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segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Meira Penna e sua opção preferencial pelos ricos a barra do Evangelho ou Evangelho e riqueza.

Inicio este artigo reproduzindo o que havia já escrito em meu 'Manual de Ética Cristã Ortodoxa': Se com relação a seus mistérios ou os dogmas da fé, foi Jesus enfático e terminante, esgotando necessariamente o assunto e prendendo-nos a literalidade de suas palavras - Sem que possamos fazer inferências ou especulações... quanto a moralidade, forneceu-nos apenas alguns princípios genéricos, sumários e elementares ou seja, alguns fundamentos éticos, a partir dos quais devemos aduzir, por meio de especulações e inferências, as soluções para quaisquer casos futuros. 

Isto porque é a moralidade dinâmica. 

Pelo simples fato de sempre toparmos com novos questionamentos ou problemas causados pelas novas circunstâncias i é pelas mudanças sociais ou pelo avanço geral da técnica. Como Deus Onisciente - Senhor do Tempo e da eternidade. - bem poderia, nosso Jesus, ter escrito ele mesmo uma enciclopédia elencando todos esses problemas que iriam surgir e oferecendo as melhores soluções.

Não foi o que ele fez ou quis fazer - Optando por oferecer alguns princípios bastante sumários as nossas consciências. De modo que através do princípio operatório das razão, possamos sacar as consequência. 

Tais as questões em torno, por exemplo, do fumo, do transplante de órgãos, da fertilização in vitro, do racismo, e de diversos aspectos do capitalismo, tais como: A proteção ao trabalho, o salário, os meios de produção, etc Quanto a estes últimos tópicos, partindo da tradição, do Evangelho e mesmo da Filosofia clássica a igreja romana formulou um corpo de doutrina social face ao qual a Ortodoxia, de modo geral, nada pode objetar mas que, pelo contrário, deve validar.

Seguindo esta linha, buscaremos examinar os principais textos evangélicos alusivos a riqueza e a partir deles confrontar o apologista brasileiro Meira Penna, principal defensor do éthos capitalista em nosso país.

Para tanto devemos examinar em primeiro lugar a questão da Propriedade e seu status face a fé Cristã.

É isto de suma necessidade para que os materialistas ocultos ou não assumidos não aleguem que estamos nós condenando toda posse ou propriedade como legítima, tal qual os anarquistas e comunistas - Pois não é este nosso ponto de vista. 

Com efeito, se a um lado, não podemos subscrever a tese de Proudhon, segundo a qual todo tipo de propriedade corresponde a um roubo, tampouco podemos deifica-la, associando-a a Deus, como fazem os proprietaristas desorientados. Nem divina, quanto a sua totalidade, e tampouco sinônimo de roubo.


Então o que...

Reconhecem os Cristãos a propriedade pessoal (O local em que alguém reside com sua família ou que é usado por uma dada família.) enquanto fruto do trabalho honesto, como algo sagrado, firmado numa Lei natural.

Portanto é, esse tipo de propriedade (Pessoal\laboral). legítima e inalienável. Caindo, todo aquele que dela toma posse por meio da força, sob a condenação inexorável do mandamento divino: Não roubarás e portanto pecando gravemente. Do que temos exemplo já no testamento velho quanto a vinha de Nabot, sancionando esse registro com uma chancela Cristã, posto que contém tal sentido.

Portanto não caí sob a proteção da Lei divina aquele excedente de propriedade que não é habitado ou usado (Como espaço laboral) pelo 'proprierário' e menos ainda o que foi desonesta e pecaminosamente adquirido por quaisquer meios ilícitos. Podendo ela, em todos esses casos, ser expropriada pelo legislador sem maiores preocupações.

Outro o caso dos monopólios ou corporações (Grandes indústrias) que detém meios de produções. Tampouco estes caem sob a proteção da Lei divina, sendo sua expropriação questão alheia a religião ou ao Evangelho, a qual, consequentemente, deve ser avaliada e decidida pelo grupo social em questão tendo em vista o Bem comum. 

Até aqui a propriedade.

Passamos agora a examinar a questão da riqueza ou do acumulo de coisas materiais face ao Evangelho ou as puras palavras de Cristo nosso Deus. 

Todavia convém que antes de iniciar esse exame consideremos que para nós Cristãos, nicenos, atanasianos, Católicos, Apostólicos, Ortodoxos, crentes, submissos e reverentes é Jesus Cristo Deus encarnado e verdadeiro Deus Onisciente, Legislador Todo Poderoso, Mestre infalível, Instrutor perfeito, etc, etc, etc Pelo que, conhecido o teor de suas palavras, não é lícito debater com ele, argumentar, levantar 'razões', etc Nós pura e simplesmente recebemos ou aceitamos os decretos de Jesus Cristo como indiscutíveis e inapeláveis. Por fim nós repudiamos o Livre exame ou a mania de atribuir um sentido arbitrário (Interpretar) como irreverente, e avaliamos essa estratégia ou tática subjetivista como uma fuga do Evangelho.

Então o que...

Examinamos as acepções literais do texto grego e nos conformamos com o sentido, para em seguida sacar as conclusões.

Comecemos então pelo emblemático texto da corda ou camelo (Os fariseus e escribas daquele tempo diziam 'elefante') - o que dá no mesmo pois nem elefante, nem camelo e tampouco corda podem passar pelo fundo de uma agulha. De fato os apóstolos compreenderam perfeitamente a mensagem, e replicaram: Sendo assim, quem se salvará... Posto que na perspectiva da natureza tais palavras implicam impossibilidade irredutível. 

Replica e responde Nosso Senhor e Mestre> É impossível aos homens.

Donde se percebe muito claramente, que ao menos neste texto e contexto, não temos nós a condenação absoluta dos ricos.

Pois do explícito: É impossível aos homens, devemos aduzir: Nada há de impossível para o Santo e Bom Deus e sua divina graça.

E já podemos por a questão noutros termos: Quem é este homem para o qual é impossível salvar-se na riqueza e como pode Deus salvar o homem rico...

Ao que parece a impossibilidade se refere ao homem natural alheio as exortações do Evangelho. Ao que tudo indica o rico não se pode salvar fora da fé no Cristo do Evangelho ou da Revelação divina. Tal o poder devastador da riqueza.

Porém no contexto Cristão, isto é abraçando sinceramente a fé, pode o rico obter e conservar a salvação. Neste caso será salvo dá riqueza ou na riqueza... 

Ouso dizer, que aparentemente autorizou Nosso Senhor que aquele que herdou dos ricos i é que recebeu herança de pais judeus ou pagãos, conservasse sua posse desde que a fosse distribuindo aos pobre ou as obras assistenciais da Igreja, ao cabo de sua vida ou ao cabo de algumas gerações. 

Não serve para impugnar este ponto de vista o exemplo de Zaqueu, uma vez que a origem de suas riquezas é dada por desonesta. Aferida a desonestidade da herança fica impugnada sua legitimidade e decretada a necessidade da reparação, devendo o titular, se Cristão, desfazer-se dela de imediato, doando-a aos pobres, segundo o exemplo de Zaqueu. Portanto estamos nos referindo as riquezas de origem desonesta.

Já quanto ao Cristão que nasceu nesta condição, parece que o direcionamento é doutra espécie: Não junteis tesouros neste mundo, onde a traça destrói e a ferrugem come, de modo que o acúmulo desmedido de bens materiais é proibido. Como é proibida a avareza ou cupidez: Bem aventurados os pobres em espírito i é os que não tem apego as coisas e objetos materiais... 

Terá você a audácia de dizer que aquele que, tendo, como Sócrates, o suficiente para viver com conforto, dignidade e decência; e, sem embargo disso, concentre todas as suas energias para obter mais coisas é desapegado... Ousarás tu alegar que aquele que consagra suas forças em juntar, acumular e enriquecer - Como aquele que disse: Hei de aumentar meus celeiros... é um desapegado... Acaso insistirás que aquele que se aplica freneticamente em obter imensa fortuna é um desapegado. Pois bem, se não és bem aventurado, perseguindo riquezas que Jesus Cristo declara falsas ou ilusórias, é certamente um mal aventurado.

A esse homem avaro, que ambiciona além do necessário e lança sua cobiça para além do que necessita, diz o mesmo Jesus Cristo: Não pode alguém servir a Deus e ao Dinheiro, ou seja, concentrar seu afeto nas falsas riquezas. Devendo conformar-se com a vida sóbria e equilibrada ou com algo próximo do Ariston metron dos antigos gregos ou com a 'Aurea mediocritas' dos antigos romanos. Agora em que consiste essa vida sóbria ou moderada: Já nos referimos a ela pouco acima, dizendo que consiste em conformar-se com uma condição confortável e digna, tendo o que comer, o que vestir, onde habitar e até mesmo algo para distrair... Não uma multidão de terras, casas, celeiros, carros, etc 

É este tipo de atitude - A busca incessante de riquezas pelo Cristão.  - que se refere o apóstolo quando diz: A raiz de todos os males é o amor ao dinheiro. A concentração da mente e das energias em obter o máximo possíveis de coisas materiais e perecíveis ou o poder. Não devemos nós juntar o que não possamos nesta curta existência gastar. Pois em caso de morte não levaremos tais 'bens' junto conosco para a verdadeira vida. Por isso declara Nosso Senhor com acento religioso: Junteis tesouros no céu. Como distribuindo os excedentes com os irmãos, batizados, membros de Jesus Cristo. Servindo e beneficiando a comunidade. Praticando obras de virtude. Sendo solidários, fraternos, amorosos, bondadosos, etc Assim é que se acumula tesouros perpétuos e imperecíveis nos céus e tal é ou deve ser o investimento daquele que nasceu de Cristo e nele está.

Devemos buscar juros não na Bolsa de valores ou nos bancos porém no mundo imaterial e invisível, i é, nos céus, fazendo render a graça de Deus por meio de nossos excedentes financeiros. É nos irmãos, no próximo, no semelhante, no outro... que devemos investir. Então nosso lucro está no além túmulo ou na vida eterna e não neste mundo que passará. 

Quanto aos avarentos, apegados ou buscadores de ouro, prata, pedras preciosas, etc segundo o primo do Senhor, estão já julgados: Porque vossas arcas estão atulhadas... enquanto os pobres choram, após esta vida vós é que haveis de chorar em meio a grande sofrimento. Como aquele Finéias, que buscando riquezas e sendo inferente a sorte do miserável Lázaro foi lançado na Geena de fogo...

Quanto aquele administrador infiel que distribuía os excedentes com os clientes do empório, não nos diz o Senhor que era Cristão ou se era hebreu ou ainda pagão. Pois não distribuiu de imediato porém no decurso da vida as riquezas que eram iniquas. Ganhou amigos nos céus e foi digno de suas intercessões, porém, de modo algum chegou a perfeição a que somos convocados - Pois ao jovem rico foi dito: Vende teus bens e dá aos pobres. É nesta passagem, dois versos mais adiantes que Nosso Senhor classifica toda riqueza como falsa ou ilusória. A do administrador apenas declarou iniquas (Não todas as riquezas de modo absoluto porém apenas as do administrador.) porquanto obtidas com fraude e dolo. A riqueza, de modo absoluto, como falsa ou ilusória.

Acaso devemos buscar o que é falso ou ilusório... 

Caso viéssemos faze-lo quão miserável seria nossa meta!

Devemos buscar o que é verdadeiro i é, o que a traça e a ferrugem não podem destruir, o imperecível, o eterno, o duradouro, a imitação de Nosso Senhor Jesus Cristo. Aquele desapego, aquela sobriedade, aquela moderação, aquela temperança, etc que são sinais de vida espiritual. De modo algum a avareza, a cupidez, a ambição desmedida, o acúmulo ilimitado de bens, a riqueza, a grande fortuna, etc pois em nada disto vai o Reino de Deus.

Quanto ao Cristão é terminantemente proibido buscar aumentar as falsas riquezas, concentrar-se na fortuna, juntar sem medida, etc Poderá no entanto, sendo descendente de milionários judeus ou pagãos administrar generosamente tais bens, como fizeram os teoforos Basílio e Gregório de Nazianzo, ou ainda os piedosos citados nas cartas de Jerônimo. O que, advirto, deve ser feito com extrema lisura e cuidado, no sentido de não dissipar tais bens consigo próprio ou viver no luxo enquanto os Santos morrem de fome nas sarjetas. Esse excedente de bens fica na mãos dos Cristãos para ser administrado em benefício Santos e não para o deboche. 

Tal a doutrina pura tomada literalmente ao Evangelho, sem distorção, interpretação ou Livre exame. Pois encaramos com sumo respeito as palavras de Cristo nosso Deus. E por elas contatamos que não pode aquele que nasceu de novo concentrar-se na busca de riquezas ou acumular ilimitadamente. E que esse afã pelo poder e pela glória é pecaminoso.

O que nosso Senhor por benevolência concede aos Cristãos é que herdem riquezas acumuladas já por judeus e pagãos e administrem-na em favor da irmandade, partindo e distribuindo ao cabo da vida ou das gerações. Isto quando tais riquezas não sejam notadamente más ou iniquas, como as de Zaqueu ou as do administrador infiel, as quais, neste caso, devem ser distribuídas em sua totalidade e de imediato, pelo simples fato de constituírem roubo e pecado contra a Lei divina.

Por fim devo questionar até que ponto um sistema de Crenças em que a Encarnação de Deus não se dá num palácio ou entre uma família rica e poderosa. Em que o personagem central foi um humilde carpinteiro e não um nababo ou próspero empreendedor. Em que o supremo referencial não dispunha de propriedade pessoal. Em que o foco da fé é supliciado numa Cruz. Cuja lei insiste repetidamente sobre o desapego e sobre a insensatez de perseguir falsas riquezas. Cuja meta é concentrar-se na graça de Deus e na justiça. Cujo ideal de perfeição consiste em desfazer-se de tudo quanto acumulado foi. E cuja hierarquia eclesiástica foi entregue a Rahibes com voto de ascetismo - Poderia compor-se com a busca frenética por bens materiais...

Tudo quanto posso ver aqui é a mais cerrada oposição. Cerrada oposição e antagonismo inconciliável. 

Agora o próprio Meira Pena, admite que o sistema capitalista depende da cupidez ou que é estimulado pela cobiça. Como discorre sobre o desapego e sobre a administração dos falsos bens... Agora como pode negar que constitua avareza a concentração da mente no acúmulo excessivo de falsos bens ou essa dedicação intensa a economia... Como negar que a busca pelo excesso seja avareza ou que a busca pelo desnecessário seja consumismo e consequentemente sinal de vazio interior ou de materialismo...

Como conciliar uma busca frenética sem apego... E como conciliar o Cristianismo ou a bem aventurança com o desapego...


Conheça também os demais artigos da série 'Culturas de morte': 


  • Americanismo
  • Protestantismo
  • Conservadorismo
  • Positivismo
  • Anarquismo
  • Comunismo
  • Fascismo
  • Pós Modernismo
  • Sionismo 
  • etc



segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Em torno de um vídeo - Catolicismo vs Capitalismo (Youtube) II

Foi quando uma lamentável questão de semântica ou de palavras veio a baralhar a questão e semear a amargura e a discórdia entre os Cristãos.

Para compreende-la em seus devidos termos consideremos antes de tudo que a Igreja iniciou sua trajetória sendo perseguida pelo Império romano, e devido a questões de fundo social como a escravidão. Posteriormente o papado romano envolveu-se noutro conflito, desta vez com o Império. Por fim a reforma protestante, da mesma maneira, serviu-se do poder político ou da espada secular com o objetivo de prostrar a igreja... Isto sem falar-mos da Revolução Francesa. Politiqueira até certo ponto a igreja romana, concorria com o estado e receava dele. Temos aqui uma situação de desconfiança que chega a ser traumática.

Outra no entanto, e certamente nova, era a natureza do liberalismo econômico, sendo até provável que ao menos a princípio este novo adversário do poder estatal gozasse de boa estima, ao menos face a certas parcelas da igreja. Afinal ele pretendia fragilizar o poder político de um estado que no mais das vezes estava disposto a pilhar a igreja. Um modelo de estado tradicional controlado por positivistas não é o que a igreja sonhava e ela sequer podia saber o que se achava por trás do véu... A igreja não soube avaliar devidamente o significado do Capitalismo quando este fez sua aparição nas sociedades ocidentais, e por isso demorou a decidir-se sobre a possibilidade ou necessidade de uma intervenção direta do poder político no plano da economia. Mesmo quando Leão XIII chega a esta conclusão, há todo um tom de melancolia. Afinal os socialistas já o vinham dizendo há mais de meio século e sob a perspectiva naturalista... Foi duro para o papado ter de concordar com os socialistas, e atingir o liberalismo em seu coração pelo simples fato de questionar o dogma não intervencionista da auto regulação. O deus mercado fora afrontado pela igreja antiga se bem que com cinquenta anos de atraso.

Diante disto os socialistas não pouparam críticas a igreja, comparando-a a uma lesma e alegando que perdera o trem da História. Por uma questão de defesa, ainda que irracional, os socialismos naturalistas fizeram-se ainda mais anti religiosos ou anti católicos. Apesar disto alguns Católicos sempre se haviam apresentado como socialistas. Alias a batalha do nome também separava os comunistas dos socialistas ou sociais democratas e Lênin acabará de proscrever o nome que mais tarde seria reabilitado por Stalin. Maurras também havia sido excomungado e seu projeto político condenado. Pio XI por fim condena o emprego do termo socialista por parte dos Católicos.

Fe-lo, julgamos nós, um tanto precipitadamente, e talvez acreditando, sinceramente, como Keynes ou Giddens, numa possível terceira via não alinhada. Claro que existe uma terceira via ou uma outra opção caso consideremos os extremos do Capitalismo e do Comunismo, isto no âmbito da política e esta terceira via é o próprio Socialismo na medida em que repudia o totalitarismo representado pela doutrina da ditadura do proletariado, o que vem a comprometer também o ideal draconiano da Revolução nos termos Lênin e a acenar com soluções democráticas, as assim chamadas reformas. A bem da verdade até mesmo os fins aqui são diferenciados uma vez que o comunismo visa a implementação de uma igualdade absoluta enquanto que os socialismos visam a implementação de uma igualdade relativa em termos de oportunidades (M Bakhunin). Os socialismos também se mostram flexíveis quanto a causa formal do Capitalismo que é o regime assalariado decorrente da posse privada dos meios de produção.

Outra coisa porém é querer encontrar um meio termo entre o liberalismo econômico e o socialismo. Aqui julgamos que toda e qualquer tentativa seja um tanto forçada. E que não haja por assim dizer meio termo, isto a luz da definição de capitalismo ou liberalismo fornecida pelos principais teóricos liberais. O quanto podemos dizer aqui é que o socialismo Cristão e Católico, cujos fundamentos são éticos, seja anterior a todos os demais exemplos ainda existentes. Poderíamos sem receio identifica-los com os 'socialismos religiosos' ou sagrados da antiguidade elencados por Ozanam em sua Carta (Carta sobre o socialismo), inda que haja ali um elemento novo, que é a liberdade pessoal. Esta porém jamais se opôs ou poderia opor-se a ação da comunidade sobre a esfera da atividade econômica, a qual também é humana. Não é sem razão que Max Beer na sua História do socialismo, cita a Urukagina como primeiro reformador social. Na medida em que Leão XIII não só reconhece como até estimula a intervenção do político na esfera da economia, temos a negação peremptória do liberalismo econômico e do princípio do livre mercado que auto regula a si mesmo. Do ponto de vista do liberalismo clássico e puro keynesianismo, bem estar social e doutrina social da igreja são formas de intervenção social e portanto formas de socialismo.

Os Católicos conscientes escolheram outras tantas palavras e expressões - cooperativismo, distributivismo, trabalhismo, fraternalismo, personalismo, solidarismo, etc para apresentar basicamente os mesmos princípios, do bem comum e da intervenção social, sem terem de empregar o termo socialista. O resultado desta batalha semântica foi uma dispersão de forças, enfiando-se cada Católico no seu clubinho, ao invés de terem juntado forças contra o inimigo comum. Outros dando a mais absoluta prova de má fé, desonestidade e mal caratismo deduziram, da condenação do Comunismo e do Socialismo, que a igreja, NÃO COGITANDO EM OFERECER ALGO DE PRÓPRIO (Como a doutrina social), aliava-se ao liberalismo econômico e ainda hoje há gente safada que assim pense!

Por mais que a igreja tenha se esforçado por vindicar a liberdade pessoal e seu resultado, que é a propriedade pessoal não é menos verdade que jamais reconheceu o dogma falso e monstruoso da auto regulação ou o ideal economicista de uma economia irredutível a Ética. A Igreja numa perspectiva humanista e anti economicista sempre afirmou o primado da ética face a qualquer atividade humana e esta foi talvez sua marca distintiva face a ideologia rival, o positivismo, cuja renúncia a ética foi catastrófica.

Destarte por que não condenou a igreja o Capitalismo ou o Liberalismo econômico juntamente com o Comunismo e o Socialismos naturalistas?

Eis a pergunta que se impõem. Afinal os Católicos de fancaria a partir daí, concluíram pela veracidade do Capitalismo.

Tentaremos responder a esta pergunta partindo do ponto de vista segundo o qual não é o Capitalismo um fenômeno simples, como queria K Marx, mas um fenômeno bastante complexo, como queria Werner Sombart o primeiro a opôr ou melhor a sobrepor ao conceito de estrutura, o conceito de Geist ou de um espírito do Capitalismo, claro que ele desenvolve um conceito de Weber. O Capitalismo não é apenas uma estrutura ou uma forma de organização material, é algo a mais ou mais além. Tem uma alma, um espírito, uma ideologia... já foi imaterial antes de encarnar-se na Sociedade graças aos préstimos do protestantismo.

Tentemos compreender isto, tomando para tanto o esquema imaginado pelo Pe Julio Menvielle com base nas causas de Aristóteles. Esquema que alteraremos por discordar do douto padre.

Quatro são as causas alistadas pelo Filósofo: Causa eficiente, Causa material, Causa formal e causa final; assim em: 'Fídias, com mármore, fez uma estátua para o rei.', temos -

Fídias = C Eficiente, aquele que executa a ação.
Mármore= C Material
Estátua= C Formal, que dá forma ao ser.
Rei = C Final

Tomemos agora o Capitalismo e submeta-mo-lo a mesma análise -

Qual sua causa material?

Como todo fenômeno econômico propriamente dito a produção e distribuição de bens.

Até aqui nada demais, afinal a igreja não condena a simples atividade econômica ou qualquer outra atividade humana.

Qual sua causa formal?

Aqui concordamos com Marx - A posse privada dos meios de produção associada ao regime assalariado.

Que pensar a respeito?

Marx tem para si que a posse privada dos meios de produção esteja ela mesma na raiz do mal, assim o regime assalariado, os quais devem ser substituídos pela posse comum ou coletiva dos meios de produção.

De fato o pensamento Católico acha-se mais próximo de formas comuns ou coletivas de administração, a exemplo das corporações medievais. Assim da posse comunal da terra a exemplo dos egidos mexicanos... Em todo caso a posse da terra deve sempre estar relacionada com o uso pessoal que dela se faz. O que de imediato põem sob suspeição o modelo assalariado, o qual é no mínimo precário.

Agora devemos compreender que essa forma de relação econômica impos-se a quase meio milênio alastrando-se por todo Ocidente. De modo que não conseguiríamos aboli-la sem dar início a uma catástrofe cósmica, e verter rios de sangue. O que nos leva a indagar em que medida um tal regime possa ser revisto a ponto de satisfazer as exigências básica da justiça.

Temos portanto diante de nós um regime que sem ser intrisecamente mal, quiçá possa tornar-se menos permeável face a injustiça.

Por isso a igreja, ao contrário de Marx, não pode condenar a forma do Capitalismo ou o regime assalariado como absolutamente mal, de modo que não possa ser ajustado segundo as condições da justiça.

Daí a insistência da igreja a respeito do salário família, da participação nos lucros e numa legislação que proteja o trabalhador, condições em que, o regime assalariado, seria tolerável. Ao menos enquanto tentamos viabilizar e implementar outras posses mais elevadas de posse.


Passemos agora a terceira causa que é a causa eficiente imediata do Capitalismo, uma vez que a causa imediata não exclui outras tantas que sejam mais profundas ou mediatas.

Por causa eficiente do Capitalismo temos, segundo o Papa Leão XIII em Rerum Novarum - A ambição desmedida, a cobiça insaciável ou a avareza. O desejo de acumular bens neste mundo por assim dizer, ilimitadamente. A tendência a amealhar e juntar. Tudo quanto a igreja sempre encarou como pecado. Aqui temos o primeiro impulso ou motor do Capitalismo, o geist ou o espírito de Sombart e sabemos muito bem ter sido condenado pela ética Cristã, afinal - NÃO SE PODE SERVIR A DOIS SENHORES, A DEUS E AO DINHEIRO, e... NÃO JUNTEIS BENS NESTE MUNDO ONDE A TRAÇA DEVORA E A FERRUGEM COME, MAS JUNTAI BENS NO MUNDO CELESTIAL!


Tais os pobres em espírito, que não tem apego, e que portanto não buscam acumular ilimitadamente fazendo fortuna sobre a terra!
Assim se a forma do Capitalismo ou sua estrutura, é relativamente suportável ou tolerável na medida em que se submete as exigências da doutrina social da igreja - e em última análise a um controle ético exercido pela Sociedade - assumindo um certo aspecto humanista, o espírito, a ideia ou o éthos que o faz crescer e lutar esta radical e irremissivelmente condenado pela lei de Jesus Cristo, que é o Evangelho e pela tradição eclesiástica. Disto resulta que o dogma ou preceito da auto regulação ou da não intervenção seja inaceitável aos olhos do bom Católico.

Enfim não se pode ser Católico e liberal economicista ou capitalista ao mesmo tempo. Do contrário a simples existência de uma doutrina social bastaria para evidenciar a idiotice da Igreja Católica quando evidencia sua genialidade ímpar. E o protestantismo, que não possuí qualquer doutrina social, estaria na dianteira. Agora, se existe uma doutrina social é evidente que o liberalismo econômico labora em erro e com ele o protestantismo, o qual historicamente concedeu-lhe espaço ao retirar-se do mundo material para as nuvens na medida em que afirmava um ideal mágico de salvação, desvinculado do outro e da Ética.