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quinta-feira, 19 de julho de 2018

Superando o Comunismo ou Capitalismo de Estado com Jaurés e Otto Bauer

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J Jaures é uma personagem muito pouco conhecida e praticamente ignorada em nossa 'Terra brasilis'. Mas foi alguém muito importante há cerca de cem anos quando tombou por tentar impedir a catástrofe que conhecemos como primeira grande guerra. Assim enquanto o russo Lênin, sem apoiar, visava tirar proveito da Guerra, Jaures forcejava por evita-la a todo custo, e por isso tombou, vitimado por dois tiros quando estava prestes a recorrer a arbitragem de W Wilson presidente dos EUA. Após Jaures veio o dilúvio e levou consigo milhões de preciosas vidas humanas, especialmente dos mais pobres é claro.

Bem, como dizia, J Jaures é uma figura praticamente conhecida aqui no Brasil e isto tem um motivo ou uma razão - O grande líder socialista francês jamais assimilou o que chamam de marxismo 'ortodoxo' mesmo em simples termos de comunismo, para não dizer bolchevismo (Ou leninismo, o comunismo russo)... Não fora em vão que Jaures havia cursado Filosofia. Então ele estava muito bem aparelhado, no sentido de examinar toda essa questão revolucionária tanto mais a fundo. E examinou...

Como explicitamos noutros artigos os babovistas, blanquistas e anarquistas acreditavam piamente que a Revolução significava tomar posse do poder ou da estrutura política, e que isto equivaleria a alterar as estruturas sociais. A ingenuidade deste tipo de proposta salva a vista. Tal a complexidade daquilo que convencionalmente chamamos sociedade, a qual começava a ser estudada por Lorenz V Stein e F Le Play. Os anarquistas, como ainda hoje, não se preocupavam com o dia seguinte a Revolução que implicava a destruição do estado, com sua cadeia de relações sociais e econômicas. Guiados por um espontaneísmo irracionalista e leviano chegaram a crer que no dia seguinte a queda do estado a terra se converteria num paraíso...

Marx e Engels, ainda jovem assimilaram este padrão de pensamento miserável. E também identificaram a tomada do poder político com a dita Revolução, sem atinar quanto aos gravíssimos problemas que viriam depois, especialmente caso o futuro da Revolução não fosse seriamente pensado, planejado ou calculado. Nutriam quase todos uma concepção mágica em torno do poder, e diante disto só poderiam atuar como a R Francesa, por meio do terror. E a revolução russa foi uma reedição dele, como o período Stalinista também o foi...

Afinal das contas a produção e circulação de bens de consumo, inclusive de gêneros de primeira necessidade, tem sempre dependido, em maior ou menos medida, do controle e da orientação do estado. Desde que a Revolução industrial criou o modelo fabril e iniciou este movimento a que chamamos urbanização houve uma separação drástica entre o campo e a cidade, de modo que a exemplo de Roma, as grande cidades ou metrópoles ocidentais já não são auto suficientes quanto a alimentação de seus habitantes. Os campônios devem produzir e os comerciantes conduzir, pelas vias de acesso, tais insumos as grandes cidades, de modo que haja suficiente oferta deles. Do contrário a fome generalizar-se-ia... e com ela as enfermidades, os conflitos...

Eis porque, torna-se inviável ou mesmo perigosa, a simples ideia de destruir o macro estado ou o poder político da noite para o dia, assim como de aterrorizar a iniciativa particular ou impedi-la de atuar, sem que haja um bom plano no sentido de manter os serviços - como as vias públicas e meios de transporte - relacionados com o abastecimento e a oferta de gêneros aos grandes centros urbanos. Do contrário, em questão de poucos dias, a falta de circulação e de gêneros alimentícios provocaria a fome e a carestia, o que significa que os pobres i é a gente humilde, que a Revolução pretende redimir, morreriam em primeiro lugar, ou melhor, após nossos animais de estimação...

Claro que face as mentalidades levianas tudo isto parece besteira. Mas não é.

Por trás do poder há algo muito mais complexo que se chama administração de serviços. E temos de imaginar ou conceber em que termos esta administração funcionaria caso o poder fosse destruído ou passasse por sensíveis alterações. Ou a mesa do pobre, do operário, do trabalhador; faltará pão... Já ouviram alguém dizer que tudo sempre pode piorar? Pois é... Por imprevidência pode...

Demos a palavra a Otto Bauer: "A revolução política tem sido obra da violência. A revolução social somente pode efetivar-se por meio de um trabalho duro e construtivo. A revolução política pode ser feita em algumas horas. A revolução social será resultado de uma ousada e reflexiva tarefa." e continua "Como já disse Marx a Revolução política pode apenas liberar os elementos da nova sociedade. No entanto construir com estes elementos a sociedade nova é tarefa que não poderá ser feita por meio de lutas nas ruas ou guerras civil. DEMANDARÁ TRABALHO CRIADOR DE LEGISLAÇÃO E ADMINISTRAÇÃO."A revolução drástica até pode ser necessária, no entanto jamais será suficiente e por não ser suficiente demandará planejamento, em torno de assuntos administrativos aos quais não poderá fugir e que tampouco poderão ser resolvidos com rifles, fuzis, metralhadoras e munições. Agora veja o senhor... Os anarquistas, em parte, não tem qualquer proposta social face ao futuro e Bakunin, sempre que era questionado neste sentido, alardeava que só lhe importava destruir, uma vez que as coisas se reorganizariam por si mesmas no futuro, i é, sairiam do nada!!! Em momento algum ele pensou nas consequências acarretadas por estas rupturas de relações habituais ou pela cessação da oferta dos serviços básicos... Das quais bem poderiam resultar a fome e uma mortandade geral.

Os Comunistas adiantaram-se um tanto e pensaram, mas como pensaram mal... Julgando poder colocar tudo, numa situação de 'ditadura do proletariado' sob a tutela da burocracia ou do estado onipotente, sem cogitar seriamente que resultaria deste inchaço... Todas as tarefas ou funções econômicas, em parte apenas, exercidas pela iniciativa privada, seriam da noite para o dia absorvidas pelo estado. E no entanto este estado é o proletariado, o proletariado o partido, o partido o comitê central, o comitê central pelo politburo e o politburo pelo secretário do partido - Cabendo a um só, a uma só cabeça, a uma só mente tudo planejar e dirigir num pais do tamanho da Rússia ou no caso dos EUA, do Brasil, do Canada, da Australia, o que já seria inviável no minúsculo Portugal. A bem da verdade milhares de cabeças pensam e agem melhor do que nunca, mesmo quando sob a égide do capitalismo. Com todos os seus defeitos, com algumas capacidades, méritos e competências administrativas ele deve contar para ser um tiquinho bem sucedido. Pois bem, sob a égide do bolchevismo, todas estas tarefas, normalmente exercidas e dirigidas por um aluvião de pessoas, passam a ser dirigidas por um ou meia dúzia, e diante disto o malogro é absolutamente certo, e as fomes, como o Holodomor que assolou a Ucrânia ou a grande fome que assolou o Cambodja sob Paul Pot... Aos maquiavélicos só restará negar os fatos e mentir, vitimizando-se e apelando ao conspiracionismo. E ele o fazem...

Fazem suas cagadas e depois sequer tem coragem suficiente para assumi-las!

Agora como se chama essa absorção total da iniciativa privada (o que diferente dos meios de produção e sua posse) e mesmo do comércio por parte do poder público? CAPITALISMO DE ESTADO!!! (Werner Sombart) O qual passa a gerenciar atividades econômicas que não são essencialmente alteradas. E salários continuam sendo pagos, pelo estado todo poderoso. E se nas condições do liberalismo crasso, como na Inglaterra anterior a 1900, não se pode negociar com o patrão, tampouco no estado bolchevique se pode negociar com o deus estado e sequer interromper a produção por meio de grevas, a qual em tais condições passa a ser encarada como uma atividade política destinada a sabotar a revolução...  Acenando com a redenção dos trabalhadores e até com mais liberdade, o bolchevismo toma o mesmo caminho que a R Francesa, chegando ao comitê de Salvação e por fim a autocracia napoleônica.

Diante da nacionalização e da burocracia a socialização fica a ver navios, pois a posse dos meios de produção passa ao estado ou ao político e não aos trabalhadores ou ao povo.

Alguns anarquistas e comunistas no entanto insistiram quanto a socialização de tais meios - discordando assim dos bolchevistas/leninistas. A bem da verdade, por questão de tática, o próprio Lênin, concederá autonomia aos soviets, iniciando e promovendo a socialização efetiva. Até consolidar sua dominação. ocasião em que os soviets foram dissolvidos e tomado o caminho da estatização burocrática.  Os teóricos e militantes acima citados acreditavam que o melhor caminho era entregar cada fábrica ou indústria a administração direta dos trabalhadores, excluindo assim qualquer ingerência por parte do macro ou micro estado, dos consumidores ou da sociedade. De modo que a produção seria determinada por eles e não coordenada por qualquer órgão comunitário de caráter externo, do que resultaria certamente uma certa confusão. Além disto, tais homens acreditavam que o consumidor seria beneficiado pela concorrência em termos de oferta e procura, da qual resultariam preços acessíveis... A posse individual os meios de produção cessaria, mas não os termos da concorrência e teríamos um socialismo de mercado ou um mercado socializado, aqui a proposta parece ser já boa, mas implica certas dificuldades.

A primeira diz respeito a demanda social e a produção. Pois de alguma forma a produção deve ser pensada em termos de demanda social, o que exige uma coordenação administrativa. É apenas um aspecto do problema, pois o outro, bem mais grave, seria a possibilidade de que cada setor ou cada fábrica, tendo em vista concorrer com os demais produzisse mais do quanto fosse absorvido pela demanda, do que resultaria uma 'crise'... Levantei apenas dois dos problemas relativos a autonomia absoluta das fábricas controladas pelos trabalhadores num contexto de livre mercado. Diante deles a solução aventada por Jaures e Bauer me parece bem mais sofisticada.

Pois eles entendem socialização dos meios de produção, da indústria ou das fábricas não como simples posse direta pelos trabalhadores e consequente partilha dos lucros auferidos, mas como posse dos meios de produção ou das fábricas pela sociedade como um todo, do que resultaria um controle misto, a co participação.

Assim, segundo o modelo de co gestão germânico, teríamos um conselho fabril de que participariam não apenas os trabalhadores, mas os técnicos da fábrica, representantes das comunidades local e nacional e representantes dos consumidores. Cada comuna ou região possuiria macros conselhos compostos por representantes de cada setor correspondente a cada fábrica, os quais poderiam ser agrupados por setor. A mesma organização, representativa, seria reproduzida na esfera nacional. Do que resultaria não apenas uma verdadeira socialização dos meios de produção mas uma democratização da atividade econômica análoga a que aconteceu no plano político. Os técnicos seriam remunerados tal e qual os operários e os representantes do P P pelo P Público. Apenas os representantes dos consumidores tomariam parte em tais conselhos por conta própria, visando seus interesses.
Claro que em termos de consumo demandaria uma participação ainda maior dos cidadãos e portanto um impulso educativo.
Uma tal solução nos permitiria fugir aos extremos do capitalismo de mercado ou de um simples socialismo de mercado embora este último modelo possa servir como meio para chegarmos ao modelo acima, numa perspectiva evolutiva, por meio do acúmulo de reformas. Mormente quanto partíssemos da Revolução - nos termos de Rosa Luxemburgo - ou da tomada do poder - nos termos de um Leon Blum - a aprovação de tais reformas não implicaria dificuldade alguma. Seria sempre algo exequível em termos administrativos caso partíssemos de Kautsky, Bernstein, Rosa ou Blum; a solução elaborada por Jaures e Bauer seria sempre viável em quaisquer situações.


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terça-feira, 17 de julho de 2018

A dupla tradição do comunismo - Sua gênese e desenvolvimento

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Conforme dissemos num artigo anterior, o Comunismo se nos apresenta, face ao anarquismo - particularmente face ao anarquismo proudhoniano, mas também face ao bakuninismo (Kropotkin foi quem pela primeira vez tento sistematiza-lo racionalmente polindo as 'arestas') - como um sistema bem mais simples, orgânico e coeso. Conhecendo certa coerência mesmo quando pelo cisma divide-se em correntes rivais. Cada uma delas parte de um princípio oposto presente na gênese da ideologia e desenvolvido até o fim. No anarquismo percebemos inúmeras ideias opostas e contraditórias sobrepostas como que flutuando. Além de esta cindido em duas tradições básicas: Ocidental e Oriental ou russa, o anarquismo encontra-se cindido em torno de inúmeras questões, inclusive práticas e suas correntes assemelham-se as seitas protestantes.

O marxismo, grosso modo, conhecerá apenas duas variedades: A um lado a Social democracia, seja a crítica ou prudente, de Engels, Bebel e Rosa; a moderada de Kautsky, Adler, Bauer, Gramsci, etc ou a radical de Bernstein e por ext dos fabianistas ingleses... O nível a que tais críticos aderem ao insercionismo pode variar quanto o grau, mas não quando a essência do conceito. A outro teremos apenas o jacobinismo radical, demolidor e iconoclástico de Lênin, Trotsky e turma. Os mencheviques de Martov e Axelrod inclusive, tendiam a solução social democrata...

Ainda hoje o marxismo achasse cindido entre comunistas ou leninista a um lado e sociais democratas, 'revisionistas', gradualistas, 'heterodoxos' ou reformistas a outro. E aqueles que arrogantemente revindicam para si o título de 'Ortodoxos' ou fiéis, apegando-se a um aspecto do pensamento de Marx como pronto, acabado e imutável - quando jamais deixou de ser repensado ou revisto pelo próprio Marx - não tem deixado de fazer suas mãos pesarem sobre aqueles que encaram como heréticos, mesmo quando hipocritamente criticam a Igreja Católica.

Importa saber que esta situação característica do marxismo é insuperável ou insolúvel.

Mas por que?

Porque uma e outra corrente partem de dois princípios antitéticos presentes na gênese do pensamento marxista. Quiçá o jovem Marx até tenha pensado em concilia-los, mas só podia falhar, como de fato falhou.

Agora que elementos ou princípios contraditórios Marx buscou unir e qual a gênese de cada um deles?

A um lado temos um ideal de Revolução jacobinista expresso pelo conceito de conjuração levado a cabo por uma elite minoritária. Este ideal foi tomado por Blanqui ao babovismo e transmitido ao jovem Marx, que incorporou-o ao primitivo conceito de Revolução, anterior a 1848. É a ele que se refere Engels no prefácio de 1895 e Bernstein em seu estudo a respeito das fontes ideológicas do marxismo.

Este ideal de Revolução implica admitir que um grupo de heróis ou de homens superiores; um 'quadro' enfim, pode mudar por si só o curso da História, o que nos faz lembrar a noção de herói em Carlyle ou mesmo em Sorel. Implica saber que nem Carlyle, nem Sorel e finalmente nem mesmo Babeuf eram ateus ou mesmo materialistas. Daí terem enfatizado ou salientado o potencial da ação humana, mesmo na esfera individual. Eles certamente acreditavam que a História podia ser adiantada e ignoravam a noção de processo histórico e condicionamento material. Blanqui, que a ser ateu e materialista assimilou o pensamento insurrecionista de Babeuf, era, tal e qual Bakunin, um homem simples ou intelectualmente vulgar. Não podia perceber a contradição entre o método recomendado por Babeuf e as decorrências de seu próprio modelo de pensamento; tampouco o jovem Marx foi capaz de percebe-lo porquanto guiado pelo entusiasmo.

Marx no entanto fora bem mais atilado que Blanqui, no sentido de deixar-se conquistar por um materialismo consciente, que chegou a ser chamado materialismo dialético, por conformar-se com a dinâmica estrutural do pensamento hegeliano. Esse materialismo levou-o a formular o conceito de infraestrutura e de superestrutura e a consagrar o pensamento economicista.

Curiosamente os etapistas, gradualistas e sociais democratas todos apegaram-se a este conceito de materialismo economicista, ulteriormente desenvolvido pelo próprio Marx. Segundo este modelo de pensamento ou esquema o capitalismo carregaria em si o germe das contradições que plenamente desenvolvidas - em sua maturidade - levariam-no inevitavelmente ao colapso. O pensamento clássico de K Marx só poderia ser, como foi, radicalmente determinista. O Capitalismo transporta em seu seio germes de morte... Quando chegar a seu ápice declinará e entrará numa crise da qual jamais poderá sair. O partido deve treinar o proletariado para que seja capaz de detectar o momento em que este processo atingir seu 'clímax' - Só então o proletariado poderá exercer ou cumprir seu papel que é aproveitar-se da oportunidade oferecida pelo processo histórico e assumir a liderança do corpo social. Implica isto caminhar com a História e esperar pela oportunidade dada, que depende do curso do capitalismo... Este desenvolvimento do capitalismo só pode ser apressado pela dinâmica interno do próprio capitalismo, no sentido de atingir sua maturidade e tornar-se vulnerável. TODA E QUALQUER AÇÃO HUMANA QUE PRECEDA ESTA EVOLUÇÃO ECONÔMICA OU MATERIAL É INCONCEBÍVEL OU ABSURDA.

Neste caso como se dará a Revolução babovista ou blanquista?

O velho Marx julgou sabe-lo e poder dize-lo.

Acreditava que no correr da carruagem a proletarização do trabalho eliminaria já os elementos da antiga ordem, já o mundo rural, já as classes médias ou intermediárias. Ao fim do processo todo este universo intermediário cessaria de existir, sendo absorvido, é claro pelo mundo do trabalho. Ao fim do processo, uma capitalismo maduro poderia ser socialmente descrito como uma multidão colossal de proletários face a um diminuto grupo de burgueses monopolistas, estes, naturalmente, a testa da sociedade. Claro que sempre poderia restar um grupo mais ou menos largo que sempre poderia vender-se a burguesia e combater por ela - tal o lupem proletariado. Seja como for Marx chegou a acreditar que apesar dessa possível traição por parte da massa amorfa, alienada e manipulada, o poder cairia como uma maçã madura nas mãos dos trabalhadores. Ele jamais pensou nos termos apocalípticos, catastróficos ou sangrentos da velha Revolução francesa e chegou a crer numa transição/revolução que a não ser pacífica tampouco corresponderia ao 'terror' robespierriano... Tão execrado pela nova elite dominante francesa ou mesmo pela elite dominante inglesa.

Claro que esta visão, por diversos títulos, não se encaixa com a visão anteriormente descrita, em termos de blaquismo/babovismo, legado pela Revolução francesa. Aqui, a ação humana ou individual embrenha-se pelos caminhos do idealismo, podendo por si só mudar os caminhos da História sem contar com agentes condicionantes ou limitantes, ou mesmo exigir uma visão acurada dos tempos, na qual uma elite intelectual busca por sinais. Grosso modo a sanha dos guerreiros e revolucionários não conhece tais elementos condicionantes - como o processo histórico ou a dinâmica interna do capitalismo - presentes no pensamento de Marx e é exatamente esta ignorância a respeito das limitações externas ou dos límites que a torna combativa e invencível no dizer de Sorel.

Assim a corrente marxista mais sofisticada ou determinista, torna-se hermética ou astrológica no dizer de Sorel, na medida em que depende de cálculos externos sobre a realidade feito por um corpo de especialistas. Especialistas que por exigências de caráter racional seriam levados do jacobinismo a social democracia. Por chegarem a crer que ao contrário da conjuração babovista/blanquista esta revolução deveria ser previamente calculada ou preparada nos mínimos detalhes, o que certamente demandaria algum tempo. Por outro lado tempo é que não lhes faltaria, sendo oferecido pela evolução interna do capitalismo, a qual deveriam acompanhar. No entanto o resultado daquela evolução era absolutamente previsível: O colapso do sistema e a oportunidade revolucionária. No campo externo a sociedade capitalista nada poderia ser feito no sentido de 'abreviar os tempos', destarte urgia esperar e enquanto se esperava a política institucional ou melhor a social democracia bem podia fazer as vezes de tática, tendo em vista a futura revolução. Temos aqui um pensamento muito próximo ao de Engels e a respeito do qual nos referimos já em diversas ocasiões. Ainda conta com a Revolução e é crítico, mas por exigência do materialismo - que já se transforma em realismo - faz a revolução recuar ou posterga-a...

Antecipar a Revolução, dirá Engels, é como por o carro a frente dos bois, fazer o jogo da burguesia, ser esmagado e expor-se a ver  a causa do socialismo aniquilada. A revolução ou a ação humana, só poderá ser bem sucedida em seu tempo, quando as condições materiais, oferecidas pelo sistema, mostrarem-se propícias. É a maturação do capitalismo quem nos oferecerá a grande chance - Marx o disse!!!

Diante disto Bebel, Adler e outros, com as bençãos de Engels e antes, com as do velho Marx, podem lançar-se sem temor ao seio da disputa eleitoral e levar os ideais comunistas ao parlamento, beneficiando-se da máquina chamada propaganda. Afinal elemento algum, fosse de ordem política ou não, seria capaz de atalhar a dinâmica do capitalismo e, consequentemente de impedir o estouro da Revolução. A revolução estava determinada pelo processo histórico - em termos de produção econômica - e nada seria capaz de alterar esta realidade. De modo que a ação parlamentar era muito bem vinda.

Perceba amigo leitor que o rígido materialismo mecanicista de Marx conduziu seus seguidores a via eleitoral ou a inserção.

Por outro lado, quando Bernstein, no final do século XIX, avançou até praticamente negar o colapso deduzido ao materialismo crasso e a necessidade de uma revolução, afirmando a ação parlamentar como algo definitivo e quando até mesmo os centristas chegaram a identificar a 'tomada' do parlamento pelos socialistas com a ditadura do proletariado, a ala jacobina - que sempre se mantivera calada por respeito a Marx e a Engels - não pode deixar de retomar o ideal revolucionário, inda que não pudesse repudiar ao materialismo gradualista ou denunciar Engels como revisionista. Diante disto levantaram as mãos contra Kautsky, o testamenteiro de Engels, e contra diversos outros pioneiros, fazendo alarde em torno das mutilações de Liebknecht, agora apresentadas como falsificações e ignorando ou fingindo ignorar a existência de muitas outras fontes e documentos quais sejam as cartas de Engels e de Eleanor Marx. De modo geral o conjunto de tais documentos revelam-nos um Engels que apesar de seus precauções e criticidade abraçou não apenas a via parlamentar mas a violência defensiva, repudiando o golpismo peculiar as correntes blanquista e bakuninista. Claro que os comunistas jacobinos não podiam admitir nada disto, pelo simples fato de não acreditar na via institucional ou parlamentar. Assim, desviando os olhos de Engels e de seus últimos escritos, eles passaram a classificar todos os sociais democratas como renegados e a arvorar o revolucionismo como única solução não apenas viável mas possível. Ao menos da Rússia a coisa tomou este caminho, tomando o jacobinismo o nome de leninismo e hipostasiando-se ao comunismo soviético ou marxismo ortodoxo.

Claro que e Lênin sempre pôde apelas ao jovem Marx blanquista/babovista com o objetivo de santificar seus ideais. O que ele não poderia ter feito é ignorar o conjunto do pensamento marxista e seu desenvolvimento ulterior. O que sobretudo não poderia ter feito é ignorar os ulteriores pronunciamentos de Engels, atribuindo a Kaustky uma ruptura que jamais havia acontecido. Ao apresentar os sociais democratas como inovadores e apóstatas Lênin mostrou-se absolutamente desonesto. O único renegado ou traidor aqui foi Lênin, embora a bem da verdade, devamos admitir que ele apegou-se a um princípio individualista, idealista e rival, que num determinado momento Marx e Engels tiveram de sacrificar ou ignorar - A possibilidade de indivíduos ou grupos, por meio de golpes ou conjurações, antecipassem as condições dadas pela História - Fazendo com que esta avançasse. Para tanto teve Lênin de fazer certos empréstimos ao teórico anarquista G Sorel - outro implacável adversário do determinismo economicista - pensador que mais tarde veio a descrever, hipocritamente, como embaralhado ou confuso.

Paradoxalmente Engels não desejou destruir por completo a esperança na futura Revolução, mas apenas posterga-la. Grosso modo podemos dizer que ele assumiu uma posição social democrática 'crítica', ficando como que no meio do caminho, entre Lênin e Bernstein. Por isso Bernstein como Kautsky, pode revindicar para si o título de sucessor, caso admitamos que Marx e Engels possam ser superados ou revistos; como se supõem de seres humanos e falíveis, inda que geniais e bem intencionados. Na medida em que o pensamento de Marx conheceu uma evolução e do Engels mais ainda, por que supor que este padrão de pensamento não pudesse continuar a evoluir após a morte deles convertendo-se numa Bíblia ou num Corão?

Importa saber que para mater viva a esperança de uma revolução final, Engels teve de reler, reinterpretar ou revisar o materialismo mecanicista e economicista de Marx, renunciando ao que chamamos determinismo, e postulando o que chamamos de condicionamento ou possibilismo. Vale a pena reproduzir suas belas palavras:

"Devemos provar a nossos adversários o princípio essencial - o lado econômico - que eles repudiavam; e então nem sempre tinhamos tempo, facilidade ou ocasião PARA POR EM RELEVO OS OUTROS FATORES QUE EXERCEM AÇÃO RECIPROCA... A evolução política, jurídica, filosófica, religiosa, literária, artística... dependem certamente da evolução econômica. NO ENTANTO TODAS SE INFLUEM MUTUAMENTE E ATUAM, A SEU TEMPO, SOBRE A BASE ECONÔMICA." Carta de 1890 publicada no Sozialisticher akademiker em Outubro de 1895Admitido o simples condicionamento material, Engels, tornava mais aceitável e reforçava ainda mais a doutrina revolucionária da interação, partir da qual os futuros comunistas puderam deduzir que caso a oportunidade oferecida pelo processo histórico não fosse 'trabalhada' ou aproveitada pelo elemento humano, a chance de implementar com sucesso a Revolução ficaria abortada - Daí a insistência cada vez maior no sentido do partido ou da propaganda preparar uma elite de homens no sentido de aproveitarem a oportnunidade histórica.


Daí Rosa Luxemburgo, cogitar que a oportunidade revolucionária não aproveitada poderia descambar em algo totalmente distinto do capitalismo ou do comunismo, o que ela define como barbarismo. Prenúncio do Nazismo??? Quem sabe... Foi o quanto bastou para Lênin e seus sequazes assinalarem-na como heterodoxa, tal e qual Kautsky, Bernstein, Plekhanov, Axelrod, Martov, Gramsci, etc, etc, etc Curiosamente, o citado G Sorel, que nutria séria dúvidas quando ao materialismo mecanicista, também nutria certo temor face a um futuro sombrio e barbaresco...


Importa saber, e esta é nossa conclusão, que o marxismo nascente comportava dois princípios antitéticos, contraditórios ou opostos - Um consciente e outro não. E que no decorrer do tempo Marx e Engels foram apegando-se cada vez mais ao princípio consciente, que conduziria fatalmente a social democracia, até que este foi ligeiramente corrigido por Engels, tendo em vista a elaboração de uma ideologia mais equilibrada, do que resultou uma espécie de social democracia crítica, em que o ideal da Revolução foi protelado para um futuro incerto, como após a revolução russa o fim da ditadura do proletariado seria sucessivamente protelado para um futuro incerto, até atingir setenta anos, e por a luz do dia a farsa ou o equívoco da transição. Claro que, em tais condições, exceto em caso de golpe de estado (Situação em que seria exercida a violência defensiva - Otto Bauer, 1926) os socialistas poderiam conformar-se indefinidamente com a política parlamentar.


Lênin teve de reassumir o ideal do jacobinismo - sem todavia identifica-lo com o idealismo - e de negar toda evolução ulterior, rompendo com ela, e negando, ao menos o pensamento mais elaborado e desenvolvido de Engels. Claro que tudo isto supõem uma traição, inda de inconsciente. Os princípios opostos no entanto, já ali estavam, envenenando o pensamento de Marx. Tudo quando podemos dizer aqui é que Marx era jovem e que o pensamento de cada personagem intelectual deve ser analisado numa perspectiva cronológica e evolutiva.





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