, aproximam-se disso... sobretudo movimentos carismáticos como a RCC... Pois estão ligados ou relacionados pelo puritanismo e pelo fetichismo. E vai essa mentalidade penetrando o papismo ou a ortodoxia! A ponto de vermos Cristãos Apostólicos assumindo os postulados anti Cristãos do capitalismo... Em que pese toda literatura patrística ou a nossa Tradição!!!

E temos um Cristianismo esvaziado ou não Cristão> Tão casca quanto o Budismo Mindfulness.

Mais sortudo é o hinduísmo - Do qual os canalhas tomaram apenas a Yoga...

Há ainda o caso da bela doutrina de Zeno, Cleantes e Crísipo - Cuja opinião sobre o acúmulo de riquezas repassaremos na segunda parte deste artigo!... Pois os mesmos patrões, administradores, gerentes e servos do capitalismo, que tomaram preces mágicas ao Cristianismo, meditações ao Budismo, etc tomaram igualmente a ascese FUNCIONAL do estoicismo - Como denuncia Pugliucci - colocando-a a serviço do sucesso financeiro ou da obtenção de grandes fortunas.

E no entanto a visão estoica sobre o acúmulo irrestrito ou ilimitado de riquezas ou sobre priorizar o sucesso financeiro, não difere em nada da Budista, da Cristã Apostólica ou histórica ou ainda da Socrática ou da Cínica. Aqui a visão crítica é comum, e poderíamos incluir ainda Confúcio, Platão, Aristóteles, etc que só mudaria o grau ou nível da crítica. Todos aqui veriam o Capitalismo como um empobrecimento da cultura, como uma corrupção, como uma alienação, como desumanização, despersonalização, degradação...

Claro que o princípio operatório é o mesmo: Nada de vida conforme a natureza, de panenteísmo, de adiaphoras preferidas, etc Pois o conteúdo próprio ou essencial do estoicismo é eliminado até os fundamentos.

O problema aqui é que a semelhanças dos meditabundos, dos feiticeiros 'cristãos' etc também esses se apresentam como estóicos, além de ostentar certas formas de ascetismo muito mal compreendidas ou ontologicamente presumidas...

Portanto a questão que enfim aqui se coloca não é se somos Cristãos, Socráticos, Cínicos, Estóicos ou Budistas mas se somos - E insisto nisso! - se somos bons Cristãos, bons Socráticos, bons Cínicos, bons Estóicos, bons Budistas, etc 

Noutras palavras: Se somos Cristãos autênticos e integrais...

E não meio Cristãos, superficialmente Budistas, aparentemente Estóicos, por estarmos comprometidos com outros princípios e valores ou por nos colocarmos a serviço de uma cultura de morte que não nos pertence.

Penso que dois ou dois mil e quinhentos anos seja bastante tempo - E já é tempo para que as coisas sejam levadas a sério...

Até quando vamos tolerar que nossa herança clássica ou Cristã, que o patrimônio imaterial ou religioso da humanidade seja instrumentalizado por um sistema individualista e materialista... Por um sistema egoísta e cruel que nos tem ensinado a tratar a terra nossa mãe a semelhança de vermes ou abutres que devoram uma carcaça podre...




terça-feira, 28 de janeiro de 2020

A doutrina social e os equívocos da Igreja Romana - A grandeza e a miséria do Social Catolicismo.

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Há coisa de dois ou três anos, tendo visitado um grande amigo meu, Comunista, não apenas de boca, mas conhecedor profundo daquela Ideologia e homem de imenso saber  - Poliglota, polímata, etc a conversa tocou na D S I, i é, na doutrina social da Igreja romana ou no Social Catolicismo. Principiou meu amigo e oponente dizendo que se tratava duma bela construção teórica ou uma bela proposta, porém, letra morta desprovida de um maior significado, uma vez que a própria organização que a concebera ou idealizara, na prática, parecia não leva-la a serio, pelo simples fato de pouco ou nada fazer no sentido de ve-la realizada ou concretizada. A impressão, segundo ele, era que a própria igreja romana não dava o devido valor a essa doutrina, ostentando-a como uma espécie de enfeite.

Ao calor da discussão tomei semelhante acusação por injusta...

Agora, passados tantos anos, ouso fazer 'Mea culpa' e reconhecer sua legitimidade.

Afinal, dispostos os meios, a mesma Sociedade que enfrentou heroicamente a máquina do Império Romano e que por tanto tempo enfrentou e conteve a jihad islâmica, ao menos por uma vez salvando o mundo Ocidental (Com seu tesouro de cultura Greco Romana) - pelo que merece nossa gratidão - bem poderia ter conjurado o espectro nefando do Capitalismo ou do liberalismo econômico enquanto expressão economicista subsidiária do materialismo e classificada pela Ética Cristã tradicional como sórdida avareza... Se bem que estivesse já essa Sociedade enfraquecida pelo advento do Protestantismo (Aqui o atenuante ignorado por meu bom amigo comunista).

No entanto é patente que a igreja romana cometeu dois colossais equívocos, um no Concílio de Trento, por aproximar-se doutrinalmente do protestantismo através  do agostinianismo (Jamais existiu qualquer contra Reforma exceto enquanto tentativa feita na França pelo Duque de Guise, mas assimilação de elementos protestantes como a teologia agostiniano da graça). 0 que por nós foi exposto em inúmeras dissertações teológicas.

O outro equívoco diz respeito ao Liberalismo Econômico ou Capitalismo e demais liberalismos emergentes... Vamos, arqueologicamente, tentar traçar esta História tão confusa.

O primeiro erro da igreja papa foi misturar ou confundir os Liberalismos criando um rótulo - vazio e absurdo: Liberalismo (No singular). Jamais existiu algo como um liberalismo exceto do ponto de vista da cultura protestante a qual batizou o liberalismo econômico tentando Cristianizar suas pretensões essencialmente anti Cristãs... Existiram sim diversos liberalismos (Uma pluralidade), de vária cepa e muito mal relacionados entre si, isto a ponto de podermos falar não apenas em tensão, mas em verdadeiro conflito, a que foge somente a cultura protestante americanista, na qual o elemento humano é esmagado e a dimensão Ética da vida negada ou minimizada. O anti humanismo de mercado é filho primogênito do anti humanismo protestante ou bíblico (Vetero testamentário).

Um é o L moral, outro o religioso, outro o Político, outro o econômico... Basta dizer que a mancebia entre o capitalismo e as ditaduras é bastante conhecida. Quando o L econômico é ameaçado por qualquer reforma democrática ou popular (ainda que rara) o L Político sai pela porta dos fundos ou é sacrificado.

Em que pese a tristeza, a justiça obriga-nos conceder que a igreja romana, exaurida pela luta contra as seitas protestantes não soube compreende (Como ainda hoje os Catolicismos não querem compreender - E por isto perecem!) a dinâmica da Cultura e o significado do Capitalismo emergente. E o resultado disto, o último resultado será já o Concílio do Vaticano II, já este tradicionalismo espúrio permeado pela cultura alienígena... E quando deu por si o inimigo oculto já havia ultrapassado as fronteiras, atravessado as muralhas e transformado em escombros esta cidade de Cristo, que ora tentamos reconstruir, ao menos teoricamente - De modo a iluminar e a inspirar as gerações futuras. Nós somos semeadores de novos mundos, em parte espelhados no passado... A Igreja de modo geral negociou. Imolou sua cultura, seu éthos, seu espírito imortal e assimilou uma cultura que jamais foi sua. O desastre da assimilação da adoração protestante e do sistema econômico capitalista pela Igreja romana, começou bem lá atrás, em Trento, com a falsa contra reforma, a qual não passou de assimilação. Primeiro a igreja Latina assimilou a fé protestante ou agostiniana a respeito da graça e em seguida a cultura e o padrão econômico produzidos pela HERESIA SOLIFIDEISTA. Tudo quanto ora vemos é um abandono do mundo e a derrocada (Aparente) da ENCARNAÇÃO. Não temos sido ENCARNACIONISTAS coerentes...

Concentrou-se a Igreja romana ainda nisto, imitando (Como uma macaca.) o protestantismo, e assimilando modos moralistas e puritanos (Sinais de decadência em termos de instituições religiosas.) - Pasme leitor, a Idade Média foi muito mais liberal (Nos termos da moralidade) do que os neo catolicismos, subservientes a crítica protestante/puritana que incorporaram - e atendo-se a uma forma política histórica i é espacial temporal, relativa e ultrapassada... Divisou um Estado forte quanto a moralidade dos súditos ou a vida privada mas, fraco quanto a Educação e assim quanto a vida política por estar diretamente subordinado a ela. E por instigação de reis e políticos incrédulos e ambiciosos perdeu seu fervor educativo, embora jamais abdicasse dele. Crendo fixo semelhante estado de coisas - o qual não era senão provisório - permitiu que parte dos seus profitentes permanecesse sob o jugo da ignorância, fabricando massas ao invés de povo (Do que tirou e tira proveito o protestantismo com suas seitas!). Assentiu que houvessem analfabetos nesta cidade cujos fundamentos mais sólidos deveriam ser a fé pura e esclarecida bem como um conhecimento elementar ao menos da Teologia e uma certa educação filosófica. E foi um erro fatal... (Nina Rodrigues já dissera, e com razão, que os Catolicismos não são assimiláveis pelas massas incultas.) Quanto a economia, setor em que as transformações aconteciam a galope nada discerniu ou fez além de impostos e alguns tratadinhos sobre comércio e moeda... Ignorou por completo este setor e receando um Estado Forte (quanto mais democrático!) apostou no Estado omisso, fraco ou mínimo...

Desde que o protestantismo serviu-se do Estado e da estatolatria com o objetivo de afirmar-se e que o Estado moderno, já absolutista, já democrático ou politicamente liberal, mas consolidado no poder, ameaçou, romper com o velho pacto, assumir a educação e desamparar o moralismo insosso, aspirou ela, a Igreja Romana, por um Estado frágil, inerme ou mínimo, sem cogitar que o economicismo disto pudesse tirar máximo proveito, introduzindo um novo padrão de cultura. Como jamais imaginou que as seitas protestantes tirariam mais e mais vantagem da ignorância em que jazem até hoje as massas sumariamente alfabetizadas ou apenas letradas, vitimadas por uma condição miserável. Miséria e ignorância alienaram as massas da Igreja assim que ela perdeu o controle da Educação ou das escolas...

Da associação entre o Estado frágil e a massificação dos grupos sociais resultou a inserção muito bem sucedida do liberalismo econômico e do protestantismo que são elementos solidários e formativos do agregado cultural americanista. Esta afinidade eletiva foi devidamente exposta pela corrente weberiana, a luz da qual compreendemos a dramática transformação porque passa o Brasil é a agonia do Ocidente. O Capital precisava e precisa de uma exército de reserva angustiado e as seitas de iletrados, semi letrados e imbecis para escravizar mentalmente por meio da superstição. As massas mal alimentadas e fatigadas constituem o pasto predileto das seitas todas... fornecendo-lhes inclusive válvulas emocionais de espace, por meio de um culto emocionalista copiado pelos carismáticos. Nada no sentido de TRANSFORMAR a realidade, apenas de deixar como estar, fornecer explicações falaciosas e tirar proveito. O fetichismo 'Cristão' é isto, e as estruturas perversas do mundo atual agradecem - É colaboração...

Enquanto tal se sucedia o gracismo e o solifideismo iam mais e mais contaminando a igreja romana. Até que chegamos a este aparente renascer chamado romantismo. O romantismo é fenômeno alemão, que antes de convergir para aparências de Catolicismo, surge numa Alemanha luterana. Por isso trás em seu bojo o ideal de uma comunicação direta com Deus ou de uma comunhão espiritual que parte do coração, sem precipitar-se necessariamente em obras... Por isso o romantismo produz uma praxis Católica venenosa e desligada por completa da tradição medieval que é a própria vida social. Disto resultou a crença horrenda (Quando parte dos protestantes, por falta de beleza, já não ia ao culto!) de que ser Católico é ir a Missa dominical e assimilar certos tipos de moralidade puritana, individualistas e oriundos quase todos do antigo testamento ou do judaísmo. A Idade Média, com suas associações que permeavam a vida, tinha sentido de Ética Cristã ou Evangélica, bem mais acurado. O neo romano do século XIX isolou-se de seus irmãos batizados, encastelou-se no recinto privado do lar, perdeu todo e qualquer vínculo social e criou para si uma falsa torre de marfim, o avesso da Cidade do Deus encarnado Jesus Cristo... Isto não é vida, é culto somente, fé somente, espiritualidade somente; protestantismo. Catolicismo é consciência, sentido, espírito, vida e prática. Algo que se vive e prática vinte e quatro horas por dia e trezentos e sessenta e cinco dias por ano. O Católico do século XIX não tem mais este perfil total, é obra em parte, corrompida, pela apostasia luterana com seu abandono do mundo, com sua desistência, com sua inanidade...

O Cristianismo foi perigoso. Face ao Império Romano, face ao Império Bizantino e face a Jihad islâmica e arabizante. O neo cristianismo luteranizado e avesso as obras não é perigoso. Pois desesperou de transformar o mundo e suas estruturas. Já não é sal - É água de flor de laranjeira ou rosas, calmante. Cristianismo não pode jamais ser calmante, tem exigências Éticas inegociáveis. Críticos de imensa cultura temem que retorne a suas autênticas tradições, tornando-se mais perigoso do que o anarquismo, o comunismo e o fascismo; embora seus métodos e fontes sejam bem outros. O capitalista estudado esforça-se por satanizar a Idade Média - Ainda aqui adotando os métodos da falsa reforma - e até os antigos padres e a tradição Cristã, social e humanista. Ele teme o episcopalismo ou os Catolicismos, mas não se importa com as seitas protestantes, mesmo quando assumem um viez teocrático. Sabe que elas jamais desampararão o economicismo, contentando-se com dominar o comportamento privado, inda que por meio do poder político.

Isolando-se uns dos outros os Católicos não perceberam nada disto. Nada, nada... Seus líderes - como Pio IX, continuaram a meter os pés pelas mãos... a disputar com o Estado em sua esfera, a combater pelo 'vitorianismo', a proclamar moralidades, a vindicar uma propriedade que mudará de significado por completo (A noção de propriedade MEDIEVAL não é a contemporânea), a condenar o Liberalismo qual fosse uma coisa só, etc Foi uma Cruzada inglória. Marx combatia a forma apenas do Capitalismo... E a Igreja não lhe atingia o espírito, o éthos, o coração ou a alma, que era necessário aniquilar e substituir por outra. De modo que não atingiu ela seu escopo...

E no entanto o primeiro meio capaz de - A partir de um controle indireto ou de simples orientação - implantar a doutrina social da igreja e de reformar as estruturas sociais no sentido da Tradição e do Evangelho, seria justamente um Estado forte. Democrático, popular e limitado a sua esfera, mas forte nessa esfera - Das coisas comuns, da convivência ou da Ética. Forte quanto a Ética humanista ou a promoção do ser humano e a afirmação da justiça (Aqui a República de Platão) em todas as áreas da atividade humana. Lamentavelmente a Igreja sempre suspeitou deste Estado (Mesmo quando Democrático ou Policrático!) até anatematiza-lo. Desamparados pela própria igreja os elementos populares, os demagogos liberais economicistas após terem assumido o protagonismo do movimento democrático, tomaram a direção das Escolas e fechou os mosteiros, beneficiando ainda mais a cultura protestante e capitalista... Ao invés de identificar os inimigos e a cultura de morte que os inspirava a igreja, cega, anatematizou ainda as formas democráticas, e postulou um retorno utópico ao velho Estado dirigido. CONCLUSÃO - Os maus liberais (Capitalistas) apresentaram-se como heróis e paladinos da liberdade, fazendo avançar a cultura americanista... A igreja - aqui muito falível, terrivelmente falível - fez o jogo deles, mesmo quando se lhes opôs...

Sim, os espertos americanizantes e economicistas jamais deixaram de tirar proveito dos equívocos cometidos pela igreja e assim de apresentar e promover o Liberalismo com um todo homogêneo, em que entrasse o capitalismo. De fato eles associaram o Liberalismo político - que é a alma da democracia - ao liberalismo econômico, isto com o premeditado objetivo de justificar este por aquele.

A loucura integrista ou integralista (Aberração no terreno da política, da ciência e dos costumes), reforçou este erro, pois quando honesta condenava ambos os liberalismos e sancionava a tirania, senão o velho ideal teocrático. Destarte os inimigos do despotismo - inclusive dos setores dominados! - passaram a encarar o capitalismo com franca simpatia e como elemento necessário de um pacote cultural superior ou mais civilizado. O próprio americanismo, que é antípoda da nossa cultura, foi assumido por não poucos... Enquanto isto dos simplórios Donoso Cortês, Salvany, Murilo, etc e mesmo um De Maistre ou um De Bonald continuavam a apresentar a modernidade empacotada... O que desaguou na Ação Francesa, com Ch Maurras, embora este tivesse já certa noção da cultura e das conexões ideológicas com o protestantismo. No entanto jamais situou o problema onde devia, na economia de mercado ou no economicismo, insistindo na tecla do político. Se Marx, foi prisioneiro daquele materialismo comum ao sistema que criticava Maurras foi prisioneiro de formas políticas que nada explicavam ou cuja dimensão era limitada face a cultura. Apenas Weber começou a decifrar esta esfinge...

Fácil é compreender que entre nós os frustrados do integrismo passaram ao americanismo - Como comunistas e fascistas tem migrado para o capitalismo e como ora passam ao islamismo, juntamente com alguns fundamentalistas protestantes e romanistas moralizantes (perceba o leitor a ilação!). E que do conflito entre o Estado democrático e a Igreja tirou partido o Mercado, assim como o Imperialismo Norte americano e toda essa cultura de morte, da qual, como elemento basilar faz parte o protestantismo, com seu abandono do mundo, seja pela fé somente ou pelo apocalipticismo. Aliás o economicismo apenas reivindicou um setor da vida abandonado pelo protestantismo... Bom insistir nisto, pois trata-se da fonte da crise porque passa nossa civilização.

Havia no entanto, para a Igreja ( Como ainda há, embora pareça por demais utópica) uma outra possibilidade - A do afrontamento ou da auto reconstrução a partir da Tradição ou do passado, no qual não haviam faltado meios com que enfrentar e vencer a Cultura de morte. Os próprios liberais economicistas, como os falsos cristãos mamonolatras ou avarentos, sabem melhor do que ninguém que o Cristianismo vivo é a suprema ameaça a este sistema. Por isso tentam a todo custo conter a expansão da consciência Cristã, sabendo que sua ética é mil vezes mais devastadora e temível que o Comunismo e o Anarquismo, posto que suas fontes são divinas! O materialismo, a avareza, a ambição excessiva, o economicismo capitalista tem a Deus por adversário e tal é o segredo do rei...

Cumpre apenas dar consciência a este corpo decadente, que como o Verbo Jesus pode ressuscitar e dar vida ao mundo. Ao Comunismo materialista e totalitário, não podia a mãe igreja estender fraternal e ingenuamente a mão. As atuais e legítimas aspirações ECOLÓGICAS não só pode como deve. Que aproveite o kairós para fecundar e encher de luz esta corrente do bem. Que saiba à luz da memória (TRADIÇÃO) recriar-se e recuperar os mecanismos espirituais com que no passado movia seus filhos, ora movendo-os a uma vida Ética coerente, intensa e avassaladora.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Freixo, Lula... Bolsonaro, Edir, Malafaia - Rolando de abismo em abismo...

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Errar uma vez é cometer simples erro, porém errar repetidamente, diz o adágio, é burrice e rematada burrice.

E se na vida corrente ou comum a burrice produz sérios danos, quanto mais na vida política ou no gerenciamento do Bem Comum. Afinal é a política arte ou ciência de bem gerir o Bem comum, assegurando a todos os cidadãos máxima qualidade de vida. Tal a importância da política...

E por ser assim tão importante deveria ela estar a salvo das eventuais idiotices cometidas pelos mortais.

Isto do ponto de vista da idealidade.

Pois do ponto vista da realidade é o que não se dá. Temos uma política, ou pior, temos diversas políticas burras, independentemente da orientação ideológica.

Caso pudesse condensar meu pensamento em poucas palavras diria que eles não leram, que jamais leram Délcio Monteiro de Lima - Os demônios descem do Norte - e menos ainda Max Weber. E que se leram Marx e Engels, aos quais teem por gurus, nada compreenderam. Daí cometerem sucessivamente os mesmos erros. E comprometerem a Civilização.

Curiosamente cometem o mesmo erro na Europa, alias na França, onde a esquerda imbecil tem, tradicionalmente, defendido os interesses dos muçulmanos, em que pesem seus ideias assumidamente teocráticos e liberticidas.

Aqui e lá a esquerda desorientada busca apoiar-se na 'Cana quebrada' do fundamentalismo, aqui do bíblico, pentecostal ou protestante; importado dos EUA (A fé essencialmente burguesa descrita por F. Engels, a qual segundo o imortal Weber, seria responsável pela afirmação do modelo capitalista.) e do outro lado do Atlântico, do fundamentalismo sunita, hambalita, wahabita, salafita... com o eterno ideal da sharia e seu padrão cultural árabe. Cana quebrada que poderá furar-lhe as mãos, aqui ou lá... Aqui e lá...

Da curiosidade passamos ao enigma ao constatar que há quase meio milênio um autor francês: Guillaume Postel - Em obra que lamentavelmente passou em 'branca nuvem'- ja assinalava as semelhanças existentes entre o islamismo e o protestantismo nascente.

Tanto pior aqui nos rincões do Brasil. Onde a intelectualidade marxista sequer lê Marx e Engels. Que dizer então de Max Weber ou dos clássicos franceses???

Veja que estava folheando ainda ontem uma parlenga do Roger Garaudy - Pensador romano que após ter abraçado o marxismo Ortodoxo ou Comunismo acabou por aderir ao islã! - publicada em francês pelos idos de 1942 - "Comunismo e moral." (Em espanhol "Comunismo, moral y cultura"). Uma filípica dirigida aos críticos romanos ('Católicos') do materialismo, na qual Garaudy principia apresentando Descartes (Antonio Damásio teria um infarte ao ler isso...) como 'materialista' e Spinoza como ateu (Exatamente como os padres babões que estava criticando), e por ai seguem as monstruosidades ideativas... Concebidas pelo tal marxista, para quem os opositores 'católicos' do Comunismo ou de Stalin seriam todos Hitlerianos ou nazistas, mesmo quando assumidamente democratas. Em seguida, o destacado comuna falseia a noção da liberdade, asseverando que ela só é possível no âmbito coletivo e assim estatólatra, deixando bem claro que nada sabe a respeito daquela liberdade pessoal que delineia os atos morais, como qualquer nazista ou fascista totalitário.

Acho natural que certa parcela de comunistas identifique-se - por patético que possa parecer - com os muçulmanos ou com os calvinistas, i é, com os sectários religiosos que se opõem a noção de liberdade pessoal, esboçando algum tipo de determinismo religioso, em termos de destino ou predestinação. Tornamos a G. Postel e sua análise genial... Mesmo em 'terra brasilis' há tipos assim e eu já tive a oportunidade de dialogar com um Calvinista Ortodoxo que é, igualmente, formador comunista e, marcadamente, adversário da doutrina do livre arbítrio ou da liberdade pessoal.

Naturalmente que nem todos os comunistas tem consciência de tais 'afinidades eletivas', passando muito a largo delas. Tanto pior em nossa 'província'... Que dizer então de Freixo ou Lula... Os quais sequer são comunistas, sem que por isto sejam sociais democráticas ou pertencentes a qualquer escola socialista. Nem Lula é socialista nem Bolsonaro é fascista - Afinal este jamais leu uma página de B. Musolini como aquele jamais leu vírgula de Jaurés, Herr, Blum, etc Bolsonaro pratica autoritarismo militarista associado minimalismo, algo bem norte americano... Lula, durante muito tempo praticou um socialismo bem sucedido. No entanto mesmo seus críticos petistas e socialistas assumem que ele falhou em não produzir uma consciência socialista, que service de suporte a si e a seus sucessores. Lula nem poderia, alheio ao culturalismo, trabalhar a teoria da cultura ou formar uma consciência socialista e por isso mesmo seu projeto reverteu. Pois ele formou apenas consumidores, engrossando as fileiras de uma classe média alienada.

Votei nele por duas vezes e com mais razão em Dilma, teria votado nele uma terceira vez, como tive de votar - a contragosto - em Hadad, mas, tal e qual um grande amigo meu, pelo mesmo motivo, não votarei nele, Lula, pela quarta vez. Como não teria votado em Freixo.

Temo que pessoas como Lula ou Freixo se tenham apegado ao poder e adotado o lema do fim que tudo justifica. Salvo lhes mova apenas a ignorância crassa, o que, no caso deles ambos, não é menos grave.

Tanto Freixo quanto Lula conhecem por experiência que é a nociva bancada evangélica e quais são seus propósitos, em termos de teocracia ou de privilégios. Mesmo assim Lula optou ou optara por conceder-lhe mais poder e visibilidade, inclusive nomeando o atual prefeito do Rio M. Crivella, ministro de Estado. Sucedeu-se exatamente o que havíamos dito e previsto; obtendo ainda mais poder e força na gestão de Dilma nenhuma plataforma tornou-se mais hostil ao programa levemente socialista desta senhora do que a dita plataforma ou bancada evangélica, cujo líder, o pastor pilantra Ed. Cunha deu início ao golpe que acabou por derruba-la e por impor ao povo brasileiro, mais uma vez, um ideário liberal economicista. O que quero destacar é justamente o papel dos fanáticos religiosos, dos bíblicos e fundamentalistas neste processo que acabou por comprometer a ordem democrática e a institucionalidade, travando inclusive a reforma política...

Em todo este processo que sabotou o futuro de nossa sociedade estavam ativamente inseridos os políticos protestantes ou bíblicos. O que não foi novidade para mim, ex protestante que sou.

Em seguida trataram de instrumentalizar os neo católicos' (romanistas) ingênuos e em parte já protestantizados e de apoiar a candidatura do norte americanizante Bolsonaro, recorrendo para tanto, ao fabulário com que os pastores sempre atacaram ou satanizaram não apenas o Comunismo mas qualquer forma de socialismo existente (inclusive o Cristão). Marx foi apresentado como o anti Cristão, Engels como a Besta, Lula como possesso e os socialismos todos como a pura e simples apostasia. O liberalismo econômico como sempre foi canonizado e apresentado divino a partir da dita bíblia, com um empurrãozinho do livre exame... Por fim todas as questões puritanas ou moralistas foram lançadas aos quatro ventos, baralhando ainda mais o cenário. Com o livro negro nas mãos e um pouquinho de imaginação os sectários esmagaram o lulopetismo e encadearam ao que chamam luladrão...

O mais curioso face a este cenário doentio é que o próprio lulopetismo e setores psolistas representados por Freixo, falseando consciente ou inconscientemente a questão, declararam que apenas uma ínfima minoria de evangélicos havia tomado parte em tais eventos e que a maioria deles era progressista ou mesmo - pasmem! - socialista... Não podia crer no que estava a ler, mas lí... Bem, eu sou ex protestante e por experiência conheço relativamente bem o mundo e o ideário protestante. Não sei portanto de onde Freixo e Lula tiraram semelhantes impressões, exceto pelo propósito de agradar a todo custo e assim de obter apoio e poder.

Claro que também há progressistas no meio protestante, e até haveria um número significativo caso
admitissemos que a maior parte dos anglicanos ou anglo católicos, sejam protestantes; quando são episcopais, e, em número considerável, ideologicamente Católicos. Alias, tal distinção é irrelevante caso consideremos que no Brasil protestantismo é sinônimo de Pentecostalismo e não de protestantismo histórico. Daí a construção do mito do pentecostalismo progressista, afinal se é pentecostal é marcadamente 'ortodoxo', bíblico ou fundamentalismo. Basta entrar numa livraria protestante qualquer para dar-se conta de que para os pentecostais, em quase sua totalidade, o liberalismo teológico e moral - Assumido por algumas igrejas históricas da Europa ou do Norte dos EUA - nada mais é do que uma abominável heresia ou detestável apostasia. O imaginário coletivo dos protestantes brasileiros i é dos nossos pentecostais pouco se distingue do ideário vigente nas seitas do Sul dos EUA, donde foi importado.

Por isso a propaganda anti socialista ou anti Comunista forjada naquelas terras ter sido importada com tanto sucesso para esta. Até a destruição do projeto lulopetista... Não nos impressiona este fato, já o havíamos predito e assinalado!!! Admira-nos Freixo e Lula fantasiarem ou ocultarem o problema, afirmando ingenuamente que os fundamentalistas são nossos aliados e que os trabalhistas, petistas, comunistas, sociais democratas, comunistas e socialistas de toda casta deveriam associar-se a esta gente e buscar seu apoio. Isto sim é assombroso porquanto Lula e Dilma já foram atraiçoados por esse povo! E porque o recente golpe foi ativamente apoiado por eles, a ponto de - Como na Bolívia - ter sido batizado com o nome de 'golpe evangélico'. Leiam protestante ou pentecostal ou ainda fundamentalista e terão lido corretamente. Pois sem a cooperação de um Malafaia, de um Macedo, de um Feliciano e de outros tantos charlatães, escudeiros de Ed Cunha, tal golpe não teria tido chance de sucesso. Basta ver o quanto os 'crentes' empenharam-se a favor de Cunha e de Temer nas redes sociais!!! Os papistas sem dignidade, foram de carona - como fazer já a quase meio século graças a RCC e ao ecumenismo - num segundo momento, uma vez que já não dispõem de consciência própria e assimilam cada vez mais princípios e valores exógenos de origem protestante.

O que quero dizer ou repetir a exaustão é que toda esta dinâmica do insólito deve ser analisada, lida, interpretada e bem entendida a luz do culturalismo. O protestantismo, ao contrário do que supõem ou dizem Freixo, Lula e outros jamais poderá ser aliado de qualquer tipo de política socialista por ser uma fé 'essencialmente burguesa' (Fr Engels), a qual desde seus primórdios promoveu a afirmação das forças econômicas, materiais ou capitalistas na mesma medida em que pela negação da necessidade de obras Éticas, abandonou o cenário das relações pessoais, sociais e políticas para incidir apenas sobre a fé. Este vácuo ou esta lacuna aberta pelo protestantismo nascente - a qual interpretamos como um recuo do ideal Cristão primitivo - foi que deu espaço as forças econômicas em ascensão ou ao que chamamos economicismo, o qual veio a plasmar toda cultura subsequente, ao menos a partir do século XVIII.

Eis porque o liberalismo econômico teve de surgir e impor-se antes de tudo e primeiramente numa sociedade protestante ou numa sociedade disputada pelas inúmeras seitas advindas da Reforma, nenhuma das quais poderia capitanear uma possível resistência as forças econômicas ascendentes. Destarte tiveram as seitas de omitir-se ou mesmo de apoiar a nova estrutura em formação.

Na terra pura dos EUA, na qual as culturas ancestrais foram eliminadas ou empurradas e não havia resíduo de cultura Católica, pode ser elaborado o novo modelo de agregado social, mais ou menos equilibrado, sob a égide das forças econômicas, mas mantendo uma aparência de religiosidade, concentrada apenas no além e que jamais ocupasse em questionar e transformar a realidade. Eis o Cristianismo conformista, ora ocupando a função de servo ou lacaio, e assim justificando, defendendo ou mesmo canonizando certa forma de organização social, não tão antiga. Os Ortodoxo e papistas deveriam saber, antes de todos, qual o discurso habitualmente empregado pelos pastores yankes com o objetivo de apresentar sua fé como superior a nossa... É simples: Jamais qualquer ideia socialista logrou arraigar-se nos EUA!!! E jamais qualquer esboço de simples sedição... Jamais o espectro sangrento da Revolução, que tantas vezes assombrou, ameaçou e solapou essas sociedades Ortodoxas ou Papistas do Velho mundo - evidenciado que há algo de muito errado nelas, donde procede sua vulnerabilidade - obscureceu o céu azulado dos bíblicos e puritanos... E já foi isto objeto de investigação por parte dos sociólogos da cultura... Adivinhem qual tenha sido a resposta???

É a Sociedade Norte americana estável e invulnerável face a propaganda socialista devido ao - dentre outros fatores - o ideário individualista dos puritanos e sua relação com a predestinação e aquisição de riquezas e sucesso material, faceta alias marcante do calvinismo...

O que quero repetir é que a assimilação da fé protestante, bíblica, calvinista ou pentecostal por parte dos cidadãos brasileiros acarretará, cada vez mais, uma negação de nossas autênticas tradições culturais e a paulatina assimilação de princípios e valores protestantes, do que resultará uma nova estrutura ou constelação cultural bastante semelhante a que percebemos da grande república do Norte. Da mesma maneria e modo como a assimilação do Islã com sua sharia levará qualquer sociedade a uma arabização em termos de cultura a assimilação do fundamentalismo bíblico não poderá deixar de conduzir qualquer sociedade a uma americanização e consequentemente a afirmação de uma política cada vez mais formal (em termos democráticos), puritana, minimalista, etc Marcadamente conservadora em sentido moral ou moralista. Exatamente como estamos assistindo no Brasil de hoje, momento em que Freixo e Lula mais parecem duas belas adormecidas...

Despertemos antes que tarde seja e nos vejamos numa nova Genebra de Calvino ou numa nova Meca de Maomé, tornemos as fontes de nossa cultura e a nossas tradições, princípios e valores próprios.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

"A comunidade dos homens" - Dialogando com os cristãos Laloup e Nelis ou Capitalismo, Comunismo e Social Catolicismo


Estou lendo "A comunidade dos homens" de Laloup Nelis, Herder SP 1965. Livro escrito por Católicos leais e honestos, fiéis a Doutrina Social de sua Igreja, alias patrimônio comum a todos os Cristãos Católicos e inclusive a nós Ortodoxos. O imprimatur foi dado pelo piedoso Mons Lafayette e não por Bukarin ou Bulganin como poderiam imaginar os comunofobos cujos cérebros foram lavados pela propaganda norte americana e protestante... Há ainda Nihil obstat apensado por Mons Magalhães e portanto, antes que qualquer neo católico ignorante e protestantizado vomite suas baboseiras, trata-se duma obra que nada sabia de Marxismo, Comunismo ou Teologia da Libertação.

É obra não apenas romana ou papista mas comum a toda tradição humanista Católica seja romana, anglicana ou Ortodoxa. Um padrão de pensamento assumidamente encarnacionista, que não se deixou contaminar pelo solifideismo protestante ou tocar pelo misticismo descarnado, neo platônico, idealista, espiritualizante... que sempre assombrou a Igreja de Cristo.

Sabem os herdeiros de Malines que, como disse Aquino: "Não se fala de Deus a quem tem dome.". Isto pelo simples fato do homem não ser um anjo ou espírito descarnado, mas ser material que se realiza no mundo físico, mundo em que seu Senhor e Deus encarnou-se, com o objetivo de socorre-lo.

Assim, confessam eles que, desprezar ou ignorar a dimensão material da existência é perder a consciência quando ao mistério central da nossa fé.

Não eles não são, por modo algum, Comunistas, embora reconheçam com justeza que Católicos e Socialistas possam colaborar em torno de alguns objetivos comuns e como nós mesmos temos repetido a exaustão, o critério desta possível colaboração, como da ação política Católica só pode ser  DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA, jamais - como pressupõem o 'podre' e falsário Paulo Ricardo - o moralismo, que é um critério protestante. Nem é para admirar-se que em sua vã Cruzada contra os 'Comunistas comedores de criancinhas este sacerdote mau associe-se precisamente aqueles que negam a presença do Senhor no Sacramento, que apresentam a Mãe de Cristo como mulher ordinária e que, fideístas, folguem não possuir  qualquer doutrina social...

São perfeitamente Católicos como todos os Católicos sociais ou conscientes desde décimo nono século, cujo número diminuto eles deploram. E assim buscam honrar o legado daqueles Católicos que jamais engoliram a poção liberal... E é exatamente aqui que o livro se torna interessante, denso e profundo. A medida que insinua um 'Mea culpa'...

E iniciando este 'Mea culpa' ou esta análise realista principia declarando que desde os 1700 e tantos ou desde os 1800 parte dos Católicos - certamente contaminados pelo solifideismo protestante, dizemos nós na esteira de J Maritain - buscou compromissos com o liberalismo econômico ou capitalismo. Não, não foram poucos os Católicos que souberam resistir a atmosfera tóxica do individualismo, do idealismo, do romantismo e do liberalismo econômico; apegando-se ao misticismo da religião DOMINICAL, individual ou famílias, praticada pela família no lar e sem qualquer consciência social em termos de solidariedade ou fraternidade. Associaram assim a fórmula evangélica do 'orar a portas fechadas' (Insuficiente se isolada do contexto) a certo formalismo cultual e mutilaram por completo o espírito totalizante do Catolicismo.

Foi um reducionismo aviltante. Durante certo lapso de tempo, apesar de Leon Harmel (cujo exemplo foi grandioso justamente pelo isolamento) e alguns outros heróis, os patrões e senhores Católicos procederam tal e qual os senhores protestantes, oprimindo, sem misericórdia, seus irmãos batizados e membros de Jesus Cristo em nome de uma lei natural que os moralistas de antanho haviam definido como AVAREZA... E diante disto que fez a autoridade eclesiástica? Nada... Nada fez a Igreja ou a hierárquia para contér a opressão odiosa! Não emprenhou-se a Igreja em punir e castigar aqueles dentre seus filhos que cometiam tão grande injustiça! E assim, apesar de advertências puramente verbais, quando feitas, a injustiça proliferou como a lepra. E desta grave omissão, face a Hidra Liberal, surgiram é claro, Comunismo e Anarquismo, além dos Socialismos naturalistas.

O Cristianíssimo N Berdiaeff, outro adversário implacável do marxismo, define a questão com absoluta precisão: O Comunismo veio para fazer o que nosso Cristianismo não havia feito! E por que não havia feito?  Porque parte de seus profitentes estabeleceu laços de compromisso com o Capitalismo, sistema materialista e economicista por definição. Sistema cujo éthos é a avareza...

Diante de um novo mundo que não era o seu e que não correspondia a seus planos, diante deste novo mundo protestante, diante deste mundo materialista, economicista e insano não soube a velha igreja o que fazer e ficou paralisada. Alguns Católicos, diz com razão o matreiro G Corção em 'O século do nada' fizeram muito. No entanto este muito foi pouquíssimo e a ação social Católica totalmente desproporcional. Era o papismo a única força mundial capaz de pela ação travar os avanços do liberalismo econômico e imprimir outros rumos a História da humanidade... Se houve uma força capaz de coibir os abusos do Mercado, de doma-lo e de submete-lo a si foi a Igreja Romana. O supremo escandâlo é que ela não o fez, aceitando uma ordem de origem protestante e infensa a seus valores. A causa disto é patente: Certos compromissos estabelecidos entre os neo Católicos e o Capitalismo nascente, um colaboracionismo incorente e monstruoso enfim.

A questão que se coloca não é alguns Católicos, como Kolping, Descurtins, Mermillod e Von Keteller adiantaram-se a Marx e Engels... A questão crucial é, quão poucos Católicos acompanharam a estes heróis e quão pouco apoio receberam das autoridades no sentido de reduzir os maus Católicos, como se sucede ainda hoje. A Igreja tem falhado sucessivamente em coibir os liberais infiltrados em seu seio, os quais alias, ousam apresenta-la como favorável ao sistema que abraçam... De fato a Igreja produz e edita Encíclicas (desde Rerum Novarum) cujo conteúdo anti liberal é manifesto. E no entanto que continuam fazendo, até hoje, os maus Católicos, obstinados e alheios a DSI? Livre examinam e livre interpretam as tais Encíclicas como querem, acomodando-as so sistema querido... e continuam vivendo como bons ateus ou protestantes, oprimindo seus irmãos. A miséria aqui é a inércia de uma Igreja que nada faz de concreto.

Assim um anarquista e mais de um comunista escreveram que caso a doutrina social de Igreja saísse do papel e fosse posta em prática haveria uma mudança colossal em termos sócio econômicos. Os mesmos autores no entanto alegam que a Igreja nada visa além de enganar ou iludir seus filhos, uma vez que não leva seus próprios decretos a sério e não os faz por em prática. Ela não obriga os Católicos a conhecerem e a porem em prática a DSI, alias dever e direito seu. A Igreja brinca ou se omite e os Comunistas, Anarquistas e Naturalistas levam vantagem. Apesar dos Católicos sociais, tudo isto tem sido uma leviandade... pelo simples fato de que eles jamais deixaram de ser uma ínfima minoria, embora bastante ativa. Ínfima minoria é o que não se espera da maior religião ou igreja do planeta. O que dela se espera e compromisso e engajamento. A DSI enquanto Ortopraxia, exigiria, por parte dos Católicos - em especial de seus líderes - um empenho tão grande e um compromisso tão firme quando o Credo ou a Ortodoxia doutrinal.

Lamentavelmente caiu a igreja, levada pela polêmica protestante, no vício intelectualista ou meramente doutrinal, o que - paradoxalmente - preparou-a para o solifideísmo e as formas descarnadas de fé. Se por um lado foi altamente meritório ela ter assumido a defesa da razão ou da capacidade intelectual do homem (Serviço inestimável por ela prestado) por outro foi uma grande miséria ter ela esquecido das obras em sua dimensão social tão cara aos apóstolos e as primeiras gerações que reformaram o mundo antigo. Em dado momento, após o advento da reforma protestante, olvidaram os neo Católicos o sentido de Lei de Jesus Cristo tão caro a seus ancestrais.

Naturalmente que quanto a forma professada é a religião assunto pessoal ou familar relacionado com a opção livre. Liberalismo religioso NÃO É NOVIDADE, mas preceito afirmado pelos apóstolos e padres da Igreja face as injunções indevidas do Império romano. Agora por ser opção pessoal e livre não deixa de injetar no profitente o sentido do convívio ou da fraternidade, enquanto parte do espírito do Catolicismo. Nem pode haver Catolicismo sem íntimo contato social, vital e espiritual; o qual converte seus membros e membros de uma grande família. Quem são os Cristãos? Pergunta um pagão na Apologia de Minúcio Félix - "São pessoas que estimam-se antes mesmo de se conhecerem umas as outras!" Enfim pessoas que tinham noção de alteridade e solidariedade, e que colocavam os irmãos acima do lucro e dos bens materiais... Cidadãos que se preocupavam concretamente com as almas e corpos uns dos outros e buscavam o autêntico bem comum. Por isso rezavam: Pai NOSSO, jamais Pai meu...

No entanto após a reforma sucede-se uma intelectualização que vai assumindo formad cada vez mais teóricas, meramente cradais, idealistas, até o misticismo descarnado, o isolamento, a indiferença e a alienação. Veja a miséria: O Egoísmo torna os neo Católicos insensíveis face aos sofrimentos dor irmãos... E passam a viver em cidades e num ambiente urbano, não apenas como se são se conhecessem, mas como se se estranhassem ou odiassem. E o apelo verbal ou teórico ao amor converte-se em voz no deserto... Fala-se em tradição. Mas você não pode transferir esta vida ou esta realidade para a Idade Média, a qual nada tinha de liberal... A Idade Média não podia conceber o que fosse auto regulação do Mercado ou este enfeudamente do setor econômico enfiado em sua torre de Cristal. Para os sábios medievos, herdeiros da tradição antiga e imemorial, era a econômia uma atividade humana - não rigorosamente exata ou calculada - e assim como a jurisprudência ou a política sujeita ao primado da Ètica. Este foi e é o pensamento e sentir da Igreja... Não o pensamento liberal.

Assim a questão não é material, como cogitaram Marx e seus críticos. Tudo isto é vão e ilusório e a crítica de Marx, se leva a algum lugar e eletriza, não é contudo a mais profunda ou a que coloca o dedo no fundo da ferida... Surpreendentemente a crítica mais profunda parte desta igreja 'leviana' servida por homens tão volúveis... Tomemos a definição, refinada, de Sombart - É o Capitalismo um éthos ou um espírito, uma forma de consciência enfim. E este é seu fundo como veremos, aquilo que o torna venenoso e intolerável ao Cristão. Marx, materialista não o pode aceitar... Para ele tudo é encontro de capitais com técnica, do que resulta a posse privada dos meios de produção e o regime assalariado, ficando este 'mau em si mesmo'. Os Marxistas condenam inexoravelmente a posse pirvada dos meios de produção e o regime assalariado, e para eles isto fica sendo capitalismo...

Ora, a Igreja, com Sombart, não vê as coisas desta maneira. Por isso infinitos autores Católicos bem intecionados, analisam as coisas por este ângulo e absolvem precipitadamente o Capitalismo, declarando que nada há de essencialmente mau na posse privada dos bens de produção e no regime assalariado. Os Católicos creem sinceramente que esses meios ou métodos materiais são Cristianizáveis ou que se tornam bons, desde que animados por uma Ética Cristã de respeito a pessoa, e chegamos ao citado Leon Harmel...

Mas a Igreja usou, paradoxalmente, o olhar de Marx, que é equivocado, e que não nos dá a essência do sistema. Temos de buscar por ela...

Que é o espírito animador do lucro máximo, do acumulo irrestrito de bens materiais, do capital, dos juros, da plus valia senão a já citada avareza, fruto do egoísmo, um pecado mortal enfim??? Damos ai com o espírito corrupto... Alias um sacerdote insuspeito - Meinvielle - já analisou este sistema em termos de matéria e forma, aplicando o método de Aristóteles. Sem endossar todas as suas teses, concluímos que o Capitalismo torna-se inaceitável face a perspectiva Católica, por sua forma ou impulso que é uma avareza que chega ao materialismo chão.

Neste sentido temos de admitir que o Capitalismo, cuja estrutura material é aproveitável é em si mesmo um pecado e uma execração. Não é o Capitalismo que resta, o que resta é um MERCADO, um Mercado RELATIVAMENTE livre - e portanto não Liberal nos termos clássicos - e voltado para as necessidades humanas. O Mercado existe em termos de natureza, se organiza, reorganiza e assume forças distintas, variadas, exóticas... que devem ser penetradas e animadas pelo espírito Cristão ou pela Ética da Igreja. Podemos falar sem temor não em qualquer conciliação com o Capitalismo - cujo éthos deve ser eliminado pela ética Católica em termos de solidariedade, fraternidade, alteridade - mas num Socialismo de Mercado ou num Mercado voltado para a qualidade de vida das pessoas.

Falando num Mercado relativamente livre e portanto, ao menos em parte regulado pelo corpo social estamos falando em Capitalismo ou em Liberalismo Clássico??? DE MODO ALGUM, pelo simples fato de que o Capitalismo ou o Ideal de Capitalismo implica a auto regulação, opondo-se seus teóricos a toda e qualquer medida - por ínfima que seja - de regulação externa, assim social e política. Para eles a econômia corresponde a um existir a parte, com suas próṕrias leis, a algo independente enfim, a algo em que não se deve mexer, para que funcione bem. Portanto, postulando não a eliminação do Mercado, mas um controle relativo, em benefício da comunidade, não estamos assumindo ou sancionando o discurso Capitalista. Tal o discurso da Igreja, expresso pela DSI e a primeira certeza que se nos manifesta ao examina-lo é que se não é Comunista, Liberal ou Capitalista não é.

De fato a Igreja sempre primou pela defesa das liberdades, a exceção daquela que visa julgar a fé - i é o livre exame protestante... E foi brava em seu combate ao determinismo teológico dos calvinistas. Assim ela não pode negar que certa medida de liberdade seja benéfica as relações econômicas. No mesmo sentido assume, e com razão, a defesa da propriedade como natural. O que é absolutamente certo em se tratando da propriedade pessoal - seja de consumo ou de produção (assim a pequena empresa familiar nos moldes chineses) - e funcional. Sem no entanto deixar de condenar o 'jus abutandi' e afirmar sua finalidade social, em conexão com o bem comum. A doutrina aqui é excelente e o vício é a falta de compromisso para com ela...

Seja como for não é a Igreja tola ou ingênua, e se a princípio mostrou certo pasmo face a nova realidade, por meio de Leão XIII na Rerum Novarum admitiu a necessidade de uma regulação externa ou política do Mercado tendo em vista a promoção humana, a justiça social, a erradicação da miséria, etc E admitiu, é claro, que esta intervenção partiria do Estado. O que ela não examinou aquele tempo é em que medida o estado, passando a ser dominado ele mesmo - como dizem Laloup Nelis na obra citada - pelo poder econômico (dos trustes e cartéis inclusive) cessando de ser uma instância neutra ou isenta para converter-se em órgão da plutocracia e cimento de uma ditadura completa. Essa crítica vale para todos os socialistas estatólatras ou dirigistas sejam fascistas, nazistas ou comunistas... Mas admitiu a regulação estatal, embora ela mesma desconfiasse daquele novo estado que se tornava liberal...

De fato a Igreja, ainda aqui as relações e doutrinas mostraram-se problemáticas e cheias de nuances. Pois se a um lado não podia admitir os pressupostos do liberalismo clássico sem atraiçoar suas tradições a outro temia favorecer já um Estado em vias de se tornar liberal que a havia despojado de suas instituições, já a proposta de Estado futuro e ditatorial dos Comunistas... Um e outro tipo de Estado assustavam-na seja porque não os podia controlar ou inspirar. Limitou-se ela a condenar, e era inelutável, o liberalismo crasso, sem deixar de fulminar, igualmente, o autoritarismo estatólatra, o dirigismo absoluto e o totalitarismo pagão... Nesta questão de política ela nada precisou de muito claro. Leão XIII, conciliou-se com as exigências da democracia - um progresso a seu tempo - mas de uma democracia liberal ou burguesa. Essa mesma democracia foi muito resistente, como parte dos neo Católicos, as novas orientações propostas pela DSI e houve mesmo quem se escandalizasse - como os grandes apologistas pagãos adversários do Cristianismo - face ao empenho 'leonino' para com as exigência da justiça.

Os neo católicos por sinal não só forcejaram por de lado qualquer sentido de justiça relacionado com a condição econômica, como falsearam a doutrina evangélica da caridade, supondo que esta fosse voluntária ou livre, quando é norma, regra e lei para os Cristãos. No entanto Von Keteller e o sínodo de Mayence já havia acenado com a demanda da justiça em 1848. E após a Rerum Novarum e os estudos sociais em torno do tomismo, realizados em Malines e Liége sob o empenho de Mercier (de que resultaram os soberbos Cadernos sociais) consolidou-se mais e mais esta posição em termos de DSI, tornando manifesta a falta de sinceridade dos neo católicos liberais.

A partir de algum tempo no século XX, especialmente após a abominação ecumênica ou o surto de protestantização - e consequentemente de individualismo e assunção da pseudo cultura americanista - puzeram-se os neo católicos liberais, em assomo de desonestidade, a atacar e agredir indiscriminadamente os demais Cristãos, herdeiros do Catolicismo social, e isto a ponto de trata-los por comunistas i é exatamente como preceitua a cartilha Norte Americana de inspiração protestante, logo descarnada, idealista, individualista e puritana... Claro que a Teologia da Libertação assumiu posturas equivocadas, a ponto de poder ser classificada como uma degeneração ou uma queda em termos de idealidade. O que não justifica, de modo algum, que os Católicos socias e fiéis a DSI sejam igualmente agredidos, atacados e insultados quando representam a consciência social da Igreja, consciência de que eles, liberais, apostataram a muito, opondo-se ao sentido da Encarnação do Senhor.

Escandalizaram-se com razão do autoritarismo bolchevista, e assim dos autoritarismos Fascista e Nazista. E reduziram toda e qualquer oposição ao liberalismo crasso ou ao capitalismo a tais formas de dirigismo estatal, editando e reeditando o falso dilema - Capitalismo/Comunismo, dilema a que a DSI tenta escapar... E por esta via chegamos aos Socialismos heterodoxos - heterodoxos para o Comunismo por terem absorvido elementos já liberais, já anarquistas, já Cristãos...

Num primeiro momento buscam os neo católicos, como todo liberal desonesto, fingir que ignoram a existência de tais ideias ou grupos. Supondo, como acabamos de dizer, que tudo se resuma no binômio maniqueísta - Capitalismo bom X Comunismo mau... Agora quando um Católico instruido e leal ousa pronunciar a odiada palavra 'Socialismos' fazem uma grande bulha declarando que o Católico não pode ser socialista, gritando e batendo o pé. E fazem uma tremenda guerra ou batalha com palavras... Afinal se não se pode ser Comunista ou Socialista só podemos ser Capitalistas, concluem triunfalmente sem sequer analisarem a possibilidade de uma solução puramente Cristã ou Católica.

Para nós toda essa questão de palavras, tão cara a eles, faz bem pouco sentido. Os Católicos do Século XIX chamavam a si mesmos de Sociais (o que já se opõem a individuais ou a liberais) ou mesmo de socialistas (apud Brunetière 1904). Assim na Bélgica durante as primeiras décadas do século passado com Verstraet e na Alemanha com H Martens (apud Laloup Nelis p 199). A condenação oficial foi editada a posteriori e tendo em vista os Socialismos Naturalistas que chegavam ao materialismo, ao ateísmo e ao anti clericalismo. Claro que os Católicos não podiam aderir a princípios naturalistas.

Seja como for os Católicos, ressalvando os direitos essenciais da pessoa humana, continuaram afirmando a primazia do corpo social, particularmente em seus campos, como política e economia. É irrelevante que tenham assumido diversos nomes ou títulos: Sociais, trabalhistas, humanistas, personalistas, solidaristas, comunitaristas, cooperativistas, distributivistas, etc, etc, etc Cada um destes termos encobria uma solução que se opunha as pretessões do liberalismo crasso, cada um deles era uma negação do Capitalismo, cada um deles representava uma afirmação do comum... pois todos comportavam restrições externas ao Mercado.

Agora, claro que apartando-se dos socialismos extremistas e virulentos, que se escoravam no despotismo - comunismo, nazismo e fascismo - os Católicos, em demanda por soluções cada vez mais práticas e concretas, só podiam aproximar-se destes socialismos heterodoxos tributários não apenas dos anarquistas e liberais mas também de uma herança cultural Católica ou duma tradição inconsciente. Esta fuga comum, tanto dos socialismos hetedoroxos quando da DSI face ao dirigismo estatizante foi o ponto de encontro entre as duas correntes. Não só os socialismos todos, desfigurados pelo liberalismo, reportavam (opus cit) a uma Ética Católica, como o Catolicismo compreendia um Socialismo religioso, como a totalidade das religiões antigas a exemplo dos antigos Sumérios ou dos antigos Incas.

Concretamente este ponto de encontro foram as cooperativas, os sindicatos, as sociedade de apoio mútuo ou caixas, as quais podemos adicionar corporações, montepios, etc Quanto a uma ordem mais ampla a democratização econômica ou ao 'múltiplo' gerenciamento de empresas e fábricas, o qual contava com a participação do governo local, dos empregados, dos administradores e consumidores. Todas estas diversas formas sugeridas por Herr, Jauŕes, De Man, Deat e muitos outros foram já inspiradas no passado comum, já apreciadas pela mãe Igreja.

Agora a propósito destas formas de Socialismos autoritários ou despóticos, sempre citadas pelos liberais e com o costumeiro azedume, devemos considerar que nem este autoritarismo é fruto do socialismo - uma vez que a monarquia absoluta, a ditadura, etc são anteriores a ele (quanto a suas formas modernas) - e tampouco o socialismo filho do autoritarismo, isto pelos simples fato dos socialismos heterodoxos sempre terem se mantido fiéis a alguns pressupostos essenciais dos liberalismos (do pessoal, do religioso, do político...) ou incorporado tradições anarquistas e Católicas. Podemos interpretar Socialismo e Autoritarismo como fenômenos históricos paralelos que num dado momento vieram a se encontrar, excluindo qualquer relação essencial ou ontológica. Alias Autoritarismo e Religião também se encontraram... Mesmo Liberalismo e Autoritarismo, produzindo plutocracia, imperialismo, opressão dissimulada, etc

Para encerrar esta longa e fastidiosa exposição gostaria de abordar um tema repisado por alguns autores mas que ainda não encontrei na obra de Laloup Nelis. Refiro-me a demolição da ordem social Católica pelo liberalismo triunfante. A Igreja sempre buscou beneficiar concretamente a pessoa humana, inclusive a igreja romana, e em seus piores momentos. O Catolicismo antigo ou Ortodoxo cobriu o mundo inteiro com Escolas, Asilos, Hospitais, dispensários a exemplo do Nozokomion de S Fabíola ou da Basiliada de Cesareia... O dilúvio islâmico no Oriente e germânico no Ocidente converteram esse esforço titânico em ruínas fumengantes! No Ocidente, ao menos desde Carlos Magno este esforço foi retomado e mais uma vez a Europa Ocidental foi coberta por escolas, asilos, hortas comunais, orfanatos, etc No entanto a desagregação da unidade política e a afirmação do feudalismo - com seus conflitos - fez reverter, mais uma vez, tudo isto...

Após as cruzadas e os renascimentos, mais uma vez, a Igreja assume a direção dos negócios e vai reedificando as antigas instituições, geralmente em torno de algum mosteiro. Mais uma vez as pontes, caminhos, albergues, escolas, bibliotecas, etc vão sendo reconstruídos. Em Bizâncio, o sistema de proteção social assume uma proporção e eficiência jamais vistas até então. No entanto Bizâncio é destruida pelos turcos enquanto a Reforma estoura no Ocidente. Cobett refere-se a destruição da rêde de proteção mantida pela Igreja romana na Inglaterra e a destruição das Bibliotecas, dispensários, escolas, hospitais, etc Doellinger faz um levantamento colossal dos estragos produzidos pela reforma na Alemanha e elabora um inventário das instituições tragadas por esse movimento. Os mesmos estragos reproduzidos na França, Bélgica e Holanda ainda não foram devidamente elencados e descritos, no entanto podemos dar por dezenas de milhares as instituições demolidas. Hipoteticamente, com a afirmação da reforma, o Estado ou a comunidade secular, assumiria tais cuidados, os cuidados sociais... Ao menos de imediato muito pouco foi feito e ao que parece o Estado secular moderno jamais conseguiu equiparar-se a igreja antiga... Ficando a maior parte dos homens socialmente desamparados, ao menos nas novas sociedades...

Quanto as sociedades que retornaram ao modelo católico ou papista as dificuldades não foram menores. Pois já o estado secular, apelando sempre a uma possibilidade de cisma ou reforma, impunha restrições a ação da Igreja. De modo que desta vez as instituições foram criadas muito lentamente, e consolidando-se, mais e mais, um deficit social. No entanto, o quanto fora criado e estava sendo novamente gerido pela Igreja foi novamente abalado, ao menos na França, pela grande Revolução e da destruição de toda essa rede de assistência monacal - já ineficaz - até a formulação das primeiras leis trabalhistas foram cem anos de miséria extrema (assim de 1850 a 1890) e temos de perguntar sobre o quanto ela beneficiou os paladinos do liberalismo. Quanto aos outros países europeus assistiu-se a uma espécie de campanha politica com o objetivo de despojar a igreja das antigas instituições de beneficência. O que temos a dizer sobre isto é que a transferência foi falaciosa e que parte das instituições antigas - que já eram insuficientes - foi mais uma vez eliminada, produzindo um deficit social imenso. Claro que todas estas catástrofes sociais resultaram num desamparo generalizado e criaram um exército de pessoas dispostas a trabalhar sob quaisquer condições... Então temos de perguntar sobre até que ponto a demolição do aparato social foi intencional e correspondeu a certos interesses - Interesses de quem???

Temos de perceber que a ação social da Igreja, antes fecunda foi travada sob todas as formas pelo liberalismo, o qual estava a criar o seu exércido de reserva ou sua hoste de párias a serem explorados. A igreja de modo ou de outro os protegera - Pau na Igreja... As críticas dos Comunistas e Anarquistas só se tornam e se fazem justas na medida em que os neo Católicos comprometidos com o novo modelo não estiveram a altura de seus ancestrais, descuidando de recriar as antigas instituições de proteção a pessoa e mostrando-se indiferentes e insensíveis face a nova realidade produzida pela política liberal. A nova ordem, do século XIX, já não encontrou Católicos dispostos a investir no homem ou para a vida eterna, mas Católicos avarentos e acomodados, dispostos a investir apenas ou especialmente no Mercado e a geri-lo tal e qual os protestantes i é explorando aquele grande exército de reserva e ignorando as mais elementares exigências da justiça.

E esta situação tornou-se tão dolorosa a ponto dos neo católicos apresentarem os sofrimentos que eles mesmos impunha, voluntaria ou livremente aos operários, como meritórios... Decretando que eles se conformassem com ser explorados por seus próprios irmãos e que depositassem suas esperanças apenas no além túmulo. Diante deste quadro terrível me pergunto sobre o quanto esta religião oportunista ou conveniente não favoreceu a revolta, a incredulidade, o materialismo e o ateísmo??? Pois uma coisa é declarar que os Cristãos devem aceitar os sofrimentos que sejam inevitáveis enquanto resultados de forças naturais e outra, anti cristã e monstruosa, consiste em declarar que devem aceitar ser explorados e oprimidos, por aqueles que deveriam ama-los e praticas a justiça i é por outros Católicos.

Na medida em que os proprietários e patrões Católicos achavam-se autorizados não só a oprimir como a exigir passividade por parte dos oprimidos, claro que a Sociedade apóstata cindiu-se em classes e que esta cisão, escandalosa, refletiu-se no clero! Laloup Nelis admitem-no honestamente.

Assim se a resposta do protestantismo foi nula a do Catolicismo foi vergonhosamente frágil, em que pese afirmar-se ele como uma religião de obras e em sintonia com a Encarnação de Deus. E da fragilidade desta resposta surgiram outras como o Comunismo, o Anarquismo e o Socialismo. Face ao liberalismo hipócrita que busca manipular e História e ocultar o problema, esses sistemas tiveram o mérito de denuncia-lo... Devo declarar por fim que ter de manter algo porque funciona - o Capitalismo - se me parece a mais miserável e estúpida das soluções e isto pelo simples fato do homem sempre ser capaz d aprimorar o que faz ao invés de contentar-se com o que tem. Por isso, esse contentamento artificial e artificioso, sempre nos lábios, dos defensores do sistema me parece essencialmente pernicioso, mais do que qualquer outra forma de comodismo. Ainda aqui temos de explorar outras possibilidades e a doutrina social da Igreja romana me parece bastante fecunda neste sentido.