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sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Dialogando com M Freud, superando o preterismo, analisando o sentimento de culta e tomando o caminho da libertação...

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Não se conserta mais carruagem. O automóvel de Benz e Daimler no entanto é modelo que continua sendo remodelado até nossos dias.

Assim a Psicanalise de S Freud, a crítica de Marx ao Capitalismo, a teoria evolucionista formulada por Darwin/De Vries, a Sociologia weberiana, etc Tais teorias são em parcialmente depuradas ou revistas justamente devido a seu conteúdo imorredouro.

Psicanalise, Das Kapital, Teoria sintética e Culturalismo são aquisições, marquem bem, definitivas, digo definitivas, em termos de conhecimento humano.

É coisa que na mesma direção se pode ampliar, aprofundar e aperfeiçoar, mas que não se pode arrenegar até as raízes ou fundamentos.

Lamento quanto aos puritanos, capitalistas, criacioburros ou simplistas com seus sonhos dourados, mas assim o é.

E não sou em, o pobre profo Domingos da Baixada Santista, com seus parcos conhecimentos experimentais e teóricos quem há de fazer reparos ao carro de S Freud tornando a Psicanálise ainda mais fecunda. Quem sou eu, um pobre educador provinciano??? Sinto-me feliz por ser capaz de refletir e sobretudo por poder aprender e conhecer um tiquinho...

Aprender é minha forma predileta de orgasmo. Sinto tesão pelo ato intelectual de aprender e jamais saberei se no fundo isto é refinado epicurismo ou platonismo, eu que sou aristotélico rsrsrsrsrsrsrs Deo gratias!

Mas, tornando a Freud os reparos a equipagem foram já realizados, drasticamente pelos críticos analíticos ou pelos 'heréticos' da Escola, isto é aqueles que o zeloso e honesto hebreu excomungava sem maiores cerimônias.

Elenquemo-los: O secretário Adler; a 'águia', o sedutor Dr C G Jung, o atilado Otto Rank, Stekel; é claro, o Católico Allers, a conciliadora Karen Horney, etc Cada um deles vai por assim dizer criticando algum aspecto acidental da teoria freudiana, acrescentando conclusões próprias - inda que tão estreitas ou excludentes quanto aos do velho Freud (devido ao mito onipresente da monocausalidade) - e enriquecendo a Psicanalise. Se é certo que deixam de ser freudianos ortodoxos, até certo ponto mantem-se meio freudianos (heterodoxos por certo) e certamente psicanalistas ou exploradores da mente humana.

Nada mais interessante do que as crônicas desses 'heterodoxos' do freudianismo com suas lutas intestinas em torno de um determinado padrão ou critério específico.

Psicologicamente a própria ideia de trauma nos remete a algo mais simples como a fratura de um braço ou de um osso qualquer do nosso corpo, o qual se tendo partido, caso seja devidamente tratado torna a solidificar-se, restando no entanto uma marca indelével a que chamamos de sequela.

A teoria de Freud sendo evolucionista linear, tornou-se basicamente preterista por salientar a importância da sequela produzida no Eu ou na mente por determinadas situações. A princípio, de modo bem mais simples e sóbrio, Sigmund formulou a hipótese do eterno retorno a situações ou problemas não resolvidos, os quais como espectros ou fantasmas ficariam pairando em nosso inconsciente, e provocando, dentre outras coisas, pesadelos... Situações análogas ou semelhantes ocorridas em qualquer tempo futuro desencadeariam uma carga ainda maior de energia, e a formação das neuroses.

Posteriormente, após ter descoberto a vida sexual infantil, o Psicólogo judeu vienense, deslocou sua teoria de certas situações particulares e indeterminadas - o que não podia satisfazer seu espírito positivista - para os complexos, compreendidos como fases evolutivas não percorridas, em que o sujeito por assim dizer travou ou estacionou.

Longe de nós negar o conceito de trauma ou sequela. Tudo quanto pretendemos indagar é se de fato todo e qualquer desajustamento procede de um fenômeno acontecido no passado ou de uma sequela, e se ao menos alguns não poderiam ser provocados por situações de tensão acontecidas no momento presente???

A partir de Adler temos uma resposta muito bem formulada por K Horney em torno dos conflitos, da pressão e da angústia no tempo presente; situação a que o velho Freud não parece ter ligado muita importância, quiçá atribuindo a gênese a um evento pretérito ou a uma sequela mental, mesmo quando não localizada. Admitidos os pressupostos da pesquisadora Norte Americana o cenário até se torna mais sombrio rsrsrsrsrsrs Pois admitindo-se que a pessoa tenha conseguido atravessar a infância e a juventude percorrendo sem maiores problemas todas as fases evolutivas delineadas por Sigmundo e eliminando todos os complexos i é sabendo lidar com eles, ainda assim, em qualquer momento futuro, poderá tornar-se vítima de pressões, conflitos, tensões, etc provocados por uma nova experiência ou situação com que não consiga lidar. Destarte um bom caminho percorrido durante a infância e a juventude nada garantem em termos de sanidade mental, e você sempre poderá vir a perde-la no curso da vida, diante de novas situações/problema.

O conflito entre o Super ego que o homem medíocre carrega e as novas situações provocadas pela dinâmica social sempre poderá acontecer e devastadoramente...

Do ponto de vista social a problemática é instigadora na mesma medida em que Freud colaborou no sentido de produzir uma Sociedade cada vez mais libre, aberta e dinâmica, na exata medida em que teceu severas críticas aos preconceitos maniqueístas ou puritanos relacionados com a formação do Super ego. Desde que exarou seus pontos de vista sobre a repressão ou melhor sobre a opressão exercida pelas sociedades tradicionais face as exigências da natureza, não poucas pessoas - as pessoas geniais - optaram por afrontar a sociedade, por resistir, por rebelar-se, por não se deixar colonizar e por frustrar a gênese do Super ego. A partir das denúncias lançadas pelo homem um número cada vez maior de sujeitos passou a lutar pela própria libertação mental e até podemos falar em movimento de alforria face aos imperativos do super ego. Do que recorreram, quando a técnica veio ao encontro das expectativas globais, as Revoluções feminina e sexual. As quais não teriam ocorrido sem o freudianismo.

Evidentemente que nem todos os Super egos, enquanto produções dadas numa determinada realidade familiar e social, acompanharam esta evolução sócio ambiental. Não poucos super egos continuaram a ser formados segundo o clássico modelo maniqueísta puritano da negação do corpo, da nudez e do sexo; numa sociedade não apenas cada vez mais natural, mas até mesmo mais sexual e na qual a nudez e a sexualidade se fazem cada vez mais presentes. Dentro de um quadro como este: De super egos pré históricos ou retrógrados numa sociedade cada vez mais sexualizada, inverte por completo o quadro social preterista conhecido por Freud. No curso do século XIX era o ímpeto sexual florescente na criança fortemente reprimido por um tipo de moralidade intransigente até a produção de um super ego poderoso e forte a ponto de produzir sentimentos de culpa a priori ou antecipados face ao que classificavam como tentação. Clássico o exemplo de Martinho Lutero para quem a própria tentação ainda que não consentida era encarada como de criminosa, levando-o ao paroxismo do terror. Mesmo dentro da igreja romana não se tratava de fato isolado... Resultado - A culpa acumulava-se aos turbilhões na própria criança e impedi-a de lidar com todos aqueles complexos, ficando-a. O esquema de Freud fazia certo sentido naquela realidade.

Em nossa Sociedade as sugestões de Adler, Jung e Horney em torno do conflito atual enquanto produtor de angústia nos parece bem mais realista.

Assim quando o puritano luta combate em torno do ideal de uma Sociedade fechada e repressora, esta na verdade tentando proteger seu super ego. Enquanto o homem superior, demandando pela liberdade, busca enfraquecer e eliminar o super ego, mantendo apenas a estância da consciência Ética, supinamente desconsiderada por Freud. Até certo ponto o homem de hoje não quer mais ser cópia, reproduzir valores ou viver para a Sociedade, como um escravo. Exige algo para si e quer viver também para si... Dirá alguém que este homem esta errado? Direi que se prejudica concretamente o outro esta errado, mas que se não prejudica ou causa dano a quem quer quer seja, lhe é defeso viver a seu modo e gritar: Meu corpo minhas regras. Este homem quer ser plenamente livre e produzir a si mesmo e temos de considerar que esta meta é um direito seu.

Não poucos acusam Freud de ter andado mal na medida em que partiu da anormalidade ou de situações de neurose para chegar a normalidade. A objeção peca pela simplicidade e chega a ser absurda, afinal Decroly, Montesori e muitos outros educadores também partiram das crianças anormais até chegar a criança normal. Para tanto bastaria dar com o elemento causador da anormalidade e isola-lo e o psicólogo hebreu soube faze-lo com absoluta maestria. O pivô da anormalidade, dos complexos, da fixação era a repressão externa, princípio do Super ego. Noutras palavras a pressão social em torno daqueles tabus sexuais arbitrários é que produzia desajustados como o estrume produz cogumelos... Portanto era a própria dinâmica social do passado que precisava ser questionada e desconstruídas. A criança precisava ser encarada com realismo e naturalidade e não reprimida por meio de castigos físicos ou de terrorismo psicológico.

Será normal aquele homem que no curso da infância e da juventude não introjete princípios e valores anti naturais ou aquele cujo super ego seja despojado de toda essa carga maniqueísta e puritana legada pelo passado. Será normal quem desde cedo aprender a conviver com seu corpo e aceitar a própria sexualidade. Tal o caminho, e não há outro. Onde prevalecer a artificialidade, a mediocridade, o temor supersticioso, o contato com o mundo livre produzirá conflitos e tensões e deflagrará neuroses. A luta aqui será travada no sentido de emancipar-se a tutela de um super ego tacanho, mesquinho e exacerbado.

Quem perder esta luta perderá a tranquilidade, a menos que se feche em seu mundinho artificial ou numa redoma de vidro.

Todo escravo voluntário sente-se humilhado ao tratar com pessoas livres e emancipadas, a audácia e coragem demonstrada por elas abate-o. O escravo só se sente bem em meio a pessoas de sua condição. Assim a liberdade sexual de muitos não pode deixar de incomodar certo número de pessoas. No fundo no fundo todos almejam ser livres. A alguns no entanto falta coragem ou força para lutar... Daí o desejo satânico no sentido de que todos sejam igualmente escravos ou igualmente controlados... A ideia aqui é reprimir e oprimir para proteger-se.

Passando aos exemplo apelarei a um exemplo a um tempo já clássico e a outro polêmico. Do ponto de vista biológico ou natural somos todos bissexuais estando a bissexualidade, em maior ou menor grau, presente em todos os espaços naturais. Temos inclusive exemplos de sociedades antigas que aceitaram integralmente tal pressuposto, assim Grécia e Roma, cuja perspectiva tem sido bastante falseada pelos moralistas do tempo presente, pelos puritanos, pelos fanáticos, etc Mas podemos dizer sem sombra de dúvida que aquelas sociedades ignoravam por completo o que chamamos de normatividade heterossexual. Claro que haviam matrimônios heterossexuais pelo simples fato de procriarem, mas de modo algum uma sexualidade hétero fechada e constituída em torno de certos tabus.

Ter pênis ou vagina não significa de modo algum, ao menos do ponto de vista da natureza, que o pênis tenderá sempre e necessariamente a vagina e vice versa. Assim a fixação do objeto com que devemos transar ou a orientação sexual, parte sempre da cultura. É o discurso sancionado pela Sociedade que diz: Homem só pode transar com mulher e vice versa. Para além disto apelam a vontade de deus e a um montão de bobagens com o objetivo de fixar a regra. A partir daí, tendo em vista o controle da natureza, criam uma Sociedade habilidosamente repressora e fazem a roda girar até ser desmantelada pelo 'satânico' judeu vienense... Pois esta cultura fundamentada no sagrado e em punições espirituais draconianas consolida-se ou torna-se hegemônica.

E no entanto é tudo precário e artificial ali.

Pois na medida em que a dinâmica social é alterada no sentido da liberdade e que as pessoas são autorizadas a aproximarem-se umas das outras sem preconceitos, sucede uma epidemia de homoafetividade, uma autêntica febre... Mas como se a heterossexualidade é absolutamente natural? Como se pode trair a natureza em tão larga escala? Absurdo sobre absurdo.

Neste sentido o homem póstumo ou genial, que afronta ou despoja o super ego se entregará livremente - exceto em caso de compromisso fechado, o qual certamente teria de ser dissolvido (aqui a questão se torna Ética) - aos prazeres lícitos sem complexo de culpa. Ciente de que esta fruição foi disposta pelo sagrado. Já o homem medíocre, dominado pelo super ego e norteado pelos preconceitos, experimentará dadas situações de conflito, oscilação ou tentação e a subsequente carga de angústia... atingindo situações de neurose. Pois se sentirá atraído por alguém do mesmo sexo e experimentará certas tentações, as quais tentará fazer guerra, sendo possível inclusive que venha a experimentar sentimentos de culpa a priori.

Enquanto este homem não confrontar o super ego, revisando seus princípios e valores e eliminando quaisquer complexos de culpa - a priori ou a posteriori - não logrará vencer a angústia e estabilizar-se. Precisa para tanto repudiar a convenção, reconciliar-se com a natureza e viver para si.

Gostaria de abordar rapidamente um tipo de caso até certo ponto raro bastante explorado pelos membros da Igreja romana e que diz respeito a alguns santos muito bem sucedidos quanto a um ideal de vida puritana e até certo pondo aparentemente normais. Claro que também há um número considerável de canonizados vitimados pela neurose, a qual alguns 'católicos' desmiolados chegam a encarar como uma espécie de dádiva celestial !!! Mas o que devemos esperar de pessoas que chegaram a encarar a possessão, e sob o ponto de vista sobrenatural e não natural (como é o nosso), como um meio de santificação??? Tal o caso retumbante do Pe J J Surin de que resultou um dos aspectos mais monstruosos dos neo catolicismo - a mística da possessão.

Atenha-mo-nos no entanto aos religiosos que optaram por abraçar uma ética de perfeição ou um ideal de virtude, o próprio Freud admitira que canalizaram a libido, compreendida como energia sexual - Jung a compreende como energia amorfa ou informe - e desviaram-na para outros fins. A igreja antiga no entanto compreendeu que essa canalização de energias deveria ser facilitada por uma série de exercícios que receberam o nome de disciplina e que até certo ponto fazem lembrar a psicologia reflexiológica do condicionamento.

Importa saber que quanto mais uma pessoa identifica-se com determinado ideal ético, mais forças tende a obter e a aplicar contra as inclinações que possam frustra-lo. Tais pessoas são capazes de tomar decisões bastante firmes, pelo hábito vão formando um caráter forte e tornam-se capazes de resistir a situações de tentação, mesmo em circunstâncias que possibilitam a consumação do ato que consideram ilícito. Elas vencem as tentações, triunfam face aos apelos da natureza e aparentemente não sentem qualquer abalo. Como explicar semelhantes fatos por sinal questionados pela literatura naturalista do século XIX para a qual todo e qualquer monge era decididamente um fingido???

Ao menos estas situações de resistência face a consumação de um desejo natural não me parecem suficientemente explicáveis a luz da teoria da canalização. Então o que??? Estou convencido de que situações de triunfo ou vitória como estas, é capaz de levar algumas pessoas, ao menos inconscientemente, ao paroxismo do orgulho, uma experiência - quiçá orgânica - análoga a do orgasmo sexual experimentado por nós. O religioso que vence a tentação também deve lá experimentar o seu orgasmo, ainda que no plano da imaterialidade, mas certamente com decorrências físicas.

E o religioso, o moralista ou o homem medíocre que cede ou cai pondo em prática o que condena ou que considera imoral? Terá de rever seus pontos de vista ou encontrar na própria religião - caso tenha uma - um rito expiatório capaz de purificar-lhe a consciência. Se judeu aguardará o Yon Kipur, se Católico recorrerá a penitência, se protestante evocará o sangue redentor de Jesus... Com o sentimento de culpa a posteriori dificilmente poderá viver. Interessante salientar que quanto mais os sistemas religiosos dificultam o acesso ao perdão normatizando seus ritos, tanto mais atemorizam o 'pecador' e fortalecem a sociedade fechada. Na proporção inversa na mesma medida em que tornam o acesso ao perdão demasiado fácil, tendem a aliviar ou mesmo a minar o super ego e a desestabilizar a sociedade fechada. Não é por mero acaso que as sociedade luteranas como a Escandinava e a Alemã seja talvez as mais liberais em matéria de sexualidade no contesto Cristão. Afinal os luteranos vincularam o acesso ao perdão ao ato individual de fé, o qual sempre poderia ser refeito ou renovado tendo em vista a fragilidade da natureza. Destarte as situações de pecado - infelizmente não apenas as de natureza moral ou sexual mas também as de ética - tornaram-se recorrentes, comuns, banais, até que por força de cometer sucessivos pecados as pessoas deixaram de acreditar que fossem verdadeiros pecados passando a aceita-los como algo absolutamente natural. Infelizmente, como já dissemos, isto também se aplica a situações de injustiça, engano, opressão, etc

Resta-nos por fim aquilatar as opiniões do Dr Henri Baruk sobre a loucura, o complexo de culpa e o pecado, vejamos que diz ele:

"Em alguns casos dos estudados por Freud os sujeitos se convertem eu neuróticos por terem reprimido o acesso ao desejo do instinto. Outras pessoas caem no paroxismo da psicose e do ódio e chegam as raias da loucura por terem seguido demasiado fácil a seus desejos e reprimido as exigências da moral." 1951

Quanto ao primeiro caso tornam-se neuróticas porque a resistência ao desejo consome uma dose excessiva da energia. E Aquino até diria que consumo da energia atinente ao ato de resistência, esta relacionado com a intensidade do desejo suscitado e enfim com as qualidades do objeto externo. Tanto mais apetecível ou bem ou objeto externo desejado, tanto maior o abalo produzido na consciência e tanto maior o montante de energias despendidas na resistência. A ponto de, atingindo os limites do ser, extenua-lo. Aqui o super ego chegou a seus limites e nem podemos desprezar a possível presença do sentimento de culpa a priori...

Já a situação apontada por Baruk refere a angústia produzida pelo sentimento de culpa a posteriori. Agora donde provém este sentimento de culpa? Da consciência Ética ou desse apêndice de moralidade social e repositório de preconceitos chamado Super ego. Em caso de supostos pecados sexuais é evidente que procedem da segunda fonte, neste caso tupo quanto temos é a presença de um mecanismo repressor, nada que Freud já não tenha dito.

Claro que uma pessoa que se considera culpada por ter posto em prática determinado ato pecaminoso e recusa-se a receber o perdão ou a perdoar-se pode vir a desenvolver psicose. Nem importa se o pecado em questão é verdadeiro pecado ou não, importa que seja pecado para ela. Assim se vir a acreditar que roer a unha das mãos é pecado e vier a faze-lo, sofrerá intensamento por isso. Não é a partir dessa relação que se estabelece digamos um imperativo de resistência. Imperativo de resistência clama por uma definição convincente e satisfatória - não arbitrária ou caprichosa - de pecado. Definição que a moralidade puritana jamais poderá vir a oferecer-nos contaminada como esta pelo veneno maniqueísta. De fato o pecado não esta no copo do home ou em seus órgãos sexuais, mas em seus relações com o outro ou quanto ao que faz de seu irmãos em termos de dano ou prejuízo concreto.

Neste sentido temos de buscar por outros possíveis tipos de contradição - é aqui que temos de ir a Adler ou a Jung - pois a analise freudiana correspondia a um tipo dado de cultura ou sociedade, a uma sociedade superficial. Na sociedade ética os conflitos serão bem outros, envolvendo valores essenciais e perenes como lealdade, justiça, verdade, solidariedade, bondade, etc Aqui é bem sacrificar princípios e valores por status, poder e dinheiro; até que ponto isto também produz sentimento de culpa, angústia, depressão, neurose e loucura. Aqui temos o homem traindo a si mesmo e precisamos saber qual o preço psíquico pago por ele.

Vou citar um exemplo clássico neste domínio e com ele encerrar estas reflexões sobre a presença da ética na mente e a negação dos valores.

A rainha Dna Maria I de Portugal era uma adolescente quando seu pai, o então rei D José I, instigado por seu todo poderoso ministro Pombal, fez acusar e supliciar a Casa dos Távoras. A bem da verdade tanto ela quanto sua mãe conseguiram salvam um vultoso número de condenados, mas não a Marqueza de Távora e seus familiares mais próximos, a cujo bárbaro suplício foram obrigadas a assistir juntamente com toda nobreza. A cena por si só jamais pode ser esquecida pela infeliz moça, a qual além disto jamais pode perdoar-se por não tem conseguido o perdão dos demais condenados dos quais julgava-se co assassina por omissão. Deste sentimento de culpa insuperável e volumoso decorreu seu obscurecimento mental, a ponto de entre os brasileiros vir a ser conhecida como Dna Maria, a louca.

Aqui um conflito ético, e portanto mais profundo por tocar as fontes do ser. É claro que este tipo de fenômeno não estava no acesso de Freud, o qual viveu numa Sociedade que pelo simples fato de policiar doentiamente a sexualidade humana, valorizava-a demais. Afinal não valorizamos somente aquilo que aceitamos, mas também aquilo que obstinadamente negamos.





segunda-feira, 1 de maio de 2017

O sentido mais íntimo de 'Crime e castigo' ou o problema de Raskolnikoff

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Acho irrelevante ficar discutindo se Capitu traiu ou não o Bentinho. É algo que não me adiciona nada.

Adoro a Trilogia machadiana (Digna de um Dostoevsky, de um Dickens, de um Balzac ou de um Eça - Os mestres supremos!) e por isso digo que há muito mais coisa a explorar-se nela - Digo de relevante - do que as aventuras de Dna Capitu e seo Escobar.

Coisa de maior quilate toca a Raskolnikoff. Poucas personagens tão interessantes ou fascinantes quanto ele. Ocorrem-me apenas o Sinuhe de Mika Watari, o Imperador Claudio de Graves, Dna Lola e mana Rosa da Sra Leandro Dupré...

No entanto Raskolnikoff e mesmo Razoumikhine parecem-me ultrapassar a todas.

Durante quase quinhentas páginas a obra toca aos motivos que levaram Raskolnikoff a fazer 'aquilo'... Quero dizer assassinar a agiota ou o 'verme desprezível', mais sua irmã Isabel, a adela, com um golpe de machado no sinciput, estourando-lhe o crânio.

No entanto a resposta é dada apenas na última parte durante a confissão feita a Sônia.

Após sucessivas tentativas... De modo que podemos imaginar uma cebola tendo suas cascas removidas, uma após a outra, em direção do interior.

Assim Raskonicoff vai analisando a si mesmo a partir da consciência até chegar aos meandros mais sombria da inconsciência e fornecer-nos a resposta mais apropriada.

Já no começo da obra nos deparamos com a afirmação de que ninguém conhece melhor o homem do que ele mesmo.

Eis porque o ponto culminante da obra é a introspecção feita pelo filho de Pulqueria Fedorovna no quarto da prostituta...

Antes que alguém mais afoito suponha que lá foi ter o homem com o propósito de obter uma mera noite de prazer ou para transar, adianto que não.

Em que pese a admiração confessa de Freud por sua obra, o clássico russo não é freudiano na plena acepção da palavra. Svidrigailoff tem via sexual desregrada por assim dizer, sem que por isso sua personalidade deixe ser bastante rica e complexa. Ali a sexualidade não assume proporções 'desmesurada' e tampouco a religiosidade; e a vida ou melhor a tragédia humana jamais se diluí em qualquer uma dessas áreas sendo absorvida por elas. Há sexualidade, há religião, mas a vida ou melhor o drama da vida é muito mais amplo e podemos dizer que Dostoevsky esta muito mais próximo de Adler do que do primeiro Freud, i é, do Freud de 1900.

Nem mesmo o economicismo capitalista/marxista toca ao fundo da questão humana na perspectiva do grande Mestre.

Há algo maior, mais amplo e mais profundo para além da fé, da sexualidade ou da economia.

De um modo ou de outro, de uma forma ou de outra, de qualquer maneira este homem quer Ser ou afirmar-se. E esse desejo de ser, de afirmar-se, de poder, de imortalizar-se é que consome o homem. É existencialismo puro porque o drama do homem é existir. Existo. Mas como prolongar esta existência na memória coletiva da humanidade?

Lembra de algum modo a busca de Aquiles e de Alexandre pela glória.

Tomemos porém as falsas pistas.

Por que mataste a velha Raskolnikoff?
A primeira resposta oferecida é trivial -

Matei porque se tratava de uma agiota sem sensibilidade ou coração, um ser inútil, uma parasita, etc O que suscitou meu ódio.

Mas será?

Por que mataste a velha Raskolnikoff?
A primeira resposta conduz-nos a escola social do direito ou da criminologia, tributária de K Marx:
Matei porque era pobre, porque minha condição era miserável, porque sofria privações, porque não tinha o que comer, impelido pela necessidade enfim. Foram as condições sociais que determinaram fazer o que fiz.

Já antes de ter consumado o crime cogitava que não podia deixar de comete-lo.

Alguns dias depois no entanto confessava que a certeza de que não podia deixar de ter cometido aquele crime seria doce para ele.

Pois se é certo que tendo dado largas aos mais nobres sentimentos empenhou parte do dinheiro enviado regularmente pela pobre mãe com o intuito aliviar o sofrimento alheio, experimentando consequentemente uma situação se penúria, não é menos certo que Razoumikhine experimentava as mesmas dificuldades, recorrendo no entanto a traduções de textos e algumas aulas com o objetivo de angariar subsídios.

Conduzido por uma honestidade inflexível para consigo mesmo o irmão de Dounia conclui que bem poderia ter imitado o exemplo do colega de curso. Sente que não havia esgotado todas as possibilidades viáveis no sentido de ter escapado a penúria.

Ademais obtido o dinheiro ou os recursos desejados, acabou ocultando-os debaixo de uma pedra e abstendo-se de fazer uso dele.

Seja com for há situações de miséria, de penúria ou de indignidade que bastam para conduzir o ser humano a loucura. É constatação científica feita há alguns poucos anos. Claro que há pessoas e pessoas, mentes e mentes, temperamentos e temperamentos... E que os limites variam de pessoa para pessoa. Sem que os efeitos sociais da miséria, sobre uma média de pessoas deixem de ser significativos.

Não é o caso de Raskolnikoff por ele mesmo sente que não chegara ao limite, e que a loucura surgira posteriormente, como consequência do ato praticado. E não antes, como causa. Tal o resultado de sua introspecção.

Então por que mataste a velha Raskolnikoff?
Claro que nosso ex estudante de direito, como todo e qualquer ser humano, tentará racionalizar e em certa medida justificar o crime por si cometido.

E por via alguma conseguia arrepender-se do que havia feito.

Sentia-se mal, constrangido, abalado, etc não por ter partido a cabeça da velha e lhe tirado a vida, mas apenas por ter denunciado a si mesmo num momento de fraqueza (???!!!!???).

De fato não fora pego. Pois a tempo fora notificado sobre a morte de Svidrigalioff... 

Mesmo assim num momento de grandeza ou fragilidade denunciou-se.

Havia portanto ocasiões em que se arrependia não de ter cometido seu crime, julgando-se inocente, mas sim de não ter podido conter-se, de não ter podido vencer a si mesmo, de não ter podido manter a constância da alma, de ter se desestabilizado e ido entregar-se a polícia.

Envergonhava-se quanto ao estado de desordem mental a que chegará após a consumação do crime e cuja gênese sequer sabia explicar.

Julgava-se talvez ou muito provavelmente sabotado pelo próprio medo de vir a ser pego.

Quiçá sua cruz fosse a cruz do medo.

O fato é que não conseguia conviver com esta situação de fraqueza.

A fraqueza ou a sensibilidade face ao crime é que exasperavam-no.

Mas por que?

A resposta temos no artigo que publicará alguns meses antes e que fora usado pelo juiz de instrução criminal, Porfírio com o intuito de conduzir as investigações.

Artigo em que nosso estudante de direito, antecipando Nietzsche, sustentava que o homem superior ou super homem - Fosse um Napoleão, um Cesar, um Maomé ou um Newton; não importa quem! - não só podia como devia cometer quaisquer crimes, e sem o menor constrangimento, pelo simples fato de estar plenamente cônscio a respeito de sua genialidade e de seu desígnio, enquanto benfeitor do gênero humano. Aqui matar, roubar ou mentir, se necessário fosse, não constituía apenas um direito mas um dever daquele homem... Já qualquer laivo de sensibilidade ou de arrependimento face ao 'crime' implicaria fragilidade, e portanto vulgaridade.

Ali a vocação para a riqueza ou a prosperidade, segundo Calvino (cf Weber 'A ética protestante e o espírito do capitalismo') indicaria a predestinação. Aqui o arrependimento ou a sensibilidade indicariam a vulgaridade...

Aquele homem especial, genial ou superior deveria ter suas vistas postas apenas sobre o fim, jamais sobre os meios. Pois os fins justificariam plenamente os meios...

O único crime aqui era ser pego, preso, punido, etc Numa palavra: Falhar e não atingir seu fim.

Pois ninguém (Atente aqui a mente sagaz!) ou quase ninguém, increpa como criminoso aquele que extermina milhares ou milhões de vidas humanas nas guerras. Será que chegamos aqui a Timothy McVeigh? 
E estátuas são erguidas a César, Átila, Maomé, Tamerlão, Henrique VIII, Filipe II, Cromwell, etc E nomes de ruas, praças, escolas, etc são conferidos aqueles que dissiparam tantas vidas humanas.

Enquanto aquele que comete um ou alguns assassinatos, estes são tidos em conta de criminosos, punidos, castigados, suplicados...

Por que raios matar alguns é encarado com horror pelas massas, enquanto exterminar povos inteiros é encarado por elas com a mais absoluta naturalidade?

Porque aqueles milhões, guiados por um gênio ou por um homem superior, lutam por um desígnio... Enquanto os outros, tendo sido pegos, e antes disto aminados por um desígnio vulgar como a fome (???) ou a miséria (???) mostram-se inferiores e vulgares.

Em tese, os crimes do home superior ou genial jamais vem a luz porque ele não foi, não é ou não será pego. Podendo, a custa de crimes perfeitos, realizar sua ascensão até o topo.

Tais as doutrinas expostas por Raskolnikoff  postas em sociologuês...

Toquemos porém a alma...

Porque é evidente que tendo colhido em algum lugar esta 'bela' doutrina do homem sem compaixão e desenvolvido-a o nobre moço não pode deixar de perguntar a si mesmo se é ou não é um destes homens superiores...

Sou ou não sou um deste super homens? Pertenço ou não pertenço a essa casta de homens superiores? Que sou eu??? A que rango pertenço???

Aqui o único teste possível é a execução de um crime, crime feito a sangue frio e perfeito.

Raskolnikoff precisa matar, não para obter dinheiro em primeiro lugar, mas para saber que é? Se é dos homens geniais ou dos vulgares...

Antes do crime vive este dilema e precisa resolve-lo.

E se hesita e não comete o crime já vai tendo a si mesmo em conta de vulgar.

Por isso planeja, por isso apropria-se sorrateiramente do machado, por isso vai a casa da velha e por isso da cabo dela. Sem no entanto contar com a aparição da Isabel... A qual se lhe apresenta a consciência como inocente. E já não sabemos que efeito a morte da pobre adela produziu no íntimo de seu ser.

Então por que Raskolnikoff mata, amigo leitor?

Mata, olhe só, para afirmar-se.

Aqui eliminar a vida do outro é espécie de introdução a vida.

Mata para ser.

E até consumar este ato perverso nosso homem estava firmemente convencido de que passaria pelo teste.

Eis a fé de Raskolnikoff: Que mataria e permaneceria o mesmo, ou seja, indiferente.

Era sua fé e tudo empenhou: A mãe, a irmã...

E no entanto mal comete o crime fragmenta-se em dois. O estado de tensão espiritual aumenta e sua sanidade mental deteriora-se. O homem já não é senhor de si e ao cabe de mil e uma peripécias acaba de entregar-se a polícia.

O fato é que após ter cometido o crime e mesmo sem se julgar arrependido sofria... E como sofria. Talvez sofresse mais pelo medo de ser preso... Mas sofria e não deixa de sofrer.

Julgava-se senhor de si enquanto assistia perder o controle de tudo...

E qual o epílogo de tudo isto?

Sucumbindo a tensão o homem é vencido por si mesmo e constata, necessariamente, a luz de sua doutrina, não ser um super homem mas um fracassado. E acredita nisto e sofre sobretudo por isto. Sofre porque convencido de que não era genial ou predestinado. Sofre porque concluir que não passava de um homem vulgar.

A consequência mais prática aqui fica sendo a morte de sua mãe.

Pois a infeliz Pulqueria Fedorovna não consegue suportar a dor da desventura, e sucumbe miseravelmente após ter perdido o uso das faculdades mentais.

O homem acreditava ter ganho o mundo inteiro ou a oportunidade do mundo, e... no fim das contas perde a criatura que mais amava, a mãe.

E tampouco pode assumir seu grande amor, Sônia, pelo simples fato de ter sido condenado ao degredo por oito longos anos...

Evidente que não pretendo postular a monocausalidade do crime. Toda monocausalidade me parece forçada e suspeita. Há crimes e crimes, motivações e motivações...

Há certamente quem mate por ódio ou vingança, como há quem mate para roubar movido por necessidades materiais... No entanto tais motivações não esgotam as fontes do crime. Há outras.

Assim Raskolnikoff mata para ser, para a afirmar-se e até podemos dizer que mata por uma questão de necessidade psicológica.

Mata apenas para sentir que é capaz de matar, que pode matar ou que tem o direito de matar.

Até aqui 'Crime e castigo', até aqui Dostoevsky, até aqui literatura russa, até aqui ficção.

E no entanto este autor é mestre consumado em matéria de psicologia. E até antecipa Adler.
Neste caso que fazer para que a conquista a auto afirmação não se converta em tragédia?

Penso que a resposta aqui esteja no livro que Raskolnicoff tomou as mãos já nas últimas linhas do romance; no Evangelho.

Na sacralidade com que este livro único nimba a vida humana.

Eis a melhor cartilha com que educar nossos filhos e moderar o instinto vital da afirmação.

De fato o homem deve buscar por sua afirmação, realização, fama e glória; mas sempre numa perspectiva Ética, visando não prejudicar ou causar dano, as beneficiar concretamente o maior número possível de seres humanos sem cometer pecado algum.

Tome não o caminho de Hitler, Bush, Pot, Stalin, Napoleão, Ivan, Tamerlão, Átila, César, etc os quais de fato não passaram de criminosos ou de psicopatas; mas o caminho de Buda, Confúcio, Sócrates, Platão, Jesus... S João de Deus, S Camilo de Lelis, Cotolengo, Abbe L Eppé, Braile, Abbe Pierre, Pe Damien Deveuster, Pe Ibiapina, Pe Bento, Irmã Dulce, A Schweitzer, Madre Tereza... O caminho do amor enfim, que é o melhor de todos os caminhos.

Tomando o caminho de Raskolnikoff tomará certamente o caminho da dor...


quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Pensamentos psicológicos...

A primeira psicologia por assim dizer foi a associacionista ou elementar inaugurada por Wundt. Segundo os pressupostos desta corrente cada fenômeno psicológico constituía uma espécie de setor estanque e da ligação existente entre eles - análoga aquela que existe entre os membros do corpo físico - resultava o que cognominamos personalidade.

A esta fase clássica sucederam duas correntes antagônicas e inconciliáveis: A psicanálise e o Behaviorismo. Aquela criada pelo Dr S Freud cerca de 1900 e esta pelo Dr J B Watson em 1914. Trabalha a psicanálise com o conceito de mente ou de fenômenos mentais de caráter dinâmico, e por isso recorre a introspecção. Já o Behaviorismo ou por negar a existência de qualquer entidade que ultrapasse a esfera material do corpo ou por considerar tal forma de existência inacessível a pesquisa limita-se a analisar o comportamento ou as ações humanas. Daí seu talhe materialista ou positivista.

Para os estudiosos behavioristas não há diferença significativa entre a psicologia animal - daí o emprego sistemático de cobaias i é ratos de laboratório - e a psicologia humana uma vez que os mecanismos materiais ou físicos são praticamente os mesmos girando em torno do condicionamento clássico e da relação estímulo resposta. E jamais nos afastamos demasiadamente de Pavlov. Chegamos assim a B F Skinner com seu condicionamento operante implementado através de reforço e/ou punição. A teoria é certamente recente. Empiricamente no entanto o condicionamento operante vem sendo empregado há milênios e com relativo sucesso tendo em vista o adestramento animal ou treinamento de cães, cavalos, elefantes, etc Neste sentido a perspectiva do behaviorismo é bastante acanhada por compreender o fenômeno educacional como um adestramento de seres humanos.

Claro que sendo animais podemos e devemos levar em conta os princípios do condicionamento operante e a operação de adestrar. Mormente em se tratando dos meninos mais jovens, nos quais a potência intelectual ainda não se transformou em ato. Não somos contra este recurso quando aplicado com sabedoria na E infantil ou nas séries iniciais. No entanto, na medida em que o intelecto vai emergindo e se afirmando fica claro que os recursos dispostos pelo behaviorismo vão se tornando mais e mais ineficientes e que a educação intelectual deva tomar outro curso. Por isso que o behaviorismo precisa ser ultrapassado e completado, pelo simples fato de jamais atingir a personalidade como um todo ou de tocar o universo mental de nossos alunos.

Porque o homem não é um rato, um gato, um cão, um elefante, etc mas uma estrutura mental e pessoal tanto mais organizada e complexa torna-se o behaviorismo, enquanto simples treino, ineficaz.

A psicanálise considera que a mente possuí diversas instâncias e que elas se inter penetram. Do que resulta uma visão mais ou menos caótica em termos de conflito. Entre as diversas instâncias da mente humana labora um estado de tensão insuperável matriz de todos os nossos problemas mentais ( digo de todos aqueles cuja origem não é física). Neste sentido cabe um papel de destaque ao inconsciente, definido como instância a que não temos acesso através da memória. A princípio Freud postulou a existência de uma força mental preponderante, no caso a libido, concebida como prazer ou prazer sexual. Foi a constatação a que chegou após ter examinado um grande número de neuróticos. Deparando quase sempre com algum recalque de natureza sexual.

No entanto, logo após a segunda grande guerra, Adler, um seu discípulo mais atilado, chegou a conclusão - após ter se embebedado nos escritos marxistas por sinal - de que a mais forte de todas as energias mentais não era de natureza sexual mas de natureza auto afirmativa, formulando os conceitos de busca pelo poder e instinto de agressividade. Evidentemente que a iniciativa de Adler não podia ser muito bem vista pelo Dr Freud, do que resultou sua 'excomunhão' ou expulsão da fraternidade psicanalista.

Tal não foi, no entanto, a compreensão de K G Jung, o qual, tendo chegado momentaneamente a conclusão de que tanto Freud quanto Adler estavam corretos, chegou a conclusão de que em algumas pessoas predominava o instinto sexual ou a libido e em outras a busca pelo poder até a agressividade extrema. Donde admitiu dois instintos: o sexual e o agressivo, determinando dois tipos de comportamento diferentes. Posteriormente K G Jung propôs a redefinição de libido em termos de uma energia informe, amorfa ou isenta de qualquer determinação. Segundo essa perspectiva a Educação ou a cultura é que direcionavam a libido para um objeto qualquer fosse ele a sexualidade, a afirmação em termos sócio, político econômicos, a religiosidade, a estética, a pesquisa científica, etc E estamos chegando praticamente a psicologia dos tipos de Spranger.

Ainda segundo este pensador as neuroses seriam resultado da concentração da líbido numa só área com prejuízo ou negação das outras. Sendo assim, o psicólogo Suíço recomendava que a libido fosse equilibradamente cindida entre as diversas áreas que constituiriam uma personalidade completa: sexualidade, afirmação pessoal, política, religião, estética, etc

O interessante aqui é que embora protestasse jamais retocar seus pontos de vista S Freud não tardou a incorporar a doutrina dos dois impulsos formulada por Jung. Desde então - cf Para além do princípio do prazer - admitiu a coexistência do Eros i é da libido sexual ou do prazer e do Tanatos ou instinto ora de agressão ora de morte, no mesmo indivíduo e aumentando ainda mais o estado de tensão (decorrente antes de tudo da oposição existente entre Id e Superego). Por fim Freud teve de mostrar-se aberto a hipótese segundo a qual a libido não passava de uma energia informe. Alias o que mais cativa na personalidade de Freud é justamente esta capacidade para assimilar a crítica alheia, incorporando-a a teoria original e o mais triste é que ele, Freud, jamais foi capaz de admiti-lo, passando inclusive por plagiador.

Rank (Otto) foi outro colaborador que incorreu no desagrado do mestre. Por ter - na obra já clássica "O Trauma do nascimento' - proposto, a par do 'complexo de Édipo' a existência de um outro complexo não menos importante relacionado com o parto do nascituro, especialmente com a assim chamada cesariana. Melanie Klein (classificada como post freudiana) foi por essa linha considerada mais ou menos heterodoxa e enfatizou a importância dos eventos anteriores ao completo de Édipo para a formação da personalidade e evidentemente das neuroses. Nesta perspectiva sua monografia sobre o desmame foi cabal, somando-se a crítica de Rank.

Antes de chegarmos a Gestalt ou psicologia das estruturas mentais gostaria de mencionar ainda que de passagem o papel da pesquisadora Karen Horney responsável por introduzir o conceito de cultura no debate psicanalítico e, consequentemente, por problematizar em torno da metafísica freudiana. Ao que parece foi esta mulher insigne, que levantou a ponta do véu, ao sugerir que a percepção sexualista de Freud correspondia não e um elemento abstrato presente em todas as situações e sim a uma conjuntura cultural determinada em termos de tempo e espaço. Freud captou as situações de neurose produzidas pela sociedade européia de seu tempo. Noutras palavras - alias nossas - ao relacionar a situação de neurose com a repressão sexual Freud captou uma situação produzida pela Sociedade 'cristã' maniqueista ou puritana de seu tempo para a qual a negação do corpo e a condenação da sexualidade equivalia a uma necessidade religiosa ou espiritual.

O mesmo vale para Adler ao menos em certa medida, Pois ainda que reconheçamos com ele - e reconhecemos - a existência de um instinto de auto afirmação segundo o qual cada pessoa busca um espaço através do qual realizar-se plenamente no mundo, a ideia de um 'instinto de agressividade', destruição ou morte se nos apresenta como uma hipertrofia daquele estimulada ou promovida pela cultura capitalista. O homem decerto anseia por afirmar-se como 'alguém' no seio da Sociedade e isto corresponde a um sentido. A educação 'liberal economicista' estimulando ao máximo a rivalidade, a concorrência, a combatividade é que produz por assim dizer o tão disseminado 'instinto de agressividade' ou morte detectado pelo eminente psicólogo.

Resta-nos por fim dizer alguma coisa sobre a Gestalt de Kofka, Koehler e Spranger. Em certo sentido a gestalt retoma o esquema coordenativo da psicologia clássica ou elementar, incorporando em certo sentido as críticas da psicanálise na orientação de um dinamismo. Para a gestalt a mente humana deve ser compreendida em termos de uma estrutura complexa em que diversas áreas, partes ou sessões entram e contato e inter penetram-se. São diversas camadas ou tecituras que associam-se, envolvem-se e dão origem a uma macro estrutura peculiar. O que nos remete aos tecidos do corpo humano ou a trama e a urdidura de um pano.

Para a gestalt a educação enquanto assimilação de elementos culturais e sua ordenação pela mente produz determinados tipos comuns de personalidade, cada qual voltada para uma área ou atividade da existência em termos de vocação. A vocação não significa no entanto a convergência da libido ou energia como um todo para uma direção apenas, mas a busca pela afirmação sem prejuízo do prazer ou da alegria. E sempre resta alguma medida de energia para ser aplicada nas demais áreas da personalidade completa. Segundo Spranger em termos de personalidade teríamos as seguintes determinações gerais: Ciência, arte, política, religião, sociedade... Aqui a fonte das neuroses ou do desconforto mental estaria relacionada com a vocação frustrada ou deslocada pelas exigências artificiais da existência.