Os perus andam em bando enquanto as águias voam solitárias.
O que ora observo são dois bandos de extremistas buscando polarizar a opinião pública.
Não rasteja com bandos de peru seja pela direita ou pela esquerda, mesmo admitindo ter alguma afinidade com esta.
Seja como for não pertenço nem a esquerda radical nem a esquerda cirandeira ou pós moderna, a qual apartou-se da ética essencial com seus valores imutáveis.
Concedo que tendo a Suzy cometido um crime deva ser punida com todo rigor da lei, após ter sido psicologicamente avaliada e considerando-se possíveis atenuantes. Por isso chamasse justiça e não vingança.
Aliás, certificada a normalidade do criminoso e consequentemente sua racionalidade e livre vontade, é aplicada uma determinada pena não com o objetivo de vingar -se, mas, com o objetivo de recupera-lo. Desde os tempos de César Beccaria são as punições medicinais, destinadas a recuperar não a aviltar.
Não queremos dizer com isto que a prisão deva corresponder a uma colônia de férias. Resguardada a dignidade essencial do preso deveria ele custear sua estadia na prisão trabalhando. E é claro levar vida sóbria e simples, sem comodidades e luxos... Poderiam assim trabalhar em obras públicas, consertando pontes, estradas e edifícios.
No mínimo o isolamento produzirá neles um sofrimento interior, o qual poderá conduzi-los a reflexão, a virtude, a emenda e a mudança de vida.
Será um sofrimento benéfico porquanto derivado da própria culpa. Caso o reconheça como justo e o aceite, e o cumpra, o criminoso poderá mudar de mentalidade e retornar ao convívio social, recuperando sua dignidade. Outro não pode ser o escopo da punição - Ou ainda estaríamos variando ou cortando gente em praça pública, apenas para satisfazer um instinto tão baixo quanto a vingança.
Ao mesmo tempo que compreendemos a dor de quem teve um parente assassinado ou torturado cremos que cumprida a tarefa da humana justiça sejam tais casos entregues nas mãos daquele Espírito Supremo e infalível que ainda os corações e tudo conhece, não nas mãos de carrascos e carniceiro a mando de juízes falíveis.
Acabamos o veredito da justiça humana apenas para um castigo que regenere. E aqueles que não possam ser regenerador vivam perpetuamente isolados nos manicômios judiciais.
Quanto aos que foram condenados por crimes que não possuem atenuantes, como a tortura, que cumpram seu fadario até o fim e sofram as cominações da pena. Mesmo condiderando-se que a justiça não se estende a todos como deveria e que conhece privilégios não os podemos converter em santos ou vítimas. Uma vez que o requinte da crueldade jamais é necessário.
Devemos deplorar as possíveis exceções, sem contudo inocentar os condenados.
Exploramos assim a atitude tosca da esquerda cirandeira, a qual deseja relativizar a crueldade humana apelando à critérios de raça, posse ou gênero. Concedo que tais critérios possam - dentro de um quadro psico/social - servir como atenuantes em situações como tráfico, roubo ou mesmo assassinato. Não porém quanto a crueldade e a tortura.
Em casos de estupro, tortura e crueldade as penalidades devem ser irredutíveis e rigorosas, sem que se possa relativizar ou atenuar o mal produzido.
Apesar disto o objetivo deverá ser a recuperação do criminoso. Portanto há tal pena de ter fim e tal pessoa de ser reintegrada ao convívio humano. E aqui chegamos ao extremo oposto ou a essa ralé, não menos grosseira, baixa é vulgar, que sonha com a pena de morte i é com poças de sangue e vísceras quentes...
Dirão eles que estou deturpando suas propostas. Pois bem se pode matar civilizadamente, por meio da injeção letal. De fato vivemos numa época avançada e admirável pela higiene... Assim nada de sangue ou vísceras cujo aspecto e odores tanto impressionam os mais frágeis. Adoramos portanto a injeção... Triste o tempo em que o sangue e os odores incomodam mais do que a supressão da vida. DESDE que Sócrates beba cicuta ou seja enforcado não nos importamos... Desde que não seja queimado vivo ou esfolado.
Queremos assim um Estado que mate com graça ou delicadamente.... Tal nossa leviandade.
Claro que não vou discutir ou trocar palavras com os que defendem a tortura, tipo que os estupradores sejam empalados , etc Pois são objeto da psiquiatria...
Dirijo me apenas aqueles que acham belo nivelar se com um criminoso. Alegando que devemos violar os direitos deles criminosos, pelo simples fato de que não souberam respeitar o direito alheio. MAS santo Deus não é exatamente isto, a violação do direito, que os converte no que são i é em criminosos??? Como portanto imita-los e nivelar se com eles sem tornar -se criminoso???
Tanto o Estado quanto os homens virtuosos que o compõe devem estar acima dos criminosos e portanto empregar outros meios com que puni-los. Não pode o Estado matar ou assassinar um criminoso sem tornar-se ele mesmo um criminoso ou assassino, quando deve atuar como um médico e recuperar. Não é este Estado ou esta Sociedade 'Legibus solutus' como não o é Deus e jamais foram os soberanos humanos. A ninguém é dado matar a criatura racional e livre sem fazer se criminoso. Ora nós não podemos criar um Estado carniceiro ou assassino!
Ateus, materialistas, positivistas e cientificistas, partindo de seus princípios, bem podem discordar de mim... Afinal sou daqueles que admitem a 'fábula' do livre arbítrio, da qual retiro o 'veneno' (Freud) da esperança. Sim eu concedo que os homens sejam livres e não mecanicamente determinados por qualquer poder externo que os coaja. Não creio que qualquer força externa tenha a capacidade de suprimir a vontade livre do homem. Por isso penso neste homem como mutável, educavel e recuperável.
Daí com Beccaria pensar numa JUSTIÇA medicinal e numa estrutura presidiaria rigorosa a um tempo e a outro capaz de resocializar o criminoso. A morte é atitude de quem, desesperado, nega a possibilidade do criminoso mudar de mentalidade e não vejo em que tal espírito, determinista e sem esperança, possa estar de acordo com o espírito de Cristo ou do Evangelho, ou mesmo com o espírito de um Sócrates ou de um Platão.
Que ateus, materialistas, cientificistas, positivistas e alguns neo pagãos o defendam, posso bem compreende-lo. Que um simples teísta qualquer o abrace, deploro; que um Cristão qualquer ou pior Católico, ouse faze-lo, eis a suprema miséria. Isto porém será tema do próximo artigo.
Quanto a Suzy acho tão errado apresenta-la como pobre vítima ou como coitadinha quanto apresenta-la como um monstro a parte da humanidade e irrecuperável. Já um sábio do passado dizia: Que não faria eu com o histórico dos outros no lugar dos outros? Mas nós nos consideramos super homens mesmo quando queremos tratar os criminosos tal qual eles trataram suas vítimas...
Ainda aqui os extremos se tocam.
No fim das contas é a Suzy uma mulher ou um homem mau que cometeu um grave crime e por ele deve pagar, expiando suas penas. Talvez ao fim deste processo, purificada pelo sofrimento e pela reflexão, surja uma nova criatura ou uma pessoa boa, arrependida, contrata e recuperada. Por ter esta esperança, para muitos utópica, oponho-me a pena de morte ou ao assassinato cometido pelo Estado. E é claro acima de tudo ao pecado inexpiavel da tortura...
Devo acrescentar por fim que minha reflexão de modo algum justifica o trato especial que essa pessoa recebe pelo simples fato de ser ou apresentar-se como trans, o que não basta para inocenta-la mas parece aumentar sua culpabilização. É percepção subjetiva que se tem ou intuição: Que alguns ao menos estejam a sataniza-la por ser trans (Enquanto outros querem não apenas aliviá-lo mas absolve-la de seu crime ou mesmo endeusa-la). Ora o crime desta pessoa é aquele porque foi julgada, não o fato de ser trans ou qualquer outra conotação sexual... A malignidade aqui consiste em dar uma direção sexual para o assunto, como se todo trans fosse estuprador ou coisa assim... Então o que não se justifica são os preconceitos de natureza sexual de que essa pessoa possa estar sendo vítima, o qual é tão nefasto e abjeto dentro do presídio quanto fora dele... Então caso você esteja a solicitar punições draconianas para o criminoso apenas por ser ele trans, também perdeu a noção de justiça.
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terça-feira, 10 de março de 2020
Em torno do caso Suzy - Reflexões
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sábado, 13 de maio de 2017
A ideia de um Cristo masoquista e a cristianização do masoquismo

Semana passada, alertado de que havia chegado um 'lote' contendo diversas publicações 'Católicas' (anterior ao C V II , é claro) lá fui eu ao Sebo torrar dinheiro.
Dentre os diversos livros que tive a oportunidade de folhear havia um pertencente a 'Coleção éfeso'. Dizia respeito a Ch de Foucauld e havia sido escrito pelo acadêmico francês René Bazin. Sabendo que C de F fora mártir, tendo sido assassinado pelos Taminderasset, uma tribo muçulmana no Norte da África, interessei-me.
Foi quando abri a primeira página e deparei-me com mais ou menos isto: O sofrimento então se faz doce, e aspiramos sofrer mais... Cito livremente.
E foi o quanto bastou para fechar o livro e lança-lo novamente a pilha de inutilidades.
Ainda no mês anterior, Abril, havia tido uma discussão com uma devota mal orientada justamente a respeito do tema do sofrimento. O qual a dita mulher desejava IMPOR a todos os Católicos, como grave dever a que não podiam fugir, remetendo todos os que não concordavam com ela as caldeiras do pero Botelho...
Já naquela ocasião um turbilhão de memórias e pensamentos haviam assaltado-me a mente.
De pronto vi-me retroceder a um quarto de século, a 1992, um ano após minha conversão. Lembro-me de ter adquirido, também num sebo, algumas obras do falecido padre João Mohana, pessoa boníssima e que escreveu muita, mas muita coisa verdadeira e edificante. Havia adquirido 'O mundo e eu' e 'Sofrer e amar' e foi nesta última que deparei com este fragmento de que jamais vim a esquecer:
"O budista aceita o sofrimento resignadamente. O Cristo não, aceita o sofrimento com alegria." a citação também é livre pois nem sei mais em que parte de minha Biblioteca se encontra o livrinho do Pe Mohana, quanto ao mais bastante belo.
De pronto, intuitivamente, sabia que havia ali uma grande verdade. Mas também sabia que estava muito mal posta...
Algum tempo depois cheguei a ler alguma coisa sobre Eva lavallière, Elizabeth Leseur... nas quais havia eco de tais opiniões.
A respeito da dor ser agradável ou sobre a necessidade do Cristão buscar, procurar ou desejar sofrer.
Era toda uma aspiração pelo sofrimento e negação da vida.
Sabia que havia algo de muito errado quanto a isto, mas acabei pondo um peso em cima. Pois tinha muito que me preocupar com os protestantes, kantianos, ateus, materialistas, stirnerianos, capitalistas, comunistas, fascistas, nazistas, muçulmanos, etc, etc, etc Passando de polêmica a polêmica.
Foi quando, há coisa de alguns meses, levei a questão Mariana, levantada por alguns protestantes, ao terreno da Cristologia, abordando o tema da natureza humana de Jesus e sua livre vontade. O quanto bastou para exasperar os protestantes meio docetas, nestorianos, monofisitas e impermeáveis ao pensamento equilibrado de Calcedônia. Cristologia é coisa com que não estão familiarizados.
Aproveitei a oportunidade para avançar na leitura e examinar as fontes da Cristologia a luz dos Santos Evangelhos, especialmente no que toda a natureza humana de Cristo e a sua livre vontade.
Foi quando acabei topando com os citados apologistas do sofrimento... Estes 'católicos' nominais e até fanáticos, embora contaminados pela heresia maniqueísta, da mesma maneira que os puritanos e outros espiritualistas descarnados, inimigos do corpo físico e da matéria, cuja inferioridade apregoavam.
Ainda há alguns dias topo com o mesmo discurso assumido por uma pessoa, ao menos em parte, civilizada e esclarecida, a qual creio ter conseguido, ao menos em parte, reorientar.
Hoje a discussão acabou tocando aos 'videntes' da Fátima, dois dos quais morreram de tuberculose e fraqueza, provocadas pelos jejuns e mortificações aberrantes a que se submetiam voluntariamente com o objetivo de terem seus pecados perdoados e não terem de queimar eternamente nas chamas infernais. E eram crianças! E acreditavam ter pecados gravíssimos! E julgavam ser corruptas ou depravadas por natureza! E machucavam seus próprios corpos! Até que chegaram a desejar a morte!
E hoje tais crianças 'desajustadas' são postas como exemplo a juventude.
Apesar de, conforme a doutrina Alias segura - da penitência ou da mortificação, ensinada pela freira espanhola canonizada Tereza de Avilla, terem cometido suicídio! Porque o rigor da penitência segundo esta sábia mulher, implica suicídio e por consequência condenação eterna!!!
Todos estes pensamentos esparsos fizeram-me refletir detidamente sobre o tema indigesto do masoquismo espiritual assumido por parte da igreja romana.
Subentenda-se masoquismo enquanto amor e consequente busca pela dor ou pelos sofrimentos. O masoquista só se sente feliz e realizado quando sofre. E para ele a dor equivale a um prazer.
Naturalmente que se trata duma criatura desajustada, a qual, segundo a doutrina de Freud, seria completamente dominada pelo que classifica como instinto de destruição ou de morte; ou guiada inconscientemente por um complexo de culpa...
Considere agora amigo leitor, que parte considerável da igreja, chegou a alimentar ou a estimular tais sentimentos!
Simplesmente deplorável...
Há no entanto coisa mais deplorável!
Mas será possível?
Quisera que não fosse...
Então diga logo homem!
Imagine só, que essa mesma parte, putrefata; da igreja, chegou a pintar nosso abençoado Mestre e Salvador Jesus Cristo como alguém que amou e desejou o sofrimento!!!
Apresentam Nosso Senhor Jesus Cristo como vil masoquista, o qual não via a hora de ser coroado de espinhos, fustigado e suspenso na Cruz!
Apresentam-no como uma anormal que dia após dia deliciava-se antecipadamente só com o imaginar suas próprias carnes sendo furadas pelos pregos!
Como alguém que, caso o algoz tivesse hesitado, teria tomado a coroa de espinhos e posto sobre a própria fronte...
Como alguém que se pudesse teria duplicado ou mesmo triplicado as trinta e nove chibatadas!
Como alguém que se possível fosse teria escarrado para cima...
O Jesus que apresentam ao mundo é um Jesus que não sabe contar as horas, minutos e segundos para ser torturado pelos romanos, tal sua voluptuosidade!!!
O problema aqui é que falseiam o Evangelho.
Apresentando aos homens um falso Jesus, um Jesus que jamais existiu.
Afinal, estando prostrado junto ao horto e consumido pelo simples pensamento a respeito das dores porque seria acometido, nosso Senhor ao invés de rogar para que fosse torturado o mais cedo possível e sem maiores contemplações, dirige-se a Natureza divina nestes termos:
"Afasta-se de mim este cálice se possível for."
Querendo significar que a natureza humana achava-se aterrorizada face ao espectro da dor e da morte!
Afinal por que teria suplicado o afastamento do cálice, se o quanto desejava era sorve-lo gole a gole, a ponto de deliciar-se???
Se implora para o cálice ser removido ou afastado de si é justamente porque o sofrimento exaspera-lhe a condição humana, e porque de modo algum deseja sofrer, senão a contragosto, heroicamente e para cumprir um desígnio eterno de amor. Não, não foi algo que a natureza humana aceitou ou executou facilmente como quem engole um pedaço de doce ou bolo, mas um desafio a que teve sde superar e vencer livremente. E nisto é que esta o valor do mistério!
Por fim o divino Mestre é suspenso no madeiro por meio de três cravos de bronze, e lá estando, suspenso, que diz???
Pai meu, Pai meu porque me deixastes.
Querendo significar que a natureza divina abdicará de seu poder e desamparara a humana, entregando-a ao sofrimento e a dor, a respeito da qual envolvido pelo paroxismo extremo, murmura o Mestre, queixosamente! Tal o mistério da angústia e da dor, que o Senhor apenas suporta pacientemente com o objetivo de chamar-nos a si e reconciliar-nos.
Agora dirão esses mestres ímpios que lá estava o Senhor e Mestre deleitando-se no alto da cruz???
Só mesmo um demente ou energúmeno seria capaz de ler tais palavras e concluir que Jesus estava contente ou festejando enquanto sucumbia!
Não há mais o que dizer ou declarar, as palavras estão ai, quem quiser que as leia!
E depois cuspa sobre os santos Evangelhos supondo estarem equivocados, ou serem - Os apóstolos do masoquismo - mais espertos do que os hagiografos e evangelistas, sabendo algo que eles ignoram!
"Entre clamores e lágrimas suplicou aquele que o poderia livrar da morte." certifica o apóstolo. E esses celerados imaginam um Jesus sorrindo alegremente enquanto verte sangue aos borbotões!
Só falta acrescentar, exatamente como fazem os protestantes a respeito do Mistério eucarístico:
"A carne para nada presta."
......................................................................................
E no entanto esta carne Santa gerada pelo Espírito e pela Virgem, não apenas conheceu como antecipadamente temeu e aborreceu a dor, a cujo mistério submeteu-se apenas por amor de nós outros, para despertar-nos do sono em que, a semelhança de Endimião havíamos caído.
Foi desta compreensão errônea ou equivocada, pautada num falso modelo, ilusório e fantasioso, que resultou toda esta mística virulenta e desprezível sobre a necessidade do Cristão amar o sofrimento ou de abraça-lo com alegria.
Quando o que o Catolicismo tem a oferecer-nos, face aos sofrimentos inexoráveis a que não podemos escapar ou fugir, é a imagem consoladora de um Deus agonizante e sofredor, de um Deus solidário e companheiro, de um Deus que aspirou tornar-se exemplo para nós. Exemplo de aceitação face a eventos que podemos evitar...
Não é portanto apenas o Budista que recebe o fardo do sofrimento com resignação, mas também o Cristão, porque ambos são homens e feitos da mesma matéria. Por isso ambos sentem por igual e experimentam as mesmas sensações...
E ambos resignam-se face aquilo que é inexoravelmente dado pela condição... O Budista pelo temor de seu karma, o Cristão face ao mistério da Cruz ou de um Deus agonizante e sofredor.
Não há o Cristão que buscar o sofrimento pelo simples fato de seu Deus não o ter aceito livremente mas se submetido a ele por absoluta necessidade. Não pode deixar de sentir repugnância por ele pelo simples fato de que a natureza humana do Cristo não pode deixar de senti-la...
Quando necessário fora saberá agir heroicamente, saberá curvar-se face aos imperativos da condição humana, saberá resignar-se como o budista ou o estoica, mas não será masoquista, porque o masoquista não passa de miserável desajustado. Não apreciará o sofrimento como um doce, não de deleitará nele, não o estimará, não o buscará de modo algum... Pois seu Mestre e Senhor não procedeu assim, e nem asceta foi a exemplo de João seu primo, antes declarou:
"Veio o Filho do homem que come e bebe."
Outrossim, aspirasse pelo sofrimento, nem comeria, nem beberia; mas como João, que era asceta, teria vivido mais de jejum e sede do que de qualquer outra coisa!
Nem jejuou, nem - a semelhança dos fariseus, que eram hipócritas e maniqueístas - impôs o jejum a seus seguidores, daí o teor da acusação:
"Os teus discípulos não jejuam."
Acrescentando que futuramente se absteriam livremente de comer, em memória de sua morte, e não porque fosse saboroso jejuar!
Por fim, em parte alguma dos Santos e abençoados Evangelhos damos com essa mistificação grosseira em torno do masoquismo, fruto podre do maniqueísmo.
Dirá o Católico 'Filho da Encarnação', afetando os fariseus, maniqueístas, neo platônicos, protestantes e puritanos, que o corpo é inferior ao espírito, que o corpo para nada serve, que não devemos nos preocupar com o corpo, etc, etc, etc???
Neste caso, cumpre adverti-lo de que o fundamento de nossa fé é justamente a Encarnação de Deus e sua manifestação no mundo material. Nosso Deus, o Deus Católico, apregoado pela Ortodoxia, é um Deus reconciliado com a imanência, é Deus humanado, presente, visível, encarnado, companheiro, solidário; Emanuel enfim, porque caminha conosco. Nosso Deus é Deus que assumiu a integralidade da natureza humana, dignificando e santificando todo universo material.
Os Católicos ao contrário dos judeus e dos maometanos não prestam culto a um ser puramente transcendente, invisível, fantasmagórico e descarnado; mas a Transcendência na Imanência e em perfeita comunhão com ela por meio do mistério da Encarnação. Nosso Deus é Deus presente. Nosso Deus é amigo da matéria e não seu adversário.
Considere ainda que ser humano algum deixou de ser atingido por este mistério cósmico da entrada de Deus na História, convertendo-se todos - em especial os batizados - em templos vivos do Espírito Santo, que é o Logos; postos para a ressurreição final; quando segundo a fé receberão a forma do corpo, tornando-se perfeitos, porquanto a existência puramente anímica para eles continua sendo imperfeita e devem recobrar sua integralidade por meio da restauração da carne.
Por essas e outras razões não pode o Católico a companhar os protestantes, maniqueus, neo platônicos e mesmo espiritas em suas objurgatórias contra a corporalidade material. A menos que aspire fazer galas de sua estupidez e incoerência. O Ortodoxo avalia o corpo em conexão com o dogma central de sua fé e só pode avalia-lo positivamente, afirmando sua dignidade. O que dá origem a toda uma 'teologia' do corpo...
A menos que tenha de perder este corpo para conservar a alma e mante-la - Enquanto princípio operatório e racional - estável na comunhão com a divindade, amará o homem a este corpo, trata-lo-a bem e velará por sua dignidade alimentando-o com moderação e satisfazendo racional e honestamente todas as suas necessidades. E todo dano voluntário que causar em seu próprio corpo lhe será atribuído como suicídio.
Valorizara por fim esta existência material e mortal como representando mais uma chance para aprender a viver e conviver, mais uma oportunidade educativa, mais um aprendizado. E por isso buscará sempre conserva-la ao invés de reduzi-la ou de abrevia-la a semelhança dos cátaros, albigenses e outros sectários para os quais não passava duma tragédia ou drama sem sentido. A dramaticidade ou o trágico da existência compreenderá e consequentemente suportá a luz da fé inspirada pelo mistério da Cruz, mantendo sempre um justo equilíbrio.
Compreenderá todavia que o plano de Deus consiste em que tire o máximo proveito ético desta existência tendo em vista a fruição da outra.
E por isso não oprimirá seu corpo, nem o desprezará, nem mesmo ousará falar contra ele, alimentando doutrinas maniqueístas e masoquistas, as quais acham-se em oposição aos Santos Evangelhos e a fé da igreja.
Quanto aqueles que apesar de estarem cônscios a respeito de tudo isto e que ainda assim sentem prazer em sofrer, remetemo-los cortesmente aos psicólogos para que busquem ajuda, sabendo que passam por um estado de anormalidade que nada, absolutamente nada tem a ver com a fé Ortodoxa e Católica.
Por fim, resta-me declarar, que mesmo a aceitação dos sofrimentos que não se pode evitar deve ser livre e espontânea, jamais externa, mecânica ou farisaicamente imposta por quem quer que seja. Nem Papa, nem patriarca, nem bispo, nem clérigo, nem monge, nem devoto tem o direito de impor dogmaticamente esta aceitação a outrem. A decisão de resignar-se ao mistério da dor para ser meritória deverá ser sempre fruto de livre decisão e não de imposição arbitrária, pois cada um conhece a dor que sente e seus próprios limites. Assim se algum irmão se rebela ao ser tocado pela dor só nos resta acolhe-lo com todo amor e carinho, tentar compreender e abster-se de julgar e condenar. Do contrário reproduzimos o pecado dos fariseus, os quais costumavam depositar imensos fardos sobre o ombro alheio, mas que não se dispunham sequer a empurra-los com o dedo mínimo...
Abandonemos assim não apenas o masoquismo mas também o pecado do sadismo.
E busquemos viver uma vida de amor no gozo da paz.
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