Mostrando postagens com marcador Convivência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Convivência. Mostrar todas as postagens

sábado, 4 de fevereiro de 2023

Considerações em torno do que seja Sociedade.




Vez por outra, de quando em quando, costumo ler algum 'manuel', digo, Manual de Sociologia - Também leio os de Filosofia, de Psicologia ou de Pedagogia > E há alguns muito bons (Guido de Rugiero, Jaspers, Thonard... Th Ribot, Wundt... Herbart, Comenius, Backheuser, etc). 

Por hora estou lendo "El hombre y la gente" de Ortega Y Gasset - Revista de Ocidente, Madrid, 1958, juntamente com a edição das Epístolas de Caio Cecílio Segundo, o 'Plínio' Jovem ou Jovem Plínio - Estranha mistura ao que parece... Se bem que não da para confundir o escritor latino com o humanista espanhol. 

Todos sabem que considero Gasset um dos nomes mais representativos em termos de genialidade, juntamente com Freud, Adler, Darwin, Weber, Malthus, Sorel, Decrolly, Hitchcock, Valéry, Horney e Goodall. 

Quem quiser adicione o nome de Marx. Sua crítica foi positiva mas, penso eu, sua construção positiva ou 'solução' de muito pouco valor, e o comunismo se nos parece tão desastrado quanto o capitalismo.

Outros desejarão adicionar um Einstein ou um Fermi, aos quais de fato não faltou genialidade.

No entanto, confessadamente socrático, penso ser patético ou até calamitoso, o caniço pensante explorar o universo - Das partículas elementares as grandes estrelas, passando pelo fundo dos oceanos. - sem conhecer suficientemente a si próprio ou explorar a mente que dita nosso comportamento e tudo comanda.

Sim, em tempos de Ética, de crise e de suicídio comum (Em termos de espécie.) temos que questionar absolutamente tudo, inclusive a prioridade em termos de conhecimento.

Pois controlar a força contida nas partículas sem comandar a si mesmo pode ser algo bastante perigoso.

Tal reflexão foi que me fez por optar pelas Humanidades e não pelas ciências exatas ou pela técnica, tão queridas a ideologia positivistas e tão lucrativas. 

Necessário registra-lo. 

Pois em nossa cultura degenerada quem opta por ganhar menos traduzindo clássicos como as Antiguidades romanas de Dionísio de Halicarnasso ou a História geral de Diodoro Sículo, ao invés de tornar-se físico ou químico, i é partidor de moléculas ou analista de substâncias é tido em conta de inepto, incapaz ou imbecil.

Chega de divagação e prolixidade, como dizia minha saudosa mestra Isamar Alcover do Amaral Loureiro> Sr Domingos, o sr é prolixo e tão prolixo como Rui - Quem me derá ser a metade ou um quarto de um Rui... Mas tornemos a Gasset, nosso Ortega.

Antes porém devo dizer que já havia lido, e há um bom tempo, A unidade social, de P A Silvestre, São Paulo, 1956, obra atualmente bastante rara sobre a percepção social em Tomás de Aquino e, por ext. nos escolásticos e contratualistas.

Curiosamente Gasset define o associacionismo com precisão: "... Que assim fosse mera combinação ou resultado de outras realidades, como os corpos são 'na realidade' mais do que combinações de moléculas e estas de átomos." p 22 a qual, substituindo-se moléculas e átomos por tecidos e células, teria sido absoluta.

Importa saber que o ilustre pensador espanhol após definir avalia: "Se como sempre se tem crido... é a Sociedade uma criação dos individuos... que se congregam e portanto se não é ela mais que uma associação, a Sociedade não tem própria e autêntica realidade e não precisamos de uma Sociologia." p 22

E foi um pensador genial, um Ortega Y Gasset, quem o disse, como que copiando trivialidade repetida nos manuéis ou manuais de Sociologia. 

Achei digno de nota ou reflexão a assertiva do Ortega.

Afinal nossos corpos são agregados de células e tecidos. O que não os priva de existência real.

Curioso isso - Que aquela treva chamada positivismo tenha produzido há um tempo introduzido materialismo mecanicista no campo da Psicologia e Metafísica muito mal feita no campo da Sociologia. 

Mais - Agregado sim, agregado e agregação. Nem por isso uma célula sozinha se converte em tecido ou corpo, menos ainda o corpo ou o tecido numa única célula. Pois de modo algum a existência do agregado basta para confundir o agregado com o todo e vice versa... A simples existência particular da célula no conjunto do tecido não a transforma a célula particular em tecido e vice versa.

Sucede porém que a simples união da célula em tecido, órgão ou corpo confere a cada um desses agregados novas propriedades, as quais não se encontram presentes em cada célula separada mas comente nos agregados: Tecido, órgão e corpo. E conforme o tipo ou forma de união assume diferentes formas é natural que cada forma possua propriedades diversas - Assim que o corpo possua propriedades que não se acham presentes no órgão ou no tecido. 

Naturalmente que há algumas propriedades comuns a todo fenômeno vivo. Como certamente há propriedades diversas na célula, no tecido, no órgão e no corpo - Pois unidade não significa identidade. Por isso dizemos que o agregado tecido difere da unidade particular célula na medida em que apresenta atributos ou propriedades diversas. Pois só pode apresentar propriedades novas e diversas na medida em que sua estrutura difere da unidade particular.

Observe que toda essa comparação estabelecida pelos positivistas em torno de fenômenos biológicos está totalmente equivocada.

Pois o considerar o corpo humano em sua totalidade como agregado de agregados - Cujo elemento mínimo seria a célula! - não reverte a Biologia, a medicina ou a realidade em citologia. Um corpo mais desenvolvido olha, ouve e fala. O corpo ouve, fala, olha, pensa, etc por meio dos tecidos e células. Há tecido apto para ativar a audição. Posso dizer no entanto que esse tecido ouve ou que células olhem ou falem - Mesmo quando pertencentes a tecidos relacionados com a visão ou a fala posso eu dizer que tais células enxergam ou falam...  O caso é que as células não possuem sistema nervoso central... E nossos corpos o possuem... E pensam...

Percebe como sendo formado por células ou sendo um agregado de tecidos o corpo não é irredutível a células ou tecido, por possuir outras propriedades e corresponder a uma estrutura diversa. Como a medicina - a Mesma medicina que reconhece ser um corpo um agregado de células é irredutível a mera citologia...

Diante disto, o quanto podemos afirmar é que a Sociedade, a modo do corpo físico, não é uma fusão de células ou pessoas, e portanto algo essencialmente diverso dos agentes que a compõem. 

Agora se não estamos diante de um novo ente ou fenômeno, produzido por fusão, só nos resta concluir que ligação entre as pessoas, a modo da ligação entre as células, se dá por conexão ou contato. 

Essa percepção é importante porque nos impede de imaginar a Sociedade como algo a parte dos agentes que a compõem ou como um organismo essencialmente distinto deles. 

E no entanto ela, a Sociedade ou melhor as diversas Sociedades, da mais elementar a mais difusa, apresentam propriedades que não se encontram nos agentes.

Impõem-se aqui outra pergunta ou questionamento, muito comum nos compêndios de Sociologia.

A qual é posta nos seguintes termos.

Se a Sociedade ou as Sociedades apresentam propriedades com que não nos deparamos nos agentes que a compõem é justamente porque a natureza do agente e da Sociedade são distintas. 

Claro que há alguma diferença entre os agentes e a Sociedade.

Será no entanto uma diferença essencial ou ontológica, no sentido de que a Sociedade seja algo totalmente diversa dos agentes ou alguma outra coisa ou apenas um estado diverso apresentado pelos agentes.

Teríamos assim o indivíduo hipoteticamente isolado do corpo social ou num Estado pré social (Quiçá ante histórico ou primitivo!) - Veremos que o homem não social, em qualquer momento histórico, é uma ilusão - e o humano em Estado social tal como o conhecemos. 

Ocioso dizer que o 'social' precede a própria existência do fenômeno humano. Porquanto nossa espécie aparece já num contexto social ou num contexto social pré humano legado por outras espécies de primatas. 

Jamais houve Homo ou Homo Sapiens a parte de uma organização social, exceto se confundamos, maliciosamente, a Sociedade com o Estado.

O homem de Rousseau, bem se vê, é um ser imaginário, se, como se pensa ou crê, postulou a existência de indivíduos isolados ou separados uns dos outros antes de um contrato que tenha dado origem ao grupo social mais primário. Rousseau só cessa de ser perfeito idiota caso consideremos que seu contrato da origem ao Estado ou a Sociedade política...

Podemos portanto supor ou presumir que a questão sequer toque a forma ou a estrutura do conjunto ou grupo social mas apenas AO MODO E EXTENSÃO DO CONVÍVIO: As Sociedades apresentam propriedades diversas entre si e ausentes no 'indivíduo' conforme o contato seja mais íntimo ou mais extenso. 

Então não temos porque imaginar uma transformação essencial.

Nem por isso fica a Sociedade sendo irrelevante e menos ainda a Sociologia, pelo simples fato de que apresenta propriedades com as quais não nos deparamos nos humanos que tentam, em certa medida, viver a parte delas. 

A conclusão aqui já foi antecipada pelos sociologistas de Comte e também de Durkheim, este por sinal um homem de grande mérito. Tinham esses autores - Sobretudo o segundo em sua acirrada polêmica travada com Gabriel Tarde.- receio de que caso a Sociedade não formasse um ser essencialmente diverso dos seres que a compõem, reverteria a algum tipo de Psicologia, marcadamente em Psicologia social. E esse temor, mais ou menos fundamentado no século XIX, refletiu em toda essa construção, no sentido de afirmar-se que a Sociedade constituía um organismo totalmente a parte de seus agentes pessoais. 

Bom bater nessa tecla, sobre os estragos feitos pela Ideologia positivista no campo dos conhecimentos humanos ou das humanidades - Cujo valor científico e objetivo contínua sendo negado por seus janízaros até nossos dias > Mais de século após a morte de Wilhelm Dilthey (Esse gigante do Espírito!!!). O epílogo dessa invasão da psicologia pela Ideologia materialista (Sob o termo de positivismo ou ciência.) foi essa pasmaceira chamada Behaviorismo > De Watson e Skinner até G Roth  e o queridinho dos ateístas (Dalkins, Denett, etc) S Pinker. 

Certo é que a destruição ou negação da mente equivale a destruição ou suicídio da Psicologia, pela simples negação de seu objeto de estudos, que é a mente (cf Fechner, Wundt, etc). Caindo a psicologia nos domínios da Biologia e revertendo a Psiquiatria. Pois tudo no Behaviorismo conduz a Psiquiatrismo...

Outro o caso dos sociologistas, os quais sempre temeram que admitido qualquer nível de influência da pessoa não diretamente associada na 'engrenagem' social ou como se queira, nos fatos ou fenômenos sociais, ficava comprometida a própria Sociologia. 

E no entanto essa mesma pessoa capaz de interagir com o construto social e de altera-lo é ela mesma, grande parte, resultado de interações sociais e um ente social e não um indivíduo isolado, porquanto a existência de um indivíduo isolado, que nada deva ao grupo social, é um ente abstrato e ilusório. 

Perceba-se o óbvio - A Sociedade ou o grupo social plasma a condição de todos os seres humanos e todo ser humano é em parte resultado de interações sociais diretas e indiretas. Por outro lado algumas pessoas, satisfazendo certas condições sociais dadas e externas a sim, são capazes de alterar essas condições ou de interferir na dinâmica social. E é justamente essa intervenção ativa de alguns humanos que altera as estruturas sociais, as quais doutra forma sendo externas, formais e mecânicas seriam fixas, constantes e irreformáveis - A exemplo das reações físicas e químicas. A Sociedade se transforma justamente porque não é engrenagem fechada e impermeável a ação humana.

Por mais que atribuamos esta ou aquela propriedade específica aos diversos grupos sociais seria absurdo admitir que os grupos sociais possam alterar a própria dinâmica ou transformar a si mesmos, impondo novos sentidos, a parte dos agentes que lhes conferem existência. 

A Psicologia social caberá investigar o quanto o fenômeno humano recebe do corpo social. A Sociologia Pessoal como e em que condições um agente humano qualquer é capaz de alterar a dinâmica social e a Sociologia examinar as propriedades dos grupos ou fatos sociais em si mesmos bem como a estrutura dos grupos citados.

Tais as reflexões que me foram suscitadas pela leitura de Ortega Y Gasset.





segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O lugar da Ética no espaço escolar> Instrução ou educação? Parte I


I - Condição extra escolar - O universo da ética fora da Escola.




Jamais se falou tanto de Etica quanto no tempo presente.

Fosse pela abundância do discurso seríamos levados a crer que estamos vivendo a Idade da Ética ou um florecimento da consciência humana no mais alto grau.

Apesar disto civilização alguma parece ter sido tão menos ética do que a nossa.

Assim se os assírios machavam suas mãos com sangue humano e também os maias e aztecas parece que a humanidade presente com suas mãos 'limpas' tem um coração de pedra - completamente indiferente as necessidades alheias - ao invés de um coração de carne. E isto nos parece bem mais grave (Sheley). Ultrapassamos a crueldade primitiva por meio da insensibilidade.

Pois se os antigos pareciam sentir prazer em torturar suas vítimas e desafetos, paradoxalmente não eram menos habéis em identificar-se com aqueles que sofriam...

Em nós homens do tempo presente sobejam as belas palavras e minguam as atitudes concretas.

"O homem que se gasta em palavras: raramente se gasta e ações" no dizer do Dr Gustave Le Bon

Tal o fundamento ontológico de crise porque passamos: Mais moral ou ético do que técnico, material ou econômico.

Toleramos vergonhosamente essa chaga chamada capitalismo e nos curvamos perante o ídolo do Mercado. Julgo no entanto que as profundezas do mal toquem as fontes mesmas de nossa consciência e caráter pelo simples fato de sobrepormos o TER ao SER.

Nós - E me refiro sobretudo e antes de tudo ao Cristão (Aquele que foi convocado a amar e a auxiliar, a servir e a perdoar, a beneficiar e a favorecer) mas (numa perspectiva naturalista) também ao socrático - aceitamos muito facilmente a dinâmica mecanicista e inumana do mercado e não soubemos resistir-lhe como deveríamos. Assim, graças a nossa indiferença e comodismo o Mercado estendeu seus tentáculos sobre toda face da terra e estabeleceu uma nova ordem, econômica, não humana.

E nós aquiescemos...

Aquiescemos...

Concordamos, cedemos, negociamos e acreditamos poder viver dignamente sob a tutela de um Mercado financeiro!

Evidentemente que temos de abordar - numa perspectiva econômica - os defeitos estruturais ou internos do sistema capitalista e expor claramente a falácia da auto regulação. É caso de necessidade! No entanto precisamos ir mais além, questionar e buscar saber por que nos identificamos tão apressadamente com este sistema e optamos por viver conforme suas leis apesar de conter defeitos tao notórios.

Até que ponto é, a aceitação do capitalismo e dos demais exemplos de cultura de Morte (nazismo, fascismo, comunismo, etc) corresponde a uma queda em termos de ideal, a uma crise de consciência e a um obscurecimento Ético e o que é que levou-nos a esse entorpecimento...

Acompanhemos para tanto os caminhos da Ética no curso da História.

Durante séculos de séculos, a cabo de milênios infindos, ao dealbar de Eras de eras permaneceu a Ética atrelada as crenças religiosas. Assim durante toda a Idade primitiva, assim entre as civilizações egípcia, sumeriana, indiana, chinesa, assíria, babilônica, fenícia, hitita, etrusca, etc em suma, até o florescimento da civilização helênica. Nicho de cultura em que pela primeira vez a reflexão sobre os valores foi desligada do elemento religioso - deixando de corresponder a um monopólio sacerdotal - para vir a ser objeto de reflexão ou de consideração racional sob os auspícios dum saudável naturalismo.

De fato a religião antiga ou a suposta religião revelada, esta permaneceu sob a tutela dos padres. Não a queriam os pensadores, pois o critério adotado por eles era o emprego da razão e não desejavam confundir as coisas. Tal a perspectiva de um Demócrito e de um Aristóteles. Alguns como Platão ainda tomavam empréstimo ao sagrado em busca de uma linguagem alegórica que os aproximasse mais da gente simples. Outros não. Admitiam o valor da religião, mas como algo distinto da reflexão filosófica, a qual agregavam a questão dos princípios e valores.

Foi um ensaio de emancipação que nem por isso deixou de atrair a atenção colérica e rancorosa de sacerdotes como Diopeites e da mentalidade conservadora representada a um tempo por Licon, Anito, Melito, etc

Seja como for o choque foi atalhado por uma interpretação simbólica ou alegórico dos mitos, pela falta de um aparelho repressor organizado e pela tendência da própria religião em tornar-se ritualista. Por fim a religião manteve a aparência externa dos ritos sancionada pela tradição da cidade e a Filosofia coube a reflexão sobre os atos humanos.

Tal revolução no entanto não representou mais do que um relâmpago a iluminar as trevas duma noite escura.

Assim após o colapso da Civilização antiga e a queda do Império romano, passou a ética, mais uma vez ao domínio da religião, se bem que sob uma forma mais avançada ou evoluída no caso o Cristianismo.

No entanto a medida em que o mundo contemporâneo de sia tornando mais democrático e pluralista impunha-se a separação e a elaboração de uma ética comum do ponto de vista puramente natural.

Importa saber que a construção desta Ética não foi e não é, por assim dizer, algo de fácil execução.

Especialmente se levarmos em consideração que da relação existente entre Ética e religião e da consequente negação da religião resultou a negação da própria ética por parte de não poucos pensadores modernos.

Concomitantemente sugeriu-se mais uma vez que a instrução ou a própria ciência seriam capazes de substituir a Ética ou de produzi-la. Sugestão que de certo modo já havia sido denunciada por Sócrates. Referi-mo-nos ao cientificismo segundo qual os princípios e valores ideais seriam determinados pela própria pesquisa científica.

Os gregos não conheceram o dilema religião e ciência ou religião e ateísmo forjando por assim dizer um teísmo racional ou deísmo naturalista destinado a dar suporte a ideia de uma lei universal e a uma Ética essencialista. Não cogitavam apelar a códigos supostamente sagrados ou revelados como os antigos hebreus, mas também não prescindiam de um legislador ou duma consciência universal enquanto fundamento objetivo do bem e do mal.

Podemos definir sua Ética - de modo geral e atendo-nos as escolas de Sócrates, Platão e Aristóteles, bem como as figuras de um Diógenes de Apolônia, Parmenides, Anaxágoras, etc - como não religiosa ou naturalista, teísta ou deísta (como queiram) e essencialista ou objetiva. Teleologicamente sua ética estava posta para a convivência harmoniosa no seio da Polis, para a unidade social e virtudes cívicas, isto a ponto de terem percebido e afirmado a pessoa, sem no entanto terem ousado coloca-la ao lado do Estado ou da Pólis. Haviam apreendido as noções de pessoa e liberdade mas sempre em estado de maior ou menor sujeição face as necessidades da Polis.

Assim para eles a lei natural compreendia um princípio absoluto (Transcendente/Imanente), uma dimensão social bastante clara e uma unidade pessoal destinada a observa-la.

A ideia de que os próprios indivíduos correspondesse a tarefa de legislar ou de criar leis válidas para si mesmos lhes parecia incompatível com aquele ideal de comunhão que era a Pólis e destinado quiçá a dissolver todos os liames da vida social sem os quais não podiam conceber a existência.

Por isso buscavam algo de comum, um elemento comum, um vínculo comum de que resultasse os fundamentos de uma lei comum a todos os homens. E este elemento redescoberto por nossos deístas durante o iluminismo era a Ideia de uma consciência ou mente suprema capaz de legislar tanto física, quando imaterial ou moralmente.

Os gregos jamais saíram disto e jamais cogitaram em produzir uma ética ateística ou materialista embora nem por isso sua ética fosse sobrenatural ou religiosa mas como já dissemos pautada na reflexão e portanto naturalista. Segundo os gregos a lei natural não precisava ser revelada por Deus ou pelos deuses porque estava no acesso da razão humana. Por isso não dependiam de sacerdotes ou de livros mas apenas e tão somente do exercício dialético, por meio do qual acreditavam ser possível alargar e aprofundar seus conhecimentos.

Tal o ponto a que chegaram e a síntese elaborada por eles.

Este ponto de equilíbrio no entanto foi como que quebrado ou fragmentado pelo homem moderno após sua drástica ruptura com a religião e a solução - da parte de alguns ao menos - pelo ateísmo e pelo materialismo. Já dissemos que alguns destes optaram por sacrificar a ética ou por coloca-la de lado. O que é tapar o sol com a peneira, na medida em que a Sociedade demanda, mais do que nunca por soluções éticas e que a falta delas corresponde a tremenda crise porque passamos.

Muito tem de discutido sobre como o materialismo e o ateísmo seriam capazes de fornecer-nos uma ética objetiva e essencialista capaz de servir de barreira as culturas de morte que nos cercam. Serão o ateísmo e o materialismo capazes de ultrapassar, em termos de ética, os limites do subjetivismo, do relativismo e do individualismo e de propiciar-nos um elemento comum e unificador no terreno dos princípios e valores ou teremos de nos contentar para sempre com opiniões individuais e preconceitos oriundos da cultura ou das culturas???

Claro que todas estas questões precisam ser levantadas e discutidas com serenidade.

Kant levantou todas estas questões e após ter 'demonstrado' que era impossível demonstrar a existência de Deus na "Critica da razão pura" retomou-a sem maiores problemas na tão odiada ou depreciada "Crítica da razão prática" enquanto fundamento do mundo Ético ou moral. E com os gregos admitiu ser impossível ou melhor absurdo postular uma Lei Universal ou natural prescindido de um Legislador inteligente. Do contrário, inexistindo uma lei natural ou universal, torna-se o indivíduo única lei ou padrão de ética para si mesmo. E estamos no terreno do individualismo crasso.

A um lado temos a ética objetiva e essencialista fundamentada na ideia de um elemento unificador, seja mente, consciência, energia, etc ao menos em parte Transcendente face ao gênero humano e a outro uma ótica individualista segundo a qual cada homem é padrão de bem e mal para si mesmo.

Haverá alguma solução intermediária entre estes dois extremos????

Entre a ideia de uma lei universal ou natural por princípio de coerência vinculada ao teísmo e a ideia, assustadora de uma ótica individualista houve quem buscando um meio termo postulasse a ideia de sanção social, Neste caso a lei a ser observada não teria seu ponto de partida nem num Deus supremo nem no indivíduo isolado mas no consenso social democraticamente obtido ou na sociedade.

É solução precária primeiramente porque existem diferentes tipos e formas de Sociedades, o que nos levaria a um imenso número de leis e o que seria permitido de um lado dos alpes já não seria permitido do outro... E a simples mobilidade do ser humano propiciaria intermináveis conflitos. Tanto pior se considerarmos o fato de que as Sociedades ou Estados não parecem infalíveis em matéria de ética ou moral. Substituído Deus ou o individuo pelo Estado temos preparado o caminho da estatolatria e do totalitarismo representados pelo nazismo, pelo fascismo e pelo comunismo. Aqui bom é o que beneficia o poder, a raça ou o partido e mau o que opõem-se as diretrizes e ambições do poder, da raça ou do partido! Face as quais as vidas humanas pouco ou nada significam...

Remete-nos esta ideia ou este critério de ética aos campos de concentração, expurgos, gulags, pogrons, extermínios em massa, etc

E se nos parece que o Estado possa ser orientador tão discutível quando o indivíduo em termos de ética.

O indivíduo arroga-se o direito de matar???? O Estado com mais razões ainda. O indivíduo alega ter o direito de torturar??? Certas sociedades ainda com maior empenho... E como a Sociedade ou o Estado comporta um número bem maior de indivíduos até o estrago acaba sendo maior.

Admitido e aceito que tudo é opinião individual e que o indivíduo é supremo critério em termos de Ética estamos no inferno de Hobbes e sem Leviatã que nos valha! Admitida a solução da estatolatria, converte-se a Sociedade mesma em divindade suprema e estamos nos domínios de Hitler com sua barbárie organizada...

Aqui todo esforço para ocultar ou disfarçar o problema ou sua gravidade é inútil.

Por considerações 'teóricas' ou intelectuais de vária lavra tem alguns homens combatido ferozmente o simples conceito ou ideia de Deus em termos naturalistas e por simples ódio a religião (Nem negamos que parte delas mereça este ódio). E eles nem podem, como os antigos gregos, separar a ideia de Deus da ideia de religião ou fé... E fazem-se paladinos abnegados do ateísmo, postulando inclusive que esta opinião ou teoria - por si só ou associada ao cientificismo - será capaz de produzir um tipo de consciência ética mais elevado.

Nós no entanto temos um demanda prática diante de nós e clamamos por uma solução eficaz.

Precisamos, repito, resgatar a antiga noção de Lei natural e comum (ou universal) ou de uma ética objetiva e essencialista capaz de condenar irremissivelmente todos os totalitarismos.

É portanto direito que nos assiste perguntar aos adeptos do ateísmo e do materialismo: Que tipo de ética vocês tem a oferecer-nos??? Serão vocês capazes de deduzir ou de extrair de seus postulados teóricos esta ética objetiva, essencial e unificadora???

Porque se nos apontam para o indivíduo na perspectiva de um Stirner ou de uma Ayn Rand tememos que o arguto Hobbes tenha já tirado das devidas conclusões. Nem podemos nos deixar iludir pelas conclusões românticas de um Russeau vivendo num universo volitivo deslindado por Freud...

Agora se algum liberal ingênuo nos aponta para o contrato social devemos considerar que este contrato, mesmo quando policraticamente implementado, permanece sempre falível. Sócrates não foi condenado pelos caprichos de um Mussolini mas pelo tribunal de Atenas segundo as formas policráticas de então! Jesus não foi condenado arbitrariamente pelo Sumo Sacerdote Caifás mas pelo órgão classista do Sinédrio. As leis de segregação racial vigentes em diversos estados dos EUA foram democraticamente baixadas! Democracia é bom no que diz respeito ao espaço do político, mas não pode substituir eficazmente o padrão da consciência implantado no universo pessoal.

Quantas vezes a objeção de consciência e a desobediência civil não representou o que havia de mais nobre e virtuoso. Enquanto as leis referendadas pela maioria mostravam-se opressoras???

Aqui uma conclusão salta a vista: As perspectivas puramente imanentes do individualismo e do estatismo ou socialismo não parecem resolver o problema ou oferecer critério seguro a vida ética. Daí dirigirmos aos ateus, materialistas e de modo geral a todos os adversários do teísmo naturalista esta pergunta que não quer calar:

O que vocês nos tem a oferecer de concreto em termos de ética????

Porque esta é a grande pergunta do tempo presente.

E temos de encontrar uma resposta para ela.