Mostrando postagens com marcador Marcas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Marcas. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

O fetiche das marcas

Dizem alguns que as palavras teem poder.

Creio que tenham mesmo sobretudo quando belas.

Multidões deixam-se arrebatar facilmente pela beleza dos discursos.

Hitler discursava muito bem, abusando dos gestos e da teatralidade.

O Pe Antonio Vieira encantava multidões de homens e mulheres tal e qual o flautista de Hamelin encantava ratazanas...

Sobretudo quando associada a uma argumentação racional e as ações a palavra torna-se poderosa.

Outro no entanto é o sentir do vulgo.

O qual ainda teima a encarar certas palavras como mágicas.

A semelhança do abracadabra ou do põem-te mesa!

Cuidam que uma ou algumas palavras sejam capazes de alterar a realidade.

Que pensamento excepcionalmente tenha a capacidade para atuar além dos sentidos e de alterar alguns elementos isolados da realidade, não ouso nega-lo.

Agora que uma simples frase ou palavra tenha o condão de acrescentar algo a um objeto, discordo e nego.

Não é repetindo Glória, amém ou aleluia que transformaremos papel em pedra ou madeira em ferro...

Longe de mim negar a finalidade ética da prece enquanto modo ou maneira de entrar em contato com o sagrado e alimentar o bem e a virtude.

Creio piamente que a fé imaculada é capaz de remover as montanhas do ódio, da maldade, dos preconceitos que entulham os corações da maior parte dos homens, levando-os a amar, compreender, perdoar, etc

Para quebrar as montanhas 'reais' ou abrir tuneis não usamos a fé, do contrário a invenção da pólvora teria sido inutil.

Para restabelecer a saúde das pessoas recorremos a médicos, tratamentos, aparelhos, medicamentos, dietas, etc e não a orações. Do contrário o governo, deixando de contratar padres, pastores, rezadores, taumaturgos, etc no lugar de médicos estaria malbaratando nosso dinheiro!

Para que manter um hospital das clínicas de existe de fato um Davi Miranda???

Para que gastar tanto dinheiro com laboratórios, experiências, pesquisas, etc se há um  ministério de cura???

Na verdade, por mais que seja dolorido a certos ouvidos ouvi-lo, o que temos é auto sugestão, hipnose, transe... e consequentemente a supressão provisória dos sintomas ou a cura das enfermidades de fundo PSICO somáticas, i é causadas por algum trauma ou bloqueio emocional.

Davi Miranda no seu santuário possuía milhares de cadeiras de rodas ou óculos; isto só prova uma coisa: que conseguiu impactar emocionalmente aquelas pessoas e curar-lhes a mente por meio de seus rituais, coisa que qualquer psicólogo poderia fazer sem apelar a Deus ou a Jesus obtendo os mesmos resultados.

Doenças reais ou físicas diagnosticadas e atestadas por laudos foi que não curou.

Habitualmente alguns sintomas são eliminados, dando ao enfermo a impressão (falsa) de que esta curado. Diante disto ele deixa de tomar os medicamentos ou tratar-se. Passadas algumas semanas cessa o efeito da sugestão, o estado de saúde do enfermo agrava-se e ele vem a óbito.... os idiotas no entanto continuam declarando que aquela pessoa, já morta, fora curada!

No entanto as pessoas querem crer que são magicamente curadas, pois querem ter esperança.

Não conseguem aceitar que passam mesmo a luz das palavras de Cristo!

Falta-lhes fé no mundo vindouro e por isso desejam perpetuar a existência neste plano físico.

E apegam-se de tal modo a ilusão dos milagres e das falsas curas que nada é capaz de demove-las.

Assim como Daisy Osborn morrem esvaindo em sangue jurando que estão curadas!

Abandonam a vida como qualquer ateu ou materialista... juram no entanto que foram agraciadas e que sobreviverão aquela 'crise'...

Tal o apego que nutrem pela vida mortal.

Não, elas não compreenderam a mensagem central do Evangelho e via de regra de todas as religiões e crenças: que esta nossa existência no plano material não passa duma peregrinação ou dum estádio provisório do ser.

Não somos daqui... não pertencemos a este lugar.

Apenas estamos a caminho... passamos por uma fase.

Como a pupa que se converte em mariposa.

A luz desta mensagem a morte, mesmo sendo feia, adquiri um significado positivo.

Para os que partem fiéis a lei do amor a morte não passa duma ascensão.

Passam para o outro lado da ponte.

Onde como declara Sócrates haverão de reencontrar seus queridos e de viver em paz.

Logo não a necessidade alguma de prolongar definitivamente a existência por meio de recursos extravagantes que fujam a natureza.

É absolutamente normal desejar ficar com os queridos que aqui estão, se para tanto contarmos com o adjutório da natureza, digo da medicina.

No entanto por que Deus conhecendo muito bem os limites desta fase, haveria de prolonga-la burlando as leis naturais que ele mesmo estabeleceu?

Seria absurdo.

Por isso mesmo que o Evangelho bem compreendido não acena com tais promessas, dignas apenas dos materialistas.

Assim quando esgotarem-se os recursos naturais o bom Católico deve estar preparado para ir ao encontro de seu Senhor animando-se de viva esperança.

Que os carnais paguem aos pastores por falsas esperanças e falsas curas alimentando o charlatanismo e aumentando seus débitos espirituais.

Temos a esperança de que até o corpo que adormece provisoriamente com o Cristo será um dia restaurado. Quanto ao espírito vivo que de Deus emanam, este jamais pode perecer...

As massas no entanto tombam na superstição do fetichismo e atribuem as palavras dos pastores poderes mágicos.

Por afinidade eletiva no entanto mesmo os irreligiosos costumam tombar miseravelmente no mesmo erro.

Passando o fetichismo por um processo de secularização e sendo transferido para os objetos ou coisas materiais.

Perde-se a fé, progride-se de alguma maneira, no entanto permanece-se atrelado a uma fetichismo naturalista, em que o objeto da cura sai de cena, mas a atmosfera de misticismo sobrevive.

Neste momento a religião dos milagres converte-se no misticismo da palavra ou melhor da marca.

Imaginemos dois copos de água, um abençoado pelo pastor e outro não, ambos os copos são bebidos, um pelo fanático outro pelo homem comum, qual o resultado disto???

Caso ambos sofram de câncer e tomem os mesmos medicamentos a doença, salvo a peculiaridade de cada organismo, seguira o mesmo curso. Demonstrando que entre a água benta e a não benta não ha diferença alguma, pois a fórmula e os componentes da água permanecem sendo os mesmos e, com ou sem benção ela limita-se a matar a sede daquele que a ingere.

Assim as palavras vãs e supersticiosas do pastor de fato nada acrescentam aquela água, e menos ainda a um medicamento que atua por si mesmo.

O enfermo todavia pensa e crê que aquelas palavras ditas pelo pastor acrescentam algo aquele copo dágua tornando-o especial!

Segundo o padrão mágico fetichista ele julga que as palavras são perfeitamente capazes de alterar a natureza das coisas!

Tomemos agora o homem irreligioso, indiferente, deísta, agnóstico, materialista ou ateu, mas enfeitiçado pelo mercado ou melhor pela propaganda.

Ouve dizer que a Coca Cola seja melhor do que Pepsi porque é Coca, ainda que a fórmula seja a mesma!

E recusa-se até mesmo a provar a Pepsi porque lhe disseram que não é Coca!

Uma questão de palavras!

Capaz de bloquear a verificação.

Não muda a realidade da bebida.

Atua no entanto na mente do consumidor, predispondo-a a considerar a dita bebida superior a todas as outras apenas porque porta determinado nome.

Consideremos agora uma camisa.

Temos o mesmo tecido e o mesmo corte.

Aqui feita por uma mãe prendada, que sabe costurar... Ali oferecida pela fábrica Tods, e com o emblema ali gravado.

Ambas a peças são absolutamente iguais! No entanto a maior parte dos jovens recusar-se-ia terminantemente a usar a peça de roupa feita com carinho pela própria mãe; optando por aquela que tem um emblema com o nome fixado, e jurando de pés juntos que aquela peça é superior ou melhor!

E por que?

Porque trás um nome!

Mas o um nome acrescenta algo a coisas ou objetos exatamente iguais?

Nada, absolutamente nada.

De fato uma marca determinada pode até ser melhor do que as demais. Isto no entanto não depende da marca mas da qualidade do produto, o qual alias permanece sendo o mesmo caso a marca ou o emblema seja removido. Então para sabermos qual peça de roupa é mais confortável ou resistente existe apenas um critério: prova-las todas!

Pois pode ser e sempre pode ser, que a marca alardeada seja inferior a uma outra que não goza de tanto prestígio e portanto enganosa.

Sempre poderemos ser enganados por palavras escritas ou faladas.

A única possibilidade de aquilatarmos a verdade é por meio da experiência ou do uso.

O fetiche da marca no entanto é capaz de tornar as pessoas resistentes a experiência.

Elas sempre poderão alegar que confiam na marca X, mesmo que as demais peças ou produtos sejam similares.

Ficam condicionadas a comprar apenas Maizena e não qualquer outro tipo de amido de milho... a adquirir Bom bril e não qualquer outro tipo de palha de aço. Como se o nome daquele produto adquiri-se poder ou força por si mesmo...

Poderia até adquirir idoneidade moral, numa sociedade em que a propaganda fosse feita de boca e boca e não negociada. Nós no entanto fazemos parte de uma sociedade em que a propaganda é paga ou comprada, e, logo; numa sociedade em que o anunciante declara o que quer, jurando por todos os deuses que seu produto é superior a todos os outros.

Fica evidente que numa sociedade cuja propaganda seja paga as pessoas deveriam exercer sua criticidade testando os produtos ou melhor dizendo experimentando.

Elas no entanto transferem sua fé do livro ou do pastor para o mercado ou a propaganda paga, permanecendo crédulas e pagando por nomes que nada adicionam aos objetos.

Antes compravam milagres, agora compram cigarros, latas de cerveja ou automoveis; mas continuam acreditando que a marca ou o nome acrescenta algo ao produto. Ou crendo numa propaganda que limita-se a palavras...

Antes o nome era Jesus e as palavras glória ou aleluia, agora Tods, Quick silver, adidas, etc o princípio é exatamente o mesmo.

A ideia de que as palavras adicionam algo a coisa em si.

Quando nada adicionam.

Claro que outras tantas pessoas adquirem as tais roupas ou coisas de marca como sinal de posição, superioridade ou prestígio. Para destacarem-se das demais, que não podem arcar com o custo da tal marca ou compra-la.

Aqui a roupa ou o calçado deixou de cumprir com sua função natural apontada por Sócrates (nas Memorabilia de Xenofonte) que é a de proteger do frio, do calor, da chuva ou das asperezas e insalubridade do terreno, para assumir uma função artificial que é separar os elementos da sociedade segundo o critério externo da aparência.

É esta dinâmica que leva-nos a priorizar a aparência a realidade, o traje a pessoa, o ter ao ser; corrompendo nossa visão de mundo.

Não quero dizer que devamos descuidar da aparência ou do asseio e do conforto, não é isto. O que quero dizer é que acima de tudo isto devemos considerar a razão e a livre vontade como apanágio supremo e específico dos seres humanos. Traje é importante mas vem em segundo plano, devendo como já foi dito corresponder a uma função natural do que a critérios de exceção.

Neste sentido podemos classificar como anti humano etiquetar as pessoas, rotula-las, julga-las tomando por base suas roupas 'sem marca'. Aqui seria julgar a casca pelo miolo...

A roupa de fato precisa estar - salvo compreensíveis exceções determinadas pelas circunstâncias - limpa e bem cuidada. Mas nem por isso precisa ser cara, luxuosa e de marca como Sócrates fez reparar ao sofista Antifonte.

Priorizar o traje ou o que é pior uma marca ou palavra ao invés do ser ou da coisa em si é corresponder aos interesses financeiros do mercado sacrificando parte de nossa natureza como o espírito investigativo.

Tomada em si mesma a cultura da marca deve ser encarada como um fetiche que só trás proveito aquele que a vende ou anuncia. Uma vez que poderíamos pagar um preço bem menor por um produto melhor de marca não famosa... ou mesmo sem marca (Uma vez que a qualidade se sustenta por si só, sem a marca!). Pagamos assim por um nome ou por uma palavra, a qual como vimos nada acrescenta ao ser.

E nossa mente ainda que irreligiosa permanece presa a um tipo de misticismo irracional.

Salva-mo-nos do pastor para cair nas mãos do empresário ou do marketeiro...

Então ainda temos de percorrer um longo e penoso caminho!














A sexta monarquia... ou a afirmação das monarquias tupiniquins

Depusemos D pedro II.

Novos tempos.

Era necessário arquitetar uma nova estrutura mais evoluída, algo semelhante a República ou democracia.

Incoerentes não começamos por criar uma cultura democrática.

Quero dizer que não realizamos um plebiscito consultando os interessados i é o povo, a sociedade, os brasileiros.... indagando se preferiam a monarquia ou um novo regime.

Penso que seria contra producente. A monarquia venceria.

Por isso fizemos um golpe e impusemos anti democraticamente a forma republicana.

Sobrepusemos uma forma republicana a uma cultura ou imaginário monárquicos arraigados por uma tradição secular.

Do que resultaram diversos golpes e reversões ditatoriais; sempre tendo em vista 'salvar' a democracia....

Chega a ser uma história rocambolesca a destes golpes de 91, 30, 64...

Disse que a monarquia sairia vencedora num plebiscito e por diversas razões.

Uma delas por sinal psicológica e relacionada até certo ponto com o sucesso deste regime proclamado velho, antigo, ultrapassado...

Não eu não sou monarquista, pelo contrário, sou policrata, ou seja, adepto da democracia direta.

No entanto como dialogo com a cultura numa perspectiva realista busco compreender as razões da monarquia.

E fazer justiça ao velho Pedro II, o Imperador democrata...

Justiça é algo que se faz a qualquer um independente da ideologia, da crença, do partido, da concepção social, etc

Torne-mos porém as razões da monarquia ou melhor a razão, porque contentar-me-ei com assinalar uma apenas.

Parte das pessoas tendem a encarar os governantes, mesmo os representantes da democracia formal, como cuidadores, enfim como substitutos de seus pais...

Ninguém melhor do que o rei ou a rainha com sua presença constante encarna a imagem do pai ou da mãe.

Para alguns esta relação parece ser reconfortante.

Pois o pai é alguém que não apenas cuida mas em certo sentido livra-nos da responsabilidade e protege-nos da liberdade na medida em que decide as coisas por nós.

Sempre que errar poderemos culpa-lo.

Jamais nos tornando culpados.

Por incrível que pareça certo número de pessoas aspira porque outros tomem decisões no lugar delas. Não estão preparadas para optar, decidir, julgar, determinar, etc

Então consideram vantajoso ser tuteladas.

Sentem-se protegidas inclusive.

Trata-se com certeza de pessoas imaturas, que não cresceram interiormente, que não desenvolveram suas capacidades.

Pessoas inseguras desejam que a existência de seus pais prolongue-se para sempre.

De modo que continuem a decidir por elas.

Exceto no caso de se casarem com um cônjuge autoritário que reproduza a relação nos mesmos termos de dependência.

Quando não há alguém que controle e decida apegam-se a imagem genérica do pai, assim a do papa, assim a do rei...

O qual passa a ser identificado com o Pai dos crentes ou com o pai comum da nação...

Nem se pode negar que para algumas mentes demasiado leves esta imagem deste pai comum fortaleça e consolide os laços sociais...

A fantasia cria laços artificiais sem que haja qualquer relação ontológica ou essencial. A função social no entanto é preenchida... e possíveis conflitos inclusive, suavizados, pela presença da imagem paterna no governante.

De minha parte não posso deixar de considerar este tipo de relações apolíticas com decorrências políticas ou de relação política disfarçada como algo bastante primitivo e vulgar.

O homem ou a mulher amadurecidos devem assumir o ônus da liberdade e da responsabilidade fazendo suas opções tanto na esfera da vida privada como na esfera da vida pública, neste caso exercendo a cidadania e objetivando administração do bem comum.

Devem ser formados para a cidadania desde pequeninos na perspectiva da cultura. Implica que os pais criem seus filhos para o mundo ou para a vida, para os outros, para a autonomia... Os pais no entanto tem dificuldade para compreender esta dimensão democrática da educação e visam, ao menos parte deles, manter os laços de dependência e sob a forma mais estrita.

E criam cidadãos dependentes... excelentes para as monarquias asiáticas ou para as necessidades artificiais do mercado, mas inaptos para a gestão democrática da comunidade.

Morto o pai sobrevive na figura do rei...

A sobreposição arbitrária de uma forma republicana sobre este tipo de cultura mostra-se sempre inócua.

De modo que em qualquer situação de crise ou perigo o 'ditador' ou déspota é acolhido entusiasticamente como salvador da pátria.

Não as pessoas não aspiram por ser autoras de sua redenção.

O neo Cristianismo - com a ideia monergista de que deus salva o homem sem o homem e de que o homem nada tem a fazer- a seu tempo, reforça ainda mais esta concepção comodista segundo a qual devemos esperar uma salvação a ser dada por outro sem que nada tenhamos a fazer...

E perpetua esta cultura de pais salvadores...

Nem somos capazes de encarar a nós mesmos como agentes da redenção comum.

Tudo nos leva a repousar nos braços da monarquia ou da ditadura como em berço esplêndido.

Evidência de que a cultura permanece e prevalece temos a mão cheia...

Servindo inclusive a propósitos ideológicos.

Por menos que aprecie a monarquia devo reconhecer que tal rei tal povo.

O povo tende a assimilar os costumes de seu modelo, o rei.

Eis porque preferiria um Pedro II, o erudito barbado que frequentava as sessões do I H G B, a um rei imbecil, estúpido ou degenerado.

Se há que se ter rei e nobres que sejam probos, virtuosos, honestos... enfim dignos de imitação pelos méritos do espírito cultivado e não uns porcos de Circe, como diria Sócrates.

Em tais esquemas hierárquicos a virtude tende a ser assimilada verticalmente.

Melhor que os reis e príncipes sejam temperantes, operosos, justos, bondosos, pacíficos, instruídos, amigos da ciência...

O velho Pedro II foi mais ou menos tudo isto. Foi melhor que muito presidente, a exceção talvez de Getúlio, Juscelino, Jango e Lula. FHC não dá a unha do dedo mindinho do grande monarca bragantino...

Eis porque a cultura reteve certo saudosismo da monarquia qual fosse nossa Belle Époche tupiniquim...

Ficou o costume de designar pela alcunha de rei aquele que na Sociedade destacava-se dos demais; assim rei da voz para o melhor cantor e rei do gado para o melhor pecuarista...

Disto apropriaram-se os meios de comunicação de massas, especialmente a TV globo com o intuito de a um tempo resgatar e fortalecer este imaginário decadente e a outro com o intuito de influenciar negativamente o povo, tornando-o mais bronco, deseducado, alienado e rude.

Forjou pois a imprensa falsas monarquias de caráter plebeu e profano colocando-as a serviço de falsos valores.

Eis porque ouvimos constantemente as expressões: 'rainha dos baixinhos', 'rei da melodia', 'rei do futebol'... designando estes falsos monarcas da vulgaridade.

Particularmente nada tenho contra a sra Maria da Graça Xuxa Menegel, absolutamente nada. Muito pelo contrário até chego a admira-la por sabe-la solidária face ao sofrimento e a dor alheia e mantenedora de diversas instituições benemerentes. Além de sabe-la perseguida e caluniada pelos fanáticos religiosos.

Nem por isso aprecio-lhe como cantora ou dançarina; embora algumas de suas músicas tenham certo encanto e sejam úteis para entreter as crianças.

Nem por isso posso encara-la como uma espécie de rainha das crianças ou dos pequeninos.

Implicaria reconhecer que todos os pequeninos teem os mesmos gostos e que todos devem apreciar o tipo de ritmo cultivado por ela...

Considero esta promoção de um culto pessoal e acrítico na fase infantil da existência como algo perigoso senão nocivo. O mito fica enraizado e o 'ídolo' passa a ser encarado como uma espécie de super homem ou como uma espécie de criatura sobre humana... podendo ser transferido para o plano político ou religioso muito facilmente e com consequência catastróficas.

Não são súditos ou bobos de corte que devemos formar mas seres humanos criativos, autonomos e com iniciativa própria.

Triste ver como nossas meninas e garotas vão ficando padronizadas na medida em que imitam os gestos e expressões da tal rainha...

Compreendo até que seja uma fase. Coisa a ser superada e suplantada não alimentada.

No entanto há coisa muito pior do que a realeza do X...

Tomemos o sr Braga, digo Roberto Carlos. A imprensa ousa proclama-lo como rei da música com que direito? Alguém disse, a imprensa reproduziu e os demais continuaram a repeti-lo como um dogma, em que pese haver vozes muito mais belas e cultivadas do que a sua, como a do falecido Agostinho dos Santos ou a do nosso Mauricy Moura, dentre outros é claro.

No entanto após a TV globo imprimir o rótulo ou a etiqueta, fica o personagem entronizado e já não se pode questionar a realeza artificial e ficticia sem acirrar os ânimos da massa.

Importa questionar a quem aproveita tais títulos.

Quem lucra com eles?

Obviamente que atendem a uma necessidade variegada, a qual não é estranho o Mercado!

Compra-se aquele disco, fita ou DVD porque é do 'rei' e não aquele outro porque é de plebeu.

E não se dá qualquer chance para o plebeu provar que canta melhor ou que seu repertório é mais belo porque o título de rei concedido pela imprensa condiciona a maior parte das pessoas.

É um tipo de canonização profana destinada a eliminar o senso crítico.

Deve-se gostar do 'rei' afinal todos dizem que é o 'rei' e até fica chato discordar!

Cria-se um culto.

Já não é questão de música, mérito, beleza ou valor mas de mística, como aquela que envolve roupas e produtos.

Ser 'rei' coroado pela mídia equivale a ser de marca, trás assim a enganadora mística do nome.

Afinal que é um nome?

Até os monarquistas mais zelosos conviriam que o que faz um rei não é o nome ou o título mas a pessoa ou seja conduta.

Assim o 'título' de rei não é garantia absoluta de qualidade.

Ivan IV o terrível foi rei... como Henrique VIII foi rei...

Midiaticamente falando no entanto ser coroado rei por meio de um pacto é a melhor garantia de sucesso e lucro.

Há no entanto coisa bem pior.

Porque duma maneira ou de outra tanto a citada apresentadora loira como o sr Braga parecem-me cidadãos mais ou menos virtuosos, e nada há que pese muito gravemente sobre suas reputações.

Toquemos agora ao monarca supremo ou imperador midiático, o tal rei do futebol, sr Edson Arantes do Nascimento. Nada temos de pessoal contra ele.

Não o conhecemos. Conhecemos de vista sua mãe Dna Celeste, senhorinha que julgo tão boa quanto minha veneranda mãe.

Como não apreciamos modas ou imposições sociais nem de futebol gostamos.

Nem podemos negar ou julgar o talento deste sr como jogador. Não o pretendemos, não ousamos, não podemos...

Sapateiros não ultrapassamos os sapatos!

Todos sabem no entanto que o Brasil contou com muitos outros futebolistas de valor.

Quando era menino recordo-me de Zico, de Sócrates e outros.

No passado remoto houve um Friedenreich 'el tigre' e mais próximo de nós um Garrincha.

Não entendemos bem o assunto mas julgamos que a escolha do sr Pelé deva ser puramente subjetiva e não objetiva.

Até somos levados a crer que este mito foi construído com finalidade social e política pelo simples fato do sr E A N ser negro.

Afinal sabemos muito bem que após a abolição formal da escravatura proclamou-se a República sem que os negros alforriados tirassem qualquer proveito disto.

Alias parte dos apoiantes do novo regime compunha-se de escravocratas paulistas malquistados com a princesa Isabel e sedentos de vingança. Triste fato, mas real...

Falou-se muito em liberdades mas os negros ficaram ai largados ao deus dará ou a ver navios.

Programa algum foi elaborado tendo em vista sua inserção na boa sociedade brasileira. Oportunidade ou chance alguma lhes foi dada.

Até serem implantadas as 'cotas' para afrodescendentes com grande escândalo por parte das elites brancaronas.

A propósito das políticas afirmativas introduzidas pelo governo dos trabalhistas a partir de 2003 ocorre-me a famosa frase de Jacob Gorender: 'No Brasil, implementar pequenas reformas é ser revolucionário.' devido ao caráter ferozmente conservador de nossa sociedade patriarcal e latifundiária. Caráter que o fundamentalismo religioso emergente veio a fortalecer ainda mais nos últimos anos.

Tornemos porém ao mito do Pelé; jovem negro de origem humilde que fez carreira e tornou-se milionário jogando bola...

Como o negro não havia sido inserido na Sociedade brasileira, encontrando-se discriminado e posto a margem dela, forjou-se um mito, o mito Pelé.

E este mito contém uma mensagem perigosa:

"Qualquer jovem negro ou pardo da periferia pode vencer na vida e tornar-se milionário jogando futebol OU SEJA SEM A NECESSIDADE DE DEDICAR-SE AOS ESTUDOS E INSERIR-SE NO MUNDO ACADÊMIA."

Formação superior, escola, estudo... para os meninos brancos filhos das elites. Ao negro ou pardo ficava a esperança ou a ilusão de tornar-se rico e famoso jogando futebol.

Os resultados desta mensagem subliminar ou deste currículo oculto os professores que atuam na periferia sabem de cor. Parte da clientela masculina, especialmente negra ou parda, preocupa-se apenas com as aulas de educação física, as quais por sinal, resumem-se a partidas de futebol. Quanto as demais categorias de estudos é comum ouvi-los declarar: "Não preciso estudar isto, vou ser jogador de futebol como o Ronaldo ou o Neymar!"que são os meninos de periferia que substituiram o Pelé no imaginário deles.

Não poucos sonham com o ficar facilmente ricos, ir para o exterior e namorar moças brancas ou mesmo loiras, residentes em 'locais melhores'....

Trata-se de algo muito triste mas o educador que trabalha com a clientela mais humilde, via de regra, não tem foco no vestibular ou na faculdade. Já exauridos pelo trabalho não cuidam fatigar-se e sacrificar-se ainda mais estudando... afinal puseram em suas cabecinhas de vento que há um modo muito mais facil de vencer na vida: tornando-se craque de futebol como o Pelé...

No entanto quantos e quantos Pelés existem no Brasil???

Em que isto muda uma realidade social partilhada por milhões???

Há única coisa que poderia muda-la seria a democratização do ensino compreendida como acesso livre e igualitário a educação superior.

É isto que os afrodescendentes deveriam cobrar e por isso que deviam mobilizar-se ao invés de manterem seus olhos e os de seus filhos fixados neste ídolo de pés de barro que é o sr Pelé.

Neste sentido a gênese do mito Pelé é essencialmente reacionária.

Por injetar falsas esperanças em nossos jovens de periferia e faze-los abdicarem da única esperança concreta que teem: a instrução, a formação a educação superior.

Agora como as esperanças falsas vão morrendo precocemente ao curso da vida, ao mito do Pelé e a ilusão do futebol sucede muito facilmente a imagem do Fernandinho Beira mar (ou do líder da boca mais próxima) e a ilusão do tráfico com a mesma promessa de acesso facil a riqueza.

Resta-me finalizar deplorando a atitude deste falso monarca que não soube ser pai - logo ser humano - por ter repudiado até o fim a sra Sandra Arantes do Nascimento sua filha ilegítima.

Que tenha tido uma filha bastarda é plenamente compreensível e até comum no cenário cultural brasileiro.

Agora saber ter uma filha em tais condições e renega-la até o fim de seus dias; carne de sua carne e sangue de seu sangue é absolutamente monstruoso. Notório pela falta de ética ou como se dizia antigamente pela imoralidade.

Se este homem é rei, só pode ser rei da imoralidade, da crueldade, da vileza...

O pior no entanto é que as massas guiadas pelos meios de comunicação e pela propaganda, assimilam o comportamento destes falsos monarcas, idolos podres e mitos inconsistentes... e vai degenerando a Sociedade de geração em geração.

Tornando-se mais individualista, mais intemperante, mais insensível, mais rude e mais grosseira.

Em tempos de Pelé D Pedro II não faz mais escola!